Prefácio: As asas de Eros João de Mancelos (Universidade ... ?· Miguel Torga e o Prémio Nobel irlandês…

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<p>Prefcio: As asas de Eros1 </p> <p>Joo de Mancelos </p> <p>(Universidade da Beira Interior) </p> <p>Palavras-chave: Poesia contempornea, Joaquim Monteiro, escrita criativa, intertextualidade </p> <p>Keywords: Contemporary poetry, Joaquim Monteiro, creative writing, intertextuality </p> <p>1. O apocalipse do amor </p> <p>Ainda ser possvel escrever poemas de amor? Quem folhear a maioria dos livros </p> <p>publicados nas duas ltimas dcadas no deixar de reparar que as composies sobre o tema </p> <p>surgem marcadas pelo desencanto, o cinismo, a incomunicabilidade entre o eu e o outro. Tal </p> <p>poesia enfatiza a descrena nos afetos mais fundos e sublinha a irremedivel fratura entre os </p> <p>amantes, como se no houvesse qualquer redeno ou entendimento possvel. </p> <p>Segundo o filsofo Byung-Chul Han, em A agonia de Eros, a sociedade e a arte reduziram </p> <p>o amor humano mera exsudao de dois corpos enlaados no desejo; obliteraram o espao </p> <p>para a vivncia afetiva a dois; reduziram o par a um prolongamento narcisstico do eu. Perante </p> <p>tal cenrio, verdadeiro apocalipse do amor, pergunto-me se a poesia que celebra o ns no ser </p> <p>ainda mais urgente. </p> <p>Alguns ensastas argumentam que, no incio deste milnio, a lrica amorosa se esgotou </p> <p>em lugares-comuns e soobrou na irrelevncia, cada verso conduzindo a uma sensao de dj </p> <p>vu ou dj lu. verdade que todos os poemas j foram escritos e nenhuma histria deixou de </p> <p>ser vozeada, como recorda Raymond Federman, no ensaio A imaginao como plgio. No </p> <p>entanto, no menos certo que cada homem e mulher tem dentro de si um livro e, porque se </p> <p>trata um indivduo nico, uma forma prpria de o escrever. </p> <p>Para tanto, h que contemplar a realidade de novo, com os olhos de um recm-nascido, </p> <p>retirar-lhe a pele, libert-la de camadas de smbolos, metforas e imagens gastas, das vises de </p> <p>outros escritores, para reencontrar a sua essncia e descobrir novas formas de a poetar. Trata-</p> <p>se de um labor de descriao, como afirmou o poeta modernista Wallace Stevens, em O anjo </p> <p>necessrio, feito com recurso ao poder imaginativo e voz nica que cada artista, se for </p> <p>talentoso, possui. </p> <p> 1 Mancelos, Joo de. Prefcio: As asas de Eros. A Luz do Corpo, de Joaquim Monteiro. Lisboa: Modocromia, 2017. 7-11. ISBN: 978-989-999-49-59. </p> <p>2 </p> <p>Neste sentido, Maria Teresa Horta, Isabel Cristina Pires ou Adlia Prado procuram </p> <p>escrever de um modo diferente o amor. Outros, como Sophia Andresen, Casimiro de Brito ou </p> <p>Joaquim Monteiro, enlaam a sua poesia na teia imemorial da tradio, sobretudo greco-latina </p> <p>ou asitica, no para a imitarem, mas com o objetivo de a recriarem. Em ambos os casos, </p> <p>constroem uma polifonia inerente s inmeras estticas que marcam a contemporaneidade. O </p> <p>resultado o renovamento da poesia de amor, tema imemorial e arquetpico. </p> <p>2. O lento ofcio do amor </p> <p>Ler o volume que o leitor segura nas mos assemelha-se a reencontrar um velho amigo, </p> <p>porque A luz do corpo, seguido de O difcil ofcio se enraza nos motivos e estilo a que Joaquim </p> <p>Monteiro nos habituou, ao longo de uma obra profcua e talentosa. Tematicamente, o ttulo </p> <p>deste volume resume o esprito dos poemas aqui coligidos: a exaltao do amor ertico, numa </p> <p>atmosfera de incontida alegria, sem margem para a culpa, maneira de Walt Whitman, </p> <p>Fernando Pessoa ou Eugnio de Andrade, entre outros nomes maiores das letras universais. </p> <p>s o poema constitui uma das composies que melhor ilustra este aspeto: s um </p> <p>poema escrito / no mais imaculado leito / do desejo. // Ler-te, viajar pelo interior, / perscrutar </p> <p>as mais secretas / vibraes do sol. / Sentir a liquidez do fogo / no mais fundo de um olhar / </p> <p>suplicante. // Descobrir a construo silbica / do ventre. / Intuir a forma de decifrar / o mistrio, </p> <p>/ a alegria desmedida, pujante, / de um poema vivo. // Depois soobrar / a cada estrofe do </p> <p>poema / e, exausto, / v-lo arder sob os lbios. </p> <p>Nem s o erotismo permeia as pginas desta obra. Monteiro trabalha laboriosamente </p> <p>todos os cambiantes do amor, na sua nfima complexidade: o clssico elogio da amada em Tudo </p> <p> pouco para te enumerar; a ternura em Um certo pudor; a melancolia em Outonal; ou a </p> <p>devoo e f em Mulher sentada em joelhos luminosos. </p> <p>Para alm deste, outro tema marca presena em A luz do corpo, na ltima seco do </p> <p>livro, intitulada O difcil ofcio. Trata-se de uma reflexo metapotica acerca da arte da escrita, </p> <p>do abismo entre a coisa e o termo, da febre da inspirao e da premncia de trabalhar cada </p> <p>texto, em busca da palavra perfeita, le mot juste, como lhe chamava o romancista Gustave </p> <p>Flaubert. </p> <p>Tal esforo laborioso comum a todos os grandes escritores: Emily Dickinson </p> <p>assemelhava o poeta a uma laboriosa aranha, urdindo as suas composies, com desvelo; </p> <p>Miguel Torga e o Prmio Nobel irlands Seamus Heaney compararam-se a agricultores, </p> <p>procurando escavar a alma humana como quem remexe o hmus; por fim, Eugnio de Andrade </p> <p>via-se como um arteso obstinado e rigoroso. </p> <p>3 </p> <p>No belo e expressivo texto que d ttulo seco, Monteiro descreve a dificuldade da </p> <p>arte da escrita: No sabemos at que ponto / o poder da mente nos transforma. / At que </p> <p>ponto a opacidade / se transforma em transparncia. // E tudo fica mais claro ao olhar dos dedos </p> <p>/ difcil e subtil lmina sobre a pele / transcrevendo o sonho no branco da loucura. / O arco </p> <p>com que a voz do silncio retesa a fala. // Entre a febre e o delrio a palavra nasce. / No tenho </p> <p>outra maneira de amar o deserto / o difcil ofcio de transformar o nada. </p> <p>A luz do corpo constitui tambm uma homenagem ora lcida, ora apaixonada; </p> <p>algumas vezes consciente, outras, discreta , aos diversos autores que ajudaram a construir </p> <p>Monteiro como poeta. Nestas pginas, rumorejam as vozes de figuras fortes das letras, na </p> <p>terminologia de Harold Bloom, com destaque para Eugnio de Andrade, a quem o livro </p> <p>dedicado. A presena deste notria na temtica do amor, em geral, e na importao de termos </p> <p>tpicos do seu discurso, em particular. Refiro-me a palavras-chave do idioleto eugeniano, como </p> <p>cintura, ardor, chama ou lume, empregues para descrever as experincias da </p> <p>sensualidade. Contudo, Monteiro no se limita a seguir, passivamente, o legado do autor de As </p> <p>mos e os frutos. Antes o absorve, de modo criativo e com engenho, para tornar seu o que </p> <p>alheio, e transmut-lo atravs de uma viso singular e renovadora. </p> <p>No surpreende que um poeta seja permevel ao magnetismo de outro j estabelecido, </p> <p>sobretudo se admira a sua obra. Foi Eugnio que argumentou: cada artista tem a sua rvore </p> <p>genealgica, se no estiver enganado de pai ou de me. Mas em coisas de arte no se trata </p> <p>apenas de herdar uma das mltiplas tradies, trata-se sobretudo de a enriquecer. O poeta </p> <p>recebe, certo, mas tambm d, numa reciprocidade total. E ao inserir-se numa tradio, () </p> <p>prosseguindo-a, ou renovando-a, ou transgredindo-a, o poeta torna-se responsvel perante a </p> <p>sua lngua por essa coisa cada vez mais rara: a transparncia do mundo. </p> <p>No belssimo texto Alexandria, Monteiro reconhece a tradio em que se integra, </p> <p>invocando os espritos do passado e suplicando algo que no est longe do engenho e arte </p> <p>camonianos: Espritos que voais no infinito / trazei at mim o esplendor da beleza / num dia </p> <p>incendiada no fulgor do pensamento, / para que eu possa beber toda a poesia, / e decifrar no </p> <p>fogo a sabedoria dos espelhos, / antes que tresloucada ave desenhe incompleto voo. </p> <p> impossvel referir a poesia deste autor sem mencionar a sua musicalidade, que </p> <p>ressuma tanto na docilidade encantatria do ritmo, como no vocabulrio escolhido, onde </p> <p>predominam sons voclicos e alegres, apropriados celebrao do amor. Esta mistura s </p> <p>verdadeiramente aprecivel quando se l em voz alta as composies que integram A luz do </p> <p>corpo, como sucede em gua da msica: De noite um charco de luz / surpreende-me. // Num </p> <p>galho o rouxinol faz / o que mais gosta. / E tu de lbios entreabertos / procuras a redeno. // </p> <p> lua vadia / entre o teu peito e o meu / que a gua da musica / se entrelaa. </p> <p>4 </p> <p>Monteiro encontra-se ciente das ligaes entre a palavra potica e a msica e, no raras </p> <p>vezes, esta ltima surge mencionada atravs de termos pertencentes ao mesmo campo </p> <p>semntico: melodia, canto, voz, murmrio, sussurro, rumor, sons, ciciar e </p> <p>tambm silncio e emudecer. </p> <p>3. Dizer o amor em tempos de rudo </p> <p>Se deixar de existir um espao para a poesia de amor, um tema quintessencial, haver </p> <p>futuro para a arte das letras? Numa entrevista ao suplemento psilon, do jornal Pblico (2 de </p> <p>novembro de 2017), o romancista brasileiro Milton Hatoum lamenta que a literatura esteja a </p> <p>viver o seu delicado crepsculo e eu no poderia concordar mais. Implodimos na ignorncia, </p> <p>na estupidez, no superficial. Sinais de uma poca em que a velocidade substituiu a pacincia; o </p> <p>imediatismo, o pensamento; a lassido, o esforo. Nunca se falou e escreveu tanto nas redes </p> <p>sociais e na blogosfera , e paradoxalmente nunca se disse to pouco. Babel cumpriu-se da </p> <p>forma mais retorcida: entendemo-nos, mas nada temos para comunicar. </p> <p> altura de nos afastarmos do rudo para regressarmos ao essencial, que s o </p> <p>recolhimento proporciona; ao que apenas se segreda entre dois amantes; a tudo quanto cabe </p> <p>entre um verso e o leitor; paixo eufrica pelo outro, que o talento de Monteiro agora nos </p> <p>oferece. </p> <p>Resumo </p> <p>Neste prefcio, analiso brevemente o livro de poemas A luz do corpo, de Joaquim Monteiro, </p> <p>centrando-me em aspetos como o papel do erotismo na poesia contempornea, os meandros </p> <p>da criao literria e da metapotica, a intertextualidade com a obra de Eugnio de Andrade, e </p> <p>a premncia da msica. </p>