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LUIZ CARAMASCHI NOVA PERSPECTIVA DA FILOSOFIA Pede sempre conselho ao sábio". Tob 4,19 "São Boaventura considera a filosofia como um itinerário da mente para Deus". Julián Marías Associação Filosófica “Luiz Caramaschi” PIRAJU-SP 1

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LUIZ CARAMASCHI

NOVA PERSPECTIVADA FILOSOFIA

Pede sempre conselho ao sábio". Tob 4,19

"São Boaventura considera a filosofia como um itinerário da mente para Deus".

Julián Marías

Associação Filosófica “Luiz Caramaschi” PIRAJU-SP

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PRÓLOGO

Ainda que só, contra todos, havemos de gritar esta formidolosa verdade da qual, um dia, como um raio, tivemos comunicação. Este mundo nosso em decadência busca ansiosamente salvar-se do caos que se aproxima; contudo, isso só será possível com uma nova mensagem, e é a deste livro.

G. William Kessler, falando da urgência com que os industriais hão de adaptar-se a era dos microprocessadores (que são computadores tão miúdos, que cabem, folgados, na ponta de um dedo), disse: "Não há tempo a perder, e os que não fizerem o esforço de reconversão e reaprendizagem estarão perdidos". Tal qual com a filosofia que, abandonada há dois séculos, cobra, agora, o seu preço, com juros. A mensagem gritada neste e noutros livros, terá de ser ouvida em meio ao estridor de um mundo pululante que não sabe mais para onde ir.

Tem razão Joelmir Beting: "Se o homem continuar falhando, quem pilotará a espaçonaveTerra I rumo ao terceiro milênio?"

O autor

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PREFÁCIO

É com imenso prazer que apresentamos ao público mais uma obra do eminente filósofo, professor Luiz Caramaschi. Esta obra é endereçada às pessoas que buscam a sabedoria pelos caminhos da razão, mas que, não conseguindo orientar-se em meio à congérie de verdades menores, se encontram em obscuridade, vivendo, consequentemente, angustiadas.

Estes poucos pensadores que ainda restam no mundo, tentam organizar-se em grupos de estudo, mas não conseguem justificar a obra de um Criador divino, a partir da idéia da Evolução. Ou se aceita a idéia mística da Criação num simples ato do Criador, ou se aceita a idéia da Evolução a partir do movimento da matéria cósmica até sua excelsitude na vida humana, mas que termina sem a esperança de uma vida post-mortem. Esta síntese foi feita pelo professor Caramaschi; e só lhe foi possível, graças aos atuais conhecimentos científicos de que dispomos hoje, os quais alteraram os conceitos filosóficos basilares do passado.

O professor é autor de UM ESTUDO DE NOSSO TEMPO, obra em que apresenta um estudo sócio-filosófico grandemente abrangente do estado atual de nossa civilização, concluindo, sem devaneios proféticos nem visões apocalípticas, que ela poderá fechar seu ciclo, se não houver uma reversão geral da ordem atual. Nesta obra, dá novos enfoques da mesma magnitude, sobejamente esclarecedores, que ajudarão antever essa hecatombe, e, se possível, evitá-la, ou, na impossibilidade de impedi-la, como comportar-se frente à fatalidade.

Perigo maior que as bombas nucleares ou até a já sonhada bomba de anti-matéria, é, para o autor, a dissolução moral que campeia por todas as camadas sociais, e isto, por se haver perdido os eternos padrões de conduta moral que deveriam nortear nossos destinos para todo o sempre.

Por tratar-se de um pensador de nossa cultura, com a experiência de nossos problemas, não despreza o mundo da matéria, nem o valor do desenvolvimento científico e tecnológico, nem defende formas de misticismos vazios de ação que rejeitam a realidade do mundo, como se fosse possível ao homem ocidental abandonar tudo a que conquistou até o momento, e ainda, como se nisto consistisse o mal.

O professor Luiz não é um pensador fatalista que acredita na irreversibilidade da ordem, nem é um progressista que crê que tudo dará certo, por haver uma como que mão de Deus guiando a história. Crê, isto sim, que a história depende exclusivamente de nós, e que o desenvolvimento espiritual de cada um só virá com a busca da

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sabedoria e da virtude, única maneira de se conseguir a perene felicidade. Tem esperança que sua síntese das filosofias vigore no futuro, e acredita na possibilidade de que a tecnologia ainda possa permitir meios de comunicação com os desencarnados.

Esta capacidade de conciliar o ideal com a realidade é resultante da sua visão abrangente de pensador, aliada à sua grande erudição; isto coloca o filósofo Luiz Caramaschi em situação vantajosa para os ocidentais que, na falta de outros meios, buscam orientar-se com as doutrinas de místicos orientais não cristãos. Por isto, na falta de uma filosofia nossa, cristã, de cariz moderno, muitos insistem em modelos orientais como meio de desenvolvimento espiritual, o que, como diz o professor, não está errado, mas destoa da nossa cultura que é, eminentemente, racional.

NOVA PERSPECTIVA DA FILOSOFIA trará ao leitor que desfruta do prazer de pensar, uma enorme claridade que lhe possibilitará fazer, com ânimo resoluto, sua caminhada evolutiva. Tomará consciência de que não existem fórmulas mágicas para essa caminhada, tendo de contar com o seu esforço próprio, tal qual nô-lo ensina a maravilhosa mensagem de Richard Bach, em sua obra Fernão Capelo Gaivota.

O autor mostra um estilo vigoroso, polêmico, no desenvolvimento sempre lógico de suas idéias; como se fora um maestro à frente de sua orquestra, vai destacando as opiniões ora deste, ora daquele pensador, conseguindo que o concerto de idéias, como o de sons, se torne numa vigorosa e bela sinfonia.

OS EDITORES

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CAPÍTULOS

I - Filosofia e Religão II - O Sistema III - O Arqui-Sistema IV – O Ternário V - Tudo é Absoluto e Relativo VI - Homem – Mundo - Deus VII - AlertismoVIII - Desatinos IX - Conciliação de Opostos X - O Unidualismo XI - Ente Biológico e Sócio XII - Alma e CorpoXIII - Pensamento e Linguagem XIV - A Moral Objetiva de Confúcio

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I - FILOSOFIA E RELIGIÃO

A filosofia nasceu no dia em que o primeiro homem, saindo da alteração em que vivem todos os animais selvagens, a duras penas, se pôs só consigo em solidão meditativa. Este homem foi o primeiro a ordenar o mundo para si, segundo sua perspectiva, e esta sua aventura possibilitou-lhe congregar os demais homens em torno de si, pelo que se sublimou, sobre todos, como chefe militar, legislador e sacerdote. A filosofia nasceu, pois, na noite anterior ao dia em que os homens se reuniram em tribo, unificados por um chefe fundador de uma religião, por intermédio do qual Deus deu o primeiro código ético regulador dos costumes.

Deste modo, as religiões não surgiram no ar, e sim, nas cabeças de uns pensadores, de sorte que as revelações são o modo com que os primitivos filósofos-profetas deram suas verdades como vindas da parte de Deus; os resultados finais (síntese) de suas lucubrações foram, então, apresentadas sob a forma de máximas inquestionáveis, peremptórias, dogmáticas. A intuição que relampagueava na mente do iluminado, era tida por voz de Deus.

Esta é a razão por que as falas de Deus se mantêm ao nível da cultura da época. Se no tempo de Moisés fossem conhecidos os micróbios, certamente que o Gênese faria referência a eles. Adão, que pôs nome a todas as alimárias da Terra, também teria que nomear os animálculos e plantas unicelulares. Como Moisés não tinha conhecimento da assombrosa e pululante existência de micro-organismos, Jeová ficou impedido de falar-lhe sobre este assunto. Não custaria ter acrescentado Deus um versículo ao livro primeiro de Moisés, assim, por exemplo: "Eis que também tenho criado espécies várias de seres invisíveis aos olhos, animais e plantas simples que caberiam dezenas, centenas e milhares deles no exterior de um grão-de-areia". Também nada falou sobre os trilhões de infra-partículas que constituem um globo de poeira suspenso no ar, que dança numa réstea de luz, porque tais infra-partículas componentes de tal grão de pó, então, ainda não se conheciam, nem as conhecia o Espírito revelador, se foi este quem inspirou Moisés. Como? não as conhecia o Espírito? Logo, tinha este, como nós agora, limitações quanto ao saber?

Sim, porque se tratava de um Espírito, que não do próprio Deus, visto como, sendo Deus infinito e eterno, diretamente não pode comunicar-se com o finito e temporal seja este um Espírito, seja um homem. A linguagem de Deus para o místico fautor de religião é a mesma linguagem do Ser para o pensador. Há uma linguagem muda do Ser, que o filósofo procura traduzir para a fala humana. Daí que, quando Deus fala ao homem, é o homem que

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fala em nome de Deus, e, com isto, dá o melhor de si. Pois que o homem intuiu Deus, como o intuiu? Para intuí-lo, teve de desinverter-se, teve de deixar de ser o que é, pelo menos em projeto. Só depois que o homem se negou a si mesmo de animal, de dragão, de egoísta ignorante, de perverso, é que pôde projetar esse SI INVERTIDO em Deus. Deus é a projeção invertida do homem. Deus é o homem pelo avesso. Se dermos, porém, que Deus é o direito, então, o avesso fica sendo o homem, e salvar-se é desinverter-se desse negativo.

Deus é para a moral... que cria e mantém a civilização, o mesmo que os postulados, para as matemáticas, e os primeiros princípios, para as ciências. Neste sentido de axioma, de postulado, de primeiros princípios INDEMONSTRÁVEIS..., Deus "é uma criação do homem, que capitalizou na idéia de Deus o melhor de suas aspirações e de seus valores. A reivindicação humanista, longe de diminuir Deus, contenta-se com reclamar dele o que o homem lhedeu do melhor que em si tinha".

Eis, pois, que, como diz Gusdorf, "na realidade, metafísica e religião ocupam o mesmo espaço mental". É por isto que "a experiência metafísica só é possível, se fundamentada na experiência religiosa". Consequentemente, "o feiticeiro é o primeiro filósofo, e a religião é o berço da metafísica". Esta é a razão por que "o filósofo tradicional, companheiro de viagem do teólogo, vê em Deus o objeto supremo de uma reflexão, que, toda quanta, se organiza em relação a ele" (...) "A filosofia, toda quanta, é teologia, ou seja, manifestação do plano divino na ordem do mundo, ao nível dos seres, das coisas e dos pensamentos".

Não há, pois, dizer que a filosofia surgiu com Tales, em Mileto, no VI século antes de Cristo, como se antes disto não se tivesse pensado coisa alguma. Tudo nasceu nas lucubrações dos pensadores, religiosos ou filósofos; e como lucubrar é trabalhar à noite em meditações prolongadas e profundas, é estudar com afinco, é aprender... graças a exaustivos esforços mentais, segue-se que a coruja de Minerva já mantém seu vôo levantado na noite que precede o alvorecer da civilização; e depois de esta ter executado seu duro labor, no seu fim, ao cair de nova noite, outra vez a coruja alça de novo o seu vôo.

Não há razão para dizer-se que o filósofo esteve ausente nos albores da civilização, senão que, graças ao trabalho noturno e fastidioso dele, foi possível o amanhecer dela. Como o filósofo não trabalha no vazio cultural, seu labor noturno (isto é, de olhos fechados para meditar) começa na undécima hora, e se resume em organizar a síntese da civilização transata, sobre que se firma para novo arranque para si inicial, porém, continuativo para a visão da história. Gênio criador e organização social formam o par dialético da civilização, um atuando sobre o outro, desde a origem. A civilização é

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um processo dinâmico que possui na sua estrutura a interação do dualismo gênio criador e organização social, não se podendo precisar qual dos termos veio antes, tal qual o martelo e a tenaz..., dado que a mão fechada que esmurra é martelo, e a que pega, tenaz.

Todavia, como nos primórdios, os pensadores tinham de lidar com mentes infantis, sugestionáveis, místicas, não racionais, que ainda não sabiam perguntar por que?, não tiveram por onde senão apresentar suas filosofias sob a forma de máximas dogmáticas, peremptórias, vindas, como diziam, da parte de Deus; deste modo tiveram origem as religiões. Daí, a conclusão já enunciada atrás de que os primeiros fautores de religiões foram os primeiros filósofos.

A filosofia difere da religião só quanto ao modo de apresentar a verdade; enquanto que os construtores de religiões ocultam suas cadeias de raciocínios, os filósofos as expõem, e isto, porque as mentes já, então, se fizeram racionais, como aconteceu a partir do VI século antes de Cristo, na Grécia. Daqui vem que a teologia não é outra coisa que a exegese das máximas existentes no contexto de uma religião. Em vez de o teólogo partir duma intuição própria, como fazem os pensadores, assenta o seu discurso nos postulados da fé construídos por outros. Por esta razão o teólogo é primo irmão do filósofo, como o diz Gurdorf.

Por causa deste parentesco próximo entre teologia e metafísica, como diz Gusdorf, "as diversas religiões, a ascética, a mística, o ocultismo nunca deixaram de influir nos filósofos; aqueles mesmos que praticaram "a idolatria da razão", segundo uma fórmula de Masson-Oursel, tais como Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, ressentiram-se, em grau diverso, dessas influências aberrantes". Não podem ser "aberrantes" tais "influências", se considerarmos que os filósofos não podem ater-se apenas aos dados da natureza, do mundo, mas têm que ultrapassá-los, indo-se até seus horizontes escatológicos além dos quais se oculta Deus. O que é intuitivo não pode ser demonstrado ou reduzido a discurso; daí que até os primeiros princípios das ciências e os postulados matemáticos, porque indemonstráveis, entram na conta do que Gusdorf chama "mitos" ou "influências aberrantes".

A filosofia, desde os seus primórdios até hoje, oscila ao longo do eixo Heráclito-Parmênides; o primeiro sintetiza todos os pensadores que buscam o fundamento das coisas numa substância original. Parmênides, contrapondo-se a estes últimos, encabeça todos os filósofos que, desprezando a substância, só se atêm às essências vazias, como sendo o ser-das-coisas.

Sócrates, o pensador sem doutrina filosófica, preocupava-se com o homem da rua, com o passante; mas o homem não é redutível a princípio de razão, a discurso, primeiro, porque, sendo ele o próprio

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fundamento, não pode ultrapassar-se, sair de si, pôr-se frente a si, tornando-se num objeto: sua natureza de sujeito questionador é inalienável; segundo, porque se mostra, em todos os seus aspectos como devir heracliteano. O sonho grego de que a realidade do mundo podia ser apreendida só com a inteligência, com a razão, continuou a iludir os pensadores todos até Augusto Comte que escreveu: "Mostrarei que existem leis tão determinadas para o desenvolvimento da espécie humana como para a queda de uma pedra".

Mas este sonho positivista, e também do fisicalismo, do cientismo, do idealismo, foi desmentido pela história pela qual se comprovou isto: o homem e as ciências humanas, das quais fazem parte a história, a economia e a política, não possuem leis determinadas como as ciências exatas. Tais ciências humanas, cujas leis e decretos podem ser feitos e revogados pelos próprios homens, não deviam chamar-se "ciências", e sim, "disciplinas", como é o caso da filosofia, simples disciplina do espírito. O mundo, e mais ainda o homem, não é integralmente redutível a princípios de razão; sempre sobra um imenso resíduo irredutível que é aquele que diz respeito à substância e ao substancial.

Os gregos acreditaram e ensinaram a crer em duas coisas: primeiro, que há uma realidade por detrás das aparências; segundo, que essa realidade poderia ser apreendida pela razão. E, então, procederam a ruptura entre o real e o aparencial, entre a essência e a existência, entre o ser e o não-ser. O existencialismo contempo-râneo tenta operar a união do quebrado, pondo em foco o homem; ora, a ruptura deu-se lá na Grécia, mais ou menos no ano 500 a.C., nas doutrinas de Heráclito e Parmênides. Se foi lá que se quebrou o cântaro, lá ter-se-á que procurar os cacos. O caminho do conhecimento terá que ser feito do simples para o complexo, e não vice-versa; conseqüentemente, o homem, como máxima complexidade, terá que ser o ponto de chegada, e não, o de partida.

Sócrates, com enunciar sua sentença: "conhece-te a ti mesmo", não é o começo, senão o fim da sabedoria. O homem não tem feito outra coisa senão procurar conhecer-se, e quando olha o mundo, o faz de seu mirante antropológico, mirante que varia de situação para cada pensador, e ainda dentro das coordenadas do espaço e do tempo. Deste modo, a antropologia esforça-se por conhecer o homem como totalidade; mas esta totalidade varia com a cultura; e a cultura varia de acordo com cada nova retomada do Ser, Deus, sempre para além das fímbrias do horizonte que cada vez mais se alarga... na medida em que o homem ascende na vertical, ao desenvolver sua espiral evolutiva. Eis aí três variáveis (homem total, cultura e Ser) inacessíveis às formulações científico-matemáticas.

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O Jeová tribal, ciumento, vingativo e sanguinário era horizonte longínquo do mundo hebreu; o Deus-Razão-Pura era o horizonte dos filósofos de uma Grécia pós-mitológica; o Deus-Pai amoroso e solícito é o horizonte distante do mundo cristão. Conforme for a intuição de Deus, assim, não só será o homem, mas, também, a sua justificação do mundo. Como, logo, há o homem de conhecer-se a si mesmo, se tal conhecimento depende de outras coordenadas, de outras conquistas? Como dizer que Sócrates, com sua sentença: "conhece-te a ti mesmo", é o começo da sabedoria?

Primeiro o mundo é ofertado ao homem, na infância, sob a forma da linguagem, das fórmulas e dos ritos sociais; depois que ele deu esta primeira grande volta ao mundo cujo horizonte é Deus, o homem, já maduro, volta a si, para estar só consigo em solidão, a fim de pôr em ordem sua vida, seu universo pessoal, dando xeque-mate à verdade. Depois de o homem filosófico percorrer, sem descanso, os lados do triângulo Deus-Mundo-Homem, por fim, arma o seu sistema, constrói a sua crença, e se põe a vivê-la, que este é o fim. Se esta crença leva o homem a programar sua evolução, sua desinversão de egoísta e mau, então estará ele caminhando para a sabedoria; e quando esta sabedoria se lhe tornar presente, atual, vivencial, fáctica, habitual, automática como um segundo instinto, terá o homem dado sua última volta e chegado finalmente a si como indivíduo sábio e santo. Então, poderá o homem conhecer-se a si mesmo, porque será estável na conduta, nos atos; porque estará fixado num determinismo superior que livremente escolheu, em que livremente se pôs e em que fica para sempre.

Só podemos conhecer racionalmente o que é fixo, imutável, determinístico, intransformável; ora, o homem, em evolução, é um vir-a-ser, não-fixo, um ente inacabado, no dizer de Nietzsche; daqui vem sua ininteligibilidade. Logo, o "conhece-te a ti mesmo" é inaplicável ao homem em processo evolutivo, pelo que esta sentença socrática não pode constituir no começo, senão, no fim da sabedoria. Coerente com isto, sentencia Gusdorf: "Dize-me qual é o teu Deus, dize-me qual é o teu mundo, dir-te-ei quem és". Se no conhecimento próprio estivesse o fundamento primeiro da sabedoria, o homem precisaria primeiro conhecer-se, para depois lançar-se no conhecimento do mundo e de Deus. No entanto, as experiências com o primitivo e com a criança demonstram que, primeiro, o homem se mostra aberto ao outro e ao mundo; mostra-se alter-ado (sendo outro - Ortega), antes de ser si mesmo, autêntico.

O caminho que leva o homem a si, é o outro; e o último outro que ele enxerga, ao tempo da sua primeira tomada de si, é aquele outro-si refletido no espelho a cuja frente se põe pela primeira vez, e se

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reconhece. O espelho produz na criança e no primitivo a integração da personalidade, visto como nem um nem outro tem consciência do próprio corpo como totalidade. Perguntado a um ancião duma tribo primitiva qual a melhor coisa que tivera do contato com a civilização, ele respondeu: "O que vós nos trouxestes foi o corpo". E acrescenta Gusdorf: "Com efeito, a noção de corpo faz ascender a um novo mundo conceptual; ela fixa a idéia pessoal, até então difusa e indeterminada, e implica a aceitação de uma estrutura de inteligibilidade e de ação. Nossa concepção do corpo próprio resulta de um verdadeiro drama cultural"; mais: "Há outrossim, nesta tomada de posse do corpo, uma experiência privilegiada, para a qual as recentes pesquisas, com justiça, chamaram a atenção: de fato, o encontro da criança com o espelho dá lugar a uma espécie de afinação na tomada de consciência do ser pessoal como totalidade vivida".

Para o homem poder conhecer-se a si mesmo, havia-se de pôr frente a si, como objeto a ser conhecido. Ora, o homem não pode sair de si, em bilocação, de modo que ficasse, de uma parte, o si, e da outra, o outro si espelhado. Não sendo isto possível, o jeito é estudar-se nos outros, "consoante uma famosa sentença de Schiller, "se queres conhecer-te a ti mesmo, observa os outros".

"O espelho subministra a possibilidade de um conhecimento e reconhecimento de si, do qual poderá resultar certo senso da identidade pessoal. O homem, ao contrário do animal, é o ser que conhece sua imagem como imagem, ser igualmente capaz de se interessar pelas imagens, e de se comportar em conformidade com imagens". Do que fica exposto, claramente se infere que a noção de corpo próprio, longe de ser um ponto de partida da experiência humana, representa antes o termo de lenta e operosa elaboração do ser pessoal".

Se o conhecimento de si mesmo implica numa grande volta de si a si, do si ignorante ao si sábio, não poderá conhecer-se a si mesmo senão aquele que deu volta ao mundo. Conseguintemente, Sócrates, com sua máxima “conhece-te a ti mesmo”, não pode ser o começo, senão o fim da sabedoria, porque o homem que chegou a conhecer-se plenamente, esse terá chegado ao termo do saber. Todos pensam que se conhecem sob todos os aspectos: no entanto, nem sob o aspecto físico o homem se conhece, e o espelho lhe dá apenas uma parcela desse conhecimento. O cinema é mais que o espelho, porém, a tela ainda não dá o que o homem é, dado que seu aspecto pode variar conforme o efeito das luzes. É de Caravaggio (Miguel Ângelo) a frase: "anjo ou demônio não passam de efeitos de luz" (Filme). Por esta razão, "o romancista Francisco Mauriac, após ver-se retratado em movimento na tela, declarou: "Ao ver-me pela primeira vez, fiquei banzado.

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Imaginamos ver-nos num espelho, mas não nos vemos. Quando vi entrar em meu salão aquele ancião, pensei que fosse um irmão mais velho, e não consegui dissimular a consternação. Conhecemos tão mal o nosso aspecto físico, como o som da nossa voz. É desconcertante".

Se, pois, a consciência de si fosse o primeiro passo para a conquista do saber, havia-se de afirmar: dize-me como és, e dir-te-ei como é o teu mundo e o teu Deus. Mas não. Como o primeiro conhecimento de si próprio é o ponto de chegada de uma volta que se dá ao mundo e a Deus, conduzido pelos elementos próximos do contorno social, a sentença não pode ser "conhece-te a ti mesmo", e sim: conhece o mundo e Deus, e conhecer-te-ás.

Esta coerência, no entanto, é apenas discursiva, quer dizer: meras palavras não traduzem a realidade de si, realidade vivida; para ser verdadeira, a frase teria de construir-se deste modo: dize-me como resolutamente vives tuas convicções profundas, inquestionáveis, do teu mundo e do teu Deus, e dir-te-ei quem és. Porque a sabedoria não consiste no saber intelectual puro, não valendo o que o homem pensa, fala ou escreve, e sim, o que ele vive com toda a pujança e plenitude do seu ser interior, do seu sentimento, da sua paixão, de sua crença inquestionável, de onde necessariamente, brotam as obras de sua vida. Mostra-me, pois, como invariavelmente ages, e dir-te-ei quem és, porquanto tuas palavras, ainda que belas, nobres e sábias, podem ser produtos de mera erudição, engenho e arte. Tu não és o que aparentas ser em teu discurso, porque as obras da tua vida francamente te desmentem. Tu és um esquizóide, visto como dizes uma coisa, e fazes outra. A isto, fale Fritz Khan: “Bernard Shaw dedicou a vida ao ideal de redimir a sociedade humana das suas fraquezas sociais e morais. Ele próprio não só era interesseiro, mas pouco se lhe dava mostrar que o era. Acumulou uma grande fortuna de que outra vez, o esquizóide não soube fazer uso; vivia frugalmente como um monge. Nem mesmo os seus subalternos fiéis e dedicados aproveitaram o que quer que fosse dessa riqueza. Shaw pagava-lhes, pelo contrário, "salários de fome", contra os quais reclamava nas suas obras. "Ele era o último homem a quem poderia ocorrer a idéia de aumentar ordenados - diz uma sua biógrafa. - Ocupava-se demais de escrever sobre economia". "Os ideais dos homens estão, em primeiro lugar, no papel" (Bernard Shaw).

"Shaw lembra muito a Schopenhauer de quem tinha quer o senso crítico acerado e a elegância de expressão, quer a extravagância e o egoísmo mesquinho. O filósofo do pessimismo dormia, com o revólver carregado na mesa de cabeceira. Pregava nos seus escritos a futilidade dos bens materiais; era, no entanto, impiedoso na cobrança de aluguéis; e, no aposento onde escreveu de maneira incomparável sobre

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triunfar das paixões, atirou uma inquilina escada abaixo, de maneira tão desastrada, que teve de lhe pagar uma indenização".

Eis, pois, que o homem não é o que aparenta ser por suas palavras, mas, aquilo de que dão testemunho suas obras; ao falar, o homem mostra o que almejaria ser; porém, suas obras atestam o que ele realmente é. Daí que Jacques Maritain, em se referindo a Descartes, declara ser prejudicial ao metafísico o conhecimento ou a "recordação, minuciosa em demasia de sua figura de homem de carne e osso”. O gentil-homem chamado Renée do antigo povoado francês de Poiton, é aquele que tinha uma filha natural, e escreveu um tratado de esgrima, e compôs o libreto de um bailado, que se interessou por música, por poesias, antes de tornar-se no grande Descartes. Tudo isto que faz o homem privado, particular, deve ser silenciado, conforme o entende Jacques Maritain. Contudo, quando o fundador do idealismo metafísico se encontrou a si mesmo, passou a chamar-se Descartes, e este nome público suplantou o do homem privado, porque o autor em que se revela como aspiração superior, vale muito mais que a pessoa concreta, ainda carente de forças para viver o seu ideal. Tal o entende Gusdorf, para quem “o homem não prejudica a obra, porque a obra remete para o autor e não para o homem, - e o autor vale incomparavelmente mais que o homem. Socrates é o nome público daquele outro Sócrates particular, marido de Xantipa, assim como Platão é pseudônimo de Isócrates. Pois bem: como seriam os indivíduos particulares ocultados sob os nomes ilustres de Sócrates e de Platão? Não é sem motivo nossa curiosidade porque toda filosofia se embasa na vida privada de cada pensador, nas suas experiências pessoais, sobretudo na grande experiência do despertar que, ao filósofo, se lhe afigura como um cataclisma, como um abalo sísmico interior, como uma parada do tempo, como que uma entrada no infinito e na eternidade. À-toa não foi que o primitivo nome dado à filosofia era aléthea que quer dizer revelação, patentização, desnudamento, apocalípse. O transporte experimentado pelo místico fundador de religião, é o mesmo êxtase gozado pelo filósofo que, por um instante fugacíssimo, sente ruir todo o seu universo pessoal ao toque regenerativo do infinito e da eternidade. E quem, num único ato do espírito, fixa e determina a verdade, em meio a um incêndio de paixão, em meio a um delíquio de supremo gozo, não se sente disposto a falar no próprio nome, que seria isto uma profanação; daí que o místico e o filósofo falam em nome de Deus.

Platão partiu de Parmênides e de Sócrates; este, porém, de quem teria partido para as suas conclusões? Seria, acaso, do seu Demônio com o qual, segundo diz, se comunicava? O certo é que Sócrates já sabia tudo, quando se apresentava como não sabendo nada, porque saber perguntar é já saber por metade; e ao conduzir o interrogatório de modo a

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forçar o interlocutor a andar por onde onde Sócrates, de antemão, queria que ele andasse, prova, não saber por metade, e sim, um saber por inteiro.

Disto se conclui que Sócrates não ensinava a desentranhar a verdade universal oculta em cada homem pelo esquecimento, desde a sua primeira encarnação, pelo que o aprender se reduzia a um simples recordar, como alardeava; em lugar disto, Sócrates obrigava a quem se pusesse em questão com ele, a descobrir a verdade que ele queria que fosse descoberta. O grande mestre procurava fazer que o discípulo tivesse a mesma surpresa que ele próprio tivera, quando, de súbito, descobrira a sua verdade, quando tivera a sua aléthea, tal o poético, sonoro e belo nome, em sua origem, antes que Pitágoras o banalizasse no termo prosaico, prático e vulgar filosofia.

De que teria partido Sócrates para chegar às suas inabaláveis convicções que, para não traí-Ias, preferiu a morte? Que homem há, digno deste nome, que não se empolgue face a tal exemplo de grandeza de alma, e que não dê toda a razão a Gusdorf que afirma ser imensamente preferível "ser Sócrates caído em desgraça do que porco satisfeito"?

Porco satisfeito? Mais perigoso que este, é o porco sempre insatisfeito, conforme o entender do "filósofo Wayne Kílbourne, para quem o nome científico do bicho-homem, animal racional, é "porcus bipedus". Uma espécie impertinente, encontrada na maioria das partes habitáveis do planeta e até nas partes teoricamente não-habitáveis, como o gelo polar, o deserto e a floresta.

"É o animal mais forte da natureza, mais forte que o leão ou o tubarão: vive no frio e no calor, ao nível do mar ou no pico da montanha, na mata, na lama, na areia, na pedra, no asfalto e na Lua. Seu estômago é de aço: consome carnes e vegetais, álcool e leite, líquidos e sólidos, sal e açúcar, licor e pimenta, azeite e café e tudo ao mesmo tempo. Um elefante morreria na metade do almoço do "porcus bipedus".

"Quando caí a noite, ele deixa os parques da cidade atulhados de jornais, latas, plásticos, dejetos e porcarias várias, para a família que venha depois, com seus porquinhos, fazer a competente limpeza. Deixa os faróis de seu carro cegaram os semelhantes, adora presenciar o choque de automóveis de terceiros e abre o escape para jogar barulho nos ouvidos do próximo e fumaça nos pulmões do mundo.

"Ele e manadas de parceiros da espécie se precipitam para bloquear o tráfego em torno de um acidente, de um incêndio ou de um desabamento. E arregalam os olhos, com uma curiosidade gulosa, quando a ambulância recolhe um cadáver ou um bombeiro resgata um

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ferido. “Mas o traço marcante dessa curiosa espécie animal, penso eu,

é o canibalismo: o "porcos bipedus" é devorador de si mesmo. Ele mata o semelhante em nome da lei, em nome dos direitos humanos, em nome de Deus. Faz a guerra em nome da paz.

"Respeita a trégua de Natal no meio da guerra, marca a data do cessar-fogo com um mês de antecipação, condena a bomba atômica e aplaude a dinamite de fabricação caseira, condena não o ato de matar, mas a forma mais ou menos escandalosa de matar o próximo. Censura a divulgação do ato do amor, mas divulga a cabeça do inimigo cortada a faca". (Joelmir Beting – Na prática prática a teoria é outra).

O que pode tirar o homem da condição de porco, satisfeito ou não, é a filosofia ou a religião vivida..., uma vez que uma e outra desloca o eixo da vida para longe da satisfação dos grosseiros apetites. Ou isto, ou o homem será "porcos bipedus", porco de chiqueiro, atufado de alimentos, sempre empanturrado e faminto sempre. Daí que, tanto para a religião operativa como para a filosofia, "a função é a mesma: assegurar à pessoa a paz consigo, com os outros e com o mundo; e se as purificações do sábio se afiguram mais razoáveis que as vias e os meios do Xamã primitivo, é simplesmente por ter mudado o contexto da cultura; mas as atitudes profundas, as exigências e as satisfações são da mesma ordem".

Todos os filósofos e criadores de religiões tiveram sua aléthea, diferindo os pensadores dos místicos só na maneira de exporem suas verdades. Todos tiveram a sua surpresa, e, suprimi-la, "suprimir a admiração equivale a cometer uma espécie de pecado contra o espírito (...) O primeiro filósofo foi o primeiro que se deixou colher pela surpresa, e de modo definitivo, para toda a raça dos filósofos, pois a ele se deve o arranque inicial”. Buda teve a sua revelação quando meditava debaixo da árvore Bó. O príncipe Moisés, tendo matado um egípcio, fugiu para Midiã, onde se pôs a reorganizar suas idéias. E já se tendo casado com uma das filhas de Jetro, e estando a apascentar o rebanho do sogro, eis lhe sobreveio sua aléthea, face a visão da sarça ardente no topo do Horeb em que subira. Um acidente de carruagem de que fora vítima, suscita em Pascal a sensação de achar-se à beira dum abismo, e, mito ou não, tal experiência radical provocou toda a revolução de idéias que transformaram o físico-matemático e inventor, no filósofo que foi, de cariz místico. Daí por diante a expressão "abismo de Pascal", passou a ser usada quando se tem por frente problemas sociais e morais profundos e difíceis, que apavoram aos que os enfrentam. O Zaratustra de Nietzsche se vê retratado num saltimbanco que dança numa corda estirada no espaço. O primeiro mago toque do absoluto em Descartes, que lhe suscitou a crise que, um ano mais tarde, lhe produziu a série de

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sonhos premonitórios, foi seu encontro com o sábio holandês Beeckman; o segundo "tremor de Terra" teve-o ele quando examinava um simples pedaço de cera. Folheando o "Tratado do Homem" de Descartes, numa livraria, Malebranche teve o estalo e exclamou: "também eu sou filósofo!" (Gusdorf). Rousseau dá consigo na estrada da totalidade, quando, indo visitar Diderot preso em Vincennes, lê, no "Mercure de France”, a noticia de um concurso aberto pela Academia de Dijon. Kierkegaard e Nietzsche nos dão conta desses fulgores de intuição, desses "pentecostes", desses "sismos" que sacodem a personalidade em suas bases mais profundas, fazendo em pedaços o universo pessoal das certezas estabelecidas, das vivências mais familiares, do consenso, dos costumes, de tal sorte, que Descartes se vê compelido a formular uma moral provisória, enquanto punha em ordem sua casa interior. Também, Spinoza, na "Reforma do Entendimento", antes de qualquer investigação teórica, traça, para si, um código de conduta que vai desde a higiene física e mental, até a reforma monetária, pois a revelação implica na instituição de uma nova vida radical, de um homem renovado.

Não é sem motivo que o homem tocado pelo Absoluto, que teve seu instante de graça e de verdade, tenha a sensação de parada do tempo, de penetração na eternidade, de ter podido furtar, como Prometeu, um pouco do sacro fogo celeste que lhe abrasa agora todo o seu ser na paixão-gozo de um extraordinário êxtase. A totalidade envolve, enlaça o extático, infundindo-lhe uma consciência nova, inflamando-lhe não só a inteligência, mas também o coração. E quando, após a experiência radical, a epifânia, o pentecostes, o homem se vê só, então se reconhece como não sendo mais como os outros homens, pois carrega consigo uma mensagem que não sabe como transmitir. O prosaico Moisés, guardador, das ovelhas de Jetro, escalando o Horeb até o topo, teve, lá, a sua experiência do Absoluto, e tanto que a teve, ficou sublimado, porque homem comum não fica sendo quem contemplou o infinito, e sentiu no próprio peito, a eternidade. Nimbado da luz divina, Moisés não poderia mais falar em seu próprio nome, ainda que a mensagem celestial trazida no peito e na mente, tivesse o estilo, a cultura e a tonalidade do revelador. Tal homem que ficou sublime, renovado, não mais podia alhear-se, omitir-se...; tinha no mundo uma missão. O satírico Voltaire já dizia que "Deus criou o homem, e este pagou-lhe na mesma moeda". Seja então: a idéia de Deus surgiu na mente humana, mas quando surgiu, teve isto de inusitado: divinizou o próprio homem, desinvertendo-o de dragão sanhudo e mau, pondo-o acima do animal feroz que sempre foi; e se chega a perder Deus, nesse ponto, de novo, vira bruto.

Cumpre, pois, ao antigo habitador da caverna platônica, de

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sombras irreais, tanto que pode receber sua porção da luz eterna, retornar para junto de seus irmãos aos quais tenta, em vão, contar sua experiência fabulosa que logo é tida por mito, alucinação, disparate, desatino. Sofre, ao constatar a impossibilidade de reduzir o que é volume consciencial ao terraplano da razão. Contudo, não pode parar, esporeado que se acha por sua paixão. Por fim constrói o seu sistema, e nele repousa, cuidando que ele seja tudo; no entanto, a história o desaponta, mostrando-lhe que outros sistemas se criaram no passado, e, no futuro, outros se criarão como o seu. Porém, nas trevas do seu tempo, ele, o homem do absoluto, do infinito e da eternidade, agitará seu facho sem descanso, pois que foi tocado pela arquiluminipotente e fulgurante mão de Deus.

Não só a filosofia, senão também as ciências, sobretudo as mais exatas de todas, as matemáticas, se apóiam em postulados e axiomas indemonstráveis. Porém, os homens da caverna platônica, como apenas racionais, presos ao terra-terra da razão discursiva, exigem a demonstração do fundamento em que se firma o pensador. A base não demonstrada, então, é tida por mito. Não reparam eles que as várias geometrias, a euclidiana e as não euclidianas, se alicerçam na intuição ou mito indemonstrável de como é o espaço. Não se podendo saber como é o espaço real, objetivo, como totalidade, supõem-no com determinada forma, e, sobre esta, o postulado se alicerça. Como o universo (espaço objetivo) pode ser intuído como tendo diferentes formas, sobre cada uma delas se pode enunciar um postulado, cada um dos quais produzindo uma geometria diferente, consistindo isto, segundo D'Alembert, "no escândalo da geometria". À-toa não é que o matemático Bertrand Russel afirma: "A matemática é a ciência na qual nunca sabemos de que está falando, nem se o que diz é verdadeiro". Os físicos, os químicos e os biologistas também, por sua vez, lidam com o espaço, com o tempo, com a causalidade, com a substância, etc.; não reparam, contudo, que, ao tentarem explicar estes fundamentos, fazem metafísica, a mesma contra a qual se insurgem em nome da racionalidade. Para tais homens, vale a pena relatar, aqui, a parábola da Abelha e da Formiga; ei-la:

Certa feita uma formiga, depois de muito cansada de andar sobre a superfície duma bola, dependurada por um fio, parou, e refletiu consigo: - "Tudo é superfície infinita, sem princípio nem fim para todos os lados. A esfera total que procuro, absolutamente, não existe!" Proposta a questão a uma abelha que acabara de pousar na superfície, ela respondeu: - "Sim, a esfera existe; eu a vi quando voava para cá". A formiga, incrédula, sorrindo, concluiu consigo: - "Eis aí um mito...; o mito da esfera sonhado pela abelha!".

Tal, o homem de ciência, ocupado com suas insignificâncias que

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cada vez mais se amiúdam em demanda do pouco mais que nada. O que passar disto é mito. Chega a hora, porém, que precisa reportar-se ao que não pode provar, e se pergunta: o que é o espaço, o tempo, a causalidade, a vida, a energia e a matéria? Que é a inteligência, que me possibilita chegar às minhas conclusões e descobertas? Aí, então, já se acha ele a fazer filosofia.

O matemático, ufano, sentencia, dogmático: só é verdade o que pode ser provado. Prove ele, então, os postulados e os axiomas em que se baseia, pois, dada a sua afirmação peremptória, uma vez que os postulados e os axiomas não se podem provar, não são verdadeiros.

O materialista cuida que a matéria é tudo; todavia, quando lhe perguntamos o que é matéria, ele nos responde, surpreso da nossa ingenuidade, que a matéria é puro movimento! Mas logo franze a catadura preocupado, ao lhe tornarmos: o que vem a ser um movimento puro? Palavras vazias, porque um movimento puro é um movimento de nada; ora, o nada não se move. A idéia de movimento implica na existência de algo que se move; impõe a existência de um móvel. Todavia, agora, o móvel é o nada? o nada se move, e dele surge algo que também se move, produzindo um algo maior, e assim por diante... até o universo? Se a matéria principia pelo nada, então ela é ilusão fósmea, puro calidoscópio ou lanterna mágica; sua realidade é um sonho! o universo é nada. Tal, o fundamento "sólido" em que, seguro de si, se firma o materialista.

Se ele, no entanto, procurando evadir-se ao torno com que o apertamos, nos disser que o fundamento da matéria é a energia; que as ondas muito curtas, quando frenadas, se encurvam sobre si em remoínho, tornando-se elétrons e partículas nucleares, neste caso, é fazer-lhe ver que esteve enganado o tempo todo, visto como, cuidando-se materialista, na verdade foi além, e é energista. E à pergunta nova de o que é a energia, ele nos dirá (e não há outra coisa a dizer) que nem a energia, nem a matéria, se reduz a princípio de razão, a discurso racional, por que, estando sujeita uma e outra ao devir, ao tornar-se heracliteano, é um não-ser. Ora bem: sendo a energia e a matéria inacessíveis à razão, segue-se que são transracionais. O ente que não alcança o que pode a razão, é irracional; todavia, aquilo que transcende aos domínios da razão, não é sub, mas supraracional. Como o dado em que se funda o materialista é transracional, então, ele se porta como o matemático, como o filósofo, como o místico de quem se ri, uma vez que, não fugindo à regra, aceita seu fundamento intuitivo, de fé. Cada um tem o seu absoluto, e o do energista é o movimento dinamomaterial.

Esta é a causa por que Aristóteles já dizia que precisarmos, de fato, filosofar; e se dissermos não ser necessário filosofar, então, ainda

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precisamos filosofar para demonstrar esta nossa afirmação. Daí que o homem é o animal metafísico, uma vez que precisa sempre justificar suas afirmativas, seus atos e sua conduta com razões, e isso é filosofia.

Poderá, no entanto, o homem eximir-se do trabalho de pensar, transferindo esta obrigação a um outro ao qual seguirá de fé, por sugestão, sem nunca perguntar por que? E se acontecer de esse outro, ao qual se tomou por infalível, estar errado? Acaso, a crença na infalibilidade de Calvino, não produziu, por parte dos norte-americanos, o genocídio dos peles vermelhas? A crença cega em Gobineau e em outros racistas, não resultou, para os alemães, no mito da "super-raça" ariana, motivando o genocídio de mais de seis milhões de judeus? Esta crença, sem nenhuma base científica, não provocou a discriminação racial, perpétua causa de perturbações, nos Estados Unidos? E o sério problema das castas, na Índia, de que crença errônea nasceu? E os totalitarismos de direita e de esquerda, com base em Hegel? E a beatice da razão? O fisicalismo e o cientismo, por desventura, não são outras tantas crenças perniciosas, dos modernos tempos?

Instalada a dúvida, eis de novo o homem obrigado a filosofar. Acaso não é melhor, co-filosofando, acompanhar os raciocínios dos pensadores, reparando bem de que intuições partiram, claras ou ocultas, e ver até que ponto da verdade tais intuições alcançara, do que seguir de fé os místicos cujas intuições, em vez de se explicitarem em raciocínios, se mostram apenas como sentenças peremptórias, dogmáticas?

Calvino meteu os norte-americanos em torpe engano, quando fez a onisciência de Deus absoluta, com que a mente divina passou a conhecer o futuro. O futuro, então, estava escrito na mente de Deus, no seio do universo, nas entranhas da história. Daí vinha que os homens estavam classificados em salvos e perdidos. E a complacência com que Deus vê os salvos, leva-o, com larga mão, a abençoá-los. Tal bênção, negada aos precitos, manifestava-se sob a forma de riqueza ou de renome. A riqueza passou, então, a ser um sinal de salvação, e a pobreza, de perdição. Ser rico, logo, era estar salvo, e foi assim que o Evangelho de Cristo encontrou sua contraditória no diabólico Anti-Evangelho de Calvino para quem "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um pobre entrar nos céus". Todo o genocídio praticado contra os pobres e precitos peles-vermelhas e contra os réprobos negros, nos Estados Unidos, tem este fundamento, afora aquele outro, o racismo de Gobineau.

Tal qual estes dois estapafúrdios, a predestinação e o racismo, outro já, no mundo, se está evidenciando; ei-lo:

Joelmir Beting concorda com Hannes Alfven, Prêmio Nobel de Física de 1970, em que "o homem está ficando cada vez mais

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ignorante", e dá o porquê. Porque, como diz, citando Alfven, "durante séculos não fizemos outra coisa que acumular conhecimentos. Da fissura do átomo ao mecanismo da vida. Do entendimento da psicologia do homem ao entendimento das leis que regem a sociedade. Os jornais, as revistas e as estações de rádio e televisão, atualizando a escola e complementando o livro, mantém-nos em dia com tudo o que acontece e informa-nos do que pensam todos a respeito de tudo(...) Enquanto cresce a sabedoria da Humanidade no seu conjunto, decresce a sabedoria relativa do homem isolado. Simplesmente porque existem quantidades cada vez maiores de conhecimentos que ficam fora do alcance de cada homem em particular, mesmo na faixa estreita do conhecimento especializado". E, seguindo esta mesma linha de pensamento, comenta Joelmir: "Sem os especialistas, não conseguimos sequer manter nossa casa em funcionamento. Antes, o homem era capaz de produzir o óleo e fazer a lamparina. Hoje, fica no escuro ao primeiro curto-circuito. O leitor será capaz de consertar a geladeira, o televisor, a máquina de escrever ou o liquidificador? Será capaz de fazer sabão, torrar café, tirar manchas de esferográfica, curar o braço quebrado ou botar meia sola nos sapatos? Saberá o leitor do que é feito e como é feito o paletó de tergal, o barbeador elétrico, o carpete de sua sala ou o bi-iôdo do farol de seu carro?".

Quer isto dizer que o mundo está ameaçado de soçobro, porque o homem moderno não tem cabeça para ser oniespecialista, isto é, especialista em tudo? E se tivesse? se a humanidade fosse toda feita de gênios? Pois, então, cada um teria, como agora, de cuidar do seu setor exclusivo, e todo o resto do seu saber ficaria ocioso...; e ainda assim, tal sabença seria meramente intelectual, porque o saber prático (e a prática faz o mestre) seria de todo impossível. Quer dizer que todos, então estamos perdidos, dada a inviabilidade de nos tornarmos senhores de todas as especialidades existentes?

Ainda Joelmir: "Somos todos especialistas e todos vítimas da ditadura de outros especialistas. E como especialistas, queimamos na especialização constante todo o tempo disponível para sondar a periferia de nossos conhecimentos".

Contudo, se fôssemos senhores de todas as especialidades existentes, ainda assim seríamos "vítimas da ditadura de outros especialistas", como sempre aconteceu desde que principiou qualquer divisão do trabalho, sendo esta a razão de o dentista e o barbeiro precisarem valer-se de colegas para tratar dos próprios dentes e cortar os próprios cabelos. Se o coração de Zerbini precisasse de uma intervenção cirúrgica, para Zerbini seria muito melhor que toda a sua perícia técnica estivesse, não consigo, mas com aquele em cujas mãos se põe. Também, aqui, não é possível dizer, como os fariseus:

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"Médico, cura-te a ti mesmo" (Luc. 4, 23). Desgraça grande é que um homem, havendo podido salvar os outros, venha, ele próprio, a perder-se. E ainda, que adiantaria um homem que trabalha nos correios, ser hábil eletricista e fotógrafo, se não tem à mão as ferramentas dos dois ofícios para consertar o motor elétrico da enceradeira ou fazer a própria fotografia? E tudo, por ventura ou desventura, não foi assim, desde que houve a divisão do trabalho?

Eis, pois, recolocado o ancião problema, qual o da quadratura do círculo, que é o da impossibilidade da auto-suficiência. Então, por qual caminho seguir? Que? Destruir todas as máquinas, retornando à indiferenciação, ao artesanato, como queria Gandhi, ou voltar à floresta da ilha do "bom selvagem" de Rousseau? Que? continuar tecnófilos sábios-ignorantes, até o soçobro final na barbárie, revertendo-nos, todos, nos verdadeiramente "maus selvagens" dos primórdios?

Por nenhum destes dois caminhos o problema se resolve: nem pela tecnofobia que sonha com ver destruídas todas as máquinas, nem pela tecnofilia que almeja atuar nos genes, produzindo super-cérebros capazes de dominar, exaustivamente, toda a ciência e toda a tecnologia. Ainda que isto fosse possível, o super-cientista-tecnólogo não seria sábio. Não é no exaustivo domínio da superfície que está a sabedoria, e sim, única e exclusivamente na conquista da outra dimensão, a altura. Para o homem racional, não de fé, só na filosofia pode ser achada a salvação; e o mundo rui, hoje, porque abandonou o cultivo da filosofia, face à crença nova do cientismo tecnológico, elevado à condição de absoluto. Só pode ser sábio, aquele que se posta no centro da esfera dos conceitos, para onde todas as linhas se convergem, e jamais, nunca, o que, como a formiga da parábola, se põe a andar sem fim na superfície. O pancientismo absoluto não é sabedoria, porque esta é volume consciêncial, no passo que aquele não vai além do planimétrico da razão. A sabedoria não se subordina à produção de melhores cérebros, superiores aos dos homens bem dotados, já existentes no mundo; ela é uma aquisição que implica em pôr-se o homem noutra atitude mental, a que o impele no rumo da totalidade, e não no da periferia da esfera onde as ciências se filamentam, se pulverizam e se dissolvem. À força de investigar cada vez mais a respeito do cada vez menor, o especialista corre o risco de tornar-se ignorante, e será quando o objeto da sua pesquisa se tornar nulo ou nada. Diz Bertrand Russell, falando deste quase nada, que "agora, devido principalmente a dois físicos alemães, Heisenberg e Schrodinger, os últimos vestígios do velho átomo sólido se derreteram, e a matéria se tornou tão fantástica como qualquer coisa que se manifestasse numa sessão espírita". Coerente com isto, advertiu um dos componentes de um congresso de físicos: "Procuramo-nos explicar

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reciprocamente algo que nós mesmos não entendemos". Um outro sarcasticamente exclamou: "A física é difícil demais para os físicos!"

Em que ficamos? Pois não há outro caminho senão este: os homens do futuro hão que ser cientistas-tecnólogos e filósofos ao mesmo tempo; cientistas-tecnólogos pelas especializações que fragmentam e dividem, e filósofos pela visão unitária que a tudo coor-dena e integra na unidade. A solução implícita na obra de Joelmir Beting e na de Hannes Alfven, a da criação de super-cérebros... capazes de dominar todo o saber científico-tecnológico, não leva a lugar nenhum, e mais uma vez cientistas pretenderam fazer-se filósofos... de repente, em vez de irem perguntar o que pensam sobre o assunto os verdadeiros filósofos que são uns especialistas em generalidades integradas, isto é, não apenas uns eruditos, meros depositários mnemônicos de um ecletismo intelectual, absolutamente carentes de convicções superiores, mas homens que vivem a integração, que se extasiam frente ao unismo, que gozam da contemplação da unidade total.

Não se pode acionar o leque, pegando-o pelos bordos, e sim, pelo cabo. Tal qual com a verdade..., que não pode ser apreendida na periferia onde ela se fragmenta em quintilhões de verdades menores, mas, no centro, sobretudo, o centro que reúne os cabos de todos os leques-doutrinas. Se, ao invés de leque, compararmos cada sistema existente no mundo a uma pirâmide de base hexagonal, domina o todo quem se postar no ponto central que reúne os vértices de todas as pirâmides arrumadas numa pinha. Ir no rumo do centro da pinha de pirâmides, é encaminhar-se para a sabedoria, avançar para a periferia, em direção às bases delas, é ocupar-se do cientismo de que nasce a tecnologia e a divisão do trabalho..., trabalho que, sem perigo para quem domina o todo, pode ir até à automação e à robotização. O ócio que, altamente, prejudica o ignorante, favorece o sábio.

Todos os sistemas filosóficos são necessários à construção da síntese total, porque cada um deles mostra o Universo de um mirante, de uma perspectiva. Daí que, como diz Gusdorf, "o filósofo de mérito é aquele que em si realiza, por um momento, a conjunção das paralelas. Seu êxito é o resultado de uma justificação da existência, que transfigura o mundo, irradiando num sentido de verdade persuasiva que a todos empolga". Portanto, "a investigação filosófica impõe-se como tarefa justificar a existência, por outras palavras tende a assegurar uma correspondência entre a vida humana e uma verdade que a fundamente em valor. Não se trata de jogo de idéias, mas de tentativa para assumir a realidade humana integral e elevá-la de sua desordem congênita a uma ordem onde se exprima a obediência do espírito. A existência empírica é a ocasião inicial e a saída terminal, ao mesmo tempo que o

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critério. O mito platônico da caverna descreve a odisséia do filósofo que transita das incertezas do conhecimento usual à contemplação da verdade, e que volta de novo a ocupar seu posto na caverna entre os demais homens, onde sua presença daí por diante deve significar a visitação dos valores superiores de que ele teve comunicação". Eis, portanto, que "a meta da filosofia só pode encontrar-se na justificação do mundo e no equilíbrio de uma teodicéia". Daí que os verdadeiramente filósofos, os que se dedicam à contemplação metafísica, continuarão, como sempre foi, a dar forma nova, atualizada, à verdade, coetânea da cultura e a constituir uma como auditoria onde as ciências vão buscar suas definições basilares como as de "tempo, de espaço de objetividade, de causalidade, de individualidade, etc.", que é como já dizia o físico L. de Broglie.

O marxismo, mais ainda que Augusto Comte, intenta tocar a finado pela morte de Deus, da fé e da metafísica. Sua pretensão é a do extremado cientismo objetivo da realidade material. Com isto, ele personifica a mais tenaz esperança do século XIX. No entanto, Voltaire já dizia: "Se quereis discutir comigo, defini os vossos termos". Então, digam os marxistas o que significam as palavras "matéria", "dado biológico” e "dado humano", utilizados por Marx? E ainda, que respondam a esta questão: pode a finitude bastar-se a si mesma, sem algo maior de que ela proceda, e em que se fundamente? A consciência de finitude supõe que ela foi ultrapassada; e quem ultrapasse, vencendo o limite, cai em algo maior que existe em projeto ou esperança. Do mesmo modo que o nazismo tinha na raça um absoluto, e em face dela o indivíduo era nada, o marxismo fez do operariado outro absoluto, também com total desprezo para com o homem isolado. Raça e operariado se tornaram entes abstratos de razão, tal qual a humanidade em geral que é outra abstração. Foi pensando nisto que Henry Fonda declarou: "É mais fácil amar a Humanidade do que amar ao próximo".

O absoluto fica sempre sendo o último termo da jornada do espírito que medita; ainda quando se ocupa ele de negar Deus, para negá-lo, o supõe... e esta suposição fundamenta toda a alegação negativista. A este respeito, diz Gusdorf: "A recusa do Criador estriba no fato de a criação ter falhado: o mal, o sofrimento, a injustiça encontram-se por toda a parte no mundo humano. Daí a agressividade contra o Pai: Muito antes da análise de Freud, já Dostoiewiski mostrara a ligação entre o parricida e o regicida na afirmação niilista".

O problema se resolve com saber-se que o homem, na ânsia de dotar Deus de atributos infinitos, pôs nele qualidades conflitantes. Se Deus é amor, e o amor é substância, e a substância é livre,

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mutável, Deus é livre, mutável, pelo amor que é. E desta substância-amor, livre e mutável tudo se fez..., e tudo o que foi feito, continuou sendo livre e mutável... Mas se o amor fosse fixo, não, livre, imutável, ele não poderia ter-se mudado, individuado nos filhos da primeira criação. Deus, então, estaria só consigo... sem a sua criação ... porque criar é mudar algo em algo, e só pode mudar, o que for mutável.

O ser móvel, não fixo, mutável, é ser livre... livre para mudar. E o que é livre, não determinado, móvel até para tornar-se no oposto, possui ação imprevisível. A onisciência de Deus, portanto, não pode dominar aquilo que, por natureza, desde sempre, é livre. Daí que, não podendo criar Deus filhos do nada, porque seriam sempre nada, os criou da sua substância-amor; sendo o amor livre, mutável, os filhos sairiam, necessariamente, livres, não condicionados, não de-terminados. Como onde há liberdade, não há previsão, Deus não pode prever... a não ser por "cálculo" de probabilidade..., o que vai acontecer. Ora bem: os filhos caíram porque livres, e livres porque a onipotência de Deus não era tanta que os pudesse fazer escravos, não livres, visto como os fez do amor que é, o qual é livre. Com esta liberdade, a "onisciência" de Deus se limitou a só que é fixo, e, só por isto, pode ser previsto.

Deus não pode ser absolutamente todo-poderoso, porque não pode tornar o amor fixo, determinado, que, se o fizesse, ele próprio cessaria de ser livre, dado que ele é o amor. Deus não pode ser absolutamente onisciente, porque não pode prever, com toda certeza, como irá agir aquele que, por natureza, é livre..., porque feito da substância-amor, desde sempre, livre. Ora bem: ou se sai por este caminho, ou não haverá solução para atributos conflitantes. Não, "credo quia absurdum", como dizia Tertuliano, mas, creio porque a intuição, que é suprarracional, o aprova. Os postulados matemáticos, não sendo demonstráveis, hão que ser aceitos de fé. Ora, a ninguém ocorreria dizer que os postulados, os axiomas e os primeiros princípios das ciências são absurdos, por cridos de fé (“credo quia absurdum”).

Queira ou não queira, o homem se vê empenhado em tais problemas, podendo o Absoluto apresentar-se sob vários nomes, por ser o último termo da hierarquia, nada mais sendo admitido acima dele. Super-Homem, Raça, Proletariado, Humanidade, Liberdade, Ciência, Razão Absoluta, Vontade Absoluta, Eu Absoluto, Harmonia Absoluta, etc., onde estiver o horizonte distante, aí estará o Absoluto, no topo da hierarquia, e este será o Deus. "O revoltado, tal como Camus o retratou, luta com a sombra de Deus, que é ainda a imagem de Deus. Satã e seus consócios negam a Deus, não porque digam que Deus não exista, pois

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nele "crêm, e estremessem" (Tiago 2, 19), mas crêm para ser a negação, a contraditória, a adversativa daquilo que crêm. Também Lusbel, para ser contra, precisa daquilo contra o que se põe, precisa duma Referência que responda à pergunta: contra quem? Até para negar é preciso supor o que nega.

Antes, por conseguinte, de o cientista usar a lupa ou o microscópio no quase nada em que se ocupa, será obrigado, ainda que esperneando, protestando, a empregar a luneta de alcance para situar, no horizonte longínquo metafísico, os primeiros fundamentos da sua especialidade. Esta é a razão por que técnico de nenhuma especialidade poderá nortear o mundo para algum objetivo, por faltar-lhe a visão de conjunto que só a filosofia pode dar. “Tal como o rei Midas, que ao simples contacto transformava em ouro os objetos mais vulgares, o metafísico eleva ao absoluto tudo aquilo em que toca". Mais: "Carecendo de objeto específico, não possui (a filosofia) domínio próprio, pelo qual motivo se esquiva a toda tentativa de localização que pretendesse situá-la antes aqui do que ali. A falar verdade, a metafísica em toda a parte se sente em sua casa, corre pelas ruas com Sócrates, não desdenha de nada nem de ninguém. Basta a presença do filósofo para revestir de nova dignidade tudo aquilo em que ela toca, dado que qualquer objeto, por mínimo que seja, mercê deste contacto, escapa a si mesmo para se abrir a possibilidades imprevisíveis".

Aqui está como nada é isolado, tudo se relaciona e interliga em hierarquia, até o absoluto. Porém, isto o tecnólogo puro não pode enxergar, uma vez que "cada consciência especializada obriga ao uso de antolhos". Conseqüentemente, o fisicalismo, o cientismo, o tecnicismo e as caóticas ciências sociais, não podem salvar o mundo. Urge dar a palavra, de novo, embora que tarde, aos filósofos, agora que se comprovou o fracasso do positivismo que erigiu a ciência em absoluto, fazendo, com isto, a pior filosofia que já existiu. Daqui não há fugir "a sabedoria é uma exigência".

Os desertados da fé, por causa de uma teologia que não se renova, insuficiente para a atualidade já madura; teologia comodista, de salvação só pela fé, que, por isto, faz ponto de partida em figuras de retórica como, por exemplo, "o sangue de Cristo nos salva", como se o sangue sem a doutrina sem a efetiva vivência do amor salvasse quem quer que fosse; teologia que se perde, portanto, na pregação do amor recíproco só entre Cristo e o homem, mas não entre o homem e o homem (próximo); teologia de atalho paulino da salvação pela fé, ficando o amor, a indistinta integração de todos pelo amor, como coisa de somenos; os desertados de tal fé só podem achar novo norte na filosofia que, de modo renovado, justifique o mundo o qual, ainda, apesar (ou por causa) de tantas seitas religiosas em disputa, continua

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danosamente pervertido e mau. Visto o homem, por bem ou por mal - por bem, isto é, por

vontade própria; e por mal, ou seja, arrastado pelas orelhas ou pela beiçorra - visto o homem, queira ou não queira, ter que filosofar, o melhor será fazê-lo, prazerosamente, que é quando se instala o hábito dos vôos condoreiros que levam o acrólogo, vez por outra, a sobrevoar o mundo, a estar só consigo nas alturas, mui distante do bulício da cidade. Tome cada um exemplo no "estóico filósofo grego Cleanto (que) implorava de Zeus e do Destino a graça de seguir, por sua própria vontade e sem desfalecimento, os caminhos que lhe traçaram; "porque", acrescenta ele, "se eu perder a coragem e me revoltar, terei que segui-los exatamente do mesmo modo". Assim, com a filosofia à qual se há de ir, rindo ou chorando, visto como ela se impõe como uma necessidade urgente, não sendo dado ao homem furtar-se a esse imperativo.

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II - O SISTEMA

Desde que ocorre o "sismo" numa pessoa, desde que chegou a sua hora da verdade, a sua aléthea, ela entra em desequilíbrio intelectual e emocional, visto como o "tremor de terra" abala o universo pessoal em seus fundamentos. A crença que o indivíduo é, ("porque o homem é a sua crença" - Ortega) - crença que se não confunde com religião discutível; a crença que o homem é, não posta como objeto de discussão, uma vez abalada, obriga o homem a pôr-se em solidão, a criar pensamentos novos, a construir nova crença em que ele esteja em descanso. Esta crença é o novo universo pessoal, o sistema em que o indivíduo repousa.

No entanto, a pregação do sistema novo cria adeptos, faz pro-sélitos, organiza escola. Ainda que o pensador tenha para si não haver dito a última palavra, porque a história demonstra que os sistemas se sucedem no tempo, os adeptos, os discípulos se fazem ardorosos defensores do sistema, e alguns, até fanáticos. De um lado, então, temos o estabelecido, o sistema velho que resiste ser desalojado pelo novo, e, de outro, o novo que fere o combate decisivo.

Moisés escrevera que viria outro profeta como ele, e que quando isso ocorresse, que tal profeta novo fosse ouvido. Não adiantou nada esta recomendação, porque, quando veio Cristo, contra este se levantaram os escribas e os fariseus, exatamente os que deviam dar cumprimento aos ditames de Moisés. O sistema mosaico resistiu pelo seu misoneísmo à Boa Nova trazida aos homens. O cristianismo mostrou-se um anti-sistema, relativamente ao sistema de Moisés. A idéia do Deus-Jeová ciumento e vingativo, tinha que ceder o lugar ao Deus-Pai amoroso e solícito. O misoneísmo, a resistência ao novo, porém, matou Jesus, aos Apóstolos todos, exceto João Evangelista.

O cristianismo alastrou-se pelo mundo, graças ao trabalho de S. Paulo, o Apóstolo, segundo Gusdorf, "o inventor da teologia". Primeiro na Judéia, depois na Grécia, depois em Roma, a nova idéia foi aceita por poucos e barrada por muitos, e os mártires se sucederam, pois a Boa Nova de Cristo crucificado era escândalo para os judeus e loucura para os gregos, conforme o disse o mesmo Paulo.

Caída a civilização greco-romana, o cristianismo mostrou-se como crisálida da civilização sucessora, a ocidental, em que ainda estamos. Os deuses gregos foram amalgamados pelos santos da cristandade, o Evangelho passou a ser objeto de discussão de teólogos, organizou-se a Igreja, e esta começou a combater com ferro e fogo, toda sorte de interpretação que não fosse a sua, a dos teólogos organizados que agiam em nome do Absoluto, de Deus.

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Eis, pois, que organização é sistematização, é codificação, é construção da unidade total ou absoluta. E os absolutismos, sejam religiosos, sejam filosóficos, sejam políticos, são a causa de todo o genocídio perpetrado em todos os tempos e lugares. Genocídio é qualquer crime praticado contra a humanidade, tendo em vista destruir, seja no todo, seja em parte, grupos étnicos, raciais ou religiosos.

Calvino, em sua Reforma religiosa, fundamentava seu sistema na premissa de que Deus é onisciente. Disto decorre que Deus conhece não só o passado, senão, também, o futuro. Consequentemente, ele sabe, de antemão, quais os homens que se hão de salvar, e quais os que se hão de perder. Logo, os homens já se acham, aos olhos de Deus, inexoravelmente classificados em predestinados e precitos. Este mesmo pensamento enunciou-o Vieira: "Todos os homens quantos há, e houve, e há de haver no mundo, ou são predestinados que se hão de salvar, ou são precitos que se hão de perder". Os salvos, os eleitos, os predestinados à salvação, já, nesta vida, recebem o amparo e proteção divinos, conferindo-lhes Deus o bem-estar, por meio das riquezas, do renome e do prestígio.

E vai já Calvino folhear a Escritura, em busca dos pontos que comprovem este raciocínio seu absolutista, tais como os em que a Bíblia faz distinção entre filhos de Deus e filhos dos homens: "Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, e tomaram para si mulheres" (Gên. 6, 2); "Havia naqueles dias gigantes na terra, e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens, e delas geraram filhos"; (Gên. 6, 4). Na parábola do mordomo infiel Jesus faz separação entre filhos deste mundo e filhos da luz (Luc. 16, 8), e em Mateus 15, 26, Cristo declara não ser bom lançar o pão dos filhos aos cachorrinhos, isto, depois de afirmar que veio para "as ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mat. 15, 24). As ovelhas da casa de Israel, ainda que perdidas, serão salvas por estarem a isto predestinadas; os precitos ou condenados são cachorrinhos aos quais não é bom desperdiçar o pão dos filhos. Eis aí: filhos da luz, filhos de Deus, os filhos e ovelhas perdidas da casa de Israel, são os predestinados à salvação; pela recíproca, os filhos dos homens, os filhos deste mundo, os cachorrinhos, são os condenados sem remissão possível, porque de tal modo os antevê a presciência divina.

Esta é a razão por que “o senhor sustém os justos” (Sal 37, 17); “o Senhor conhece os dias dos retos, e sua herança permanecerá para sempre” (Sal 37, 18); “não serão envergonhados nos dias maus, e nos dias de fome se fartarão” (Sal 37, 19); “fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a

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sua descendência a mendigar o pão”. (Sal 37, 25); “o justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro do Líbano” (Sal 92, 12); “a luz semeia-se para o justo, e a alegria para os retos de coração” (Sal 97, 11); “a maldição do senhor habita na casa do ímpio, mas a habitação dos justos ele abençoará” (Prov 3, 33); “a memória do justo é abençoada, ma so nome dos ímpios apodrecerá” (Prov 10, 7); “transtornados serão os ímpios e não serão mais, mas a casa dos justos permanecerá (Prov 12, 7); “nenhuma desgraça acontecerá ao justo” (Prov 12, 21); “ao justo não é bom punir” (Prov 17, 26); “nem oprimir o justo no juízo” (Prov 18, 5); “a vereda dos justos é plana” (Is 26, 7). Portanto, conclui Calvino, as riquezas são um sunal de salvação. Pela recíproca, a pobreza é sinal de perdição.

Ora, ninguém quer ficar sem o sinal do eleito, e tocam todos os calvinistas, por todos os meios, a buscar as riquezas, empregando até a usura que, na Idade Média, era tida por um pecado tão feio como a da fornicação. Co isto, se forjaram todas as regras do capitalismo moderno, com bancos, títulos, promissórias, ações, etc., conforme o diz Vianna Moog em “Bandeirantes e Pioneiros”.

Em contrapartida, os pobres, os aflitos, os famintos, os deserdados da sorte, todos eram precitos, réprobos, esquecidos de Deus, condenados aos infernos sem remissão possível, pois como havia de frustrar-se a previsão divina? Os índios eram precitos, réprobos, filhos do Diabo. Por que logo, não matá-los? Por que gozar dos bens da vida, quem já se achava abismado na morte eterna? E os negros? Como seria possível aos salvos brancos ligarem-se a eles, já, de si, demônios pretos reluzentes?

Para reforço da tese calvinista, o conde de Gobineau e outros tinham escrito a respeito da superioridade da raça branca sobre as demais. Por mais isto, o negro e o índio deviam ou ser escravos, ou exterminados. Os “salvos” se fizeram absolutos, e os brancos, idem. E por causa destes absolutismos estúpidos, os Estados Unidos estão pagando quanto tomaram emprestado a Calvino e Gobineau.

Sempre o alvo da filosofia foi o absoluto; contudo, os filósofos não fizeram outra coisa que absolutizar um ou outro aspecto, uma ou outra perspectiva do Ser, visto que cada filósofo se postou num mirante que dá para o universo. Desde que Parmênides descobriu na doutrina de Heráclito a contradição lógica de o que é, não é, porque tudo muda sempre num devir constante, ele assentou que o ser é, e o não-ser não é, tirando desta intuição basilar toda a sua filosofia dos dois mundos: o inteligível da razão, e o sensível dos sentidos. Esta

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dicotomia praticada no real constituiu o pecado original da filosofia, de que decorre os demais pecados, haja vista, o de fracionar o Ser nos vários absolutos, cada um tendente a encher, só, consigo, o universo inteiro. Desde Parmênides, então, só o mundo inteligível ou mundo racional passou a ser o que vale. E o resto imensamente maior igualmente importante? Pois todo esse "resto'* foi havido como sendo o mundo de irrealidades, o mundo de sombras (Platão), o mundo do não ser. Desde aí, cada sistema filosófico passou a constituir-se um absoluto, detentor exclusivo da verdade, e, como tal, não podia transigir com os outros sistemas igualmente absolutos. Daí que todo absolutista é um surdo que fala mas não escuta, não sendo possível o diálogo, e sim só o monólogo de solipsista.

Descartes, partindo do seu cogito, geometrizou o mundo, e deu o seu sistema como um absoluto; o racionalismo puro, cartesiano, e se fazendo absoluto, outra vez, deixou de lado o imenso "resto" da natureza, relegado ao quadro das "idéias obscuras", porque não redutíveis a discurso, a princípios de razão. Embora Descartes cuidasse haver dito a última palavra, seguiu-se a ele toda a cadeia de filósofos idealistas até Kant que, outra vez, imaginou haver dado o xeque-mate final à verdade. Não o deu, porém, e Schelling achou que o absoluto é a Harmonia; Fichte, que ele é o Eu; para Schopenhauer e para Nietzsche, o absoluto é a Vontade, e para Hegel, a Razão.

O mundo cansado de absolutismos, deu razão a Augusto Comte que, por sua vez, fez do saber científico, positivo, outro absoluto. Contra o absolutismo capitalista, opõe Marx o operariado como outro absoluto, em nome do qual, de novo, se praticou toda a sorte de barbaridades genocídicas, e ainda hoje há campos de concentração nos países comunistas.

Disse Hegel que "todo o real é racional, e todo o racional é real". Sendo a história uma realidade, uma facticidade, é racional. Então, demarcou-se, a priori (que é a moda idealista), o caminho pelo qual andaria a história. Criaram-se, deste modo, os Estados a priori, absolutistas, o nazi-fascismo pela direita, e, pela esquerda, o comunismo. Mas a história desenvolve-se pelo ensaio-e-erro animal (Toynbee), donde vem que a civilização é uma empresa humana, e será do modo como a fizerem os homens, para o bem ou para o mal. Como era de esperar-se, os dois absolutismos estatais, o da direita e o da esquerda, não deixaram de apresentar o saldo vultoso de genocídios nos tempos modernos.

Se, como diz Hegel, "quanto mais geral mais real, e quanto menos geral menos real", Deus seria a máxima generalidade, e, por conseguinte, a realidade suma, absoluta. Abaixo de Deus, o mais geral é o Estado. Daí que o chefe de Estado se faz por eleição

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divina. A história, que é racional (Hegel), movida por uma como mão de Deus, coloca no poder o melhor, e o mais apto. Assim, a história ou a vida (?) elevou ao poder Hitler, e este, como vinha da parte de Deus (!), se fez absoluto num Estado absoluto. Fanatizado o povo alemão com esta nova crença, e ainda, com a da "super-raça" ariana, com base em Gobineau e demais racistas, a Alemanha afrontou o mundo com a Segunda Guerra. De Nietzsche os ideólogos alemães tiraram a moral da força: "a justiça é o desassombro do forte;... ser justo é ser forte". De Hegel tiraram o Estado absoluto; e o mundo viu o quanto lhe custou em sangue, dores e lágrimas, tal absolutismo.

Os sistemas, os absolutismos, como se vê, foram as causas de todos os males do mundo, e de todos os crimes praticados contra a humanidade. Sempre, por toda parte, uma nação, um Estado, uma religião, um povo, uma filosofia, uma raça se fizeram absolutos. Face a isto, basta darmos largas ao pensamento, focalizando o transcurso do homem no espaço e no tempo, para constatarmos ser o genocídio uma constante da história. Povos inteiros constituídos de civis, velhos, mulheres e crianças, foram passados pelas armas, ou escravizados, ou expatriados, sempre quando aconteceu serem dominados, militarmente, por um outro povo mais forte que se fez absoluto.

Lá no Egito, o povo hebreu que ia bem sob a dominação dos hiczos, caiu em desgraça, quando estes hiczos foram expulsos pelos egípcios; e como se não bastasse a escravidão de que foram vítimas, os israelitas ouviram, atônitos, perplexos, a leitura do decreto que mandava serem mortos todos os machos nascidos do povo escravizado.

É popularmente famosa a matança dos inocentes, por Herodes, na esperança de que Jesus estivesse no meio deles; também o é o expatriamento e escravidão dos judeus em Babilônia, até que Ciro, o persa, os libertou, e, mais tarde, sua dispersão pelo mundo, após a queda de Jerusalém, no ano 70 d. C., por Tito Vespasiano.

Dos que adoravam o bezerro-de-ouro fabricado por Arão, com as arrecadas trazidas dos egípcios, nenhum houve que ficasse em pé; e em seu furor de intolerância, até as Tábuas da Lei o absolutista Moisés quebrou, quando viu seu povo retornando à idolatria egípcia. Ganhou notoriedade a tentativa romana, selvagem, medonha, de sufocar e fazer extinguir o cristianismo nascente, nas arenas. Todavia, tanto que venceu o cristianismo e se fez absoluto, eis surge no seu seio o malsinado Tribunal do Santo Ofício ou Santa Inquisição, criado com o fim de acabar, por meio de horrendas torturas e fogueiras, com os hereges, isto é, com aqueles que distoavam do pensamento oficial da Igreja absoluta. O morticínio de

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protestantes na "Noite de São Bartolomeu", em França, ficou famoso como ato discricionário e absolutista do Estado e da Igreja. Contudo, "quando Luis XIV, recorrendo aos métodos do barbarismo, extirpou o Protestantismo do solo espiritual da França nada mais fez do que limpar o terreno para uma colheita alternativa de cepticismo. A revogação do Édito de Nantes foi seguida, no prazo de nove anos, pelo nascimento de Voltaire" (Toinbee). A matança dos índios peles-vermelhas, nas duas margens do Mississipi, é assunto fartamente explorado pelos próprios norte-americanos em filmes de cinema, embora procurem eles, às mais das vezes, torcer a verdade histórica que atesta sua bárbara selvageria. Afinal, quem habitava a terra antes, eram os índios; os norte-americanos vieram depois, e a possuíram pela força, porque a mundo é dos fortes, porque, conforme o diz Nietzche, "a justiça é o desassombro do forte".

O fenômeno histórico do absolutismo é generalizado, e Toynbee transcreve em sua obra "Um Estudo de História", a carta absolutista e egocêntrica do Imperador da China, Chien Lung, escrita ao Rei Jorge III, antes que a Inglaterra, um século mais tarde, ditasse o tratado de comércio com a China, em termos ingleses, e à boca dos canhões ingleses. E que comércio foi esse? A Inglaterra absolutista e imoral impôs à China comprar-lhe seus produtos, entre os quais o ópio...; e por causa da recusa da China, em comprar este narcótico, a Inglaterra fez-lhe guerra, a "guerra do ópio".

Como Ch'ien Lung e os chineses, "os judeus também sofreram da ilusão de não serem um, mas o "povo eleito". Aqueles que chamamos "nativos", chamavam eles "gentios", e chamavam os gregos "bárbaros". Sempre, por toda parte, a inspiração do absoluto. As pirâmides egípcias que, de certo, sobreviverão ao próprio homem, estavam lá antes de Abraão, são atestados de autocracias absolutas; "as pirâmides imortalizaram esses autocratas, não como deuses eternos, mas como causadores do emagrecimento dos pobres. A sua má reputação transmitiu-se ao folclore egipcíaco, até alcançar o seu verdadeiro destino, nas páginas imortais de Herôdoto".

Não há povo vencido em batalha decisiva, contra o qual não se tivesse praticado o genocídio por parte do vencedor absoluto que, até, não raro, se fazia passar por deus.

Por que, assim? Porque a natureza animal de que o homem emergiu em parte, e em parte se acha ainda submerso, atesta-nos que Nietzsche tem razão, e a "justiça é o desassombro do forte", e, quando não pode a força, pode a astúcia que é a mentira, o engano, o ludíbrio, a falsidade. "Porque (como diz Vieira) os homens são mais feras que as feras, e mais demônios que os mesmos demônios. Os demônios não têm carne nem sangue, porque são espíritos; as feras não têm

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entendimento nem vontade, porque se governam por instinto; e os homens são piores demônios que os demônios, porque são demônios com carne e sangue, e são piores feras que as feras, porque são feras com entendimento e vontade". Porque, como diz Wayne Kilbourne, "o nome científico do bicho-homem, animal racional, é "porcus bipedus". Porque o homem é dragontino desde a sua empírea inversão, e, de todo, esse dragão não se desvirou do avesso, negando-se de perverso e mau.

A crença na força absolutizou-se num Deus-de-Força, Deus guerreiro e Senhor dos exércitos; Deus-Sol (Osiris) cuja esposa era Isis, dos quais nasceu Horos que era um falcão, ou homem com cabeça de falcão... de cariz agressivo, olhos coruscantes, asas poderosas e garras e bico temerosos, ameaçadores. Muitos faraós se deram como sendo a encarnação de Horos. Deus-Força-Vital, Deus-da-Fecundidade..., donde os cultos fálicos, donde, também, as deusas... e as orgias de bacantes ... e a prostituição sagrada. Deus-Fogo-Devorador, Deus-Luz-Calor filho de Deus-Raio; Deus Sol-da-Força, fanal do universo; Deus-Razão-Pura, Deus-Beleza, Deus-Harmonia, Deus-Vontade, Deus-Razão, Deus-Sol-da-Vida, Deus-Sol-de-Justiça, Deus-Pai-de-Amor, Deus-de-Misericórdia, Deus-Amor ou Amor-que-é-Deus. Eis a seqüência da evolução humana... tomada em função do seu Horizonte, da sua Referência. Ainda hoje Cristo é representado com a cabeça irradiando luz solar, e seus Santos, mais modestos que ele, nimbam-se da luz lunar de suave albor.

Mas, de todo ainda hoje não se acabou da história o capitulo da força, e quando se procura justificar a um homem que ele deve tornar-se sábio, a motivação infalível é a de que saber é poder; é a de que o homem se fez poderoso na face da Terra, não por ser bom, mas por sua inteligência; na natureza não há lugar para a bondade, exceto a do animal por suas crias, não lhe ficando mui distante o homem. Também a justiça se apóia na força... em que teve origem, sendo ela, outrora, a vontade do forte, do poderoso, para quem a justiça era sua espada..., a mesma cuja ponta é fulcro da balança que, ainda hoje, Têmis tem na mão.

"Ser justo é ser farte", o entendia Nietzsche, em vez de ser forte é ser justo; em lugar de dizer que o homem justo é forte, Nietzsche dizia que "o homem forte é justo"..., não importando que arbitrariedades viesse a praticar.

Ser justo é ser sábio, dizia Platão, certo de que a sabedoria é tudo. Ser justo é ser bom, enuncia Cristo, para quem, o amor, a caridade, o perdão são a força do justo. Contudo, a teoria levantada da prática vivida pelos cristãos, é outra, diferente daquela de Cristo; ou, como diz Joelmir Beting, "na prática a teoria é outra". Basta um

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lanço de olhos sobre o nosso mundo de violências, para ver quanto ainda estamos distanciados de Platão, de Cristo.

Que horrores não se praticaram na noite dos tempos, quando tribos inimigas de homens primitivos se defrontavam? O homem gastou, para formar-se, do tronco macacóide, um milhão de anos; todavia, desde há cem mil anos ele se acha, biologicamente, tal qual é hoje. Contudo, a história da civilização data apenas de dez mil anos. Se o aparecimento do homo sapiens data de cem mil anos (descontados os novecentos mil da sua formação), e sua história tem apenas dez mil anos, que teria feito ele com o seu varapau, com o seu machado de pedra, com o seu arco e flecha, com o fogo que domesticou, durante noventa mil anos que a próto-história silencia? Por que se fez ele antropófago, quando seus ancestrais hominidas macacóides não o eram? Por que inaudita desgraça foi aflorar o troglodita das cavernas do esclarecido povo alemão, de sorte que, com sua conivência, sem nenhum protesto, seis milhões de judeus indefesos pereceram, por todas as maneiras..., agora que os recursos da tecnologia ampliou os poderes do "bicho-homem", do "porcus bipedus", para além dos da imaginação? Estaria, acaso, certo Buffon para quem "o homem é um macaco degenerado"? Depois de tudo o que nos atesta a história, que se deve entender por civilização? Por que acontece o genocídio? Qual a causa dessa enfermidade social que, moralmente, nos coloca abaixo do gibão.

O macaco dócil, meigo, amigo do homem, como uma criança de boa índole e comportada?

O sistema é a causa, porque todo o sistema tende a ser um absoluto, seja ele político, religioso, filosófico. Como, então, evitar o genocídio? Pois não pode ser senão evitando os absolutismos de quaisquer carizes. Logo, é evitar os sistemas. E a história o demonstra: os sistemas todos são relativos, donde vem que seus absolutismos são um erro de perspectiva que consiste em tomar o horizonte distante como sendo o lugar em que a Terra chata se acaba. O horizonte circular, rodeando o observador por todos os lados, a este se afigura como os bordos elevados de desmedida escudela. A forma redonda da Terra, até há pouco, a todos passava por uma abstração, porque a experiência de televisar e de fotografar a Terra das alturas e da Lua, é de ontem.

Augusto Comte pretendendo relativisar tudo, caiu no engano de fazer do saber científico, positivo, outro absoluto. Pensou ele poder reduzir a vida, o homem individual e coletivo a puros princípios de razão tão exatos, quanto os das ciências físico-matemáticas. "Mostrarei que existem leis tão determinadas para o desenvolvimento da espécie humana como para a queda de uma

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pedra" (A. Comte). Porém, a história o desmentiu, mostrando que a antropologia, a ciência do homem, a bem dizer, não é ciência, visto como se abre num leque de ciências ainda mais particulares, cujas leis valem só para o aqui e o agora..., e não, para o "daqui a pouco", e para o "ali mais além". Leis forjadas pelo homem, e por ele revogadas, a cada passo, na política, no direito, na economia, na história, são leis com letra minúscula, ou "leis"..., assim, entre aspas..., que a gente escreve com um complacente sorriso.

Hegel fez da razão um absoluto; no entanto, sua "lei" histórica da tese, antítese e síntese, se reduz ao ensaio-e-erro animal. Pois claro: começa-se por fazer uma tentativa que não dá certo - é a tese; depois se vai fazer exatamente o contrário, o oposto, que também não dá - é a antítese; só, então, se vai juntar o certo da tese com o certo da antítese para construir-se a síntese. Que é isto, senão ensaio-e-erro?

Dir-se-á, então, que, neste caso, nem o próprio pensamento é racional, dado o seu princípio de contradição que o leva a proceder, também, dialeticamente, por tese, antítese e síntese. E está certa esta conclusão, porque o pensamento dialético faz em abstrato, o que o animal faz em concreto. O ensaio-e-erro abstrato é pensamento; o pensamento concreto é ensaio-e-erro. Daí serem os filósofos concordes em que a ação é uma reflexão ou meditação enfraquecida, no passo que a contemplação ou reflexão é uma ação reforçada. O tempo marca o ritmo do movimento, porque a ação é mais lenta que o pensamento. E como a velocidade do ato de pensar aumenta sempre, chegamos a intuição relampagueante, quase que sem tempo. A intuição, pois, é o raciocínio elevado de potência, veloz como o raio. Usando a mesma relação vista entre ação e pensamento, podemos definir a intuição como um raciocínio reforçado, e, o raciocínio, como uma intuição enfraquecida. De outro modo: a ação é morosa, o raciocínio, rápido, a intuição, fugacíssima. Ou ainda: a ação é linear, a razão, superfície, e a intuição, volume. Daí o intuitivo sentir-se como que levantado sobre o planimétrico da razão, e em tudo o que toca, como o rei Midas, se transforma no ouro da totalidade (Gusdorf). Deste modo, o pensamento, quanto à velocidade, acha-se escalonado do animal ao gênio. O pensamento-muscular de um homem intelectualmente inferior, não poderia, nunca, entender como é o desenrolar do raciocínio num cérebro de gênio, que, de um estalo, salta toda a cadeia que parte duma premissa e vai às suas mais remotas conseqüências. Ou, vice-versa, quando, de um fato isolado qualquer, se remonta ao princípio absoluto, geral, abstrato, como o coriscar de um raio. Tal o diz Milton: "Pelo discurso enquanto o homem pesquisa, / o anjo pela

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intuição longe penetra".

Como é impossível reduzir o volume ao plano, sem a perda duma dimensão, o intuitivo esfalfa-se por explicar suas visões, sem que as possa alcançar o pensamento racional. Para o pensamento discursivo, os dados imediatos da consciência não passam de mitos, tal qual ocorreu com a formiga da parábola, que não dispunha dos recursos da abelha para cientificar-se de que a esfera existe.

Face a tudo isto, ficou clara a nossa afirmação de que o pensamento discursivo faz em abstrato, o que o animal faz em concreto, donde vem que a ação é um pensamento lerdo, tardonho, moroso, enfraquecido, no passo que o pensamento é uma ação abstrata, velocíssima, tanto mais fugaz, relampagueante, quanto mais se acerca da intuição do gênio. Ora bem: a história não se desenvolve in abstractu, e sim, in concretu; então ela procede como o animal ao resolver os seus problemas, in concretu, pelo ensaio-e-erro.

Não sendo a história racional, todos os sistemas políticos construídos a priori, exclusivistas, intolerantes e totalitários, são antinaturais, arbitrários e errados. A absolutização filosófica de um ponto de vista, de uma perspectiva, foi a causa que continua atuante ainda, de todos os genocídios registrados ou não pela história.

Dado que o sistema, tido por absoluto numa época, mostra-se superado e relativo na época seguinte; dado que a aceitação de um sistema, como absoluto, é a causa da violência genocídica praticada contra os partidários doutros sistemas; o caso seria de exclamarmos: Abaixo o sistema! Nada de sistema!... Mas, que é um sistema? Um sistema é uma unidade. E, então, que é uma unidade?

Peguemos na mão um objeto qualquer: uma caneta-tinteiro, por exemplo. Examinando-a, verificamos que ela é uma unidade, um todo. Porém, esse todo, essa unidade compõe-se de unidades menores que são o tubo de tinta, a pena, a tampa e a presilha. A pena e o tubo de tinta são unidades fundamentais ou essenciais, porque sem elas a caneta não escreve, já a tampa com sua presilha são unidades acessórias; a tampa serve para proteger a pena e para alongar a caneta, quando em uso; a presilha, para fixar a caneta nos bordos do bolso do paletó ou da camisa, quando a carregamos. Todavia, a pena, em si mesma, também é uma unidade, tal como o tubo de tinta, como a tampa e como a presilha. Então, podemos fazer o seguinte enunciado, verdadeiro, para o qual não há exceção: toda unidade resulta da integração de unidades menores.

O corpo humano é uma unidade composta de unidades menores que são os órgãos; cada órgão resulta, também, da integração de unidades menores, podendo-se ir até às células, às moléculas, aos

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átomos. Do mesmo modo que descemos, podemos subir: elétrons e prótons formam átomos; átomos mais átomos dão moléculas. Átomos, moléculas, moléculas gigantes, micela, célula, órgão; corpo humano; eis como podemos enunciar a mesma verdade vista da perspectiva oposta: toda unidade entra na composição de unidades maiores. O enunciado completo agora: toda unidade resulta da integração de unidades menores, e integra-se nas unidades maiores.

Este enunciado, embora verdadeiro, merece ainda um reparo. Quando uma unidade se associa a uma outra para ambas formarem uma terceira, esta última, resultante da combinação, não é uma soma, e sim, um produto; porque, na unidade-sistema resultante, aparecem propriedades novas não encontráveis nas unidades isoladas. Basta examinar, ao microscópio, as maravilhosas e variadas formações cristalinas da neve, para concluirmos que aquele complexo não existe nem nos átomos de hidrogênio, nem no de oxigênio isolados que, depois, se combinaram para formar a molécula de água. Como apareceram componentes novos no produto da reação que não existiam nos reagentes separados, segue-se que uma integração não é uma soma, mas, um produto. Toda unidade-sistema, pois, é um produto; e quando esta se combina à outra, forma outro produto. Então, agora, o enunciado completo fica assim:

Todo sistema é um produto resultante da combinação entre si de dois outros sistemas menores, e, ao mesmo tempo, é o combinador que, com seu combinando, forma outro produto, que é o sistema maior.

Feito este reparo, podemos prosseguir com a explanação sintética, simplista, que vínhamos fazendo.

A unidade-homem se associa à sua oposta e complementar unidade-mulher, ambas de igual valor, para formarem uma outra unidade de espécie superior, que é a família. O homem é igual à mulher em importância, em valor, porque ambas unidades, homem e mulher, pertencem ao mesmo nível hierárquico, porém, opostas e complementares. Iguais em importância, iguais em valor, mas desiguais por função.

Assim, podemos entender que há uma hierarquia de valores: a caneta, como uma unidade, é mais importante, de mais valor, que suas partes separadas. O homem e a mulher isolados são menos importantes que a família; as famílias, em separado, são menos importantes que o grupo social que as integra em unidade. Eis a hierarquia ascendente de valores: homem, mulher, família, grupo social, comunidade civil, cidade, Estado, Nação, Sociedade das Nações. Outro exemplo: elétron, próton, átomo, molécula, grão-de-terra, rocha, planeta, sistema solar, sistema galáctico, sistema de galáxias, universo físico.

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Qualquer que seja o nosso ponto de vista, deparamos sempre com hierarquias de unidades. E unidade é sinônimo de organização, de cosmo, de universo, de sistema, de mundo, de ser. Pela recíproca, a ausência de unidade é desorganização, imundo (não-mundo), caos, não-ser. Tudo isto, agora, numa visão panorâmica, unitária, em função do homem:

Nosso universo material nasceu num ponto minúsculo onde pôde formar-se a primeira partícula subatômica, no seio caótico do arquidilúvio de energias acantonantes, vindas da periferia dos espaços. Formaram-se, primeiro, os elétrons, e, pouco mais, os prótons..., simples de começo, e mais complexos depois. E quando o Colosso Primitivo se expandiu, diminuindo a pressão e o calor medonhos, então, puderam os átomos formar-se. Agora os átomos se combinam formando moléculas que são novas construções, novos cosmos, novas unidades, novos sistemas superiores, hierarquicamente, em relação aos dos átomos. Elétrons, prótons, átomos, moléculas, moléculas gigantes, micela, vírus, célula. As células são universos, unidades, mundos, cosmos, sistemas que integram, na sua estrutura, toda a hierarquia descendente de sistemas ou unidades menores.

Os entes unicelulares, nas bases da vida, se reproduzem e se associam em colônias; as colônias invaginam-se, e pela abertura boca-ânus, os alimentos entram, e saem as dejeções. Pouco mais, que é após milhões de anos, a forma invaginada colonial, semelhante a um saco, abre-se na extremidade oposta; o saco rompe-se no fundo, tomando-se no tubo verminoso. Tais vermóides se difundem pelas águas, variam, mutam-se, saindo duma espécie destes, presume-se, os seres cartilaginosos, um dos quais evoluiu para seres superiores: peixes, anfíbios, répteis, aves, mamíferos e homem.

Os homens se associam em clãs, em tribos. As tribos juntam-se entre si, formando cidades-estados, e estas se unificam em Estados. As Nações-Estados da atualidade ir-se-ão integrar na Unidade Mundial, no Estado Ecumênico, na Federação das Nações, porque a Lei cósmica, ou Eros, que é o princípio de integração, impõe a unidade, a ordem (órgão, organismo, cosmo, sistema), e organização é sempre unificação, integração em unidade superior.

O caos existe, enquanto não se forma o cosmo, o sistema, o mundo cujo antônimo é imundo ou caos. As primeiras unidades formadas são cosmos, porém, rodeadas pelo caos do que ainda está por formar-se. Deste modo, no nível dos átomos, há ainda o caos molecular; no nível das moléculas, há ainda o caos das micelas. A organização em sistema vem de baixo para cima, quando está em processo a evolução. Isto no universo, isto na vida, no social, na

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política, nas idéias, na filosofia. Ou o sistema, ou o caos. Todo o sistema é totalitário de si abaixo, relativamente ao que

totaliza; é relativo, porém, de si a cima, com vistas à unidade maior totalizante que o engloba. Nenhum sistema é totalitário em relação a outros sistemas paralelos, sobretudo, o oposto, colocado no mesmo nível hierárquico, com o qual terá de integrar-se para a formação de um todo ou sistema maior.

Deste modo, está correta a observação de Gusdorf, embora não o esteja a sua ironia. Diz sua observação que "o absoluto não o é absolutamente, e o relativo não o é senão relativamente"; isto foi que ele observou da leitura dos filósofos; agora, a sua ironia: "de sorte que o pensador, brincando com as palavras que previamente dotou de elasticidade suficiente, pode prometer a seus discípulos a vida eterna". Isto quer dizer: com tal artimanha ou matreirice, o filósofo "pode prometer a seus discípulos a vida eterna" que, certamente, não existe, porque, em verdade, "morreu acabou". Então, se é assim, mandemos às urtigas o homem, o mundo e Deus, passando nós a viver sem perguntar, como o faz o animal, em vez de azucrinar-nos com escaldantes pensamentos, com importunas insônias, com trabalhosas noites indormidas. Conquanto atilado, o erudito Gusdorf não viu isto: nada a ver com ele, se não tivesse participação nenhuma do absoluto

Se o absoluto o fosse absolutamente; se o relativo não tivesse, sendo-lhe, desde sempre, inligado, estanque, separado, bastando-se a si mesmo, sendo absolutamente relativo, não haveria passo entre a criatura e o Criador e vice-versa, sendo ambos estranhos um ao outro. Não havendo a relação Criador-criatura, nem o Criador seria Criador, nem a criatura, criatura. Neste caso, a criatura ter-se-ia feito a si mesma; ou melhor: a criatura era desde sempre, com que ela ficaria sendo absoluta. Onde estaria, então, o relativo? Como se poderia ter idéia do Absoluto para além da natureza também absoluta?... um Absoluto absolutamente desnecessário, e, por isto, sem nenhuma precisão de ser invocado como fundamento?

Fazendo a natureza um absoluto, ela fica sendo Deus, instância suprema de apelação, última referência do homem, e foi fundado nela que Trasímaco, Nietzsche e Maquiavel deduziram a moral da força, a moral da astúcia. De fato, Deus se acha imanente nesta natureza, neste universo nosso conhecido, porém, invertido; contudo, a criação não é só o para nós visível; ela abrange o universo maior e invisível em que habitam os dois terços de anjos não caídos. Nosso universo mais aquele dos anjos formam o que chamamos a natureza, a criação. Nesta, Deus se acha imanente,

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porque a tirou da sua Substância-Amor. Afora este aspecto de imanência, há o maior, da transcendência, pelo qual Deus é o Ser... absoluto, eterno e infinito, muito e muito além de universo e criação finitos, e temporais, e causais.

Eis, então, que "o absoluto não o é absolutamente", porque se acha presente em parte, em parte enfrascado no relativo. Se assim não fosse, o relativo seria estranho a Deus, como coisa alheia ao Ser por excelência. Pela mesma razão, "O relativo não o é senão relativamente", visto participar do Ser absoluto com o qual se acha substancialmente conjugado como a onda e o oceano, como o corpo do homem e a terra donde ele saiu. Não se trata, pois, de estar "brincando com as palavras", senhor Gusdorf.

Para que dois sistemas se integrem, é preciso que sejam opostos e complementares; porém, enquanto ainda não se integram na unidade maior, são rivais e brigam entre si. A luta de dois sistemas antagônicos é o esforço para alcançar a síntese, para tomar possível a integração. O antagonismo é caos, e dura enquanto não se formar o cosmo ou sistema de espécie superior integrante. Os vários sistemas filosóficos são absolutistas, porque se olham de si abaixo; são absolutos em relação (?) a tudo aquilo que totalizam; brigam entre si, porque não se integraram ainda na unidade, no sistema maior totalizante. A um lanço de olhos, nenhum filósofo tem razão, porque todos se acham separados, adversários, em regime mútuo de exclusão; de outro lanço, todos estão certos, e têm razão, porque a gente os vê interligados, integrados no meta-sistema que os engloba a todos. Achar o nexo, o modo de conciliação, de interligação, de integração de todos os sistemas na unidade-mor, é o que, no momento, cumpre fazer..., e com urgência!

Se tudo é unidade ou sistema, sem nenhuma exceção, e onde não houver sistema ou unidade, há o caos, já se vê, a causa do genocídio não pode ser procurada no sistema, como há pouco o fizemos, e sim na intransigência, na intolerância, no egoísmo de quem faz, do seu, um tudo, de quem faz, do seu, um sistema absoluto. Se um sistema, não importa que lugar ocupe na hierarquia, se fizer absoluto, ele excluirá tudo o que não é si, e terá aquele que se lhe opõe, por contra-sistema, por anti-sistema, por inimigo que lhe cumpre eliminar.

O genocídio, pois, resulta da intransigência daquele cujo egoísmo não se expandiu ainda, do ignorante, do fanático, do que faz do seu arbítrio, lei. O homem de egoísmo dilatado, de vistas amplas, largas, o homem sábio, ainda que se ache a serviço de um sistema..., porque lhe cumpre associar-se, será magnânimo, indulgente, tolerante, porque harto entende que o seu é um apenas, dentre tantos, estando

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sempre disposto a procurar o entalhe ou dente com que o seu se ligue a todos, e, sobretudo, ao sistema oposto, inimigo fidagal do seu.

Salomão, por esta causa, permitiu às mulheres - concubinas e esposas - do seu harém (mais harém político que lascivo, pois não podia o sábio recusar as concubinas e as esposas que os reis vizinhos lhe ofertavam, como selo dos tratados de amizade grande) ... por esta causa permitiu a tais mulheres darem culto aos deuses pátrios de suas terras natais. Não agiu o grande rei "por idólatras belas iludido", como pensara Milton (Paraíso Perdido - Canto 1), porque o sábio não se ilude quando cede às necessidades exigentes da cultura de outrem. Foi também por esta causa que Cristo se deixou batizar por João no batismo do arrependimento (!), e quando João, surpreendido, lhe diz: eu devo ir a ti, e tu vens a mim?! Cristo lhe responde: João, deixa por agora... as razões... que são de costume, de consenso, de cultura, pois me é agora útil pertencer à tua seita, à seita dos essênios.

Tal qual, Salomão, o rei sábio, propiciou a tão difícil paz, porque recalcitrou contra o exclusivismo de quantos fanáticos havia então, os quais se sucederam pelo tempo em fora, a condenar aquele que tolerou conviver com todos os de outros deuses, por considerar a estes como subalternos do seu grande Deus de Amor, que, para si, já não era mais o Deus ciumento, vingativo e sanguinário de Moisés. Contudo, ninguém, nunca, até hoje, entendeu isto, até que esta pena veio para fazer justiça a Salomão...; "a quem honra, honra" (Rom. 13, 7). Por esta causa, muito mais que as outras conhecidas, propaladas, disse Deus que outro homem não houve, nem outro existiria maior que Salomão.

Os discípulos de Cristo, vendo um homem que curava em nome de seu Mestre, logo lho proíbem (Luc. 9, 49). Jesus condena-os, porque nem todo seguidor de passos é discípulo, haja visto Judas; mas, é seguidor, quem o prova ser por obras; ora, o homem a quem proibiram curar, era seguidor por obras, o que é mais, e não seguidor de passos, como Judas. Daí vem: quem não é contra, é a favor; não pode, disse Cristo, um homem curar em meu nome, e logo mais, falar mal de mim.

Mas, quem contra? Os de Samária eram contra, e Tiago e João já os queria queimar, não com menos que com o fogo do céu, tendo Cristo de os acalmar com dizer-lhes: "não sabeis de que espíritos sois" (Luc. 9, 55). Pois não sabiam mesmo... e eram do espirito de intolerância qual Elias furibundo, manipulador do raio elétrico celeste, Elias que fez matar, num só dia, quatrocentos profetas de Baal.

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Visto que as obras são a pedra-de-toque dos homens, e só por elas se sabe quem é ouro, quem, prata, quem, ferro, quem, potássio ou sódio, ambos moles como a cera, Cristo estabelece quem será cristão de verdade, na "parábola dos dois filhos" (Mat. 21, 28-32). O primeiro disse que não ia trabalhar na vinha, porém, arrependido, foi; o segundo prontificou-se a ir, mas não foi. Então, pergunta Jesus: qual dos dois fez a vontade do pai? Acaso, na separação entre os cabritos e as ovelhas, o critério de juízo será as fés, as seitas, as religiões que uns e outros têm? Por certo que não, e os homens são aprovados pelas obras boas que fizeram, e reprovados pelas mesmas obras que, omissos, deixaram de fazer. Com isto, fica entendido: não importa o rótulo da religião ou seita, e sim, fazer, com obras, a vontade do Pai, Deus, ainda que, com palavras, haja negado praticá-las. As obras justificam a fé, não, vice-versa, porque pode haver fé sem obras, e diga-o o mundo grande que aí está..., porém, não pode haver obras sem crença..., eis a verdadeira fé, a inquestionável, a não posta em discussão por ser interior, por ser a crença que somos, e na qual estamos (Ortega). O juízo tinha que ser, como está anunciado, em função de obras, porque o homem é o que faz, e, nem sempre, o que diz... falando ou escrevendo. Eis, portanto, que as obras pias são o denominador comum de todas as fés.

Todavia, cumpre avançar mais: a parábola do bom samaritano mostra o "plus ultra" da fé, que é o amor, e o samaritano aparece como exemplo da piedade executiva, sem sombra de religião que é discutível, ou de fé exterior. Porque o amor está acima da fé, por isso, independente até da crença que somos, estaremos sempre prontos a socorrer aos que amamos. Podemos armar, então, esta cadeia de valores: as fés exteriores que enchem o mundo, não valem nada, não produzem frutos nenhuns, exceto os do fanatismo intransigente com sua farta colheita de maldades. Na escala, tais fés, ou têm valores negativos, ou são zeros. Subindo deste ponto, as obras nascidas da crença que somos, se boas, são filantropia. No nível supremo, porém, as obras filhas do amor entranhado que sentimos, nascidos da compaixão samaritana, essas são a verdadeira caridade, o alvo supremo e fim último do cristianismo. As obras nascidas das fés exteriores, praticadas por ostentação farisáica, são barro; as nascidas da crença que somos, são prata; as nascidas do amor que sentimos, são ouro; quanto vai do barro, à prata, ao ouro, vai da ostentação mundana, à filantropia e à caridade.

Por faltar o amor no mundo, a indulgência, a tolerância, é que a história está referta de tragédias, de violências e de genocídios. Tal como o homem ainda é, ignorante, invertido, perverso, egoísta e mau,

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as guerras e o genocídio só terão fim com a federação das nações, com a unificação delas num sistema único; a intolerância danosa terá fim, quando as religiões, com base na moral e nas obras, se irmanarem; a filosofia voltará a nortear o mundo, quando ela for o meta-sistema que ora inauguramos... ainda por crescer, frondejar, florir e frutificar. Ou isto, ou o caos... do qual estamos perto, agora que a tecnologia nos promete que a auto-destruição, se acontecer, será total.

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III - O ARQUI-SISTEMA

Vimos os prejuízos que podem acarretar os sistemas; e também, que não se pode fugir a eles, porque, na natureza, no mundo, no universo, tudo é sistema, seja no grande, seja no pequeno. E ainda que, sendo o sistema organização, ordem, harmonia, cosmo, a ausência dele é desorganização, desordem, desarmonia, acosmismo, caos.

Apresentamos, então, duas soluções: uma próxima e outra remota. A próxima consiste na imediata e efetiva vivência do Evangelho que ensina e exemplifica a tolerância, a indulgência para com todo o sistema que não é o seu de cada um. A longo prazo (que é a solução remota), é necessário, com urgência, principiar o longo, largo e exaustivo trabalho da síntese, da integração de todos os sistemas no sistema-mor, no arqui-sistema, no meta-sistema, visto que as violências, genocídios e guerras resultam do caos, e este, de ainda não se haverem integrado todos os sistemas na unidade-mor que a todos agasalhe, harmonize e pacifique.

Não há meio possível, já o vimos, de fugir aos sistemas, porque tudo o que existe, e o que é, se constitui num sistema que integra sistemas menores, e entra na constituição de sistemas integrantes maiores. Isto, para a matéria inorgânica, para a matéria viva, para o espirito, para a consciência e para o social. Se as construções matemáticas partem de um postulado, por sua natureza intuitiva, indemonstrável, e, as ciências, dos primeiros princípios, também improváveis, e, as religiões, de afirmações dogmáticas, de pontos de fé, segue-se que tais postulados, tais primeiros princípios, tais enunciados primários das religiões são as unidades ideológicas absolutas, de que se deduzem todas as conseqüências que são as partes menores do discurso. Deste modo, tudo se nos mostra hierarquizado em unidades ou sistemas, a um só tempo individuais e coletivos. No topo de qualquer hierarquia damos com um absoluto, dado que, nessa direção, nada mais pode ser alcançado; ninguém pode ultrapassar os postulados, os primeiros princípios, as bases da fé.

Cada hierarquia forma um leque cujo cabo é um absoluto. Todos estes absolutos que são os cabos, hão de juntar-se num ponto central. Os leques todos como que se fincam por seus cabos numa esfera central, que é o Todo Absoluto do qual participam os sistemas todos ou leques menores. Contudo, a expressão volumétrica do leque é a pirâmide; então, todas as pirâmides, como pinhões, se juntam, por seus vértices, no centro de uma esfera de conceitos ou pinha. Cada pirâmide isolada é, em si, um universo cuja variedade se unificou no vértice, formando uma unidade absoluta. A união, pelos

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vértices, de todas as pirâmides, faz que o centro seja a união de todos os absolutos. O Todo assim formado é o Absoluto por excelência, absoluto com letra maiúscula, ou Deus, frente ao qual, os outros absolutos, os que se referem ao topo de cada hierarquia, são todos relativos. Os outros absolutos, ou cabos de leques, ou vértices de pirâmides, só são absolutos em relação ao sistema unitário e particular que formam; todavia, esses todos menores são parciais ou relativos em referência ao Absoluto supremo que os congrega, que os integra na Unidade total.

Entender uma coisa é ligá-la a um todo maior de que faz parte integrante e em que funciona. O todo dá sentido à parte. A visão que enxerga a coisa como parte de um todo maior, é a filosofia, por sua natureza sistemática, unitiva, organizadora. A visão que desce da coisa como unidade para os pormenores, é a ciência que fragmenta, desintegra e analisa a estrutura até seus últimos limites. Esta, a diferença entre filosofia e ciência.

Uma estrutura em leque podemos observar numa árvore, seja do tronco acima, seja dele abaixo. Do tronco acima, depois dos galhos que se bi, tri, tetrafurcam em galhos menores, vêm as folhas, cada uma, outra vez, com cabo, nervura maior de que sai o leque de nervuras menores, até os bordos; vêm as flores que também são unidades de unidades menores; vêm os frutos que são universos no semtido etimológico da palavra uni + verso, ou seja: a unidade mais a sua contraparte pluralidade.

Do tronco abaixo, as raízes se fracionam em raízes menores até as radículas e pêlos absorventes. Sem estes ínfimos pêlos das radículas, e sem os estômatos das folhas, o vegetal não vive. O vegetal se abre para fora, em busca da luz, do ar, da terra. O animal se fecha para dentro, invagina-se, tornando-se num saco, porque é ladrão, e todo ladrão precisa de um saco (Fritz Kahn). Nesta máquina invertida, em relação ao vegetal, que é o animal, os pelos absorventes recobrem as paredes intestinais, e, nos pulmões, minúsculos alvéolos põem o sangue em contato com o ar.

O cabo do leque, chamado sistema circulatório sanguíneo, é o coração; o cubo do leque sistema nervoso, é o cérebro; e há outros sistemas como o digestivo, o renal, o linfático, o neuro-motor, o muscular, etc., todos conectados à unidade maior que é o organismo animal.

Do elétron ao universo, tudo é sistema, e sistema significa organização, unidade, universo. Onde não houver unidade, norma, coerência, organização, aí estará presente o caos. As filosofias todas são leques ou sistemas, porém, separadas, independentes, estanques, e por esta razão, antagônicas, exclusivistas quanto à posse da

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verdade, e, por isto, briguentas.O mal - eis o ponto - não reside na existência de sistemas

diferentes até à oposição, mas de eles não se acharem integrados ainda na unidade maior ou arquisistema que, constituído, poria ordem no caos. Achar o nexo que liga os sistemas todos na unidade, esse é o trabalho que se impõe fazer. O caos reina até enquanto não vem a codificação, a integração dos leques separados, antagônicos, discordes, na unidade global.

Pensar é organizar idéias, dispô-las em hierarquia, arranjá-las em unidade, em sistema. Como cada coisa se nos mostra como unidade, como organização, em nosso espírito, o mundo se reflete como é, como sistema. Daí que a filosofia é uma visão do mundo, da qual se extrai uma norma de conduta. Se tal visão não confere unidade (sistema); se cada faceta da realidade não se encaixa em outra, em outra, em cadeia, em hierarquia, até uma generalização (sistema), como guiar-nos em meio à congérie ou anarquia?

O animal se guia pelo instinto que o mantém acorrentado na linha rígida do determinismo; mas o homem, como é forçosamente livre; livre, queira ou não queira; livre até para fazer-se escravo; não poderá guiar-se a não ser pela razão que lhe organiza a crença (sistema). Que, logo, significa uma filosofia não-sistemática, sonho dos pensadores existencialistas contemporâneos? Pois significa que tal filosofia não conclui nada, não dá uma visão unitária do mundo, não norteia ninguém, nem mesmo o pensador que se acha a construí-la.

Platão foi o primeiro filósofo não sistemático visto como seus "Diálogos" sempre ficavam em aberto, dando a entender que o pensamento dialético seu continuava, indefinidamente. Não concluindo nada, sua doutrina não pode ser burocratizável nas normas e nas instituições. Quando a Igreja precisou organizar o cristianismo em termos filosóficos, preferiu Aristóteles a Platão. Não foi por motivos lógicos, e sim, pedagógicos esta preferência, nota Huberto Rohden.

Escreve Gusdorf, não sem uma ponta de ironia: "O filósofo marcha com o seu tempo, com os homens deste tempo. Deve afastar a tentação de monopolizar a razão em seu proveito, à maneira de um mestre-escola seguro de seu saber no meio de criancinhas às quais ensinasse um catecismo de sua fabricação".

Se "o filósofo marcha com o seu tempo, com os homens deste tempo", quem antecipará o futuro com planejamentos? As filosofias têm sido sempre, certas ou erradas, antecipações do tempo, antenas da história que sondam e criam o porvir. Se o pensador tiver por missão, andar lado a lado com o rebanho humano que não sabe para onde ir; se sua missão for só fazer bonitos e substanciosos ensaios da situação presente, sem concluir nada, sem sintetizar nada, quem apontará o

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rumo a ser seguido péla história? Acaso, terá esta, eternamente, de seguir a esmo o seu caminho, desenvolvendo-se pelo método do ensaio-e-erro animal, como sempre o foi no passado? Se o homem tem que se fazer mais humano, superando-se a si mesmo, é preciso que alguém, antecipando-se às massas, mostre o que é ser mais humano, como fazê-lo e por que deve o homem humanizar-se, o que só é possível em função de um Horizonte luminoso, transcendente, de um Rumo. Em outras palavras, Gusdorf aconselha ao filósofo deixar de sê-lo para transformar-se em elemento do rebanho como todos... Aconselha nada menos, que o pensador se contente apenas com ser professor de filosofia, analista de situações dadas, ensaísta, crítico, evitando, por todos os meios, emitir sua opinião, a pretexto de que a verdade não pertence a ninguém, não adiantando nada correr atrás dela, visto que ela, arisca, esquiva, nos foge sempre do alcance da mão, embuçando-se nas brumas do horizonte longínquo que nos cerca por todos os lados...

Como poderá um homem dar seu testemunho da verdade, se acreditar que ela, toda quanta, é relativa, que os sistemas são prisões, que o edifício da verdade e o dos valores têm que ser revistos e refeitos de contínuo, pelo que os andaimes das construções devem ficar onde estão ad perpetuam? Seriam, acaso, os andaimes, mais importantes e perenes que a obra? Quem teria esperança de morar, ainda que por pouco tempo, na casa cuja construção nunca termina, porque o engenheiro, mudando, sempre a planta, ordena aos edificadores a derribarem o feito, a fim de o refazer de outro modo, e, logo refeito, logo é demolido, assemelhando-se a filosofia ao inútil trabalho de Sisifo ou à tela de Penélope?

Querendo, Gusdorf, reduzir a metafísica à antropologia, escreve: "Idêntica conclusão se impõe em toda a parte: a consistência dos conceitos metafísicos não é afiançada senão graças à ignorância, consciente ou não, da realidade humana, e a metafísica só se salva, se esquecer o seu objeto”. Os destaques são nossos.

Ora bem: o objeto da metafísica é o ser; esquecer o seu objeto, é esquecer o ser. Este objeto, por sua natureza infinita, não é definível, delimitável, conceituável, pelo que a metafísica não é ciência. Porém, se a metafísica não se ocupar do seu objeto, ocupar-se-á de que? do homem? Mas, então, ela vira antropologia; neste caso, o objeto da metafísica fica sendo o homem. Que nome, logo, se deve dar ao estudo que consiste em procurar a eterna Referência humana, o ser de que o homem se deriva, visto como este não se basta a si mesmo? E acrescenta Gusdorf ao dito anterior, mostrando como deve proceder o metafísico. Diz:

"Por conseguinte, muito dificilmente consegue o homem prescindir

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verdadeiramente de Deus, isto é, repudiar toda vocação à transcendência e toda nostalgia da totalidade. Parece que a existência humana não pode verdadeiramente aceitar-se sem uma forma ou outra de justificação, e toda justificação da existência ultrapassa a existência. A referência à divindade serve de fundamento a uma obediência neste mundo, e conduz a configurações positivas e claramente apreensíveis na experiência concreta. Por isso o metafísico, em vez de perder o tempo especulando sobre a natureza e atributos de Deus, deve interessar-se pelas repercussões da afirmação teológica no humano. A atividade de cada homem é o espelho onde se reflete, de modo mais ou menos fiel, a resolução previamente tomada de sua atitude em face da transcendência".

Se "o metafísico, em vez de perder o tempo especulando sobre a natureza e atributos de Deus, deve interessar-se pelas repercussões da afirmação teológica no humano", então, qual é o trabalho do antropólogo? Ora, as intuições dos místicos dão azo às revelações; os teólogos fazem fundamento nas falas confusas dos místicos, sobre o que erigem as suas sistematizações; e as massas humanas seguem, em rebanho, os teólogos, os pastores, pelo que a religião se torna ação social, cristalizando-se nas instituições. Agora é, então, como quer Gusdorf, que aparece o filósofo para joeirar nesta seara de confusões dos místicos e dos teólogos? Acaso também as religiões não são sistemas tão prejudiciais, quanto os da filosofia, porque não integrados ainda? Contudo, se os filósofos se ocuparem de desenvolver suas próprias intuições que não diferem das dos místicos, quanto à tomada do Ser, portanto, de especular sobre a natureza e atributos de Deus, igualmente podem, por sua vez, nortear a mente e a conduta humanas, guiando, em parte, a história, não deixando que ela seja escrita só pelos místicos, pelos teólogos e pelos ínscios políticos e tecnólogos.

De um lado, como vimos, o prejuízo dos sistemas, por causa de eles, antagônicos, estarem em guerra entre si, cada um se propondo a ser dono exclusivo da verdade. De outro lado, a impossibilidade de uma filosofia não sistemática, que não conclui nada, que não forma unidade de idéias, que não orienta ninguém, que se propõe a construir uma casa em que, nunca, ninguém pode morar, ainda que por pouco tempo. Também as constituições de um país se sucedem no tempo, não havendo nenhuma que perdure para sempre. Então, seria o caso de formar-se uma comissão para estudar e redigir uma constituição que nunca termine, a pretexto de que não adianta acabá-la, porque logo será modificada. Como as constituições, também as leis se mudam, donde vem que não se devem promulgá-las. Como resolver o problema?

Pois não há de ser de outro modo que não seja criar o arqui-

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sistema, no qual se agasalhem todos os sistemas. Dir-se-á impossível esta empresa, porque os sistemas se excluem por oposição, por antagonismo; mas atentemos: toda unidade, sem exceção, se compõe de duas outras unidades menores, opostas, antagônicas, que brigam entre si, até enquanto não se integram na unidade-maior. É natural o conflito dos opostos, visto como cada unidade luta por achar na contrária aquilo que lhe falta, e com a qual se complete na síntese da unidade hierarquicamente superior. Elétrons e prótons lutaram entre si, no seio do antigo caos, para que se formassem os átomos; estes, se polarizam, eletricamente, para prosseguir a guerra, até que se formem as moléculas, e, assim por diante, nunca, ninguém viu iguais se unirem em organismo, e, se o fazem, é só para formar o aglomerado mecânico, homogêneo, da quantidade, nunca, porém, da qualidade. Só o qualificado, diferenciado, se arregimenta na unidade, entra na hierarquia, e, ainda que pequeno, vale mais que o grande, quando este é homogêneo, indiferenciado. A ciência que pode submeter a fórmulas matemáticas parte do universo físico, de vasta dimensão, foi barrada em seu intento de formular, quando pretendeu fazer o mesmo com a vida, com o homem. Porque o universo físico, embora imensurável, é mais simples, mantendo-se no sopé da hierarquia da vida, do instinto, da consciência, sobre os quais o homem se levanta, e se sublima.

O mundo não pode mais, por muito tempo, ficar perdido na confusão de vozes, ou de sons instrumentais. Cumpre surgir um regente que dê início à nova Sinfonia, que faça cantar o Coral. Todos os filósofos têm sua razão, e sistema nenhum constitui erro total. Integrar todas as razões numa só razão geral, nisto se cifra o esforço do filósofo do amanhã. Todavia, tal arqui-sistema que é a síntese das filosofias, por sua própria natureza, não é um Sistema fechado, exclusivista, intransigente, que, se o fosse, não daria razão a ninguém, não toleraria o diálogo franco, democrático. Não, pois, um Sistema fechado, mas, aberto... às especulações futuras que devem revisá-lo, corrigí-lo, enriquecê-lo; não, uma circunferência, porém, uma espiral.

O próprio Allan Kardec que pregava a necessidade de uma filosofia isenta do espírito de sistema, ao codificar a Doutrina Espírita, organizou-a, unificou-a como sistema. Reuniu ele as peças do quebra-cabeça (fenômenos espíritas) no leque da Doutrina. Seu sistema escatológico desde a origem, não pode deixar de ingerir no campo filosófico, onde, ele e os Espíritos deixaram, também, Doutrina formulada. A não ser assim, então, não organizou nada, não sistematizou coisa nenhuma, e os fenômenos espíritas, e a filosofia que os interpreta, continuam, ainda, no mesmo caos ininteligível de antes.

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Agarrando-se, porém, os espíritas, entre eles, um nosso crítico, à frase de Kardec, segundo a qual a filosofia deve isentar-se do espírito de sistema, não reparam que seu próprio mestre sistematizou. Só ele, Kardec, podia por norma, organizar a congérie fenomênica no Código unitário; quanto aos outros, é para fazerem filosofia não conclusiva, não unificada, que fique em suspenso, isto é, isenta do espírito de sistema. Não põem tento em que Kardec pretendeu formular sua Doutrina, de parceria com os Espíritos, em sistema aberto, e, com isto, tornou-a suscetível de ser revista e corrigida até mesmo no que diz respeito ao seu anti-sistematismo, visto como (não o sabia Kardec) o anti-sistema é o outro nome do caos. Mas aferrados ao que o magister dixit, fizeram da revelação dos Espíritos dogmas de fé, e, com isto, se tornaram surdos, solipsistas, não admitindo pudesse "O Livro dos Espíritos", já não se diga ser revisto e corrigido, mas, nem mesmo, comentado de modo diferente de como já o fizeram as "autoridades" (teologos?), porque, como vozeiam, essa obra é inexpugnável. A Bíblia - os crendeirões repetem entre si - é uma bigorna que tem quebrado muitos martelos; sê-lo-ia, também, "O Livro dos Espíritos"?

Pois bem: "O Livro dos Espíritos" admite a evolução; não, todavia, a involução, pelo menos de modo explícito; lá está a involução, mas de modo implícito, e ninguém o enxergou. Claramente fala do Caos como começo de tudo, porém, não explicita como, de que, por que, por quem e quando se originou o Caos. Alguns exegetas afirmam, baseados em si mesmos, que a centelha divina desceu do alto, e dela se formou o Caos; acrescentam, no entanto, que tal centelha ou emanação divina era inconsciente. Dado que o fosse, perguntamos: era organizada, ou não? Se nos disserem: era organizada, suspeitam logo a dificuldade de como o orgânico, vindo de Deus, foi desorganizar-se, tornando-se no Caos! Se disserem que era já inorgânica a tal emanação ou centelha divina, caem nesta outra ponta do argumento bicórneo ou cornuto: então, o inorgânico, o inorganizado, o Caos, já se achava no seio de Deus? Contudo, se, modestamente, disserem: não o sabemos; neste caso, cabe perguntar--lhes: e como sabem que a origem primeira de tudo esteve numa centelha divina inconsciente que, descendo do alto, deu origem ao Caos de que saiu o universo? Porque, se não for explicado isto, Deus fica culpado pela existência do Caos, da ignorância, da injustiça e do sofrimento no mundo. Ora, toda filosofia se encaminha a ser uma teodicéia que quer dizer justiça de Deus.

Não vale a ironia de Maritain quando diz, da "Teodicéia" de Leibniz, que "este nome é duplamente mal escolhido: primeiramente, porque a Providência de Deus não tem necessidade de ser "justificada"

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pelos filósofos; em seguida, porque as questões que tratam da Providência e do problema do mal não são as únicas nem as mais importantes do que a teologia natural tenha de se ocupar". Não é Deus que precisa da justificação dos homens, e, sim, os próprios homens que precisam, para si, justificar Deus; nossa justificação não é, pois, para o uso dele, senão para o nosso próprio uso; esta justificação é feita para atender à necessidade humana, que não à divina. Porque, se foi Deus que criou o mundo mau, como pode ele ser bom? Em segundo lugar, as questões que tratam da Providência e do problema do mal, da injustiça, da dor, não são, de fato, as únicas, porém, são as mais importantes, sim, senhor Maritain, tratadas pela teologia natural, uma vez que, das soluções dadas a estes problemas, decorrem as soluções dos outros, quaisquer, que possam vir. Deus é bom ...; o mundo é mau ...; e Deus criou o mundo, tirando-o do Caos..., por Evolução!... Que filosofia é a espírita, que não justifica a existência do Caos em face de Deus?

Esta é .a causa por que o Espiritismo se impossibilitou para fazer a síntese das filosofias, e ainda, o casamento entre ciência e religião, conforme fora o sonho de Kardec. Não resolveu ele o problema mais cruciante de todos, que é o de saber quem é o culpado remoto pelas dores e misérias do mundo, uma vez que o homem não pediu para ser criado feliz..., e muito menos, desgraçado, a partir do Caos, nem explica como o que é divino foi tornar-se Caos que é a negação, ponto por ponto, do que Deus tem de ser.

Não reparou Kardec, nem os sectários seus, que o ser sistemático é próprio daquele que tudo enxerga em totalidade; que isto é característica do filósofo, que não, da maioria dos homens. Qualquer um pode ser professor de filosofia, mero repetidor dos compêndios; não pode, todavia, ser pensador, isto é, aquele que faz de sua vida um perene exercício de pensar... em termos de totalidade.

E para que não se diga que nisto estamos só, leiamos em Toynbee aquilo que fez dele um dos maiores historiadores contemporâneos: "Devi meu sucesso à instrução altamente inteligente que recebi em Wootton Court de um dos assistentes, H. J. Haselfoot. Ensinou-me a pensar por mim mesmo". Mais: "Recusei-me a ser encurralado dentro de um campo de conhecimentos arbitrariamente delimitado. O Sr. Haselfoot salvou-me disso, ensinando-me, uma vez por todas, a considerar um problema em totalidade". Ainda: "A "totalidade" era a chave de sua grandeza (de Smuts), assim como o era a da de Einstein. Einstein fez suas descobertas que marcaram época reunindo coisas que espíritos menores tinham deixado separadas. Sir Winston Churchill é outro grande homem do mesmo filão não-moderno. A ampliação de vistas destes três grandes homens é

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um elo entre si que transcende as diferenças de suas personalidades e suas carreiras. Todos três ter-se-iam sentido à vontade se tivessem nascido no mundo de Políbio, Catão, o Censor e Arquimedes". Ainda isto: "Tal como o filósofo da história islâmica do século XIV Ibn Khaldum, e o filósofo ocidental da história do século XVIII Vico, Freeman tinha o dom de "ver o mundo em um grão de areia".

Se, pois, não existissem as mentes talhadas a enxergar tudo em termos de totalidade, o homem não teria ainda saído da barbárie mais hedionda, visto como, neste caso, não se podiam ter criado as religiões, todas tendentes a domar o "porcus bipedus", a negar a animalidade natural, substituindo-a pelo humanismo sobrenatural. As religiões, no entanto, uma vez tornadas instituições sociais, fecham-se em sistemas exclusivistas, intransigentes, intolerantes, decorrendo disto, todos os genocídios registrados ou não pela história.

Entretanto, assim como os vários deuses dos diversos povos, animistas primeiro, e politeístas depois, se juntaram na síntese do Deus único, cuja promoção se foi melhorando através dos tempos, assim também os sistemas filosóficos todos terão de encontrar seu denominador comum no meta-sistema que a todos integra na unidade.

Os sistemas produzem males, porque não se acham integrados no sistema-mor que não pode consistir na visão, embora totalizante, de aspectos isolados ou parcelas da verdade. De um plano superior, cumpre enxergar todos os sistemas, cada um possuidor duma porção totalizada da verdade, e procurar, nessa visão de conjunto, por quais entalhes os sistemas se coligam num organismo único. Ver-se-á, então, jubilosamente, que todos os filósofos estiveram a falar da mesma coisa, por linguagens diferentes.

Esta é a promoção máxima do Ser, de Deus; porém, promoção não é senhorio, não é posse, e sim, apenas, reconhecimento, constatação, tornada do Ser. Coerente com isto, diz Gusdorf "A consciência nunca abarca a totalidade da estrutura que ela promove". É assim que promover não é abarcar, como falar a respeito de alguma coisa, não é dizer o que ela é. Nenhuma promoção será maior do que a intuição global que vê-sentindo aquela UNIDADE em que todas as hierarquias, todas, sem exceção, se reúnem. E se com o andar dos tempos vier a descobrir-se algo absolutamente novo, inédito, essa ignota hierarquia nada mais será que nova pirâmide a encher consigo o corpo da esfera-pinha. Como a consciência não pode abarcar aquilo mesmo que promove, o Absoluto Total ser-nos-á sempre o Rumo a ser seguido em nossa jornada de volta para Deus. Eis, pois, como Deus se nos mostra como o Ultra-Horizonte, para uso do pensamento e dos valores, e é em função dele que todas as demais realidades se situam. O homem pode falar a respeito de Deus, promovendo-o para além da

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concepção humana, do mesmo modo que fala do Sol e do núcleo atômico; no entanto, não pode dizer o que são Deus, o Sol e o próton.

A conciliação entre fé e razão não pode ser feita de modo direto, porque, se a fé se funda na razão, a fé é ciência; pelo contrário, se a razão se alicerça na fé, tal razão é exegese mística, e teologia; sua dialética ou cadeia de argumentos lógicos serve só para dilucidar um ponto de fé. A conciliação se faz pelo conhecimento de que Deus é Essência e Substância a um tempo, como qualquer objeto real, sem nenhuma exceção. E Deus, como Substância é o Amor. O Amor, logo, é a Energia-Substância primordial que os filósofos préparmenídicos procuravam, de que tudo se fez. "Não há mais que uma só matéria-prima; / pode variar de consistência e formas, / e em diferentes graus alcançar vida / nos entes que a viver são destinados. / Quanto eles mais do Eterno se aproximam, / ou quanto mais a aproximá-lo tendem, / tanto mais se refinam, mais se apuram: / cada um gira na esfera que lhe é própria / té que o corpo em espírito se muda / nos termos às espécies designados" (Paraíso Perdido – Milton).

Não, fé ou sugestão, ou aceitação duma idéia com base no princípio de autoridade, mas o amor, como experiência vivida do princípio de integração (eros), isto é, como sentimento e vivência. Aí, então, Deus que é suprarracional, ou intuitivo, ou consciencialmente volumétrico, e está inextricavelmente ligado à sua Substância-Amor, pode dar-se ao homem como Rumo a ser seguido, procurando este, o homem, identificar-se, cada vez mais, com a natureza do Rumo. A Grande Realidade da qual todas as demais decorrem, que se oculta por detrás do Horizonte longínquo, não pode ser buscada só com a razão, porque ela não é só Essência, Essência pura, como pensavam os gregos, mas, também, com o coração; porque ela é a Substância-Amor. Neste empreendimento, o homem tem de agir como um todo em que entrem suas mais egrégias conquistas morais, estéticas, éticas, volitivas, racionais e axiológicas. Ser sábio e amoroso, ou gênio e santo, eis o fim do homem.

Igualmente, o objetivo da civilização é criar uma comunidade de sábios e de santos sobre a Terra. A fé e a razão que se excluem, como opostos, só podem ligar-se graças a um denominador comum que é o amor. Ver-se-á, então, que a inteligência busca o nexo (eros); a fé busca a união, a conexão com Deus (religare); daí que razão e fé buscam uma e a mesma coisa - eros, amor. Neste alto nível, o ponto de coincidência entre os opostos razão e fé, é o amor, porque este participa da fé como sentimento, e o mais excelso; e também o amor participa da razão, por ser, como ela, unitivo, conectivo, buscando um e outro, razão e amor, o nexo que unifica e integra. Fale Gusdorf:

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"Tudo leva a crer, escrevia o teórico surrealista André Breton, que existe um certo ponto no espírito, desde o qual deixam de ser percebidos contraditoriamente a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo (...) Em vão se procura descobrir para a atividade surrealista outro móbil que não seja a esperança de poder vir a determinar esse ponto". E comenta Gusdorf, dizendo que esse ponto procurado no espírito por André Breton, é o mesmo que os teólogos dão o nome de coincidentia oppositorum, reconhecido, por eles, como sendo um dos atributos da divindade.

Esse ponto de coincidência de oposições (coincidentia oppositorum), que os teólogos dão como sendo um atributo da divindade, e que André Breton supõe achar-se no espírito, é aquele que nunca deveria ter sido bisseccionado na coisa pelos dois filósofos extremos, parentéticos, da filosofia - Heráclito e Parmênides. Porque Heráclito termina a cadeia dos filósofos substancialistas que tentavam responder à pergunta: quem existe? Buscavam estes uma substância primária, fundamental por excelência, da qual tudo o mais apareceu, depois, por transformação. Todavia, Parmênides, em vez de responder a questão proposta: quem existe (temporal), respondeu a pergunta não formulada: quem é?

Cometeu-se, aqui, o pecado original da filosofia, e a fixação do Ser, por Parmênides, durou até nossos dias. No entanto, qualquer objeto é-nos dado como um todo constituído de essência e de substância, sendo esta a primeira e mais fundamental coincidentia oppositorum que não está longe, mas perto; que não se situa nas alturas inacessíveis somente, em Deus, como também, aqui, ao alcance da mão, em qualquer objeto; não só no passado mundo grego, porém, agora e no futuro, para sempre.

Quando um objeto se espelha em nosso mundo psíquico, subjetivo, como imagem, não vem separado em seus dois aspectos essência e substância, e sim, se nos dá como totalidade numa já coincidência de oposições. Daí que ninguém consegue transmitir o conhecimento de uma coisa a outrem que não tenha tido nenhuma experiência ou vivência dessa coisa, ou de outra semelhante. E assim como cada um tem suas experiências das coisas, todos têm a experiência do mundo como totalidade. A experiência totalizante do mundo (intuição), todo mundo a tem, como base de sua crença..., esta que é inseparável do indivíduo. O homem é a sua crença (Ortega), e age em função dela, e, se acontece não possuir convicção nenhuma, fica impedido de agir, de escolher, de decidir-se em meio à congérie do mundo. Quem escolhe, quem se decide por um caminho, não o faz a esmo, mas, impelido por sua crença que lhe segreda, no

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íntimo, ser correto o que intenta fazer. Como o mundo é feito de coisas que são unidades formadas do dualismo essência e substância, a física e a metafisica já vêm ligadas desde a origem; já vem realizada a coincidentia oppositorum desde sempre, a qual, depois, o homem separou. Aqui, também, "não separe o homem o que Deus ajuntou", ou melhor: o que Deus criou unidos. O ter separado o casal conteúdo e forma, essência e substância constituiu o crime de lesa-natureza pelo qual o homem paga hoje.

A chave, portanto, que os teólogos procuram em Deus, e André Breton, no espírito, perdeu-se no ano 520-530 a. C., pelos dois homens que, como parêntesis da filosofia nascente (Ortega) viveram nos dois extremos opostos do mundo grego, Eléa e Éfeso.

Conta-se que, certa feita, na China, um discípulo perguntou a seu mestre qual a diferença entre o sábio e o ignorante. Nenhuma, respondeu o mestre; e acrescentou: a diferença que existe, não é entre o sábio e o ignorante, e sim, entre um e outro e o homem comum. O ignorante olha para uma montanha, e a enxerga montanha; para uma árvore, e a sabe árvore; para um lago, e o tem por lago. Já o homem comum que cursa escolas e se diploma nas universidades, diz que a montanha não é montanha, que a árvore não é árvore, e que o lago não é lago. Tudo o que era antes puro e simples, passa a ser intrincado e complexo depois. Porém, sábio é todo aquele que, prosseguindo a meditar, juntou o disjuntado, percebeu a hierarquia do universo acima e abaixo de si, enxergou a perspectiva das coisas a partir de sua situação, e sabe havê-las infinitas, organizou a unidade do mundo para si. Esse olha para a montanha, e a enxerga montanha; para uma árvore, e a sabe árvore; para um lago, e o tem por lago. De maneira, conclui o mestre, que a diferença não está entre o sábio e o ignorante, mas entre ambos e o homem comum que, não sendo mais ignorante, não chegou ainda a ser sábio.

Aquela junção do primitivo e da criança entre o eu, o corpo e o mundo, que o racionalismo disjuntou, cumpre ao sábio juntar de novo, com que a sabedoria fica sendo um como animismo superior, tal como o sentem o poeta, o místico e o sábio. Daí que o poeta faz também falarem as coisas, e São Francisco de Assis chamava ao lobo de irmão lobo, à serpente, de irmã cobra, e ao próprio corpo de irmão corpo. Quem chama ao próprio corpo de irmão corpo, por certo, não admite antagonismo, inimizade e luta entre o espírito e a matéria, entre o eu e o mundo, nele já se tendo realizado a coincidentia oppositorum.

Envergonha-se, Plotino, de estar enfrascado num corpo o qual nunca deixou fosse pintado, porque, como afirmava, isso seria fazer perpetuar-se uma sombra, uma irrealidade. Anaxarco, caído em

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desgraça, por ofender a um tirano, teve como pena ser triturado até a morte. Em meio ao seu martírio, bradava: "não é a pessoa de Anaxarco, e sim, só o corpo de Anaxarco que trituras!" Para fazê-lo calar-se, manda o tirano que lhe cortem a língua. Ele, porém, decepando-a com os dentes, atirou-a à cara do algoz. O estóico Epicteto, escravo de um senhor desumano, bradava, ao tempo em que o amo lhe torcia o braço: "Se apertares mais, quebras-me o braço!" Até que o braço se partiu, e ele concluiu, vitorioso: "Eu não disse que se quebraria?" Brava e linda prova da inviolabilidade da pessoa, da filosofia! Não pode nada o bruto contra o espírito liberto! Explêndida imagem da inviolabilidade filosófica.

No entanto, não se pensava então, que, sem o corpo, não se tem acesso ao mundo. Porém, para que mundo?, se a este também se desprezava, como irrealidade, como sombra, como não-ser?, visto como o real era apenas o inteligível, e não, o sensível? A agressividade contra o mundo, por causa de existir nele o sofrimento, a injustiça, estendeu-se ao próprio corpo que também é mundo, daqui se projetando contra Deus, autor de tudo, e, por isto, responsável pelo mundo e pelo homem. Schopenhauer, então, anseia pelo aniquilamento, como sumo bem, e Buda não lhe fica atrás com seu Nirvana. Nietzsche e Sartre assentam que não há Deus; e, se houvesse, Deus seria o próprio homem. Nietzsche sonha, então, com o super-homem que retorna ao bruto, ao instituir sua moral negativa da força e da astúcia, ou ambas num tempo. Sartre, contudo, "mais generoso", reconhece e concede o mesmo direito de ser deus, a qualquer outro homem ou próximo. Só que, porque não pode fazer-se super-homem para obrigar os outros homens a se ajoelharem à sua frente, tem gana de matá-los a todos. No entanto, caindo em si, conclui que, matar os outros, não os impede de que tenham existido, e, a não poder matar também a essa memória odiosa, repulsiva, então, idealmente, fere o golpe contra o próprio peito, e morre. A não poder ser deus sozinho, prefere a morte, o nada, o não-ser. Este é o destino - a morte - de querer ser deus, seja para Sartre, seja para Nietzsche, seja para Satanás. Nestes casos, a morte resultou dum erro de perspectiva, de não saber situar-se entre as coisas, na hierarquia do universo.

Gusdorf; citando Barth, afirma que "só Deus pode falar de Deus". Ora bem: "Se só Deus pode falar de Deus", cabe perguntar: falar a quem e por quem? Deus não pode falar aos homens de um modo direto, e, sim, só indiretamente, através de suas obras, como o entendia o salmista: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos" (Ps. 19, 1). Daí que também Pascal, para onde quer que olhasse, encontrava Deus. Sua intuição, de estalo, remontava a todo o instante, da coisa vista, à

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Referência absoluta. Em toda obra, Deus deixou a sua assinatura, direta ou indiretamente. Todavia, nisto, Deus sofre uma redução, porque manifestar glória e apresentar obras, não é mostrar, inteiro, o grande Sujeito da glória e da operatividade. Contra Davi e Pascal, no entanto, que olham ao longe, ao largo, estarão Nietzsche e Schopenhauer (e o próprio Pascal... quando olha ao perto) para os quais a vida é uma lanterna mágica, pois, ao lado da harmonia e beleza, mostra a mais horrenda fealdade amoral, própria de uma vida madrasta, egoísta, que, invariavelmente, confere a palma da vitória aos mais fortes e aos mais astutos. Se Deus criou a vida, e tal vida, que pensar dele? Fora isto, o Deus que se revela aos homens, o faz também através de homens, como o foram Moisés, Davi, Cristo, Pascal, Schopenhauer e Nietzsche.

Para pôr fim a esta dificuldade, os teólogos fizeram de Cristo um deus, ficando, deste modo, solucionada a questão: agora Deus pode falar de Deus... e um contar para o outro, o que este ainda não sabe (?) Suposto que Cristo é um deus, para falar a homens, teve de empregar a linguagem de homens, obrigando-se a permanecer nos limites humanos, se quisesse, como quis, ser compreendido. Contudo, um deus que desce tanto, que tanto se apouca, cessa de ser deus, para tornar-se homem. No entanto, para saber-se se Cristo era deus, nenhuma autoridade é maior que ele próprio; e em nenhum lugar ele declarou-se deus, e sim, apenas, Filho de Deus (João 10, 36). E quando se pretendeu que ele fosse havido por um deus, sua resposta foi, aos que propunham a questão, que eles também eram deuses: "Sois deuses" (João 10, 34). Então fica entendido: se Cristo é um deus, nós também o somos; se não o somos, ele também não o é. Se não é deus, então é homem, posto que genial, santificado, amoroso, sábio. "Se só Deus pode falar de Deus", tornamos a perguntar: falar a quem e por quem?

Digamos que seja falar aos homens pelos profetas dos quais Cristo é o maior. Ora, o profeta é um sensitivo intuitivo (consciência volumétrica), inspirado por idéias suprarracionais. Para reduzir o que é volume consciencial ao planimétrico da razão, próprio do homem comum, outra vez, isso só será possível por apoucamento, pelo que a fala de Deus desce de potência, fica enfraquecida, relativizada na fala humana. Assim como o poeta tem uma sensibilidade especial para ver a harmonia e beleza nas coisas mais simples, o filósofo possui igual sensibilidade, só que para enxergar a totalidade nas coisas, ou seja, "ver o universo num grão de areia". Ou o homem pode falar de Deus, quer dizer, falar a respeito de Deus, do que ele sente ser Deus, do que ele entende de Deus, sem afirmar que ele é, ou Deus também fica impedido de falar ao homem.

E não poderia Deus falar de si a um seu igual, porque não há

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esse igual. Só pode falar de si consigo, em monólogo, solilóquio, em puro solipsismo, que é ocupar-se de "pensar pensamentos", conforme o entendia Aristóteles. Se Deus não pode falar de si ao homem, nem por suas obras, linguagem do Ser, então, toda a revelação é fala humana levada a conta de divina. Todavia, se pode falar de si por suas obras ao sensitivo da totalidade, feito o contato, a sintonia, achado o denominador comum da palavra, da linguagem muda do Ser traduzida para a linguagem humana, neste ponto, Deus se revela ou se desvela, e o homem também pode falar de Deus.

Deus não é Essência pura... sem matéria alguma, como o entendiam Aristóteles, todos os escolásticos, e ainda todos os idealistas modernos, que, se o fosse, seria pura idéia, pura abstração, apenas ficção, existente só na mente do homem, sem objetividade, sem realidade exterior. Acaso é isto difícil de entender? Ele não é Essência pura, senão também Substância-Amor. Não é ele um puro Ente de razão, e sim, também, um Ente existencial, substancial, real de verdade, objetivo. Para apreendê-lo, pois, no nível e dentro dos limites do humano, uma vez que em todos os níveis ele está presente, o homem terá de empregar-se a si mesmo como um todo em que entrem sua razão, sua vontade, sua sensibilidade estética, axiológica e de totalidade, seus sentimentos todos mais egrégios, sobretudo, destes, o mais excelso que é o amor.

Desde quando, com Parmênides, a filosofia praticou a ruptura entre essência e existência, entre ser e substância, tomando, como real, só o ser de razão, a essência pura, imaculada de mundo, tudo, inclusive a ciência de Deus, ficou reduzido a meio saber. Procurava-se, nos primórdios, até Heráclito, quem existe, e, de Parmênides em diante, respondeu-se, não à pergunta, quem existe?, mas, quem é?

Ora bem: a essência se opõe à existência, como tese e antítese, como partes oponentes e complementares de todas as coisas, sem nenhuma exceção. Ambas, forma e conteúdo, são irredutíveis entre si, mas de cujo casamento in-dis-so-lúvel, i-nex-tri-cá-vel, surge a síntese do objeto real, da coisa como realidade objetiva no mundo objetivo. Esta verdade inconteste, inexorável, aplacadora, vale também para Deus. Por causa deste pecado original da filosofia, ou seja, o de separar, e tomar por real a essência que, por sua natureza, é i-de-al, nunca mais foi possível tirar Deus do imobilismo parmenídico, tornando impraticável conciliar filosofia e religião, embora o objeto da razão seja o mesmo do da fé... que a teologia, em vão, tenta aclarar. Não mais "credo quis absurdum", mas, creio por ser suprarracional, dado que a razão não pode ultrapassar os seus próprios fundamentos intuitivos que hão de ser aceitos de fé..., e isto, não só para a religião, como, também, para a filosofia, para as ciências e

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para as matemáticas.Fora esta, há outra razão: o que é suprarracional, nem por isto é

absurdo, porque o absurdo está nos domínios em que pontifica a razão; absurdo é o ilógico, o contrário à razão, ao bom senso, no passo que o suprarracional simplesmente é tudo o que, tendo visos de verdade (intuição), se acha fora da jurisdição da racionalidade. Hajam vista o amor, a vontade, os sentimentos todos, a intuição, a vida, que, embora irredutíveis a princípios de razão, embora ininteligíveis, não são absurdos. Onde não alcança a razão, alcança a fé que não passa de um sentir ininteligível da verdade, de um dado imediato e primário da consciência.

Não há pensamento sem o pré-refletido das imagens carreadas ao espírito pelos sentidos... sentidos que sentem o sensível. O sentir está antes e depois do pensar, quer dizer: está no pré-refletido das imagens, e na intuição suprarracional, pejada, toda quanta, de jubilosa emoção, de êxtase supremo. "Alegria, alegria, lágrimas de alegria!", tal foi a nota encontrada, cosida às vestes de Pascal, quan-do lhe foram trocar o cadáver. Ora, as experiências do místico, e tal místico, não são absurdas, embora possam ser tidas por "irracio-nais". É de Pascal a frase de que "o coração tem razões que a razão não alcança".

Recapitulando: cada sistema isolado se nos afigura como uma pirâmide de base hexagonal, como os alvéolos dos favos das abelhas; a altura da pirâmide é aquela que permita juntá-las todas pelos seus vértices no centro duma pinha ou esfera. Portanto, a altura da pirâmide é igual ao raio da esfera. Vista por fora, tal pinha assemelhar-se-á a uma bola de futebol, dessas cujo envoltório de couro é formado por hexágonos e pentágonos cosidos entre si pelos bordos. Doze pentágonos e vinte hexágonos, por nós contados, enchem a superfície de uma bola normal de futebol. Essa pinha é a síntese total formada por todos os sistemas-pirâmides particulares que se integram na unidade representada pelo ponto que une todos os vértices. Nesta figura imaginária, ideal apenas, todos os vértices das pirâmides se reúnem num ponto comum, no centro da pinha. Esse ponto é o Absoluto supremo, o Deus-Uno, como Essência pura, portanto, sem realidade existencial, sem objetividade, por consistir em pura idealidade, subjetiva. Não sendo Deus, porém, pura idéia, forma pura, sem conteúdo, temos que ele, como Substância, enche consigo o espaço infinito, dentro e fora do universo físico, este que é finito e curvo.

Aquela pinha que intuímos é ilimitada, e toda quanta constitui o Deus-Essência-Lei. Como ilimitada, nossa razão não pode abarcá-Ia; então é que recortamos, dentro da infinita, uma pinha menor, agora abarcável pela inteligência. Ambas pinhas, a infinita e a limitada,

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como se vê, têm seus centros coincidentes, e são semelhantes. No centro está o Absoluto, punctiforme, que se abre para a base de cada pirâmide, consequentemente, para a periferia da pinha, onde situa o relativo, onde o princípio unitário do centro, se fragmenta em princípios cada vez menores os quais ainda se filamentam mais e mais até chegar aos casos particularíssimos da Lei, na periferia da esfera. A ciência que fragmenta para analisar, vai na direção da periferia, para os casos específicos da Lei que tudo rege desde o centro da pinha. Esta pinha, não esquecer, é ideal, conceptiva, imaginária, sem existência real, não indo além de simples recurso imagético de expressão do pensamento.

Assim é como intuímos a Divindade: imaginariamente punctiforme como Essência, por sua natureza inespacial, intemporal, fixa, imutável, ideal, abstrata, e, infinita como Substância que, como tal, é existencial, temporal, espacial, concreta, objetiva, real, enchendo, consigo, o espaço-tempo absolutos.

Como Substância, portanto, a figura muda polarmente de significação, passando a ser real, porque Deus, considerado como Substância, sendo infinito, não pode ser punctiforme. A idéia de Deus-Substância como foco central irradiativo de energia, o tornaria prisioneiro de um ponto de máxima intensidade; ora, o infinito oceano energético de intensidade igual, não pode expandir-se a partir de um ponto irradiativo, ainda que esse ponto fosse muitas vezes maior que o Sol. O centro da pinha é só ideal; más, se quisermos, esse centro unitário se superpõe ao infinito periférico da Substância. Não é na periferia ilimitada que a Substância se mostra como caos, e sim, no centro do universo; é aqui que a Substância se fragmenta em unidades cada vez menores até pulverizar-se no relativo onde imperam os casos particulares da Lei. A Unidade suprema da Lei (o ponto central da pinha) coincide com o Infinito-Substância, e não, com o centro substancial do universo onde, outrora, esteve o caos mais inteiro. A ciência que fragmenta, pulveriza, desintegra tudo para analisar, só pode conhecer cada vez mais os casos particulares da Lei. Ao proceder assim, ela se encaminha na direção do caos, até que o encontra mesmo nas partículas subatômicas, na ocasional permuta de gens entre cromossomos por ocasião da divisão-redução celular, no movimento brauniano, que é quando começa a retirar-se a Lei, e a imperar a incoerência, a indeterminação, o acaso. O rumo que leva à Lei unitária que tudo integra na Unidade suma, não é esse em que a Substância se pulveriza até o acaso ininteligível; é o oposto, isto é, o que leva às unidades orgânicas cada vez maiores até o infinito.

Como idealidade subjetiva abstrata, como Essência pura inespacial e intemporal, Deus está no centro, e o relativo, na periferia.

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Como realidade substantiva, concreta, Deus se acha na periferia infinita, e o Caos no centro. Os espíritos celestes que se inverteram por terem trocado o amor no egoísmo, no ponto que se ia desintegrando (porque o egoísmo dissocia), foram-se encaminhando para o centro substancial em que, depois, se achou o Caos. Por isso é que a evolução, partindo do Caos, do centro do Universo físico, se encaminha para a periferia, subindo-se a planos de vida e de consciência cada vez mais altos.

Tais planos interpenetram-se, mas não se interatuam, do mesmo modo como as ondas hertzianas de freqüências diferentes podem ocupar o mesmo lugar no espaço, sem sem interferirem. As energias se individuam por freqüências, por comprimentos de ondas; as inumeráveis espécies de matéria em que a substância se manifesta, individuando-se por raios de curvatura.

Variando seu raio de curvatura, a matéria poderá subir ou descer nos níveis do universo. A porção de matéria de um objeto, se desencurvada, torna-se irrelevante em relação à matéria do nível em que antes estava; daí que um espírito desencarnado, usando a energia ectoplásmica de um médium, pode desencurvar a matéria do nosso mundo, tornando-a, não só invisível para nós, como ainda pode fazê-la atravessar as paredes de aço duma caixa forte, como atravessa um raio de luz uma placa de vidro.

Um espírito excelso, querubínico, se o desejar, poderá descer, atravessando todos os níveis da subastância que coexistem todas no mesmo espaço, sem se sair do lugar. Modificando sua estrutura vibratória, alterando o raio de curvatura de sua matéria perispiritual, desce ou sobe (mas não em extensão, espacialmente), percorrendo tais níveis, sem locomover-se do lugar. Daí que aparecem e se somem das vistas daquele que, como nós, estiver prisioneiro de um dado nível de existência. Variando o raio de curvatura da própria substância de que são feitos, aparecem no nível que desejam visitar.

Quanto menos encurvada for a matéria, de raio de curvatura mais longo, tanto mais será leve, rarefeita, quintessenciada, no rumo da periferia; quanto mais encurvada, de raio de curvatura mais curto, mais será densa, pesada, indo-se no rumo do centro do sistema a que se refere. O mundo celeste situa-se na periferia, e o inferno mais completo está entranhado no centro substancial, na prisão que tende a ser um ponto. Segue-se que, em qualquer nível, o ente tem um corpo substancial, orgânico: de matéria desencurvada, se habita planos altos, felizes; de matéria densa, compacta, pesada, se seu lugar é nível baixo, inferior. Correlato com esse corpo, há sempre um mundo e um horizonte além do qual se oculta Deus.

Inúmeros corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço, se suas

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matérias tiverem raios de curvatura diferentes. Dois corpos do mesmo raio de curvatura não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Qualquer que seja o nível do universo, os entes sensitivos-racionais ver-se-ão frente a uma realidade objetiva formada pelos próprios entes possuidores de um corpo, pelo mundo que os cerca, e por Deus como Horizonte longínquo, este, de acepção plurimodal, polimorfa. Plotino, Anaxarco e todos os demais desprezadores do corpo, por considerá-lo sombra, irrealidade, não-ser, ter-se-iam desapontado ao ver-se com um corpo de matéria na vida espiritual, após a morte física. Enganaram-se pensando que poderiam viver fora do espaço e do tempo como essências puras, como formas abstratas, como idéias sem suportes, sem substâncias, e pensarem sem cérebros! Como foi possível imaginarem tamanho absurdo? pensarem que a pura idealidade pudesse existir, viver, sem o suporte, sem a instrumentação da substância?

Por mais elevado que seja o nível, as entidades espirituais, ainda que sejam querubins e serafins, terão sempre Deus como Horizonte distante, rodeando o mundo que as cerca por todos os lados. Ainda para a mais alta hierarquia celeste, Deus está presente em tudo como imanência, e ao mesmo tempo distante, inacessível, como transcendência fulgurante, enceguecente. Embora o ente seja um grande arcanjo, um grande serafim, não abarcará o Absoluto absolutamente; promove-o, mas não o compreende, pela mesma causa por que um neurônio cerebral, ainda que fosse altamente dotado de razão, não poderia entender o universo-cérebro de que faz parte, e muito menos ainda o homem em que vive, para quem trabalha e de quem depende!

Tal, a nossa intuição da Divindade, e o ponto altíssimo a que a promovemos; ela está presente em tudo pela participação, imanência ou panenteísmo, e infinitamente distante como transcendência que fulgura em dilúvio de luz a inundar a inteira esfera celeste do trans-universo. Dez mil milhões de Entidades rutilam, individuadas do oceano enceguecente, Demiurgos criados e criadores para, desde aí, seus distritos governarem, anos-luz quintilhões distantes dos limites do universo. O universo nosso está no centro, aprisionado, e no centro do universo esteve, outrora, o mais inteiro, rude e turbulento Caos.

Tais Demiurgos criados e criadores podem viajar pelo Universo com velocidade infinita...; infinita... em relação ao nosso sistema de referência que é o da matéria densa, cujo limite de velocidade é a da luz (Einstein). Aquela velocidade com que os Demiurgos (espíritos celestes) percorrem o Universo, é infinita, segundo a nossa referência; para a referência de seu mundo de luz, tal velocidade

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também demanda tempo. Até em nosso mundo "os segundos-mosca são mais curtos que os segundos-homem. Para cada sistema e cada criatura, o metrônomo do tempo bate em outro compasso". Mais: "Também o ser vivo vive no ritmo do tempo que corresponde ao seu sistema de referência. Ele vive rápido em mundos leves, e devagar em mundos pesados (...) No satélite de Sírius, um homem viveria mais vagarosamente, mas proporcionalmente mais tempo" (Fritz Kahn, O Livro da Natureza). Como nos altos níveis do Universo, "os mundos são leves", os entes vivem rapidamente, isto é, com tempo mais curto, mais velozes; só que não há, aí, nem dores, nem aflições, nem mortes..., mas vida eterna, isto é, autorrenovável de contínuo.

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IV - O TERNÁRIO

Voltaire disse que "Deus criou o homem, e este pagou-lhe com a mesma moeda". Então, se o homem criou Deus, tirando-o de si, acaso não tirou de si também o Diabo? O próprio Voltaire podia, em dois tempos consecutivos, ser deus e demônio, em dois tempos, podendo ser o criador de ambos. "Desabusado, feio, fátuo, jactancioso, devasso, inescrupuloso e às vezes até desonesto - Voltaire era homem possuidor dos defeitos de seu tempo e de seu país, mal lhe faltando um só deles. E no entanto esse mesmo Voltaire foi infatigavelmente bondoso, dedicado, pródigo de sua energia e de sua bolsa, tão pronto a auxiliar os amigos como a esmagar os inimigos, capaz de matar com uma penada e sentindo-se desarmado à primeira iniciativa de reconciliação - tão contraditório é o homem!" (Will Durant, História da Filosofia). Este gênio esquizóide, gavroche; com um golpe de pena, podia ter criado deus, e com outro ter criado o diabo, ambos tirando de si mesmo, visto que era em dois tempos, demônio e anjo.

Mas, que altiva ciência! Se tudo o que o homem cria, tira-o de si mesmo, então, a lei que diz: "os raios vetores varrem áreas iguais em tempos iguais", é uma criação ou invenção de Kepler. O enunciado que afirma ser "o quadrado da hipotenusa igual à soma dos quadrados dos catetos", Pitágoras o inventou. De igual modo, o que afirma que "um segmento traçado, paralelamente, à base de um triângulo, divide seus lados em partes proporcionais", é invenção de Tales. Quem teria inventado o "Pi", que é a relação entre a circunferência e o seu diâmetro?

Contudo, estamos já a ouvir o surdo murmúrio, murmúrio ululante, que diz que coisas tais não são invenções, nem criações do homem, porém, suas descobertas. E Deus, porque também não é uma descoberta do homem? descoberta nascida da observação que mostra claro ser preciso existir um Criador de tudo? visto que nada se cria por si mesmo, nem a si se basta? Acaso o Ser de Parmênides não surgiu duma cadeia de raciocínios lógicos, tal qual os enunciados científicos de Kepler, de Pitágoras e de Tales? Se o homem criou Deus, criou também a ciência, a técnica que, por isto, têm validade só dentro da esfera humana..., donde vem que a alavanca de Arquimedes, por ser pura invenção de homem, não tem aplicação no universo; logo, as alavancas planetárias, e as das estrelas, e as inúmeras que se integram no sistema ósseo muscular das aves, dos mamíferos, são pura ilusão. Ao girar, cada planeta forma um campo, em seu redor, que se atrita, pelos bordos, com os campos dos vizinhos, e todos são arrastados ou

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movidos pelo campo solar que se engasta com o da Via-Láctea, com o das galáxias todas, com o campo universal. A força que, vinda de fora, move o universo, essa mesma move a Terra. Cada planeta "forma em torno de si mesmo um campo de espaço. Estes campos são, segundo Einstein, "entrosados um no outro" e, ao girarem os planetas em torno do Sol, esses campos entrosados deslocam um ao outro como rodas dentadas. O sistema solar é máquina de espaço e se o espaço fosse visível, teríamos a impressão de vivermos no interior de enorme relógio celeste". Como o sistema planetário solar é parte ínfima da via-láctea, e esta, forma com suas miríades de irmãs galáxias, o universo, este é o grande relógio de Voltaire para quem Deus é o Arquirelojoeiro. Se o universo é máquina de campos engrenados, então, possui ele alavancas, e estas foram postas, lá, por Arquimedes que as criou (?!), por volta do ano 237 a. C., porque se o homem criou Deus, que é mais, criou também o universo, que é menos. Se, como afirma Kant, “nós pomos às coisas as suas essênciais", igualmente, pomos ao universo as suas leis, que são essênciais, sem as quais ele cessa de ser, e é caos.

Quando a massa do universo, em seu giro e transformação fatais, chegou ao grau preciso, a dinâmica da vida a fecundou, brotando dela todos os vegetais, os animais todos, e, destes, nós. Conhece o homem hoje a sua fraca origem, filho ele que é da natureza, filho da vida, vindo primeiro da vivente gelatina, dos animais depois, escala acima, de modo que tudo o que nele há, surgiu, plasmou-se, aos crus tormentos e embates da existência. Seu olho formou-se por influência e ao influxo da luz, e, como o olho, todos os demais aparelhos e órgãos vitais.

Antes que a máquina fotográfica fosse uma invenção humana, o olho, que é uma câmara fotográfica, há quatrocentos milhões de anos, foi criado pela Natureza... dentro da qual age Deus, por meio do seu complexo de leis, de princípios, e de substâncias... , ele que, também, se acha muito além das fímbrias do horizonte, embuçado na sua inacessa e infinita transcendência. O coração é uma bomba hidráulica, antes da bomba hidráulica inventada pelo homem, e os peixes de velocidade têm forma de submarino, milhões de anos antes que tais navios existissem... , tal qual ocorrendo com as aves e o avião. Fritz Kahn diz que "o universo é matemática tornada substância", mas isto, entendamos bem, cinco ou mais bilhões de anos antes do aparecimento do homem.

A peste idealista apegou-se ao homem moderno desde Kant..., para quem "nós é que pomos às coisas as suas essências"...; para quem, por conseguinte, a matemática do universo, pô-la, nele, o homem...; para quem, portanto, as leis da alavanca

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consubstanciadas nos corpos celestes e nos corpos animais, aí, as pôs Arquimedes...; para quem, logo, "os raios vetores varrem áreas iguais em tempos iguais", porque Kepler pôs isso no coração do átomo e no do universo. Porque tudo tira o homem de si..., também, de si, tirou Deus. Por esta razão fazemos nossa a fala de Bertrand Russell quando escreve: "Kant goza de reputação de haver sido o maior dos filósofos modernos, mas, na minha opinião, não foi senão uma desgraça".

"Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se é que tens inteligência."

"Quem deu as medidas para ela, se é que o sabes? ou quem lhe lançou o cordel?"

"Sobre que foram firmadas as suas bases? ou quem assentou a sua pedra angular, quando os astros da manhã me louvavam todos juntos, e quando todos os filhos de Deus estavam transportados de júbilo?"

(...)

"Acaso és tu o que depois do teu nascimento deste lei à estrela d'alva, e o que mostraste à aurora o seu lugar?" (Jó 38, 4 a 12).

Se o homem criou deus, deus é a criatura, e o homem, o criador. Com isto, o homem fica sendo mais que deus, pois o criou a ele. Contudo, esse homem mais que deus, pois que criou o próprio deus, não se criou a si mesmo, nem o universo, e isto é dissuasivo. Quem, logo, teria criado o universo, e nele, o homem que criou, depois, o próprio deus? Eis aí a petição de princípio que se remonta até o postulado intuitivo, primígeno da mente humana que, em sua simplicidade, diz: tudo o quanto há formado, Deus criou...

* * *Desde quando, faz dez mil anos, principiou o arvorecer da

civilização, o então já homo sapiens passou a apoiar-se num triângulo cujos lados são: o próprio homem, o mundo e Deus. Os três termos são irredutíveis entre si, e a tentativa, ou de rejeição, ou de redução de qualquer deles, cria dificuldades insuperáveis, obrigando uma retomada, em que o termo descartado reaparece com outro nome. Se Deus for deixado de parte, ele ressurge, depois, com nomes diferentes tais como Razão (Parmênides, Hegel), Eu Absoluto (Fichte), Liberdade (Sartre), Super-homem (Nietzsche), Proletariado (Engels, Marx), Positivismo (Augusto Comte), Cientismo (racionalistas modernos), Natureza (Spinoza) e até a Técnica poderá vir a ser um deus, o Gólem impiedoso que tritura o homem por entre suas engrenagens. Fale Joelmir Beting:

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"Os três astronautas pousam de para quedas no Pacífico com a suavidade de um beija-flor. Acoplada ao satélite de comunicações, a televisão brasileira coloca a imagem, o som e as cores do momento histórico no conforto distante de meu escritório (...)

"A televisão brasileira faz subir o fundo musical de "Danúbio Azul" e eu me transporto, em espírito, para o cinerama do Majestic, momento culminante de "2001, Uma Odisséia no Espaço". Vejo o homem-macaco arremessar o osso do mastodonte e vejo o osso, solto graciosamente no ar, dissolver-se em um veículo espacial, o "Discovery". Nas fímbrias do infinito e do mistério, a espaçonave viaja rumo a Júpiter sob o comando não mais do homem-macaco, mas do homem-máquina ou da máquina-homem, o computador HAL 9000, de vigésima geração. Um robô que pensa, que toma decisões, que canta, ri, chora, ama, odeia e mata. Um homem perfeito.

"O "Discovery" faz parada de reabastecimento na Lua e as câmeras de Stanley Kubrik fazem um corta-luz para o grande enigma não desvendado do filme: o monolito negro, que acompanha o bicho-homem do primata ao astronauta, das cavernas da pré-história às crateras da Lua. A viagem prossegue na direção das estrelas e termina na perdição do super-homem, o jovem astronauta que destrói o computador, ao mesmo tempo patrão, guia, amigo e assassino, mas não consegue libertar-se de si mesmo. Um feto do super homem, guardado numa placenta de vidro faiscante, contempla a Terra pequenina e azul, flutuando no infinito. E a Terra, grão de areia na vastidão do Universo, não tem a mínima importância. Nem ela nem sua incorrigível criatura, o bicho-homem".

"Mas serás tu que leis a Deus promulgues?" (Milton, Paraíso Perdido - Canto V).

"Acaso és tu o que depois do teu nascimento deste lei à estrela d'alva, e o que mostraste à aurora o seu lugar?" (Jó 38, 12).

* * *A intuição que já o primitivo tivera de Deus como instância

suprema reguladora de seus atos, foi havida como invenção do próprio homem, pelo que foi este quem criou Deus, e não, vice-versa. E todos os deicidas, ou anunciadores de que Deus morreu (Nietzsche, Sartre), não atinaram que a obra sai ao autor. Se o homem foi o que criou Deus, este seria como é o homem egoísta, astucioso, embusteiro, falso, hipócrita, perverso e mau, que fez da própria inteligência a arma suprema para vencer e esmagar. Deus sairia, então, como é o homem - um "porcus bipedus"! Em vez, porém, de o homem projetar-se em Deus, ou criar Deus segundo sua própria imagem de "porcus bipedus", ao invés disto, negou-se primeiro a si mesmo, e essa

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negação de si projetou-a em Deus que, daí em diante, ficou sendo a instância superior de apelação, o primo árbitro, o supremo padrão de que saíram todas as instituições. Dizer que foi criado Deus pelo homem segundo a própria imagem deste, é rebaixar a Deus à besta fera que o homem realmente é. Contudo, sabendo-se animal feroz, e o pior de todos, propor o homem a sua negação mais extrema como paradigma de conduta, como modelo a ser seguido, como padrão de vida, e dizer: tudo isso é Deus; acaso é isto criar Deus segundo sua própria imagem e semelhança? Como foi possível o homem projetar-se invertido em Deus? Para que o fez? Em que se baseou ele para provocar sua própria inversão? Quem disse ao homem que ele estava invertido? Foi Deus? Logo, a intuição de Deus que teve o homem, é a de que Deus é o homem pelo avesso!

Se o homem criara Deus, este sairia como saiu o super-homem de Nietzsche, o super-bruto que se punha para além do bem e do mal, fazendo da sua vontade ou capricho, suprema lei. E que lei era esta? Mostrou-a, logo, ele: a lei natural da força e da astúcia que tripudia sobre a justiça e a bondade, tidas estas por fraquezas: "ser justo é ser forte", sentencia ele. Eis a verdade: o que, de fato, o homem criou segundo sua própria imagem, foi o Diabo; depois intuiu Deus como sendo a oposição polar de Satanás. A primeira experiência do homem em evolução não foi a do céu, senão a do inferno; não, a de Deus, mas a do Demônio com quem se defrontava a cada passo, e era cada semelhante tão feroz e bruto, como si mesmo.

Sartre, também, depois de ter dado Deus por morto, assentou que o fim do homem é ser deus, porque, só assim terá liberdade plenária, absoluta, e não relativa como agora é. Para realizar este velho sonho de Satã, seria preciso, como diz, matar todos os homens, para depois poder reinar sozinho. "Reinar é o alvo da ambição mais nobre,/ inda que seja no profundo Inferno:/ reinar no Inferno preferir nos cumpre/ à vileza de ser no Céu escravos" (Milton, Paraíso Perdido, Canto 1). Todavia, para Sartre, em seu intento de ser o sumo homicida, porque, como diz, ainda que matasse os homens todos, não poderia evitar que eles tivessem existido e na impossibilidade de destruir, também, esta memória insofrível, idealmente, volta contra si a arma suicida, anelando pelo aniquilamento próprio, pelo nada.

Nietzsche quer Deus morto, para retornar à besta feroz, ao "porcus bipedus", sem bem nem mal, num mundo em que impere a força, porque, como diz, a bondade é fraqueza. Sartre anunciou que Deus morreu, e, por isto, e também por não poder ser deus, tinha de morrer, por sua vez, que esta é a sina de quem mata Deus. O homem criou deus à sua imagem e semelhança? Eis o deus criatura do homem! deus que, ou é o bruto ansioso por ver-se livre das peias da moral, ou é

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um deus suicida, porque o egoísmo próprio o impede de partilhar a sua divindade com seus semelhantes. Sim, o homem criou seu novo deus, matando o antigo, e esse novo deus criado, deus moderno, saiu ao criador, saiu ao próprio homem, um demônio que, ou destrói tudo, ou inteiro se aniquila.

Quando o homem primitivo assentava um golpe de martelo no nariz do grande urso das cavernas, hibernado em seu sono, matando-o, para devorar-lhe o sangue, as carnes e as gorduras, podia ter ficado apenas nisso, à semelhança do que fazem os outros animais predadores. Mas não; preocupava-se com o seu ato, e quis justificá-lo, que isto é próprio do homem, por isto chamado "animal metafísico". Raciocinou, então, que o urso dava a própria vida para que sobrevivesse o homem. Então, era o urso um deus? O termo "deus" deriva-se do verbo dar, diz Vieira; é Deus porque dá. E a vida é o máximo que se pode dar. Não é que o urso desse a própria vida, senão que, por força, lha tomavam; porém, assim como a professora ensina às crianças, ainda hoje, que a vaca nos dá o leite, o boi e o porco, as carnes e as gorduras, o carneiro, a lã, não acudia ao homem primitivo que o urso era vítima de um assalto a mão armada praticado por um ladrão.

Esta justificativa ou racionalização, própria do homem, fazia da morte do urso um exemplo de generosidade, pois só um deus seria capaz de morrer para a salvação da espécie humana, ameaçada de extinção pelo frio e pela fome. À generosidade tanta, o homem retribuia com o sacrifício de hóstias humanas cujas carnes também eram devoradas em honra do deus morto. Assim nasceu a antropofagia.

Ora bem: por detrás de toda esta selvageria horripilante, uma idéia não humana ou sobre-humana já desponta: a generosidade extrema de sacrificar-se por outrem. Acaso havia, então, algum homem generoso a tal extremo? Se a generosidade não tinha ainda exemplo entre os humanos, e só num deus podia achar-se, pode ser que Deus seja criação da mente humana, e o é, como intuição, em razão do que tem isto de inusitado: tal criação se revelou, desde o início, como negação do egoísmo fechado, intransigente e perverso, como inversão do homem natural. Comodista como é a natureza, a vida, o homem, como foi este criar uma coisa tão antinatural e incômoda como é a moral, para depois submeter-se a ela tascando o freio qual irrequieto e ríspido corcel? Acaso precisava ter criado o homem, para si, tão formidoloso azorrague, com que se pune por sua animalidade?

A intuição de Deus relampagueou na mente do primeiro gênio, forçando-o, ainda que apenas em projeto, a negar-se de dragão sanhudo e mau, e, assim ao negativo do que in natura é, projetou-se em Deus; esta projeção, refletindo-se de Deus, reoperou sobre ele, gênio, civilizando-o; tal super-homem fez-se, depois, fermento da

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massa humana, civilizando-a, também, até o quanto ela suportou civilizar-se; por este meio, pela sucessão de tal fermento no tempo e no espaço, a humanidade chegou ao estado em que hoje a vemos. Todavia, o quanto que a civilização ocidental pode absorver de Cristo, ainda se acha muito aquém da meta, porque o nosso cristianismo via Sócrates, via Paulo, deu no socratismo cristão e no paulinismo. Sem Deus, pois, não há civilização porque esta se apóia na moral, e não há moral sem Deus. Deus, logo, se constitui numa vital necessidade para o homem.

Dir-se-ia, no entanto, que o homem das cavernas não cultuava o urso, por ver nele o símbolo da generosidade, mas por medo. A fúria do espírito do urso, pela morte violenta que lhe deram, precisava ser aplacada; daí os cultos, as oferendas, as hóstias do sacrifício, as pompas funerais com que todos iam a enterrar a cabeça do urso amortalhada. Foi o medo, e não, a generosidade, que deu azo aos cultos primitivos.

O medo é um sentimento conhecido de todos os animais; porém, medo metafísico? medo escatológico? Medo do espírito vivente que não morre com o corpo? Sobrevivência da alma, seja do urso, seja do homem? Possibilidade de essa alma vivente atuar no mundo humano, fazendo o bem ou o mal? Viabilidade de fazer-se sentir? de comunicar-se? Então, o feiticeiro, que é o primeiro sacerdote e filósofo, veste a pele do urso, e, em seu nome, dita leis morais, impõe a disciplina, cria instituições, tudo a mando do deus morto-vivo que fez prova de generosidade, deixando-se matar para que os homens tivessem vida. Escapa-se de uma ponta e já se cai na outra do bicórnico problema; e por quaisquer destes caminhos escatológicos, os cultos primitivos já se encaminham a pôr freios à animalidade grosseira, principiando por domar a besta, tornando-a menos bruta e mais civilizada.

Homens inteligentes feitos para ver tudo em termos de totalidade, sempre os teve o mundo; e vestidos com peles de ursos os feiticeiros-sacerdotes-filósofos acharam meios fáceis de transmitir os resultados de suas próprias intuições, de suas lucubrações a respeito de si, do mundo, dando tudo como sendo falas do próprio Deus.

O homem, mundo e Deus, eis o delta luminoso, o triângulo equilatero perfeito, que tem de ser mantido em harmonia, e quando se altera um dos lados, mudam-se também os outros dois. E se um dos lados desaparece, cessa o triângulo, desequilibra-se o sistema humano, obrigando-se o homem a retomar o termo descartado que reaparece sob outro nome.

O materialismo, para usar a expressão de Georges Gusdorf, “rejeita Deus e atufa o homem no mundo; após o que, cumpre-lhe

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reencontrar a pessoa e restabelecer um absoluto tanto mais temível quando o afirmamos como positivo e natural”. Esta pessoa a ser reecontrada é Deus que toma o nome de proletariado, não o concreto e real, que este é transformado em coisa como tudo o mais, mas, o ideal, genérico, abstrato; este proletariado abstrato é o que, tomando o lugar do absoluto, se torna num deus em cujo nome uma minoria dominante, não proletária, estabelece uma ditadura estatal, o comunismo..., este que é o primo irmão do outro

Estado absoluto hegeliano, o nazi-fascismo. Ainda Gusdorf:“O panteísmo atufa o homem e o mundo em Deus, e, em

seguida, esfalfa-se por reencontrar aquilo que ele próprio ocultou”. E o que ele ocultou foi o aspecto transcendente da Divindade, pelo que a Natureza, o Mundo e o Universo se transformam em Deus. Se o homem e o mundo são atufados em Deus, como o fizera Espinosa, a Natureza toma o lugar de Deus, e tudo o que for natural passa a ser divinamente certo. Com isto, se perde a noção da hierarquia de valores (axiologia), não havendo nenhuma instância superior a que se apelar; cessa, então, de ter sentido o bem e o mal, visto como tudo segue o determinismo da Natureza, inclusive o homem que não pode fugir à sua determinação histórica inviolável, pelo que não tem responsabilidade, nem culpa, não sendo passível de nenhuma punição. Um mundo sem férreas leis morais, não se mantém; daí que Leibniz, conquanto admirador e amigo de Espinosa, não sabia o que dele pensar. Gusdorf ainda:

"O misticismo ignora o mundo e atufa o homem em Deus; só que depois precisa absolutamente de voltar a dar sentido ao mundo e de distinguir o homem de Deus". Quando um homem se recolhe à contemplação da Divindade, deixa, por isto mesmo, de viver para o mundo e para o próximo. O anacoreta, que significa "o homem que vive só", isola-se, então, num lugar ermo; e se acontece de o número de eremitas crescer ao seu redor, ele constrói uma torre, ou aproveita uma grossa coluna das ruínas do passado, para viver no cimo dela; é o estilista. À força de buscar Deus, o Bem supremo, daí, beatitude, deixa-se de conviver com o próximo cuja presença, em vez de amada, se torna aborrecida. O mundo é, então, desprezado, como demônio, e Deus é intuído como o anti-mundo, o socrático sumo Bem.

"O racionalismo (continua Gusdorf) substitui o homem, o mundo e Deus por uma razão arvorada em chave universal de interpretação dos mesmos, mas, logo a seguir, não consegue dar explicação do mundo real, da pessoa concreta e de Deus, que constituem outros tantos desafios à reta razão".

Considerado Deus como Razão pura, por isto mesmo, deixa ele de ter existência real, uma vez que, como Ente puro de razão, se

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torna abstrato, sem substância, não havendo, para si, espaço, e tempo, e mutabilidade. Para ser objetivo, real, necessita Deus de substância, e esta, desde Parmênides, foi considerada não-ser. Logo, esse Deus-Razão-Pura não existe, mas é; somente é no pensamento do homem, como pura idealidade subjetiva. Se, conforme o afirma Kant, "nós é que pomos às coisas as suas essências", o mundo e Deus só passam a ser, quando o homem os põe, e põe-nos só como entes puras de razão. Conseqüentemente, no homem, na razão humana, eles são, e não, fora dela. O homem, deste modo, se faz o fundamento; porém, não ainda o homem integral, senão, apenas, o homem como pensamento. Sendo o homem a matriz de tudo, Deus é criação humana, como o entendia Voltaire..., não lhe ocorrendo então, como racionalista, como idealista, que a visão do mundo pudesse sugerir ao homem alguma coisa, nem ao menos, como ele próprio o entendeu depois, que o grande relógio do universo impunha haver seu Construtor.

Deus e o mundo, assim, se atufam no homem, com que passa este a ser "a medida de todas as coisas", como já pensava o sofista Protágoras; com isto, o homem se tornou última instância, padrão supremo, e, porque se põe no lugar de Deus, não é muito que expluda na arrogante frase de Nietzsche: "Se houvesse Deus, como suportaria eu não ser Deus?". E Sartre, a seu modo, vendo-se na impossibilidade de ser deus, por reconhecer o mesmo direito nos demais homens, anseia pelo aniquilamento próprio, pelo niilismo total, e, assim, a não poder ser deus, antepõe a morte, o nada! Só a morte própria, como o afirma, pode acabar com a insofrida angústia e nostalgia da existência de outrem, e, ainda que se o matasse, não se poderia evitar a memória de ele ter existido ...

A era do Positivismo, do Fisicalismo e do Cientismo, começou com Augusto Comte, e a filosofia caiu no ridículo; a metafísica passou a ser um termo quase tão pejorativo quanto o de sofista que, por ironia, quer dizer sábio. A ciência passou a ocupar o lugar de Deus, e o mundo e o homem tinham que ser demonstrados em termos de ciência positiva. "Mostrarei (dizia A. Comte ufano) que existem leis tão determinadas para o desenvolvimento da espécie humana como para a queda de uma pedra". Tais leis, todavia, estão sendo esperadas até hoje, e, em vez de se realizarem os vaticínios de Augusto Comte, o que se verificou foi o completo aturdimento e ineficácia das ciências sociais. Porém, como o afirma Joelmir Beting, "civilização do bode expiatório, preferimos atribuir aos avanços da tecnologia moderna e não aos fiascos das ciências sociais a culpa por todos os males do mundo".

O próprio Augusto Comte, no entanto, que dobrara, a finados, pela morte da metafísica, teve que retomar o que descartou, fazendo, ele

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também, metafísica, e da pior espécie, tão ruim, que não a subscreveria um homem das cavernas, por faltar a ela uma dimensão, a altura. Pretendeu ele instituir uma religião sem a esperança de vida após a morte, cujo objetivo do culto era a Humanidade, in abstracto, à qual deu o nome de Grande Ser. Depois desta primeira "pessoa" da trindade, vinha a segunda nominada Grande Meio, e era o Espaço; a terceira "pessoa" era o Grande Fetiche que simbolizava a Terra. O mais tudo eram caricaturas grotescas dos símbolos e liturgias do catolicismo.

Por ironia dos tempos, este fetichista que prestava culto às coisas brutas como a Terra e o Espaço, foi o que desferiu o golpe contra a filosofia, pondo-a no ridículo, se bem que por pouco tempo. Riu-se ele com os seus positivistas de tudo o quanto manteve a humanidade surpreendida, admirada, de tudo o quanto a animou e a fez viver, e também morrer, nas pessoas dos mártires venerandos.

A história implacável, no entanto, o desmentiu. Sua religião não teve adeptos, por não dar consolação a ninguém. A antropologia não conseguiu reduzir o homem a princípio de razão. As ciências humanas se fracionaram em radículas, e a unidade do homem perdeu-se no caos das discussões. Então, a Religião da Humanidade, sem Deus e sem esperança de vida eterna, suscitou no mundo uma insofreável gargalhada, e, desde aí, o Positivismo se viu corrido, envergonhado, e seus adeptos passaram a ocultar-se sob o nome de agnósticos..., como se fosse possível ao homem viver sem definir-se, sem sua tomada pessoal de posição em face de si mesmo, do mundo e de Deus, sem uma crença que, certa ou errada, lhe guiasse os passos, lhe norteasse a vida.

O agnóstico declara o Absoluto inacessível ao espírito humano, o que não é verdade, porque o homem não possui apenas a razão, senão, também, o sentimento, o coração, não apenas a racionalidade, e sim, também, a intuição. Não alcançamos Deus com a nossa inteligência, é certo, mas o assinalamos e o promovemos, com um único ato do espírito, a intuição que é a mais alta e categórica afirmativa da conjuntura mente-coração. Outro não é o sentido de suposto que quer dizer sub-posto, posto por debaixo como fundamento. E ninguém, jamais, provou o fundamento que, se o fizesse, ele não seria o suposto, para ser a prova discursiva que se apoia num suposto anterior, indo, descendo, até um alicerce inacessível à razão, porém, que a fundamenta. Sem o suposto, portanto, não teríamos ciência, visto que todas supõem, pontos de partida inacessíveis à razão, indemonstráveis que são os primeiros princípios e os postulados. Os agnósticos afirmam ser o Absoluto inacessível ao espírito humano? Mas, que quer dizer "espírito"? Por ventura é a razão? Neste caso, não são também inacessíveis ao

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espírito humano os primeiros princípios das ciências, os postulados e os axiomas matemáticos? O caso é, então, de eles repudiarem as matemáticas e as ciências, como o fazem com a metafísica, com a religião, pois, tanto quanto estas, aquelas se fundamentam em premissas que hão de ser aceitas de fé... por indemonstráveis! Nenhuma ciência e nenhum homem, por conseguinte, pode prescindir do dado suprarracional, da suma Referência. Na ciência, o Absoluto se acha no seu ponto de partida improvado e improvável, mas suposto, e, por isto mesmo, chamado primeiros princípios e postulados. No homem, o Absoluto é a Referência que fundamenta sua tomada de posição frente ao mundo, frente a si, e frente a seus semelhantes.

O agnóstico, ou porque o é, ou porque se cuida só racional, em negando a Referência suma, fica padecendo de agnosia metafisica que é a perda do senso de ver as coisas em conjunto, em termos de totalidade; e como só este senso pode dar a significação das coisas, do mundo e do homem, a agnosia metafísica vem a ser a perda da capacidade de reconhecer estas significações. O mundo mental do agnostico é chato, cinzento, nostálgico, sem significação, sem valor, nem relevo, nem perspectiva e hierarquia; a vida lhe parece um "muito-barulho-para-nada", na expressão de Schopenhauer. Cessado o sentido de hierarquia que tudo integra em cadeia ascendente de unidades, até totalizar-se no Absoluto, o agnosíaco se toma de tédio, de angústia, face a seu mundo que se aplaina num relativismo infinito.

Foi este achatamento do mundo que levou Augusto Comte a tentar o suicídio pelo afogamento nas águas do Sena, só não ocorrido porque o salvou um homem ao qual, logo, o mundo deve toda a obra comteana. Nesta obra o pensador francês pretendeu erigir a relatividade em única lei absoluta enunciando que tudo é relativo. Ora bem: no próprio enunciado vai escondido, implícito, aquilo que o desmente e prova o seu contrário; porque, se tudo é relativo, nada é absoluto; por conseguinte, o princípio que enuncia: "tudo é relativo", é relativo também. Se tudo é relativo, essa relatividade atinge o próprio enunciado, pelo que ele também se torna relativo. Se o enunciado que nega o absoluto é relativo, então, é que há o absoluto, frente ao qual o resto é relativo. Em que se baseia quem afirma ser tudo relativo? acaso, no próprio relativismo? Quem está imerso no relativo não possui autoridade para afirmar nada sobre o absoluto... de que não tem experiência, e, se, ousado, sentenciar que "tudo é relativo", nesse ponto deixou implícita a afirmação de que seu enunciado também o é. A formiga da parábola, depois de exausta de tanto andar na superfície da bola dependurada pelo fio, também concluiu que tudo é superfície chata, ilimitada, sem princípio nem fim para todos os lados. De nada lhe valeu dizer-lhe a recém-chegada

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abelha, que a esfera existe, pois a enxergara antes de pousar ali. Como as experiências são intransferíveis, não houve meio de a abelha explicar para a formiga o que vem a ser a esfera cuja superfície ela esteve o tempo todo a esquadrinhar. Contra Augusto Comte que diz ser tudo relativo, iremos demonstrar como também tudo pode ser absoluto.

Os termos do triângulo Homem-Mundo-Deus, como temos visto, são irredutíveis entre si, e se foram aperfeiçoando através dos tempos, ora a ênfase recaindo sobre um mais que sobre os outros. Contudo, o equilíbrio subsiste, se for mantido o triângulo perfeito, equilátero, ou delta luminoso..., luminoso pela sabedoria que encerra em manter sempre a igualdade dos lados, não tolerando deformação, isto é, que um dos lados suplante os demais; sabedoria que consiste na compreensão de que o homem não é o mundo, por ser o sujeito cognoscente, a pessoa; de que o mundo não é o homem, por ser o objeto cognoscível; que o homem não é Deus, porque não é autônomo, nem pode bastar-se a si mesmo, nem pode ser instância suprema de apelação para si. Para regular sua vida individual e coletiva, precisa reportar-se a uma instância superior não humana. Finalmente, que o mundo ou a natureza não é Deus, porque é relativo, e ainda, por cima, invertido ou no avesso. Por este motivo, se considerarmos o mundo como instância superior de apelação, nossa moralidade, com base na natureza invertida, amoral, egoísta e má, terá que ser como a de Nietzsche, de Trasímaco e de Maquiavel que sentenciam: "Ser justo e bom é ser forte"; "a bondade cristã é fraqueza; ela é invenção dos fracos para manietar os fortes"; "a justiça e a bondade são o desassombro do forte"; "melhor é ser temido que amado". Eis, pois, que, como se pode observar, embora na vida, no mundo, haja coisas boas e belas, ao lado destas há a feiura extrema, o sofrimento e a maldade sem nome. Fora isto, o Deus de que a natureza participa sob a forma de imanência ou panenteísmo, não é todo o Deus, visto como ficou de fora o Absoluto que é Deus no seu aspecto de transcendência.

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V - TUDO É ABSOLUTO E RELATIVO

Absoluto e relativo são termos que se opõem e se excluem, como contrários, embora possam achar-se presentes no espírito de um mesmo observador, em duas visões opostas dele, pelo que tudo se lhe mostra relativo e absoluto, em dois tempos consecutivos; também podem, estes dois termos, ser considerados ao mesmo tempo, desde que sejam dois os observadores, dependendo só da atitude psicológica, do mirante mental, em que se postarem eles. Um elétron, considerado em si mesmo, como uma unidade isolada, estanque, é um absoluto; considerado, porém, em função do átomo que ele forma com seu par oposto e complementar, que é o próton, é relativo, pois, para formar o átomo, ele pede esse outro termo do mesmo nível hierárquico, mas contrário e complementar, com o qual se associa. Assim, também, um átomo, separado de tudo o mais, para um estudo analítico, ou seja, dele abaixo, fica sendo um absoluto; não, porém, se o considerarmos em referência à molécula, em função desta, porque, neste caso, o átomo exige o companheiro de características e de polaridade opostas, com o qual se relaciona, formando a molécula.

Numa visão de síntese ou indutiva, que é a que vai do particular para o geral, os elétrons e os prótons são relativos, e só podem ser entendidos em função daquilo que formarão, combinados, e esta função ou referência é o átomo. Não sendo o átomo um absoluto, para a visão de síntese, ele se relaciona com outro átomo de polaridade oposta, e desta junção nasce a molécula.

A unidade maior, resultante da integração das duas menores, é sempre a referência ou a função que torna inteligível essas unidades menores que são quais são, por causa daquilo que, combinadas, hão de formar mais acima. Não se poderia entender a diferença específica entre o homem e a mulher, se ambos não fossem talhados um para o outro, com vistas à formação da família. A mulher não é em referência ao varão, ou em função do homem, como escreve Ortega, porque, neste caso, o varão seria em referência a que? Acaso é o homem um absoluto, paradigma ou termo de avaliação da mulher? E por que padrão deve ser o homem avaliado? Ambos, homem e mulher, são em referência à família, em função da família, pois, esta é que dita as normas de comportamento e de ser de um e de outro do par humano. Fugir à norma é desfazer a união, é destruir a família. Cada um do par, portanto, terá de pôr-se no seu devido lugar, no seu posto; terá de manter e aprimorar sua diferença específica corpórea e mental, que nisto só se cifra a norma. Isto é claro como o Sol.

No entanto, escreve Ortega: "Porque assim como a mulher não

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pode em nenhum caso ser definida sem referi-Ia ao varão, tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. Ciência, técnica, guerra, política, esporte, etc., são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa, sem que a mulher tenha intervenção substantiva. Este privilégio do masculino, que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo, talvez pareça irritante. É possível que o seja. Eu não o aplaudo nem o vitupero, mas tampouco o invento".

É certo que Ortega não o inventa, mas tampouco o explica; e, fazer isto, explicar, é exercer a sua função como pensador. O próprio Ortega, falando da presença das duas metades de uma maçã que nos pode ser apresentada, diz que só enxergamos, da maçã, a parte voltada para nós; a outra metade, a oculta, conquanto não nos esteja presente à vista, está-nos compresente, visto como a imaginação completa a parte faltante, apresentando-nos a maçã como um todo. Em nosso mundo das imagens, a maçã se nos mostra inteira, e não, apenas, como meia maçã, porque, aí, no psíquico, se fundem, na unidade, o presente visto com o compresente imaginado. De igual modo, podemos estar muito tranqüilo a ler em nosso gabinete, abstraído do resto do mundo; suposto que, nesse momento, poderosa máquina ice nossa casa, e a leve para os ares, de modo que, em chegando nós à porta, damos com o espaço vazio. Acaso poderíamos continuar com nossa leitura? Daí que o gabinete que nos é presente, se vincula, em nosso subjetivo, com o resto da casa e arredores, e estes, com a rua, com a cidade, isso tudo como compresentes. Face a isto, do próprio Ortega, para onde vai o privilégio do varão que consiste em "que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não"?... se ela é sempre compresente ao homem, em todas as atividades deste? Suponhamos que Deus, sabendo que agora o homem não mais está só, como no Éden, pois se satisfaz com sua ciência, sua técnica, sua guerra, sua política, seu esporte, etc.; se Deus concluísse, então, que tais "coisas em que o homem se ocupa como centro vital de sua pessoa, sem que a mulher tenha intervenção substantiva", são bastantes a dar-lhe cabal contentamento, resolvesse, por um passe de mágica, suprimir todas as mulheres do mundo, que faria o homem com sua "ciência, técnica, guerra, política, esporte, etc."?

Se é que "o forte da mulher não é saber, mas sentir"; se é que "o centro da alma feminina, por bastante inteligente que seja a mulher, está ocupado por um poder irracional"; se, "a idéia (...) de que o homem valioso tem de enamorar-se de uma mulher valiosa, em sentido racional, é pura geometria"; se, "tudo que é humano, é sexuado", donde

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haver, até, "um "ensimesmamento masculino e outro ensimesmamento feminino" se, "dentro da mulher não há meio-dia nem meia-noite: é crepuscular. Por isso, é constitutivamente secreta. Não porque não declare o que sente e lhe sucede, mas porque normalmente não poderia dizer o que sente ou lhe sucede. É para ela também um segredo"; se, "toda a vida psíquica da mulher está mais fundida com o seu corpo do que no homem; isto é, a sua alma é mais corporal mas, vice-versa, o seu corpo convive mais constante e estreitamente com seu espírito; isto é, seu corpo está mais transido de alma"; se, "a atração erótica que produz no varão não é, como sempre nos disseram os ascetas, - cegos para tais assuntos, - suscitada pelo corpo feminino enquanto corpo; ao contrário, desejamos a mulher porque o corpo d'Ela é uma alma"; se, como estamos vendo, a mulher se mostra tão oposta ao homem, tendente a ser "um gênio do tronco-cerebral", no dizer de Fritz Kahn, ou, como disse Victor Hugo: "o homem é a inteligência, e a mulher, o coração", em que sentido estaria certa a observação de Ortega, de que "a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão". (Todas as citações são de Ortega).

E ainda o confirma Ortega noutro lugar, ao dizer: "porque, com efeito, essa intimidade que descobrimos no corpo feminino e que vamos chamar de "mulher", se nos apresenta de início como uma forma de humanidade inferior à varonil". E ainda: "Não existe nenhum outro ser que possua esta dupla condição: ser humano e sê-lo menos que o varão".

Por que há o homem de ser o padrão de humanidade, pelo qual a mulher será avaliada? Em que alicerce se firmaram os filósofos para julgar a mulher inferior ao homem?

Eis a resposta: porque todos deram como excelente a razão; os sentimentos não contavam; o corpo era mundo, e o mundo, não-ser. A mulher é mais corporal que racional; logo, menos humana..., visto como humanidade é idêntico a racionalidade. A excelência da razão é tanta, que o Deus de Aristóteles, de Santo Tomás e de Santo Agostinho, se ocupa de pensar pensamentos...

Fazendo excelente a racionalidade, cai-se até no absurdo de dizer, como o fez Ortega: "Alguma vez, a mulher se adianta um pouco: Aspásia. Por que? porque aprendeu o saber dos homens, porque se masculinizou". Eis o absurdo: a mulher que se masculiniza, adianta-se um pouco, como se adiantou Aspásia, a exemplo de Vênus de Milo "que é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios".

E quando a excelência não é a racionalidade, passa a ser a força, outra virtude do varão bronco das pósteras idades; "quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher, imagina a

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valquíria, a fêmea beligerante, virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão". Com tal mentalidade, não é muito que Platão propusesse a pederastia como forma alta de união; que o homem acabado, completo, pusesse o seu amor num jovem belo e discreto, isto é, culto, antes que numa mulher. Por que? Pois não pode ser por outra causa senão que tal jovem se sente arrebatado pelas coisas altas e belas do intelecto, da arte, do espírito. Com este se podia, então, manter um comércio, não só físico, como também, e sobretudo, intelectual. Com a mulher é impossível este intercâmbio, porque, não sendo ela essencialmente racional, desdenha estas coisas. O homem altamente dotado de espírito, ao unir-se a uma mulher, tem de deixar de lado o que mais fortemente é, para tornar-se num homem vulgar, ou seja, tem de falar sobre banalidades e miudezas tolas, que só por isto se interessam as mulheres, enquanto mulheres.

Eis, pois, a pederastia, como decorrência do primado que assenta a razão como excelente, ao tempo em que desdenha do sentimento que é substancial, e de tudo aquilo que, por ser mais corporal, por isso mesmo é menos intelectual, menos alto, menos nobre. Aqui está o silogismo na forma analítica: Deus é razão pura..., pura essência sem matéria alguma... e vive, por isto, ocupado só em pensar pensamentos. Ora, o homem é feito mais para a raciona]idade que a mulher. Portanto, o homem possui quota maior de perfeição, sendo, a mulher, um homem inacabado (Aristóteles). A virago é mais homem que mulher; por conseguinte, ela, em se aproximando mais do ser do homem, fica superior às demais mulheres (Ortega), embora não chegue ainda a ser um moço belo e discreto com o qual se possa ter uma união deleitável, no entender de Platão. O mesmo silogismo, agora, na forma sintética: Deus é razão pura; ora, os pederastas (ativo e passivo) são racionais; logo, a união entre estes é mais alta, para o deleite e perfeição, do que a união com mulheres que, menos nobre, atende apenas às exigências da natureza bruta, animal, com vistas à procriação.

Assim o entendiam os antigos. Contudo, está errado, porque Deus não é essência pura, senão também substância, unicamente, pela qual objetivamente existe. Dado que o fiel da balança, na mulher, pende mais para o corpo, para o sentimento, para o amor, ela se aproxima mais de Deus por este aspecto do que pelo da racionalidade. Já o homem pende mais para a razão do que para o sentimento. Na família é que se dá a convergência destes dois contrários: homem e mulher, razão e sentimento, racionalidade e amor, inteligência e coração. A mulher, portanto, não é em referência ao varão, cópia carbonada dele, imitadora servil do homem, porque Deus não é razão pura, sendo este o motivo remoto de a mulher não

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poder ser comparada ao homem; terá ela que ser definida em relação ao sentimento, ao amor, e não, em referência à racionalidade. Conseqüentemente, as mulheres masculinizadas, viragos, racionais, são inferiores, do mesmo modo que os homens efeminados. E se os homens reclamam de as mulheres não prestarem atenção às coisas do intelecto, elas, por sua vez, protestam contra o alheiamento dos homens em relação a elas próprias e à família.

E há mais isto, conforme já o demonstramos nestas e outras páginas: não há ser real sem essência e substância; não há entidade objetiva sem alma e corpo. E assim como a fechadura não é mais importante do que a chave para fechar a porta, e vice-versa; nem a porca, mais que o parafuso, para apertar a peça; nem o elétron mais que o próton para formar o átomo; de igual modo, alma e corpo são igualmente importantes para formar o homem, e este e a mulher são igualmente importantes para formar a família. A mulher é igual ao homem em importância, em valor, porém, diferente por função. A referência de valor da mulher não é o varão; a mulher não é em função do homem, e sim, ambos, em referência ou em função da família.

Ou cada um do par humano é considerado individualmente, separado para uma visão de análise, pelo que se torna um absoluto, não se referindo a nada para além de si, ou é olhado em referência à família, e, aí, o homem é igual à mulher em valor, em importância, conquanto ambos sejam diferentes funcionalmente, como soem ser todos os binários que se integram numa unidade hierarquicamente superior.

Para a visão de síntese, tudo é relativo, porquanto vai juntando partes em todos maiores, e estes, em outros, até perder-se num Horizonte inacessível. Subindo-se por essa escala de relações ter-se-á de chegar a uma Unidade total que não terá outro termo de relação ao qual se associe, por ser única; conseqüentemente, não haverá referência para esta Unidade última que é o Absoluto. A esta última Unidade inacessa, último termo da nossa determinação, da nossa promoção, damos o nome de Absoluto por excelência ou Deus, além do qual não há mais subir. Se o próprio universo físico total é relativo, há de ser em relação ou em função de Algo maior que ele. Deste modo, pelo próprio estabelecimento de relações, chegará o momento em que o Absoluto se nos impõe como Horizonte intransponível e ignoto. Ignorado, mas, existente, porque a mente nossa o determinou, o promoveu, teve de o promover... para não se perder a si mesma no caos mental preludiada pela agnosia metafísica.

Do exposto, vem esta conseqüência: o cético é um mentiroso, porque, se não cresse em nada, se não tivesse crença nenhuma unificando, sistematizando, o seu saber, não poderia orientar-se na vida,

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não poderia agir, estaria impedido de escolher, de decidir-se, de viver. Ora, ele está bem vivo e bem confiante, e anda agindo e discutindo, por aí, seu não vivido negativismo, e ainda justificando sua conduta e suas ações; justificando-as em função de que? em referência a que? se não crê em nada e em dúvida põe tudo? Mas, se justifica sua vida, conduta e ações em função de Algo, como, logo, não crê em nada?

Fritz Kahn declara que "ser céptico é o nível mais elevado que se pode atingir no pensamento. Poder-se-ia dizer, portanto: "O cepticismo é a religião do homem culto". Por causa, como dissemos, de o cético ser um mentiroso, o mesmo Fritz Kahn escreve noutro lugar: "Ë preciso banir do mundo o sofrimento. Não pretendemos ser filhos da natureza; timbramos em sermos rebeldes contra ela". Ora bem: se é nosso dever rebelarmo-nos contra a natureza para a corrigir, porque a julgamos errada ou falha, em que nos basearemos para esse nosso juízo, ou nos alicerçaremos para esse nosso feito? Em nós próprios? mas nós somos produtos da natureza, e o produto que se rebelar contra o produtor será destruído por ele... Então, nos basearemos nalguma verdade fora de nós? Todavia, que verdade pode haver para quem, pondo tudo em dúvida, declara ser este estado de dúvida, de ceticismo, o mais alto, tido até como "a religião do homem culto"? Quem tudo põe em dúvida, não pode reformar nada; mas, se pretende reformar alguma coisa, tem que partir de alguma crença (que é o homem), pelo que tal homem não é cético. E não sendo cético, e tal se declarando, é mentiroso.

O agnóstico é outro mentiroso, porque, se, como diz, o Absoluto é inacessível ao espírito humano, ele não deixa de ter o seu absoluto em que ele fundamenta sua ciência (primeiros princípios), sua matemática (postulados e axiomas), e em que se apóia para justificar suas ações, sua conduta, sua vida. O "Grande Meio" de Augusto Comte é o Espaço; e que é o Espaço se não uma intuição indemonstrável, um absoluto? A Terra é o "Grande Fetiche"; mas por que "Grande", se a própria ciência positiva sabe que ela é apenas parte, e ainda ínfima, de um todo imensamente maior? A Humanidade é o "Grande Ser"; porém, se o próprio homem isolado, individual, ou ele, no seu aspecto social, não pode ser reduzido a fórmula de ciência positiva, a princípio de razão, acaso os positivistas sabem o que vem a ser a Humanidade? Todo mundo sabe o que é a Humanidade, do modo como Santo Agostinho sabia o que é o tempo: "Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é o tempo; mas se alguém me perguntar o que é o tempo, eu não sei o que é o tempo". Então, que é a Humanidade? Para saber-se o que ela é, precisar-se-ia saber o que é o homem..., e este, até agora, não se deixou reduzir a princípio de razão, a discurso racional, a fórmula

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de ciência.Todo mundo sabe tudo e não sabe nada; sabe tudo em grosso,

intuitivamente, como um absoluto; tanto que apura a vista sobre o que julga saber, já não sabe nada, que tudo, então, se perde num relativismo ilimitado. Sócrates dizia nada saber, e, de fato, não o sabia mesmo, exaustivamente, em visão de análise; mas sabia tudo em grosso modo, em visão de síntese; ou então, também era outro mentiroso, como o cético, e como o agnóstico; porque, se nada sabia, como alardeava, então, como coordenava o seu questionário, habilidosamente, de modo a fazer que e interlocutor chegasse onde ele queria que chegasse? Um homem que nada sabe, tem que ser um mudo; falou, para si ao menos, sabe o que diz, e, se, em falando, disser que nada sabe, já disse uma coisa notável: disse ter consciência da sua própria ignorância, porque, quem não sabe nada de fato, nem que não sabe não sabe. E em dizendo ter consciência da extensão infinda do quanto ignora, já mentiu de novo, porque nenhum homem pode ter consciência da vastidão de tudo o quanto ignora. Daí que, chegar a ter consciência da própria ignorância, é ser sábio, e o sábio, em tal grau, ainda está por nascer no mundo. A consciência da própria ignorância só a pode ter aquele que, tendo esgotado todos os recursos da razão, das ciências todas, ainda que em grosso, vislumbrou seu Horizonte inacesso, Deus, um Horizonte que sempre se alarga, afastando-se para mais longe, cada vez mais longe a cada nova retomada, nova determinação, nova promoção. Esse Horizonte é Deus, como extremo Absoluto. Não horizonte espacial, somente, mas, Horizonte sob todas as acepções. Quem chegou a tanto, pode dizer, exausto de infinda caminhada, e com a simplicidade e humildade de um sábio, que sabe que não sabe.

Esta é a visão de síntese, ou indutiva, que leva ao Absoluto, e por tal caminho, o homem intui Deus. Nesta visão, tudo é relativo no sentido de que, exceto a última, todas as demais unidades se relacionam em cadeia hierárquica ascendente, até o Horizonte.

Na visão oposta, ou de análise, ou dedutiva, tudo se nos mostra como todos decomponíveis em todos menores. Agora, então, tudo é absoluto, visto como, cada unidade é vista como um todo isolado; não a vemos, agora, em relação àquilo que, com sua contrária, havia de formar, que é um todo maior. Nesta visão de análise, cada unidade posta a exame, já se nos mostra como um todo unitário, independente de qualquer referência a um todo superior. Um físico nuclear, ao estudar determinado átomo, considera-o como unidade não relacionada. Diverso do químico que procura combiná-lo com outros átomos diferentes, para obter uma molécula composta, e, depois, uma outra complexa da cadeia do carbono; o físico nuclear não enxerga o mesmo

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átomo em termos de relação, mas, em termo de absoluto cuja estrutura tenta desvendar com o auxílio de seus instrumentos e de seus cálculos.

Um mesmo rio pode ter significações diferentes: para um geógrafo que o relaciona com os demais rios de uma bacia hidrográfica; para uns pescadores que enxergam o rio em termos de pescado; para um biologista que colhe, com uma pipeta, um pouco de água para a análise do seu plancto. Para o geógrafo, o rio é relativo na cadeia dos demais rios associados na formação da bacia hidrográfica cujo regime fluvial ele estuda. Para os pescadores, o rio é um absoluto, cujas águas dão os peixes de que se sustentam, pois no pescado se baseia a economia de suas vidas individuais, familiares e comunitárias. Já o biologista estuda o plancto, e, deste abaixo, analisa as espécies microscópicas e larvárias que formam este piso ecológico sobre o qual se apóiam as demais espécies vivas do rio, até os peixes que são o ponto de partida das atividades sócio-econômicas dos pescadores. Aí está, como o rio pode ser absoluto e relativo, dependendo só do mirante de que se o vê.

Um biólogo que põe os olhos sobre um animálculo, abstratamente, pode ter duas visões opostas, uma absoluta e outra relativa. A visão relativa relaciona o bichinho com outros, segundo uma hierarquia ascendente de espécie, gênero, família, ordem, classe, filo e reino. Ainda sua visão introspectiva o pode levar às relações ecológicas, ou às relações de comportamento frente aos estímulos, ou então, a situar o vivente num ponto da escala evolutiva, evocando sua história biológica até ali, vendo, ainda, como, a partir dele, surgiram espécies superiores, graças às mutações, adaptações e seleções... ocorridas durante milhões de anos. Tem razão Ortega: "O "sentido" de uma coisa é a forma suprema de sua coexistência com as demais, é sua dimensão de profundidade. Não, não me basta ter a materialidade de uma coisa; necessito, além disso, conhecer o "sentido" que tem, quer dizer, a sombra mística que sobre ela verte o resto do universo".

Neste ponto pode, nosso biologista, suspender seu pensamento relacionativo ou relativo, e ater-se ao aspecto absoluto do animal, com que o enxerga como um todo independente. Dele abaixo, vê o sistema estrutural de órgãos, de aparelhos, de células, de gens, de moléculas. Neste aspecto, o ente vivo em acurada observação, não se relaciona a nada, não se refere a coisa alguma para cima, e antes, resulta, é o ponto culminante, o absoluto para onde se converge na unidade o leque universal interior, ou as cadeias todas de relacionamentos inferiores. E ainda, qualquer destas unidades inferiores, se posta sob exame, fica, também, absoluta, não relacionada, porque o intento é enxergar do nível dela para baixo.

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Nosso biólogo poderá, então, dizer de si consigo: este animálculo que eu cuidava fosse um nada no universo, na verdade é também um universo no nada,... tal qual escreveu Fritz Kahn da Terra em que habitamos. Bem se expressou Ortega: "Para quem o pequeno nada é, não é grande o grande".

Que é, pois, absoluto, e que é relativo? senão pontos de vista, um que relaciona em cadeia, para cima, e outro que desmembra, disjunta, desvincula, dissocia, desintegra e analisa para baixo? Se quem olha para cima, a escala de relações, conclui que tudo é relativo, o outro que, no topo da escada, olha tudo em unidades mentalmente dissociadas, cada uma como um todo em si mesma, poderia, igualmente, afirmar que tudo é absoluto. Quem teria razão? Pois não pode ser senão aquele que, no meio da escada, olhando para cima e para baixo ao mesmo tempo, com dupla cara do deus Jano, afirmasse que tudo é relativo e absoluto ao mesmo tempo. Tudo, pois, é relativo e absoluto para quem olha uma mesma coisa, em tempos sucessivos, um dela acima, e outro dela abaixo.

Por que estaria interessado o lavrador em estudar todo o complexo sócio-econômico que nasce do milho produzido na sua e nas demais roças? Conhecer a terra, o adubo próprio, as pragas do milharal, os inseticidas eficientes, boas sementes que dêm boa produção, a técnica do plantio e a do trato, tudo são análises, para si, que se totalizam numa palavra - MILHO. Este é o seu objetivo em que se ocupa todo o tempo com pensamentos, cuidados, preocupações e trabalhos; este, o seu absoluto, enquanto produtor.

Tudo o que é do milho acima, não lhe interessa, enquanto produtor; interessa-lhe, sim, quando se põe na atitude de vendedor do seu produto, e é, então, quando entra na cadeia das relações da qual seu milho é apenas um elo.

Enquanto produtor, o milho é o objetivo, o horizonte para o qual se canalizam todos os esforços e aspirações. Se o lavrador fosse um primitivo, e não visse nada além do horizonte-milho, certamente que faria a festa dele, com cerimônias religiosas, danças litúrgicas, distribuição de alimentos e bebidas vindas do milho, pois sendo este o mantenedor da vida humana e da dos animais domésticos indispensáveis, por isto, era um deus..., deus porque dá. Jacó fez voto de que seu Senhor seria seu Deus, se lhe desse pão, vestido e amparo (Gê. 28, 20), porque, como anota Vieira, "A etimologia deste nome Deus deriva-se do verbo dar: chama-se Deus porque dá". Daí, que, como diz Toynbee, "a retirada e o regresso anual do milho, foram traduzidos em termos antropomórficos no ritual e na mitologia, como é testemunhado pelo rapto e pela ressurreição de Dionísio, Adônis e Osíris, ou qualquer outro que possa ser o nome local atribuído ao

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espírito universal do milho ou deus do ano, cujo ritual e cujo mito, com o mesmo grupo de personagens representando o mesmo drama sob nomes diversos, se encontra tão difundido como a própria prática da agricultura".

Também o milho será um absoluto para o biólogo especializado em genética que, de há muitos anos, o estuda no laboratório com o fim de obter uma espécie dadivosa e rica em proteínas, qual a "triticale"..., espécie intermediária entre o trigo e o centeio, obtida graças às modificações produzidas nos cromossomos de ambos. Para tal pesquisador não interessam as muitas cadeias de relações em que o milho aparece encaixado; seu milho também é um absoluto, visto que o vê dele abaixo.

Esta é a razão por que o absoluto do homem das cavernas tinha que ser o urso, pois foi no dorso deste grande animal pacato, herbívoro como se sabe hoje, que cavalgou toda a cultura da Idade da Pedra. O urso era a referência, ou tudo era em referência ao urso; por isto, o homem fê-lo deus, vendo nele aquela generosidade que o próprio homem primitivo não possuía. Depois do urso, foi o milho, com sua vida, e morte, e ressurreição anual. Depois foi o fogo cujo calor e luz aquece e ilumina, fogo do céu no raio, fogo da terra no vulcão, fogo da vida nas entranhas animais, fogo renovador da inteira natureza - igne natura renovatur integra. Por último foi o Sol, o gerador do fogo, o deus da claridade, antropomorfizado nos mitos solares, como o de Sansão cuja força residia na fulva cabeleira, como o de Hércules transformado em chamas no cimo do Eta na Tessália.

A última instância de que o homem, absolutamente, depende, foi sendo o seu Absoluto, o seu último Horizonte, o seu Deus. Por isto, não é muito que o Homo technicus moderno tenha hoje feito da ciência uma deusa nascida, qual Minerva armada, da cabeça de seu pai absoluto que são os primeiros princípios e os postulados, por sua natureza indemonstráveis. A deusa promete tudo ao homem: comodidade, conforto, poder e abundância de riquezas, não, porém, a felicidade, porque esta não é exterior. Também ela diz ao homem, como o Demo a Cristo: dar-te-ei tudo, se prostrado me adorares. Contudo, deve responder-lhe o homem, como Cristo o fez: Vade retro, Satana!... que nem só de comodidade e pão vive o homem, mas de tudo o que, com sensibilizá-lo, o arrasta para Deus! Eis, pois: com Deus, a ciência é sabedoria, e, sem Deus, é luciférica loucura, é o riso de Satanás...; por isto, com ela e sem Deus, o homem, irremediavelmente, está fadado a perecer. Porque como agudamente observou Ortega, "a técnica é consubstancialmente ciência, e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma, e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da

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cultura. Se se embota esse fervor - como parece ocorrer -, a técnica só pode perviver um pouco de tempo, aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. Vive-se com a técnica, mas não da técnica. Esta não se nutre nem se respira a si mesma, não é causa sui, mas precipitado útil, prático, de preocupações supérfluas, não práticas". Eis que o positivismo das ciências, das técnicas se reportam a um não positivismo dos primeiros princípios, dos postulados, da cultura, sendo esta o resultado de um flanar criador, não utilitário, não prático. Este embasamento cultural, metafísico, das ciências (estas, ocultadas por detrás das técnicas), é inalienável, porque, como disse Ortega, a técnica que "é consubstancialmente ciência", “não se nutre nem se respira a si mesma", pelo que se torna absurdo e loucura pretender ser só positivo.

Todavia, em tal loucura, em tal sonho de louco, tresvariou a excelsa inteligência de Augusto Comte, e, pretendendo ser positivo, ficou impedido de ir além da Humanidade (Grande Ser), do Espaço (Grande Meio) e da Terra (Grande Fetiche). Contudo, este fetichismo em que recaiu, para castigo de sua soberba intelectual, está abaixo daquele do primitivo donde partiu ele para os seus estudos, porque, para o grande pensador francês, a porta da sobrevivência da alma esteve hermeticamente fechada. E se a questão era ser positivo, objetivo, aderente aos fatos, nada mais positivo, inquestionável e fáctico do que o urso das cavernas.

Por mais estas razões, que não só aquela já exposta, deixa de ser justa a ironia de Gusdorf quando transcreve o pensamento dos filósofos, de Platão a Lavelle, que disseram: "O absoluto não o é absolutamente". Não é que os filósofos dotaram as palavras de suficiente elasticidade, para, depois, prometerem a vida eterna a seus discípulos, a qual, certamente, para Gusdorf, não existe. É que as palavras têm que ser elásticas mesmo, para acomodar-se a um pensamento dinâmico, móvel, flexível, a fim de que o condor, com seus adejos de asas, possa estar já na terra firme, já nos altos céus.

Absoluto e relativo se opõem como o infinito e o zero matemáticos que, em si, não dizem nada, só passando a ter validade dentro dum contexto, dentro duma situação. Uma coisa pode ser absoluta ou relativa, dependendo de como a enxergamos; se de baixo para cima, numa hierarquia ascendente de unidades, ela é relativa, visto como há sempre uma unidade ao lado dela, complementar, com a qual se relacione, e uma outra maior, acima dela, à qual se reporte, se refira. A última referência é o Absoluto por excelência, Deus.

De Deus abaixo, numa visão de escala descendente, tudo é absoluto, porque qualquer unidade em que se ponha os olhos, não se

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liga, não se relaciona a nada, uma vez que a intenção da análise não é formar unidades maiores, e sim, observar de que unidades menores se constitui qualquer todo cuja estrutura é nosso intento conhecer.

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VI - HOMEM-MUNDO-DEUS

Tudo, pois, é hierarquizado: dois sistemas opostos e complementares integram-se, para formar um sistema maior que, por sua vez, com o seu contrário, forma um outro sistema ainda maior, e assim por diante, até o Absoluto, sendo este uma intuição. Do Absoluto abaixo, todo sistema é decomponível em dois sistemas menores, hierarquicamente iguais em importância, iguais em valor, mas opostos e complementares; e cada elemento do par de menores, a seu turno, pode ser decomposto em outros dois, ainda menores, até o último limite do ser, em que ele, ínfimo, se torna como nada. Conseqüentemente, a missão de cada ser consiste em manter-se no posto que ocupa na hierarquia de um universo perfeito, estável, ou subir para esse lugar, se o universo em que se acha, está em evolução. Fale Ortega: "A rigor, a rebelião do arcanjo Lusbel não houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus - o que não era o seu destino - se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos, que tampouco o era. (Se Lusbel tivesse sido russo, como Tolstoi, teria talvez preferido este último estilo de rebeldia, que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso)".

Nesta onímoda hierarquia, cada ser ou coisa tem o seu lugar, não sendo permissível a desordem, seja pela rebelde descensão a posto inferior, seja pela usurpação indébita de nível superior. Buda e Schopenhauer buscavam o aniquilamento próprio, o não-ser, e isto é, sair da hierarquia para descer a último, a ínfimo, a nada. Lusbel, aspirando o grau supremo, em vez de subir-se mais e mais, arrojou-se de cabeça ao fundo abismo, ao centro do universo, em tempestuosa agitação, até que, todo transformado em puro dinamismo, em energia pura, sua divina substância, se tornou no caos. Não vale, pois, tornar absoluto, seja o mundo, seja o homem; e se Deus é reconhecido como Absoluto, é por necessidade desta instância superior que vale como a última Referência do homem, pela qual este se justifica a si mesmo, e, também, o mundo. Esta última Referência que é a intuição da divindade, varia, portanto, com o desenvolvimento do homem, como o atesta sua história. Só Deus é um fim em si mesmo, não o homem, nem o mundo; no entanto, o fim que todo homem busca é sua felicidade, e todos os seus esforços se canalizam a realizar este fim. Se a Referência do homem e do mundo é Deus, este é o fim do mundo e o fim do homem. Não fim no sentido de que o homem e o mundo possam vir a ser Deus, mas fim no sentido de que o homem e o mundo venham a ser o que Deus, inexoravelmente, impõe que um e outro seja.

Sendo Deus o fim do homem, deveria este buscar o Ente sumo,

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perder-se nele, desprezando o mundo? Não, porque o fim do mundo também é Deus, cumprindo ao homem ir para Deus com o mundo, e não separado deste. Não pode o homem dissociar-se do mundo, porque sempre o leva consigo na porção de matéria do seu próprio corpo inalienável, visto que a substância jamais se divorcia da essência, nem a matéria da alma, seja nesta vida terrenal, seja no supremo nível do mais alto céu.

Porém, como o homem é egoísta, ele tem urgência de ser feliz; quer ser feliz por atalhos; e sendo Deus o sumo Bem, o místico despreza o corpo, o mundo, os homens, e se atufa em Deus, não achando aí mais que o vazio. Não vê, o anacoreta, que o mundo é mau, porque se acha invertido por efeito da queda que aconteceu. Os fautores da queda são os culpados pela inversão do mundo; como, agora, querem ir diretamente para Deus, deixando o mundo que, por sua culpa, está invertido? Desenganem-se todos, que a felicidade só pode ser alcançada por aproximação, e a longo prazo! Não há atalhos possíveis para o céu! Cristo é modelo de vida moral, expoente de civilização, padrão de conduta social, não, porém, substituto. A fé que salva o homem... de estar em mundos inferiores (infernos), não é vazia, mas cheia de conteúdo vivencial nos moldes deixados em termos de vida e de conduta, por aquele que, por excelência, é a Pedra Cúbica do edifício da civilização ocidental. O ato devocional é o continuado esforço de realizar o propósito, já assumido, de desinversão do homem natural, ignorante, egoísta e animalesco, no homem sobrenatural, desinvertido, amoroso e sábio.

Por conseguinte, para ser possível a felicidade plena, só realizável por aproximação e a longo prazo, o homem terá que manter o equilíbrio do triângulo luminoso, equilátero. A concentração só em Deus, embora seja este o sumo Bem, cria o anacoreta egoísta que, para perder-se no amor divino, despreza o corpo e o mundo, invalidando-se para com o próximo que também possui parte do mundo em seu próprio corpo. Ou então, se se preocupa com o próximo, este passa a ser a Humanidade em geral, sem corpo, anônima, distante, in abstracto, o Leviatã de Hobbes, o Grande Animal de Alain. Neste sentido é que se entende a frase de Henry Fonda: "É mais fácil amar a Humanidade do que amar ao próximo".

Rousseau vivia falando do amor à humanidade, porém, indispunha-se com todo o mundo. Quem seria, então, a sua "humanidade"? Tolstoi, como o declarava sua esposa, vivia trancado num aposento, a escrever sobre o amor de Deus e do próximo; no entanto, não convivia, não dialogava, não tolerava a presença de ninguém. Quem era, neste caso, o "próximo" para Tolstoi?

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Schopenhauer se ocupava em escrever sobre a piedade; contudo, no aposento em que escrevera, com arte suma, incomparável, sobre como triunfar das paixões, atirou com uma sua inquilina escada abaixo, desastradamente, pelo que lhe teve de pagar uma indenização. Era impiedoso na cobrança de aluguéis, embora estivesse a escrever, exatamente, sobre a futilidade dos bens materiais. Que vinham a ser a "piedade" e o "desprendimento" para Schopenhauer? Os devotos ou crentes de todas as religiões vivem a bater nos peitos, a emocionar-se até as lágrimas com os exemplos e ditames de Cristo; porem, em suas vidas, não fogem à regra de Rousseau, de Tolstoi e de Schopenhauer, como se a religião nada tivesse a ver com a vida. Quem e, então, o próximo?

O próximo é o outro que segue a meu lado, ou vem ao meu encontro, em sentido oposto ao meu, em qualquer lugar. Esse outro é o primeiro dado da criança, antes de ela integrar-se em sua personalidade ao passar pela experiência de ver o último outro refletido no espelho, que é si mesma.

Ninguém, pois, pode fugir de referir-se a um Absoluto, porque, quando se resigna a não ir além, para ter-se num limite do ainda concebível, esse limite se torna Absoluto, por não ter nenhuma referência acima, por não se referir a nada mais além. Não se referindo a nenhum outro termo, cessa de ser relativo; não tendo mais ponto de referência acima, fica único, e isto é ser Absoluto.

Desde o urso das cavernas, o homem foi deslocando o seu Absoluto para mais além. Quando os clãs, cada um com o seu deus particular, se integraram em tribos, os deuses também se reuniram num concilio, cada um com a incumbência de governar uma porção da natureza, segundo a concepção tribal - era o politeísmo. E ao integrar-se as tribos nos primeiros Estados, os deuses, outrora iguais em poder, se submeteram à autoridade de um chefe único, estando aqui a base do monoteísmo.

O que ia acontecendo na terra tinha seu correspondente no céu e vice-versa; o próprio conquistador militar levava o estandarte do seu deus, e se fazia acompanhar de seus profetas-feiticeiros-conselheiros, de modo que, ao fazer-se vencedor e chefe dos vencidos, neste mesmo ponto seu deus se fazia o deus sobre os demais deuses. Ciro, o persa, antes de tomar uma cidade pelas armas, tomava-a pelos deuses dela, isto é, após acampar-se nas vizinhanças, levantava altares aos deuses daqueles aos quais ia submeter, e a estes deuses oferecia sacrifícios. Ora, não faltavam espiões adversários que corriam a levar a nova à cidade, e, da parte desta, não havia a certeza de que não ofendera a seus próprios deuses, e que chegara, então, a hora do castigo.

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As consultas aos oráculos anteciparam sempre as batalhas, e as respostas dos deuses sempre eram favoráveis de ambos lados, com o que se mantinha levantado o moral das tropas. Sempre os chefes militares tiveram de haver-se com as superstições de seus soldados todos crendeirões. Diz Cervantes, no Quixote, que Cipião, em chegando à África, tropeçou e caiu, o que foi logo tido, por seus soldados, como um mau agouro. Contudo, Cipião, solerte, abraçando-se com a terra, gritou, para que todos o ouvissem: "Não me poderás fugir, África, porque te agarrei com meus braços".

Quando o enviado de Senaqueribe, rei dos assírios, se chegou aos muros de Jerusalém, dirigiu seu discurso ao povo desta cidade, contra Ezequias, seu rei, nesse tempo, usando, entre outras, destas palavras: "Não queirais dar ouvidos a Ezequias, que vos engana, dizendo: O Senhor nos livrará. Acaso os deuses das gentes lvraram as suas terras da mão do rei dos assírios? Que é feito do deus de Emath, e do deus de Arfard? Que é do deus de Sefarviam, e de Ana, e de Ava? Acaso livraram eles da minha mão a Samaria?" (2 Reis 18, 32-34). Por que tal discurso? Porque Senaquerib, harto, entendia que o moral do povo e o dos soldados, funda-se na crença da proteção divina; minar esta crença é vencer por metade o inimigo. Esta primeira batalha, pois, feita só de palavras, suscitou o rebate de Ezequias que foi ao templo, prostrou-se frente a seu Deus, e levantando para o alto as cartas que tinha recebido do rei assírio, orou. E o comentário ao pé da página da Bíblia diz isto: "Ezequias estende as cartas do assírio ante Deus, como que pedindo castigo pelas blasfêmias que continham". Como se isto não bastasse, manda Ezequiel seu secretário de estado e seu mordomo-mor irem ter com Isaías, o profeta desse tempo, do qual trouxeram a resposta de que Senaqueribe levantaria o cerco, por causa de um fato que lhe ia acontecer, vindo da parte de um espírito que lhe mandaria o Senhor. O conquistador assírio retornaria à sua terra onde iria perecer a espada. Dito e feito. No acampamento de Senaqueribe, sem causa conhecida, na mesma noite, morreram cento e oitenta e cinco homens. Vendo isto, o assírio levantou o acampamento, e se foi para Nínive, onde, estando no templo a orar a seu deus Nesroch, foi morto a estocadas por seus dois filhos Adramalec e Sanasar. Eis aí, o final de uma batalha que foi decidida ao nível dos deuses, que não de homens.

Falando a Ciaxares, diz Ciro, o persa: "Meu tio, vós e todos, concordam em que o êxito de uma batalha está mais vinculado ao ânimo do que às forças físicas". E a prova disto temo-Ia na peleja de Amaleque contra os israelitas. Mandou Moisés que Josué, acompanhado de homens valentes, fosse ao encontro de Amaleque,

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enquanto ele, Arão e Hur subiram ao outeiro, levando na mão a vara do Senhor, de modo que os três estivessem visíveis no cimo do monte, ao amanhecer. Principiada a peleja, aconteceu que "quando Moisés tinha as mãos levantadas, vencia Israel: se porém as abaixava um pouco, vencia Amaleque" (Ex. 17, 11). Como as mãos de Moisés se mostrassem pesadas de cansaço, não houve outro jeito senão que as sustentasse erguidas, de um lado, Arão, e do outro, Hur. Então, à vista das mãos suspensas de Moisés, os homens de Josué derrotaram os de Amaleque. As mãos de Moisés paradas no ar, infundindo confiança aos amigos e terror aos inimigos, decidiram, mais que as armas de Josué, a sorte da batalha, porque as vitórias dependem mais dos ânimos que das armas (Ciro); e como os ânimos dependem das crenças, conforme o provaram, por atos, Moisés e Ciro, então, as vitórias dependem das crenças mais do que das armas. Porque "somos as nossas crenças" (Ortega); porque "a crença é o guia da ação" (Peirce). A fórmula virgiliana: "possunt guia posse videntur (Eles podem porque crêem poder) é válida para este caso. Harto, isto entendeu o gênio político de Constantino, para unificar as forças profligadas do Império Romano debaixo do símbolo da Cruz que vira em sonho, ou inventara ter visto, na qual lera a mensagem: In hoc signo vinces (Com este sinal vencerás).

Se o filósofo existe entranhado no fundador de religiões, deixa de ter sentido a fala de Hegel de que "a tomada de consciência da universalidade em idéia supõe a realização da universalidade de fato, a realização de um quadro de existência tal que a exigência intelectual nele possa manifestar-se, em alguns, na segura calma do lazer, fruto de uma técnica e de uma cultura já muito avançadas". Esta é a interpretação hegeliana para a frase latina "primum vivere, deinde philosophari"; quer dizer: primeiro ganhar a vida; depois, entregar-mo-nos as especulações filosóficas. Gusdorf diz que "Hegel não possuía a virtude da ironia"; mas foi Hegel o que, irônico, confirmou sua tese de que precisamos ganhar a vida, primeiro, para, depois, filosofar; disse ele: "Adotei como estrela guieira a frase bíblica, cuja verdade a experiência fez-me reconhecer: "Procurai antes de tudo alimento e vestuário, que a isso se vos acrescentará o reino do Céu". Para um tal homem, pois, a idéia vem depois da ação.

Disto decorre outra falha hegeliana, e é a de fundamentar a experiência metafísica na necessidade. Afirma ele que "a necessidade de se ocupar do pensamento puro pressupõe longo caminho já percorrido pelo espírito humano; podemos dizer que ela é a necessidade da necessidade já satisfeita, da necessidade de não sentir necessidade (...)" Não é a necessidade que move o homem superior, e sim, o prazer. Miguel Ângelo não esculpiu o seu "Moisés" por

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necessidade, senão pelo prazer de criar. Fale, a isto, Fritz Kahn: "Viver é prazer; por isso vivem as criaturas. Voar é prazer; por isso os seres voam. Não há outra razão para o vôo. A teoria de que os animais ou os homens voam, porque voar traz vantagens, é uma das costumeiras explicações superficiais da natureza, excogitadas pela mentalidade mercantil dos homens do século XIX. Dédalo afivelou as asas, não porque não houvesse outro meio de transporte para a travessia do Helesponto, mas porque ele era um "inventor de coisas belas" e, conseqüentemente, inventou - além da serra e do torno de oleiro - o vôo; como Leonardo da Vinci criou, além da "Madona dos Rochedos" e da "Orelha de Dionísio", submarinos e aviões, porque também era "um inventor de coisas belas". Mais: "Para a maioria das criaturas, há só os dois estímulos mencionados por Schiller: "fome e amor" (...) "Os insetos, porém, trabalham pelo prazer de trabalhar (...) “Laboriosidade de abelha” é o superlativo dum elogio. E a Bíblia reza: "Vai ver a formiga e aprende, ó preguiçoso".

Não foi a tecnologia e o desenvolvimento da civilização que propiciaram o lazer; este existiu sempre. A contínua caça de alimentos e de conforto como fim, e não, meio, que escraviza o homem, forçando-o a mourejar dezesseis horas por dia, é invenção do homem civilizado. Se não estão à cata de alimentos, os animais brincam ou dormem. Um bando de macacos e de homens primitivos, não fazem exceção a esta regra, não havendo, nunca, para uns e outros, as crises de super produção que são absurdos geradores de miséria e guerra. Um leão não trabalha; nem o tigre; nem o burro. "Trabalhar como burro" é expressão humana sem sentido na natureza, pelo que se devia acrescentar: trabalhar como o burro que o homem obriga a trabalhar... Tal como o trabalho prazeroso, diletante da formiga e o da abelha, é o pensamento; quando ele surge, pensar é prazer, e só por isto os filósofos pensam... já citamos este trecho de Ortega neste livro, e agora vem, de novo, o mesmo trecho noutra situação; ei-lo: "A técnica é consubstancialmente ciência, e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma, e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. Se se embota esse fervor - como parece ocorrer, - a técnica só pode perviver um pouco de tempo, aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. Vive-se com a técnica, mas não da técnica. Esta não se nutre nem se respira a si mesma, não é causa suí, mas precipitado útil, prático, de preocupações supérfluas, não práticas".

Onde, pois, de Hegel, que "o filósofo seria (...) o obreiro da undécima hora, que se beneficia do trabalho de outrem sem no mesmo tomar parte, uma espécie de capitalista que vive dos juros da civilização"?

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Onde, isto, se o pensador está oculto no fundador de religião, no legislador moral dos primórdios, sem cujo trabalho não há civilização? Se a ciência, a técnica, nascem dos princípios gerais da cultura, como precipitado útil, prático, de preocupações supérfluas, não práticas, no dizer de Ortega, como inverter a proposição, como faz Hegel, e dizer: "a tomada de consciência da universalidade em idéia supõe a realização da universalidade de fato"? que "a necessidade de se ocupar do pensamento puro pressupõe longo caminho já percorrido pelo espírito humano", em sentido coletivo? que "o chefe militar, o técnico, o engenheiro, o legislador, o administrador são, anteriormente ao filósofo, os pioneiros dos tempos novos, organizadores de uma realidade humana em larga escala"?

Os filósofos existiram sempre... ocultos nos fundadores de religiões, e se houve algum que, antes da madureza dos tempos, expôs sua doutrina, esta doutrina perdeu-se por falta de receptores despertos para a racionalidade, de prosélitos que a não deixassem desaparecer. Dizer que, saídos do ar, "o chefe militar, o técnico, o engenheiro, o legislador, o administrador são, anteriormente ao filósofo, os pioneiros dos tempos novos, organizadores de uma realidade humana em larga escala" é colocar o carro diante dos bois, porque ninguém faz nada sem um norte, sem uma visão geral do mundo, ou seja, uma visão do mundo em termos de totalidade, seja mística, seja filosófica.

Se o fato é anterior ao pensamento; se os homens são movidos por necessidades materiais, antes das espirituais, não teria sentido o que se lê em Toynbee: "Homens e mulheres procuravam entusiasticamente o martírio como um sacramento, um "segundo batismo", um meio de perdão para os pecados e um caminho seguro para o Céu. Inácio de Antióquia, um dos notáveis mártires cristãos do Séc. II, designou-se a si próprio como "trigo de Deus" e anelava pelo dia em que pudesse ser "triturado pelos dentes das feras e por elas transformado em puro pão de Cristo".

Onde a satisfação das necessidades fundamentais, aqui, como objetivo primordial da vida? onde a ação antes da idéia? onde, que a civilização nasce do militarismo, como se fosse possível tirar tudo do ar? Não há, pois, modo de separar o aspecto místico do político-militar nos primórdios de uma civilização; nem o do fundador de religião, do fundador de império. E se o filósofo, tirando a máscara de cera, donde "sem cera", donde "sincero", se mostra qual é, no fim do último ato, é porque ele já existia, oculto, na personagem do fautor de religião, na do teólogo, na do legislador, na do sacerdote, na do chefe político-militar desde o início. Não pode ser de outro modo, porque a filosofia é uma visão geral do mundo da qual decorre uma forma de

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conduta; sem tal visão não há conduta que conduza, que encaminhe, que faça andar, progredir, que civilize. O homem é mais filósofo do que se imagina; "o homem é um animal metafísico" (Schopenhauer). Ou, então: "A inteligência humana é filósofa por natureza" (Huberto Rohden – Filosofia Universal).

Os homens seletos, inteligentes, estudiosos, pensadores, que sempre todos os povos tiveram, puseram em Deus o melhor de si, e, desse Deus, essa mesma luz refletiu-se, agora autorizada, sobre o coletivo, sob a forma de preceitos morais, ou, de outro modo: tais homens tiveram a intuição de Deus, e a de como esse Deus tinha de ser. O homem seleto lucubra sobre o mundo, sobre si; forma sua síntese, e conclui que há um Deus, o qual se mostra, desde logo, não a imagem e semelhança do homem, mas, a sua negação, a negação de si animal, de si egoísta, de si "porcus bipedus". Então, a fala humana se despersonifica de homem, se desumaniza, para resplandecer com luz divina, que é como agora se reflete peremptória, inconcussa, com força para impôr-se nas consciências, nas vidas, nos costumes, nas instituições.

O Deus de Moisés era tribal; e como os demais deuses tribais, tinha seu povo eleito. Este povo eleito entrava em guerra com outras tribos, e era, então, que Jeová vestia suas armaduras de ouro resplendentes, armava-se do seu trem, do carro seu, da sua espada, e ia pôr-se à frente das colunas dos valentes, como Senhor dos Exércitos. Se perdia uma batalha, a culpa era do povo por causa de alguém que ofendeu o Senhor. Foi o que sucedeu quando foi perdida a batalha contra a cidade de Ai. Acã escondera alguns despojos da cidade de Jericó. Por tal crime foi ele apedrejado e queimado juntamente com os tais despojos, filhos, filhas, bois, jumentos, ovelhas, e a tudo o quanto tinha, até a tenda. Acã, e família, e pertences, foram o bode expiatório, e pagaram por um erro tático de Josué que subestimou o poder de guerra de Ai. Os homens que enviara a espionar a cidade disseram: "Não suba todo o povo, mas vão só dois ou três mil homens, e destruam a cidade: por que se há de fatigar debalde todo o povo contra tão poucos inimigos?" (Jos. 7, 3).

Quando ia Josué entrar na terra da Promissão, fez-lhe frente Siom, rei de Hesebom. Então, escreve Moisés: "E naquele tempo tomamos todas as suas cidades, e as destruímos, e matamos todos, homens, mulheres e crianças; não deixamos ninguém". (Deut, 2, 34). O mesmo que a Siom, rei dos amorreus que habitavam Hesebom, aconteceu a Ogre, rei de Basã. Toda a terra de Argobe com suas sessenta cidades pertencentes ao reino de Ogre, com capital em Basã, foram tomadas: "E os destruímos, como tínhamos feito a Siom, rei de

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Hesebom, destruindo todas as cidades, homens, mulheres e crianças" (Deut. 3, 6).

Referente às leis de guerra, escreve o Senhor: "Porém, das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destruílas-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus; como te ordenou o Senhor teu Deus" (Deut. 20, 16 e 17). De Jericó, cujas muralhas caíram por efeito do toque de buzinas, nada ficou em pé, ou saiu vivo, exceto a prostituta Raabe e sua família, porque guardou e escondeu os espiões enviados par Josué.

Este Senhor Jeová que decretava massacres hediondos, ainda teve o bom senso humano-divino de imprimir na pedra o Decálogo, e, neste, com mão poderosa, escreveu pela primeira vez: "Não matarás".

Depois vem Jesus, na mesma cadeia, e proclama que Deus é Pai de perdão, amoroso e solícito, decorrendo, disto, o ideal de fraternidade, porque, sendo Deus o Pai comum de todos os homens, por sua paternidade, todos os homens se tornam irmãos entre si. E como, aos olhos de Deus, todos os seus filhos são iguais, e seu amor não distingue ninguém, com a fraternidade, se impõe a igualdade. Um Deus que é Amor, não pode fazer exceção de pessoas, seja por causa da raça, da cor, do sexo, da língua, da religião, da nacionalidade, de situações quaisquer. Se todos somos irmãos, se todos somos iguais, sem distinção, todos, logo, somos livres, sem servidões quaisquer, porém, responsáveis.

O ermitão, enfrascado em Deus, ainda que este é o sumo Bem, não pode justificar a fraternidade, porque a questão não reside em que seja Deus o sumo Bem, este que deu azo à vida de anacoreta como beatitude; a questão se radica em ser Deus Pai amoroso. No entanto, o eremita, embora se diga cristão, troca a Referência de Cristo pela de Aristóteles que diz ser Deus o sumo Bem. Como, daqui, agora, se vai deduzir a fraternidade? Por isto é que sua vida de reclusão voluntária, de solidão total, de ausência de diálogo, de ojeriza para com o mundo, para com o corpo, para com o próximo, prova que sua tomada de Referência não é o Deus-Pai-Amor de que decorre a fraternidade, e sim a concepção grega de Deus-Sumo-Bem de que ela não decorre.

O idealista metafísico, não podendo reduzir o mundo concreto, real, vivencial, fenomênico, e menos ainda o homem, a princípio de razão, perde-se na sua contemplação metafísica das essências puras, imaculadas; com isto, fica padecendo das dúvidas de Descartes, até sobre se o homem existe ou não. "Descartes, contemplando desde a janela o movimento da rua, pergunta, numa página célebre, como

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poderá obter a certeza de que os transeuntes não são meros fantoches, puras aparências sem conteúdo interno". Eis o homem que, para o pensador do cogito, se situava entre as idéias obscuras desprezíveis. Como haver, logo, porta para a fraternidade no sistema de tal geometrizador do mundo? para quem, o Absoluto, era o mesmo Deus-Relojoeiro de Voltaire?

O divórcio entre coração e mente, entre existência e essência, entre conteúdo e forma, para só esta ser considerada, deu um sistema unilateral que só pode completar-se com um outro sistema cujo centro fosse o sentimento. Na pinha dos conceitos, a pirâmide cartesiana opor-se-ia, pelo vértice, àquela cuja base estaria situada em posição antípoda na esfera - a de Rousseau, a de Pascal, por exemplo. Descartes põe de lado o homem, como idéia obscura, visto como esse não se reduz a discurso racional, a princípio de razão. À-toa não é que, quando ele estava em seu retiro, na Holanda, não visse ninguém, embora passeasse, como turista, pelo cais de Amsterdã, entre marinheiros, estivadores e vendedores ambulantes, ouvindo só a zoada de suas arengas infindáveis. "Poderia ali ficar a vida inteira, escreve ele a seu amigo Balzac, sem jamais ser visto de quem quer que fosse (...) Quanto aos homens que ali enxergo, considero-os como consideraria as árvores que crescem nas florestas dessa região, ou os animais que nelas pascem. E o ruído de sua balbúrdia interrompe tanto meus devaneios como o faria o sussurro de um regato - Carta de 5 de maio de 1631". E acrescenta noutro lugar, referindo-se a este seu retiro: "pude viver tão solitário e isolado como nos mais remotos desertos".

O sistema cartesiano, geometrizando a natureza, funcionou bem no reino da matéria bruta, sujeito, como é, a leis determináveis, a princípios físico-matemáticos, a princípios de razão, a discursos. Mostrou-se impotente, todavia, ao penetrar os umbrais da vida, e desta acima, a tudo o quanto é humano e social. Não se deteve, porém, Descartes, e pretendeu mecanizar a vida, e entendê-la em termos de maquinaria. Os animais, pois, são máquinas vivas que se suprem a si mesmas de energia. E como, sob protestos dos místicos, já Lineu classificara o homem no grupo dos primatas, um pouco antes de os evolucionistas afirmarem ter vindo ele dos animais inferiores, então, La Mettrie "tomou de Montaigne e Gassendi a tese de que o homem pertencia ao Reino Animal, aceitou a de Descartes de que os animais eram máquinas animadas e concluiu: "O homem também é uma máquina".

Ah! premissas! quanto há de falso em ti, tanto vai nas conseqüências tuas! "Somos traídos pelo que há de falso em nós"! (Meredith).

Aqui está por que escreveu Voltaire: "O Chanceler Bacon mostrou o caminho que a ciência deve trilhar... Mas depois surgiu Descartes e

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fez justamente o contrário: em vez de estudar a natureza, quis adivinhá-la... Ele, o melhor dos matemáticos, criou apenas romances no terreno da filosofia..."

Eis a conclusão do quanto temos dito: só é sábio aquele que expungiu da sua crença, do seu sistema-verdade, todas as verdades falsas, tidas por verdadeiras, substituindo-as só por verdades verdadeiras. Porém, isto é obra do estudo persistente, da dedicação constante, do tempo de aplicação e da madurez espiritual. O objetivo da vida é a felicidade... que é um prazer íntimo continuo; mas só pode ser feliz quem for sábio; logo, o objetivo da vida é a sabedoria, e ser feliz é ser sábio ... Porque o sábio não erra; e quem não erra, ainda que sofra por amor daqueles por quem luta, em si mesmo, é feliz. O homem não é uma autarquia, e, por isto, por causa mesmo desta consciência, embora sábio, não pode ser feliz sozinho, isolado dos demais; daí que, repetimos, embora sofra por amor daqueles aos quais está ligado, em si mesmo, é feliz.

Ser humano é ser capaz de padecer tormentos e de sentir gozos morais, mentais e estéticos; é ser capaz de ter sofrimentos ou prazeres extrasensoriais, metafísicos, isto é, desligados das zonas em que pontificam os sentidos. Dos centros do córtex frontal em atividade, vibrando com idéias, saem fibras nervosas que carreiam a energia neuro-elétricas desses centros para os outros vários, dentre os quais os centros do prazer em que, os gozos, até ao êxtase, podem chegar; ou então, as fibras condutoras da neuro-energia podem encaminhar-se aos centros da dor, e esta pode ir até o paroxismo. Paroxismos de dor e êxtases de prazer para-sensoriais, só o homem os pode ter, por causa de sua sui generis capacidade de abstração. Por isto, tais tipos de gozos e de sofrimentos apenas caracterizam o humano, podendo, por isto, nesta esfera, ser nobres ou plebeus.

A repetição do ato de ocupar-se com pensamentos altos, nobres, grandes; de entusiasmar-se com os nobres feitos, com os atos de heroísmo; de emocionar-se frente ao belo, face a harmonia, cria o hábito destas virtudes que, em princípio, não diferem dos vícios com sede na mesma zona frontal, como a ambição do poder, como a sempre esporeada cobiça de possuir mais e mais, como o jogo, como o alcoolismo, como a gula, como os sentimentos de inveja e de vingança, como a luxúria. Tudo isto faz parte do humano inferior; plebeu, mas que o animal não tem, por faltar-lhe a zona frontal do cérebro, sede da abstração, da imaginação, da fantasia, zona donde partem os estímulos neuroelétricos desta espécie não exterior, não sensorial, para os centros nervosos do prazer e da dor. Os animais inferiores só podem ser estimulados pelos sentidos, gozando só dos prazeres sensoriais que lhes propicia seu ambiente natural.

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Conseqüentemente, a felicidade é uma continuada alegria interior oriunda da estimulação constante, embora fraca, que uma mentalidade produz; essa mentalidade, a que pode aliar-se o aplauso da consciência, é uma como atmosfera-interior-mental-emotiva, ou um estado de consciência, ou a crença que é o homem, ou o seu conjunto-verdade feito só de verdades verdadeiras, do qual se expungiram todas as verdades falsas tidas por verdadeiras. Tal, o sábio, o só que pode ser feliz, calmo, sereno, sem as desordens interiores oriundas de dragontinas paixões. Contudo, tal homem pode ter aflições, padecer dores, sofrer tormentos, martírios, visto como se acha sujeito a outras fontes de estimulação que podem ser, primeiro, as sensoriais, quando estas, por intensas, se ligam aos centros nervosos da dor; e ainda, para estes centros, podem canalizar-se estímulos neuroelétricos provindos dos centros morais do córtex, quando tais centros se acham excitados pela piedade, pela compaixão, sobretudo, pela visão do sofrimento de um ente amado.

Deste modo, a felicidade e também a infelicidade têm seu ponto de excitação no córtex frontal, sede das operações abstratas, filosóficas, meditativas, onde ocorrem pensamentos grandes, mas, também, sede das manias, dos vícios, das vilãs paixões. A corrente constante que desta instância superior, instância do humano, flui para os centros do prazer, ou centros da dor, cria a atmosfera psíquica a que damos o nome de estados de consciência, de estados de espírito, estados emocionais em que se sente euforia ou depressão, alegria ou tristeza, coragem ou medo, orgulho ou modéstia, desprendimento ou inveja, etc. Quando Cristo declarou estar o reino do céu dentro de nós, mostrou que aquele é um estado de consciência, de felicidade e alegria, e não lugar (embora, também, o haja), em que tudo são belezas. Aquele que possuir esta consciência, este estado emotivo proveniente de correntes nervosas oriundas do lobo frontal cortical... que se acha, de contínuo, excitado por uma idéia de verdade, tal sujeito é feliz, ainda que na dor, porque, "sofrer não é o mesmo que ser infeliz". A recíproca, também, é verdadeira; harto, isto, entendendo, Milton, quando tal escreve de Satã:

"O horror medonho, a dúvida terrível,/ confundem-lhe os turbados pensamentos/ que lhe acendem o Inferno dentro d'alma:/ o Inferno traz em si, de si em torno;/ não pode um passo dar fora do Inferno,/ porque, onde quer que vá, leva-o consigo!".

Um mesmo estímulo, pois, idéo-cortical, pode causar alegria em um, e sofrimento em outro; daí que "o pecador impenitente sofre a vontade de Deus, ao passo que o santo goza a vontade de Deus", dependendo somente de para onde se destina a corrente nervosa vinda do córtex frontal. É assim que, a um mesmo estímulo, um sofre, e outro

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goza, dependendo só do condicionamento pré-formado na mente, de como esta endereça o estímulo a campos diferentes, do prazer ou da dor. Também, uma mesma excitação pode causar sofrimento e prazer a um mesmo homem, desde que atuando em tempos diferentes: ninguém gosta de beber aguardente, nem fumar ou mascar tabaco pela primeira vez; tais estímulos, logo, vão atuar nos centros da dor; com a repetição do ato de fumar, de mascar e de beber, instala-se o hábito, e o que dantes causava sofrimento, causa, agora, prazer. Os cães de Pavlov que, antes dos condicionamentos, sofriam ao receber choques elétricos, como sinal de comida, passaram, depois, a sentir alegria ao serem submetidos a eles, e tanto que sacudiam suas caudas satisfeitos. O presenciar este fato, Sherrington fez o seguinte comentário: "Agora compreendo a alegria com que os mártires cristãos dirigiam-se ao suplício!". Ninguém se admire, logo, de Rousseau gozar ao ser azorragado, nem cuide que a tortura da cruz tinha para Gestas, o mesmo efeito do mesmo suplício para Cristo.

Os estímulos exteriores, dos sentidos, ao chegarem ao cérebro, aí são interpretados, antes de reconduzidos para os centros do prazer ou da dor, conforme uma como "lógica da vida". Como a vida busca o prazer, a alegria, a felicidade, sua "lógica" pode virar a chave dos condutores nervosos, carreando o impulso, em vez de para os centros da dor, para os centros do prazer; o impulso, então, que havia de ser doloroso, segue outro destino e vai produzir gozo, gerar felicidade. É assim que o masoquista sente gosto quando apanha, e os mártires se extasiavam ao ser triturados pelas máquinas terríveis, ou pelos dentes das feras. A isto fale Sêneca: "A perpétua infelicidade só tem isto de bom: que endurece por fim os que incansavelmente persegue". Por que se mostravam invencíveis os cristãos? Porque só "a desventura é grave para aqueles a quem chega inesperadamente; facilmente a suporta quem sempre a espera. Assim, também o ataque de um exército inimigo dispersa os soldados tomados de surpresa; mas se preparados para a guerra antes da guerra, ordenados e prontos repelem a primeira investida, que é a mais furiosa". E diz-nos mais o grande estóico: "Às pessoas que me queiram assustar, acumulando diante de mim todos os males, é preciso responder assim: se formos suficientemente fortes contra uma só desgraça, o seremos igualmente contra todas”.

Os estados de consciência são puros sentimentos, puros estados emocionais; os loucos os têm variáveis, pelo que ora riem, ora choram, ora se enfurecem, ora se saturam de unção mística... Qualquer fanático de qualquer seita religiosa possui o estado de consciência que se origina de sua crença, em razão do que se ri ou se apieda dos demais homens enredados, segundo crê, nas malhas do erro, do engano, da ilusão. Estados de consciência, portanto, são

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respostas emocionais a determinadas idéias dominantes.Que é, então, alegria e sofrimento? A maravilha não está em que

haja centros do prazer e da dor, e sim, que haja centros de interpretação e de comando de estímulos, sejam os oriundos dos sentidos exteriores, sejam os íntimos, secretos, subjetivos, gerados no córtex frontal.

James Olds o demonstrou: trinta e cinco por cento do volume cerebral é constituído por centros do prazer; sessenta por cento dos centros são neutros; e o restante cinco por cento se constitui de centros da dor. Experiências que Olds fez com ratos, gatos, cães, porquinhos-da-índia, peixes, macacos, carneiros, golfinhos e até com homens (doentes mentais), mostraram que a mesma corrente elétrica produz gosto ou desgosto, aproximação ou fuga, num gesto indicativo de "pare-continue", se, alternativamente, a chave liga o fio que vai para o centro do prazer, ou o que se destina ao centro da dor.

Os animais preferem os choques elétricos prazerosos à nutrição e ao sexo; e quando eles mesmos aprendem a operar o "botão-prazer", fazem-no tantas vezes, que caem, exaustos, e dormem; porém, outra vez despertos, tocam, de novo, a acionar a chave elétrica até o esgotamento total e a morte. Eis a que ficam reduzidos prazer e dor: a puros estímulos neuro-elétricos!

A vida busca o prazer, não, a dor; mas se a dor insiste em azucrinar o ente vivo, a vida vira a chave e faz, da dor, prazer; este prazer, logo, para ser virtude, deve alimentar a vida, justificá-la, fazê-la desejável. No entanto, há prazeres que podem conduzir à degradação, à extinção, à morte; quando tal ocorre, tais prazeres são vícios, e não, virtudes. Um exemplo disto temos no animal que opera a chave elétrica para sentir prazer, preferindo este seu vício à alimentação e ao sexo. Este seu prazer conduz ao esgotamento, à morte, pelo que, portanto, é vício, e não, virtude. Entre os insetos, as formigas vermelhas, escravocratas (Formiga rufa), ficam tão viciadas pelas exsudações do escaravelho Lomechusa, cultivados por elas, que, às vezes, passam a dar mais atenção às larvas do escaravelho do que às próprias, vindo, por isto, a extinguir-se o formigueiro. Nem sempre, pois, a natureza é sábia, visto que tal desvio conduz à morte.

Outras formigas há que juntam grãos, para que, fermentados, produzam uma espécie de "cerveja" com a qual se embriagam. Deste modo "a produção de álcool entre as formigas é um exemplo clássico dos paralelismos da natureza. As formigas fizeram cerveja, antes que os homens a produzissem; os homens produziram cerveja, antes de descobrirem a das formigas. À vista destes fatos, é lícito dizer que o fabrico de cerveja faz parte da "evolução" inevitável dos acontecimentos universais".

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De tudo isto decorre o paradoxo perfeitamente compreensível de que se pode ser feliz, apesar do sofrimento, e ser infeliz, ainda que sem ele, ou até sentindo algum prazer. Conseqüentemente, a recíproca também é verdadeira: nem sempre gozar é ser feliz; as lágrimas de alegria de um demônio que se compraz com a desgraça alheia, não são indícios de felicidade.

Aquele, portanto, que expungiu do seu conjunto verdade todas as verdades falsas; que, coerente com esta operação mental, trocou os vícios e defeitos todos pelas perfeições e virtudes correlatas; que reduziu a um mínimo os prazeres físicos, mantendo os só necessários à subsistência de si e da espécie, sublimando as energias excedentes para os campos do espírito, da moral, da estética e do intelecto, esse tal é o sábio-santo, o só que para sempre pode ser feliz.

Como, pois, pode alcançar a felicidade, e conduzir outros a ela, quem se transvia da viela da verdade construindo uma "filosofia" antivital de revolta, niilismo e desespero? Quem, por pura vaidade intelectual, faz uma anti-filosofia, uma "filosofia" de angústia, rebelião e nada, acaso pode ser feliz e semear, nos corações e nas mentes, a felicidade?

Sartre e Nietzsche, cada um a seu modo, querendo ser deus, via o próximo, o primeiro, como concorrente, e o segundo, como meio. A não poder ser deus sozinho, Sartre desejava a morte, no passo que Nietzsche via no próximo o meio de realizar o super-homem. Como, então, justificar a fraternidade entre os homens, se, para Sartre, o outro era obstáculo insuperável, e, para Nietzsche, o outro era degrau de escada feito para ser pisado.

Fundado naquela Referência cristã, no Deus-Pai-Amor, de que decorre imediatamente a fraternidade universal, torna-se-nos inteligível a fala de São Francisco de Assis, quando chamava ao lobo de irmão lobo, à serpente, de irmã cobra e ao próprio corpo, de irmão corpo, porque, como dizia, tudo são criaturas de Deus. Firmando-nos naquela Referência, somos forçados a reconhecer a igualdade de direitos entre os homens. Se todos somos irmãos, todos somos iguais, e igualmente livres, e responsáveis; e esta consciência nos predispõe a lutar contra quaisquer tiranias, e onde houver um escravo, de certo modo somos também um pouco escravo na humanidade desse a quem nos cumpre defender.

A frase de Cristo que diz, num sentido místico, eclesiástico: "Tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu" (Mat. 18, 18), pode ser entendida, também, como forma de construção filosófica, porque, do modo como for intuída a Referência, a Premissa transcendental, transcorrerá e tomará corpo na Terra, e assim será como tudo, ao menos em projeto,

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O que ligamos na Terra, em sentido filosófico, são as coisas entre si, numa visão onímoda, hierarquizada, da próxima à remota, ao horizonte, e além deste até o Absoluto, este como intuição, da qual se deduz, depois, uma forma de conduta pessoal, e um sentido pragmático do agir e do fazer social. Assim, o que foi ligado na Terra também se ligou no céu, por um processo indutivo. Contudo, pode relampaguear na mente do homem, a intuição da divindade, e, coerente com esta, com o que a divindade é, tudo se vai ligando e harmonizando cá na Terra. Se, em tal visão Deus se mostra como essência pura sem matéria alguma, como Ente puro de razão, logo, como anti-mundo, neste caso, o homem, em intenção ao menos, desprezará o mundo, o corpo, para atufar-se em Deus, como o faz o anacoreta. Se, em tal visão relampagueante, Deus mostrou possuir matéria ou substância, sendo esta na mais alta forma de EnergiaAmor, neste caso, desta Energia-Substância, saiu tudo, e dessa intuição tudo se deduz. E como, no mundo, existe a ignorância, a injustiça e o sofrimento, então, o mundo é entendido como que virado no avesso, invertido, emborcado, e, como parte do mundo, o corpo só se compraz quando se lhe satisfazem os grosseiros apetites, e, por extensão, a pessoa se mostra aviltada nos vícios só humanos, como a ambição do mando, a cobiça do ter, o orgulho de ser, o ciúme, a inveja, a gula e a luxúria. Harto, entende, o homem, então, que os apetites corporais hão que ser sobriamente satisfeitos, e os impulsos excedentes hão de sublimar-se nas virtudes todas, que nisto se cifra a desinversão. Deste modo, os gozos, os prazeres, em se sublimando, se transferem para as zonas superiores do intelecto, da moral e da estesia. Eis aí, como tudo o que se ligou no céu, ligou-se também na Terra. Da intuição do Deus-Pai-Amor sai o corolário da fraternidade entre os homens; de serem os homens irmãos nasce a igualdade que ainda se reforça pelo amor igual de Deus a todos; como entre irmãos, como entre iguais não pode haver senhores e escravos, todos hão de ser igualmente livres.

Aqui está, de modo novo, em que princípio se pode fundar o ternário: fraternidade, igualdade e liberdade. Mude-se a Referência transcendental, e tudo o mais será mudado. E, por esse caminho, a filosofia do humanismo democrático, de inspiração cristã do Deus-Pai-Amor, se torna até em direito positivo na "Declaração Universal dos Direitos do Homem", seja a francesa, seja a inglesa, seja a norte-americana. Esta foi a coisa (ainda, em parte, em projeto) mais grandiosa acontecida no planeta, perto da qual são nada as idas à Lua, e a descoberta, pesadelo do mundo, da energia nuclear. Se aplicados aqueles princípios contidos nas Declarações, fica garantido o perpetuar da civilização, apesar das bombas atômicas; se não aplicados, retornaremos, sem remédio, à barbárie..., ainda que se não

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empreguem bombas atômicas..., porque o crescimento demográfico das nações civilizadas (como no Egito das pirâmides, como na Roma dos Césares), cairá a zero, e é o fim. Fale Ortega:

"A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público, não obstante ser onipotente, limita-se a si mesmo e procura, ainda à sua custa, deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele, quer dizer, como os mais fortes, como a maioria. O liberalismo - convém hoje recordar isto -- é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é, portanto, o mais nobre grito que soou no planeta. Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural".

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VII – ALERTISMO

Verificando os filósofos existencialistas o que já tinha visto Heráclito, que tudo muda e nada está quedo; que revoluções ocorrem nas próprias ciências, mesmo até nas mais exatas como as matemáticas; que os sistemas, como exclusivistas, escravizam as consciências, bitolando o pensamento; que os filósofos, cuidando-se cada um depositário exclusivo da verdade, não dialogam, e, como surdos, só sabem falar, mas não escutam o que outros têm a dizer; que os sistemas se têm mostrado tão funestos, com criar ardorosos defensores, como as "guerras santas" perpetradas por fanáticos; concluíram por criar uma filosofia sempre em aberto, nada concludente, imune ao espírito de sistema.

E já foi visto no capítulo precedente, todos estes e ainda outros males dos sistemas, e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de se os não erigir, visto como eles são unidades, e onde não houver unidade aí estará presente o caos. Face a isto, opinamos pela construção de um meta-sistema, aberto e democrático, que irmane e concilie todos os sistemas na unidade total. Achado o denominador comum, a chave conciliatória, todos os sistemas passam a ter razão. Porque, como escreve Gusdorf, "a verdade metafísica é o denominador comum dos metafísicos: ela os aparenta por detrás das polêmicas em que se envolvem, os desmente a uns pelos outros, ao mesmo tempo que os verifica mutuamente pela convergência da mais essencial e generosa intenção que manifestam". Assim, em nosso esforço de conciliação, temos que opôr um sistema a outro sistema, a tese à antítese, para ver o que sobra para a síntese. Pois que a história, como o pensamento, progride por tese, antítese e síntese, não há como não bater um com outros sistemas opostos.

No entanto, a dialética hegeliana demonstra que o desenvolvimento da história, como o do pensamento, se faz por tese, antítese e síntese. Por causa disto, de o pensamento ser dialético, os sistemas filosóficos também se organizam segundo a dialética. O existencialismo, logo, é antítese do que? Por que surgiu e como se colocou a filosofia contemporânea nomeada existencialismo, senão como reação aos absolutismos, sobretudo, o de Hegel? Tal sustenta o existencialista Gusdorf que, em apoio de nossa tese, escreve: "Tanto o existencialismo como a fenomenologia brotaram de uma revolta contra o imperialismo do universal afirmada com intrepidez quase monstruosa na filosofia de Hegel". Eis, pois, que o não sistematismo existencialista é reação antitética aos absolutismos dos sistematizadores. Aí está: contra a tese dos absolutismos, os pensadores existencialistas e

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fenomenologistas opuseram a antítese dos relativismos situacionistas. Quer dizer: querendo fugir à unidade, ao sistema, caiu-se na antítese da não-unidade, do não-sistema, do anti-sistema, do caos de uma construção ideológica sempre em desenvolvimento, sobre a qual nada de sólido se pode edificar. O filósofo existencialista não tem resposta para nada, porque ainda nada concluiu nem concluirá, por saber que, fazer isso, é pretender imobilizar o tempo, fixar a história na repetição contínua, o que é impossível, uma vez que tudo muda e nada é. Mas, então a história tem de acontecer por acaso, para depois se ir saber como aconteceu? Tem que ser assim, porque já não há pensadores que a antecipem em projeto. Tem que ser assim, porque o imperativo da vida não admite esse estado intermediário de nem sim nem não; esta precisa decidir-se por uma estrada; certo ou errado, ela nos impõe escolher uma via, e, se não for possível escolha, porque os filósofos se omitem, de medo, tomamos por caminhos quaisquer, ainda que arris-cados, nem que seja o de Nietzsche, dado que a vida refuga o de Buda e o de Schopenhauer que a levariam à anulação. O mundo precisa, com urgência, de um norte-filosófico; os homens se mostram famintos e sedentos de novas nutrições do espírito, enfastiados que se acham frente aos velhos alimentos, de há muito já remastigados, e os existencialistas ficam só a observar o homem em suas andanças ao acaso, pelo que sua história se vai escrevendo sem nenhum planejamento, por puro ensaio-e-erro! Tudo, então, tem que ser improvisado?

Ora bem: o sistema que se opõe polarmente ao pessimismo decadente é o progressismo otimista. Se a doutrina schopenhaureana vingasse em nosso mundo, como seria ele? Nosso mundo seria habitado só por homens primitivos, porque os civilizados ter-se-iam de todo desaparecido. A doutrina de Schopenhauer, tomada de Buda, conclui, com o famoso mestre da índia antiga, que o mal reside no desejo de ser. Ser é mau, e não-ser, bem. Daí que Buda recomenda uma guerra sem quartel contra todos os desejos, até que, finalmente, o próprio desejo de ser receba seu golpe decisivo, se anule, com que se entra no Nada Além ou Nirvana. Schopenhauer, em seu livro "O Mundo como Vontade e Representação", assenta que só sairemos deste nosso "muito-barulho-para-nada", quando houvermos entrado num estado de não querer absolutamente coisa alguma; nem de viver, nem de morrer, porque, como o afirma, muitas vezes o que deseja a morte, e a busca pelo suicídio, não é um sujeito que não quer mais viver, e sim, um a quem a vida negou o desejado. Como a morte pelo suicídio, não é espontânea, natural, ocorrida para um indivíduo que viveu só para cada dia mais reforçar-se na intenção de não querer a vida, em vez de o suicida encontrar o nada, pelo contrário, resídua dele algo após a

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morte, que o traz de novo à vida. A cadeia de reencarnações (já agora é Buda) não cessa enquanto não for anulado o último desejo, o de ser, pela suave, espontânea e natural anulação inteira no não-ser. O último desejo atuante é o de chegar ao não-ser que, uma vez conseguido, acaba também com este último desejo, porque quando nada se é, nada se deseja.

Nesta forma de budismo, Buda se viu só e o budismo vingou nas formas mahaiana e outras, porque logo se achou jeito de torcer as falas de Buda para acomodar aos imperativos da vida. Se o mundo aceitasse tal doutrina por verdadeira, e a pusesse em prática, em escala geral, certamente que não nasceria mais nenhum homem no mundo, e, suavemente, os que ainda vivem, ir-se-iam, pouco a pouco, para sempre, dormindo no nada, ficando nosso planeta para os povos selvagens que ainda se acham iludidos com as petas, engodos e artimanhas que lhes arma a vida.

Deste modo os povos primitivos estariam cheios da energia que os impele a ir por diante até o esgotamento; seria como afirma Lessing, em seu involucionismo, que toda civilização tende para nada, como um punhado de folhas de chá continuamente refervidas. Cada civilização se mostra mais degradada que as anteriores, até que o pêndulo da vida social queda-se, imóvel, no seu ponto de repouso. Cessado o impulso que fazia ir por diante, tudo para. O que era pura potência no início, vai-se diluindo, desgastando em ato, em movimento, e quando todo o impulso primitivo se houver exaurido, transformando-se em puro ato, o próprio movimento cessa para sempre.

Não para sempre, afirma Nietzsche, de quem Spengler tomou sua doutrina do periodismo... pelo qual a civilização é cíclica como a vida de um organismo biológico. Não para sempre, diz Nietzsche, porque, no ponto de repouso, tudo se inflama outra vez, tudo se reverte, de novo, na antiga potência, e se toma de férvida energia, de nova vida, em eterna recorrência, em eterno retorno. Não, a anulação, o aniquilamento de Schopenhauer, mas o poder, a vontade de poder, visto como poder é ser. Tudo e todos querem poder, e nada há que aspire a fraqueza. Até o budista mais compenetrado que deseja chegar ao Nada, não o conseguirá sem o cultivo da vontade de poder. Quem não consegue o que deseja, é porque não pode; daí que a vontade se canaliza, primeiro, à posse de poder ... porque poder é ser; e ainda que o ser queira anular-se, ainda para isto, precisa poder para o realizar, e só o fará se o puder. Porém, nada do que é vivo deseja a anulação, e antes, pelo contrário, quer poder, cada vez mais poder. Tudo se encaminha, então, a criar o pináculo do poder que é o super-homem, e este se posta para além do bem e do mal. E, sem as peias das morais, todas conducentes a criar fracos, forjadas por estes contra os fortes, o

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super-homem desfraldará seu rubro estandarte em que seu ínclito emblema se vê bordado em ouro: um forte leão jubado tendo à boca um cordeiro; e para que mais se aclare, está escrito seu lema, sua moral ingente: "a justiça é o desassombro do forte!"

Opondo-se às doutrinas pessimistas de Buda, de Lessing, de Spengler e de Schopenhauer, Nietzsche assenta a sua da vontade de poder, e foi nesta forma, e não na de Schopenhauer, que o povo alemão a sentiu e a viveu. Para criar o super-homem, fez-se preciso criar a super-raça, forjar o Estado absoluto hegeliano, e o resultado final disto, todos sabem: o sanhudo e fulvo leão germânico abocanhou o cordeiro judeu, arremetendo-se, depois, contra o resto da humanidade. Mas teve o pago merecido: as nações, unidas, tosaram-lhe a juba, após haver-lhe arrancado as unhas e os dentes.

O mundo, pego desprevenido na Primeira Grande Guerra, mal recobrado das danosas perdas, poi acossado pela Segunda, de que também saiu vencedor. Triste vitória essa que apenas foi dos males o menor. Duas vezes altamente ferido, o mundo dá-se pressa em estudar como fazer para eliminar do planeta a anacrônica instituição da guerra.

Arnold J. Toynbee salvou-se de ser morto na Primeira Grande Guerra, como o foram os seus brilhantes colegas de universidade, por causa de uma disenteria que o desqualificou para o serviço militar. Bebera ele duma fonte poluída, na Grécia, quando andava por lá, a pé, com cantil e farnel, lápis e caderno, visitando as ruínas e os lugares históricos. Saciada a sede e levantando a cabeça, deu com um pastor que o espreitava, fazia tempo já, e só agora o camponês o avisou que a água não prestava. Veio a disenteria que o maltratou por seis anos, tornando-o impossibilitado para ir morrer nos campos de batalha, onde pereceram todos aqueles jovens talentosos que Toynbee saudosamente relembra no seu livro "Experiências". Aquela água poluída, para Toynbee, foi como o "grão-de-areia de Pascal", porque, graças a ela, Toynbee foi contratado peio Governo inglês para estudar as causas da guerra. Assessorado por sua segunda esposa, também funcionária do Governo, ambos trabalharam trinta anos, antes, durante e depois da Segunda Grande Guerra. Paralelamente, Toynbee ia fazendo uma obra particular que saiu em dez volumes com o título despretensioso de "Um Estudo de História". Desses dez volumes, um erudito fez uma condensação em quatro, com o mesmo título, revistos por Toynbee que elogiou a perícia do condensador; e, em sua modéstia, escreve que não faria melhor do que o fez o seu colega de pena. Esta condensação está editada em português.

O trabalho que o mandou, o Governo, executar, se socorria da obra particular do grande historiador, e vice-versa. Ao tempo de "Experiências", contava Toynbee oitenta anos, e ainda é lúcido, e ainda

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escreve. Água poluída de Toynbee ... grão-de-areia de Pascal.Toynbee sistematizou a história, fazendo o estudo de cada tema

à vista de vinte civilizações, fora as interrompidas, e as metidas em beco-sem-saída. Não fez história descritiva, em sucessão cronológica, em vez disto, manuseou os acontecimentos como se foram coisas, mostrando a relação entre eles, às vezes, tão distantes no tempo, como no espaço. Fez filosofia da história, isto é, viu a história em termos de totalidade, mostrando por que, por quem e como as civilizações nascem, crescem, decaem e morrem. Em sistematizando a história, Toynbee, de certo, ficou incurso na condenação dos existencialistas que são anti-sistemáticos, visto como querem descrições apenas, constatações de fatos, não, todavia, conclusões que se enfeixem em unidade, em sistema. Esta é a razão por que, como diz Ortega, estamos sem filosofia desde Augusto Comte, a não ser naqueles grupos fechados onde ela é ainda cultivada. As grandes questões que o tempo nosso colocou, estão por responder-se, como se a vida pudesse esperar os existencialistas terminarem, por pouco tempo que fosse, sua infindável teia de Penélope. Contudo, eles estão tranqüilos, porque lhes residuou do idealismo a crença progressista, crença não posta em discussão, porque a crença é o homem, de que tudo vai bem sob a proteção de leis ... ainda que ignoradas. (O Estado de S Paulo de 23 de outubro de 1975 noticiou o falecimento de Arnold J. Toynbee ao 86 anos de idade).

Quando Descartes abriu o ciclo da filosofia idealista, a partir do seu cogito, não pôde ainda deixar de referir-se ao realismo ao afirmar: eu sou uma coisa que pensa. O conceito de coisa, externa, objetiva é resíduo realista de que Descartes não pôde, de todo, desvencilhar-se. Tal qual, os existencialistas conservam ainda um resíduo idealista, e é a crença de que tudo vai bem, não precisando de os filósofos se preocuparem.

Deste modo, o ser anti-sistemático decorre de ser progressista, porque, se tudo, necessariamente, vai como tem que ir, inútil será organizar sistemas com vistas a guiar e controlar a vida, segundo um fim proposto. Basta abandonar-mo-nos à correnteza, e ela levar-nos-á, onde, forçosamente, queiramos ou não, teremos que chegar. Sabedor disto, de antemão, o pensador não precisa preocupar-se com chegar em lugar algum, e "a marca do gênio consistiria pois na vontade de não querer chegar ao termo, no propósito tenaz de deixar sempre em aberto a investigação”. Gusdorf toma de Hegel a idéia de que a "filosofia é condicionada por um estado de civilização. A tomada de consciência da universalidade em idéia supõe a realização da universalidade de fato, a realização de um quadro de existência tal que a exigência intelectual nele possa manifestar-se, em alguns, na segura

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calma do lazer, fruto de uma técnica e de uma cultura já muito avançadas". Assenta Gusdorf, fundado em Hegel, que "o chefe militar, o técnico, o engenheiro, o legislador, o administrador são, anteriormente ao filósofo, os pioneiros dos tempos novos, organizadores de uma realidade humana em larga escala. Os fundadores de impérios, de cidades e de dinastias, reúnem imensas extensões de terras e grupos de homens, submetendo-os à obediência de um poder centralizado".

Tudo isto acontece sem precisão nenhuma de filosofia orientadora, porque... a razão histórica (Hegel) tudo arranja, tudo ordena, tudo constrói. Sem nenhuma precisão, por fim, aparece a casta dos filósofos, perfeitamente dispensáveis e inúteis, conforme se infere do que Hegel diz, e Gusdorf transcreve: "A necessidade de se ocupar do pensamento puro pressupõe longo caminho já percorrido pelo espírito humano; podemos dizer que ela é a necessidade da necessidade já satisfeita, da necessidade de não sentir necessidade (...) Nas calmas regiões do pensamento, em que este a si mesmo se encontrou e só para si mesmo é, calam-se os interesses que agitam a vida dos povos e dos indivíduos". Daí que "o filósofo seria pois o obreiro da undécima hora, que beneficia do trabalho de outrem sem no mesmo tomar parte, uma espécie de capitalista que vive dos juros da civilização".

Não é, pois, preciso que a filosofia norteie o mundo, que ele vai, por si mesmo, para onde tem de ir. O filósofo é um sujeito que emprega seu lazer em pensar, pensar por pensar, como poderia ocupar-se de criar peixinhos em aquários. Tudo segue os trilhos de um fatalismo progressista; de um determinismo histórico, de uma razão histórica ou de uma história racional. Justifica-se, deste modo, a prece de Cleanto, o estóico fatalista, que "implorava de Zeus e do Destino a graça de seguir, por sua própria vontade e sem desfalecimento, os caminhos que lhe traçaram; “porque”, acrescenta ele, "se eu perder a coragem e me revoltar, terei que segui-los exatamente do mesmo modo". Mudaram-se os tempos, os lugares e os homens, mas a velha idéia fatalista ressurge, como a Fênix, renovada.

"A idéia progressista (diz Ortega) consiste em afirmar não somente que a humanidade, - um ente abstrato, irresponsável, inexistente que então se inventou, - progride, o que é certo, mas também progride necessariamente". Mais: "Caminhando assim, segura, para sua plenitude, a civilização em que embarcamos seria como a nau dos feácios de que fala Homero, a qual, sem piloto, navegava direito ao porto. Esta segurança é o que estamos pagando agora".

Por causa da adoção como "verdade" incontestável, indiscutível, por ser uma "crença", deste galho do idealismo, o progressista não se abala ante a convulsão do mundo. Estejamos todos tranqüilos, não

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havendo nada que temer, pois uma como mão divina guia a história, não precisando o homem de preocupar-se. Existe uma Razão atrás da história... pelo que ela é racional (Hegel); daí que a história é determinística, havendo, logo, o determinismo histórico (Marx, Engels). Contudo, outra é a verdade...

Quando Toynbee era ainda jovem, ele, considerado um dos maiores historiadores contemporâneos,... porém, fale ele próprio: "Mas quando procurei no seu livro (de Spengler) uma resposta para a minha pergunta sobre a gênese das civilizações, comprovei que ainda me restava trabalho por fazer porque, nesse particular, Spengler me parecia dogmático e determinista ao ponto de se tornar obscuro. Segundo ele, as civilizações surgiram, se desenvolveram, declinaram e, finalmente, soçobraram em absoluta conformidade com um ciclo invariável sem que, para isso, houvesse explicação alguma. Era, precisamente, uma lei da natureza que Spengler havia descoberto e que devemos aceitar, confiando na palavra do mestre: ipse dixit". E mais adiante: "Essa visão cíclica da marcha da história se arraigou de tal maneira nos espíritos e nas inteligências dos gregos e dos hindus inclusive Aristóteles e Buda - que chegaram a admiti-la como verdadeira sem pensar que era necessário prová-lo". E, noutro lugar:

"Spengler, cujo método consiste em estabelecer uma metáfora e em prosseguir argumentando como se a referida metáfora fosse uma lei baseada, por sua vez, em fenômenos observados, afirma que todas as civilizações passam pelas mesmas idades sucessivas pelas quais passa um ser humano; mas a eloqüência com que disserta sobre o referido tema de modo algum contribui para prová-lo, e já frisamos que as sociedades se não podem comparar, sob qualquer aspecto que seja, a organismos vivos. Subjetivamente, as sociedades são campos inteligíveis de estudo histórico. Objetivamente, são o terreno comum entre os respectivos campos de atividade de um determinado número de seres humanos individuais, que são eles mesmos organismos vivos, mas que não podem fazer surgir magiamente, da interseção das suas próprias sombras, um gigante à sua imagem e semelhança, nem insuflar, a seguir, nesse corpo sem substância, o sopro da sua própria vida".

Ora, se o ser social não é como um organismo biológico, sujeito às leis biológicas do nascer, desenvolver-se, maturar, declinar e morrer, então, a gênese, desenvolvimento e colapso das civilizações não podem ser buscados na biologia. Contudo, esse "Grande Animal" de Alain, esse Briareu do social, de muitas cabeças, não anda às tontas, porque segue uma só cabeça em que se reúne a minoria criadora. Essa minoria pensa com seus cérebros objetivos, concretos, cérebros que evoluíram de baixo, com a evolução do sistema nervoso. E ainda os

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portadores desses cérebros, os homens líderes, não podem decidir por quais caminhos o Colosso coletivo deve andar, sem uma crença dominante, sem um sistema nascido da determinação de uma Referência, de um Rumo que se perde no Horizonte longínquo - DEUS. Daqui, da determinação desta Referência absoluta, decorre a interpretação do mundo, e desta visão do mundo nasce e se impõe uma forma de conduta humana individual e coletiva. Quando se tenta suprimir essa Referência suma, outra coisa passa a ocupar-lhe o lugar, como absoluto, que pode ser a Razão (Parmênides, Hegel), Eu Absoluto (Fichte), Positivismo, Cientismo (Augusto Comte), Liberdade (Sartre), Super-Homem (Nietzsche), Proletariado (Engels, Marx), etc. Aquilo que for posto como último termo, isso fica absoluto, visto não se referir a nada mais acima de si. Um homem que não tivesse nenhuma referência acima de si, ficaria absoluto, e decretaria, sem rebuços, ser ele "a medida de todas as coisas", como já dizia o sofista Protágoras.

Uma civilização não existe sem os princípios morais que a sustentem, os quais se inscrevem sob a forma de códigos éticos, e estes se restringem mais ainda nos códigos de leis civis. Estas leis civis são de máxima atuação porque contam com a máquina do Estado, apta a fazer valer a justiça, se preciso, pela força. Aqui bate o ponto: não há princípios morais sem Deus, - na gênese e desenvolvimento de uma civilização; e depois de tais princípios se formarem, ainda que se suprima Deus, eles continuam existindo durante todo o tempo que permanecer atuante a inércia do impulso inicial. E sem princípios morais não se podem escrever códigos éticos, e sem estes não são possíveis leis civis, porque a vigência, de fato, destas, depende do beneplácito da maioria. Os legisladores fazem as leis, mas só a conscientização e o consenso coletivos lhes possibilitam o cumprimento. O braço da justiça é forte só na proporção em que lhe confere força o Briareu; fora disto, a lei é letra morta... de que há inúmeros exemplos ...

Quando, todavia, aquela minoria criadora é, pela obra dos demagogos, substituída por uma minoria apenas dominante, o Briareu perde o entusiasmo, o encanto, e não sabe mais como conduzir-se; as cabeças outrora unificadas na cúpula separam-se em muitas cabeças que se põem a brigar entre si, provocando a formação de vários partidos beligerantes (guerras civis, guerras intestinas), e o Colosso cai por terra ferido de morte. Aí, então, chegam os abutres que já espreitavam à, distância (bárbaros), para cevar-se no organismo moribundo, sobre o qual desferem o golpe de misericórdia.

Como o sistema nervoso e o cérebro têm história biológica, e a

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inteligência evoluiu com o cérebro, a razão é histórica. A isto fale Ortega: "Eu penso que é urgente inverter a fórmula de Hegel e dizer que, bem longe de ser a história "racional", acontece que a própria razão, a autêntica, é histórica". Pois como a razão é histórica, tem história, evoluiu com o sistema nervoso e com o cérebro, segue-se que essa razão que é histórica, é a que faz a história. Por que método a faz? Pelo método animal do ensaio-e-erro, por tentativas e falências. O que diz Toynbee à página 42 de "A Civilização Posta à Prova", pode ser expresso desta forma: a história procede por ensaios-e-erros como o aprendizado animal. E assim como o animal tira experiências dos erros para não os repetir, um dia a história acertará a mão. Logo, não há fatalismos históricos ou ciclos determinados. Daí que é preciso ficar de sobreaviso; daí o nosso alertismo que é também o de Ortega.

Tudo, pois, depende de nós, e só de nós, para o bem ou para o mal. E para que não estejamos só, outra vez Toynbee: "Através de nossos próprios esforços, temos o caminho aberto para proporcionar à história, em nosso caso, uma oportunidade nova e sem precedentes. Como seres humanos, somos dotados de liberdade de escolha e não podemos transferir nossa responsabilidade para os ombros de Deus ou da Natureza - nosso dever é carregá-la em nossos próprios ombros". Mais: "Esses enigmas (os da história) podem ser difíceis de decifrar mas eles nos ensinam claramente o que mais necessitamos saber. Eles nos dizem que nosso futuro depende, sobretudo, de nós próprios. Nós não estamos, simplesmente, à mercê de um destino inexorável".

A esta mesma conclusão chegaram Antonio Delfim Netto e Joelmir Beting, como se pode ver no diálogo travado entre ambos na obra deste último, "Na Prática a Teoria é Outra". Pedimos vênia ao preclaro Autor para transcrever essa parte do diálogo, por ser um valioso reforço à tese nossa de que a profissão de profeta é um equívoco. Ei-lo:

Joelmir - Max era um futurólogo? Delfim - Também um, futurólogo. Joelmir - Acredita em futurólogo?Delfim - É uma bola de cristal de duas pernas. Brilhante e

redonda como Herman Kahn.Joelmir - Ou como Malthus?Delfim - Também como MaIthus. Se Malthus tivesse sido levado a

sério, Herman Kahn não teria nascido. Seu avô teve 12 filhos.Joelmir - Qual é o maior pecado da futurología?Delfim - O de tentar fazer o passado governar o futuro,

ignorando o presente. O de menosprezar as vontades camaleônicas

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da sociedade, que se transfigura no tempo e no espaço. O de desconhecer a própria natureza humana, o que tem levado muita gente a ignorar, por exemplo, que dois cubanos socialistas podem ser tão bons ou tão maus cubanos como dois cubanos capitalistas. O rótulo não faz a sociedade, muito menos o homem. A reforma da sociedade deve ser precedida pela reforma do homem isolado. Tentar inverter o processo é o mesmo que pretender erguer uma boa parede com maus tijolos.

(...)Joelmir - Me perdoe a insistência no tema. O professor Mário

Henrique Simonsen é partidário da mesma tese: a futurologia adora a construção apocalíptica. Tem mais charme, diz ele.

Delfim - A catástrofe sempre emociona, mesmo quando prometida com um máximo de previsão e um mínimo de hipóteses.

Joelmir - Simonsen diz que o futurólogo é uma cartomante recheada de álgebra...

Delfim - Bem sacado.Joelmir - Diz ainda que o conteúdo das formulações da

futurologia parece aos leigos e aos incautos, por causa de seu recheio algébrico, bem mais fundamentado que a simples leitura de um baralho. Os modelos que prevêem o futuro da humanidade, segundo uma trajetória imutável e inabalável por hipóteses acessórias - o determinismo histórico de Marx, a teoria estagnacionista dos estruturalistas modernos ou o mundo dicotômico de Wiener e Kahn - possuem uma grandiosidade apocalíptica que emociona e fascina.

Delfim - Mas só emociona e fascina a alguns pseudo intelectuais ensopados de falso tecnicismo. Como é falso e apocalíptico, por exemplo, a última novidade bibliográfica da futurologia, o "The Limits to Growth", editado pelo pessoal do M.I.T., por encomenda do Clube de Roma.

Joelmir - Já li a coisa. E uma espécie de aritmética do fim do mundo.

(...) E por aí se alonga o diálogo muito interessante, culto e

fecundo, mostrando, por exemplo, que Herman Kahn fazendo profecia para o ano 2.000, viu caducar sua obra aos 5 anos de existência; que o mundo anda cheio de sentenças tolas como a que "o mundo marcha para o socialismo", quando mais correto seria dizer que "o socialismo marcha para o mundo", isto é, que ele cada dia avança mais para a forma de regime da maioria das nações, saindo, paulatinamente, do seu desvio histórico, do seu anti-naturalismo, do seu beco-sem-saída. Quando falham as previsões

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socialistas, a culpa cabe aos homens que não souberam caminhar de acordo com o que lhes estava predito, donde vem que errados são os homens, não as previsões.

As profecias só são tais, para os profetas; para os que as cumprem, são programações. Cristo disse ter vindo dar cumprimento às Escrituras e aos Profetas, e executou, de fato, toda a programação do que sobre ele estava escrito. E os evangelistas não cessam de advertir, por exemplo, quando Cristo declarou: - "Tenho sede", foi para cumprir uma predição (João 19, 28). Igualmente, Cristo se dependurou nos braços, recusando-se a apoiar, com os pés, no suporte da cruz (como), e disto resultou sua morte imediata por colapso cardíaco (insuficiência coronária), como cientificamente hoje se demonstra, e isto, para cumprir-se o ponto que diz: "nenhum dos seus ossos será quebrado" (João 19, 36). Morto, Jesus, não foi preciso praticar contra ele o crurifrágio, isto é, tornou-se desnecessário quebrar-,lhe as pernas, como aconteceu aos ladrões que o ladeavam, porque no outro dia era sábado, e os corpos não podiam estar nas cruzes. Quebradas as pernas aos ladrões, não mais puderam eles apoiar-se nos pés, e morreram dentro de vinte minutos, também, de colapso cardíaco. (Werner Keller, A Bíblia Tinha Razão).

Cristo praticou contra si uma forma inusitada de crurifrágio, para que se cumprisse o predito de que "de seu corpo não seria quebrado osso algum"; pela mesma razão, de cumprir as Escrituras, disse: - "Tenho sede". No entanto, os homens modernos são tão teimosos, contumazes, que, deles, não se pode vaticinar coisa alguma, porque eles se obstinam em não cumprir as predições. De que adianta fazer previsões para o futuro, se os homens não as cumprem? Evidentemente, a culpa cabe aos homens, não às previsões... Os profetas estão certos..., os homens, sim, é que são uns errados...

Objetou-nos um crítico do qual o nome não declaramos, porque, expressamente não nos autorizou; mas ficamos-lhe grato por essa sua colaboração; escreveu-nos ele: "Se tudo depende de nós, iremos fatalmente à destruição. Pois não é o homem, segundo o próprio Sr. Caramaschi: "Este ser devorador de semelhantes"? Essa antropofagia (herança animal do homem) se revela de tal maneira entranhada em nossa contextura atual que confiar só no homem é absurdo".

Já o dissemos: o homem não pode prescindir de uma Referência, de uma Instância suprema de apelação, para interpretar o mundo, regular sua conduta e guiar seus passos. Contudo, essa Instância não se põe em campo para resolver quaisquer problemas humanos. A Referência suma, o Absoluto, é Instância de regulação, e não serventuária do homem. Donde vem que o

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homem não pode valer-se, a não ser, de si mesmo. Porém, se olvidar a Referência, se se fizer a si mesmo absoluto, de fato, vai parar no caos. No entanto, uma vez que Deus mantém a liberdade, neste ponto surge a responsabilidade, em lugar do determinismo irresponsável. Se não há uma mão de Deus guiando a história; se não há o determinismo no momento da escolha do caminho a seguir, e sim, só depois de desencadeado o processo; se, em lugar do determinismo, há a liberdade de escolha de uma entre as muitas alternativas que nos apresenta a vida; se, depois de desencadeado o processo nascido de uma escolha errada, não podemos tornar atrás, desfazendo o feito, então, precisamos estar alertas!

A não ser assim, de quem devemos esperar? de Deus? Pois, por que não resolve ele, então, os problemas nossos? Por que deixa ele os homens se entredevorarem, mutuamente, brindando-se com a morte em ferinas guerras? Por que permite, neste caso, até as "guerras santas" perpetradas, de ambas partes, em seu nome? Acaso, logo, é com a anuência dele que os fortes e os astutos (animal ou homem) prevalecem, tripudiando, sobre os pacíficos, ou brandos, ou fracos, ou dóceis? Por que é egoísta a vida desde os seus mais remotos fundamentos, desde sua mais remota origem neste mundo? Se a mão de Deus guia a história, que pensar dele quando a vemos referta de erros, de loucuras, de violências, de maldades? De tudo isto, qual será a conclusão?

A conclusão é esta, e não há outra: se o homem não se puser em guarda, em vigilância; se não se propuser a sofrear suas próprias impulsões animalescas, sua selvageria, "iremos fatalmente à destruição". Eis o nosso alerta... que se mantém equidistante do otimismo progressista, e do pessimismo conducente ao nada de Buda, de Sartre e de Schopenhauer. In medio stat veritas.

Não, porque afirmamos que de nós tudo depende, e só de nós, que sejamos materialistas. Ninguém se iluda: neste "nós" incluem-se, também, os espíritos desencarnados que, sem ser Deus, ajudam na obra arquigigantesca da reconstrução do mundo, no ingente esforço do desenvolvimento da civilização, ao tempo em que elaboram a desinversão de si próprios de egoístas que são, em sábios, em amorosos. Não, portanto, "depois de mim o dilúvio", porque este, sem remédio, de pronto, atingiria aos que amamos; e destruída a civilização, teríamos todos de recomeçar de novo na barbárie. O mundo é a nossa escola de aperfeiçoamento, de desinversão, na carne ou fora dela. A destruição total do mundo nos privaria a nós, homens e espíritos, do campo de experiências de alto nível que atingimos, à custa de tantas fadigas, dores e de lágrimas. Não, logo, "depois de mim o dilúvio", porque não há esse "depois de mim"; a vida continua após a morte do

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corpo de matéria densa, e o homem desencarnado continua jungido às contingências terrenais, porém, noutras esferas..., visto como a Terra não é só o globo físico de compacta matéria...

As experiências pessoais que lastreiam uma convicção profunda, não se transferem, e podem ser havidas por mitos. Haja vista a experiência da abelha da parábola, que não pode ser transmitida à formiga. Mito ou não, tínhamos de consignar este testemunho, real para uns, e mito escatológico para outros.

Ortega, quando afirma que a filosofia, toda quanta, está metida entre dois parênteses iniciais - Heráclito e Parmênides -, conclui, a seguir: "Quer isto dizer que a filosofia começa com um monumental acaso, pois começa ao mesmo tempo, inclusive talvez exatamente na mesma data, em dois homens que, sobre pertencer à mesma geração, vivem nos dois extremos opostos do mundo grego - Eléa e Éfeso; e começa em cada um com sentido oposto, de modo que suas doutrinas representam, desde logo e para sempre, as duas formas mais antagônicas de filosofia que é dado imaginar, como se alguém - o Acaso? - houvesse concordado em deixar toda a futura filosofia inclusa desde a primeira hora neste parênteses inicial".

Não acreditamos que estes dois pensadores iniciais tenham-se reencarnado por acaso. Bergson também cai neste engano. Verificando que as civilizações se desenvolvem graças à atuação de minorias criadoras que encantam, fazendo dançar as multidões aos magos sons de suas harpas de ouro celestiais, sai-se, também, com a descabelada hipótese do acaso; diz ele: Para que se dê a gênese e o desenvolvimento de uma civilização, "um duplo esforço é exigido: um esforço por parte de certas pessoas no sentido de realizar uma nova criação, e um esforço por parte das restantes no sentido de adotarem e de se adaptarem a ela. Pode chamar-se civilização a uma sociedade, logo que estes dois atos de iniciativa e esta atitude de docilidade se verifiquem simultaneamente. Evidentemente, é mais difícil satisfazer o segundo do que o primeiro requisito. O fator indispensável que não exerceu o seu comando nas sociedades não-civilizadas, não foi, segundo todas as probabilidades, a personalidade superior (não há razão plausível para que a natureza não tenha tido um certo número destes felizes caprichos em todas as épocas e em todos os lugares). O fato que se não verificou, foi mais provavelmente o de se não ter proporcionado uma oportunidade para que os indivíduos desta casta pudessem mostrar a sua superioridade e bem assim, de, nos outros indivíduos, se não ter manifestado qualquer disposição para seguir a sua liderança".

Conquanto o que vamos afirmar não seja um dado da experiência para o historiador, o filósofo, como é mais livre, utilizando-se da

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intuição, pode adentrar-se por este caminho, e é o seguinte: a ser verdade isto de Bergson, citado por Toynbee, que os indivíduos superiores aparecem graças aos "felizes acasos" da natureza, que é idêntico a "felizes caprichos"; e certo, como é, que a gênese e desenvolvimento da civilização se devem à existência de indivíduos superiores, então, não só a gênese, como ainda o desenvolvimento da civilização se deve a estes "felizes acasos", ou "felizes caprichos", ou a estas "causas fortuitas ou ocasionais". Logo, a gênese e o desenvolvimento das civilizações, remotamente, são produtos do Acaso. E como uma civilização entra em colapso por motivo da sua incompetência em replicar, com sucesso, a determinado repto (Toynbee), temos que o que faltou, e se existiam, não foram seguidos, foram os indivíduos superiores ... para mostrar como replicar ao repto com acerto. A história, por conseguinte, é feita graças à influência desses indivíduos superiores que aparecem por acaso; e quando a civilização se desfaz, é por causa da ausência deles, ou por não serem seguidos. O Acaso, deste modo, fica sendo o absoluto, o termo de referência a que tudo se reporta, porque tudo está na dependência dos indivíduos superiores, e estes, na dependência dos caprichos da natureza que age ao acaso. Negada esta tese, não há como não se cair nesta outra: a da causa espiritual.

A causa espiritual da gênese e progresso, como a da decadência e morte das civilizações, foi posta de lado por Bergson e Toynbee, bem como a da gênese da filosofia, por Ortega, criando a situação sumamente incômoda para os filósofos, e revoltante para os místicos, de todas as coisas sublimes, soberbas, extraordinárias, se originarem ao toque mágico do Acaso. Se fosse dado, em definitivo, o Acaso como supremo criador, como absoluto, teria então chegado a hora de encerrar a filosofia com um egrégio epitáfio mui digno dela. Porque a filosofia, até hoje, não fez outra coisa que opor a Lei ao Caos... que é este onde nada se repete, e tudo acontece por acaso, por capricho da natureza, por causas fortuitas ou ocasionais. A não ser deste modo, outro é o caminho, e a causa primeira é espiritual.

Quando os espíritos superiores hão por bem reencarnar-se em qualquer meio, este, ainda que semi-morto, renasce, ressurge, recresce, viceja, e se desenvolve. A Renascença simplesmente não teria acontecido, se aquela plêiade de espíritos brilhantes não se tivessem reencarnado. A estagnação medieval ter-se-ia prolongado até os nossos dias, na melhor das hipóteses, porque, na pior, teria já o mundo soçobrado na barbárie... de que ainda agora não se acha muito distante.

Já dizia Cervantes que os grandes feitos para os grandes

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homens se reservam. Textualmente: "As grandes façanhas para os grandes homens estão guardadas". Sem os grandes homens, o mundo não anda, e, na carência deles, sobrevem o "deserto de homens e de idéias" (Osvaldo Aranha).

O “deserto de homens e de idéias” surge quando, depois, a massa invade os postos de comando como demagogos; aí, então, os espíritos criativos se recusam a reencarnar-se em tal meio, que seria perder esforço e tempo, pois não seriam ouvidos. Se é difícil ao espírito seleto guiar as massas, ainda que estas se disponham a segui-lo; como poderá ele conduzi-las, quando elas se acham desorientadas pela gritaria dos demagogos? Então, os espíritos superiores se recusam reencarnar-se... e é o fim da civilização.

Os demagogos são homúnculos que, para as massas, substituem, com vantagem, os espíritos criadores. "Homúnculo é o autêntico filho bastardo de Wagner, do erudito livresco: criatura, dotada de inteligência, mas sem vitalidade biológica. Esses homúnculos sabem que quem deseja com gosto ser ouvido há-de aos gostos da turba acomodar-se. Sabem isto, e o aplicam, porém ignoram que... – o caminho à beleza não vai através da erudição livresca -.... Viver com gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei” (Goethe – Fausto). Agora, Sêneca: "É preciso sermos sábios, não eruditos: a sabedoria ensina o homem a gozar de seu tempo, a erudição ensina a perdê-lo; a primeira ensina a viver bem e frutuosamente, a outra a viver mal e vadiamente. A cultura pode e deve ser um aviamento para a sabedoria, não um fim. Finalidade da vida humana não é ter tantas noções que não servem para nada: é ter a força de resistir ao mal, de- superar as asperezas da existência e de receber a dor como um tesouro do espírito".

Homúnculo é o homem-massa enfatuado por um saber superficial, sem autenticidade, porque não se deu ao, para ele, penoso trabalho de, em solidão, repensar, meditar profundamente, digerir e assimilar as coisas lidas, transformando-as em substância espiritual própria, do mesmo modo como os alimentos ingeridos se transformam em substância corporal. Como as massas não sabem distinguir os demagogos dos homens autênticos, seletos, que são si mesmos, estes perdem o tempo. Daí que os espíritos superiores procuram reencarnar-se noutra parte, acontecendo o que Goethe pôde observar da história: "Trata-se de uma fuga, em que os diversos povos como vozes entram sucessivamente".

Onde se reencarnarem os espíritos superiores, aí estarão as vozes dominantes do coral.

Embora superiores, tais espíritos não são infalíveis, como não o eram os deuses gregos dos quais “Já citava Homero, como

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provérbio muito antigo, que "os moinhos dos deuses moem devagar". Os moinhos dos deuses são o destino histórico". Ocorre então que cada surto de progresso se cristaliza nas instituições, usos e costumes, os quais reagem (misoneísmo) contra quaisquer inovações. Os inovadores, por isto, são desprezados, proscritos e mortos” ( Ortega e Gasset – O homem e a gente). A esse respeito, diz Herbert Wendt, em “À procura de Adão”: "Empédocles, o Fausto grego, que fundou a doutrina dos elementos, constitutivos do mundo e esboçou uma teoria quase darwiniana das origens, morreu exilado político no Peloponeso. Anaxágoras, o primeiro pensador que concebeu uma origem do mundo em nebulosas remuinhantes, foi levado ao tribunal como herético e só pode escapar da condenação à morte graças à influência do estadista Péricles. Os sessenta escritos de Demócrito, em que estava consignada a concepção universal da ciência exata da natureza, incluindo tudo, desde a Fisiologia à doutrina atomística, e onde o pai dos materialistas atenienses se revelou o antepassado de todos os grandes físicos desde Galileu e Newton, Dalton e Faraday, até Bohr e Einstein, foram destruídos na fogueira da censura (dizem que Platão causou pessoalmente esse primeiro ato-de-fé da História Cultural)".

"Os moinhos dos deuses moem devagar"... e acabam por moer os próprios deuses que, para não serem moídos, se recusam a reencarnar-se... onde os mortos matam os vivos... mortos, no sentido de Cristo que mandava deixar aos mortos o encargo de enterrar os seus mortos, e mortos no sentido de, quando vivos, na reencarnação pregressa, terem sido os criadores das instituições que agora resistem (misoneísmo), e, para salvaguardar-se, matam os inovadores. Os mortos neste duplo sentido de mortos ambulantes e de mortos ilustres, os primeiros do presente, e os segundos do passado, crucificaram Cristo e assassinaram Sócrates. E quando já não há mais deuses para cuidar do moinho, porque todos foram moídos, então ele pára... e é o fim da civilização.

Os deuses e os homúnculos movem a história; os primeiros fazem-na andar, e os segundos, a desandar. Certamente que não exageramos ao classificar de homúnculos os césares romanos quase todos, que se cuidavam "divinos", e, no entanto, eram doidos, sanguinários, hipócritas, devassos (Calígula, Nero, Cômodo, Heliogábalo, etc.), homúnculos apenas e não deuses. "Calígula - diz Sêneca - (que a natureza degenerou, penso eu, para mostrar quanto pode o máximo dos vícios no máximo da prosperidade) gastou em um dia só para um almoço dez milhões de sestércios; e, embora ajudado pela fantasia de seus cortesãos, pôde a custo encontrar a maneira de converter o tributo de três províncias em um almoço". A ocupação do poder por tais arrematados monstros, impedia a

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aproximação da elite criadora. Catão rejubilou-se quando lhe impuseram suicidar-se, tal qual Sócrates, ao ser condenado à morte, pois nem um nem outro podia mais salvar a Cidade da destruição já pronta e destinada.

Engels e Marx assentaram que os fatores econômicos governam a história. Pode isto ser verdade, se definirmos economia como sendo a ciência humana que estuda os meios que têm por fim satisfazer todas as necessidades. Como o que cada um busca é o bem-estar, a felicidade, a economia seria a ciência da busca da felicidade. Definida a economia deste modo vago, amplo, então Cristo foi o maior economista visto como ensinou o único caminho possível que leva à felicidade, e este caminho é o do amor fraterno, prático, atuante, vivencial, e não o apenas retórico, livresco, literário.

Todavia, a ciência econômica, tal como pensava Marx e ainda entende o vulgo, não tem nada a ver com as riquezas espirituais, e menos ainda, com as que se fundam na esperança de outra vida, ou as do outro mundo. Ela se ocupa das riquezas materiais com as quais se pode comprar o conforto, o bem-estar. Consequentemente, todos aqueles que se sacrificam neste mundo, por um ideal sublime, padecendo pobreza e desconforto (santos, sábios, filósofos, cientistas, artistas, educadores, etc.), constituem exceção à pretensa "lei" histórica de Marx. E como todos estes dos parênteses só agem por motivos espirituais; e como eles integram a minoria criadora que faz avançar a civilização, segue-se que a história não anda por motivos econômicos, mas, por motivos espirituais.

Então, esteve errado Marx em suas observações? Não. Marx tem razão. Na decadência, os motivos econômicos, de fato, movem a história. O homem-massa, como ignorante, como egoísta fechado na sua miopia, não poderia enxergar outra coisa além de suas necessidades materiais. De tais homens se pode dizer, com Sócrates, que "vivem para comer, e não, que comem para viver". Referiu-se a esta casta de homens, Cristo, quando exclamou: "deixa aos mortos o encargo de enterrar os seus mortos". Foi pensando nestes mortos ambulantes que enchem as ruas, em cujas almas nenhuma chama arde, que Cúrio Dentato proferiu esta sentença anotada por Sêneca: "Prefiro estar morto, a viver morto". E Gusdorf: "É imensamente preferível (...) ser Sócrates caído em desgraça do que porco satisfeito". Aqui está como, de fato, os motivos econômicos são os únicos que fazem andar os mortos (!)

Seria, então, que os mortos escrevem a história? Seriam os mortos que a fazem andar? que lhe dão vida? Não lhe dão vida, dão-lhe a morte; não fazem a história, senão a desfazem; não a fazem andar, mas, desandar. Na decadência duma civilização, os mortos escrevem

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a história, e, então, por motivos exclusivamente econômicos; porque, tendo sido afastada a elite criadora dos postos de comando, tal elite é substituída por uma minoria dominante, toda feita de mortos ou homúnculos. Estes, espiritualmente mortos, visam apenas o econômico: buscam enriquecer-se mais e mais, preparam exércitos, fazem guerras de conquistas, "colonizam" outros povos, criando, com isto, o efêmero Estado universal. As massas ignaras tomam tudo isso por desenvolvimento, por progresso, não lhes ocorrendo ser isso sinal de decadência, de prenúncio de morte, como os profetas não cessam, então, de anunciar.

Pouco mais, e os da cúpula do poder principiam a brigar entre si, levantando facções contrárias entre o povo, que são as guerras civis. Vem o enfraquecimento, as "colônias" libertam-se, armam-se como resposta ao repto da ocupação sofrida, e, então, os "bárbaros" caem sobre o colosso enfraquecido e o liquidam. Está morta a civilização; os mortos a mataram!

Como diz Ortega, "já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. Esta começa a ser escravizada, a não poder viver mais que em serviço do Estado. A vida toda se burocratiza. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta - em todas as ordens. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. Então o Estado, para subvencionar suas próprias necessidades, força mais a burocratização da existência humana. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico, seu exército. O Estado é, antes de tudo, produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa, não se esqueça). Por isso é, antes de tudo, exército. Os Severos, de origem africana, militarizaram o mundo. Faina vã! A miséria aumenta, as matrizes são cada vez menos fecundas. Faltam até soldados. Depois dos Severos, o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros" (...) "Os estrangeiros tornam-se donos do Estado, e os restos da sociedade, do povo inicial, tem de viver escravo deles, de gente com a qual não tem nada que ver. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa".

Como, todavia, civilização é integração, eros ou amor; como "civilização é, antes de tudo, vontade de convivência. É-se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. A barbárie é tendência à dissociação. E assim todas as épocas bárbaras tem sido tempo de espalhamento humano, população de mínimos grupos separados e hostis". Como civilização é integração, é "vontade de

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convivência", então, uma idéia nova, um novo poder espiritual, normalmente, uma religião, há muito cultivada pelo povo sofredor durante o interregno, firma-se, e é a crisálida de que sai a civilização substituta daquela que morreu sob o império dos mortos.

"É, com efeito, muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante, que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos, os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos".

Desde que sustentou Cristo que "nem só de pão vive o homem", aquele que vive só de pão, não é vivo, é morto. Nenhum cristão morreu na arena para ter qualquer vantagem material. Nenhum herói se sacrificou e morreu pela pátria ou por uma idéia, esperando benefícios que não fossem para outrem. Todos os conhecimentos naturais, científicos e técnicos que realmente colocaram o homem no seu pedestal de homo sapiens, resultaram de atividades diletantes, não econômicas, que não tinham outro objetivo que não fosse a pura diversão, o prazer, o jogo, o flanar criador. Benjamim Franklin, ao fazer saltar faíscas elétricas do cordel umedecido de seu papagaio, não estava ainda, sequer, pensando em pára-raios, do mesmo modo que Hertz não cuidava ainda do telégrafo sem fio, quando, por puro prazer, pesquisava as ondas elétricas. Se fosse, então, perguntado a ambos para que serviam suas experiências, poderiam responder com a pergunta de Edison, em idênticas circunstâncias: "para que serve uma criança?". Edison ganharia muito mais se, ao invés de "perder tempo" (?!) com invenções que o mantiveram sempre na pobreza, se dedicasse a ser um simples comerciante, ou gerente de um banco, ou médico, ou advogado. Quando Darwin, com apenas 21 anos de idade, ainda estudante, "perdia seu tempo" em estudar qualquer animálculo no microscópio, meses a fio, com pertinácia e paciência, acaso o fazia por motivos econômicos? Enquanto seus colegas de estudo vadiavam, bebiam e dançavam, lá estava ele preso ao seu "passatempo" predileto, e quando todos, de há muito, já estavam dormindo, ele continuava acordado, com a cabeça em fogo, lucubrando, lucubrando... Ninguém, jamais, nunca, viu um gênio que, por seu próprio esforço, se tivesse enriquecido, donde a definição popular para ele: "gênio é aquele que, sabendo todas as coisas, não sabe ganhar a vida". A criança humana, curiosa e inteligentemente criadora, que desaparece no adulto insípido, prosaico e vulgar, permanece criança no gênio para quem tudo são maravilhas; esta é a causa por que os gregos simbolizaram a filosofia na coruja de Minerva, a ave de olhar deslumbrado.

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Rimo-nos da afirmação de Marx, de que a história se desenvolve por motivos econômicos, quando vemos Cristo e Sócrates, todos os heróis e todos os mártires morrerem por suas idéias venerandas! Depois, eis-nos, já, sério, ao constatar que, de fato, Marx tem razão, e, efetivamente, os motivos econômicos governam a história,... acentuadamente, na decadência das civilizações, visto como, nesse tempo, o poder material substitui o poder espiritual, no mesmo passo em que a minoria criadora, por obra dos demagogos, se transforma em minoria dominante, toda, constituída de homúnculos. Então, com o surgir do "deserto de homens e de idéias", vêm as guerras de conquista de que decorre o efêmero Estado universal que preludia o soçobro final da civilização. Um pouco antes tem lugar o intervalo de tempo (interregno) durante o qual se forma uma religião no seio do povo sofredor, e este novo poder espiritual é a crisálida de que nasce a civilização substituta. Quem, pois, com Marx, se ocupar só com os períodos decadentes da história, pode, com ele afirmar que a história se move por motivos econômicos. Se, no entanto, o enfoque da mente recair sobre a gênese e desenvolvimento das civilizações, ver-se-á que, aí, predominam os motivos espirituais.

Predominam, dissemos, porque ambos poderes nunca estão sós. A civilização, como tudo, possui dentro de si o binômio essência e substância que se manifesta sob a forma de poder material e poder espiritual. Assim como, na física, a potência dinâmica (P) é um produto da velocidade (v) pela força (f) - P = vf -, de sorte que, quando aumenta a velocidade cai a força e vice-versa, o mesmo ocorrendo com a potência elétrica (W = E.I), em que o Wat (W) resulta da voltagem (E) pela intensidade da corrente (I), pode estabelecer-se que uma civilização é um produto do poder espiritual pelo poder material. O enunciado diz, então, que o poder material (m) cresce na proporção com que cai o poder espiritual (s) e vice-versa, para uma dada potência (P) civilizatória - P = ms. No entanto, esta potência também se vai aumentando pelo aumento alternado do poder material e do poder espiritual. Cada surto de desenvolvimento espiritual corresponde a um outro do poder material que, por sua vez, suscita novo surto de desenvolvimento espiritual. Esta alternância faz desenvolver-se a civilização. Por isto, quando, como agora se verifica um crescimento como que hipertrófico do poder material, o equilíbrio só será possível, com uma retomada do desenvolvimento do poder espiritual. Conseqüentemente, se nossa civilização não soçobrar agora, vítima do desastre atômico, podemos augurar uma volta à filosofia, tão intensa, quanto ela, no momento, é desprezada. Estamos exatamente no ponto em que vai acontecer uma segunda Renascença qual a ocorrida no fim da Idade Média, ou, então, nosso desastre será

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completo pela Terra inteira.As civilizações caem a nada, quando a hipertrofia do poder

material anula o espiritual. Pela mesma razão, é impossível que só cresça "s" (poder espiritual), porque, como essência que é, precisa possuir a sua correlata substância "m". Nas artes se vê bem isso: quando uma nova idéia surge, ela se reveste de um estilo novo que é rico no fundo e pobre na forma. Com o correr do tempo, a forma cresce, enfuna-se, dominando tudo com aparatosas vestes. Foi deste modo que o grande estilo barroco conceptista, próprio para pensamentos grandes, se degenerou no gongorismo e no rococó. A ingente clava de Hércules reduziu-se a nada nas mãos dos pigmeus, apenas dela conservando a forma, não, porém, o conteúdo, o valor e a força prodigiosos. Também, o homem, na mocidade é rico de energia vital mas vazio de experiência, de sabedoria; na velhice, decai a energia orgânica no ponto em que a experiência e a sabedoria crescem. A beleza do jovem, diz Ortega, "o admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade". O jovem é belo por fora, no passo que o velho o é por dentro, quando se ocupou este em valorizar-se.

Hegel diz que a história é racional; no entanto, ele próprio se refuta, porque sua lei histórica se resolve numa não-lei. Segundo ele, a história se desenvolve pelo método dialético da tese, antítese e síntese. Começa-se por uma tentativa que é a tese; depois, como as coisas não dão certo, vai-se fazer exatamente o oposto que é a antítese. Como, também, não se atinge o objetivo, então se junta o que há de bom da tese, com o bom da antítese, construindo-se a síntese. E esta síntese é a tese do movimento seguinte.

Conseqüentemente, a história desenvolve-se por tentativas e falências, por puro ensaio-e-erro animal. Onde, logo, a racionalidade da história? Este automatismo quase físico pode ser razão, mas razão embrionária, concreta, muscular, feita, toda, de movimento objetivo, de ações, pelo que a meditação da história é a mesma meditação do animal toda feita de ações diretas, de atos e de gestos físicos, nomeada ensaio-e-erro. Essa meditação enfraquecida do animal e da história está tão distante da razão plena, da sabedoria, quanto dista a inteligência do animal da humana. E isto porque, como diz Ortega, longe de a história ser racional, acontece que a mesma razão humana é histórica. Conseqüentemente, a história estará tão mais cheia de erros, quanto mais for o homem ignorante. Logo, se o mundo se povoasse de sábios, a história seria racional, e, ao invés de o homem fazer primeiro, como agora é, para ver no que dá; agir, para depois pensar, primeiro pensaria, para depois agir. Não, a ação direta que é a ação sem pensamento, mas a ação indireta

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que é pensar para depois agir. Levar para o pensamento abstrato o ensaio-e-erro, isso é razão; porque o pensamento dialético é um ensaio-e-erro in abstracto. Não, a fórmula: segue-se o pensar ao agir, mas, o inverso: segue-se o agir ao pensar.

Podemos, agora, chegar a uma generalização maior que englobe as duas meias verdades na unidade. A primeira diz que a história se desenvolve por motivos espirituais. A segunda, que os motivos econômicos governam a história. Cumpre-nos encontrar o denominador comum que harmonize, na unidade, estas duas contradições. E esse denominador comum é o egoísmo que é constante, tanto na fase ascendente da civilização, como na decadente; o egoísmo faz subir, e o egoísmo faz descer, no ponto em que seu interesse se desloca, ora para o econômico, ora para o espiritual.

O motivo, pois, que move a história tanto na ascensão, como na decadência, é o egoísmo porque a história é o relato dos feitos realizados pelo homem que é um ente vivo, saturado, das células acima, por uma vida que é egoísta desde os seus mais remotos fundamentos neste nosso mundo.

Qual, pois, a diferença de um e de outro egoísmo, visto ser este o pulsionador da história, tanto na ascensão da sociedade, como na sua decadência? Na sua ascensão, a história se move ao impulso dum egoísmo sábio; na sua decadência, ela anda por efeito dum egoísmo ignorante, tal, a diferença que vai entre elite criadora e minoria dominante. Ambas minorias, a criadora e a dominante são egoístas, porque ambas são vivas, e a vida é egoísta; porém, a minoria criadora tem seu egoísmo expandido, pelo que assesta sua luneta de alcance, para enxergar, ao longe, ao largo, uma meta espiritual distante; a minoria dominante, ao contrário, atacada de miopia, como a toupeira, só sabe farejar motivos materiais...

Se a história não é racional; se não é determinística; se não há nela outra "lei" que não seja a do egoísmo, o supremo imperativo da vida, então, a história está em nossas mãos, e será como a fizermos, para o bem ou para o mal. Se somos livres para fazê-la, de um modo ou de outro, não há fatalismos ou determinismos históricos. Se a história será como a fizermos, é preciso planejá-la. Em lugar do progressismo idealista que acha que a história vai como terá de ir, temos de pôr o alertismo pelo qual a história terá de ser planejada, organizada e controlada como qualquer empresa. A história, logo, é o relato dos empreendimentos ou feitos humanos cujos planejamentos, execuções e controles ficam inteiramente à mercê da nossa sabedoria em efetivá-los. Ou isto, ou a história desenvolver-se-á, como o foi sempre, por tentativas e falências, por puro ensaio-e-erro

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animal. Conseqüentemente, quanto mais sábio for o homem, menos erros conterá sua história. Então, numa sociedade de sábios, a história será racional.

Mas, sabedoria não é ciência, visto como esta se encaminha a ver o particular cada vez menor, procurando conhecer "mais e mais a respeito do menos e menos" (W. Durant). A sabedoria está no rumo oposto, na filosofia, na generalização. E só poderá ver o geral quem se puser à distância ou nas alturas, em aquilino vôo, em vôo de condor.

A fabulosa escolha de Salomão mostrou que era ele sábio antes mesmo de pedir a Deus sabedoria. Para saber pedir é preciso ser sábio; e o sábio, quando pede, pede mais sabedoria. "Que queres que te dê?" - disse-lhe Deus. E que pediria o homem ignorante, qualquer desses que enchem as ruas, se um deus lhe aparecesse, como o gênio da garrafa de Aladim, e lhe autorizasse a fazer um pedido? Sem hesitação pediria riqueza, pediria para acertar sozinho na loteria, porque todos querem dinheiro a mancheias; pediria poder, porque todos querem ser poderosos; pediria glória, porque todos estimam a ostentação. O rei Midas não pediu sabedoria, mas riquezas, e os deuses o castigaram com fazer que tudo o que ele tocasse, imediatamente, se transformasse em ouro. Perto de morrer de fome e sede, implorou o rei lhe fosse retirado esse privilégio exorbitante. Não consta, porém, que Salomão tivesse precisado pedir que Deus lhe diminuísse o saber, embora tivesse chegado a entender, como o escreveu, que "melhor é o dia da morte que o do nascimento", e que "o aumento de sabedoria implica no aumento da capacidade de sofrer", porque, mesmo a esse preço, incomparavelmente, vale mais a pena ser sábio que ignorante. Pois claro: a insensibilidade que impede o sofrimento, igualmente, impede o gozo, a alegria. Ora, ninguém gostaria de chegar ao não-sofrimento pelo caminho de tornar-se pedra, só porque as pedras não sofrem.

Contudo, Salomão pediu um coração reto e justo, para que? Pois como ele próprio o disse: "para poder julgar este teu grande povo". Pediu um coração reto e justo, e Deus lhe diz que lhe satisfaria o pedido fazendo-o sábio; porque ter coração reto e justo é ser sábio. Ora, ter coração reto e justo é ser virtuoso; mas a suma das virtudes, a mais excelsa, de que todas as demais decorrem, é o amor; logo, a sabedoria é o amor. O amor do povo era o preeminente interesse de Salomão, e, para o julgar, para ser juiz íntegro, perfeito, pediu um coração reto e justo, e Deus lhe dá sabedoria.

E porque Salomão pediu sabedoria, isto é, um coração reto e justo, e, não, riquezas, nem poder, nem glória, nem que Deus lhe pusesse nas mãos seus inimigos, juntamente com a sabedoria veio-lhe a glória, veio-lhe a riqueza, o poder, a honra, e até a paz lhe veio,

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porque o rei sábio soube transformar os mais ferrenhos inimigos em amigos fiéis.

O egoísmo que está já nas bases da vida, e em toda ela, não cessa de existir no santo e no sábio, só que, com a sabedoria e a santidade, o egoísmo se expande, tornando-se egoísmo dilatado.

Quando Cristo manda o moço rico vender tudo o que possuía, dá-lo aos pobres, para depois segui-lo, acrescenta: "e terás um tesouro no céu". Ora, abrir mão do menos para ter o mais, não é desprendimento vazio, mas egoísmo sábio ou dilatado. Quando foi perguntado a Ciro, o persa, por que não se apoderava das riquezas dos solos conquistados, e antes, as deixava sob a guarda dos mesmos monarcas conservados em seus tronos, tornados, apenas, vassalos, respondeu: "O resultado de nossa avidez de riquezas seria dar-nos uma posse efêmera; entretanto que, se desprezando-as, nos fizermos senhores dos territórios que as produzem, adquiriremos uma posse constante". A esta mesma conclusão chegou Golias quando disse a Ciro: "Não me admiro que possuindo nós maior porção de taças, de vestidos e de ouro, sejamos contudo inferiores a vós. Nós curamos de amontoar riquezas; vós de vos fazerdes mais valorosos". Eis a diferença entre o ter e o ser; o sábio busca ser... mais valoroso, e o ignorante procura ter... mais riquezas. O sábio anseia pelo eterno da sua auto-construção, no passo que o ignorante almeja o efêmero (riqueza ou poder) que não pode levar consigo para o oriente eterno, e serve só para enchê-lo de maus costumes, de vícios, dos quais, com dores, terá de despojar-se. Egoísta um, egoísta o outro, mas o egoísmo de Ciro era sábio ou dilatado; sua recusa em apoderar-se da parcela, era porque tinha em vista o todo. À-toa não é que Deus chama a Ciro de seu ungido (Isaías, 45, 1 e 2). E La Mettrie: "A virtude é o egoísmo munido de óculos de alcance"!

Demonstrado que a história se torna cada vez mais racional, na proporção em que os homens que a fazem vão ficando mais sábios, temos isto de novo, de inédito, de original: a civilização é uma empresa humana. Como tal, funda-se no triângulo planejamento, organização e controle. Este ternário, por sua vez, se apóia e anda sobre as cinco rodas de quaisquer empresas: criatividade, liderança, motivação, comunicação e padrão. Nenhuma empresa se desenvolve, se não forem postos em funcionamento estes requisitos.

Da falta de criatividade, esta que sempre está ligada à liderança, pois só lidera quem puser em movimento as forças criativas de si e de outrem, desta falta de criatividade vem a falta de liderança, e, com esta, dá-se a queda da motivação, da comunicação e do padrão. É por isto que, quando a minoria criadora, pela obra dos demagogos, é substituída por uma minoria dominante, não criadora, cessa a

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liderança, e os chefes de Estado não causam mais admiração e respeito. Aquela lira de ouro que a minoria criadora sabia dedilhar, a cujos magos sons a multidão feliz dançava, torna-se em bastão de comando militar nas mãos do chefe, não líder...

O bastão, de início, serve de batuta para marcar o compasso, sem música, sem deleite, sem entusiasmo, sem esperança. E quando a multidão sai do compasso, então é agredida com o bastão, impelindo-a à rebelião ativa. Caída a criatividade, portanto, cai, também, a liderança; o líder é substituído pelo chefe cuja virtude é a força, cuja voz é a de comando do sargento instrutor.

Sem a criatividade, perdida a liderança, anulada a motivação, com transformar-se a lira de ouro no chicote, a comunicação se torna como a dos que edificavam a torre de Babel. Por causa de a comunicação ter-se tornado balbúrdia, os padrões de produção e de qualidade caíram a zero, isto é, a obra da construção, seja da torre, seja da civilização, pára, cessa, arruina-se e se desfaz em nada. Roma, antes de cair, não tinha homens com que encher uma praça de centuriões, obrigando-se, para isso, a contratar mercenários bárbaros, porque as matrizes que se fecharam para a prole, puseram-se ao serviço das orgias, ao mesmo tempo em que os homens e as mulheres de Roma se acharam divididos pelas querelas políticas infindáveis e guerras civis. Significa isto que o padrão de conduta moral, social ou cívica caiu a zero; foi como uma confusão de línguas, porque ninguém mais entendia ninguém.

Caído a nada o padrão que é o estatuto ético e legal; desfeito o controle, a organização cai no caos. Como, de há muito, cessaram a criatividade, a liderança, o controle e a organização, o PLANEJAMENTO, também, se torna de emergência, reduzindo-se a improvisação, pelo que é substituído pela ação direta que é a ação sem pensamento, ou a ação antes do pensar. A fórmula da ascensão: segue-se o agir ao pensar, inverte-se, e fica como é na decadência: segue-se o pensar ao agir. Então, primeiro se faz de qualquer jeito, cega e irracionalmente, para depois colher os resultados absurdos. Ora, isto é puro ensaio-e-erro animal. E se homens racionais passam a agir e a pensar por atos cegos como os animais inferiores, não é muito que a civilização com que se adornam, se torne pó e nada. "Caiu, caiu a grande Babilônia", anuncia o Anjo ao Autor do Apocalipse (Apoc. 18, 2), e a Babilônia ficou sendo o símbolo de todas as grandezas humanas votadas à destruição irremediável, quando sua história passa a mover-se só por motivos econômicos, materiais. Nenhum espírito superior, então, se reencarna no seio de um povo, quando sua civilização, por tal motivo, se torna decadente, porque é impossível salvá-la, e os maiores que o tentaram - Cristo e Sócrates - foram

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assassinados, após um arremedo caricatao de justiça digna de homens que se tornaram bestas quais aqueles de Ulisses que Circe transformou em porcos, sem muito trabalho, como ela própria o disse.

Sendo a civilização um livre empreendimento, uma empresa, que visa esta? Qualquer empresa visa o lucro. E qual seria o lucro da civilização? Pois não pode ser outro que não o bem-estar, a felicidade. Pois bem: só se pode ser feliz quando se é sábio que é o mesmo que santo, ambos termos derivados de sabor (experiência, vivência). Fale, então, Toynbee: "Nenhuma civilização conhecida chegou a atingir o objetivo da civilização. Nunca houve uma comunidade de santos sobre a Terra". Todavia, quando houver, essa sociedade não terá termo, porque a história não é, necessariamente, cíclica. O homem, individual e coletivo, é livre para semear violências, dores e males; não o será, porém, na hora de colher os funestos resultados. Nossa civilização ocidental pode acabar já, ou pode perdurar para sempre, transformando-se, mas, sem cair, dependendo de nós, e só de nós, para o bem ou para o mal.

Por que haveria de tornar-se em nada uma civilização em que os homens se fizeram santos e sábios? E, pela recíproca, por que haveria de perdurar uma sociedade que se transformou em pandemônio, em que os homens, bestificados, saltitam ao som duma pandorga? Eis que a verdade menor de Spengler se acha englobada na verdade maior de Toynbee. Para Spengler, a civilização faz seu ciclo como a vida de um organismo biológico. Isto é uma figura, uma metáfora, diz Toynbee, porque uma sociedade, sob nenhum aspecto, se assemelha a organismos vivos. Sob nenhum aspecto? Pois aí está um: a evidência histórica mostra que as civilizações nascem, crescem, chegam ao apogeu, e depois declinam e morrem, abrindo e fechando um ciclo, pelo que se poderia dizer: ao menos nisto, elas se assemelham a organismos biológicos.

Vem Toynbee, e explica que a cadeia pode ser quebrada, se a sociedade se constituir de homens que aspiram a sabedoria que é o mesmo que santidade. Santo é o que possui as virtudes todas, não só as que se derivam do sentimento sublime, como as que nascem da consciência cívica ou social. E se um tal santo-sábio ocupasse o supremo poder numa tal sociedade, primeiro que tudo, ele teria a consciência de que cargo vem de carga... que se leva às costas, não, cômoda montaria que o carrega a ele. Cargo é função, da qual o homem é o órgão. E o órgão que não executa a sua função, seja por que motivo for, deve ser alijado, como imprestável, pela vida. Os órgãos vestigiais são os que cessaram de existir por falta de função. Homem e função não se separam, porque cada um é o que faz. O nome deriva do ofício; daí que, quando a João Batista se perguntou quem

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era, ele respondeu com o que fazia: eu sou a voz que clama no deserto! Porque o homem é o que faz.

E o sábio-santo teria esta alta consciência que o tornaria constantemente preocupado com a plena felicidade de todos. Não seria intransigente, mantendo-se aberto às inovações que os gênios trouxeram para maior alegria de todos, pois estaria ciente de que tudo muda, não se repetindo nunca as situações. Cada homem de tal comunidade, ainda utópica, ficaria ocupado com a sua função que ele próprio escolheu, por ser-lhe aprazível executar. Tudo seria, então, um flanar criador. Como fecharia seu ciclo uma tal civilização?

E como não se fecharem os das civilizações transactas, se os homens não levavam os cargos, senão que estes carregavam a eles? Como não se fecharem, se ignorantes se apoderavam do poder; se todos aspiravam relevantes posições de mando, sem se perguntarem nunca se eram competentes; se todos queriam enriquecer-se, por qualquer meio, sem meditar sobre o perigo da posse de riquezas; se todos queriam tudo, contanto que não fosse o duro labor do cultivo das virtudes e do saber? Spengler tem razão, ao supor ser necessário o desenvolvimento cíclico da história, porque a experiência histórica o comprova; todavia, errou ao situar a causa do ciclismo, que não é porque a sociedade seja como um organismo biológico, e sim, porque as massas são ignorantes, e, por isto, confundem o homem seleto, autêntico, criativo e bom, com o demagogo que prega todas as virtudes, mas não pode viver nenhuma. Daí que a minoria criadora se troca pela minoria dominante; daí que os planejamentos se substituem pela ação direta, pelas soluções de emergência, fazendo que a civilização desande para o seu ocaso. Tem que ser assim, não pode ser de outro jeito, enquanto o homem for ignorante.

A solução está na sabedoria, que só esta se associa à virtude na sua forma mais excelsa que é o amor vivido, não o apenas retórico ou literário. Agora se compreende por que dissemos com Huberto Rohden ser Platão o filósofo do futuro. Platão afirmava ser necessário ao iluminado, isto é, ao que viu a luz fora da caverna, retornar a ela para ajudar a seus irmãos aturdidos pela visão das sombras irreais, gritando-lhes: "eu vi brilhar a luz"! Platão, ao contrário de todos os filósofos que sempre buscaram na filosofia o desprendimento da vida, pregava a necessidade fraterna de o iluminado tornar à caverna a fim de ajudar a seus irmãos; para ele a sabedoria não é vazia de obras, mas, operosidade concreta com vistas a melhorar a sorte dos homens. A sabedoria é um chamamento à ordem, e não, nunca, evasão do mundo; ela é presença no presente, esteja o homem na carne ou fora dela. A sabedoria tem que ser militante, e o pensador tem de sentir-se impelido, não só a interpretar o mundo, mas a

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transformá-lo no sentido civilizatório.Há mais de dois mil anos Platão dissera que a solução de todos

os problemas estava na posse da sabedoria; afirmou ser necessário ao sábio inflamar-se do amor que o motive a ir ajudar aos iludidos das sombras, aos prisioneiros da caverna; chegou ao extremo de propor que os filósofos fossem reis, ou os reis, filósofos, mas filósofos, já se vê, de vida ativa e sábia, e não, filósofos de erudição, de teoria oca, vazia de conteúdo vivido – doctor cum libro.

De Sócrates, de Aristóteles, pôde sair o ideal socrático-cristão de um Deus-Sumo-Bem, pelo que cumpria ao místico isolar-se, a fim de atingir este objetivo, este fim - a beatitude. Falseou-se, deste modo, o ideal de Cristo, o ideal de Platão que, para os gregos, era estultícia. "Nós pregamos a Cristo crucificado, diz Paulo, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos" (I Cor. 1, 23). Para os judeus, escândalo, porque eles esperavam um Salvador militarista que fizesse o mundo ajoelhar-se a seus pés. Tal futurismo messiânico de um Estado universal belicoso, calhava bem aos involuídos judeus, não lhes ocorrendo que nenhum Estado desta espécie perdurou jamais. Como não se escandalizarem de um Messias fracassado, de um Cristo pregado numa Cruz? E para os gregos? "Sob o ponto de vista do filósofo, a encarnação do auto-sacrifício - o Cristo Crucificado - é uma personificação da loucura". Acaso "não é no desprendimento da vida que consiste o verdadeiro alvo da filosofia? E não são os esforços em prol do desprendimento individual e a salvação social reciprocamente incompatíveis, ao ponto de se excluírem mutuamente? Como pode alguém propor-se a salvar a Cidade da Destruição, quando está justamente lutando para ser livre?" (Toynbee – Um estudo de história).

Se o ideal da filosofia para todos os pensadores foi alcançar o desprendimento da vida, fugindo da Cidade em vias de cair, Platão propõe o inverso disto, ou seja, que o filósofo fosse rei, preocupado, justamente, portanto, com salvar a Cidade da destruição. Por outras palavras, Platão propõe, como fim da filosofia, o mesmo que alcançou Toynbee após exaustivo estudo de civilizações comparadas, de filosofia da história, ou seja, que o homem tem que ser sábio-santo, porque só este, movido pelo amor, tornaria à caverna, a fim de ajudar a seus irmãos. Nisto se cifra a verdade.

"Que é a verdade?" - pergunta Pilatos a Cristo; e este baixa a cabeça em silêncio; por quê? Porque Pilatos, simples homúnculo ele também, e representante de uma minoria dominante, não merecia a resposta... que Cristo se cansara de dar com palavras e atos de sua vida; a verdade não estava, então, por achar-se; de há muito ela se encontrava no meio dos homens: a verdade é o amor.

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A este mesmo resultado chegou Gusdorf para escrever: "Nenhum filósofo descobre radicalmente a verdade, pela simples razão de que a verdade já se encontrava entre os homens, quando estes se lembraram de formar entre si uma sociedade humana. A graça da comunicação, atestada pela palavra, é o começo e o fim da filosofia. A palavra de verdade a ninguém pertence em regime de propriedade exclusiva, porque constitui o patrimônio comum da humanidade inteira. O filósofo é um dos que se impõe a tarefa de manter a honra da linguagem, mas só lhe é dado desempenhar-se de seu ministério no seio da comunidade. Pelo que, seja qual for a concepção que forme de sua obra, ele manifesta um senso de verdade, confere à verdade uma linguagem não contra os outros, mas com eles e por eles, não de maneira definitiva, mas trilhando sempre as vias da cultura na história do mundo". Mais: "O filósofo de mérito é aquele que em si realiza, por um momento, a conjunção das paralelas. Seu êxito é o resultado de uma justificação da existência, que transfigura o mundo, irradiando num sentido de verdade persuasiva que a todos empolga".

De sorte que o homem pode chegar ainda a viver a verdade que já conhece em teoria, pelo que se tornará sábio. E não se faz preciso acrescentar que é, apenas, humanamente sábio, pela mesma razão por que, quando falamos da sabedoria das células do córtex frontal, não precisamos acrescentar que se trata de elas serem apenas neuronicamente sábias, nem que as células do fígado são hepaticamente, sábias. A sabedoria se encontra em todos os níveis, e, em todos, se pode ser sábio. Esta é a primeira forma de participação segundo a qual a Sabedoria suma, a Sabedoria absoluta, ao mesmo tempo que é transcendência e se oculta, inacessa, para além do Horizonte distante, também é imanência pelo que se acha difundida ou infundida em todos os níveis da Criação.

A Sabedoria está imanente nas coisas, como essência, e é nesta primeira forma que o homem a apreende, numa segunda leitura do dado, para, depois, armar suas generalizações que chegam a divisar as fímbrias dum Horizonte inacessível, Deus, sua eterna Referência que lhe dá sentido ao mundo, e lhe norteia a conduta, a vida. Contudo, esta sabedoria humana, já de nível superior, aqui não pára: verifica o homem que a essência só não basta; só a essência não é a coisa posta para exame, porque esta possui também uma substância. Nesta terceira leitura do real, nota ele que a substância não se reduz a discurso racional, a princípio de razão. Então, repara que, para apreender a coisa como um todo, precisa agir também como um todo em que entram seus sentidos, inteligência, sensibilidade, emoções e sentimentos. Terceira leitura, sim, é esta, porque a primeira foi só

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sensível ou sensorial onde tudo são sensações; a segunda, só racional ou inteligível; esta última é a que integra as duas anteriores numa percepção intuitiva-unitária em que o homem age como um todo, e não como quando vigorava a seqüência do sensível primeiro, e do inteligível depois.

Com esta consciência tridimensional, intuitivo-sintética, o homem sente-pensando ou pensa-sentindo que em todas as coisas há uma tensão de forças oponentes e complementares em equilíbrio. Toda unidade existe graças a este regime de tensão Interna resultante de contradições em harmonia, de discórdias concordes, a que o sábio Hesíodo deu o nome de Eros, e é o princípio universal de integração. E já vem Platão, e diz que o universo está cheio de Eros, e vai movido por Eros. Ora, Eros é o Amor, e esta é a segunda forma de participação, já não mais só pela essência, mas também, pela substância que, na sua expressão mais excelsa e primária, é o amor.

Esta tensão erogênita que tudo integra em unidades, ainda não pôde construir, em definitivo, a unidade mais complexa e maior do social, no nível humano, e por esta causa as civilizações enfermam-se, definham e morrem. Eros e Anti-Eros revezam-se, entre si, no comando, nascendo e crescendo as civilizações sob o influxo ou signo de Eros, e decaindo e morrendo, quando impera Anti-Eros.

Ora bem: o social se constitui de indivíduos humanos, e se estes não se integrarem por Eros, pelo Amor, a sociedade não se forma, e, se constituída, desfaz-se em nada, no ponto em que cessa de atuar nos indivíduos o agente integrador. É por isso que, quando a minoria criadora, alicerçando-se em motivos espirituais, erogênitos, consegue unir, fundar e desenvolver uma civilização, esta sobrevive, sã, só até o ponto em que essa minoria criadora, pulsada por Eros, é substituída por uma minoria dominante, carente de espiritualidade, de amor, que, por isto mesmo, volve sua atenção para o econômico somente, para só objetivos materiais. Quando acontece isto, é, então, chegada a hora de a civilização fechar seu ciclo, entrar em colapso, fenecer, finar.

Nenhuma civilização pôde manter-se até hoje, porque, como já dizia Nietzsche, se bem que noutro sentido, "o homem é um animal inacabado". Como, logo, manter-se a civilização, se o homem não está inteiramente feito? Como construir um edifício com tijolos crus, ainda não cozidos ao tremendo fogo? O homem é um animal inacabado? Pois a isto acrescentamos que, quando ele se houver completado, quando tiver encerrado o seu acabamento, não mais será animal, porque, como diz Fritz Kahn, "o homem é um animal em vias de desanimalizar-se". Se "o homem é um animal inacabado", e luta por ''desanimalizar-se'', por realizar-se, então, seu acabamento não se

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completará no biológico, e sim, no espiritual, pelo que ele se tornará, não um animal acabado, porém, um não-animal, ou seja, um sábio e santo, e ainda, santo porque sábio. Se todo homem tem isto ainda por fazer, que é a sua transposição biológica, se tem que atravessar o Rubicão, negar-se de animal, então, também, ele passa a ser uma empresa.

E esta empresa da própria realização integral não pode efetivar-se sem um planejamento que visa um objetivo: a desanimalização, a conquista da sabedoria e da santidade. E isto não pode acontecer, se o homem não organizar os recursos, e sua própria vida. Após o planejamento e a organização, ainda não conseguirá o seu intento, se descurar do controle próprio, que é idêntico a vigilância sobre si, ou seja, estar alerta. Eis armado o delta do sistema empresarial. Todavia, move-se qualquer empresa graças a cinco rodas engrenadas que são: criatividade, liderança, motivação, comunicação e padrão.

Deste modo, o homem cuja empresa é fazer-se a si mesmo, terá que ser criativo, visto como o labor da autoconstrução não pode ser delegado a um substituto, ainda que este seja Cristo; e toda estratégia e tática são necessárias para usar as oportunidades todas, todas as situações, e os próprios impulsos passionais num sentido de bem. Se não for criativo, somente reagirá, como faz o animal, não exercendo, porém, atuação sobre o meio, de modo benéfico e decisivo, como minoria criadora, porque, ao fazer-se a si mesmo, o homem modifica o seu contorno.

Terá de eleger o melhor de si, inteligência e coração, para que estes eleitos liderem os sentimentos subalternos (impulsos, emoções, paixões) que não devem ser combatidos, mas domesticados e utilizados, como os provincianos fazem com os burros e os cavalos, já de montaria, já de tração de seus veículos. Ora, como as paixões, os sentimentos, o querer, são os que puxam pelo carro da vida, então, é estar alerta e liderar as paixões. Uns querem enriquecer-se, outros, o poder; porém o filósofo há de ocupar-se da aquisição do saber e da prática das virtudes, não se acomodando na animalidade pela justificação, pela racionalização mas, esforçando-se por transpor o Rubicão do biólogo. Não, vida anacorética, e sim, comunitária, pois só esta possibilita a cada um fazer-se, ao tempo em que executa uma função não só socialmente útil, mas ainda aprazível. E só em sociedade é que cada homem pode testar-se, de contínuo, isto é, controlar os resultados positivos de sua auto-empresa. Ocasiões não faltam de verificar se os recalcitrantes corcéis das paixões, das emoções, dos sentimentos anti-sociais, se acham sob o controle de invencíveis rédeas. Um estado de fúria passional, em vez de canalizar-se a produzir estragos, pode ser recalcado de momento, e

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depois, sublimado (catarse) em formas inócuas ou criativas no campo da arte.

Será preciso motivar-se para o que convém, segundo o planejamento, porque para o que não convém, já se está, por natureza, propelido, arremessado; e a maior motivação é a própria meta do planejamento; porém, o reforço pode vir de boas amizades, bons livros, boa música, bons filmes cinematográficos, de reuniões filosóficas e religiosas, de teatros, de palestras, e tudo isto é já comunicação associada à motivação.

Não pode o homem prescindir, como se vê, da comunicação com os outros, porque sua empresa, embora particular, pessoal, pendente só do seu querer, do exercício da sua liberdade, não se acha isolada do meio social e do mundo, ambos situacionistas ou contingentes. E há de comunicar-se também consigo mesmo, em retiro temporário, para recompor-se, para a retomada de posição, para o reforço do propósito, para o estudo, para a meditação, conferindo, com o livro, o observado, discutindo de si consigo os prós e os contras do que há de fazer.

Agora, finalmente, o mais importante é o padrão, porque põe a máquina da auto-empresa em ligação com o exterior, visto como ele, o padrão, não pode achar-se no próprio empresário, ainda que sua empresa é si mesmo. Ninguém o tem em si, nem no social, mas, no Horizonte inacessível que é Deus. A alta consciência do Deus-Pai-Amor fez de Jesus um padrão vivido. Esse verdadeiro Super-Homem pela sabedoria e pela santidade, é o modelo humano mais alto para aquele que deseja desanimalizar-se, desvirando-se de dragão egoísta e mau, em sábio e amoroso. Cristo é modelo e exemplo, padrão de como viver, não, todavia, substituto, porque a empresa de transpor o Rubicão da animalidade, do biológico, é própria de cada um, não podendo ser efetivada por procuração.

A glosa comum da teologia achou jeito de acomodar os textos sacros, esparsos, com o egoísmo de todos, forjando uma cômoda doutrina de salvação pela fé. Paulo foi o primeiro teólogo, apesar de não ter participado da presença humana, vivida, de Cristo. Na falta disto, teve de valer-se dos textos; e pregando aos gentios precisou simplificar a promessa de salvação, reduzindo-a a termos de fé. Deste modo, ficou muito mais fácil de seguir a Cristo... de viés, segundo a interpretação paulina, do que seguir diretamente o grande Modelo, o grande Padrão sobre-humano de conduta. 0 resultado disto, ai está, nos sectarismos cristãos vigentes, em que não se vêem os homens trabalhando noite e dia por desanimalizar-se, por desvirar-se de dragões egoístas, desamorosos, e antes, todos, aceitando a substituição de Cristo, e ainda se justificam, por meio de uma fingida

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humildade comodista, ao dizerem que os homens são maus por natureza, por natureza pecadores, e que só a mediação incomparável e gratuita de Cristo, os pode salvar. Não vêem que a natureza tal qual é, invertida, egoísta e má, tem de ser desnaturada, desvirada do avesso, para ficar como ela é no alto empíreo de onde caiu, de envolta com Satã e seus consócios, no atro abismo, medonho, horrível, o turbulento Caos. Por causa de degradarem Cristo de padrão supremo de conduta, a fácil substituto, como se a desviragem do dragão que cada um, em si, tem de executar, pudesse ser feita por substituto, por procuração,... por causa disto, as igrejas organizadas encheram seus templos de homens e de mulheres egoístas, desamorosos, intransigentes, fanáticos, fazedores até de "guerras santas", quanto mais de outras guerras; não obstante tudo isto, todos se acham cônscios de estar garantidos quanto à salvação que cuidam ser gratuita, e o não é. Alguns, mais atrevidos, chegam a dar-se o nome pomposo de "santos de Deus" (?!) Quer dizer: nem sábios nem santos, mas salvos.

Eis o jogo teológico acomodatício: Adão pecou, ofendendo a Deus; este exige a reparação, decretando a morte espiritual do homem; pois claro: Adão não morreu, biologicamente, e de imediato, após comer o fruto proibido. A humanidade se fez herdeira do pecado de Adão, como ele, condenada à morte espiritual, visto como a morte corporal não é condenação divina, mas, lei da natureza, extensiva, também, aos brutos que não comeram do proibido fruto. Para resgate do homem, Cristo se oferece a morrer em seu lugar, não morte espiritual, conforme o exige o decreto divino, mas morte só biológica. Apesar da disparidade da proposta (morte biológica de Cristo por morte espiritual do homem), Deus aceita, Cristo morre, e o homem fica isento de culpa, fica redimido, fica salvo, bastando apenas crer... em Cristo. Ninguém repara que a morte espiritual de Adão, de que se fez herdeira a humanidade toda, não podia ser executada num inocente, ainda que este o pedisse a Deus, pois se o homem, sendo injusto, não faz isso, como o faria Deus? A justiça-vingança pode ser executada num terceiro, e é quando o vingador, não podendo atingir, diretamente, o culpado, fere alguém que, igualmente, faça o culpado sofrer. Só tal justiça poderia fazer a culpa hereditária, como a de Adão, e, pelo pai, e com este, paga o filho. Porém a justiça corretiva, como a que a do homem pretende ser, não pode ser aplicada senão naquele que a ela fez juz. Seria, então, a justiça humana superior à divina? E se a sentença, para Adão, era a morte espiritual, como aceita Deus a troca desigual da morte espiritual que é mais, pela só biológica que é menos? Tudo isto não sabe a sofisma teológico; a acomodação bem própria a tranquilizar o ânimo inatento do "porcos

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bipedus"?Acaso, foi isto que Cristo ensinou, e exemplificou, em toda sua

vida? A doutrina de Cristo, toda quanta, se funda no amor vivido, e a quem tem a disposição do samaritano da parábola, não se vai perguntar, como o não fez Cristo, qual é a sua fé! Por ventura, quando Cristo fala do Juízo, em que os cabritos e as ovelhas se põem, por suas obras, uns à direita, e outros à esquerda, ele diz alguma coisa relativamente à fé, ao dar sua sentença irrecorrível? Não fé, mas amor, porque este pode irmanar todos os homens de todas as religiões da Terra, enquanto que as diferentes fés os separam em igrejinhas irreconciliáveis e briguentas. Quem não é contra mim, já dizia Jesus, é por mim; quer dizer: quem não é contra o Amor que Cristo personificou, é por ele, não importando se é xintoísta, se tauísta, se cristão, se muçulmano, porque, onde houver amor, Deus, aí, está presente, visto como "Deus é o amor" (I João, 4, 8). Marta se ocupava em honrar a pessoa de Cristo, correndo de um lado para outro, a arrumar a casa. Maria, sentada aos pés do Mestre, aprendia sua doutrina. E quando Marta pede a Jesus mandasse Maria ajudá-la, teve a resposta de que a escolha de Maria foi a melhor; por que? Porque Cristo se honra mais em ter seguidores de vida, que cultuadores. E se a condição que impõe é a de seguí-lo no exemplo, já se vê, Cristo não é substituto naquilo que a cada um cumpre fazer para salvar-se.

Cristo, logo, não morreu pelos homens, em substituição, e sim, pelo seu ideal, este, sim, é o que nos salva, cumprindo-nos a empresa dificílima de vivê-lo na prática. Daí que Cristo não é substituto, porém, modelo, exemplo vivo, padrão de vida efetiva, atuante, valendo muito pouco as retóricas, as literaturas, as zumbaias, os hinos entoados por corais. A salvação não está nos empolgamentos vazios de obras, no zumbrir-se, no trinar formosos hinos, porém, na reforma radical de cada um, no transpor o Rubicão do biológico, no negar-se de animal, no desinverter-se de dragão.

Não só crer em Cristo, mas, sobretudo, crer a Cristo, crer ao que ele diz, crer ao que ele manda, como bem o notou Vieira, para que não sejamos, como diz o padre, cristãos de meias. Honras, louvores, zumbaias sejam prestados a Cristo; cantem-se hinos e aleluias em seu nome; em seu nome entoem todos os corais, que tudo isto são reforços da motivação, valendo, por isto, mais para os cultuadores que para o próprio cultuado. Não se olvide, no entanto, o excelente, o fundamental, que é a vivência dos preceitos que tornam possível transpor o Rubicão para sempre, porque nisto só, e em mais nada, se cifra a salvação pessoal, o acabamento do homem, a base indispensável da salvação social, da sobrevivência indefinida da

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civilização, agora, para sempre, isenta da roda do tempo, do "moinho dos deuses" que, moendo tudo, finalmente a reduz a pó. Se a perda das virtudes, nos anjos, se deu no ponto em que se inverteu o amor no egoísmo, disto resultando a rebelião que fez do céu inferno, a inversão do egoísmo animai no amor divino, fará a integração que muda este nosso inferno terrenal em céu.

Eis a função do sábio como mantenedor da paz, da concórdia entre os homens; sua missão é atualizar sempre a eterna mensagem da não-violência, alertando (alertismo!) as sociedades humanas, sempre expostas a cair na barbárie. Não é ele, o filósofo, logo, personagem inútil, supérflua, dispensável, e antes, desempenha papel fundamental no desenvolvimento da história. Ele é o que consegue apreender o infinito e a eternidade numa fórmula de aplicação a este mundo ao qual a verdade precisa aclimatar-se, operando-se, da parte da verdade, uma redução, e, da parte do mundo, uma elevação.

VIII - DESATINOS

Por causa do seu progressismo, de idear a história como fenômeno necessariamente cíclico, determinístico; por achar que a mão de Deus guia os acontecimentos humanos, um nosso opositor cujo nome não nos autorizou declarar, acha normal a desorientação dos moços, a insurgência deles contra o estabelecido, a revolta agressiva contra os velhos, "coroas", "quadrados", "antiquados", que acreditam no casamento e coisas que tais, a que eles chamam "caretices", e tudo isto, sem proporem nada em substituição. Não se trata da normal hesitação do moço que não sabe ainda por onde tomar, e sim, de uma atitude ativa de destruição, e isto, sem apresentar nada que possa ficar nos lugares das demolições.

Quando o que é velho cai, invariavelmente, foi desalojado pelo novo; não é preciso destruir o passado; basta criar o futuro. Pois agora se viu o inaudito de se repudiar o passado, sem ao menos, que fosse, ter planejado o futuro! Destruir por destruir é puro vandalismo. Bem se expressou W. R. Inge, citado por Toynbee: "As antigas civilizações foram destruídas por bárbaros de importação; nós criamos os nossos próprios bárbaros". Mais: "Sem instituições, as sociedades não poderiam existir. Na verdade, as próprias sociedades são instituições da mais elevada espécie. O estudo das sociedades e o estudo das relações entre instituições são uma e a mesma coisa". Agora, Ortega: "Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo, fica nossa vida em pura disponibilidade. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo". Ainda: "Se você não quer submeter-se a nenhuma norma, tem,

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velis nolis, de sujeitar-se à norma de negar toda moral, e isto não é amoral, mas imoral. É uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco".

Até os "gangsters" possuem uma regra, uma lei, uma ordem, entre eles, que lhes proporciona a sobrevivência própria; e se alguém do bando criminoso quebra a norma, sem demora seu cadáver é achado, misteriosamente, nalgum recanto da cidade grande. Até o inferno, em seus vários níveis, é organizado para o mal, e se acontecesse anarquizar-se totalmente, retornaria logo ao antigo Caos... e seria o fim do próprio inferno, ou seja, sua danação total. Portanto, subsiste ele, graças ao pouco que nele há de céu, de ordem e de lei, e se ocorresse cessar totalmente a ordem de imperar, o inferno desceria mais ainda em grau de danação, e indo por esta via, sua loucura se tornaria cada vez mais louca, até que, em fim, se acabaria no atro abismo do não-ser extremo, no mais arrematado Caos.

Ser é ordem, é essência, é lei, e se esta não houvesse nos níveis vários do inferno, seria este já o inorganizado Caos. Deste modo, até o mais baixo inferno, o mais profundo, para ser, necessita participar, ainda que em grau ínfimo, da ordem, da essência e da lei. Dragontino é o homem cuja percentagem de demônio supera, em muito, a de anjo. Abaixo de anjo, pode o homem, a caminho de santificar-se, possuir, em si, ainda boa quota de dragão. Assim, a vitória suprema do mal, a rebelião contra as regras todas, todas as normas, poria termo até ao próprio inferno, revertendo-o na Noite antiga, no atro abismo, no primevo Caos.

Organizar-se no mal (e a vida o fez no egoísmo) é até mais fácil, porque, como todos somos maus por natureza, ao fazê-lo, apenas damos largas aos nossos próprios atávicos pendores. Queremos uma coisa, e fazemos outra; estendemos a nossa mão para obra benfazeja, e, com a nossa sombra, segue o sombra negra da garra do demônio entranhado em nós. O vangloriar-nos da superioridade própria, do valor pessoal reconhecidamente meritório, a vaidosa ostentação do benefício praticado, da esmola dada, o desalentar-nos ao considerar ingratos àqueles que não reconhecem, nem se lembram, do bem que lhes fizemos, são exemplos corriqueiros entre os humanos, do demonismo em nós, que espera sempre imediata recompensa. "Ah! habitam duas almas no meu peito!" - exclamava Goethe. "Miserável homem que eu sou (gritava, angustiado, São Paulo), pois o bem que quero fazer, não faço, e o mal que não quero, esse eu faço!"

Organizar-se no bem, eis a dificuldade suma, visto como temos de agir contra a nossa própria natureza dragontina, donde vem que a construção do bem implica em termos de nos negar a nós mesmos de

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egoístas, de maus, em trabalharmos na desinversão do que ainda possa residuar em nós de avesso, de dragão, de animalidade feroz.

Milton, agora: (Paraíso Perdido, Canto II)

Oh! que vergonha para a estirpe humana!Firme concórdia reina entre os demônios:E os homens, na esperança de alcançarem A ventura do Céu, vivem discordes, A racional essência desmentindo.

Nossa luta prossegue após a morte física, podendo-se, em qualquer nível espiritual, subir ou descer. Céu e inferno acompanham-nos, dentro e fora de nós; eles dentro de nós, e nós dentro deles, assim na Terra como nos planos espirituais. No céu também há vários níveis que são as "muitas moradas" da "casa do Pai", de que nos fala Jesus, e será tanto mais céu e menos inferno, quanto mais se sobe nos níveis, e tanto mais inferno e menos céu, quanto mais se desce neles. Cristo, ao estabelecer sua doutrina, fez uma síntese tão resumida, que poucos se deram ao trabalho de verificar a extensão espantosa e difícil do que ele nos propôs: "Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me". Negar-se, tomar a cruz própria e seguir. Negar-se de dragão egoísta e mau, é apenas um propósito... que se efetiva quando se toma a cruz própria da desinversão, o que só é possível no tempo e a longo prazo. Segui-lo, é mais: é dar-se ao infindável trabalho de ajudar os outros, por amor, integrando a minoria criadora na qualidade de salvador menor.

E ao invés de tudo isto, a mocidade moderna se entrega aos seus desatinos e irresponsabilídades demolidoras? E nos vem o nosso prezado crítico dizer, dogmaticamente, sem apresentar razões, que a mocidade "sempre foi assim"? Contudo, ele tem razão, que, de fato, sempre foi assim... nos períodos de decadência, porque, sem minoria criadora, não há mais quem inspire pensamentos grandes, e, na falta destes, qualquer bugiaria serve para matar o tempo.

Em uma de suas últimas edições de dezembro de 1971, o "Diário de São Paulo" publicou o seguinte:

Falando do conflito das gerações diante de uma associação de classe, o médico inglês Ronald Bibson começa sua conferência por quatro citações:

Primeira - "Nossa juventude adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são

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simplesmente maus". Segunda - "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro de

nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

Terceira - "Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe".

Quarta - “Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter nossa cultura".

Somente após ter lido as quatro citações, todas aprovadas pela assistência, foi que o conferencista revelou a origem delas: A primeira é de Sócrates, 470-399 antes de Jesus Cristo; a segunda, de Hesíodo, 720 antes de J. C.; a terceira é de um sacerdote egípcio que viveu no ano 2.000 antes de J. C.; a quarta, descoberta só recentemente sobre um vaso de argila, nas ruínas da Babilônia, tem mais de 4.000 anos de existência".

Que pretendia provar o médico inglês Ronald Bibson? Pois não pode ser outra coisa que a tese do nosso prezado crítico, segundo a qual a "mocidade foi sempre assim". E concordamos com o enunciado, desde que lhe seja feita esta adição: nos períodos de decadência. Pois claro! quando é que a mocidade pode adorar o luxo, cultivar o ócio, tornar-se preguiçosa, atrevida, insuportável, tirânica para com os pais, malfeitora, estragada até o fundo do coração? Quando é que ela passa a caçoar das autoridades constituídas, dos mais velhos e das coisas todas respeitáveis? Acaso é quando tem de trabalhar duro, para ganhar o sustento? Ou é quando foi possível chegar a um grau de riqueza que propiciou o lazer? E não é exatamente neste ponto que se verifica o entardecer da civilização?

Acaso, quando a Grécia nascia, em sua fase homérica, ou quando ela, decadente, caiu sob o tacão macedônico de Alexandre, ou sob o poder de Roma, os moços eram quais os das citações? Acaso, os jovens egípcios continuaram vadios, insolentes, atrevidos, irreverentes, insubmissos debaixo da férrea mão dos hiczos que dominaram o Egito quinhentos anos da 15.ª à 17.ª dinastia? Os jovens babilônicos estavam estragados até o fundo de seus corações, eram malfeitores, viciados e preguiçosos, incapazes de conservar a cultura de que eram herdeiros, mesmo debaixo do poder estrangeiro de Ciro, ou Xerxes, ou Alexandre Magno? Diga-nos, alguém, que a mocidade israelita que Moisés conduzia no deserto, quarenta anos, era como a descrita nas citações! ou então, a mocidade da Hélade da idade heróica! ou a da Babilônia do tempo de sua fundação, em

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que o amorreu Sumuabum se fez cabeça duma dinastia cujo sexto rei foi o famoso Hamurab ou da Esparta belicosa! ou da Pérsia do tempo da educação de Ciro! As juventudes citadas por Ronald Bibson, são como a de agora, da qual diz Ortega: "A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude". Ou então, como escreve Joelmir Beting: "Néo-cínicos de formação, os "hippies" frequentaram a universidade como bons filhotes da fartura, e são capazes, intelectualmente, de produzir riqueza. Mas não há maneira de fazê-los ganhar a vida pelas vias convencionais. Eles brincam de ser pobres porque sabem que numa sociedade rica, como aquela em que vivem, poderão deixar de brincar de pobreza quando, tocados pela idade, decidirem mudar de vida. É o que já faz a primeira leva deles, sobrevivente do ócio, do tédio, do cio e da doença, a sarna, por exemplo. Nos países pobres ou nas camadas pobres da população ianque, não há como brincar de pobreza sem risco de se ficar irremediavelmente pobre".

Sim, sempre foi assim, e, nos períodos decadentes, como agora, as coisas esdrúxulas se sucedem nos costumes, nas modas, nas artes, e qualquer sujeito que inventou uma tolice, arranca aplausos delirantes da ignara multidão. Os ídolos de nada sobem e caem todos os dias, porque feitos da massa que nada pode dar. Explora-se o sexo, sob todos os ângulos, e nações cultas, hodiernas, quais Sodoma e Gomorra, promovem seus festivais de pornografia, numa recrudescência inaudita dos impulsos e instintos bestiais. A par das maravilhas da técnica que possibilitou a tela panorâmica e a televisão, ambas em cores, não há programas e filmes bons a se assistir, porque a nulidade se postou nos lugares onde havia de estar as minorias criativas. O grande "deserto de homens e de idéias", então, se estende à frente no social, e alguns raros infelizes que têm algo de bom a dizer, esbarram com as muralhas dos mercantilismos editoriais, porque aqui também estão alojados os homens do lucro certo, carentes de ideal superior. Infeliz do espírito criativo que se viu compelido a reencarnar-se num tal tempo decadente. Melhor lhe fora, se lhe fosse dado escolher, ter ficado nos páramos espirituais à espera de que se liquide o ciclo de civilização, em todas as áreas, para depois retomar novo corpo de matéria densa, a fim de ajudar a promover o renascimento cultural. Tem razão o nosso crítico: sempre foi assim.

Falta de religião? Sim, é a falta de religião a causa próxima, porém, o desinteresse pela religião se radica numa causa mais remota, e é o de ela, a religião, não ter sabido replicar com acerto e sucesso ao repto da Teoria Científica da Evolução. A tecnologia que

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possibilitou o industrialismo e a automação, e se encaminha para a robotização, essa vem depois, em segundo plano, porque o homo sapiens se mostrou homo faber desde o início da sua jornada evolutiva. A tecnologia, pois, não é um mal, em si, que, se o fosse, não teria permitido a vinda do homem até onde ele se acha hoje. O mal não reside na tecnologia, em si, mas no mau uso do ócio e da riqueza que ela proporciona. A culpa nunca deve ser posta numa coisa inerte, exterior, como se esta tivesse autonomia para agir; a culpa tem que ser buscada no próprio homem que, devendo ser o agente atuante e modificador, ao invés disto, se faz dócil paciente das contingências e das situações. Se, de senhor que sempre deve ser, fica escravo, não é muito que todos os desastres lhe aconteçam.

Todavia, as religiões convencionais não puderam nem poderão replicar ao repto da Evolução, por causa do princípio enunciado por Toynbee, "a lei segundo a qual aqueles que replicam com sucesso a um repto se encontram em posição pouco propícia para replicar com sucesso ao repto seguinte". As várias igrejas reagiram ao esvaziamento de seus templos (cursilhos, TLC, avivamentos espirituais, músicas de estilo moderno, etc.), porém, mantiveram-se ineptas para replicar ao repto que continua reptando. Os métodos fanatizantes da hipnose, da dopagem psíquica, todos de fundo emocional, de insuflar de novo a fé, não passam de arcaísmos. Os condicionamentos hipnóticos duram pouco tempo; daí que a dopagem psíquica, fanatizante, alcançada pelos caminhos da hipnose, precisa de reforço contínuo; então, se recomendam reuniões periódicas; estas, porém, se tornam enfadonhas por faltar o componente intelectual. E como a hipnose se baseia no princípio da autoridade, só funcionando de cima para baixo, e não, vice-versa, só a reunião dos fanatizados não produz aquele efeito de deslumbramento, de surpresa, de encontro, de aléthea, de "tremor de terra", de "abalo do universo pessoal", de desnudamento, de apocalipse, de quando atuaram os fanatizadores autorizados com suas palestras contundentes, com suas "matracas" aturdidoras, etc.

As "lavagens cerebrais" não valem contra as convicções científicas que voltam, de contínuo, a instalar-se, produzindo a dúvida, a não-fé. O homem amadureceu para a racionalidade, e sem um fundo de razão (filosofia), a fé não se enraíza. O repto da Evolução continua reptando no mental, tornando-se inútil todos os esforços fanatizadores de cunho meramente emocional. Com emoções não se combatem idéias. Sendo a Evolução uma idéia, só no plano das idéias poder-se-á dar a competente resposta, solucionando o enigma surgido, apaziguando a consciência e o coração. Todavia, a resposta ainda não veio da parte das religiões instituídas, e o mundo social oscila em

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suas bases, dando visos de que vai cair.Não obstante, sendo tudo isto inédito na história, vem nosso

crítico e sentencia dogmático, fundado na sua fé na historia cíclica, base do seu arcaísmo: "Foi o que sempre aconteceu e não temos razão alguma de pensar que agora será diferente". Eis como procede o futurólogo: projeta o passado no futuro! Todavia, tem razão o nosso nobre opositor: sempre aconteceu de as civilizações caírem por não ter sabido responder a um dado repto, e "não temos razão alguma de pensar que agora será diferente". Não o será, por certo, e o mundo não soube replicar ao repto da Evolução; consequentemente, ou aceita esta solução que o levará de retorno, à religião, ou tudo estará perdido.

Porque, desde que ficou assente que está havendo a Evolução a partir do Caos mais inteiro, este pensamento se impõe, inexorável: parte da primeira Criação inverteu-se, derrocou-se, desfez-se, transformando-se no Caos, de onde, agora, nasce a Criação segunda, feita pela Evolução. Este dado escatológico não pode ser afastado, porque, se Deus "criou" (!) o Caos, em primeira instância, então "criou" a sua negação mais extrema, ficando culpado pela existência do Acaso, rei do mundo, pelos erros, danos, dores e misérias do universo, porque onde houver vida, aí estará presente o sofrimento. A ser verdade isto, Deus se compraz nas aflições, dores e agonias de suas criaturas, não sendo o Amor, e sim, o Egoísmo, o Absoluto. Se for assim, Moloque é o deus verdadeiro, supremo árbitro da vida, cuja lei é a força, a astúcia e a violência, daí que, invariavelmente, dá a palma da vitória e da vida aos fortes e aos astutos. A moral que ele impõe, portanto, é a da força, e desta "religião" natural, Nietzsche é seu maior profeta.

Veja-se, agora, tudo isto pelo avesso: o profeta maior é Cristo, e Deus é Amor, e tudo o que criou, tirou-o de si, da sua Substância-Amor. Deu a liberdade, porque livre é o Amor, já em Deus, já no criado, e, neste, livre, até para inverter-se no seu contrário, no egoísmo desintegrador. E aconteceu esfriar-se e inverter-se o amor, numa parte dos filhos da primeira Criação. Tornado o amor no egoísmo, sobreveio a desintegração, daqui se originando o Caos. Dar a liberdade, não é bem o que aconteceu: sucede que o amor é energia-substância, fazendo parte do "Campo Unificado", embora Einstein não tivesse levado a tanto a sua generalização. E já vimos que a substância se opõe à essência polarmente, sendo esta deterministica, fixa, imutável, e, aquela livre e transformável. E não podia Deus fazer fixo o Amor, porque, se o fizesse, nem os filhos, nem o universo em que estes habitavam podia ser criado, visto como criar é transformar algo em algo, no caso, o amor nos filhos e no universo.

Aqui encalharam a filosofia e todas as religiões. Este, o repto

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cuja resposta não se deu, gerando toda a confusão moderna, a Babel, a gritaria em que todos têm razão, como diz Ortega, só que a razão de uns é a que os outros perderam. Sem norte fora de si, todos se fizeram juízes, e também julgados. A estupidez tomou conta de tudo e cada homem fez-se a si mesmo padrão e medida de todas as coisas. Daí que, como o anota Ortega, "o escritor, ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente, deve pensar que o leitor médio, que nunca se ocupou do assunto, se o lê, não é com o fim de aprender algo dele, mas, pelo contrário, para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça". Por que assim? Porque "o característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte". Agora Joelmir Beting: "Se o homem continuar falhando, quem pilotará a espaçonave Terra 1 rumo ao terceiro milênio?".

* * *Também, quanto à Arte Moderna, nosso prezado opositor acha

que a frase de Aníbal Machado está correta: "Não sabemos definir o que queremos, mas sabemos discernir o que não queremos". A isto, dissemos em "Um Estudo do Nosso Tempo": "como se pode fazer alguma coisa, se não se sabe o que se quer?" E veio a resposta do nosso crítico: "Da rejeição do erro nasce a busca do certo".

Achamos que esta frase está invertida: da busca do certo vem a rejeição do erro. A posse do certo antecede o abandono do erro, do mesmo modo como, ao caminhar em terreno inseguro, só se deixa o apoio do pé de trás, quando já se tem firmado no da frente. O passado é sempre a segura retaguarda, no passo que o porvir é cheio de incertezas, dúvidas, enganos, onde se tacteia e sonda com planejamentos. Saltar de cabeça no futuro, sem sondagens prévias, sem meditado estudo, sem auscultações, é pular no escuro. Segue-se o agir ao pensar, e não, vice-versa. Ação sem pensamento prévio, só os animais a têm. Até o chimpanzé reflete um pouco antes de tomar as decisões; Kohler o demonstrou. Antes da ponte sobre o rio ou abismo, a planta, o cálculo, a maqueta, o orçamento, a previsão do material, o custo da mão-de-obra e da maquinaria, o padrão de produção e de qualidade que hão de ser seguidos, o organograma da empresa, o cronograma da obra, e até a previsão das dificuldades todas prováveis. O pensamento antecede a obra; segue-se o agir ao pensar.

Porém, como estamos decaindo, degradando, imaginou-se a ação direta, que é a ação sem pensamento, a improvisação. Ortega: "A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força à última ratio. Agora começamos a ver isto com bastante clareza, porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência

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como prima ratio; a rigor, como única razão, é ela a norma que propõe a anulação de toda norma, que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. É a Carta Magna da barbárie".

Porque, como se há de saber que uma coisa está errada, senão à luz nova do certo? O padre Vieira já dizia: "Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima, e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama, e não defeitos". Como fazer para um homem convencer-se de que seus "diamantes" são vidros? Pois há de ser mostrando-lhe os diamantes verdadeiros. Apresente-se, igualmente, a um homem, a verdadeira perfeição, a verdadeira beleza, e ele se convencerá de que esteve o tempo todo tomando defeitos e feiuras por perfeições e belezas.

Ora, por quais caminhos os artistas modernos se convenceram de que as artes clássicas, barrocas, românticas são erros? Erros de cuja rejeição virá a busca do certo? O que é o certo, então, e o que é o errado, em arte? Mostrem os artistas modernos as suas artes verdadeiras, e todos, boquiabertos, rejeitarão o errado.

Fomos, certa vez, ao Ibirapuera, visitar uma exposição de Arte Moderna. Pusemos de lado, quanto possível, nosso preconceito, fazendo tábua rasa do que sabíamos em matéria de arte. De início, pusemo-nos a pensar que as várias artes são formas de comunicação, formas de expressão dos pensamentos e das emoções, formas de linguagens. Iríamos, portanto, procurar as mensagens dos artistas. Nosso segundo pensamento foi o de que uma forma nova de arte, ou de expressão, ou de estilo, nasce da necessidade de expressar idéias novas. Armados destas duas verdades basilares, apodísticas, intuitivas, axiomáticas, entramos a ver as coisas.

Onde, as idéias novas? Aqui, se nos deparou, numa tela, massa informe de confusos traços, em que não se podia divisar feições, nada agradável à vista, e após o impacto estético, fomos ver o título, e era: "Mulher Frente ao Espelho". Noutro canto, havia umas como árvores, retas, altas, todas de bronze fundido, e entre os troncos se viam pernas magras, esguias, disformes, sobre as quais se divisava algo parecido ao D. Quixote que a arte clássica consagrou. Por baixo, o título: "D. Quixote na Floresta". Numa de muitas telas semelhantes, cuidadosamente emolduradas, só se viam traços retos, paralelos, cortados, perpendicularmente, por outros, nas cores branca, preta e vermelha. E o título: Estudo em Preto, Branco e Vermelho”. Dentre tanta coisa vista, uma apenas salvou-se em meio a tanta vacuidade de forma e fundo: era uma peça, ou de metal, ou moldada em barro ou gesso, recoberta com tinta metálica, em que uns anéis grossos e irregulares se entrelaçavam nas três dimensões do espaço; o título: "Representação do Espaço-Tempo". Como absolutamente não temos

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idéia de como representar o Espaço e o Tempo, porque ambos são abstrações, intuições puras de Infinito e Eterno, portanto, irrepresentáveis, então, salvou-se para nós a "loucura fingida" (Monteiro Lobato) do artista.

O que não querem os artistas modernos é um como que maná israelita, porque este alimento, embora "vindo do céu", como Moisés fizera crer, de fé, causava o fastio. Os modernistas, porém, não atinaram que o fastio não provém da forma, mas da idéia. Cansamo-nos das concepções clássicas, barrocas, românticas, hoje obsoletas, por não se coadunarem com o "Brave New World" (Toynbee), por não se afinarem com o turbilhão moderno da tecnologia, com o mundo do homem-coisa que corre para nada, para lugar nenhum, aturdido pelo espectro da máquina, ama e senhora sua, da sua vida, do seu destino. Os israelitas sonhavam com retornar às paneladas do Egito, e isto é arcaísmo. O futurismo em arte constitui em por o maná em novo vasilhame, de aspecto inusitado, esdrúxulo, bizarro, porém, o conteúdo desta nova forma continua sendo o velho purgativo.

Em desespero, os modernistas se fizeram idealmente iconoclastas, repudiando todo o passado estético. Contudo, não poderão fazer absolutamente nada, porque se acham vazios de idéias. Na falta destas, expuseram idéias velhas, medíocres, surradas, em forma nova, extravagante, excêntrica, esquisita. Ninguém os entende: então, eles escrevem um libreto para dar os necessários esclarecimentos.

O homem-massa é um primário em todas as suas manifestações culturais; ele não entende a Arte Moderna - pintura, poesia, escultura - porque não há nela, para ele, nada o que entender. Desde que, como já aconteceu, pôde uma tela, em exposição, ficar quinze dias de cabeça para baixo, sem que ninguém o percebesse, a conclusão é a de que os quadros modernistas são para ser vistos, somente, e não, entendidos. Este equivoco leva o medíocre, que não entende de Arte Moderna, a pretender, também executa-la, uma vez que borrões, sentenças sem sentido, palavras sem nexo, misturadas, formas grotescas encontráveis até na natureza, tudo isso ele pode fazer. Assim, os poucos que podem dizer alguma coisa por tais meios, confundem-se com os que não têm mensagem nenhuma a transmitir.

Ninguém move guerra aos modernistas, por duas razões: a primeira é por que, para combater, é preciso fundar-se em alguma coisa em função da qual o modernismo está errado; e ninguém possui essa alguma coisa de novo; e pretender retornar ao passado é arcaísmo. A outra razão é que o homem está escarmentado: a história demonstra que ele perseguiu o que julgara errado e mau, e a coisa se mostrou certa e boa. Para não cometer tais enganos, melhor é omitir-se, embora não goste, não se sinta bem com o que está acontecendo. E

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se, de repente, esses artistas malucos são gênios incompreendidos, antecipadores do porvir distante? Combatê-los, então, seria arriscar-se a entrar para a história numa forma negativa como Judas, como Bruto e como os julgadores de Sócrates. Não! Melhor é omitir-se, deixando os artistas em paz! Ponha-se, no entanto, alguma coisa na cabeça vazia desse homem, agora, amodorrado na matéria, e ver-se-á como ele se animará de nova vida, saindo-se a campo, indo até ao sacrifício, como sempre aconteceu.

O Classicismo nasceu da concepção aristotélica que vê o mundo em planos paralelos e estanques; daí que a arte clássica (na música se observa bem - Corelli, Vivaldi, Bach) se mostra em movimentos isolados dos quais se pode tirar um trecho sem que se perceba a falha. Por isto é que se torna possível a variação contínua. Da visão platônica convergente a um ponto, se bem que via Aristóteles, saiu o Barroco; aqui, as partes são conectadas a um todo, e inter-dependentes. Tire-se um trecho a um sermão de Vieira, e ver-se-á que lhe fica faltando uma parte; não, todavia, se a mutilação for praticada numa oração de Cícero, porque, aqui, as partes são coordenadas e de igual valor. O sermão é como uma árvore, já dizia Vieira, com raízes, tronco, galhos, varas, folhas, flores e frutos. Numa reação contra o Classicismo, e fazendo uma arte subjetiva, individualista, surgiu o Romantismo, soberbo nas adjetivações, como soberbas eram as construções em leque dos filósofos idealistas, subjetivos Fichte, Schelling e Hegel. Todavia, historicamente, o Romantismo é havido como estando em germe nas obras de Rousseau, Chateaubriand e Mme. Stael. O ideal de volta à natureza de Rousseau, o ideal do "bom selvagem", deu azo, também, ao Arcadismo, todo simples, ingênuo; bucólico, que canta em prosa ou verso ao som da flauta doce do pastor, como na antiga Arcádia grega. Eis, pois, que, "para o século XVIII, a felicidade não estava apenas na compreensão da Natureza e no regresso do Homem às suas sábias leis. A perfeita integração Homem-Natureza só o "bom selvagem" realizava (daí sua entusiástica apologia na pena dos intelectuais e muito especialmente dos poetas setecentistas); na verdade, o fugere urbem só se poderia praticar, de fato ou em espírito, até certo ponto, e como solução circunstancial de paz e prazeres da alma e do corpo, porque o civilizado tinha de viver a sua vida urbana".

Não importa que o artista não tenha consciência disto: o mundo ressumbra uma forma de filosofia que invade todos os recantos, os lugares todos, como ocorre com uma luz de dada cor, ao iluminar todo um ambiente, dando-lhe sua constante tonal. A cultura ora está sob a influência de um signo filosófico, ora sob a de outro. O artista não pode conceber a partir do nada; alguma crença o há de inspirar.

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E a Arte Moderna, de que concepção filosófica (visão do mundo) surgiu? Que luz se achava, então, acesa sobre o mundo? Que signo a influenciou? Pois, não havia luz, havia trevas! Seu signo é o cepticismo. Nasceu da visão agnóstica de que o mundo é uma confusão em que o homem está perdido; daí as deformidades, a pobreza ideológica, a ausência de mensagem construtiva, a feiura, o caos. A arte, antes, inspirava-se em um ou outro sistema; a Arte Moderna se inspira no antisistema, na negação, no não-ser. Isto mesmo diz Ortega, por outras palavras: "Vê-se então que uma das maneiras que o passado emprega para nos inspirar é o incitamento a que façamos o contrário daquilo que ele havia feito. Isto é o que se chamou desde Hegel o "movimento dialético", em que cada novo passo consiste somente na mecânica negação do anterior. Certamente essa inspiração dialética é a forma mais estúpida da vida humana, aquela em que precisamente andamos mais perto de nos comportarmos como um automatismo quase físico. Exemplo deste modo é o que hoje se costuma chamar "arte atual", cujo princípio inspirador é simplesmente fazer o contrário daquilo que a arte sempre havia feito; portanto, propôs-nos como arte algo que é, substancialmente, "não-arte". Agora, Toynbee: "A tendência predominante para abandonar as nossas tradições artísticas não é uma conseqüência da falta de competência técnica; trata-se do abandono deliberado de um estilo que está perdendo o seu ascendente sobre uma geração que surge, porque a referida geração está deixando de cultivar a sua sensibilidade estética nas linhas tradicionais do Ocidente. Expulsamos voluntariamente das nossas almas os grandes mestres que foram os espíritos familiares dos nossos antepassados; e, ao passo que nos deixamos empolgar pelo entusiasmo autocomplacente do vácuo espiritual que criamos, um espírito africano tropical, na música, na dança e na estatuária, conseguiu efetuar uma aliança diabólica com um espírito pseudo-bizantino na pintura e no baixo-relevo, e entrou a habitar uma casa que encontrou varrida e mobiliada. A decadência, na sua origem, não foi de caráter técnico, mas de caráter espiritual".

Eia pois! que faça, então, a Arte Moderna, as suas bagatelas, ocas de idéias, vazias, boas só para os "novos ricos" que as guardarão para a posteridade, se o houver, e isto servirá de documentação probatória de que a nossa foi uma época decadente... também neste terreno. Por que nossa dúvida sobre se haverá posteridade? Fale Toynbee:

"No Ano da Graça de 1947, os Estados Unidos e a União Soviética são as encarnações opostas do tremendo poder material do homem contemporâneo; "suas fronteiras se estenderam através de toda a Terra

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e suas palavras alcançaram os quatro cantos do mundo", mas na boca desses alto-falantes não se houve a "doce voz pequenina". São ainda o cristianismo e as outras religiões superiores que nos podem servir de guia; é das regiões imprevistas que poderão sobrevir as palavras e os atos salvadores".

A Arte Moderna nasceu do vazio espiritual, e é um dos muitos fantasmas vestidos de morte, que, com seu horrível e formidoloso alfange ameaça nossa civilização ocidental. "Será duro na verdade, encher de novo o vácuo espiritual que se cavou nos nossos corações ocidentais, mercê da progressiva decadência da crença religiosa que se vem extinguindo há cerca de dois séculos e meio".

Nosso prezado opositor recomenda-nos "rever durante algum tempo todos os seus (nossos) cadernos, sem se deixar iludir pela música de Sereia das frases e períodos bem construídos, etc". E nos adverte: "O assunto que enfrenta nesse trabalho é terrivelmente exigente"; ainda mais ... e inclui-se, por gentileza: "as deficiências de formação cultural de todos nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos universitários, devem alertar-nos quanto aos perigos de um mergulho nas profundezas da problemática do mundo atual".

Não há como não agradecer a boa intenção do conselho nascido, como tudo o mais, do otimismo progressista, e da visão da história cíclica, guiada por ainda ignoradas leis, ou pela mão de Deus. Segundo esta perspectiva tão jocunda, tudo deve "ficar como está, para ver como é que fica". Se a mão de Deus guia a história, por que dar a público nosso livro? por que não guardá-lo nalgum canto... a fim de servir de pasto às traças e de ninho aos ratos? Não seria, acaso, temeridade grande, grande contra-senso, imiscuirnos na obra divina?... dado que Deus é quem escreve a história? Mendel, também, quando polinizava as flores de suas ervilhas, com o fim de descobrir suas leis de genética, certo dia, foi assaltado pelo escrúpulo místico de estar interferindo na obra divina da criação. Além do mais, raciocinou, estava cruzando irmãos entre si, o que é ação abominável. E já ia dar em nada sua pesquisa científica, quando, tomando conhecimento dos receios de Mendel, seu superior o desassombra, dizendo-lhe que Deus permite a ciência para o bem dos homens; e que não se pode estender ao reino vegetal, as leis morais do nível humano.

Nosso crítico, ao contrário do superior de Mendel, tenta assustar-nos, não só mostrando que, como brasileiro, somos deficiente quanto à cultura, como ainda que é perigoso mergulharmo-nos na problemática do mundo atual. Contudo, se tal receio manietar a todos, quem irá tentar as soluções dos problemas colocados pelo nosso tempo? Se, como o demonstramos, o futuro depende de nós, e só de nós, para o bem ou para o mal, como omitir-nos, como alhear-nos ao que é mais

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importante? Se não possuirmos a coragem intelectual de arrostar com as críticas, fundadas ou não, a que fica reduzida a generosidade que devemos ter para com o nosso próximo? Cristo, também, podia simplesmente ter cruzado os braços, para não correr com o risco de ter que abri-Ios numa cruz! Sócrates podia não ter sido condenado, e, depois de preso para a execução, podia ter fugido, quando seus discípulos, após haverem subornado os guardas da prisão, o convidaram a isso! Que diria Platão a este comodismo, a esta omissão, produtos do medo e da concepção errônea de que a história, necessariamente, é cíclica, e vai guiada pela mão de Deus? ele que recomendava ao que viu a luz fora da caverna de sombras irreais, a retornar a ela a fim de ajudar a seus irmãos?

Uma das quatro causas estudadas por Vianna Moog, em sua valiosa obra "Bandeirantes e Pioneiros", do nosso atraso, foi a crença enraizada em nós de que éramos inferiores, por causa da nossa miscigenação racial. Tudo começou com Gobineau, o primeiro a exaltar as qualidades do homem nórdico, e acabou na desgraça do mundo, quando Hitler pretendeu fundar um Estado universal sob o tacão truculento da "super-raça" ariana. Por esta e outras razões, "os europeus se consideram a si próprios como sendo o "Povo Eleito" e não se envergonharam ao admiti-lo. Todas as civilizações do passado pensaram o mesmo de si próprias e de suas próprias heranças; e ao verem os gentios, uns após outros, rejeitando as suas a fim de a substituírem pela da Europa, os europeus, sem nenhuma hesitação, se felicitaram a si próprios e aos convertidos à sua cultura" (Toynbee). É por esta razão que os estrangeiros, há muito radicados no Brasil, não aprendem a falar corretamente a nossa língua. Precisam mostrar que são filhos doutras terras...; e falar corretamente o português do Brasil, poderia fazê-los confundir-se com a "sub-raça" brasileira. A escrever, aprendeu logo; porque não há maneira de se fazerem distintos, distinguidos, pela escrita; falar, corretamente, não o conseguem, porque lhes não interessa alcançar a correção...

Esta crença de que somos insuficientes quanto à cultura ("as deficiências de formação cultural de todos nós brasileiros"), faz do brasileiro um temeroso do ridículo - "o estúpido medo brasileiro do ridículo" (Vianna Moog). Este medo do ridículo que ensombra o brilhante espírito de nosso crítico, pairava já na alma de Joaquim Murtinho. "De fato, ainda em 1897, Joaquim Murtinho, no seu famoso relatório do Ministério da Indústria, com o qual conquistaria a pasta da Fazenda, acautelava o governo contra qualquer excesso de otimismo em relação às possibilidades industriais do Brasil: "Não podemos, como muitos aspiram, tomar os Estados Unidos da América do Norte como tipo para nosso desenvolvimento industrial, porque não temos as aptidões

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superiores de sua raça, força que representa o papel principal no progresso industrial desse grande povo”. Pretender mais, ao ver do grande ministro de Campos Sales, era “pretender demais". “Até Rio Branco, o grande Barão do Rio Branco, depois de passar vinte anos sem visitar o Brasil, não consentia negros ou mulatos no Itamarati, porque era preciso que o estrangeiro não julgasse o Brasil um país de mestiços" (Vianna Moog).

Ficamos sensibilizados com a nobreza de alma do nosso crítico quando ele se mostrou apreensivo, temeroso, para o nosso bem, de que viéssemos a ser objeto de risotas sardônicas, de riso escarninho, ao enfrentar um trabalho de exigência suma, só capaz de realizá-lo a pena renomada de algum autêntico europeu de cultura vasta. E de bom grado estaríamos nós nos dessedentando nas obras, sobre este assunto, elaboradas por algum homem desse velho e grande povo. Mas os europeus estão muito ocupados em cavar suas próprias sepulturas, ao cultivar o materialismo, ou então, a filosofia niilista, de angústia e nada, de Sartre e outros, e ao promover seus festivais de pornografia, suas noitadas de libertinagem (troca de esposas, sexo em grupo, homossexualismo e aborto legalizados, etc.), em conseqüência do que se está verificando a queda do índice de natalidade, e crescendo o número de neuróticos e de suicidas. Tudo isto, porém, posto que horrível, o pior não é, visto poder corrigir-se a tempo. O pior consiste em que os pensadores europeus sabem qual a única coisa a fazer para sua salvação, mas perderam a esperança e a fé em si mesmos, quanto a consegui-lo. Eis a confissão de um filósofo europeu, Georges Gusdorf: "Não há, de maneira alguma, certeza absoluta de que o pensamento de amanhã consiga sair do atual beco sem saída, pois parece cada vez menos provável que um metafísico de gênio possa ser capaz de operar a síntese de um saber de dia para dia mais extenso e mais complexo".

Sabem, então, que o único caminho a seguir é o da síntese, mas, perdendo a esperança, a fé, duvidam que alguém a possa realizar. Atascados, cada vez mais, numa cultura envisgante, num "saber de dia para dia mais extenso e mais complexo", estão, por isto mesmo impedidos de enxergar que a síntese não está na extensão da superfície, mas, na outra dimensão, a altura. Na parábola da "Abelha e da Formiga", quanto mais a formiga andava esquadrinhando a superfície da bola dependurada por um fio, tanto mais duvidava pudesse existir a esfera que buscava. Veio voando a abelha, e pousou na superfície. Interrogada sobre se a esfera existe, ela disse que sim, pois a vira quando ainda estava no ar, voando. Tal, a síntese que é esférica para ser global. Andando na superfície de "um saber de dia para dia mais extenso e mais complexo", os pensadores terão de

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concluir, qual a formiga, que tudo é superfície ilimitada, sem fim para todos os lados, sendo improvável que apareça um inseto de asas, isto é, "um metafísico de gênio", para operar a síntese.

A Europa já não tem minorias criadoras, capazes de ocupar-se de pensamentos grandes, e a tal cultura européia em que o nosso crítico deposita sua fé, não vai além de erudição livresca, sem vitalidade, tendente a reduzir os europeus aos homúnculos de Wagner, já citados neste escrito. "O europeu está só, sem mortos viventes perto de si; como Pedro Schlehmil, perdeu sua sombra. É o que acontece sempre que chega o meio-dia". Descoroçoado de que uma síntese das filosofias entre si, e delas com a religião, pudesse vir da Europa dividida, decadente, o recurso foi um indígena brasileiro pegar da pena e fazer o insigne trabalho para si primeiro, mas que poderá servir a muitos outros, como ele, também, necessitados.

Só uma coisa lamentamos em nosso crítico, conquanto lhe respeitemos a opinião: é que ele, sendo espírita evangélico, quanto a esta parte, tivesse posto de lado o Espiritismo... e mais o Evangelho, no passo em que Cristo diz: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (João, 3, 8). Que Espírito? Ora! pois se trata do Espírito que se reencarna! A lição estava sendo ministrada a Nicodemos!

O vento sopra onde quer, tal qual o Espírito que toma corpo na matéria densa em nova vida corporal...; e quer soprar ou reencarnar-se onde possa constituir-se, ao tempo em que ajuda a elevação do meio. Deslocada, assim, a cultura para o Espírito que se enriquece de muitas existências corporais, fica sem sentido arrebanhá-lo com todos os que, numa nação, padecem de deficiências culturais. Essa é a finalidade das reencarnações; ser homem novo, continuamente renovado, liberto da erudição maciça, livresca, doutras vidas das quais conserva apenas o sumo da verdade e da virtude. Sem esta periódica destilação, o bagaço da cultura, a pura erudição, apegar-se-ia ao Espírito, impedindo-lhe os vôos para o alto, a conquista do que só cumpre saber, e é que na vivência efetiva, atuante, da sabedoria-amor, consiste a salvação alcançada, não duma feita, mas por aproximações. Daí que, de quando em quando, se deixa o corpo de matéria densa, e, com ele, a bagagem embaraçante das muitas noções que não servem para nada. A cultura, deste modo, pouco a pouco, se destila, entesourando-se na sabedoria. A meta distante, longínqua, não é ser filósofo, o eterno amante da sabedoria; o fim supremo é possuir a amada, ter posse dela, ser humanamente sábio, e não, ficar de longe, eternamente, a adorá-la, como D. Quixote a Dulcinéia, como Platão a “Sofia", como Dante a Beatriz.

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Possuir a amada, e não apenas ser eternamente amante, eis o objetivo. Ser sábio é o fim supremo, e não, o ter cultura infinda. Adquirir

asas, ganhar a outra dimensão, eis a meta da ambição mais nobre. Daí que cultura e criatividade são coisas mui diversas. O velho Nicodemos, culto, mestre em Israel, precisava morrer, nascer de novo, simples, leve, noutra condição, para reencetar a falida conquista do Reino celestial. Procura ele a Cristo à noite, só, às escondidas, e ainda que achava ter, Jesus, vindo da parte do Eterno Pai, não tivera o heroísmo, a coragem de romper com o passado, face à nova luz, buscando o Mestre com o Sol em pino, e em meio à multidão.

O moço rico estava acorrentado às riquezas, tal como Nicodemos à sua posição. Um e outro precisaria reencarnar-se, um na pobreza, para desfazer a cobiça, o outro, no anonimato, para golpear a ambição. Cumpria a ambos despojarem-se do bagaço inútil que impede o passo para a sabedoria, pois o poder e a riqueza são amarras invencíveis para o que está ainda por tornar-se sábio. Tal como a riqueza e o poder, a cultura não vivida, a livresca apenas, o apenas ouropel do saber, e não o ouro verdadeiro, pode ser empecilho à conquista da dimensão terceira, porque o peso, quanto maior, maiormente impede o vôo para o alto. Daí que, de quando em quando, a alma ainda impura, ignorante, precisa ser posta a fermentar neste mundo, passando, depois, pelo destilador das expiações ou provações, a fim de que se evole apenas a quinta-essência espiritual. Se comparado a metal, a ganga impura da erudição precisa acrisolar-se no cadinho em brasa, para que residue apenas o ouro puro da sabedoria. Se a pedras preciosas se compara, é imprescindível o atrito da lapidação, e, aqui, no mundo, os homens se lapidam mutuamente de contínuo.

A cultura é passado, mas passado que passou, e não, de certo, passado que ainda está por vir. Em Cristo temos o exemplo deste paradoxo, do passado que é futuro, do tendo sido que permanece estando a ser. Faz quase dois mil anos que lançou o maior dos Mestres a sua estupenda antecipação que está ainda por efetivar-se. Só, individualmente, alguns dentre os humanos, santos e sábios se tornaram, ganhando, assim, a terceira dimensão. A grande massa humana, com nome de cristã, arrasta-se na planura das instituições, sem, contudo, substancialmente, melhorar-se. Ovídio já dizia: "Vejo qual é o melhor caminho e minha consciência diz-me que este é o melhor, contudo é o pior caminho que eu sigo". E Toynbee: "Nenhuma civilização conhecida chegou a atingir o objetivo da civilização. Nunca houve uma comunidade de santos sobre a Terra".

Se o destino humano é atingir a dimensão terceira da consciência, a cultura destilada, a cultura-qualidade, a sabedoria, e, no entanto, a humanidade em massa apenas se mantém no nível

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planimétrico da cultura-quantidade que se fossilizou nas instituições, Cristo permanecerá como antecipação pelo tempo em fora, nada importando o arrastar dos anos, ficando fácil de entender-se o paradoxo de ele ser passado e futuro juntamente. Em Cristo há criatividade potencial que é a sabedoria ainda por efetivar-se, porque o estado hiperconsciencial que ele inaugurou, foi reduzido ao planimétrico da razão, e seu vôo altivo, condoreiro, mediocrizou-se no andar no chão com pés rasteiros. Nesta descida da supina altura, nesta acomodação, perdeu o Evangelho quanto era e tinha. Foi possível até as "guerras santas" e a "Santa Inquisição", e, em nome de Deus, e pela causa do Evangelho-Amor (?!), torturas sem conta, horrendas, medonhas, foram perpetuadas. Os urros dragontinos, os rouquenhos brados, os ais sem conta das torturadas vítimas, ecoaram por todo este nosso inferno terrestre. O terrível dragão sanhudo, sanguinário, hipócrita, devasso, vestido de cristão, cevou, assim, seu hórrido sadismo.

Outros cristãos, de índole mais branda, propuseram uma salvação por curto atalho, pela fé apenas, sempre de modo a que, na caverna sua, não fosse o dragão importunado. O egoísmo satânico racionalizou seus atos, justificando-os em termos do Evangelho, e até um Calvino houve que pregou ser a posse das riquezas caminho certo para o céu, visto como, sendo a riqueza um sinal de salvação, a conquista dela era a melhor maneira de agradar a Deus. Eis como a planimétrica cultura, em lugar de bárbaros fazer civilizados, fê-los regredir ao seu ainda mais antigo estado de selvageria.

Qualquer doutrina que deixe em paz o egoísmo ignorante, que não perturbe o animal não sepulto ainda, mas ainda vivo no homem, é por este prontamente aceita. A culta Alemanha, ainda ontem, torrou judeus, seis milhões contados, e os camisas negras da culta Itália, sob as vistas complacentes, omissas e até anuentes do Papa, o "Vigário de Cristo", massacraram os abissínios, a pretexto de levar-lhes a cultura, o Evangelho, a civilização. Que vem a ser a frase do nosso estimado crítico, quando fala das "deficiências culturais de todos nós brasileiros"? Abaixo a cultura-quantidade, planimétrica, verniz superficial apenas que recobre a animalidade, dando visos de civilizado ao que não passa de torvo demônio, dragão qual é, terrível, feroz, hipócrita, sanhudo, sanguinário. O caminho que propomos, propô-lo, antes, Cristo, e, conquanto dificílimo, é o único que nos cumpre palmilhar.

A cultura, portanto, é extensão superficial que, quando larga, grande, perde-se nos horizontes longínquos onde a terra se confina com o céu. Pertence ela ao passado, no passo que o futuro é domínio da criatividade, e será como o criarmos, para o bem ou para o mal; e se o não criarmos, o passado agarrar-nos-á pela garganta, sufocando-nos, sob a forma de arcaísmo. Como o bifrontal deus Jano, somos

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compelidos a olhar para frente e para trás. Para frente, no entanto, as brumas densas, a incerteza, o penhasco ou árvore que nos encobre a perspectiva em plano raso. Conseqüentemente, só poderá criar quem dispuser de asas com que se levante às alturas, e veja o que os de pés rasteiros não podem enxergar.

Se o passado (cultura) é a superfície, vem depois desta o volume que, no nível consciencial, é a intuição. As mentes criativas operam aí, havendo, como as aves, as de grande e as de pequeno porte. Como as águias e os pardais no aéreo espaço, as minorias criadoras se mantêm no vôo da intuição; paralelamente, os homens de cultura, quando não possuem veia criativa, se comportam como o jabuti e a gazela, no que diz respeito a cobrir distâncias, exíguas ou extensas, sem abandonarem, nunca, a planície. A cultura nesta forma chata, plana, emplastante, sem a sua destilação em qualidade, jamais, nunca, poderá ser a base da criatividade. Esta forma de cultura-quantidade, pesada, condicionadora, até serve de empecílio ao futuro, visto como leva ao homem culto a só pensar com a cabeça alheia, buscando para as situações novas, idéias velhas, respeitáveis sim, mas já mumificadas.

No entanto, esta dicotomia que fazemos entre cultura e criatividade, só em teoria é possível, porque, em realidade, ambas coexistem, pequenas ou grandes, em cada indivíduo humano, embora possa haver também a nulidade cultural, ou a criativa, ou ambas juntamente.

Dado que cultura e criatividade, respectivamente, constituem o bi e o tridimensório da consciência; que a razão bidimensional é raciocínio, no passo que a consciência volumétrica é intuição; que a cultura é própria do passado estratificado nas consciências e nas instituições, enquanto que a intuição penetra as brumas e incertezas do futuro, fica sem sentido a fala circunspecta, ponderada, fria, conselheira, do nosso nobre crítico, quando adverte: "as deficiências de formação cultural de todos nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos universitários, devem alertar-nos quanto aos perigos de um mergulho nas profundezas da problemática do mundo atual".

Face ao que expusemos, esta é a conclusão: aquilo que o nosso crítico dá como sendo nossa fraqueza, isso mesmo é a nossa força! Porque, como o demonstrou Toynbee, a minoria que respondeu com sucesso dado repto, nele se fixa, ficando, por isto, impedida de responder ao repto seguinte. É assim que todo o sucesso traz, já, consigo, o germe da derrota posterior, dado sua fixação no estabelecido.

O fracasso reside no arcaísmo futurista, isto é, na tentativa de projetar o passado no futuro, ou ainda, em tentar resolver os problemas do futuro com os dados e métodos do passado. O peso da tradição

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impede os avanços criativos, donde vem que o novo não pode impôr-se a não ser com luta. Nosso crítico pensa deste modo arcaísta-futurista, e por isso é que acha que os problemas do nosso tempo podem resolver-se por meio da cultura que é passado. No entanto, o repto do momento histórico exige a futurização criativa, a criatividade, que não, a transposição do passado para o futuro. A história biológica demonstra que o homem não se fixou na especialização, na repetição contínua do passado, como o fizeram as demais espécies; continuou evoluindo, ficando, no biológico, para sempre inacabado. A este seu inacabamento, a esta sua falta de especialização, se deve toda a sua glória, e ele próprio não suspeita até onde poderá chegar. O homem que diz conhecer suas limitações, como o nosso crítico o fez, está parado, tal como se acham as espécies biológicas inferiores. O homem permaneceu criança, tão curioso como os filhotes dos mamíferos, sobretudo a criança humana. Na idade adulta, o homem comum pára de evoluir, tornando-se prosaico e vulgar, enquanto o gênio continua de olhar deslumbrado, insaciável de saber, pela vida em fora.

Tomemos dois fatos históricos para objetivar esta teoria: Golias de Gahat, vencedor de todas as batalhas que empreendera, morreu às mãos de Davi, quando este empregou técnica nova de combate. Vendo o jovem pastor sem armaduras, escudo, espada e lança avançar ao seu encontro, Golias, em vez de alarmar-se, como o faria uma mente criativa, ficou ofendido: - Acaso sou eu um cão, para vires contra mim com um pau? Não enxergara, então, a funda danosa, nem a sacola das pedras. Até esqueceu-se o gigante de baixar a viseira, e foi que Davi, rodando a funda no ar, encaixou-lhe uma pedra na testa, pondo o colosso por terra desmaiado. Depois foi só cortar-lhe a cabeça, para o que se valeu da própria enorme espada de Golias.

Ciro, cavalgando largo tempo ao lado de seu pai, foi sendo por este interrogado sobre o que aprendera da arte militar com os mestres escolhidos que tivera. Ciro nada conhecia, e seu pai cuidou estivesse em perigo o Império Persa, nas mãos de tal incompetente. Todavia, Ciro era um gênio, e este, porque criativo, rompe sempre por inusitados caminhos. Contra carros de guerra, Ciro mandava abrir fossos atrás do exército; e quando os carros inimigos avançavam, a frente da coluna se abria, deixando-os passar, fechando-se, depois, sobre eles; caídos nos fossos, e mortos os guerreiros condutores pela infantaria, os carros temíveis deixavam de existir. Era a vez, agora, da cavalaria, e Ciro ordenava cortar os jarretes a todos os cavalos, pondo os cavaleiros a pé. Atacava, Ciro, então, com seus carros de guerra, com sua cavalaria e infantaria ligeira, armada de chuços, de broquéis e de espadas, e era o fim deste inimigo. Porém, noutra batalha, outra era a estratégia da qual os generais só tomavam ciência pouco antes

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da peleja.Tal, o quanto pode a inventividade; não, pois, só a cultura, que é

tradição e passado, mas, sobretudo, a criatividade que é futuro. E não poderá criar o novo, quem tiver demasiado apego ao velho, e este só serve ao futuro, depois de destilado, valendo só a quinta-essência, e não, o bagaço inútil da erudição maciça.

Não temos, pois, que imitar, servilmente, os estrangeiros, e sim, romper por caminhos próprios, aproveitando apenas a essência da pesada cultura do Velho Continente. A Europa se acha referta de passado, de tradição, de cultura, no passo que nós, brasileiros, conquanto não sejamos primitivos, ainda estamos cheios de futuro, de esperanças, de anseios. Tenhamos mortos-viventes perto de nós, mas não nós sob o império deles, senão eles, sob o nosso, ou seja, o conhecimento deles para o nosso uso, impedindo que eles, sob a forma de respeitável tradição, nos sufoquem, nos matem, como crucificaram Cristo, como assassinaram Sócrates.

Ora bem: "a problemática do mundo atual", ainda por solucionar, acaso é passado? Futuro é que é, não se podendo resolvê-la sem futurizar criativamente..., e disto a Europa está impedida por sua própria fraqueza..., condicionada que se acha ao passado com o qual nossos problemas atuais e futuros não se resolvem. A esta fraqueza, no entanto, nosso crítico dá como sendo força! Ele acredita nas pesadas armas de Golias; nós depositamos mais fé na funda de Davi. Ele crê na velha arte bélica de Cambises, pai de Ciro; nós temos confiança neste, cujo gênio sempre surpreendia o adversário, e, a tal ponto, que, depois, não mais precisava dar batalhas, bastava o mito..., e as muralhas se rendiam ao conquistador.

O Brasil está na vanguarda do Terceiro Mundo que é a civilização ainda do porvir. Desde agora fica extinta a dependência nossa em relação ao Velho Mundo! Creiamos nisto, e energias profundas, ainda ignoradas, por-se-ão em movimento! Nenhum homem poderá conhecer suas próprias limitações, a menos que se tenha encarapaçado como os entes todos que buscaram esta ilusória proteção, porque "ser humano é ser capaz de transcender a si pró-prio" (Toynbee – “Experiências”). É agora a vez do amoroso filho, já adolescente, preparar-se para arrimar a Grande Mãe, a Europa, que o alimentou, com seu leite, quando ele era ainda pequenino.

Não é isto sonho lindo, róseo, vaporoso, pura mística de um povo que anseia por desenvolver-se, por auto-afirmar-se. Já tem solidez palpável, até mesmo para europeus. Fale Toynbee:

"Uma visão antecipada da estrutura da futura cidade mundial já pode ser vista em Brasília, a nova capital do Brasil, construída de acordo com um plano, porque foi planejada no que era um sertão

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virgem. O planejador de Brasília, Sr. Lúcio Costa, articulou esta vanguarda de Ecumenópolis em quadras. Estas são seções bastante pequenas para tornar possível aos habitantes de cada quadra conhecerem-se pessoalmente. Uma quadra é auto-suficiente, no sentido de não ser atravessada por avenidas abertas ao tráfego de rodas mecanizado. As crianças podem portanto ir a pé de casa à escola sem sair da quadra, e as mulheres podem fazer as compras e a lavanderia dentro dela, sem o risco de serem atropeladas".

Mais: O jornal "Le Monde", de Paris, do dia 27 de dezembro de 1973, publicou dois trabalhos com o título: "A correção monetária pode ser aplicada na França?". E nossa "Folha de S. Paulo" transcreveu, em português, esses dois artigos, na íntegra, em sua edição de domingo, 30 de dezembro de 1973. Citados trabalhos principiam assim: "O gosto pela simplificação leva muita gente a falar hoje do Brasil em termos de "milagre econômico”, de "novo Japão", de "gigante que se levanta"... Tudo isto é verdade e o Brasil merece medalha de ouro do crescimento. Mas, como fez para merecê-la?"

A análise de Jean Soublin, economista e banqueiro, entra, depois, em pormenores da técnica econômica relativa ao tabelamento de certos valores como: salário mínimo, aluguéis, remuneração da poupança, juros bancários, imposto sobre renda, previsão para o futuro; até que o economista francês se admira face ao paradoxo de a nossa economia expandir-se ao mesmo tempo em que faz cair a inflação.

Desta análise de Jean Soublin, o ex-ministro Albin Chaladon extraiu um relatório que enviou à Comissão de Finanças da Assembléia Nacional (francesa), que termina com estas palavras:

"Os países da Europa, que manifestam uma ausência completa de imaginação criativa diante desse problema, como diante de tantos outros, deveriam manifestar interesse em analisar de perto e levar em consideração a revolução intelectual que se realiza no Brasil em função de uma maneira de pensar, onde o pragmatismo não exclui a faculdade de inversão".

Os destaque são nossos, e servem como antítese à opinião do nosso preclaro crítico. Uma faceta da "problemática do mundo atual" é a inflação que os europeus, não sabendo resolver, intentam imitar o Brasil, não obstante "as deficiências de formação cultural de todos nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos universitários". Duvidosos de que os problemas modernos pudessem resolver-se com métodos antigos, os brasileiros, resolutos, arrostaram com os perigos de um mergulho nas profundezas dessa problemática do mundo atual. O resultado desse arrojo brasileiro, foi a criação de um sistema não só

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elogiado, mas proposto por um europeu a que seja copiado pelos europeus.

Se, como diz esse europeu "alerta" (eis o nosso alertismo), “os países da Europa (...) manifestam uma ausência completa de imaginação criativa diante desse problema, como diante de tantos outros", não é de lá que vamos esperar nos venha a síntese das filosofias entre si, e destas com as religiões. Desde que a Doutrina Evolucionista pôs em xeque-mate todas as filosofias e todas as re-ligiões, esse repto não replicado até então, passou a ameaçar de morte nossa civilização ocidental. Agora, ou o mundo ocidental segue por este caminho que indicamos, ou continuará caindo até seu soçobro total, arrastando, na sua queda, as outras civilizações em vias de ocidentalizar-se.

Outra prova temos no que publicou a "Folha de S. Paulo" do dia 6 de janeiro de 1974, prova de que a cultura, quando ainda não depurada em sabedoria, quanto mais extensa e prolixa for, tanto menos serve para solucionar nossos problemas atuais e futuros. A "Folha" trouxe outro artigo, agora com o título: "Arquiteto brasileiro é elogiado em Paris". Trata-se do Sr. Wilson Reis Neto, e o elogio ocupa uma página inteira do jornal parisiense "Combat". O projeto do Sr. Wilson Reis é o da criação de uma zona arquitetônica que será instalada no que foi, outrora, os mercados centrais de Paris. O planejador brasileiro foi classificado pelo "Combat" "como o arquiteto pelo qual chega a primavera, pois seus proietos são alegres, luminosos, de linhas suaves e originais". Falando o próprio Sr. Wilson sobre como consegue seus triunfos, declara: "Possivelmente a ausência de uma tradição arquitetônica muito pesada é a que nos permite (aos brasileiros) elaborar os projetos sem demasiadas barreiras e nos coloca em melhores condições de ver as coisas com novos olhos”.

Por isso confio mais na intuição do que no saber. Há que se criar sem pensar muito. Controlar demasiadamente uma idéia confusamente tomada pela intuição é dissecá-la; é matá-la. As coisas devem vir por si mesmas, naturalmente.

O jornal "Combat" realça as importantes idéias apresentadas pelo Sr. Reis Neto, e também os compromissos oficiais assumidos por ele, pendentes de realização.

Não fareje alguém neste método da intuição a "ação direta" animal; a intuição é supra-racional; é o pensamento tornado velocíssimo como o coriscar de um raio; é o produto destilado da cultura de muitas vidas corporais que, agora, assoma à consciência como um relâmpago instantâneo. Nesta visão lampejante apreende-se a idéia-mãe, como unidade global, indo-se, depois, para os pormenores.

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A criação superior, ou é muito fácil, ou é impossível; ou, espontânea, sai de um jacto, ou não sai nunca. A isto escreve Goethe, no seu “Fausto”: "É certo que o não pode, se em si mesmo/ não sentir lá por dentro o fogo sacro./ E só coa inspiração própria, espontânea, / que se domina a turba. O chocho, o inerte, / como de seu não tem, mas quer por mesa, / pilha aqui, sisa ali; mistura, assopra / no seu fogareirinho um lumezito, / e sai-se co'um pitéu de mistifório, / que só porcos ou cães o tragariam". Ora, o que o Sr. Reis Neto chama "saber", é a erudição em cujo meio os arquitetos europeus soçobram por carência de originalidade.

Então? Acaso "as deficiências de formação cultural de todos nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos universitários, devem alertar-nos quanto aos perigos de um mergulho nas profundezas da problemática do mundo atual"? Se o brasileiro ilustre Cesar Lates pensasse desse modo, abster-se-ia de enfrentar os "perigos de um mergulho nas profundezas da problemática" da física nuclear. Num congresso, sentindo-se aturdido frente à problemática do átomo, um físico adverte: "Procuramo-nos explicar reciprocamente algo que nós mesmos não entendemos". Um outro sarcasticamente exclamou: "A física? É difícil demais para os físicos". Santos Dumont, brasileiro também, teria tido mão sobre si, sofreando seu arrojado espírito, quando, temerariamente, se expôs "aos perigos de um mergulho nas profundezas da problemática" dos vôos espaciais com máquinas mais pesadas que o ar...; o desastre de Ícaro devia pôr-lhe medo.

Todavia, quem poderá criar alguma coisa, sem o perigo de enfrentar a problemática do novo? Por isso mesmo, todo o progresso da humanidade se deve ao arrojo dos pioneiros em todas as áreas. Sem o trabalho sempre arriscado das minorias criadoras, o mundo não teria saído da barbárie, para não dizer que o pré-homem macacóide nem teria inventado o varapau e domesticado o fogo. Depois os atos criadores são aprendidos, repetidos, fixados em hábitos, imobilizados na cultura, e os não criativos se aferram a ela, pensando que, por esse modo arcaísta, poderão solucionar os problemas do futuro.

Ora bem: para resolver os cruciais problemas do nosso tempo, de magnitude tanta, era preciso uma chave, e esta se resume no seguinte:

I - Tudo o que existe é constituído de forma e conteúdo que é o mesmo que essência e substância, sem nenhuma exceção, nem mesmo para Deus.

II - Para apreender esse binário, a homem precisa agir como um todo, e não, somente, com sua razão. O sensível e o inteligível vêm ligados desde sempre, e qualquer dicotomia falseia a identidade

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do real.III - Houve a Involução, pelo que se tornou possível e

necessária, agora, a Evolução.Esta é a chave que condensa toda a obra constante deste e de

outros livros nossos; vamos, todavia, explicitá-la um pouco mais:1) - Olhando o mundo, em torno, verificamos que as coisas, sem

nenhuma exceção, são unidades compostas de essência e de substância, sendo a essência o que a coisa é, e a substância, o de que ela é feita. Em qualquer coisa real, é impossível separar a essência da substância, porque uma substância sem essência alguma, é caos, e a essência pura, sem nenhuma substância, é pura idealidade, vazia, subjetiva, que só pode estar na nossa inteligência como abstração. Para ser real, a coisa precisa ser considerada como uma dualidade feita de essência e de substância inextricavelmente ligadas na unidade da coisa. Dentro de toda unidade está a dualidade, donde vem: tudo o que existe é unidual. Nossos sentidos apreendem o sensível das coisas, trazendo-as para o nosso psiquismo como imagens; como as coisas não são caos, suas imagens, em nosso espírito, também não o são, pelo que já vêm organizadas, e essa ordem é a essência que a nossa inteligência abstrai. Dessas imagens, pois, nossa inteligência apreende a essência como generalização abstrata, subjetiva que é em nossa mente, mas não existe na realidade objetiva... enquanto não se vestir da substância.

2) Conseqüentemente, não se apreende nada em realidade, se o homem não agir como um todo. Com a inteligência só se apreende a parte inteligível da coisa, não, porém, sua, parte substancial visto que esta é irredutível a discurso racional, a princípio de razão. Quem, logo, como o fizeram os gregos antes, e os filósofos modernos depois, buscar a realidade só como essência pura, não terá a realidade, a coisidade, e sim, apenas, a pura idealidade, a subjetividade, a abstração pura, à qual se deu o nome de realidade. Por conseguinte, o famígero realismo grego é um idealismo com o pé firme no objeto, tomado este só por sua essência, no passo que o idealismo ou filosofia moderna, é o mesmo idealismo grego, só que com fundamento no sujeito, no eu subjetivo, transformado este em puro ente de razão. A realidade verdadeira, no entanto, implica na presença da substância também, e não só na da essência vazia, donde vem que, para apreender a coisa como um todo, o homem tem de agir também como um todo.

3) - Examinando a natureza da essência e da substância, constatamos que ambas se opõem polarmente, como a tese à antítese. A essência é fixa, imutável, intransformável, incausal, inespacial, intemporal, determinística, sem liberdade, irrepresentável,

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etc., no passo que a substância é móvel, transformável, mutável, causal, espacial, temporal, variável, livre, representável, etc. Sendo a substância TRANSFORMÁVEL, então, existe uma só matéria prima, uma substância primordial, primária, primeira na ordem das coisas, da qual todas as demais surgiram por transformação. Esta substância basilar é a que os filósofos pré-heracliteanos procuravam, até que veio Heráclito e assentou que tudo é movimento; que a mesma substância é puro movimento. Só que (e o não viu Heráclito) a idéia de movimento implica na idéia de móvel, de algo que se move, não sendo possível um movimento puro, isto é, um movimento de nada.

4) - Com o advento das ciências, ficou demonstrado, experimentalmente, que:

a) matéria e energia são termos redutíveis entre si;b) todas as energias são transformáveis umas nas outras;c) portanto, há uma energia primordial DA QUAL todas as

energias e todas as matérias procedem por transformação.Esta verdade clara para qualquer mente moderna, Einstein

pretendeu reduzir a fórmula matemática no seu "Campo Unificado". Reduziu ele todas as matérias e todas as energias do universo a um denominador comum a que deu o nome de energia-substância. Tudo o que, pois, não for essência, que não possuir as propriedades das essências, é energia-substância. Em contrapartida, tudo aquilo que não possuir todas as propriedades da energia-substância, é essência, ou forma, ou idéia, ou conceito. Logo, a vida, as emoções, os sentimentos são energia-substância, visto como não se reduzem a essências. Na fase evolutiva que hoje vivemos, não pode ser de outro modo: a vida surgiu, por transformação, das outras energias que lhe estão abaixo. Ora, as emoções e os sentimentos nascem da vida e lhe estão acima. Sobre todos os sentimentos se sublima o amor; portanto, o amor é a mais alta manifestação da energia-substância; este é o pináculo a que pode chegar a evolução das formas dinâmicas; não há posto a subir acima do amor.

5) - Quando não se pode subir além de dado ponto, este fica absoluto, pois nada mais há acima a que se referir. Como não há posto acima do amor, então, o Amor é o Absoluto, e como o Absoluto é Deus, o Amor é Deus ou "Deus é Amor" (I João 4, 8); Deus é a Energia-Substância-Amor, DA QUAL TUDO SE FEZ, e sem A QUAL nada existe.

6) – O conceito de coisa como palpável, como fixa, como estática, mudou-se para o de coisa-mutável-e-em-transformação. Às três dimensões do espaço que outrora limitava qualquer objeto, foi acrescentada outra dimensão, o tempo, visto como nada pode ser considerado só no espaço, senão, também, no tempo. Um grego não

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poderia entender que as ondas de energia; que os sentimentos, que o amor são coisas; nós, do século XX, sim. Para nós, coisidade é idêntico a realidade, a substancialidade, dado que "res" é igual a coisa, e não há coisa sem substância.

7) - Como realidade alguma, sem nenhuma exceção, pode reduzir-se a essência pura, Deus também não pode ser essência pura, pura idealidade subjetiva, sem substância, vazio de conteúdo, forma oca, sem existência, portanto, no mundo exterior. Se o fosse, não iria Deus além de pura criação da mente humana, de pura ideação, de pura ficção, sem outra "realidade" além da que lhe empresta o homem. Como só tem existência na cabeça do homem, e não, fora; como só aí foi criada, ou inventada, passa a ter razão quem disser que Deus é criatura do homem, e não, vice-versa.

8) - Não sendo Deus essência pura, idealidade abstrata, pura subjetividade, com existência só na cabeça do homem onde foi criado, então, necessariamente, tem de possuir Substância..., e desta MATÉRIA PRIMA foi criado tudo o quanto existe, tudo o que é substancial. Visto como do nada não pode sair nada, e, se sair, será pura ilusão fósmea e nada, tenha o aspecto que tiver, então, tudo o quanto existe saiu da Substância Primária, por transformação. A substância, não esquecer, ao contrário da essência, é móvel, livre, transformável, passível de tornar as coisas às quais dá corpo, até opostas entre si, antitéticas e complementares. Ora, já o vimos: a mais alta manifestação da energia-substância é o Amor. Logo, Deus criou tudo de si, da sua Substância, do Amor que é, donde este enunciado: tudo o que existiu, existe, e possa vir a existir, de futuro, é a Energia-Substância-Amor modificada.

9) - Todavia, di-lo a experiência de todos os dias, a vida é egoísta, e o é desde a sua mais remota origem neste mundo. E o egoísmo é o oposto do amor. Nosso mundo é mau, senão no todo, pelo menos em parte; em parte, feio; e ainda em parte, dominado pelo Caos... em que teve origem. Ora, Deus não podia ter feito surgir o Caos, porque este é a sua negação na forma mais extrema; conseqüentemente, não criou também, diretamente, em primeira instância, este universo nosso conhecido.

10) – Portanto, Deus criou um Universo, um Mundo celestial, em primeira instância, coerente com o que ele é, feito de luz, feito de amor, que, em parte, se inverteu no EGOÍSMO, e, por esta razão, caiu e se desintegrou no centro do espaço-tempo ocupado agora pelo universo nosso, no então atro abismo, no medonho Caos; outrora, teve aí princípio a Evolução. Coerentemente, essa Evolução é um refazimento do desfeito, quando da inversão do amor no seu contrário, no funesto egoísmo desintegrador.

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11) - Deus não podia impedir a queda, ou seja, a inversão do amor no seu contrário, no egoísmo, porque, fazer isto, seria tornar o amor fixo, imutável, intransformável, não-livre. Ora, como é o AMOR a MATÉRIA PRIMA por excelência, fixar esta MATÉRIA no seu estado pré-criacional, anterior a qualquer nascimento, era impedir toda e qualquer transformação a partir dela. Tivesse fixado Deus o amor na imobilidade, estaria ele próprio impedido de executar a sua Primeira Criação, da qual, após a queda até o Caos, surge, agora, a Criação Segunda, a que vivemos hoje, ou seja, a em processo de refazimento, ou Evolução. Logo, em sentido amplo, a Evolução é a volta do Caos para Deus de algo que, em saindo de Deus, se fez autônomo para ir, como foi, até o Caos; é Religamento do que, estando ligado antes, se desligou depois; é Religião (de religare), e todas as religiões superiores servem a este propósito supremo evolutivo. Tudo o que integra são manifestações do amor; por conseguinte, Evolução, Religião, Integração, Civilização, Sabedoria, Amor são formas diferentes de expressar a mesma e única VERDADE. Pela recíproca, Involução, Irreligião, Desintegração, Barbárie, Ignorância, Egoísmo, representam o oposto, o inverso, a contraditória, a negação, a danação, o Caos.

12) - O mundo está invertido em parte ainda, e precisa desvirar-se desse avesso; em parte já o fez, e em parte ainda está ao negativo. O erro original das filosofias todas, foi o não terem enxergado que o nosso mundo não é ilusão, mas uma realidade invertida, uma realidade pelo avesso. A participação platônica consiste em tudo aquilo em que já se operou a desinversão. Ninguém negaria coisidade, substancialidade, realidade (de res=coisa) ao próprio e mais arrematado Caos; conquanto, ali, não haja ser, há o existir... de formidolosas forças remoinhantes, a luta dos pré-elementos, a busca incessante da ordem que, frágil, logo feita, logo se desfaz. Partículas e anti-partículas ensaiam criar, seja o átomo, seja o anti-átomo. Ainda não se decidiu a pendência de qual universo criar, se o de matéria, se o de anti-matéria. Por fim, depois de transcorrido haver tempo sem conta, pôde a matéria organizar-se, absorvendo em si, em sua estrutura, cada vez mais complexa, o acósmico arqui-dilúvio de energias, então, concentrativas, convergentes para o centro, da espécie raios laser, nosso conhecido, agora em vias de domesticar-se. Eis nascido o arqui-gigantesco Ovo Primitivo, o Colosso Universal, e ainda, agora, na massa do universo, cada nova formação começa do modo como o foi nesta segunda origem, pelo caos, pelo ensaio-e-erro, pela luta entre tese e antítese, até que uma generalização abarque, agasalhe, harmonize a tese e a antítese em nova unidade.

Subindo, debaixo, primeiro pela escala dinâmica, depois, pela

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escala da vida, surge o homem egoísta e mau, antropófago, agressivo; concebe um Deus, que, longe de ser sua imagem e semelhança, vai sendo a paulatina negação de si, e, fundado nessa Referência absoluta, vai-se, pouco a pouco, desvirando de dragão... imagem daquele antigo, de quando se deu a inversão do amor no seu contrário. A reconquista do perdido amor impõe-se como necessidade, como único caminho. Todos os atalhos propostos para a salvação são ilusórios sonhos. Não há atalhos possíveis; não há substituto que faça, no lugar do homem o que lhe cumpre executar, nem a salvação poderá ser de um talho e acontecer a curto prazo, no lapso apenas de uma existência corpóreo-terrenal. A salvação não acontece de uma única vez, de uma vez por todas, mas é progressiva, por etapas, por graus, por aproximações. Qualquer homem medianamente bom é já um salvo, em relação ao ponto inferior de que partiu, em sua evolução; contudo, ele o sabe, quanto lhe falta ainda por andar. Cumpre-lhe desvirar-se, pouco a pouco, de dragão egoísta, em sábio, em amoroso. Não há salvação fora do amor.

13) - Por causa do imperativo do amor que põe o amante em luta pelo amado, cumpre ao que avançou mais ajudar aos que avançaram menos. Cumpre ao iluminado retornar à caverna a fim de esclarecer e auxiliar os iludidos das sombras. Esta é a causa por que milhões de espíritos não caídos, dentre os quais Cristo, se desterraram das empireas moradas, saíram da luz na qual quais sóis fulguravam, para encurvarem a matéria de seus perispíritos, adensando-se na matéria de níveis ou planos inferiores, a fim de resgatarem os perdidos das trevas do egoísmo, os seres dragontinos, abrandando-lhes a fúria com lhes mostrar o Oriente luminoso, o só capaz de guiar-lhes os passos em demanda do Céu, cifrando-se nisto a salvação.

Eis a chave, em termos de razão, e o mais, tudo, são dela decorrentes ou a ela conducentes, conforme se use o método analítico-dedutivo, ou o indutivo-sintético. O "Epitáfio de Satã" (contido no livro “Um Estudo do Nosso Tempo”) condensa, numa síntese suprema, o saber todo das filosofias e das religiões.

Porém, assentando seu aríete contra os dois primeiros capítulos da obra "Um Estudo do Nosso Tempo", nosso crítico cuidou ter dela destruído a base. Por esta razão antecipou a crítica ao dizer: "Deve ter faltado ao Sr. Caramaschi aquele ponto de apoio que Arquimedes pedia para a sua alavanca". Enganou-se, no entanto, porque os primeiros capítulos não se ocuparam da colocação do problema-mor que só aparece mais adiante, e que permaneceu intocado. Os problemas da atualidade, como galhos de uma árvore, nascem daquele tronco fundamental, ao qual chegamos por uma convergência, a partir dos fatos próximos, particulares, vividos, e que

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agitam o nosso tempo. Estes, pois, serviram de introdução à obra que, sem eles, seria a mesma. Ainda que tivesse podido, nosso prezado crítico, negar a existência dos problemas do nosso tempo convulsionado, pois, segundo ele, tudo vai bem com os jovens, com a Arte Moderna, com as mulheres, com a história, esta, porque guiada pela mão de Deus, ainda assim, o problema fundamental persiste, permanecendo intocado, e é este: a Doutrina da Evolução, base da cultura moderna, cientificamente demonstrada, pôs em xeque todas as filosofias e todas as religiões. Este é o problema.

Este repto não respondido, como soe acontecer na história, deu azo a que o mundo se precipitasse no materialismo; daí o abandono do espírito, a rebelião dos jovens contra as instituições, contra a moral, a caótica Arte Moderna, o desnorteio das mulheres em sua luta liberticista, a desagregação da família, os festivais de pornografia, a literatura apimentada feita às pressas para dar vultoso lucro e a curto prazo, a desenfreada libertinagem (troca de esposas, casamento em grupo, pederastia oficializada, etc.), a queda do índice de natalidade nas nações desenvolvidas, a religião nova dos nacionalismos (Toynbee), os cultos a Satã, o descaso absoluto pela pessoa humana, concreta, tornada simples coisa nas cidades populosas, e outras conseqüências mais.

Daquele problema-mor nasceram estes todos, menores, cujas soluções só são possíveis com esta nova retomada, com esta síntese filosófica à qual não faltou, de nenhum modo, "aquele ponto de apoio que Arquimedes pedia para a sua alavanca". O ponto de apoio de todo este sistema que surge, são os três enunciados-chaves já vistos, e que, depois, se explicitaram em treze outros. Tal a chave do sistema, o ponto de apoio que, semelhante ao da alavanca de Arqui-medes, está presente em toda a obra, pois a ele toda ela se refere. Fale Fritz Kahn:

"(...) Mas cada planeta, por sua vez, forma em torno de si mesmo um campo de espaço. Estes campos são, segundo Einstein, "entrosados um no outro" e, ao girarem os planetas em torno do Sol, esses campos entrosados deslocam um ao outro como rodas dentadas. O sistema solar é máquina de espaço e se o espaço fosse visível, teríamos a impressão de vivermos no interior de enorme relógio celeste". Eis, pois: assim como a alavanca de Arquimedes está difundida em todo o universo de qualquer máquina, assim como em toda a máquina do Universo, nosso ponto de apoio está onipresente em qualquer parte da obra... onde cada argumento, como uma roda pequena, engrena sua alavanca à alavanca duma roda maior, indo assim, até a alavanca suprema da roda-mor ou ciclo máximo INVOLUÇÃO-EVOLUÇÃO.

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IX - CONCILIAÇÃO DE OPOSTOS

Assentado, de maneira a não padecer dúvida, que a essência e a substância formam o ser real das coisas, sem nenhuma exceção; que a essência sem substância alguma, é pura idealidade vazia, abstrata, sem existência, estando só em nossa inteligência, como con-ceito, e não, fora dela; que, para ter realidade, existencialidade, a essência precisa estar jungida à substância, ou revestida desta; que, por outro lado, a substância sem nenhuma essência é puro caos que existe mas não é; que a própria divindade, ao mesmo tempo que é, como essência, existe, como substância, sendo esta a Energia-Substância-Amor, primária, primordial, na ordem das coisas, e da qual tudo decorreu por transformações; que toda unidade, para sê-lo, precisa ser cósmica, orgânica, sistemática, univérsica em si mesma, resultando ela, já de início, da combinação entre si de um par de opostos que se complementam reciprocamente; que estes dois componentes, embora contrários, são iguais entre si em valor, em importância, por pertencerem ao mesmo nível hierárquico, vem esta conseqüência inexoravelmente necessária: não há prevalência do espírito sobre a matéria, nem desta sobre aquele.

Entenda-se que espírito, aqui, é o mesmo que alma, não significando a entidade que se mostra viva e atuante após a morte física. O espírito desencarnado, tal como o homem enfrascado na matéria densa, igualmente é uma unidade dual, formada, também, de corpo e espírito, ou seja, segundo Kardec, perispírito e espírito. O perispírito não é mais do que um corpo de matéria mais leve, menos encurvada, de outra dimensão do universo, e o espírito é idêntico a alma.

Os espiritualistas e os materialistas estiveram a desaver-se o tempo todo, porque nem um nem outro tinha nas mãos a chave que propiciaria a conciliação destes opostos na síntese. Fazer o espírito prevalecer sobre a matéria é o mesmo que fazer a sabedoria superar o amor, porque, uma sabedoria, sem amor, equivale a uma essência sem substância; pela recíproca, fazer o amor mais excelente que a sabedoria, equipara-se a pretender que seja a substância mais que a essência. Um amor sem sabedoria é o mesmo que uma substancia sem essência; e do mesmo modo como a substância sem essência é caos, um amor sem sabedoria é caos-do-amor, ou anti-eros. O ente dragontino ama a negação, a feiura, a maldade, destroços, confusões, estragos. "Sou o espírito/ que estorva sempre. E com razão, pois tudo/ quanto nasceu merece aniquilado;/ portanto era melhor não ter nascido./ Meu elemento é o que chamais vós outros/ Destruição, Pecado, o Mal, em

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suma" Goethe – Fausto). Esse amor carente de sabedoria é o caos-do-amor, ou egoísmo, ou anti-eros, tendente a anular tudo, até mesmo a si, no Caos último da descida involutiva, e primeiro de que partiu a Evolução.

A sabedoria é de natureza essencial, no passo que o amor o é substancial; porém, como essência e substância, ambas de igual valor, formam um par, ipso-facto, igualmente, a sabedoria e o amor se acham jungidos, inextricavelmente na unidade do sábio-santo ou do santo-sábio. Não pode, pois, haver santo sem sabedoria, nem sábio sem virtude; não há o só teoricamente sábio, porque sabedoria se deriva de sabor de experiência, de vivência. Também não existe o só praticamente santo, porque, sendo o santo o dragão pelo avesso, sua santidade precisa assentar-se numa doutrina, num lastro de convicções teóricas verdadeiras. O sábio chega à santidade e ao amor pelos caminhos do conhecimento, no passo que o santo chega à sabedoria pelos caminhos da virtude e do amor; o primeiro é filósofo, no passo que o segundo é místico; um é santo porque sábio, como Sócrates; e o outro, sábio porque santo como São Francisco de Assis. O que é o fim para o sábio, é o início para o santo, e vice-versa; o fim do conhecimento do sábio é o amor, no passo que o fim da virtude do santo é a sabedoria, ambas, sabedoria e santidade, conducentes a criar o justo e perfeito homem integral. Esta é uma forma de expor esta matéria, ou de explicita-la em pensamentos; contudo, a realidade, necessariamente, não tem de ser assim, e antes, pode ir pela alternância do conhecimento e da virtude, ambos se reforçando mutuamente até à plenitude.

Ao espiritualista repugna a idéia do paralelismo entre o espírito e a matéria, porque sua idéia de matéria se mostra distorcida, como sinônimo de animalidade grosseira e de mal. Quando Cristo sentencia que "o espírito, na verdade, é forte, mas a carne é fraca", quis referir-se a uma carne insubmissa, recalcitrante, rebelde, ainda ressumbrando de animalidade. No espírito já raiou a luz da desinversão, porém, esta pulsão angelical ainda não se fixou no hábito do bem, como se fora um segundo instinto, uma segunda natureza. O homem, nesta fase da desinversão, é campo de luta entre o anjo e satanás, estando o anjo no espírito, e o demônio, na animalidade. Quando, porém, depois da desinversão, o santo, como que por instinto, faz o bem, sem nenhum esforço, por prazer até, e ainda que o não queira o faz, certamente que não se vai dizer ainda que a "carne é fraca". Cristo fazia doutrina para os outros, que não para si; sua carne não era fraca, mas heróica, acompanhando o espírito, solidária com este, até o brado final: consummatum est. De Sócrates também se sabe que sua carne não se lhe opôs ao espírito, nem mesmo no terrível lance em que, sereno,

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tranqüilo, esvaziou a taça da morte. Qual ele, qual Cristo, a história está referta de entes sublimados, cheios de heroísmo, para os quais já não vale a sentença de Cristo: "a carne é fraca". Daí que, não vendo antagonismo entre sua carne e seu espírito, São Francisco de Assis chamava ao próprio corpo de irmão corpo.

Em hipótese alguma não sendo possível EXISTIR (estar no espaço-tempo) um puro espírito, sem substância alguma, no mundo espiritual as entidades também se mostram revestidas de um corpo orgânico, conquanto de matéria menos encurvada que a dos entes de nosso mundo de matéria densa. Lá, também, para os que ainda lutam por desinverter-se, "o espírito, na verdade, é forte, mas a carne é fraca".

Esta idéia nova do corpo como aliado, do corpo como irmão, de a substância corporal ser inalienável ao espírito, só agora é possível, visto como só agora fica demonstrado que a essência e a substância não se apartam na unidade de quaisquer coisas, nem na dos entes vivos, não havendo exceção nenhuma, nem mesmo para Deus. O corpo do demônio não é adversário do espírito diabólico, nem o do anjo se mostra inimigo da alma angelical. "Que pode o puro espírito, escreve Lagneau, se não começar por se dar um corpo que atue sobre os demais corpos?".

O corpo se mostra satânico só para o espírito, encarnado ou não, que luta por desanimalizar-se. O corpo é diabo, inimigo, adversário do espírito, só enquanto ele ainda se mostra invertido, rebelde, recalcitrante ao esforço da desinversão já operada em propósito, em projeto. Para os que fazem a evolução, primeiro raia a luz no espírito que, por isto, trava a luta por desanimalizar-se. A matéria resiste, por sua natural inércia, obrigando o espírito a um continuado esforço, tenaz e vigilante, de modo que a desinversão só se efetiva, quando se mudam as próprias pulsões animalescas em suas contrárias. O corpo, então, outrora tido como ferrenho adversário, torna-se em aliado útil, fiel, transforma-se em irmão que cumpre amar, em primeira instância, antes que esse amor se expanda a outros entes ao mundo e a Deus. O egoísmo, neste caso, se dilata, e este egoísmo dilatado é o amor.

Se o amor tem que se expandir de próximo em próximo, e o primeiro próximo é o próprio corpo confundido com o espírito, ambos formando o ego; só depois deste, vêm os espíritos-corpos-egos dos outros, depois o mundo, e, finalmente, Deus; Deus será o último termo da expansão. Deus é o mais importante, porém, não é o primeiro na cadeia da dilatação do egoísmo. E como o amor é substantivo, é físico-moral, ele se dirige sempre a um objeto existente à mão, à vista; e Deus, embora existente, oculta-se, inacesso, para além do horizonte ilimitado. Então não há amor a Deus para o que se inimiza com o corpo, com o próximo e com o mundo. Está correto o pensamento de São João para quem é mentiroso o que diz amar a Deus, mas se aborrece de

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seu irmão, porque, como afirma, quem não ama ao próximo a quem vê, como pode amar a Deus a quem não vê? (I João 4, 20). O amor do próximo, pois, é o passo necessário para quem aspira chegar ao amor de Deus. Esse místico amor a Deus que anda por aí nas bocas dos religiosos de todos os matizes, é semelhante ao amor de D. Quixote pela Dulcinéia que ele inventara e nunca vira, ou como o amor à humanidade in abstracto. Sendo o amor substantivo, dirige-se ao que é substancial, e não, a nenhuma idéia vazia.

Depois do próximo, vem o mundo. E não esquecer de que mundo significa puro, ao contrário de impuro que é imundo. Mundo é o cósmico, o harmonioso, o bom e o belo, no passo que imundo é o acósmico, caótico, feio e mau. Em qualquer nível, o espírito estará frente a um mundo, tanto mais misturado ao imundo, quanto mais invertido e baixo ele for; ao contrário, quanto mais se sobe nos níveis, mais os mundos serão mais mundos, até que, totalmente, se mostrem escoimados de imundície. Céu e inferno andam misturados, de sorte que, quanto mais se desce nos níveis, mais o caos se ostenta, ficando o céu esmaecido; pela recíproca, quanto mais se sobe neles, mais o céu se evidencia e se retira o caos. Ninguém se escandalize, portanto, quando dizemos que é preciso amar ao mundo que, certamente, não é o que nele há de impuro, de invertido, de imundo.

O último termo é Deus, para o egoísmo que se expande, sendo ele a Referência do homem, a só que tudo justifica, tudo move, tudo ama, tudo vivifica, tudo para si arrasta, qual abóbada de energia-amor, anos-luz quintilhões distante da curvatura deste nosso universo que, já de si, transcende a toda humana imaginação. O amor de Deus envolve o universo, penetra os mundos, incendeia o coração do santo, ilumina o sábio, inflama de êxtase divino o gênio e o artista.

Tudo isto, no entanto, foi posto de lado pelos filósofos que viram em Deus a Essência pura, pelo que passaram a considerar o mundo e as coisas só por suas essências. Procedeu-se assim a ruptura, e o corpo, visto que é substancial, foi também havido por impuro. Plotino não permite que se lhe retrate o corpo, para não perpetuar uma sombra, e Anaxarco grita ao tirano que mandara triturá-lo: - Isto que trituras não é a pessoa, mas só o corpo de Anaxarco! - Quebras-me o braço, se o apertares mais, brada Epicteto a seu senhor desumano!, e pouco mais, e o braço se partiu. - Eu não disse que se quebraria? - tornou Epicteto vitorioso, em seu desprezo da matéria corporal. Vem o cristianismo, e também prega o desprezo do mundo; e porque o corpo é mundo, também o desprezo do corpo.

No entanto, a correlação entre o espírito e o corpo é inalienável. Que o espírito, o pensamento, a idéia atuam sobre o organismo, prova-o a hipnose pela qual se pode produzir queimaduras reais,

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quais se obteria com um ferro em brasa. Vice-versa, que o corpo atua sobre o espírito, provam-na as drogas que, ingeridas, provocam desequilíbrios mentais e emocionais. Que a mente atua sobre o corpo, prova-se nesta experiência: mete-se cada braço de um paciente hipnotizado em um anel feito de cano de metal ou vidro, e pelo interior de um dos canos enrolados em argolas, faz-se passar água gelada, e pela outra argola, a do outro braço, água fervendo. Sugere-se, porém, que a água gelada é água fervendo; da argola de água fervendo, não se diz nada. Os braços ambos mostram-se queimados em igual intensidade. Sugere-se, depois, que o braço "queimado" hipnoticamente, por água gelada, vai demorar mais a sarar que o outro; e demora, de fato. Bolhas hipnóticas são o nome dado às queimaduras produzidas por um simples selo-decorreio, mas com a sugestão de que são emplastros corrosivos. O espírito age, assim, sobre a matéria, e têm esta base sugestiva todas as maravilhas da fé no que se refere às curas milagrosas. Pela hipnose se pode produzir anestesias profundas, em pacientes sonambúlicos, até para se amputar uma perna, ou braço, ou extrair um olho. O oposto também se verifica, e para alterar uma personalidade, bastam hormônios, bastam drogas delirantes, eufóricas, bastam sofrimentos quaisquer, que, se assim não fosse, não teriam sentido os castigos corporais, e as provações da existência neste mundo.

Não há, pois, prevalência do espírito sobre a matéria, nem a desta sobre aquele, porque ambos, espírito e corpo formam a unidade humana indissolúvel. Onde estiver o foco da excitação, para aí o todo se dirige. Não há primazia entre a essência e a substância, porque ambas, no mesmo nível hierárquico, conquanto opostas e complementares, são necessárias à unidade da coisa. A sabedoria e a santidade coexistem no par indispensável de que resulta a formação do homem-integral. Finalmente, Deus, como Lei que tudo rege, e como Amor que tudo cria e conserva, não é dois, mas Um, na Unidade Essência-Substância.

No entanto, porque os espiritualistas dão por certa a predominância do espírito sobre a matéria, os materialistas, numa reação antitética, propõem o inverso, isto é, que a matéria vem primeiro, e o espírito, depois. A alternativa proposta por Politzer de que, ou a matéria se deriva do espírito, ou este, daquela, não subsiste, porque ambas, essência e substância são irredutíveis entre si, coexistindo em oposição desde sempre. Diz Politzer:

"Ou a matéria (o ser, a natureza) é eterna, infinita, primeira e o espírito (o pensamento, a consciência) deriva dela; ou então, o espírito (o pensamento, a consciência) é eterno, infinito, primeiro, e a matéria (o ser, a natureza) dele deriva”.

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"A primeira das respostas é que constitui a base do materialismo filosófico. Quanto à segunda, encontra-se, de uma forma ou de outra, em todas as doutrinas que decorrem do idealismo filosófico.”

"Essas duas atitudes filosóficas, as únicas que são coerentes, são diametralmente opostas".

O ideal (donde idealismo) que se opõe à matéria (donde materialismo), não é, em primeira instância, pensamento, consciência, como diz Politzer. O ideal é a contrapartida do real, este que vem de res = coisa. Uma matéria pura sem nenhuma forma, seria o Caos mais extremo, em que se acham ausentes quaisquer princípios, quaisquer leis, donde ser impossível a sua intelecção. Igualmente, o ideal vazio de conteúdo material ou energético, é pura entidade de razão, sem realidade objetiva, sem existencialidade. Não é o material que gera o ideal, nem este àquele; ambos co-são ou, coexistem desde toda a eternidade do tempo, no infinito do espaço. O ser real é sempre, e por toda parte, uma unidade na qual se resolve a contradição essência e substância, idealidade e consistência, forma e matéria. A idéia de cubo, de prisma, de esfera, de cilindro, não dariam, jamais, nunca, esses sólidos geométricos sem o concurso da matéria que enche o vazio dessas formas ideais - isto é pacífico. Logo, em outros termos, Politzer diz este absurdo: ou a matéria nasce da idéia, ou esta, da matéria; ou a essência surge da substância, ou esta é gerada por aquela; ou o conteúdo produz sua forma, ou é esta que cria seu conteúdo. Uma é o antecedente ou causa da outra, entre essência e substância, segundo o entende Politzer. Que ambas co-são ou coexistem desde sempre na unidade do ser real, qualquer que ele seja, sem nenhuma exceção, nem mesmo para Deus, isso Politzer não cuidou. No entanto, se pegarmos a unidade material mais simples, o elétron, verificamos que nele há a idealidade da forma, dos princípios, das leis de sua constituição, e sua existencialidade substantiva. Fora da mente do homem, na natureza, no universo, não existe idealidade pura sem substância, nem esta se organiza em coisa alguma, sem aquela. Aristóteles tinha razão quando disse que a forma é tão necessária à matéria, quanto esta àquela. Contudo esteve errado ao afirmar que Deus é actus purus, pura essência, serrm matéria alguma. Deus não pode ser pura idealidade, vazia de conteúdo, de substância, de consistência, sem objetividade, sem existência.

A isto mesmo chega Politzer, só que esta verdade não interessa à sua filosofia, uma vez que ela, conforme sua definição, não é a procura da verdade, mas a defesa dos interesses de classe. Escreve ele:

"Vê-se que Thiers se interessa pela filosofia. Por quê? Porque a filosofia tem caráter de classe. É certo que, em geral, os filósofos não

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duvidam disso. Em toda concepção do mundo há um sentido prático: favorece determinadas classes e desserve outras. Veremos que o marxismo é, também, uma filosofia de classe" Mais:

"Por isso mesmo é que o dever dos operários e dos trabalhadores em geral deve ser: opor à filosofia que serve aos exploradores, uma filosofia capaz de ajudar na luta contra esses mesmos exploradores. Ainda isto:

"Não está, pois, bem claro que, se a filosofia é uma concepção do mundo, concepção que tem conseqüências práticas, é preciso que os trabalhadores que querem modificar o mundo tenham dele uma justa concepção?"

Eis, pois, que Georges Politzer, expressando o pensamento marxista, define a filosofia como sendo: "concepção geral do mundo da qual se pode deduzir certa forma de conduta". Esta definição está certa. Porém, em vez de desenvolver este enunciado que daria na conclusão de que cada filosofia é uma concepção geral do mundo, um ponto de vista, uma perspectiva do mundo (Ortega), em vez disto, envereda-se para o lado das lutas de classes, donde a conclusão: as filosofias são justificações dos interesses de classes. Então, que é a filosofia? é a concepção geral do mundo ou é a justificação dos interesses de classes? Se for tomada esta última definição para a filosofia, ela não busca a verdade, e sim, racionalizar o interesse. Logo, não amo a verdade, doa a quem doer: o que amo são os meus interesses, as minhas vantagens pessoais decorrentes dos interesses da minha classe. Se sou um burguês, tenho uma concepção do mundo; se sou proletário, imagino outra, sempre tendo por base o meu interesse. Parodiando o sofista grego, poderíamos dizer: o interesse é a medida de todas as coisas, havendo tantas verdades quantas são os interesses. Acaso é isto filosofia?

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Assim, "é preciso que os trabalhadores que querem modificar o mundo tenham dele uma justa concepção", só que a justa concepção não é a que é, doa a quem doer, mas a que condiga com os seus interesses. A visão do mundo que corresponda aos interesses dos proletários, essa é a justa concepção; o que lhes interessa é justo; tudo aquilo que se opõe aos seus interesses, injusto. A justiça é o interesse do mais forte. Bela definição de justiça já pensada por Trasímaco, por Machiavel, por Nietzsche! A verdade não interessa, que outro é o objetivo. Diz Politzer:

"Para o materialismo dialético, a forma não pode existir sem o conteúdo determinado, e, reciprocamente, o conteúdo não pode existir sem a forma, sem uma forma determinada". Esta verdade tem como conseqüência a igualdade de valor entre forma e conteúdo, porque ambos pertencem ao mesmo nível hierárquico, conquanto opostos e complementares, para formar a unidade da coisa. Porém, em vez de este caminho conseqüente, o corcel redomão tasca o freio, remetendo-se pela viela do interesse”; diz, então:

"Dizer que o conteúdo não pode existir sem a forma não significa, absolutamente, que ele é determinado por ela. Ao contrário, é ele que a determina. Isso significa que a forma não é preexistente, imutável, mas variável, e que muda em conseqüência das mudanças que ocorrem no conteúdo. É o conteúdo que muda primeiro, pela modificação das condições do meio circundante; a forma muda em seguida, de acordo com a mudança do conteúdo, de acordo com o desenvolvimento das condições internas do conteúdo. Segue-se disso que, longe de preexistir ao desenvolvimento, a forma o reflete, com certo retardamento: a forma se retarda, em relação ao conteúdo".

E para provar sua assertiva, Politzer escreve que "os biólogos demonstraram experimentalmente a ligação existente entre a forma e o conteúdo. Se uma pequena parte da matéria de um ovo em desenvolvimento for transportada para outra parte do ovo, ver-se-á, por exemplo, desenvolver-se uma pata onde, normalmente, não deveria estar: ter-se-á criado, artificialmente, um monstro. Ora, no momento da operação, as diversas partes da matéria do ovo não se distinguem umas das outras a não ser por suas propriedades químicas, pela natureza das substâncias que ali se encontram (...) É, pois, a natureza bioquímica das substâncias dos ovos das diversas espécies que determina, em última análise, a forma do corpo do animal: é o desenvolvimento do conteúdo que precede o desenvolvimento da forma". E transcreve isto de Stalin: "...no decorrer do desenvolvimento, o conteúdo precede a forma, a forma se retarda em relação ao conteúdo... O conteúdo, sem a forma, é impossível; etc.".

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Pregada esta doutrina a um operário vazio, jejuno, ínscio de filosofia, ou a um estudante de qualquer curso, ainda imaturo e disponível, tudo lhe parece perfeitamente científico, e por isto aceitável. Basta, porém, por a vista sobre o dito, e já se vê onde se oculta o sofisma e a incoerência. Se a forma é inseparável de seu conteúdo; se não há conteúdo sem forma desde os elétrons, prótons, átomos, moléculas, gens, células, como é que se vai mexer no puro conteúdo, sem atuar em toda a hierarquia da massa que, longe de ser conteúdo puro, é já forma-conteúdo? Quando um biologista destaca e transfere a parte de matéria que deveria formar uma pata num embrião, para outro local, aqui nasce uma pata, ficando ela em falta no local certo. Que isto prova? senão, que a forma-pata já estava predeterminada, fosse ela para onde fosse?

Retirada um pouco antes essa mesma porção de matéria que iria transformar-se numa pata, e transferida para o dorso, por exemplo, do embrião, não nasce aí pata nenhuma, e sim, transforma-se em epiderme. Spemann o demonstrou em tritões. "O grupo de células que formariam um olho, se deixadas em seu lugar, transformam-se em epiderme ordinária quando enxertadas no flanco de outro embrião".

Um pouco depois desta fase, o embrião inteiro se torna num mosaico bioquímico, e, então, cada área ou setor tem já sua destinação pré-fixada... pelo eixo longitudinal do embrião. Primeiro se define o eixo longitudinal do corpo; depois, o eixo longitudinal de cada membro. Aquele mosaico bioquímico tem suas partes todas definidas pelo eixo que dá unidade ao todo, e retirar a porção de matéria que iria produzir um membro, é o mesmo que amputar esse membro ao animal já formado. No entanto, os gens que irão dar forma a esse membro, cumprindo a ordem irreversível do comando geral, criarão o membro onde quer que esta porção de matéria do mosáico vá parar. É assim que, se retirarmos, neste ponto do desenvolvimento do embrião; um setor destes, ele não será substituído no local, ficando em falta aquilo que tal setor formaria; se a área retirada daria um olho, vá ela para onde for, aí formará um olho, seja no flanco do tritão, seja nos seus órgãos internos. À área que daria uma pata posterior, antes de formar-se o seu mosáico particular, funciona como se fora um "embrião de perna", e, como tal, se for cortado ao meio, dará duas patas posteriores idênticas, isto é, do mesmo lado.

Esta perna em embrião, também, por sua vez, após formado seu eixo longitudinal, se fraciona no mosáico das partes menores, em que pode, em cada fase, ser retirada a porção de uma peça particular, um dedo, por exemplo. Igualmente, a porção de matéria do dedo, se

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for retirada antes de o mosáico formar-se e transplantada, torna-se no que for próprio dessa área para onde foi levada - epiderme, por exemplo; todavia, tanto que o mosáico particular da pata se formou, tanto que a área se diferenciou, a porção de matéria destinada a formar o dedo, dará um dedo, onde quer que seja transplantada. Eis, pois, que o grupo de gens das células responsáveis pela formação da pata, já tinham, então, desencadeado o processo generativo, segundo uma meta prevista, pelo que a forma da pata já estava determinada, antes da sua formação. A forma exterior da pata, como tudo, aparece simultaneamente como forma e conteúdo, sem falta de coincidência, sem que haja retardamento da forma em relação ao conteúdo. Forma exterior da pata, dissemos, porque esta resulta das formas-conteúdos internos, ou forma interna. As células operárias do sangue vão carregando o material com que as células dos tecidos construirão o que têm de construir, em obediência ao comando dos gens que agem como moldes ou modelos. E os tecidos se diversificam, quando uns gens tomam a dianteira no comando. O organismo é a execução duma sinfonia morfológica em que, ora uns, ora outros grupos instrumentais são solicitados a tocar, sob o comando do regente que, como é um, dá unidade ao todo. Esse regente é constituído pelo grupo de gens que comanda, do princípio ao fim, a formação de um indivíduo da espécie. As variações que tornam o indivíduo único, aconteceram, então, no momento da divisão redução que deu, como resultado, aquele óvulo e aquele espermatozóide os quais, em se juntando, determinaram a formação do zigoto.

Não há dois gametas iguais, porque o crossing-over acontecido seja para se formarem os óvulos, seja para os espermatozóides, os torna a ambos diferentes quanto à forma interna; exteriormente são iguais; contudo, internamente, diferentes. O baralhamento de gens entre os cromossomos (crossing-over), por ocasião da meiose, produz combinações tantas, que ainda está por calcular-se o número de possibilidades de formações de indivíduos diferentes. É nesta base que têm princípio os complexos formas-conteúdos internos que culminam na edificação de todo o organismo.

Como os átomos são univérsicos, são cósmicos, possuem ordem, obedecem leis, isto é, possuem forma, por causa disto, ao se assciarem nas moléculas, não o fazem a esmo, disto resultando que as moléculas também são cósmicas, e não, caóticas. Ora, os gens são unidades específicas feitas de moléculas gigantes, que agem como modelos; o crescimento posterior é um arranjo segundo os dentes e entalhes do modelo. "E se uma molécula de proteína contém, em média, uns mil átomos mais ou menos, o gene deve conter cerca de cem mil átomos". Ora bem: cada átomo é um cosmo, e mil deles, integrados na

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constelação de corpos químicos da sigla CHONS (Carbono, Hidrogênio, Oxigênio, Nitrogênio e Sulfur = “Enxofre”), formam uma molécula de proteína que é outro universo; e são precisos cem universos destes para formar uma galáxia chamada gene. E o plasma germinativo de uma moscazinha muito miúda, pouco maior que o "mosquito pólvora", muito encontrável nos frutos passados de maduro (Drosophila), possui, provavelmente, seis mil gens. E a forma externa, visível, depende do arranjo de toda esta hierarquia universal de formas internas.

Se um assentador de tacos do piso de uma sala decidir-se que vai assentá-los em escama, colocados os primeiros, o resto segue, necessariamente, pelo ajustamento a esses primeiros; tal os gens, no comando da formação dos tecidos. Um organismo rejeita um coração transplantado, porque este possui outra estrutura genética, outra forma interna que não se encaixa na do organismo recebedor. Os corações humanos, embora iguais por dentro e por fora, e ainda quanto aos tecidos, veias e artérias, possuem células dissemelhantes, organizadas de acordo com esquemas genéticos diferentes, a que damos o nome de forma interna. Tudo o que não corresponder à estrutura genética, à forma interna, é corpo estranho que precisa ser eliminado ou isolado, envolvido por uma capa-prisão. Este envoltório isolante se espessa e acaba por sufocar o órgão transplantado, e nisto se cifra a rejeição. Quanto mais complexo for o ente biológico, tanto mais pronta e violenta será a rejeição. Uma planta aceita enxertos (transplantes) até de espécies diferentes; no homem, o organismo só aceitará o que for próprio do organismo. Não se pode, pois, falar de forma-conteúdo exterior, senão em função dos universos hierarquizados nos conteúdos-formas interiores.

Quando Politzer e Stalin afirmam que "é o conteúdo que muda primeiro", o operário labrego e ingênuo, fica a pensar que a massa de uma crisálida ou ovo, por exemplo, é uma pasta mole, amorfa, caótica, sem lei, sem forma interna. Todavia, para não incorrer na condenação dos que entendem, e, ao mesmo tempo, jogando areia nos olhos do operário, Politzer explica por confusos termos: "no momento da operação, as diversas partes da matéria do ovo não se distinguem umas das outras a não ser por suas propriedades químicas, pela natureza das substâncias que ali se encontram (...) É, pois, a natureza bioquímica das substâncias dos ovos das diversas espécies que determina, em última análise, a forma do corpo do animal (...) Embora escuro e confuso, isto está certo, porque a tal de "natureza bioquímica das substâncias" é o mesmo que conteúdos formas interiores de cujo arranjo depende a forma exterior. Pois claro: se todas as organizações se fazem do pequeno para o grande, do simples para o complexo, este é o último a aparecer; mas aquilo que

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o sofista Politzer chama de conteúdo não é caos substancial, sem forma alguma, como deixa entrever. Uma casa se constrói de tijolos, e a forma da casa vai depender de como tais tijolos são arranjados; nunca, ninguém, porém, iria dizer que os tijolos são barro amorfo. Fora isto, o edifício, ainda, não se levantaria sem uma planta preestabelecida, sem a qual não se saberia como dispor os tijolos.

E os tijolos, antes de formados e cozidos, eram barro mole, untoso, amorfo; mas este barro informe é argila e areia; e a argila é silicato de alumínio hidratado, e a areia é óxido de silício, pelo que nenhuma nem outra é caos. Após formados e cozidos ao fogo, os tijolos são assentados com argamassa em que entram cal, areia e água. Pois a cal não é caos, e sim, óxido de cálcio (cal virgem) que, posto em contato com a água, se torna "cal apagada", cal hidratada, ou hidróxido de cálcio, isto é, cessa de ser causticante, e principia a fixar o gás carbônico do ar, indo pouco a pouco se tornando carbonato de cálcio. Se supusermos que a organização primeira é a das partículas subatômicas, a segunda será a dos átomos, a terceira, a das moléculas, a quarta, a dos tijolos e a da argamassa, a quinta, a da casa pronta. Nada de caos! porque com e sobre ele nenhuma coisa se constrói. Cada organização se apóia sobre a antecedente, em hierarquia, do pequeno ao grande, de simples ao complexo, do elétron ao universo.

Parodiando a confusa fala de Politzer, poder-se-ia explicar ao operário que "é a natureza mecano-química dos materiais que determina, em última análise, a forma do edifício"? Quer dizer: basta a natureza dos materiais, sem um agente organizador e sem uma planta da organização? Basta o barro para que os tijolos se façam a si mesmos, se cozam nos fornos? Basta, depois, a simples reunião dos tijolos cozidos, da areia, da cal, do ferro e do cimento, e tudo, por magia da matéria, por natureza destas substâncias, se vai arrumando por si mesmo, até que, de repente, que maravilha!, a casa se vê acabada, pintada e limpa, pronta para ser habitada?

Como os sofistas Politzer e Stalin, um e outro fala a operários rombudos de entendimento científico e filosófico, então, matreiramente, fá-los crer que a forma é só a externa, a que enxergam com os olhos da cara, e, então, apontam com o dedo a massa informe de uma crisálida, e dizem: olhem aí; essa massa amorfa vai virar uma linda borboleta. Primeiro está a massa, o conteúdo, a substância, e só no fim, com retardamento, é que a forma da borboleta surge, graças às modificações desse conteúdo sem nenhuma forma, sem nenhuma essência, o que vale dizer, desse puro caos. Logo, a forma nasce do conteúdo, a essência, da substância, a alma, da matéria.

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Este é o sofisma. Vejamos, agora, a incoerência: assentado que "a forma não pode existir sem o conteúdo determinado, e, reciprocamente, o conteúdo não pode existir sem a forma, sem uma forma determinada", a conseqüência lógica, natural, espontânea é a de que forma e conteúdo constituem um par de opostos, iguais em importância, que se unijugam na estrutura da coisa, sem primazia para qualquer das partes. Em vez da opção por esta síntese, Politzer e Stalin fazem a ênfase recair sobre o conteúdo, como reação aos idealistas antigos e modernos que a fazem recair sobre a forma. Então, afirmam que a forma se retarda em relação a seu conteúdo. Ora bem: se a forma se retarda, então, o conteúdo vai sozinho adiante, e a forma, atrás. Neste caso, como se guia o conteúdo, quanto ao que há de formar? Entende-se, facilmente, que ambos seguem conjugados, ou seja, um inextricavelmente jungido ao outro, na realidade objetiva; mas defasados? um na frente e outro atrás? O conteúdo caótico, na frente, sem princípio, sem lei, sem ordem? e a forma, um pouco atrás, apropriando-se do conteúdo já organizado antes da organização (!), já formado antes da forma?!

Ora sus! quem não percebe, sem nenhum esforço, de um lanço de olhos, de um estalo, que não pode haver defasamento entre forma e conteúdo, porque o retardamento do conteúdo faz ficar vazia a forma que vai na frente; e, se o conteúdo for sozinho adiante, e a forma, atrás, ele, na frente, é desorganização, acomismo acaso e caos? A forma vazia existe, sim, mas só em nossa cabeça, como abstração, como pura idealidade subjetiva. De modo objetivo, concretamente, em realidade, in natura, a forma nunca é vazia de conteúdo, nem este pode apresentar-se informal, ainda que por pouco tempo, que seria quando rompe caminho na frente, deixando atrás a forma, conforme o forçado arranjo de Politzer e de Stalin.

Mas, por que aquele sofisma e esta incoerência? Porque a filosofia, segundo Politzer, é uma acomodação ideológica que tem em vista justificar o interesse de classe. Na conciliação está a verdade, porém, a verdade só o é, quando corresponde ao interesse de classe. Ora, a verdade da síntese não interessa ao comunismo, porque não dá privilégio ao conteúdo, fazendo-o primaz sobre a forma. A filosofia, então, não é o amor à verdade, mas campo de luta dos interesses de classe, e o comunismo precisa vencer aqui, primeiro, se quiser vencer nos outros níveis. Com idéias se combatem idéias, sendo neste domínio que o idealismo precisa ser desbaratado. Ciente disto, Politzer escreve: "É, pois, pela luta contra o idealismo e não pela "conciliação", pela "síntese", que a contradição pode ser resolvida, como já vimos, ao estudarmos a dialética".

Que isto quer dizer? Pois afirma, não menos, que ao ciclo do

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idealismo que vingou até agora, como tese, é preciso opôr a antítese do materialismo, não só no plano ideológico, como, ainda, no prático das revoluções pelas armas. Se os operários optarem, já, pela síntese que concilia as duas meias verdades na unidade, não sairão às ruas para lutar, e, antes, ficarão de ânimos serenados. Ora, é preciso que a antítese do materialismo esgote todo o seu impulso, para só depois ser possível a síntese. A conciliação que virá, a síntese, já vislumbrada, pertence ao futuro, não ao presente que deve ocupar-se de vencer o idealismo. Tal o pede a dialética no seu processo de tese, de antítese e de síntese. A conciliação, a síntese, traria paz nas consciências e no mundo... o que não pode acontecer, porque a história, cegamente como sempre o foi, terá de avançar; necessariamente, o planeta terá de ensanguentar-se, antes que se possa chegar à síntese, já, prevista, de antemão, como o único caminho do porvir. Como a história desenvolveu-se, até aqui, por tese, antítese e síntese, que é o mesmo que ensaio-e-erro, querer fazer já a síntese, seria quebrar a tradição histórica, transferindo a história para o plano do pensamento, elaborando neste nível, no mental, in abstracto, o ensaio-e-erro, poupando-nos, desta forma, trabalhos, revoluções, sofrimentos, sangue e lágrimas.

Mas, não! Embora estejamos enxergando esta evidência na ponta do nariz, cumpre-nos fechar os olhos, tapar os ouvidos, e fazer a revolução sangrenta, deixando a síntese, a conciliação dos opostos, para mais tarde, talvez, quando já não haja mais a humanidade. É isso que disse Politzer ao escrever que é pela luta contra o idealismo, e não, pela conciliação, pela síntese, que a contradição se resolve.

Supõe-se que o primitivo aprendeu a cozer a argila, quando, um dia, sua choça pegou fogo, tornando rubros seus utensílios de barro cru. Daí por diante, então, faziam-se palhoças para serem queimadas, com as feituras de barro cru dentro. E o gênio que demonstrou ser o calor que cozia o barro, provavelmente, foi morto a mando dos sacerdotes-feiticeiros que explicavam o fenômeno por uma versão teológica: o deus fogo retribuía a oferenda da casa que devorava, ruborizando e endurecendo os utensílios que, dora em diante, não mais se derretiam quando postos nágua. Assim nós: embora saibamos que na síntese estará salvaguardada a paz, havemos que fazer guerras, precisamos promover discórdias, revoluções, derramamento de sangue, de muito sangue, para que se cumpra o previsto por Hegel, e é de que a história, necessariamente, tem de fazer-se por ensaio-e-erro, isto é, por tese, antítese e síntese. Que? fazer a síntese, a conciliação, sem que ainda tenha o mundo vivido, sofrido e morrido pela antítese? Acaso não é isto quebrar a tradição da história? Mudar a tradição? sacrilégio

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contra Hegel! sacrilégio... é pretender cozer o barro diretamente ao fogo, sem a oferenda da casa ao fulvo deus, ardente, iroso! Assim como ao deus, o homem primitivo sacrificava a casa, para obter a cerâmica, o homem moderno, "civilizado", para não trair a tradição histórica, fará não menos que o sacrifício da humanidade; só por este modo poderá conseguir a síntese, a conciliação, dos opostos idealismo e materialismo, conteúdo e forma.

Usando sempre seus dois pesos e duas medidas, escreve Politzer: "A ciência materialista parte da idéia de que não é possível, em condições dadas, que o fenômeno previsto não se produza, porque a natureza não é infiel a si mesma, ela é una".

A ciência materialista parte da idéia? Cuidáramos que ela partia da matéria, não da idéia, porque a matéria, como conteúdo que é, vem antes da idéia que é forma. Se o conteúdo vem antes da forma, e a matéria, antes da idéia, para ser coerente, havia-se de partir da matéria, que não da idéia. Partir de idéias é próprio dos idealistas. E como a idéia referida, da qual se parte, não pode ser demonstrada, por isto, é ela uma intuição a priori, outra vez, técnica do idealismo.

Mas, de que idéia se parte?Parte-se da que não é possível que o fenômeno previsto não se produza. Quer dizer: antes de o fenômeno acontecer, está a previsão dele no princípio, na lei, na forma do fenômeno? Já, agora, a forma vem antes, e o fenômeno, depois? Sim, poder-se-ia objetar: porque essa forma que vem antes, não é aquela que atua lá nas entranhas do fenômeno, mas a que abstraímos dele, e agora está, aqui, na nossa inteligência. Lá fora, no fenômeno, o acontecimento e sua lei andam parelhos, porque forma e conteúdo não se separam. Todavia, desde Kant, os fenômenos científico-matemáticos foram havidos como indutivos a priori; indutivas, porque partem da experiência; e a priori, porque, uma vez descoberto seu princípio, sua lei, sua fórmula, esta se aplica, a priori, para uma multidão de outros fenômenos da mesma espécie, só que de outras áreas. Assim, esta primeira idéia de que parte o materialismo não padece dúvida, e pode ser demonstrada nas ciências exatas. Agora, o engano:

Porque funcionou bem tal princípio kantiano do indutivo a priori para as ciências exatas, pretendeu-se que funcionaria também para as ciências não-exatas, para as ciências humanas. Esta extrapolação produziu o erro de supor-se que a história é racional (Hegel), o que não é. Nas ciências humanas, não se pode afirmar que o fenômeno previsto... irá acontecer segundo a previsão. Provou Toynbee, ao estudar mais de vinte civilizações, que uma mesma condição dada, que ele chama de repto, provoca respostas diferentes, em diferentes

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sociedades. Daí que, em se tratando do homem, não se sabe nunca como irá reagir a determinado repto, seja ele considerado como indivíduo, seja como coletividade. Se, para a natureza ser fiel a si mesma, precisa o homem tornar-se como um autômato, ou como um corpo químico, ou como um corpo em movimento, então temos isto: porque o homem é livre, porque suas ações e reações são imprevisíveis, a natureza deixa, nele, de ser fiel a si mesma. Onde há liberdade cessa o determinismo. O homem é livre para lançar as pulsões que o prendem e o limitam depois; livre para criar as leis às quais se submete... livremente; em que se baseiam as leis que cria para si, isso é outro assunto.

E se a razão de Politzer, para que os fenômenos se repitam sempre, sob as mesmas condições, é a de a natureza ser una, então, no homem, ela cessa de o ser, visto como, aqui, os fenômenos só são previsíveis como probabilidades. O profeta fatalista terá que ceder o seu lugar ao futurizador probabilísta. As profecias só são boas, quando têm a intenção de predizer as más coisas para previní-las a fim de que não aconteçam; predizer para alertar, para acautelar; ou então, para excitar os ânimos de modo a forçar a que as coisas boas se realizem.

A idéia de que se parte para supor-se que os fenômenos são constantes, sob as mesmas causas e condições, é de que a natureza é una. E se o não for? Como há Politzer de provar esta suposição, esta idéia a priori, método este, próprio do idealismo, se afirmou exatamente o contrário..., quando disse que "é pela luta contra o idealismo, não pela "conciliação", pela "síntese", que a contradição pode ser resolvida"? Se não houver conciliação possível entre as potências rivais, eternamente em luta; se a natureza se mostra, deste modo e para sempre dividida, como é una?

Então, é pela luta "que a contradição pode ser resolvida?” E onde, alguma prova de que algum antagonismo, ou contradição se resolveu com luta? Acaso a eliminação do par oponente é resolução? E isto não é o máximo que pode acontecer entre duas facções rivais, irreconciliáveis, em luta de morte? Logo, não é pela luta, mas pela integração dos opostos na unidade superior, que as contradições se resolvem; os dois contrários e complementares integram-se, conciliam-se na unidade hierarquicamente superior. Daí que próton e elétrons dão átomos; átomos e átomos, moléculas; e assim por diante, pelo que o universo, já o viu Platão, está cheio de eros, de integração, de amor, em lugar de lutas, de rivalidades irreconciliáveis, ódios mortais, como o enxerga o olho mau do comunismo. Por esta razão, pois, e não pela de Politzer, a natureza é una; só no amor poderá haver a conciliação de opostos, não na luta

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perene, não no ódio constante, não no egoísmo ignorante que tudo divide, tudo desintegra até o mais arrematado caos.

"Lachelier (escreve Gusdorf), um dos mais eméritos propugnadores do racionalismo moderno, após ter lido, um dia, um estudo de pré-história, do qual resultava que a família originária não havia sido regida pelas regras kantianas do imperativo moral, escrevia a seu colega Boutroux: "Tudo isto causa espanto, mas mesmo que tivesse acontecido, mais do que nunca importaria dizer que tal nunca aconteceu, que a história é uma ilusão, e o passado uma projeção, e que de verdadeiro só existe o ideal e o absoluto; talvez seja essa a solução da questão do milagre. A lenda é que é verdadeira, e a história é falsa".

Tanto Lachelier como Politzer fecham os olhos para a verdade: Lachelier, para ser fiel ao imperativo moral de Kant, queria reduzir à lenda as descobertas antropológicas pelas quais se comprovava ser promíscua a família primitiva. Politzer, por sua vez, sabendo que o materialismo e o idealismo haviam de conciliar-se na síntese, tasca o freio, e envereda para o lado da luta de classes, como se a vitória pelas armas do materialismo faccionário resolvesse a contradição que continuaria existindo, em idéia, sempre pronto a minar o comunismo pela base. O idealismo kantiano, em Lachelier, não dispondo de recursos para justificar o fato de ser promíscua a família primitiva, por isso o negava; o materialismo de Politzer, para sobreviver, tem de matar seu adversário, o idealismo, só que depois terá de levar o morto as costas, porque, como já declarou o próprio Stalin, "o conteúdo sem forma é impossível", o que implica dizer que conteúdo e forma ou matéria e idéia se interdependem, e um é nada sem o outro.

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X - O UNIDUALISMO

O dado natural, por sua natureza inesgotável, é sempre retomado pelos pensadores que têm a função de tornar novas todas as coisas. Todavia, uma idéia nova, só tem aceitação e consegue impôr-se, quando os tempos se acham amadurecidos para ela. A teoria da evolução apareceu já na Grécia, com Anaxímenes, e foi refutada por Aristóteles que, no entanto, anotara que as aves são aparentadas com os répteis; o avião de Leonardo da Vinci voaria se tivesse motor; a América foi descoberta e redescoberta várias vezes antes de Colombo, mas faltava a bússola aperfeiçoada para tornar regular e segura a navegação marítima, e não, aventurosas viagens como fora até então; Arquimedes, não se sabe como, calculou a massa total do universo, e seus resultados coincidem com os dos físicos e matemáticos modernos. Grandes homens sempre os teve o mundo; o que lhes faltou, foi a cooperação do tempo.

O primeiro dado natural foi a matéria, a substância, e aqui se detiveram a lucubrar todos os filósofos até Heráclito que, por fim, acabou concluindo que tudo é movimento e transformação, e que a humana inteligência é impotente para alcançar o fundamento das coisas. O fundamento que se buscava, então, era uma substância primordial, a força motriz de tanto movimento, a causa primária de que tudo nasceu. Esse, o cerrado enigma que deu motivo ao infindável palavrório. A colocação deste problema foi o repto inicial do pensamento filosófico que ricocheteou, indo-se para a posição oposta em que se manteve até hoje. Perguntava-se pela existência do que fosse primordial: quem existe?, e a resposta de Parmênides foi para a pergunta da essência não formulada: quem é? Desde então, se deu a ruptura entre existência e essência, entre forma e conteúdo, entre espírito e matéria. Os homens se dividiram em duas facções contrárias, a dos espiritualistas e a dos materialistas, sem que, até o presente, fosse possível encontrar-se a chave que possibilitasse a síntese conciliatória destes contrários na unidade.

A um jovem que nos interrogou sobre como fazer para derrotar o materialismo, respondemos que o materialismo é invencível, por que a matéria é um dado do real que precisa ser incorporado pela verdade maior que o integre na unidade. Não se trata de vencer o materialismo que volta sempre a insistir com sua verdade, até que ela seja absorvida no sistema. Como a existência se opõe polarmente à essência, o espírita à matéria, a luta de ambos permanecerá até que aconteça a integração. E a quem nos disser ser isto impossível, porque matéria e espírito se excluem, mutuamente, respondemos que é próprio da

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natureza que as unidades opostas se excluam por contradição extrema, que é isto o princípio de polaridade. Elétrons e prótons se excluem por oposição polar; contudo, quando integrados, formam os átomos. Estes, de polaridades contrárias, outra vez se excluem até que se formem as moléculas.

O erro começou quando se supôs serem iguais as coisas diferentes como materialidade e inversão. O fato de ser a natureza egoísta e amoral, foi tido como conseqüência da materialidade do mundo; não se pensou, então, que esse mundo está invertido, e que não será pelo fato de desvirar-se ele desse avesso, que deixará de ser material. Platão foi havido por um filósofo só de essência; no entanto, quem tiver olhos para ler nas entrelinhas, verificará que seu topos uranos está cheio de movimento e de substância, de energia e de transformação.

Desde que Einstein, no seu "Campo Unificado", reduziu todas as matérias e todas as energias do universo a um denominador comum que é a energia-substância, desde então, tudo o que existe é energia-substância. Das energias, evolutivamente inferiores, surgiu a vida que não existia antes; da vida despontou a irritabilidade, as sensações, os sentimentos sobre os quais se sublima o amor, também substancial, tal como as energias de baixo, de que proveio a vida. A Aristóteles repugnava que Deus fosse material; a ninguém repugna, no entanto, que ele seja amor. Ora, o amor, dado que não é essência, é substância, é energia-substância.

Deus, pois, não é Essência pura, senão, também, Substância..., e esta é aquela primordial que todos os filósofos pré-heracliteanos procuravam. Desta Substância-Luz-Amor, Deus criou os filhos e seus mundos; e porque a substância é livre e polarizável, houve a inversão e queda de parte do universo angelical. Porque polarizável, porque livre, o amor pôde mudar-se no seu contrário, no egoísmo desintegrador. De transformação em transformação, o amor primeiro produziu o arquidilúvio de energias cujas ondas, ao invés de se abrirem para fora, como as nossas ondas conhecidas, concentram-se, para dentro, à semelhança dos raios laser, e foram criar a matéria densa, no centro do universo.

Quando o homem, após transcorrido haver bilhões de anos, se viu formado sobre a Terra, mostrou-se invertido, egoísta e mau, pejado de grosseira animalidade. A pergunta do jovem a quem nos referimos, não devia ser: como vencer o materialismo, e sim: como integrá-lo na unidade maior, na síntese. Porque o problema não consiste em vencer o materialismo, e sim, em derrotar a animalidade, que é o mesmo que desinvertê-la, desvirá-la do seu avesso. Derrotada a animalidade, passa esta a atuar de modo oposto,

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cessando de ser negação e egoísmo, para tornar-se afirmação e amor. Onde é que pensam os espiritualistas que têm sede os bons hábitos e as virtudes? Acaso em teorias ocas, sem vivências? em idealidades vazias de vida? Eles são vivências efetivas, e são tão persistentes quanto os maus hábitos e os vícios. Virtude e vício são da mesma natureza, porém, opostos, e uma e outro tem sede no corporal, no substancial. Desinverter-se de dragão egoísta e mau em santo e amoroso, isso é o que nos cumpre fazer, e aí, ver-se-á que o corpo não mais é inimigo do espírito, mas amigo fiel. Por isso é que São Francisco não via inimizade entre o espírito e o corpo, e chamava a este de irmão corpo. Um homem de um natural bom, tem tanta dificuldade em praticar um crime, quanto tem o malvado em fazer o bem. A animalidade deste o leva a comprazer-se no crime, do mesmo modo como se compraz o bom no bem. Não tem sentido chamar a virtude excelsa do santo, o amor, de espiritualidade, esta, no sentido de alma, de essência, porque o amor é físico, é substancial. A virtude é espiritualidade, sim, se tomada esta no sentido de corpo celeste, corpo espiritual, de que nos fala São Paulo (I Cor. 15, 40). O corpo terrestre ou corpo animal, ou corpo em corrupção, é onde semeamos aquilo que seremos em corpo celeste ou corpo espiritual. Porém, o que não semeou a virtude, a desinversão, durante sua vida terrena, após a morte física, continua invertido e vicioso no mundo espiritual, e o corpo com que se vê vestido, se não é o celeste, é o infernal. Daí que dissemos ter havido confusão entre materialismo e animalidade os quais, de nenhum modo, são sinônimos.

A não ser assim, o homem estaria sempre em luta contra a matéria, pela eternidade em fora, porque, na carne ou fora dela, terá sempre um corpo de matéria. Um espírito desencarnado se vê num corpo pelo qual se manifesta no seu mundo próprio. Sem a substância, ele não existiria. Ainda que sem o corpo desta nossa carne corruptível, se o espírito é egoísta, perverso e mau, estará possuído de animalidade grosseira no seu corpo espectral. Ainda que vestido de um corpo carnal putrecível, se o espírito é santificado e sábio, tal corpo mostrar-se-á como aliado, e não, como inimigo.

Uma vez feita esta distinção entre materialismo e animalidade; que a batalha tem que ser travada e vencida contra a animalidade, e não, contra o materialismo ... do qual não se pode prescindir, porque ele é a contra-parte do espírito, da alma, vale perguntar: qual, o mais importante? o espírito ou a matéria?, a alma ou o corpo na unidade do ser? Esta pergunta, responderemos com outras perguntas: qual é o mais importante, na unidade do átomo: é o próton, ou são os elétrons? No átomo de hidrogênio: é o próton, ou o elétron? Na molécula do sal-de-cozinha: é o cloro, ou o sódio? Na célula: é o núcleo, ou o citoplasma?

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No zigoto: é o espermatozóide, ou o óvulo? Na família: é o homem, ou a mulher? Feitas estas perguntas, cujas respostas são óbvias, intuitivas, axiomáticas, o leitor que se responda: na unidade do ser, qual tem primazia, é a forma, ou o conteúdo? é a essência ou a substância? é o espírito ou a matéria?

O oposto do materialismo é o essencialismo ou idealismo, porém, nunca, o espiritualismo, visto como espírito não é idêntico a alma-pura-sem-corpo; e ainda que se considere como valiosa a virtude, esta é corporal, objetividade, sentimento, ação, atuação, substancialidade, matéria. Dado que o espírito é uma unidade composta de alma essencial e corporidade substancial, o espiritualismo já se mostra como uma unidade dual, isto é, uma unidade em que já se acham integrados alma e corpo. Quando o espiritualista admite a prevalência do espírito sobre a matéria, para ele, o que vem a ser o espírito? Acaso, uma abstração? pura idéia vazia de substância? A alma essencial se opõe ao corpo substancial, mas, ambos, alma e corpo, coexistem no mesmo nível hierárquico, inextricavelmente conjugados na unidade do ser; logo, como é que o termo alma do binário pode ter prevalência sobre o seu oposto e complementar? Ou então, pela recíproca, como pode o corporal ter primazia sobre a alma? Ambos são iguais em valor, em importância, porque pertencem ao mesmo nível hierárquico, embora opostos e complementares. Não há, pois, sermos materialistas ou idealistas, porque estas duas oposições se integram numa unidade que iremos chamar de que? acaso de unidualismo? Eis, já, sendo preciso cunhar uma palavra nova, para representar esta nova idéia! Assim, podemos jogar com as palavras monodualismo, monobinarismo, unidualismo e unibinarismo que são sinônimas, e, ainda, com os adjetivos, também sinônimos, monodual, monobinário, unidual e unibinário. Toda unidade é unidualista, visto como é constituída por duas outras inextricavelmente unijugadas na realidade do ser. Não, portanto, idealismo nem materialismo, mas unidualismo, porque, sem nenhuma exceção, nem mesmo para Deus, tudo o que existe é um universo, quer dizer, a unidade mais a sua contra-parte pluralidade; todavia, o termo logo abaixo do um é o dois, antes de este dois abrir-se, em leque, para a pluralidade.

As duas primeiras unidades das quais quaisquer outras resultam, são a essência e a substância. Assim, o primeiro passo para a universalidade que cada ente representa, está na dualidade. Portanto, cada um é feito de um par de oponentes e complementares, e cada unidade do par é feita de outro par, e assim por diante. Logo, cada coisa é um universo, e todo universo, se olhado de sua unidade abaixo, em hierarquia descendente, é uma progressão geométrica de razão meio; assim: 1; 1/2; 1/4; 1/8; 1/16; 1/32; etc.

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Conseqüentemente, o organograma de qualquer universo é um leque no qual, desde o cabo unitário, cada haste se bifurca, dicotomicamente, em duas menores. É o que Hegel notara, para afirmar que cada unidade é uma síntese resultante da combinação, entre si, da tese e da antítese.

Ao considerarmos que a síntese é uma resultante entre tese antítese, pensemos na fusão de duas coisas numa; evitemos pensar que cada parte se mantém independente, porque, em realidade, elas se impregnam, se embebem, mutuamente, muito mais que num imbricado. No átomo, não há primeiro os elétrons, e, depois, o núcleo atômico: ambos se fundem em um no átomo; no homem, não temos, de um lado, a alma e, de outro lado, o corpo; ambos se mostram unijugados, sem defasamento, desde as células que se formam de cadeias de moléculas orgânicas, e estas, de átomos. Tal qual o homem como um todo, as células também possuem alma e corpo.

E assim como o corpo, como um todo, resultante de todos menores mais que imbricados entre si, igualmente, a alma unitária do homem resulta da integração de almas celulares. Deste modo, alma e corpo, desde as células, acham-se enfasados, afinados entre si, sem possibilidade de separação.

Recusava-se Plotino a ser retratado, para, como dizia, não perpetuar uma sombra irreal. Como é que imaginava ele, então, um ente do mundo espiritual? Acaso, como uma alma-essência-pura sem substância, sem matéria alguma? Se, sim, a alma passaria a ser um puro ente de razão, abstração pura, carente de existência no mundo objetivo, porque só existe o que possui substância. Foi pensando deste modo, que o materialismo negou a sobrevivência da alma, pois claro: esta como essência que é, não pode existir senão num corpo de matéria, seja neste mundo, seja no atro abismo, seja no supremo empíreo. Tem razão, pois, quando afirma que não pode haver pensamento sem cérebro, não que o pensamento seja "secreção" do cérebro, e venha depois deste, mas, sim, que ambos coexistem como unidades oponentes, donde vem que ambos, pensamento e cérebro, formam o par do unidualismo da consciência. Se, portanto, não pode haver pensamento sem cérebro, a recíproca também é verdadeira, e não pode haver cérebro vivo sem pensamento, porque é pensando que o cérebro se desenvolve; foi o ato de pensar que provocou a criação das fibras associativas a se irradiarem dos neurônios. As meninas-lobas achadas na Índia entre lobos, permaneceram idiotas até suas mortes prematuras, porque seus cérebros não se desenvolveram por não terem pensado no tempo próprio do desenvolvimento. A falta de alimentos protêicos no período de zero a cinco anos também produz a idiotia irrecuperável,

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porque, embora queira o cérebro pensar, falta-lhe a matéria com que formar as fibras associativas. Pensamento e cérebro são como órgão e função, um não existindo independente do outro, pois o órgão que não funciona, atrofia-se, tendendo a desaparecer. Sem o exercício do pensar, não há cérebro digno deste nome, porém, sem o cérebro, também não é possível o pensar.

Generalizando, podemos afirmar que sem função não há órgão e vice-versa, porque o órgão, se nunca funcionou, não existe, a não ser na forma vestigial, e no ponto em que cessa a sua função, ele se atrofia.

Do exposto, ressalta esta conseqüência: os membros de cada par, porque se acham no mesmo nível hierárquico, embora opostos, são de igual valor, de igual importância. Como o idealismo essencialista faz polar oposição ao materialismo substancialista, ambos são de igual valor (porque se acham no mesmo nível hierárquico), e se integram na unidade superior, na síntese, no unidualismo.

O ponto forte do materialismo (a matéria) coincide com o fraco do idealismo (a ausência de matéria) e vice-versa, do mesmo modo que cada dente de uma roda se opõe ao entalhe da outra com a qual se engrena. Se o espírito, após a morte corporal, vira essência pura, então, de fato, cessa de existir, porque o existir é próprio da matéria, e, por extensão, da substância. Logo, morreu, acabou. Eis a conseqüência lógica, iniludível, da premissa idealista que dá como real só a essência. O ponto fraco do materialismo é supor que a matéria pode existir sem a essência, não lhe ocorrendo que, sem essência, a matéria é caos; que a alma não pode ser um produto da matéria, visto como a substância não pode ir na frente, organizando-se, sem o agente organizador; formalizando-se, antes da forma. O conteúdo caótico indo adiante, e a forma, atrás, defasados; a forma tomando posse do conteúdo formado antes dela que aparece, com retardamento, isto é um estapafurdio igual ao do idealista que teima seja possível existir a essência vazia, quando é próprio da essência não existir, por ser intemporal.

Um ente puro de razão só pode existir na nossa inteligência, memória e imaginação: é tão contraditório dizer "essência existente" quanto o é a expressão parelha "substância incorpórea" que Hobbes declara ser uma tolice; cai sob a mesma condenação o "amor intelectual" de Spinoza e D. Quixote, visto que o amor é energia-substância, não essência. Se a alma desencarnada não possui substância alguma, então, ela só existiria na memória dos que ainda não morreram. Neste caso, Augusto Comte tem razão: os mortos ilustres continuam vivos na memória dos vivos, onde imperam, onde

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reinam; é deste jeito que, segundo esse pensador, "os mortos governam os vivos".

Assim teria de ser, se o espírito desencarnado fosse pura essência, idealidade pura, sem existência real, objetiva. Se fosse possível desaparecer um dos termos oponentes da unidade, cessaria o monobinarismo, e o ente, seja o que for, se tornaria nada. Sem um corpo de substância, a alma espiritual é nada; sem uma essência espiritual, o corpo, seja o de matéria densa, seja o perispírito de matéria espectral, se transforma em caos. Órgão e função, pensamento e cérebro, virtualidade e experiência, alma e corpo, interatuam-se, reciprocamente, de sorte que o reforço ou o enfraquecimento de um, implica num proporcional reforço ou enfraquecimento do outro. Isto é o que, na dialética hegeliana se chama relação recíproca, e pode enunciar-se deste modo:

"Esta relação recíproca significa que o contrário A age sobre o contrário B, tanto quanto o contrário B age sobre o contrário A e que B age sobre A na proporção em que A age sobre B".

Se B age sobre A na mesma proporção em que A age sobre B, temos que um reforçamento de A, implica num recíproco reforço de B; quando cresce um termo, prontamente, cresce o seu contrário, por reação. Isto é o que foi dito, e está de acordo com o princípio de física, segundo o qual, toda a ação suscita uma reação igual e contrária. O unibinário da consciência é formado pelos recíprocos oponentes pensamento e cérebro, seja para um homem do nosso mundo, seja para um espírito desencarnado. 0 reforço do pensamento obriga a formação de fibras associativas que exigem, a expansão da caixa craniana. "Tanto o crânio de Goethe como o de Gladstone cresceram mesmo depois dos 5O anos. No crânio de Kant na idade de 82 anos as suturas ainda eram móveis enquanto num microcéfalo elas se fundem já na adolescência" (Fritz Kahn).

E melhor cérebro, melhor aparelhamento das fibras associativas, possibilita pensamentos mais altos, mais velozes e mais complexos, até que, em chegando à intuição, os pensamentos se fazem fugacíssimos como raios.

Em parelha com isto, o unibinário da moral é formado pelo par de opostos virtude e experiência; e a virtude se enriquece da experiência, e esta se reforça com aquela. Também, órgão e função interatuam-se, mutuamente, de modo a manter em equilíbrio ótimo o unibinário ou sistema de que eles são partes contrárias integrantes.

Politzer, no entanto, após ter posto, no livro, o enunciado hegeliano da relação recíproca, tira conclusões contraditórias ao princípio. Segundo ele, o social é constituído pelo par de oponentes operariado e burguesia. Aplicado o enunciado, temos: todo o reforçamento da

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burguesia corresponde a um recíproco reforçamento do proletariado, e vice-versa. Para que o operário produza, é preciso que haja motivação, e os dirigentes empresariais burgueses tratam de aplicar as regras da motivação, não lhes passando nunca da memória que a melhor motivação é o salário. Sem a paga, não se obtém o serviço, e o salário-de-fome, cria subnutridos, desanimados, que não produzem. Os filhos do operário, como este, submetidos ao regime de fome, crescem raquíticos, fracos, vencidos, desanimados, incultos, tornando-se sub-homens. De futuro, tais sub-homens irão constituir o operariado que, agora, será improdutivo, ainda que receba o maior salário do mundo. Eis, portanto, que, enfraquecido o proletariado, vem o empobrecimento de todos, e a civilização encerra o seu ciclo. Os faraós, para edificar pirâmides, fizeram emagrecer o povo até a morte; e depois, também, morreram sobre os mortos, restando sós as ermas pirâmides, tão solitárias e enigmáticas quanto a grande esfinge de Gizé.

Enfraquecido o operariado, portanto, a produção cai, e os dirigentes se empobrecem. Pela recíproca, operários bem pagos podem ser melhor selecionados quanto à produção, e isto se traduz pelo enriquecimento da empresa, e de seus dirigentes, e de seus donos. Assim, um reforço dos operários quanto ao bem-estar, segurança e garantias, implica num correspondente reforço da burguesia dirigente que poderá ampliar a empresa até o seu limite máximo ou ótimo de crescimento. Então, o unibinário da empresa pode ser considerado como feito pelos termos opostos e complementares dirigentes e operáríos. Por outras palavras, qualquer empresa econômica é um unibinário formado pelos integrantes opostos capital e trabalho. E isto (de quaisquer empresas serem organismos monobinários) se aplica a toda sociedade, e ainda à civilização, visto como tudo são empresas. Assim se explicaria a funcionalidade do princípio hegeliano da relação recíproca, se aplicado à sociedade.

Os dirigentes egípcios, para fazer pirâmide, escorcharam o povo; este enfraqueceu-se, parou de reproduzir-se, e o Egito caiu a nada..., ficando em pé só as pirâmides, como atestado de que o enfraquecimento e morte de um termo do unibinário, implica no recíproco enfraquecimento e morte do outro. A torre de Babel parou em meio, por faltar a motivação, sobretudo, a salarial; por causa disto, os edificadores passaram a falar a língua dos próprios interesses; e cada um falando o seu próprio, não se ocupava de entender o que os outros clamavam. Cessada a unidade do unibinário, ninguém mais entendia ninguém, porque cada um tinha o que gritar, não, porém, o que ouvir.

No entanto, Politzer, empregando sua técnica de sofista, diz que

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“todo reforçamento da burguesia é enfraquecimento do operariado"; e que "todo reforçamento do proletariado é enfraquecimento de seu contrário, a burguesia". Aquele princípio de Hegel tem validade universal para toda unidade. Mas esta fala última de Politzer se infere de uma sentença diferente que poderia chamar-se: relação recíproca na fase inversa, isto é, relação recíproca na involução; ou, relação recíproca que aconteceu quando da queda; ou, relação recíproca entre egoístas ignorantes, e que atua, ainda, agora, nos períodos de decadência, e pode enunciar-se assim: a curto prazo, o reforçamento de A é inversamente proporcional ao de B, e vice-versa. A longo prazo, esta atuação recíproca destruidora anula um dos termos do monodualismo, e a unidade se desfaz. Tal, o que acontece, quando o reforçamento de um termo, se faz à custa do enfraquecimento do contrário. Pois claro: se um elemento do par principia a comer o seu oposto, passando a "crescer" à custa desse, tarde demais, verifica que a morte dele implica na sua própria morte. É o que acontece na desintegração: cada elemento do par briga com o seu contrário, e, ou ambos se separam, e a unidade se desfaz, ou um engole o outro, e a unidade, igualmente, cessa de existir. De nada adiantaria à cobra devorar sua própria cauda! Pois, o que não faz nenhuma serpente, fá-lo as sucessivas minorias dominantes de quaisquer sociedades em vias de desintegração. Estado e povo. Cabeça e corpo. A cabeça come o corpo, e cresce, e incha, e estoura, e é nada. Babilônia, Egito, Grécia, Roma, sempre foi assim, e o será..., se o fenômeno histórico persistir.

Todavia, Politzer, partindo do enunciado de que todo o reforçamento de A corresponde a um enfraquecimento de B, e vice-versa, conclui: "Essa unidade dos contrários, essa ligação recíproca dos contrários, assume um sentido particularmente importante quando, em dado momento do processo, os contrários se convertem um no outro".

"Exemplo: Em dado momento da luta dos contrários burguesia-proletariado, cada um dos contrários se converte um no outro. A burguesia, classe dominante, torna-se classe dominada; o proletariado, classe dominada, torna-se classe dominante".

E então? a burguesia, como classe dominada, continua existindo? Se sim, como é possível, se lhe foram destruídos os fundamentos (capital, propriedade) que a faziam existir? Se não, como existir sozinho o proletariado, sem o seu par burguesia ?... É certo que não pode existir o proletariado sem sua unidade contrária, a burguesia. E então, em que ficamos? Pois, em nada menos que nisto: destruída a burguesia, parte do "proletariado"... e formava a minoria dirigente do movimento revolucionário, sobe ao poder, e fica no lugar

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outrora ocupado pela burguesia que foi liquidada. E o proletariado? Pois este fica embaixo, como era antes, só que, agora, desamparado até dos meios de protestar, cercados que se acham por uma cortina de ferro, isolados do resto do mundo, vigiados uns pelos outros, e por seus vizinhos que, em sigilo absoluto, de quando em quando, fazem seus relatórios de setores aos poderosos. Quer dizer então? pois quer dizer que tudo fica como dantes, donde vem que o comunismo é, como diz Ortega, "uma falsa aurora de um dia já gasto", a mesma que já raiou no Egito das pirâmides, na faustosa Babel que, ao cair, deixou pelo meio a decantada torre.

Tudo acontece, porque a infalível lei de dialética sentencia que toda unidade (neste caso, a do social) se compõe de duas metades que se opõem e se completam: o par dos dirigentes poderosos, e o par dos obedientes proletários, e ai destes! se se rebelarem, se não cantarem loas aos do poder, se não lhe fizerem zumbaias, se não se zumbrirem frente aos mandantes. Campos de concentração é que não faltam nos países comunistas, que, se não são para prender burguês que os não há, só podem ser para confinar operários...

Antes o uníbinário se compunha de burguesia-operariado; agora fica assim: todos-,poderosos de um lado, e os sem-poder-nenhum do outro. Todos-poderosos de chicote em punho, isto é, campos de concentração, trabalhos forçados, paredões de fuzilamento, expurgos periódicos, encorajamento de denúncias, tidas estas por "atos patrióticos", "heróicos" até, se feitas de filhos a pais. O filho que fizer isto contra os próprios pais, ganha uma estátua em praça pública, e recebe as honras de herói nacional. A unidualidade cão-coleira não se altera. Cão representa, neste caso, o proletariado sempre insatisfeito e pronto para morder. Contra eles, pois, façamos a coleira de ferro do poder. E isto é justo para a moral comunista tirada da natureza e enunciada por Nietzche: "a justiça é o desassombro do forte".

Seguindo a mesma sofística, Politzer escreve: "No mundo físico, a luta das forças contrárias é universal. Um garfo enferrujado, fenômeno tão banal, é conseqüência de uma luta entre o ferro e o oxigênio".

O ferro e o oxigênio não lutam entre si, mas se procuram reciprocamente (afinidade química) para se harmonizarem na unidade maior do composto óxido de ferro. Se houvéramos de falar na linguagem poética de Platão, para quem o universo está cheio de eros, diríamos que o oxigênio e o ferro se abraçam, não em luta odienta e destrutiva, porém, pelo contrário, em conexão amorosa, para ambos criarem consigo o novo, o filho, o óxido de ferro.

No entanto, aceitemos que o fenômeno químico não é amor, e

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sim, egoísmo de ambas partes, e que cada uma, sozinha, quer suplantar, vencer, o adversário. Apliquemos ao caso, então, a teoria de Politzer que diz: "Em dado momento da luta dos contrários burguesia-proletariado, cada um dos contrários se converte um no outro". Se é assim, ou vence a burguesia, e todo o proletariado vira burguesia (que céu!), ou vence o proletariado, e toda a burguesia se transforma em proletariado (que inferno!). Trata-se, como se vê, de dois nivelamentos, um por baixo, e todos são proletários, e outro por cima, com que todos ficam burguesia enricada, cheia de conforto e bem-estar. O labrego operário que escolha, então, o que deseja: se arrastar a burguesia para o seu inferno cheio de miséria e sofrimento, ou se deseja subir pelo esforço, pelo estudo, pela qualificação ao céu da burguesia. Porque, com a vitória do proletariado, de pronto se forma outra "burguesia" que são os dispensadores do poder no mundo comunista. Ora, tanta luta, para se ficar na mesma, na melhor das hipóteses?

Então, "em dado momento da luta dos contrários burguesia-proletariado, cada um dos contrários se converte um no outro"? (pág. 71). E não afirmou Politzer que a natureza é una? que é fiel a si mesma? Pois, neste caso, é substituir, no enunciado, o termo burguesia-proletariado pelo correspondente oxigênio-ferro: eis como fica: "em dado momento da luta dos contrários" oxigênio-ferro, "cada um dos contrários se converte um no outro". Quer dizer: no interior das moléculas de óxido de ferro, este está em luta contra o oxigênio, e a tendência é de um destes corpos transformar-se no outro. Se vencer o oxigênio, todo o óxido de ferro vira oxigênio; quer dizer: o ferro se torna, também, oxigênio. Se, pelo contrário, vencer na luta o ferro, o oxigênio se transforma em ferro.

No entanto, se qualquer adolescente do ginásio sabe ser isto impossível, então não é verdade que os termos oponentes de quaisquer unidades, possam transformar-se um no outro. Logo, é loucura de Politzer, quando pretende sonhar com um mundo cheio só de operários. Igualmente é arrematada utopia pretender derrotar o materialismo, e na luta entre este e o idealismo não haverá vencedor, porque o fim será a harmonização destes dois contrários que brigam desde o dia em que o homem cuidou que a sem razão e a maldade do mundo eram atributos inerentes à matéria.

A matéria não é mais que um modo de manifestação da energia-substância que enche todos os planos ou níveis do Universo desde o centro até a periferia; desde o centro, onde, outrora, revolveu-se, medonho, o primitivo Caos, até a orla em que se situa o mais alto empíreo. E este Universo total, composto de centro e bordo, se acha imerso no arqui-luminoso oceano da Energia-Substância-Amor da qual

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ele foi feito e tudo nele foi criado. Se a sem razão e a maldade do mundo fossem inerentes à matéria, tais atributos seriam presentes, também, nos altos céus, visto que nada pode existir sem a substância. O pecador sente suas pulsões animalescas, e cuida serem elas provenientes de sua matéria corporal que ele chama vil; e o sublime sentimento do bem que inflamava o coração de Cristo, de Sócrates, que procedência tinha? Acaso tal energia-força-moral não é do mesmo estrato das paixões ignóbeis? Se a virtude se opõe ao vício, ambos pertencem ao mesmo estrato; como, logo, atribuir as virtudes à alma que é essência, e os vícios, ao corpo feito de substância?

"A tradição clerical (escreve Politzer) e, posteriormente, a universitária, deformou, conscientemente, a filosofia epicurista, durante séculos. Assim, os materialistas seriam os "porcos do rebanho de Epicuro".

Na síntese, no unidualismo, a concepção materialista do mundo se salva de cair na imoralidade; sem isto, as conseqüências morais do materialismo, o levam, inevitavelmente, às práticas próprias dos "porcos do rebanho de Epicuro". Porque, se morreu acabou, só há gozo nesta vida. Ora, a lei do mínimo esforço e máximo proveito, leva o materializado a conseguir seu gozo por qualquer meio, ainda que seja o do sacrifício do próximo. O tudo é ter cuidado com a polícia, que o resto já se acha resolvido. Por que Marx e Engels não desenvolveram estudos desta lei tão importante e vital em sua dialética? Quando a primeira planta, ainda unicelular, resolveu devorar sua próxima, ela se tornou animal herbívoro; quando o primeiro herbívoro se dispôs a comer outro animal, nesse ponto nasceu o animal carnívoro. E tudo era para satisfazer-se e gozar, pelo caminho mais curto, de máximo proveito e mínimo esforço. No nível humano, pois, para o materialista, a consciência ética é um contra-senso, uma vez que nada se tem a esperar após a morte. Daí que, como diz Politzer, "é notório e bastante generalizado o fato de que os defensores das filosofias idealistas se conduzem, quase sempre, na vida, como materialistas". Se, as mais das vezes, os defensores do idealismo se conduzem na vida como materialistas, como se hão de conduzir os defensores do próprio materialismo?

Como agirá o materialista, para ser coerente com sua doutrina, se sua conduta serviu de referência para Politzer criticar os idealistas só de nome? Se a maioria dos idealistas agem como se fossem materialistas, o que Politzer considera reprovável, como aprovar a conduta dos materialistas que são fiéis à sua ideologia? Onde é que está a moral no comunismo, e em que se funda ela, se os idealistas imorais, podem ser xingados de materialistas? Se a conduta

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reprovável dos materialistas serve de modelo para avaliar a imoralidade dos idealistas, por que se mostra ofendido Politzer pelo fato de a tradição clerical e a universitária chamarem os materialistas de "porcos do rebanho de Epicuro"?

E prossegue Politzer: "A razão de Estado (macartismo) justifica o assassinato dos Rosemberg. Decretar-se-ão verdadeiras as coisas mais opostas, se tal for do interesse do capital".

Esta definição das coisas verdadeiras (verdade é tudo aquilo que é do interesse do capital), que Politzer exprobra, decorre de sua própria definição de filosofia: as filosofias são justificações dos interesses de classes. A justa concepção do mundo é aquela que condiz com os interesses de classe. Logo, se a verdade, para os capitalistas, é aquilo que é do interesse do capital, olhando-se a outra face da medalha, ver-se-á nela escrito: a verdade é tudo o que interessa aos mandantes dos proletários. Daí que o assassinato dos Rosemberg, pelos capitalistas, tem o seu reverso no assassinato de Nicolau II e família pelos chefes bolchevistas, e isto, de noite, às pressas, às escondidas. E depois de vitoriosa a revolução comunista, Lenin coletivizou as fazendas, e determinou qual seria a quota do Estado, na produção agrícola. Os camponeses produziram só o necessário para si e seus familiares. Lenin confiscou tudo, e os camponeses, trinta milhões morreram de fome, após ter dado cabo de todos os cães, gatos, galinhas e galos, ficando as noites soviéticas de um silêncio tumular. E houve até casos de antropofagia, além do mercado hediondo de comestíveis feitos com carne humana. Não há nenhuma razão para que uns "porcos do rebanho de Epicuro" falem dos outros "porcos do rebanho de Epicuro". Porcos uns, porcos outros, visto cada um visar só seu interesse, e não, a conquista da verdade.

Querendo, pois, rebater os idealistas de práticas reprováveis, Politzer não achou outro jeito que não fosse compará-los a materialistas. Como, logo, não concordar que os materialistas são, de fato, os "porcos do rebanho de Epicuro"? Contudo, a harmonização destes dois opostos, materialismo e idealismo, é o que se nos impõe fazer. E os elementos-chaves da síntese podem ser tomados dos próprios argumentos de Politzer, quando diz:

"Como se explica que existam falsas concepções do mundo, como as concepções idealistas e, entre outras, as religiões? Para responder a essas questões é preciso partir do fato de que as coisas têm aspectos múltiplos, que nossos sentidos descobrem sucessivamente, graças ao desenvolvimento de nossa atividade prática. Se alguém se fixa em um desses aspectos apenas, não é possível que esse alguém tenha um conhecimento válido das

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coisas".Logo, concepção falsa do mundo é toda aquela que toma um

aspecto pelo todo. Por conseguinte, a falsidade do idealismo, desde Parmênides, consiste em ter tomado só o aspecto formal, essencial, de princípio e de lei das coisas, deixando de lado o aspecto substancial, consistencial, material. Que fez o marxismo? Pois tomou ele o aspecto último, material, deixando de parte o outro, ou considerando-o apenas como derivado e produto desse último. Conseqüentemente, conforme o próprio enunciado de Politzer, erra quem toma um ou o outro aspecto como sendo a verdade inteira. Tudo, portanto, o que afirmou Politzer do idealismo e da religião, se aplica, à maravilha, ao materialismo. Diante disto, podemos dizer a mesma coisa do materialismo, trocando apenas algumas palavras pelas suas antônimas; vejamos: "Como se explica que existam falsas concepções do mundo, como as concepções materialistas e, entre outras, os ateísmos? Para responder a essas questões é preciso partir do fato de que as coisas têm aspectos múltiplos, que nossa inteligência descobre sucessivamente graças ao desenvolvimento de nossa atividade especulativa. Se alguém se fixa em um desses aspectos apenas, não é possível que esse alguém tenha um conhecimento válido das coisas".

Como se vê, este texto tanto condena o idealismo como o materialismo, visto como, cada um, por sua vez, tomou um aspecto pelo todo. Dado que, tanto o idealismo, desde Parmênides, e o materialismo, desde Heráclito e Demócrito, um e outro se mostra como meia verdade, a verdade inteira, global, só pode estar na síntese que integre as duas meias verdades na unidade. Logo, não pode haver vitória para o materialismo, nem para o idealismo, porque ambos serão unijugados no monobinarismo do qual eles são partes integrantes e complementares.

Politzer: "Com efeito, enquanto que a burguesia, liquidando a feudalidade, substituiu uma exploração por outra, o proletariado, destroçando a capitalismo, suprime toda e qualquer exploração do homem pelo homem".

A exploração burguesa do homem pelo homem se trocou, no regime comunista, pela exploração do homem pelo Estado; porém, como o Estado não pode reger-se senão por homens, estes homens do governo serão os exploradores dos outros homens. Por isto, escreve Joelmir Beting: "O capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o socialismo é exatamente o contrário". E Paul Samuelson: "A utopia da sociedade igualitária e justa ainda não conseguiu dar resposta convincente a duas perguntas cruciais: quem vai desfrutar da calefação no trabalho de gabinete e quem vai recolher o lixo na

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neve da rua? Quem será o Primeiro-Ministro e quem lavará a latrina do Primeiro-Ministro?". No Egito, o povo escravo fez pirâmides; no Estado comunista fazem-se foguetes para ir à Lua, a Vênus, a Marte, e, também, arsenais atômicos. E a abundância de bens de consumo, de que já goza o povo norte-americano, vai ficando para depois. E como na construção das pirâmides, o povo cantava, no começo, e suava, e chorava, e sangrava, no fim, até que o egípcio se decidiu a não mais ter filhos, e o Egito morreu, assim acontecerá na Rússia, se o bem-estar do povo for ficando sempre para depois. E já o barômetro demográfico tem acusado queda, pelo que, lá, já se pensa em libertar a mulher do trabalho pesado, para ela ficar em casa..., criando filhos, e, para isto, ganhando seu salário. Esta notícia no-la deu "O Estado de S. Paulo" em sua edição de 24 de novembro de 1968. Na edição de 15 de janeiro de 1969, o mesmo jornal publica um outro artigo com o título: "Jovens russos e o amor". Ingenuamente, aqui, se prega, sem rebuços, a volta ao passado (arcaísmo), reafirmando o tabu da virgindade pelo que, como diz, "os jovens não devem ser persuadidos de que ela passou de moda". Afirma que "ninguém tem o direito de esquecer que a mulher é débil fisicamente, que se magoa mais facilmente e necessita de maior ternura. A rudeza, o uso da força, a desatenção à sensibilidade feminina é algo venenoso, nocivo em nossa sociedade. Não existe perdão para gente culpada de tal comportamento". Contestam-se "os que consideram o amor unicamente como entretenimento e se preocupam apenas com o prazer". Igualmente é contestada a opinião segundo a qual, "desde que a mulher consegue ser igual ao homem, não se deve lhe dispensar um tratamento especial, como se fazia nos velhos tempos".

Toda essa vã tentativa de retorno ao patriarcalismo do tempo dos czares, não significa outra coisa que implorar às mulheres: dêm-nos filhos; nosso índice populacional está caindo; seremos vencidos, morreremos como nação, não por outra causa que não pelo nosso próprio decrescimento demográfico; quando formos muito poucos, seremos dominados pelas nações populosas que se derramarão sobre nós...

Todavia, toda essa lamentação arcaísta será improfícua, visto como, o que está faltando são esperanças em dias melhores. Fale Toynbee: "A enfermidade que inibe os filhos de decadência, não é a paralisia das suas faculdades naturais, mas um colapso da sua herança social, que os priva da possibilidade de encontrar um objetivo para as faculdades excepcionais, numa ação social ativa e criadora".

A exploração do homem pelo homem não cessará, enquanto nosso mundo for invertido, egoísta-ignorante e mau, e o homem que o habita, dragontino. Quando, porém, o egoísmo ignaro e fechado se

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tornar dilatado no sábio e no santo, qualquer regime político-econômico será bom. O tudo é desinverter-se o homem de dragão. Como, todavia, isso não é fácil, nem pode ser feito a curto prazo, todos se põem a pensar em reformas exteriores, contanto que, na sua caverna, o dragão não seja perturbado, isto é, contanto que ninguém se reforme a si mesmo.

Politzer, mestre sempre em dizer e desdizer, afirma que "não são as idéias que determinam as condições da luta de classes, mas as condições da luta de classes é que determinam as idéias".

Isto significa que burgueses e operários brigam entre si, sem ter a mínima idéia de por que o fazem; conforme se desenvolve a luta, a idéia da causa por que brigam, vai-se delineando; só então é que enxergam que brigam por estarem em desigualdade de situações, sendo estas as determinantes das lutas de classes. Os fenômenos se dão ao acaso; depois é que aparecem as leis (formas dos fenômenos) coma conseqüências, e não, como determinantes deles. Dito isto, logo depois se desdiz numa citação de Stalin:

"Existem idéias e teorias novas, de vanguarda, que servem aos interesses das forças de vanguarda da sociedade. São elas importantes porque facilitam o desenvolvimento da sociedade, seu progresso: e, o que é mais, elas adquirem tanto maior importância, quando mais fielmente refletem as necessidades do desenvolvimento da vida material da sociedade".

De acordo com o que foi dito anteriormente, não pode haver idéias de vanguarda, porque, consoante com o que ensina o marxismo, as idéias andam retardadas em relação aos fenômenos sociais objetivos, concretos. As idéias resultam pelo que não podem vir antes dos fenômenos. Se as idéias são determinadas pelas condições internas da sociedade (lutas de classes), assim como a forma resulta das condições intrínsecas do conteúdo, num e noutro caso, idéias e forma aparecendo com certo retardamento, que vêm a ser, então, as idéias de vanguarda? De que, por que, por quem e como surgiram estas, a priori, quando, o que só há, são elas, como a posteriori?

E noutra citação, Politzer transcreve o próprio Marx: "A teoria torna-se uma força material desde que penetra nas massas".

E antes de penetrar nas massas, quando ainda está na cabeça do teorizador, se não é uma força material, o que é então? De que o teorista partiu para construir o seu universo de idéias, se ainda estavam por aparecer as condições materiais, objetivas, que provocariam, com certo retardamento, a eclosão das idéias em sua cabeça? Como pode isto acontecer, se Politzer frisa sempre "que o aspecto material é anterior ao espiritual"? Então seria preciso que tivesse acontecido o comunismo, para, depois, aparecerem Marx e

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Engels como conseqüências!...Esforçando-se por manter sua posição antitética em relação ao

idealismo, tido como utopia, os igualmente utópicos socialistas supõem seja o homem um produto do social, um ente só capaz de reações. O social surge como plasmador do homem, e não, o homem como o criador do social. Deste modo, assume novo aspecto o velho problema de o que veio primeiro, se o machado ou o malho, se a faca ou a serra, se o martelo ou a tenaz, se a mão ou a língua na auto-construção do homo sapiens, se a economia ou a política, se o capital ou o trabalho; ou então: se a função ou o órgão, se o pensamento ou o cérebro, se o corpo ou a alma; ou ainda: se o fenômeno, o acontecimento, ou sua forma, sua lei; se o conteúdo ou a forma; finalmente: se a essência ou a substância.

Outra vez, no entanto, a verdade está na síntese dos opostos, porque, também, sob este aspecto, o homem é unidual, constituído de indivíduo e sócio. Inextricavelmente, estão unijugados no homem o eu e o nós, como iremos ver.

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XI - ENTE BIOLÓGICO E SÓCIO

O dado natural é inesgotável porque a natureza é um calidoscópio que continuamente se muda no tempo e no espaço, apresentando sempre um cariz diferente, nunca repetido. E sobre ser mutável a natureza, dentro dela, seu ilustre filho, o homem, também se altera, e, ainda, com mais velocidade. Daí ser preciso que haja filósofos para sempre retomarem o dado e o reinterpretarem. Muda-se a natureza por ser mutável dentro e fora do homem que, por sua conta e risco também se muda, pelo que forçoso se torna reformular sempre a interpretação da natureza. Cada coisa é em si mesma, e é no homem: mas a coisa quando é no homem, se mostra mais rica de conotações do que quando ela é só em si mesma, porque adquire nele e dele uma dimensão nova que, em natureza pura, não possui, e essa dimensão nova é a antropológica. O ouro e a prata são metais; mas no antropológico são riquezas. Os vários sons da natureza são ruídos; no humano são música. Em natureza, os frutos são alimentos; numa tela de Cézanne assumem um ar divino, uma auréola luminosa própria dos frutos do jardim do Eterno! Basta emoldurar um pedaço de natureza para ele se tornar mais do que é. Como o homem se transforma sempre, está sempre a mudar essa dimensão antropológica que ele verte sobre as coisas, pelo que elas ficam sendo mais do que são. Logo, o homem e a natureza, cada um, por sua vez, também pode dizer: "eis que faço novas todas as coisas" (Apoc. 21, 5).

Segundo esta retomada que encetamos, tudo o que existe, como já o dissemos, é uma unidade constituída de unidades menores, e cada uma destas menores é um universo que, pela própria etimologia deste nome, significa a unidade mais a sua contra-parte pluralidade, ou a unidade na diversidade. Porém, o primeiro termo, antes da pluralidade, antes do oposto da unidade, é o dualismo de que o um se constitui, ou seja, o unidualismo, ou monobinarismo. A árvore do universal é de estrutura dicotômica, isto é, abre-se de um tronco de que sai um par de galhos, cada um dos quais se subdivide, também, em dois outros galhos menores, e assim, sucessivamente. Isto, não é em sentido espacial, mas no sentido em que, por exemplo, do tronco cloreto de sódio, saem dois galhos: o do cloro e o do sódio..., cada um dos quais, por sua vez, se forma de núcleo atômico e de esferas ou calotas de elétrons. Em primeira tomada do dado, em visão de análise ou dedutiva, todo um é, internamente, dois. Na visão oposta ou indutiva, cada dois, tese e antítese, se resume no um da síntese. Esta síntese em que o dois se tornou no um, em segundo

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tempo, passa a ser nova tese que se opõe a nova antítese, formando outro par que vai unir-se noutra unidade, noutra síntese. Como não há exceção para esta lei de constituição de tudo, nem mesmo para Deus cuja unidade se forma do par Essência e Substância, também o homem é uma unidade binária, qualquer que seja o aspecto em que o tomarmos. O aspecto do humano que agora iremos ver, é o da unidualidade formada pelo ente biológico e pelo sócio.

Os dois aspectos em realidade são indissolúveis, não se podendo separá-los, a não ser idealmente, por abstração. Não há ente biológico puro sem o social, nem este sem o suporte biológico. Para Augusto Comte, "o indivíduo isolado é mera abstração; só os grupos são reais, pois que "a sociedade humana compõe-se de famílias e não de indivíduos".

Como Augusto Comte afirma que "a sociedade humana compõe-se de famílias e não de indivíduos", cabe perguntar-lhe se estes indivíduos têm, em si, o social, ou não. Se não o tem, então, são puros entes biológicos, e estes, sozinhos, não existem; se têm, em si, o social, então, a sociedade não começa com as famílias, e, sim, com os indivíduos-sócios. Ora, um homem isolado, um Robinson Crusoe, existe; logo, ele não é um puro ente biológico sem o social; por conseguinte, o sócio existe nele, formando par com o ente biológico. A sociedade se forma de famílias; estas se formam de indivíduos. No entanto, se, nestes indivíduos, não existir o sócio, as famílias não se formam. A só união sexual não é base da família; provam-no os animais inferiores que podem viver isolados. Os peixinhos dos aquários devoram os próprios filhos, se estes não forem separados; quer dizer: há união sexual e filhos; contudo, as mães não reconhecem os próprios filhos.

A ausência de hierarquia na visão (agnosia metafísica) faz o universo chato, plano, e dá nisso de Augusto Comte, que, a ser verdade para a sociologia, sê-lo-ia, também, para a física. Ocupado só com os corpos da física, e não, com os da química, o físico, por sua vez poderia dizer, à moda de Augusto Comte: o núcleo atômico e os elétrons isolados são meras abstrações; só os átomos são reais, pois que as moléculas dos corpos se compõem só de átomos, e não de elétrons e de prótons.

O náufrago Robinson Crusoe se viu compelido a viver isolado numa ilha; no entanto, ele próprio não era um ente isolado, porque, como diz Gusdorf, "nenhum homem é uma ilha, e o regime celular de Robinson, muito longe de representar uma posição invejável, aparenta-se ao mais doloroso grau de reclusão penitenciária. Contudo, importa não esquecer, como observa Taine, que o náufrago

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Robinson levava com ele um barco cheio de civilização inglesa, utensílios e uma vocação colonial, uma Bíblia e tradições puritanas".

Embora Crusoe levasse em si e consigo uma bagagem de cultura, seu ego social, não recebendo, do contorno, novo suprimento, tendia a estiolar-se. O tédio, a nostalgia sofrida por ele, em sua solidão, e a que curtimos nós, em meio ao tumulto das ruas de cidade grande, é carência de social próprio, é doença de subnutrição social. E a "fome social" do náufrago não podia ser saciada pela pobre presença do índio Sexta Feira. Eis como se aclara o sentido da frase de Goethe quando diz: "O maior castigo que me poderiam inflingir, seria habitar sozinho o paraíso". À frase de Aristóteles que declara: só um deus ou um bruto pode viver isolado, poder-se-ia acrescentar: porque todo deus ou super-homem, na Terra, é um êxul nas mesmas condições de Crusoe, visto como, embora leve em si a cultura do empíreo, não a enxerga de si em torno em nenhum outro ente humano em que tal cultura se tenha fixado; e é para poder sofrer menos sua solidão, que ele grava na pedra, no bronze, a eternidade. O manjar desconhecido (Jo 4, 32) que disse Cristo ter, é aquele com que se apascentava em suas contínuas retiradas aos desertos e outeiros..., haja vista, quando teve por visitantes Elias e Moisés (Mat 17, 3 e 5). Miguel Angelo tinha que ser um exilado pelo que se viu, depois, na pedra que rompeu, para nela eternizar o seu brado de pujança, nostalgia e dor.

Harto, isto, entendeu Milton, para pôr na boca de Adão estas palavras: "As falas mútuas, alimento da alma, / a suave troca de gracejos, risos, - / os risos, que à razão a origem devem / refusados por isto sendo aos brutos, / e de amor o incentivo em si nos formam, - / o amor, notável precisão da vida"? E mais adiante, no mesmo Canto IX, quando Adão, consciente do pecado que ia praticar, se dispôs a comer do fruto vedado, declara à companheira de infortúnio: "porque já decidi morrer contigo". E justifica o seu propósito: "Como deixar-me do prazer de ouvir-te, / e do tão terno amor que nos enlaça, / para outra vez peregrinar sozinho / por estes broncos e perdidos bosques?!".

E como Adão o era, os seres inferiores, unicelulares, também são imortais, porque a célula-mãe se subdivide, dando-se a si nas células-filhas. Este processo, todavia, leva ao esgotamento da energia vital do plasma, pelo que as células, de quando em quando, se obrigam a encostar-se entre si para se permutarem parte dos núcleos, dos ácidos nuclêicos e dos gens. Assim, desta união nasce a força do plasma qual carga nova que se dá às cordas dos relógios (Frìtz Kahn), pelo que tais unicelulares podem continuar a reproduzir-se por cissiparidade até novo esgotamento. Quando, no entanto, os

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unicelulares se reuniram em colônias... das quais surgiram os seres superiores pluricelulares, tornaram-se impraticáveis tais encostamentos, e o plasma das células das colônias se esgotam, em razão do que as células morreram no seio da colônia, e esta se desfaz, como ainda hoje se pode observar nos coloniais. A morte natural apareceu, então, pela primeira vez no cenário da vida, em conseqüência da união... união motivada, por sua vez, pela diferenciação, pela especialização, pela divisão do trabalho. Eis, pois, que os entes biológicos inferiores (protozoários e fitozoários), nas bases da vida, abdicaram a imortalidade quando decidiram formar colônias, originandose destes seres coloniais, todos os seres superiores. O unicelular, que poderia ser imortal, abdicou da sua imortalidade para viver em união..., porque, tal como o entendia Adão, é preferível a morte a viver solitário. Assim como só depois da união dos unicelulares em colônias foi possível chegar à plenitude da vida que se viu depois nos seres superiores vertebrados, nos mamíferos, sobre os quais se sublima o homem, também, do casal primeiro, diz Toynbee: "só depois de Adão e Eva terem sido expulsos do seu Jardim Edênico de Lótus, é que os seus descendentes começaram a conceber a agricultura, a metalurgia e os instrumentos musicais". Eis, pois, que no Éden como no empíreo não havia tecnologia, porque esta nasce da ciência, e no Éden como no Céu dos que se mantiveram fiéis, não há ciência..., visto que esta é visão do particular própria daquele que, para conhecer, precisa dissecar, triturar, pulverizar os entes inferiores..., coisa que enche os amorosos celículas de horror e espanto. A queda dos que estavam no amor propiciou a ciência e a técnica, as quais, sem Deus, se tornam satânicas, estando aqui o saber que se oculta na alegoria da árvore vedada da ciência do bem e do mal: com Deus, a ciência é bem; sem ele, mal. Depois deste lanço de olhos que enxerga o homem situado no pináculo da evolução biológica... evolução que nasceu da união dos unicelulares em colônia; depois da visão dos celículas no empíreo e de Adão no Éden, aqueles e este sábios mas sem ciência, em oposição ao que se viu após a queda pela qual anjos e homens se mostraram com ciência, mas sem sabedoria; cumpre agora juntar as partes do mosaico quebrado de modo que a árvore alegórica da ciência que tanto pode ser do bem, como do mal, seja só do bem, isto é: faz-se preciso, e com urgência, que o homem de ciência também se torne sábio. Não só a visão do particular que se pulveriza em especialidades que se filamentam em radículas cada vez menores, como, também, a visão do conjunto que só a filosofia pode dar. E nesta visão de conjunto, relativamente ao homem, verificamos que ele é, sob todos os aspectos, unidual, antes de abrir-se para o universo que é em si mesmo,

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semelhante a qualquer outro ente ou ser. No aspecto que agora estamos vendo, o homem é ente biológico e sócio, sem possibilidade de que possa existir um sem o outro. O homem isolado, pois, não é uma abstração, porque ele leva em si, e de si em torno, o seu social que, também, exige nutrição própria, qual o ser biológico. É por isto que a solitária, se por muito tempo, enlouquece os reclusos nela postos.

Cada ente humano precisa de seu meio social próprio, de sua atmosfera social, em que seu espírito, respirando, viva. O sábio que se isola, temporariamente, para estar com os mortos viventes, seus amigos, que lhe repetem, na memória, a sabedoria dos livros, sobre a qual, profundamente, medita, esse, nessa hora, não está só, mas acompanhado. Todavia, quando ele se confunde no tumulto das ruas duma megalópolis, onde ninguém conhece ninguém, e todos são coisas, aí, sim, então, ele está só, e sente solidão, nostalgia, tédio.

Eis, aí: o homem é uma unidade binária, constituída do ente biológico e do sócio. Cada parte deste unibinário exige alimentos próprios, não só para o desenvolvimento, desde a infância, como para manter-se vivo. Tem razão Cristo: "Nem só de pão vive o homem".

Entes humanos podem, por pouco tempo, manter-se estacionários, no nível de animais, e um exemplo temos nas meninas-lobas encontradas na Índia. Aqui, o social das meninas formou-se ao nível da "cultura" dos lobos. Pela recíproca, o "social" dos chimpanzés incorpora, ao máximo, a cultura humana, pela imitação dos homens, conforme experiências recentes efetuadas nos EE.UU.

Os sociólogos sempre se puseram a imaginar o que sucederia se, como num palimpsesto, fosse raspado o social de um ente humano. Contudo, esta experiência, impossível de executar-se com pessoas, num mundo humano, isto é, moral, acidentalmente, aconteceu na índia, onde duas meninas, em tenra idade, se perderam na mata, ou nela foram abandonadas; tendo sido criadas por lobos. As crianças adquiriram os comportamentos desses animais, marchando de quatro, uivando de noite e ingerindo os alimentos à maneira dos cães. A ausência do convívio humano interditou-lhes o uso da fala. Trazidas para a civilização, não conseguiram humanizar-se. A que tinha sete anos, por ocasião de sua captura, morreu aos dezoito, sem que pudesse tornar-se humana. A menor teve maior dificuldade que a outra em equilibrar-se sobre os pés, e andar como nós. O atrofiamento do centro da palavra impossibilitou-lhe a aprendizagem da fala; após sete anos de treinamento, seu vocabulário não ia além de quarenta e oito palavras.

A vida de relação, a vida social, pois, tem muito a ver com o desenvolvimento do cérebro; passado o tempo próprio do desenvolvimento operado através da convivência, os centros nervosos se atrofiam, não mais podendo ser recuperados. Eis, aí, como se torna

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impossível delimitar o que é puramente biológico e o que é social; porque ambos se entrelaçam e se interdependem, e é pela interação de um sobre o outro, que se dá o desenvolvimento integral do unibinário humano. O ente biológico e o social se interdependem, como função e órgão, sendo impossível a dicotomia, no real, destes pares de opostos do unidualismo humano. Sem o estímulo exterior, o órgão queda-se na inatividade, e se atrofia, sendo esta a causa de o centro da palavra ter parado na fase embrionária do social. Ainda que se tivesse tentado abrir, às meninas-lobas, uma fresta para a comunicação, por meio dos sinais dos surdos-mudos, partindo do princípio de que seus centros motores estiveram o tempo todo em funcionamento, ainda assim, nada se poderia obter, porque a atrofia estava no próprio centro da linguagem, que não só no seu mecanismo de exteriorização.

A contra-prova também se pode obter por meio de chimpanzés criados em ambiente humano. A revista "Realidade", em seu número 98, de maio de 1974, publicou um artigo de alto valor científico e de conseqüências filosóficas inesperadas, com o título "Finalmente Ensinamos o macaco a falar". Trata-se do seguinte:

Beatrice e Allen Gardner, da Universidade de Nevada, observando que os chimpanzés, em seu meio natural, empregam muito mais freqüentemente sinais manuais do que vocais, em suas comunicações, empreenderam a tarefa de ensinar aos macacos uma linguagem de gestos, de preferência a uma linguagem oral. Começaram com um chimpanzé fêmea à qual deram o nome de Washoe. Tinha esta um ano de idade, quando se principiou o treinamento que consistiu em ensinar a Washoe a "American Sign Language" cujas iniciais dão a sigla ASL, que é um sistema de comunicação empregado pelos surdos-mudos, muito em voga nos Estados Unidos. Em tal linguagem, os gestos manuais, representam palavras inteiras, que não, letras a serem posteriormente combinadas.

Ensinando o sinal mais, do contexto duma frase, Washoe o generaliza para todas as sentenças em que este conceito se aplicava. De igual modo, o sinal abrir, executado ao tempo em que se abriam três portas, após aprendido, prontamente, foi generalizado para abrir também gavetas, refrigeradores e até torneiras. A palavra flor foi generalizada para todas as flores, e, por sua conta, Washoe associou flores a cheiros, visto que o conceito de cheiro ela já conhecia, e, ao aprendê-lo, o generalizara para todos os cheiros, inclusive os vindo da cozinha, de alimentos que estavam sendo preparados. E na ocasião em que a criatividade de Washoe fê-la inventar as frases não ensinadas, como: dar para mim coceira, para pedir afagos; ou: abrir comida, beber, para que lhe fosse aberta a porta da geladeira, então, evidenciou-se que os macacos são capazes de empregar o

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pensamento discursivo, se bem que ainda de modo embrionário. Era já muito que Washoe empregasse símbolos para significar situações materiais, concretas, frente a objetos palpáveis; no entanto, ela empregava os símbolos não concretos, mas, subjetivos, tais como doer, desculpa e engraçado, em situações ou momentos apropriados.

Possuidora de cento e -sessenta sinais, Washoe foi levada para o "Instituto for Primate Studios", em Norman. Aos poucos se foi habituando aos outros chimpanzés que ela nunca vira antes, e aos quais ela chamava de bichos. Roger Fouts, um dos pesquisadores, a cujo encargo Washoe foi entregue, ensinou-a o sinal: macaco. Bastou isto, e ela, contente, passou a usá-lo para todos os macaquinhos e micos do zoológico. Assustada, porém, por um macaco rhesus, passou a chamá-lo de macaco sujo. E já o símbolo sujo passou a servir para tudo quanto lhe fosse desagradável, como, por exemplo, os professores que se recusavam a satisfazer-lhe os caprichos. Aos patos, cujo símbolo Fouts lhe ensinara, ela insistiu em manter a combinação de sua autoria, e os chamava passarinhos dágua.

Estas experiências feitas com Washoe, que deixaram longe as de Koehler, repetiram-se com Ally, em chimpanzé macho, cujo vocabulário ia a setenta palavras. O que apareceu de novo é que Ally era um grande "comunicador" que fazia questão de sinais nítidos, claros, deliberados. Podia ser um mestre, visto como, cuidadosamente, sinalizava as palavras, e ainda com eloqüência da atitude, do porte.

Lucy foi outra macaca ensinada a falar, e possuía um vocabulário de oitenta palavras. Fouts lhe mostra, um dia, um rabanete, e ela, prontamente, o denomina: comida; porém, depois de o mastigar, sai-se com esta construção de frase: comida-doer-chorar. Com a melancia, Lucy fez este progresso por sua própria conta primeiro chamou-a bebida; depois, bebida doce; finalmente, bebida-fruta.

A antropóide Lucy tinha um gato, e este, um dia, cortou-se, acidentalmente; então Lucy o tratou, pensou-lhe o ferimento, carregando-o para todos os lados, até contra a vontade dele, nunca deixando que sua pata ferida tocasse no chão. E apontando para o ferimento, dizia, aos presentes: machucar, machucar.

Um dia, deu-lhe na telha ensinar o gato a falar, do mesmo modo como os homens fizeram com ela: pôs, então, o gato, no lugar que outrora ela ficava, e, segurando vários objetos, perguntava, por sinais: que é isto? Depois de vários dias de repetição desta experiência, desanimou-se, abandonando a tarefa, pois, lhe foi impossível fazer o gato falar.

Diz Fouts que "Lucy viveu como um ser humano durante toda sua vida. Está tão imbuída da cultura humana que muito dificilmente nota as diferenças entre ela e seus amigos um pouco mais altos e menos

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cabeludos". Mais:"Ela passa a maior parte do seu dia preocupada com atividades

tipicamente humanas. Dorme em um grande dormitório com sua mãe e seu pai humanos. De manhã, prepara uma xícara de chá. Ela enche a chaleira, coloca-a sobre o fogão, acende o fogo, coloca um saquinho de chá dentro da água, e bastante açúcar em sua xícara de plástico verde. Chega até mesmo a cheirar o vapor e espera que o chá esfrie”.

"Nunca queima a língua tentando tomá-lo muito cedo. A única assistência humana de que necessita durante toda essa preparação é uma mão mais firme para despejar a água quente e um lembrete de que a água já está fervendo: Talvez uma chaleira com um apito venha a ajudar”.

"O próximo item em sua agenda é, frequentemente, uma aula de comunicação. De vez em quando, a aula é apenas de prática, uma discussão de alguma coisa que pareça interessá-la. Outros dias ela é testada em suas aptidões de comunicação. Roger gostaria de decidir sempre o que fazer, mas, às vezes, Lucy decide por ele".

As experiências prosseguem. Desde 1973, nos Estados Unidos, todos os que podem dispor de um filhote de chimpanzé, ou de orangotango, estão empenhados na tarefa de os fazer falar a língua pátria para uso dos surdos-mudos. Onde iremos parar, se a genética for posta a serviço do unidualismo inteligência-linguagem?

O mais empolgante, porém, foi o relato trazido pela revista "Manchete", em seu número 1259, de 5 de junho de 1976. O advogado Michael Miller, de Nova Iorque, diz ter comprado de uns caçadores das montanhas dos Estados Unidos, um estranho ser "metade homem, metade macaco". Michael deu a esse elo vivo ligador do homem aos macacos, o nome de Ollie, em homenagem ao "gordo" (Oliver Hardy) que é como o chamava o "magro" (Stan Laurel), nas telas do cinema.

Ollie, a nova versão viva do pitecantropo, tem 1,52 cm de altura, é calvo, sardento, aparentando mais ou menos sete anos de idade. Ele anda perfeitamente ereto sobre suas patas traseiras, demonstra possuir inteligência, embora não desenvolvida. Ao ser apresentado à imprensa, "Ollie emitiu sons como os de uma criança que ainda não aprendeu a falar, mas pareceu compreender as coisas melhor do que qualquer macaca”. Escreveu um jornalista (Manchete), sobre esse elo vivo entre o macaco e o homem: "os cientistas fazem outras observações importantes, principalmente as relacionadas com seus cromossomas, considerados "absolutamente anormais" no quadro de sua espécie". Ollie ainda está sendo submetido a testes médicos e classificação zoológica.

Na fotografia maior trazida pela "Manchete", em que Ollie, em porte eloquente, levanta os braços, posando para os fotógrafos no

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Explorer's Clube de Nova Iorque, reparamos que seu corpo até se inclina um pouco para trás; na fotografia menor, tomada só da cara, verificamos que as arcadas superciliares são menos pronunciadas que nos demais macacos, os lábios são modelados, e, como que adivinhamos a existência de mento saliente modelando-lhe o queixo.

Ora bem: onde esse macaco humanóide foi achado deve haver outros, tornando-se possível a captura e a criação deles em cativeiro. Está-nos aberta, portanto, a porta que nos levará a saber como essa espécie de macacos, ainda sem nome, reagirá ao aprendizado da linguagem a que, hoje são submetidos os chimpanzés.

O quanto já se conseguiu, foi suficiente a permitir fosse atenuado o característico mais significativo entre o macaco e o homem que é a possibilidade do pensamento e da palavra, e isto, graças aos esforços desse grupo de psicólogos norte-americanos. Positivouse que os chimpanzés têm capacidade de abstração, pelo que, o mundo lhes pode ser ofertado na forma de símbolos representativos das emoções e das coisas; que eles têm capacidade de generalização, base do pensamento associativo, ou indutivo, ou discursivo, visto como, formado um conceito face a dada experiência, ele passou a cobrir um universo inteiro de experiências correlatas, como foi o caso dos vocábulos abrir, sujo, cheiro, etc. Experiências quais estas são decisivas para a ciência que desabrocha agora, cujo nome será algo parecido com pitecantropologia, uma vez que estudará o homem e o macaco inter-relacionados.

Koehler já havia demonstrado haver, nos macacos, o estado de reflexão; porém, esta reflexão abstrata ganhou extensão e profundidade, quando os chimpanzés puderam comunicar-se com os humanos por meio de sinais de mudos, atingindo até cento e sessenta símbolos. E quando tais macacos puderam associar os símbolos para criar palavras capazes de expressar pensamentos, como nos casos de Washoe, de Ally e de Lucy, então, o abismo da linguagem que separava os símios antropóides dos homídeos, estreitou-se tanto, que se tornou possível a ultrapassagem, pelo que os dois mundos, agora, se juntaram mais do que a antropologia o conseguira. A combinação de símbolos para criar conceitos novos de coisas, ações e situações nunca antes vistas pelos primatas, põe por terra a hipótese de que seu aprendizado é feito apenas de reflexos condicionados, porém, nada criativo.

Poderíamos prosseguir tirando conclusões dos alviçareiros e promissores trabalhos de Beatrice, Allen Gardner e Roger; todavia, por enquanto, sirva-nos eles para comprovar nossa tese de que o homem é uma síntese formada de duas unidades oponentes tese e antítese, indivíduo biológico e sócio. E como, biologicamente, o homem veio do

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macaco, por evolução, neste já aparece o sócio. Os três chimpanzés, nomeados atrás, em convivendo com os homens, saturaram-se da cultura humana; as meninas da Índia, forçadas pelas circunstâncias a viver com lobos, tiveram seu social impregnado dos hábitos lupinos ou licantropóides.

O homem isolado, pois, não é uma abstração como pretendia Augusto Comte, porque, ou no homem existe entranhado o sócio, ou ele não é homem. Este social do homem se entrelaça ao social da mulher, o que permite a formação da família que, outra vez, é um unibinarismo formado do homem e da mulher biológicos por um lado, e do homem e da mulher culturais, sociais, por outro. Se o homem se unisse à mulher só pelo corpo, pelo sexo, tal união seria, apenas, acasalamento animal; ora, o casamento não é isto apenas, mas, sobretudo, integração dos dois sócios na família que é a célula do social. O filho que nasce da união sócio-biológica, é um produto, não só do biológico, mas também do social, porque considerações deste tipo também influíram no seu nascimento. Se o homem e a mulher decidirem que, devido a tais ou quais motivos, não devem ter o filho, este não virá ao mundo, pois, para isso, o social criou meios técnicos de evitar a natalidade. De maneira que o próprio ser biológico do filho, fica condicionado às contingências do social.

Agora, no nível da família, começa o social, para Augusto Comte que cuidava fosse ela, a família, o resultado de leis naturais, quando, na verdade, o social é pura criação humana, criação em que atuam todos os erros e acertos humanos. A família é uma unidade dinâmica, uma coisa que se constrói e se reforma em concordância com o que há de "sócio", de "cultura vivida", nas unidades integrantes homem e mulher. A família, portanto, é um devir, um vir-a-ser, e se torna cada vez mais perfeita, quanto mais se enriquece de civilização o "sócio" de cada homem e mulher que se unem. Quanto mais sábios forem os homens e as mulheres, mais perfeitas se tornarão as famílias, e quanto mais perfeitas, mais felizes. Pela recíproca, quanto menos sábios forem os homens e as mulheres, mais imperfeitos serão seus "sociais" e mais infelizes serão as famílias que vierem a construir. Os ínscios neste sentido social são chamados imaturos, incivilizados, agentes de desintegração, ignorantes, entes dragontinos. Tudo isto, todavia, nada tem a ver com cultura intelectual; esta pode ser um aviamento para a sabedoria, porém, não a sabedoria.

Erro grande foi de Freud o repetir e manter o absurdo histórico de situar a mulher como um ser inacabado, pelo que ela própria se sente incompleta, como ele o diz, por faltar-lhe um pênis. O complexo de castração a levaria a procurar um homem com que se completar. Como o homem só pode dar-se a ela de quando em quando, no coito, então ela

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deseja ter um filho, um menino, como compensação pela sua deficiência pela qual se sente diminuída. E pode mesmo ser que a mulher sinta isso, como produto que ela é da cultura masculina, cultura imposta pelo homem, da qual a mulher é partícipe. No entanto, este absurdo é conseqüência do suposto que afirma a positividade como pertencente ao ser racional; porque ser racional é ser positivo; porque só a racionalidade é considerada; porque entre alma racional e corpo substancial, só a alma conta, como se fosse possível a um ser constituir-se só de alma pura sem nenhum corpo de matéria. Como a mulher que merece este nome, é corporalmente produtiva; como é um ser do tronco-cerebral, feita, por isto, para sentir e amar; mas como nada disto conta, a mulher fica sendo só uma negação da racionalidade (Aristóteles e outros) e da virilidade (Freud). Contudo, de fato, pode a mulher ser considerada negativa, mas isto só em sentido de polaridade, visto como se convencionou chamar positivo ao que age, que penetra, que atua, e negativo ao passivo, ao inerte, ao que se deixa penetrar. Assim, a chave e o êmbolo são positivos, no passo que a fechadura e a seringa, negativos. Ora, nunca, ninguém pensou que o receptáculo do êmbolo é um êmbolo incompleto, nem que a fechadura é uma chave inacabada. Ninguém iria dizer que a negatividade das esferas eletrônicas de um átomo é frustração daquilo que não pode chegar a ser prótons nucleares. Na célula, por que há de ser negativo o citoplasma, e positivo o núcleo? Se a mulher é incompleta, porque, segundo Freud, lhe falta o falo, num mundo perfeito, completo, que Freud criaria se fosse um demiurgo, as mulheres teriam pênis como os homens, pelo oue não se sentiriam mais frustradas, e antes, se dariam os parabéns por bastar-se a si mesmas, não precisando mais dos homens. Essas mulheres hermafroditas se fecundariam a si mesmas, como há exemplo nos seres inferiores, e os homens ser-lhes-iam perfeitamente inúteis ... Que? acaso pensaria Freud, como Platão, que a união mais alta é a de dois homens entre si, porque racionais?

A sexualidade da mulher se abre para a sexualidade masculina; do mesmo modo que esta busca completar-se com aquela. Se o homem, como um todo, é a tese, a mulher, igualmente, como um todo, é a antítese, e ambos só se realizam na mutualidade da síntese, que é a família; se o filho (ou filha, não importa) completa a mulher pelo corpo, pelo sentimento, como objeto do seu amor, igualmente complementa o homem como motivo de sua luta, como imperativo da sua perpetuação, esta que ele não pode realizar sozinho. Se o homem propende a ser um ente mais racional que a mulher, esta se mostra mais afetiva, mais amorosa que o homem; e entre amor e racionalidade há a mesma equivalência de importância, de valor, que

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entre substância e essência, que entre conteúdo e forma, que entre corpo e alma, que entre indivíduo biológico e sócio, que entre núcleo e citoplasma, que entre esferas eletrônicas e núcleo atômico, que entre metal e metalóide na construção da unidualidade molécula, que entre êmbolo e seringa, que entre parafuso e porca.

Desde que Deus não é Essência pura sem matéria alguma, como pensara Aristóteles e outros; desde que Deus é também "corporal", visto constituir-se da Energia-Substância-Amor, por este aspecto, a mulher fica dignificada, tornando-se claro ser ela a contrapartida antitética do homem, cuja síntese só pode ser achada na família. Tudo decorreu da Referência Suma, Deus, porque, quando se supôs que ele era só Razão pura, puro Pensamento, sem corpo, como a mulher é corporalmente produtiva, ela foi tida por inferior. Agora, como pudemos chegar a entender que Deus, para existir objetivamente, precisa possuir Substância, corporeidade, por este aspecto, a mulher se dignificou. Todavia, para os que recusam este fundamento remoto, há este outro natural, intuitivo e próximo: tudo o que existe é uma tese que se opõe, polarmente, a uma antítese para formar a síntese; ora, nenhuma antítese (no caso, a mulher) é uma tese incompleta ou inacabada.

Não se trata, como se vê, de ser feminista; trata-se de que esta é a verdade peremptória, irrecusável, que a todos se impõe. Neste sentido, tudo é sexuado no universo, pelo que ele, como diz Platão, está cheio de eros. Não é preciso a mulher criar sua linguagem própria, específica do seu sexo. Não está por achar-se a linguagem feminina no mundo, pela qual a mulher possa manifestar-se: toda a linguagem do sentimento feita de obscuro misticismo, mistério, poesia e amor, ainda que feita por homem, é feminina. Porém, uma linguagem como a deste escrito, ainda quando defende o sentimento, o amor, a substância, o corpo, a mulher, é masculina, vibrante de clareza, de persuadimento, de racionalidade. Também na música há sexualidade: as tonalidades maiores são téticas, masculinas, e servem para temas alegres, vivazes, heróicos; já as tonalidades menores são femininas, antitéticas, e se prestam para os temas nostálgicos, patéticos, bucólicos, trágicos. Eis, pois, chegado o tempo de se mudarem os conceitos a respeito da mulher, fazendo que ela deixe de ser considerada em referência ao varão. A mulher é em referência à família, tal qual o varão. Como o homem, segundo Nietzsche, é um ser inacabado, um vir-a-ser ou devir histórico continuamente modificado pelas contingências filosóficas, psicológicas, econômicas, sociais, etc., esta nova tomada de posição impõe-se agora, e vai nortear o futuro.

A idéia comteana, todavia, de que o homem age segundo leis naturais invioláveis, teve os seus frutos benéficos, porque os

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sociólogos e antropologistas se puseram a estudar as culturas, as sociedades, não só no espaço como no tempo. O saldo de todo este esforço, foi desolador para os positivistas, porque o homem não pode ser reduzido a princípio de razão. Não há isso de estudar as sociedades com o fim de descobrir-lhes as leis naturais; não há tais leis, e as que há, são criadas pelo próprio homem como ser social. Tanto o social que envolve o homem, como o que o embebe até às medulas, são empreendimentos humanos, são empresas sujeitas aos métodos e processos das formações empresariais. O homem é um ente que se fez e que se faz, por sua conta e risco, e só salvar-se-á com se tornar sábio.

Kant, à frente de todos os idealistas, assentou seus a prioris, e, segundo ele, o homem é moral por natureza. O imperativo moral teria sido posto por Deus na natureza humana, sob a forma de intuição moral. Por cima de mim, dizia ele, o céu estrelado; dentro de mim, a lei moral. O a priori moral tinha que achar comprovação na história e na pré-história; e indo nesta direção do passado, o que os antropologistas encontraram, foi o inferno, inferno que também a psicologia de profundidade achou dentro do homem. Então, o imperativo moral de Kant não passava de puro mito..., próprio a manter em pé a moralidade humana.

"Esta supremacia mítica do espírito (diz Gusdorf), mantida com a energia do desespero, permite, se preciso for, riscar a natureza e a história. Lachelier, um dos mais eméritos propugnadores do racionalismo moderno, após ter lido, um dia, um estudo de pré-história, do qual resultava que a família originária não havia sido regida pelas regras kantianas do imperativo moral, escrevia a seu colega Boutroux: "Tudo isto causa espanto, mas mesmo que tivesse acontecido, mais do que nunca importaria dizer que tal nunca aconteceu, que a história é uma ilusão, e o passado uma projeção, e que de verdadeiro só existe o ideal e o absoluto; talvez seja essa a solução da questão do milagre. A lenda é que é verdadeira, e a história é falsa".

Lachelier não achando solução para o problema moral, a não ser na concepção idealista, propõe que a ciência seja substituída pela lenda criacionista, segundo a qual, um Deus justo e bom formou tudo coerente com o que é. Mas a descida aos infernos interiores do homem, realizada pela psicologia de profundidade, e a regressão no tempo histórico, efetuada pela antropologia, deram azo a se pensar num deus negativo, num "Demônio criador", segundo a expressão de Schopenhauer. Com esta idéia imperante no mundo, a moral está ameaçada de colapso, e, com ela, a civilização ocidental que se espalha, hoje, pelo mundo. Todos podem rir-se da ingênua proposta de Lachelier para o problema moral; mas o caso não é de

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risos, mas de seriedade, porque ninguém, até agora, foi capaz de propor outra solução. E sem um fundamento, a moral se derroca e é nada; e sem moral, não há civilização, visto como, sem ela, a civilização fecha o seu ciclo, regredindo à barbárie. Os que, pois, se riem de Lachelier expõem-se a ser lastimados pelos vindouros, porque tal rir de loucos força é que se transforme em lágrimas de tragédia.

A civilização ocidental está caindo porque se está evaporando as bases da moral; e esta se conserva, ainda, um pouco, por causa da inércia do impulso operado e reoperado pelos criacionistas, de Moisés a Kant, dos quais nos rimos, hoje, nesciamente. A Doutrina da Evolução demonstrou sem sombra de dúvida, que tudo se originou no turbulento Caos. Ora, a idéia de Deus não nasceu do vácuo, do nada, mas da experiência humana que viu no cosmo, beleza, harmonia e paz. A idéia primitiva tinha que ser a de um Deus Relojoeiro, porque o princípio de causalidade é o primeiro a despontar, já na vida orgânica, onde aparece sob a rubrica de reflexos condicionados aos quais Bertrand Russell deu o nome de "inferências fisiológicas". A concórdia entre os elementos, a harmonia e a paz da natureza cósmica, abaixo do vital, levaram o homem a inferir que tudo é belo e bom, porque nascente duma Causa boa. Surge, porém, a desconcertante Doutrina da Evolução que dá por origem de tudo o medonho Caos. Por causa disto, então, como se sabe hoje, é que a vida é egoísta, ignorante, referta de misérias, dores e tragédias. Filho que é da Natureza hedionda, amoral, o homem, por seu próprio esforço, subiu do seu inferno pré-histórico, como o provam as pesquisas antropológicas, em razão do que, o homem traz, ainda, o mesmo inferno dentro, em si, como o demonstra a psicologia de profundidade.

Era de esperar-se que a filosofia contemporânea, o existencialismo, resolvesse a questão ingrata, cruel, de um bondoso Deus ter criado um mundo sumamente mau. Todavia, o existencialismo, cumprindo o seu dever histórico de ser a antítese em relação ao idealismo, apenas veio opôr, a este, a sua meia verdade que ainda é a de Heráclito, só que elaborada ao nível complexo do humano, confundindo-se, portanto, com a antropologia, se bem que de visão mais larga. Mais larga, sim, e tanto que, como no idealismo, manteve Deus prisioneiro dentro do horizonte humano, pelo que continua Deus sendo subjetiva projeção do homem.

Ora bem: há coisas que o homem descobre, e outras, que ele inventa ou imagina; e acaso é Deus imaginosa invenção do homem? ou é sua descoberta? Se, invenção, sê-lo-ão, também, os primeiros princípios das ciências, e os postulados matemáticos, visto serem tão indemonstráveis quanto o é Deus, pelo que não deve a ciência ter valia fora do universo antropomórfico, ou seja, no universo objetivo. Neste

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caso, é só na imaginação inventiva de Kepler, que "os raios vetores varrem áreas iguais em tempos iguais". A não ser assim, que tudo é invenção do homem, coisas há que são descobertas suas. Pois, então, do mesmo modo que este enunciado de Kepler é uma descoberta científica, decorrente da de Newton, a da gravitação universal, ambas com validade objetiva, no universo, de igual modo a idéia de Deus nasceu da observação humana objetiva; foi por extensão de suas experiências vividas, que o homem inferiu a transcendência. Não é Deus invenção do homem, mas descoberta sua, por extensão do dado objetivo. Sua descoberta primitiva do divino, podia ser grosseira, porém, não esquecer que até a nossa alta ciência objetiva, ainda, agora, vive em crises.

A ciência, embora fundada, como se pretende, na observação e na experimentação, desde Galileu, não prescinde dos primeiros princípios intuitivos, indemonstráveis, pelo que ela não se basta só com seu método de observação e experimentação; ela se obriga a jogar, queira ou não queira, com os elementos metafísicos tais como causa, espaço, tempo, matéria, energia, etc. E há mais: quando um cientista põe em jogo seu método de observação e experimentação, começa por delinear-se, em sua mente, uma hipótese de trabalho pela qual a observação e a experimentação se conduzem. Hipótese e experiência formam, desde logo, o unibinário em cujo âmago as duas partes, mutuamente, se apóiam, se reforçam, crescendo, no rumo da conclusão final. Assim é que consegue o homem elaborar uma teoria que, comprovada, pode formular-se em lei. O unibinário fica sendo: a lei e a sua demonstração. Esta lei indutiva, torna-se a priori para uma porção de outros fenômenos semelhantes, ainda não comprovados, mas que podem sê-lo, a partir da lei, tomada agora como um a priori. Por causa do paralelismo desta lei com outras leis, doutras disciplinas, pode-se enunciar uma lei mais geral que arrebanhe a todas as leis menores na unidade. De generalização em generalização chega-se a um princípio unitário. Um exemplo:

Quando Newton formulou sua lei da gravitação universal, afirmando que as matérias se atraem na razão direta das massas, e na inversa dos quadrados das distâncias, essa lei indutiva, porque partida da experiência, passou, a priori, a cobrir tudo o que se refere à difusão de energias por ondas. Como as energias se difundem em esferas para todos os lados no espaço, ficam sujeitas às propriedades matemáticas das esferas. Como o crescimento da superfície se faz proporcionalmente ao quadrado do raio da esfera, segue-se que a energia ondulatória ao difundir-se por esferas de raios progressivamente crescentes, se decresce na proporção em que esses raios aumentam. Esta lei da gravitação, unindo corpos

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celestes e atuando nas entranhas dos átomos, acaba por ligar tudo fazendo do universo uma unidade. Logo, estava certo Platão ao afirmar que o universo está cheio de Eros (princípio de integração), e vai movido por Eros. A gravitação, consequentemente, não é mais do que um caso particular da Lei do Amor que impera do átomo ao universo. E sendo Deus o Amor, nele, tudo se acha unificado. Em mais alta e mais sublime esfera, a lei de Newton daria neste enunciado: os entes se atraem na razão direta de suas potências amorosas, e na razão inversa das distâncias entre si, distâncias não só físicas como, e sobretudo, psíquicas. De outro modo: a força de unificação do amor é diretamente proporcional à potência amorosa dos entes, e inversamente proporcional às distâncias físicas e psíquicas entre eles. Daí que o amor se esfria com a distância e com a mudança psíquica. É por isto que a saudade dói muito, só no começo da separação.

Eis como se pode comprovar um princípio geral: pelas leis que ele engloba, e estas, pelas experiências de que nasceram. Todavia, esse princípio unitário, alcançado por indução, portanto, a posteriori, pode tornar-se a priori para um outro universo de leis que, antecipadamente, guiarão outras experiências. Daí que Kant afirma que os princípios científicos são indutivos a priori. O paradoxo da expressão deixa de sê-lo, quando se sabe que se trata de dois momentos opostos do pensamento: indutivos, porque partem da experiência; a priori, porque, uma vez descoberta a lei, ela cobre uma porção de fenômenos que se tornam conhecidos, antes da experiência.

Em matemática, o método é só dedutivo, analítico, apriorístico, porque sempre se parte de um postulado indemonstrável, a não ser pelos resultados verdadeiros que produz. Não vale proceder como o geômetra moderno que, para fugir à contingência incômoda da indemonstrabilidade do postulado inicial, opera a fragmentação dele numa infinidade de outros postulados menores igualmente indemonstráveis. É o caso de quando nos vêm com suas petulantes definições "construtivas", no dizer de Gusdorf, segundo as quais eles "criam livremente seu objeto numa espécie de vácuo conceptual. O matemático proclama: "Chamo triângulo a figura determinada de tal e tal maneira"..., - e, de ora em diante, o triângulo existe como ente de razão, cujas propriedades derivam necessariamente de sua fórmula constitutiva". Isto é petulância visto como o matemático, se fosse modesto, diria como Euclides: "peço me concedam afirmar que o triângulo é uma determinada figura de tal e tal maneira". Quando tais matemáticos nos dizem que ponto, linha e plano são intuições, nada mais fazem que tornar tais objetos geométricos em postulados indemonstráveis.

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Bertrand Russell, socialista mais de cariz religioso do que de cunho filosófico, que fez da lógica um absoluto, da matemática uma divindade e do pensamento positivo uma religião, exclamava: "A matemática possui não somente verdade como ainda a beleza suprema - uma beleza fria e austera, qual a da escultura, que não fala aos fracos da nossa natureza, que não arma as trapas suntuosas da música; é sublimemente pura e capaz de severa perfeição só possível na arte suprema". E prossegue com seu cântico de glória à deusa, noutro lugar: "Aqui, e aqui só, está a eterna verdade e o conhecimento absoluto; estes teoremas a priori são as "Idéias" de Platão, a "ordem eterna" de Spinoza, a substância do mundo. A filosofia deverá ter como alvo igualar a perfeição das matemáticas, confinando-se a proposições similarmente exatas e similarmente verdadeiras antes de qualquer experiência".

Depois de este esquizóide (B. Russell) haver-se demorado, como as almas recém-criadas de Platão, a contemplar as formas imperecíveis, os arquétipos eternos, do Topos Uranos, eis que, como elas, desce à face do planeta, e, apaixonadamente, entra a raciocinar sobre a guerra, o governo, o socialismo, a revolução, sem, nunca, fazer uso das imaculadas fórmulas matemáticas que tanto exaltara. Eis o "matemático de sempre" que se pôs, de improviso, a fazer filosofia, conforme a alusão de Garcia Morentes.

Após esta radical mudança de idéia, passa a enunciar que, "para tornar-se efetivo e útil, o raciocínio deve ser sobre coisas e nunca fora do seu contacto. Abstrações servem como sumários; mas como implementos de argumentação requerem a prova e o comentário da experiência".

Descido, Bertrand Russell, das empireais alturas, onde, segundo Platão, pontificam as Idéias puras, que são as da matemática para o nosso herói, viu, este, o mundo nosso, em toda a sua hediondez, e desta experiência concluiu "que só um humorístico Mefistófeles poderia tê-lo criado num momento de excessivo demonismo". E a matemática? que diz dela, agora, Russell? Ei-lo: "nunca sabemos de que ela está falando, nem se o que ela diz é verdadeiro". A isto, argumenta Gusdorf:

"Só que, a despeito deste dito espirituoso de Bertrand Russell, as matemáticas demonstram sua validade, da maneira mais esplendorosa, por sua fecundidade e pela extraordinária harmonia preestabelecida que lhes faculta aplicarem-se incessantemente a elucidarem e a aperfeiçoarem a experiência, da qual constituem uma cifra peculiarmente eficaz".

De deusa que era, para B. Russell, a matemática passou a ser uma sibila que fala coisas que não se pode saber a que se referem,

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nem se os ditos seus são verdadeiros. Contra esta invectiva russelliana, Gusdorf dá, como critério de avaliação das matemáticas, os seus resultados práticos. Ora, se a aplicabilidade das verdades matemáticas que se alicerçam em postulados indemonstráveis, são suficientes a dar a elas, matemáticas, validade, de igual modo, o pragmatismo social valida a moral cujo fundamento é Deus.

Tal como os postulados, Deus, também, não pode ser provado; porém, do modo como dos postulados saíram as matemáticas, de Deus saiu a moral; e, se a praticabilidade das matemáticas é-lhes critério de validação, identicamente, o pragmatismo social valida a moral; e, tal qual não pode haver matemáticas sem postulados indemonstráveis, também não pode haver moral sem Deus, sem um fundamento, igualmente, improvável. Assim, trocando o termo matemática por moral, no dito de Gusdorf, a construção ficaria assim: a despeito dos que negam Deus, fundamento necessário da moral, esta demonstra sua vitalidade, da maneira mais esplendorosa, por sua fecundidade e pela extraordinária harmonia preestabelecida (no social) que lhe faculta aplicar-se, incessantemente, a elucidar (a conduta) e a aperfeiçoar a experiência (civilizante), da qual constitui uma cifra peculiarmente eficaz.

A tal conduz a construção gusdorfiana, se aplicada à moral; contudo, em lugar de dizer, da moral, que ela "constitui uma cifra peculiarmente eficaz", diríamos basicamente eficaz, porque a moral alicerça tudo, com fundamentar a própria civilização. Logo, como sem civilização não haveria matemáticas, nem ciências, nem técnicas, etc., a base da moral se torna fundamento de tudo, nesta ordem causal: Deus → moral → civilização → postulados e matemáticas; primeiros princípios e ciências → tecnologia, automação e robotização → conforto → céu-na-Terra. Segue-se disto, que os deicidas antigos e modernos são, ou onagros, ou loucos, uma vez que a morte de Deus implica no puro e simples estiolamento de tudo o mais. Insistamos ainda, um pouco, neste ponto:

De um postulado matemático sai um universo de princípios, propriedades e teoremas, que podem ser aplicados às ciências que se mostram executivas, conforme o provam as máquinas, a indústria, a técnica que se acham por aí, funcionando. As descobertas, portanto, embora efetuadas pelo homem, são-lhe exteriores, objetivas, e não, invenções ou projeções dele. E se a aplicabilidade e funcionalidade das ciências e das matemáticas são a rubrica de autenticação dos primeiros princípios e dos postulados, pelo mesmo critério de verdade, o pragmatismo e a facticidade da moral em que se fundamenta a civilização, autenticam o ser e a existência de Deus, visto como é nele, e só nele, que se alicerçam os códigos éticos

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primeiro, e legais depois. Embora as leis civis modernas não se refiram a Deus, como fundamento primeiro, os atributos de Deus estão na sua gênese remota. Ainda que se não faça nenhuma referência às mãos e aos pés, ninguém consegue executar nada sem eles. É por isso que quando uma civilização cai, não há leis nenhumas que consigam segurar a derrocada; é que faltou às leis o embasamento moral. Então podemos construir o seguinte raciocínio, para os que pedem provas da existência de Deus:

Sem o imperativo moral, a civilização não nasce, nem se desenvolve. Ora, a moral se alicerça em Deus desde o início, quando principiou a civilização da besta pré-hominídea, e sempre que a moral é posta de lado, apesar de todas as leis civis, o homem retorna ao estado de que saiu, e a civilização se desfaz. Logo, Deus existe como intuição de que nasce a moral que torna efetiva a civilização.

Os que, logo, pregam "a morte de Deus", ou dizem haver no lugar dele "uma poltrona vazia"; os que afirmam que "Deus é invenção do homem", ou afirmam que "Deus é o próprio homem", ou definem o homem como "o que quer ser Deus", todos estes, sem exceção, acham-se ocupados em solapar os alicerces da moral em que se assentam as leis civis, os usos e os costumes sociais sadios. Agora, por causa desta pregação, conseqüente do repto assentado pelo Evolucionismo, as religiões todas estão em colapso; a polícia já não dá mais conta de tantos abusos, e, também, abusa da força impunemente; as nações já estão entrando em caos, a família está falindo, a anti-polícia começa a organizar-se, começam a surgir os terroristas de todos os pretextos, os bandidos de todos os matizes, os aventureiros de todos os descalabros. A civilização nossa agora vai a zero... ainda que sem guerra total... se a idéia fecunda exposta neste livro não for posta em prática, com urgência.

Como, sem a moral, apesar das leis e da polícia, a sociedade humana não funciona, então, o funcionamento do social prova a autenticidade da moral; e como a moral nasce de Deus - e não há outra fonte donde nascer - então, a existência de Deus se autentica pela moral, e esta, pela funcionalidade do social. Consequentemente, Deus não é invenção, porém, descoberta do homem, estando esta primordial descoberta na raiz de todas as demais que só foram possíveis com a civilização. Deste modo, a descoberta de Deus, propiciando o eclodir da civilização, deu azo a que se desenvolvessem as ciências, conseqüentes dos primeiros princípios, e as matemáticas, decorrentes dos postulados e dos axiomas. Nunca, jamais, poder-se-á provar que houve alguma civilização sem Deus e sem religião; e tal como já muitas vezes tem acontecido, agora, também, a morte de Deus e o estiolamento das

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religiões irão pôr um ponto final em nossa civilização ocidental. Ela perviverá ainda, por certo tempo, enquanto durar a inércia do impulso que lhe deu origem. Há, pois, duas opções: ou se põe em prática a Doutrina do Evangelho, reconfirmada por esta nova visão ("eis que faço novas todas as coisas" - Apoc. 21, 5), ou se desce a nada. No caso de se ir a nada, também há duas alternativas: uma é a Terceira Guerra; a outra, o decréscimo progressivo, cada vez mais acentuado, dos nascimentos. Quando as nações "desenvolvidas" tiverem completado seu desserviço de exportar sua "civilização" decadente para o resto do mundo, então, o desastre será completo pela Terra inteira, sobrando, apenas, uns poucos homens transformados em selvícolas.

Por meio de idêntico raciocínio visto atrás, chegamos às qualidades de Deus, das quais se parte para construir a moral. Conforme a natureza de Deus, ou a do que se coloca no lugar de Deus, assim será a moral. Se deus é a Natureza circundante, a moral será a da força e a da astúcia, e Trasímaco, Maquiavel e Nietzsche passam a ter razão. Porém, se Deus é a anti-natureza, no que ela tem de invertida neste mundo, Cristo está certo, e a moralidade consiste em negar-se o homem de demônio, de dragão, de animal. Deus, pois, é a eterna Referência do homem; negar-lhe a existência, o ser, é apenas mudar a Referência de nome e de lugar, e, então, pode ela ser a Natureza, a Razão, a Ciência, a Técnica, o Poder, a Vontade, a Liberdade, a Humanidade, o Proletariado. O último termo de referência, esse fica sendo Absoluto, fica sendo Deus.

Quem é, então, Deus? Deus é o que promove a civilização, a integração, a harmonia, o cosmo, a ordem, a alegria, a beleza, a paz. Ora, o que integra, harmoniza, ordena, cosmifica, alegra, pacifica, civiliza, é Eros, ou Amor; logo, Deus é Amor. Eros é o Princípio de Integração, conforme o afirma o mestre Hesíodo, e quem diz princípio diz essência; consequentemente, Eros é o Primeiro Princípio por excelência ou Deus-Forma. Unijugado a essa Essência está o Amor que é a Energia-Substância basilar, prima, em sentido absoluto, de que todas as demais energias-substâncias decorrem.

Com isto, acaso, temos definido Deus? Claro está que não, visto como apenas o assinalamos..., como faz o físico com o seu espaço, com o seu tempo, com a sua causa, com a sua energia, com a sua matéria, etc. Estes são os primeiros princípios do físico, indemonstráveis, inexplicáveis, indefiníveis, porém, em que se fundamenta a sua disciplina. Para uso imediato, porém, o físico é forçado a dar definições. Quando ele afirma que o espaço é o lugar ocupado pelos corpos, e existente entre os corpos, não definiu o Espaço, em sua plenitude, porque, sendo o Espaço uma intuição, por

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isto mesmo é indefinível. E há mais: dado que o físico definiu espaço como sendo o lugar ocupado pelos corpos ou existente entre eles, sua definição ficou pendente de outra: que é corpo? Então ele diz: corpo é o que ocupa lugar no espaço. Eis estabelecida a petição de princípio que é o raciocínio vicioso, consistente em dar por verdadeiro aquilo mesmo que ainda está por demonstrar-se. Para não cair nisto que, também, se chama círculo vicioso, o físico aventa que espaço é a extensão INDEFINÍVEL que abrange todos os seres e coisas.

Igualmente, o tempo é a duração do movimento, ou o intervalo entre os acontecimentos. Com esta definição, ele, comodamente, trabalha em suas experiências e em seus cálculos. Quando, todavia, ele atenta para o fato de que quanto maior for o movimento, mais se encurta o tempo, é compelido a concluir que, quando o movimento se fizer infinito, o tempo fica nulo, zero, e não há mais tempo. O objeto imaginário que se movesse no espaço, com velocidade infinita, ficaria onipresente em todos os pontos de sua trajetória. Pela recíproca, se o movimento diminuir, progressivamente, o tempo se vai aumentando; quando o movimento for nulo, o tempo se torna infinito ou eterno. Eternidade, dirá ele, é o movimento que cessou, que se imobilizou.

Já, para São Tomás, todo o tempo é eterno, ainda que seja um átimo, porque, como dizia, do desenvolvimento do tempo menor, depende o maior. O tempo menor determina o maior, em que se fixa. É deste modo que quaisquer, tempos se acham alojados na eternidade em que até os átimos de tempo se eternizam. Como se vê, para São Tomás, a eternidade é a somação de tempos. Por causa destas dificuldades, Santo Agostinho já dizia: "se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é o tempo; porém, se alguém me perguntar o que é o tempo, eu não sei o que é o tempo". Então, é perguntar para o físico, de novo: o que é o tempo?

Não só o físico, mas, o químico, o biólogo, o psicólogo jogam com o conceito de causa. E definem causa como o antecedente de que decorre algo. Se tudo decorre de uma causa que, por sua vez, é conseqüência de uma causa anterior, e assim, sucessivamente, deve haver uma Causa Primeira, uma Causa não causada, indefinível e inacessível, ou então, a cadeia ascendente não terá fim, e será válida a ingênua, mas, desconcertante, pergunta da criança que interroga sobre a origem de Deus.

A isto, Kant afirma que é arbitrário e ilógico interromper a cadeia causal numa Causa Primeira. Pelo mesmo raciocínio é arbitrário e ilógico interromper a sucessão dos espaços cujo termo é o infinito, pelo que se deve prosseguir para além, ainda mesmo, de

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um transinfinito. De igual modo, segundo o entende São Tomás, sendo a eternidade o termo final da somação de todos tempos, ou seja, o Círculo supremo oriundo do abrir-se e do fechar-se dos tempos ou espirais menores; sendo ela aquele grande Inspiro dentro do qual respiram os ciclos temporais de todos os fenômenos; tal cadeia temporal não pode ser interrompida naquele infinito Inspiro sem Expiro, a que se dá o nome de eternidade. Não! Aquele Inspiro também Expira; aquele grande Círculo do eterno que se abre, também se fecha, pelo que, se o Inspiro é a eternidade, o Expiro que vem depois não pode ter outro nome que Transeternidade. Que se conclui disto? Pois se conclui que, pela mesma razão por que não há o transinfinito e a pós-eternidade, não pode haver algo anterior à Causa Primária. Admitido um termo para o espaço, que é o infinito, e um termo para o tempo, que é a eternidade, há de haver um termo para a cadeia de causalidade, e esse é a Causa Primária. Assim tem que ser, queiram ou não queiram os racionalistas puros, porque, saibam-no eles, toda a cadeia de raciocínios, ou começa ou acaba numa INTUIÇÃO indemonstrável.

Augusto Comte, à frente do cientismo, pretendeu tocar a finados pela morte da metafísica, como se os homens de ciência não fossem compelidos a fazer metafisica, na hora de justificarem suas posições iniciais. O físico, como o químico, não pode definir os seus fundamentos que são Tempo, Espaço, Causa, Energia, Matéria, Corpo, etc. Estes são os seus primeiros princípios indemonstráveis, sobre os quais todas as ciências se apóiam. Um modo cômodo de evitar quaisquer discussões é dizer como Voltaire: "Se quereis discutir comigo, defini os vossos termos". Porque? Pois, porque, obrigando o interlocutor a definir, chega a hora em que ele cai numa antinomia que é um pressuposto indemonstrável.

Assim, quando dizemos que Deus, como Essência é Eros (princípio de integração); e que Deus, como Substância, como Energia-Substância, é o Amor, procedemos como o físico ao definir o seu espaço, o seu tempo e a sua causalidade para uso doméstico. Dado que tais conceitos se remontam ao inacessível dos primeiros princípios, igualmente, nossa definição serve só para nos entendermos, para que nossas palavras não se tornem pura zoada de gongo.

Cada um, agora, que se ponha a imaginar a portentosa manifestação de Eros, integrando tudo, do elétron ao universo; que imagine o Amor, na queda, se degradando nas energias inferiores, cada vez mais simples, monocromáticas, de comprimentos de ondas cada vez mais curtos, até que, no Caos medonho, tais raios de energias concentrantes se enrolaram nos elétrons e nas demais

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partículas subatômicas. Eis aí como tais energias degradadas se petrificaram em matéria. Ponha-se, depois, a meditar sobre como, na fase inversa, evolutiva, a Ordem pouco a pouco se fez a partir do Caos, saindo deste o universo, e, deste, a vida, por transformação evolutiva das energias inferiores; como, da vida, brotou, cresceu e frondejou a consciência cujos frutos vemos hoje nas maravilhas da técnica que impõe ao homem moderno a alternativa crucial: ou se vence a si mesmo, e se torna senhor, ou é vencido e fica escravo de dragontinas paixões, pelo que, em descendo, perde tudo o quanto é e tem. Se neste ponto perigoso da escalada, conseguir o homem superar-se, seus sentimentos se sublimarão naquele antigo e agora novo Amor, Causa Primeira e Fim Último de tudo.

Move-nos a riso a ingênua pergunta de muitos que nos pedem a demonstração da existência de Deus. Eles que nos provem, então, que Deus não existe. As provas em contrário sempre são refutações às demonstrações da existência dele. Ora, quem refuta uma demonstração, nem sempre prova a afirmação oposta, isto é, de que Deus não existe. Como as afirmações pró e contra são antinomias, é tão impossível a uns como a outros demonstrarem suas afirmações. Uns e outros, pois, tal como ocorre com os racionalistas, para armarem seus raciocínios, hão que se firmar numa premissa que se apóia em outro fundamento, e este, em outro, até que o último não poderá ser demonstrado.

Nossa prova, para fins domésticos, práticos, se afirma na funcionalidade da moral, do mesmo modo que os primeiros princípios das ciências físico-matemáticas, e os postulados matemáticos se validam graças a aplicabilidade das ciências e das matemáticas que nascem deles. Face a isto, deixamos, aqui, um desafio aos negadores: provem, eles, que pode haver condicionamento moral, sem um alicerce escatológico... Ao fazerem isto, no entanto, tenham em mente duas coisas: a primeira é que, neste nosso mundo, mesmo com a moral de fundo escatológico, as coisas nunca andaram bem, e os homens vivem como se "morreu acabou". A segunda é o fracasso de Confúcio, quando pretendeu fundar uma moral objetiva, isto é, embasada em motivos seculares.

Sem Deus não há moral, e sem esta, não há civilização. Esta, a nossa "prova".

E é isto mesmo que está acontecendo: a Doutrina da Evolução solapou os alicerces da moral, deixando-a suspensa no ar, e o mundo humano começa agora sua queda rumo à barbárie, como mais vezes já aconteceu. Nossa moral se fundamenta na concepção criacionista de um Deus justo e bom. Ora bem: a Doutrina da Evolução,

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mostrando que tudo teve origem no Caos (donde a ignorância, o egoísmo, as dores e misérias do mundo), deixou implícito, sem sombra de dúvida, que, ou não há Deus, ou ele não é bom. E até agora, não surgiu nenhum filósofo evolucionista que demonstrasse a justiça e a bondade de Deus, através da Evolução. Spencer, é certo, foi evolucionista; mas, em vez de deduzir a teodicéia da Evolução, fê-la sair dos Primeiros Princípios. Urge, portanto, esta filosofia que fazemos, para a salvação do mundo, salvação que, entenda-se, não é nossa, mas, de Cristo, apenas vista com olho filosófico. Esta grande causa nos obrigou a expender o ingente esforço de efetuar a síntese que, apesar da Evolução, e ainda, com a Evolução, cria nova base de sustentação para a moral.

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XII - ALMA E CORPO

Outro aspecto do unidualismo humano, é o par de opostos e complementares alma e corpo. Outra vez a alma é essência, e o corpo, substância, sem nenhuma possibilidade de separação um do outro no real.

A divisão que comumente se faz entre espiritualismo e materialismo gera confusão, porque, quando se pensa que espírito é alma, vai-se ver, através do quanto se há dito, que o espírito é uma entidade composta, outra vez, de alma essencial e de outra coisa, esta, de natureza substancial.

Kardec chama alma ao espírito encarnado, e espírito, à alma desencarnada. Com isto, alma e espírito se tornam palavras sinônimas, diferentes só quanto à situação de estar num corpo de matéria densa, ou num corpo de matéria espectral. Este corpo de matéria quintessenciada é o perispírito. Então, segundo o kardecismo, o ente humano é constituído de alma e corpo, se encarnado, ou de espírito e perispírito, se desencarnado. Ou melhor: o homem encarnado se constitui de alma, perispírito e corpo físico. O perispírito é o duplo etéreo do corpo físico. E a alma, em sua condição de espírito encarnado, pode, durante o sono, comunicar-se, ou com os espíritos, no mundo espiritual, ou com os próprios homens em sessões espíritas, podendo, neste caso, ser vista pelos videntes, como se fôra um espírito desencarnado. Em linguagem espírita, quando um espírito ou uma alma se manifesta a um vidente, o que este enxerga é o perispírito, ou corpo espiritual.

Segundo a tradição cristã, o unibinarismo humano se constitui de alma e corpo, só que este pode apresentar-se como corpo corruptívél, que é o de matéria densa, e corpo glorioso, corpo incorruptível que será aquele de após ressurreição, conforme o entendia São Paulo. Então, o corpo incorruptível ou glorioso corresponde ao perispírito dos espíritas.

No Egito, se pensava que o corpo denso tem o seu ká ou duplo etéreo, que é o sobrevivente da morte física, e que vai para outros planos de existência unijugado à alma. A destruição do corpo físico implicaria na destruição do ká, e a alma cessaria de ser, por falta de seu veículo de manifestação. Daí o embalsamamento dos cadáveres, para que o correspondente do corpo, o ká, pudesse sobreviver.

Sendo que a alma, como essência, não pode ser, senão unijugada a um corpo, que pode ser o de matéria densa, ou um outro de matéria fluídica, com os nomes de perispírito, corpo incorruptível, corpo glorioso, corpo astral, ká, então, podemos estabelecer para este

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nosso estudo, que o homem é uma unidade dual, uma dríada, composta de corpo e de alma, seja na carne biológica, seja fora dela. Se o corpo não pode existir sem a alma, e se esta não pode ser sem o corpo; se ambos se dependem, mutuamente, de modo que a alma para ser, precisa do corpo sem o qual não é; o corpo para existir, necessita da alma sem a qual não existe; então, alma e corpo são as duas partes oponentes e complementares da dríada conjugadas na unidade do homem. Como ambos, alma e corpo pertencem ao mesmo nível hierárquico, tal como tese e antítese, são iguais em valor não se podendo dar primazia nem à alma em prejuízo do corpo, nem ao corpo em detrimento da alma. E é nesta primazia de um sobre o outro e vice-versa, que se cifra o corporalismo materialista e o almismo idealista..., duas atitudes psicológicas antagônicas, radicais, que separaram os homens em duas facções contrárias desde os primórdios até hoje. O que se vai ver poderá, agora, ser tido por muito fácil; contudo, impossível se creu antes de achado:

O idealismo essencialista faz a ênfase recair sobre o ser, no passo que, mantendo-se em posição diametralmente oposta, o materialismo existencialista faz a ênfase recair sobre o existir. No que se refere ao unidualismo humano, os almistas pretendem que o "espírito" tem prevalência sobre a matéria, no passo que os corporalistas requerem para o corpo esse privilégio, proclamando que a alma é função do organismo. Ora, nesta luta de contrários, como sói acontecer, não haverá vencedores nem vencidos, porque os elementos do par não podem converter-se um no outro, visto como um se refere à essência, e o outro, à substância. Como a essência não se poderá tornar na substância, nem esta, naquela, também o corpo não é resultante da alma, nem esta, função do organismo, e, antes, uma e outro, em igualdade paralela, em igual nível hierárquico, formam o unidualismo in-de-com-po-ní-vel do ser humano. Eis pois, como cessa a velha luta, quando se pode enxergar que a unidade humana é monobinária, desde sempre formada pelo par de opostos alma e corpo. A guerra que os almistas movem ao corpo é oriunda da confusão que fazem entre o corpo e a animalidade grosseira, a carnalidade, o pecado; agem como se fosse possível ao homem existir sem o corpo, assumindo a condição de alma sem substância, essência pura, pura idéia... vazia de conteúdo corporal de qualquer espécie.

São Paulo, fazendo a distinção entre corpo carnal corruptível e corpo espiritual incorruptível, diz:

"Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção.”

"Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor”.

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"Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual" (1 Cor. 15, 42 a 44). Mais:

"Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade”.

"E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória" (1 Cor. 15, 53 e 54).

Se até o corpo corruptível é indispensável como campo de semeadura, de experiência, para que, um dia, já livre do ciclo biológico do nascer e do morrer, o homem possa permanecer só com seu corpo incorruptível e imortal, vivendo, para sempre no Mundo Espírita, no Mundo Celeste, no Topos Uranos, já se vê, não há de ser ao corpo que se tem de mover guerra, e sim a tudo aquilo que o faz prisioneiro da mortalidade, isto é, do ciclo biológico das reencarnações. E o que o faz sujeito ao ciclo periódico da morte, da reencarnação, é o estar ele invertido de anjo, ressumbrante de animalidade, pejado de culpa, perdido nas trevas. Vencidas estas pulsões baixas, desinvertido de dragão egoísta, ignorante, perverso e mau, o corpo se torna num aliado, porque os bons hábitos, os costumes sadios, são tão persistentes, tenazes e arraigados, quanto os seus opostos, os hábitos viciosos. Se no estar invertido se fundamenta a morte, com seu periodismo nascer-morrer, na desinversão estará fundada a vida eterna, sem sombra de morte, cifrando-se nisto o sentido da sentença proferida pelo Apóstolo: "Tragada foi a morte na vitória". Consequentemente, o corpo, em si, não é inimigo, e será um aliado útil, se a inércia em que se fixaram os hábitos dragontinos, animalescos, desde evos longos, for rompida pelo fremente esforço da desinversão. Esta é a causa por que São Francisco chamava ao próprio corpo de irmão corpo.

Livrar-se o homem de seu corpo de carne, porque corruptível, não é livrar-se das pulsões animalescas, satânicas, dragontinas. O corpo espiritual daquele que não se desinverteu de dragão, continuará invertido após a morte física, e os planos inferiores do mundo espiritual estão cheios de orgulhosos, de avarentos, de hipócritas, de invejosos, de luxurientos, de perversos, alfim, de invertidos de todas as espécies e matizes. A recíproca disto pode achar-se no corpo de matéria densa que, embora corruptível, pode ser o corpo irmão, como sabiamente o entendia São Francisco.

Para os cristãos, vale este argumento: Cristo tinha corpo de matéria; logo, ou era inimigo de seu próprio corpo, ou não o era; se o era, então, ele, como nós, vivia em luta consigo mesmo; acicatado

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pelo aguilhão da carne, do egoísmo, da animalidade. Todavia, se não se pode imputar nada destas coisas a Cristo, neste caso, ele não podia ver inimizade entre si-alma e si-corpo. Se o corpo seu não lhe era inimigo, quem é o inimigo? O mundo?

Sim ... o mundo ... porque este nosso mundo não era o seu mundo - "meu reino não é deste mundo" (Jo. 18, 36). O seu mundo era o condizente com o seu corpo, no passo que o nosso mundo "está posto no maligno" (I Jo. 5, 19), em razão do que nosso corpo, ressumbrante de animalidade grosseira, é invertido e mau. E se o nosso já é o mundo do maligno, como se explica que, depois de sua morte, Cristo tivesse descido aos infernos a pregar aos Espíritos que lá estavam em prisões desde os dias de Nóe? (I Pe. 3, 19). Se o nosso mundo estava posto no maligno, em quem estava posto o imundo inferno ao qual Cristo desceu para pregar aos Espíritos que, além de infernados, ainda se achavam em prisões? Metidos em prisões dentro da prisão do inferno?

Se Cristo foi pregar a tais perversos tão perdidos, só podia ser para os salvar. Salvar do que? Salvar desses mundos inferiores. E como poderia ser isto? Pois não há outro meio: os seres dragontinos, ouvindo a PALAVRA, haviam de propôr-se ao ingente esforço de se desvirarem de dragões; e conforme a desinversão se fosse operando, tais seres ir-se-iam ascendendo na escala da salvação, o que só é possível pelas reencarnações neste e noutros mundos, até que, em chegando os desinvertidos a santos e a sábios, pudessem bradar com o Apóstolo das gentes: "Tragada foi a morte na vitória". Esta é a causa por que o ignorante-pecador não pode romper o ciclo da morte (nascer-morrer), a não ser quando se tornar sábio-santo; e jamais, nunca, antes disto, porque "o salário do pecado é a morte" (Rom. 6, 23). Qual será, logo, a conclusão disto? Pois não pode haver outra senão esta: se, em qualquer nível de existência, a dríada corpo-alma tem seu mundo próprio, não tem sentido achar que todo o mundo é demônio. Acaso é demônio o mundo angélico, arcangélico, querubínico, serafínico, crístico? Nosso mundo era mais imundo antes do que agora. Mesclado ao nosso mundo está o imundo, e é contra este imundo que se deve mover guerra, a começar em nós próprios. A missão de cada homem, portanto, é desajustar-se em relação a seu próprio mundo, tornando-se, quanto possível, mais sublime que ele. Com isto, não só tentará arrastar o mundo para o seu próprio nível, como livrar-se-á de tal mundo, um dia, indo-se para outros mais altos com os quais, de antemão, estará ajustado.

Esta doutrina nossa, pregando o desajustamento num mundo onde estar ajustado a ele é que é o ideal, deve causar muitas controvérsias e polêmicas. Prevenindo-as, faremos a crítica a uma

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sentença de Leonardo da Vinci, a qual deve cair bem a todos os ajustados e partidários do ajustamento. Porque, como dizem estes, só poderá ser feliz aquele que estiver ajustado. A isto, replicamos que não pode haver felicidade nos mundos inferiores, e acomodar-se a eles, é recalcitrar ao imperativo vital de subir a estado melhor, de ascender a mundos mais felizes. Disse Leonardo: "A sabedoria da vida não está em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz".

Gostar daquilo a que as contingências nos obrigam fazer, é acomodação. Portanto, a sabedoria da vida, segundo da Vinci, consiste na acomodação, isto é, gostar daquilo que se é obrigado fazer.

Fôra isto verdade, cada ser biológico sentir-se-ia muito feliz em ser o que é, o anseio de ir a mais deixaria de existir, a evolução seria uma utopia, sonho vão, e não, a realidade. Espártaco, o escravo romano, sentir-se-ia perfeitamente integrado na sua servidão, não tendo agasalhado em sua mente e em seu coração o ideal da liberdade pela qual morreu trucidado juntamente com seus sequazes, de modo que toda a via Ápia se encheu de cruzes. O Brasil estaria muito a gosto sob o imperialismo de Portugal, Tiradentes teria sido arrematado louco, porque ... a sabedoria da vida consiste em gostar da situação em que se está, ou em ser o que se é, não indo a mais, não buscando situação diferente, reputadamente melhor. Cada encarcerado por seu crime, acabaria acomodado à sua vida de prisão, de modo a ser-lhe aflitivo ser posto em liberdade. Ninguém lutaria por superar-se a si mesmo, e o menino, filho de pedreiro, porque ajuda o pai a construir casas, acabaria pedreiro também, ainda que se mostrasse talhado a ser um gênio científico, um matemático famoso, um célebre filósofo, um escritor renomado. Abraham Lincoln teria errado quando, adolescente ainda, trocou o machado pelo livro, do que resultou ser ele um dos maiores presidentes que os Estados Unidos já tiveram. Fique Lincoln rachador de lenha, permaneça, o menino gênio, pedreiro como o pai, continue o presidiário acomodado à sua cela, prossiga o Brasil vassalo de Portugal, acomode-se José Joaquim da Silva Xavier à função de tirar dentes, aceite Espártaco ser escravo de Roma, permaneça cada ente biológico em seu nível que seria um só, porque nenhum se aventuraria a subir na escala evolutiva saindo-se de marisco ou de molusco. Tal seria o mundo se fosse certa a sentença de Leonardo.

No entanto, buscar fazer aquilo de que se gosta, seguir a tendência, o pendor natural, a vocação, é criatividade, é realizar aquilo para o que se é talhado, seguindo a linha de especialização que tende tornar o indivíduo autêntico, único em si mesmo, inconfundível. São Tomás já dizia que cada anjo é uma espécie. Por isto a sábia Natureza cria sempre diferentes, e nunca, iguais, porque permite a cada um

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especializar-se naquilo de que gosta de fazer. A ave, outrora réptil, começou a voar, não por necessidade, e sim, porque voar dá prazer. O prazer, a busca de alegria, da felicidade, move o mundo.

Ora, procurar fazer o que confere alegria, é "fazer aquilo de que se gosta”. E cada ser biológico buscando o que lhe era aprazível, criou isso aí que vemos: a Natureza vária, calidoscópica, magnificente, bela. `

Face à sentença de Leonardo, que significação teve o anseio de Colombo em querer chegar às Índias, navegando pelo lado oposto, fiado só na então hipótese da esfericidade da Terra? Por que um primitivo anônimo havia de aventurar-se a navegar em sua canoa improvisada, um simples e rude tronco seco carcomido pelo fogo? Que aventura foi aquela de por velas à canoa para navegar com a força do vento? Por que ir à Lua e, de futuro, a outros planetas? Por acaso a sabedoria não consiste na acomodação, pelo que cada um deve ficar quedo no seu posto? Fique, logo, cada um, acomodado ao que é, gostando daquilo que faz, pondo de lado a loucura de procurar fazer aquilo de que gosta, e antes, acabe por gostar daquilo que faz.

Leonardo da Vinci foi um gênio como pintor, escultor, arquiteto, como inventor de coisas belas, não, porém, como filósofo, como o demonstra sua sentença. E como se pôs a fazer filosofia, numa aventura de sair daquilo em que era competente, errou, pois a sabedoria da vida consiste, muito ao contrário, em fazer aquilo de que se gosta, para ser possível, depois, gostar daquilo que se faz.

Quando se faz o que se gosta, o trabalho é puro diletantismo, alegria de viver, flanar criador. Com que mágoa se deixa o trabalho de um dia, vencido pelo cansaço! Com que antecipado júbilo se sabe que, no dia seguinte, pode prosseguir naquele esforço que dá prazer! Edison, um dia, prometeu à sua esposa, depois de muita insistência desta, que iria tirar férias. Iria passá-las no lugar onde mais gostava de ficar. No dia aprazado, ele se foi às suas férias, passando-as na sua oficina de costumeiros trabalhos, em que executava suas invenções ...

Já quando se faz aquilo de que se não gosta, o trabalho pesa como uma maldição: "Lavrarás a terra, e comerás o teu pão com o suor do teu rosto”... Suposto que Deus é o que mais trabalha, segundo o afirma Jesus: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" (Jo. 5, 17); suposto que Deus não cessa de agir, vendo nós sua obra grande, bela e vária, havemos de concluir que não faz nada igual, e sim, tudo diferente; não pode ele ser um acomodado, a repetir, monotonamente, um labor sempre igual. Cria ele o diferente, o sempre desigual, porque o prazer seu consiste, não no repetir, mas no variar. Não, logo, acomodação servil, escrava, monótona, cansativa, mas

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anseio de ir por diante, de avançar por caminhos novos, de realizar-se, realizando o diferente, de buscar um trabalho gozoso, aventurando-se a executar aquilo que dá gosto, alegria e prazer.

Acomode-se, embora, a ostra à sua concha, a tartaruga, ao seu casco, o animal, ao seu instinto, o homem medíocre ao seu trabalho escravo, monótono, rotineiro, robotóide; mas não se diga que o talento deva apoucar-se pela acomodação a um quefazer que oprime e desgosta. Conforme-se o galo em arrastar a asa às suas galinhas, e a comer restos de comida, mas não se imponha cativeiro à águia cujo gosto supremo consiste em cortar o aéreo espaço em altaneiro vôo, porque é lei da Natureza que cada um busque fazer aquilo de que gosta, e não, nunca, gostar daquilo que faz, a menos que, de antemão e livremente, tenha procurado fazer aquilo de que gosta, e, só por isto, agora, gosta do que faz.

O acomodado não se abalaria a sair do seu alojamento com o qual se identificou. Contudo, sem dúvida, mudar-se-á, ao sentir-se incomodado. No desajuste, pois, está o começo da subida... ou da descida. Satã, com se desajustar, lavrou nos seus consócios, como por contágio, a rebeldia que foi completa pelo empíreo inteiro, arrastando, consigo, na queda sua, um terço dos espíritos celestes.

Cristo desceu aos infernos a pregar aos Espíritos que lá se achavam em prisões desde os dias de Noé? E que prisões eram essas? Essas eram as piores que há, porque não eram prisões exteriores: essas prisões eram os calejamentos com que se endurecem as almas rudes!, eram os grilhões invisíveis que prendem as consciências na ignorância, no erro e no mal!, eram as acomodações e a inconsciência do próprio estado miserável!, eram o esquecimento, o desnorteio e a cegueira dos infelizes que ignoram suas maldades, suas demonices! Isto foi Cristo fazer nos infernos: desalojar, desaguilhoar, desacomodar, despertar, descalejar, desajustar as consciências com sua arquiluminosa presença e suas ignipotentes palavras que abrasam penhas.

De tais mundos, e de outros um pouco mais altos, sempre todos feitos de essência e substância, temos o relato pormenorizado feito pelo Espírito André Luiz através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier. Outra coisa não fez Dante de Alighieri em seu Inferno, em seu Purgatório (umbral) e era seu Paraíso. Milton não lhe fica atrás, pondo tudo em acros e portentosos versos. Não há mundo que exista, feito de pura idealidade, de forma vazia, de essência pura, sem conteúdo, sem matéria, sem substância. Ninguém consegue romper, no real, o relacionamento da dríada essência e substância.

Nem Platão, seguindo nas pegadas de Parmênides, com seus dois mundos, o inteligível e o sensível, pôde prescindir da

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substância, no seu Topos Uranos. Ali, o Demiurgo age, criando almas na cratera, depois do que as põe frente às formas imperecíveis, frente às idéias-arquétipos. AGIR, CRIAR e PÔR são verbos de ação, de movimento, o que implica temporalidade. Se as almas são postas frente às formas, estas hão de estar representadas como imagens sensíveis objetivas, visto que as essências puras, como puras idealidades vazias, como generalidades são IRREPRESENTÁVEIS! A oposição entre as almas e as formas, implica espaço. As formas para estarem à frente, para estarem contra, para estarem em oposição, precisam ser objetivas, e esta palavra vem de "objacere" que significa: jazer contra... os sujeitos que são as almas. A cratera é algo objetivo, espacial e material, parecido com as matrizes que conhecemos, onde o Demiurgo cria as almas, com o quê? Senão com a substância? Isto, acaso, não é elementar?

Depois de criadas, depois de haverem contemplado as formas imperecíveis do lugar celeste, as almas são compelidas a encarnar-se e a reencarnar-se nos planetas, onde esquecem o passado contemplativo das idéias-arquétipos. Esquecidas, entregues à Necessidade Cega, elas sobem e descem, avançam e recuam, e, com isto, se vão diferenciando, tornando-se específicas, nunca mais voltando a ser o que eram antes, quando da saída da cratera. E como pode ser tudo isto; sem substância, sem matéria, sem movimento, sem tempo, sem espaço objetivo, sem mundo sensível, lá, mesmo, no lugar celeste? Onde o entendimento, ainda que rombudo, que, claramente, não enxerga isto?

Se há dois mundos, desde Parmênides, que são o mundo sensível e o mundo inteligível; se Platão descrevendo tal mundo inteligível, mundo arquétipo das idéias, o Topos Uranos, acabou mostrando que esse mundo inteligível também é sensível, feito de espaço, tempo, causa, substância, movimento, etc.; se este nosso mundo térreo também se compõe de dois outros, ambos encaixados um no outro, sendo um sensível apreendido pelos sentidos, e outro inteligível, apreendido pela inteligência; como dizer que aquele mundo das idéias é só inteligível, e não, sensível? e que este nosso mundo de substâncias é só sensível, e não, inteligível?

Que diferença, logo, há entre este nosso mundo terrenal e aquele celestial? aquele sensível e inteligível, e o nosso, igualmente, inteligível e sensível? A diferença consiste em que o nosso é um mundo em parte ainda invertido, e em parte já desvirado do avesso. Por esta parte já desinvertida, nosso mundo participa daquele mundo celestial que se mostra todo no direito. Por causa da queda, também nossa matéria se mostra encurvada em grau excesso, no passo que a matéria dos mundos empireais possui grau mínimo de encurvamento.

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Sendo o corpo material ou o corpo espiritual indispensável à alma na mesma proporção com que esta é indispensável àqueles; se ambos, inextricavelmente embebidos um no outro, formam o par dialético de contrários que se harmonizam na pessoa humana; se ambos, corpo e alma pertencem ao mesmo nível hierárquico, como tese e antítese para construção da síntese unidual do homem; que vem a significar a intransigência fanática com que almistas e corporalistas defendem suas posições contrárias, cada um com absoluta exclusão da facção oposta, sendo este um modo novo, diferente, de conceituar a velha luta entre espiritualistas e materialistas? Por que requerer a prevalência de um sobre o outro, corpo e alma, se ambos são paralelos, num mesmo nível hierárquico, embora contrários, que é como, de fato, têm de ser? Acima do binário alma-corpo está a unidade da pessoa, a síntese, e só esta é superior em nível a quaisquer das partes separadas... separadas... o que só pode ser em abstração. Assim, para o homem: alma e corpo; assim, para as coisas: forma e conteúdo; assim, para os mundos: inteligível e sensível; assim para Deus: Ser e Existir - o Ser que é Eros, e o Existir que é Amor, este, como a mais alta forma de Energia-Substância.

Que agigantada montéia não será a filosofia, quando se harmonizarem alma e corpo, homem e mundo, mundo e Deus? Quantos séculos de labor e de pensamento serão necessários para que se esgote todas as possibilidades que esta síntese, simples prólogo, oferece? Então, estas três dríadas, postas em destaque, hão de inspirar as artes, hão de dar rumo à ciência, à técnica, à economia, à política, hão de tomar conta da vida cotidiana! E no social? como não receber esta doutrina o inteiro e incondicional beneplácito de Cristo? ele que nunca afirmou ser o espírito essência pura sem substância? que prometeu ir arranjar um lugar na casa do Pai, com muitas moradas para os que, em se negando de animal, de imundo, de dragão, se pusessem a desenvolver o amor pelos semelhantes em tal porção que igualasse o que cada um tem por si mesmo?

A filosofia do futuro que desde agora se impõe, não pode mais, como o idealismo, pretender separar o homem do mundo, a alma do corpo, porque, desacreditado o corpo e o mundo, mostra ignorar que, sem corpo, não há alma pensante, e, sem mundo, não há o sobre que pensar.

Descartes tinha razão, no começo, quando afirmava, de si, ser "uma coisa que pensa", porque, neste caso, o pensar ficava na dependência de que houvesse a "coisa" sem a qual não haveria pensamento; com o correr dos tempos, este resíduo realista se foi dissipando, até que sobrou só o puro pensamento que se bastava

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a si mesmo, ou, então, que possuía, por suporte, um "sujeito" sem substância. Kant, o pináculo do idealismo, depois de sustentar a tese de que todo o saber desenvolve-se dentro do próprio homem, a partir das intuições puras de espaço, de tempo e de causalidade, pelo que o saber não nos vem através dos sentidos, enunciou tese contrária, na velhice, em sua "Antropologia", segundo a qual o homem evoluiu do macaco, donde vem que a inteligência surgiu por evolução, sendo, por conseguinte, histórica.

Tudo começa, na vida inferior, pela irritabilidade que se complica em sentidos e emoções: deste tronco se bifurcam dois galhos irmãos, um que, seguindo o rumo das impressões, do pré-refletido, floresce em inteligência, em razão, e o outro, ganhando o rumo das emoções, se abre, frondoso, nos sentimentos sobre os quais se sublima o amor. Engano foi, de Aristóteles, supor que só se ocupa Deus de "pensar pensamentos", pensamentos frios, acrológicos, abstratos, alheios, distantes, quando ele se acha inflamado do seu Amor, fonte inefável, vida e fanal de tudo, de todo o bem, da harmonia e da beleza. Como foi possível poderosos gênios apoucarem a tanto a idéia de Deus?

A própria inteligência, porque nascida, como o sentimento, da irritabilidade, continua guardando com o sentimento este parentesco genético; daí que, como diz Ortega, a inteligência buscando o nexo, a conexão, filha é de Eros, possuindo, por isto, natureza erozóide. E quando, na intuição, o raciocínio se toma de velocidade infinita, mais ainda se evidencia a conjugação da inteligência com o sentimento, pois todo o lampejo intuitivo se faz em meio de êxtase supremo. Portanto, aquilo que é unido desde sempre, não separe o homem, e, fazer isto, é seguir o rumo de Anti-Eros, da desintegração, da ignorância, do caos. Na direção oposta, na de Eros, está a integração, o amor, a sabedoria que tornam o homem santo e sábio, e, até, santo porque sábio.

O sábio-santo não pode admitir a adulteração do dado real, permitindo que esse real seja trocado por um universo de discurso racional idealista o qual, condenando o corpo, o mundo, provoca o vazio no coração e nos sentidos. O homo apenas rationalis que separou o mundo inteligível do sensível, a essência da existência para condenar a esta, fica falseado no mundo e no corpo, nos e com os quais tem que viver queira ou não queira, na carne ou fora dela, porque, mesmo o espírito desencarnado possui o seu corpo e o seu mundo. A caverna de Platão não é mundo mas o imundo; não é o mundo em positivo, e sim, o mundo em negação, invertido. Não se trata de abandonar a caverna, e sim, de desinvertê-la de seu negativo. O filósofo não pode mais furtar-se a este trabalho ingente, recolhendo-se, distante; em sua torre, onde, cuidando poder explicar

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tudo, permanece bizonho, aéreo, alheio ao que lhe toca de mais perto. A sabedoria não é apenas teorização, mas, sobretudo, VI-VÊN-CIA, porque, no sábio, se entrelaçam inteligência e coração.

Descartes via o homem da rua como coisa que, não podendo ser reduzida ao seu geometrismo, era posta no quarto de despejos das idéias confusas ou obscuras. Protestando contra esta atitude idealista, Gusdorf acerta e erra num simples parágrafo que escreve; diz ele:

"Tratar alguém como objeto é recusar-lhe o estatuto a que tem direito, é reduzi-lo". Nisto Gusdorf acertou; agora: "tratar um objeto como um ser, é conferir-lhe uma espécie de promoção espiritual". Nesta segunda sentença está um engano.

É certo que tratar alguém como objeto; é apoucar-lhe a significação, é coisificá-lo; porém, as coisas também não podem ser consideradas não-ser, porque, neste caso, ficariam carentes de essência, tornando-se em pura substância, e, por isto mesmo, seriam ininteligíveis, visto como a pura substância, sem essência, é caos. Ora, a essência e a substância formam o par dialético, o dualismo de opostos e complementares, existente em tudo, sem nenhuma exceção, nem mesmo para Deus. Admitir o ser ou essência nos objetos, não é promovê-los, porque, com isto, não se lhes designa a hierarquia. As coisas são seres, e o homem também o é; aquelas, seres inanimados, simples, na base inferior da hierarquia, e o homem é o ser complexíssimo, no topo dela, neste mundo, padrão de referência para tudo que lhe fica abaixo. O homem não é redutível a princípio de razão, a discurso, além de outras, por esta causa: se é o padrão, não tem por que outra coisa medir-se. Só de um plano hierarquicamente superior se pode avaliar o inferior.

Para entender-se o animal cuja consciência é a linear dos instintos, preciso se faz colocar-se no planimétrico da razão. Assim também, para entender o homem cuja consciência é planimétrica, torna-se necessário estar no nível hierarquicamente superior da consciência volumétrica que, em lugar do raciocínio usa a intuição. Nesta visão hiperconsciente, o homem aparece como um todo unitário, prenhe, não só de racionalidade, mas de todos os sentimentos e emoções, além dos sensos axiológicos, estéticos, éticos, lógicos, volitivos, etc., tudo em globo é a sabedoria. Todavia, como os dados da intuição não são demonstráveis, racionalmente, e tentar isto seria reduzir o volume a plano, os apenas racionais têm, para si, que tais dados são mitos. No entanto, esses "mitos" formam um como animismo superior, semelhante ao que se acha na criança e no primitivo. Também o sábio se torna simples e doce como a criança; também ele vê o mundo com admiração, como a criança, como o primitivo; seu olhar é como o da coruja de Minerva - deslumbrado.

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Aquela junção do primitivo e da criança entre o eu e o mundo, que o racionalísmo disjuntou, cumpre ao sábio juntar de novo, com que a sabedoria fica sendo um como animismo de nível superior, tal como o sentem o poeta e o místico. Daí que o poeta, vertendo para o mundo sua dimensão antropológica, faz falarem as coisas, e São Francisco de Assis chama ao lobo de irmão lobo, e à serpente, de irmã cobra, e ao próprio corpo de irmão corpo. Quem chama ao próprio corpo de irmão corpo, certamente não admite antagonismo, inimizade e luta entre o espírito (alma) e a matéria, e, muito menos, entre si e os demais irmãos homens, sem distinções de quaisquer espécies.

A ruptura entre essência e existência, entre ser e existir, entre o inteligível e o sensível, entre o mundo material e o mundo ideal, entre alma e corpo, foi o pecado original da filosofia, e o Adão deste pecado foi Parmênides em quem já ressoava a fala de Pitágoras para quem o corpo era um túmulo. A idéia vinda de trás, da Índia e da Pérsia, achando ressonância nas mentes gregas, tomou forma nos mistérios do culto órfico. O terreno, pois, já estava preparado para a obra de Parmênides que deu foros de razão, tornando claro, ao que, até ali, fora obscuro e confuso.

O pecado de Parmênides, como o de Adão, pegou-se aos filhos, à geração dos pensadores que o sucederam, variando, quanto possível, seu tema inicial. A idéia parmenídica do mundo inteligível como real, encontrou-se com a corrente oriental cristã que, igualmente, desprezava o corpo, o mundo, como coisas do maligno. Não se pensava, então, que a fereza e maldade do mundo, não advinha do mundo em si, mas de ele achar-se invertido por efeito da queda, apesar de o Gênese ter-se referido à Serpente antiga chamada Diabo e Satanás. O arcanjo Luzbel com seus consócios já tinha sido, então, arrojado de cabeça ao fundo abismo, no centro do Universo, no Caos do qual, tudo o que há aqui, saiu. No entanto, por ruim que fosse um homem, tal como agora, não se supunha demônio, que diabo é sempre o outro, o próximo, o corpo, o mundo...dos quais cumpria fugir. O socratismo cristão conceituava Deus como sumo Bem, e, para buscar este sumo Bem, os mais valorosos espíritos se faziam anacoretas. E a escolástica medieval ocupou-se destes temas nascidos da premissa socrática do Deus-Sumo-Bem, em lugar de tirar as conseqüências da premissa de Cristo para o qual Deus é Pai solícito e amoroso.

Veio o fim da Idade Média, com o Renascimento, encarnando-se, no mundo, o segundo Adão, na pessoa de Descartes. Porém, este, em vez de, como Cristo, lançar as bases da salvação do mundo, apenas inverteu o sentido do pecado de Parmênides. Daí que o idealismo não é mais do que um realismo pelo avesso, porque, num e noutro, a estrutura objetiva, vivencial, espontânea, material do objeto, foi trocada

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por uma construção intelectual, ideal, subjetiva, fixa e imutável. O anseio de todos era ver o universo expresso, todo, numa fórmula matemática. Mesmo despojado de suas substâncias, Deus e o mundo continuaram sendo havidos como reais (!), reais só por suas essências que não tinham outro lugar que ficar a não ser nas cabeças dos idealistas. Real vem de res que significa coisa; mas o contra-senso idealista, antigo e moderno, deu para chamar ao puramente subjetivo e ideal, de realidade. Este é o pecado original da metafísica, pelo que fica tendo razão Marco Túlio Cícero para quem "nada existe de obscuro, que não se possa encontrar nos livros dos filósofos".

A prova de que Cícero tinha razão, podemos ter neste trecho de Gusdorf quando parafrasea Sartre:

"De outrem, que não de mim, aprendo qual a configuração anatômica de meu corpo: "Existo para mim como conhecido por outrem a título de corpo". Assim sendo, se é verdade que meu corpo exprime minha facticidade de ser no-meio-do-mundo", tal facticidade é recebida do exterior, e aprendida. Sartre não hesita em afirmar que minha enfermidade me é estranha: "Foram os Outros que ma ensinaram, os Outros a podem diagnosticar; ela é presente aos Outros, mesmo que disso eu não tenha consciência. É, pois, em sua natureza profunda, um puro e simples ser para outrem". Em suma, o médico é o "responsável de minha enfermidade"; exatamente como, sem a mediação do anatomista, eu nunca saberia que meu estômago tem a forma da bolsa de uma gaita de foles". Fale mais Gusdorf:

"Se, por exemplo, um tijolo me cai sobre o pé, põe-se de lado a idéia de que o tijolo me possa fazer mal, pois é inadmissível que a matéria bruta tenha ação sobre o espírito, e então esfalfar-nos-emos em provar que, em meu sofrimento, apenas cedo a mim mesmo, ou seja, a um pensamento. É assim que raciocinam espíritos tão diferentes como Malebranche, Hume, Berkeley, os estóicos ou Sartre, que se esfalfam por fazer do tijolo uma espécie de desvio do pensamento, um meio escolhido por um pensamento humano ou divino para, por um como que ricochete, agir sobre si mesmo": Ainda isto:

"Todo triunfo da razão dissimula uma demissão e uma sem-razão da razão. Surge então o sofista como sombra do filósofo ou da má consciência. Compreendeu ele que a razão se encontra na correção de um discurso bem untado; apossou-se indevidamente do instrumento e, por meio de seus argumentos capciosos, compraz-se em refutar a evidência humana pela autoridade da demonstração. Basta isso para fazer tremer os sábios que vêem a seta detida em pleno vôo, e o campeão de corridas, como num sonho mau, imóvel como estátua, cravado ao solo por imposição de uma autoridade tão potente que volvido mais de vinte séculos, ainda seduz os primeiros

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colaboradores do Revue de Métaphysique et de Morale. "Razão tinha Diógenes o cínico para passar ao ato, juntando o

gesto à palavra, pois é inútil pretender reprimir o discurso em nome de outro discurso, já que cada um privilegia um elemento que, analisado, se torna em elemento decisivo, com exclusão do resto da realidade humana".

Eis, pois, que Cícero tinha sobejas razões; sendo a razão planimétrica, não pode abarcar o volume, o globo, e, como a formiga da parábola, querendo achar a esfera, esfalfa-se em esquadrinhar-lhe a superfície. Ora, o homem se vê compelido a tratar de coisas que transcendem sua razão, das quais sua vida depende, hajam vista os primeiros princípios das ciências, os postulados e os axiomas matemáticos, e Deus. Uma coisa que nos entra pelos olhos, como, por exemplo, que o movimento existe, ou então, que nosso pé foi quebrado por um tijolo caído do alto de um edifício, e vêm Zenão e Sartre nos demonstrar, o primeiro, que o movimento não é racional, e, por isto, não existe; e o segundo, que nosso pé esmagado é ilusão, desvio do pensamento, dado que a matéria não pode atuar sobre o espírito. Que vale a demonstração racional, se tem contra si o peremptório, irrecusável, desmentido da experiência vivida?

Tudo isto são males provindos do pecado original da filosofia, praticado por Parmênides, e, depois, por Descartes, visto que, por opostos caminhos, um e outro quebrou a unidade do dado real.

As impressões são a primeira leitura do real, no nível do pré-refletido, e, nessa fase do conhecimento, o eu humano forma unidade com seu ambiente. Aqui, o sujeito e o objeto não se acham ontologicamente separados um do outro, porque nosso corpo é o correspondente do objeto com o qual se comunica através dos sentidos. Depois que a imagem do objeto se formou em nosso psiquismo, então é que se dá a segunda leitura pela qual nossa consciência separa a forma de sua correlata substância, para ficar só com a forma, com a essência, com a generalidade, com o conceito. A segunda leitura do dado, portanto, o conceito, é pura idealidade subjetiva, infigurável; a realidade é o dado natural, e permanece fora, no nível do corpo, das coisas, da ambiência, do mundo. A razão nos permite trabalhar, subjetivamente, idealmente, com o correspondente do real. Aqui, no reino da abstração, podemos remontar aos princípios científicos, e, a partir deles imaginar realidades ainda não existentes fora de nós, e as projetar no mundo objetivo sob a forma de invenções nossas. Aparece, graças a isto, uma sobrenatureza que é as cidades, com tudo o que nelas há. Esta sobrenatureza, ou natureza segunda, reopera sobre nossos sentidos, criando-nos, no psiquismo, imagens novas de que

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abstraímos novos conceitos. Deste modo, as cidades, pululantes de invenções e de obras de

arte, agem num sentido educativo, porque, aquilo que eram, antes, puras abstrações nas cabeças dos inventores, se mostra, agora, como objetividades, tornando claros e evidentes os princípios que, de outro modo, seriam difíceis de transmitir-se às mentes menos ágeis ou mais rombudas. Neste sentido, também, e não só no social, a cidade educa e instrui, e isto, por um método espontâneo, objetivo e prático. Este é o motivo por que a civilização principiou quando as tribos humanas se reuniram em cidades, em organizações políticas, civis, sendo por isto que civil, cidade, cidadão, civilidade, civismo, civilização, etc., se derivam de uma mesma raiz vocabular. O convívio, conseqüentemente, quando sadio, bom, é educativo, civilizador. Nada mais absurdo, portanto, do que o isolamento, seja o do idealista que não quer nada com o homem das ruas, com o mundo, seja o do anacoreta cristão que, a força de buscar o socrático Deus-Sumo-Bem, se invalida para com o próximo.

Todavia, este distanciamento da realidade verdadeira que era esporádico e exemplar no passado, tornou-se, hoje, geral e costumeiro. Nascido do idealismo cartesiano que geometrizou o mundo, o intelectualismo nos ofertou um mundo de clareza racional do qual se expungiu tudo o que era obscuro, como os sentimentos, as paixões, a vontade, as irregularidades, as cores, as complicações, a substância, a vida e o próprio homem. Tal mundo cartesiano- intelectualista se nos afigura artificial (natureza segunda), todo feito de aparelhos, de instrumentos, de relógios marcadores e registradores para todos os fins, de rodas lisas e denteadas, pequenas e enormes, expostas e embutidas, rápidas e tardonhas, de tabelas, de integrais, de diferenciais, de prótons, de elétrons, de "quantas" de energia, de computadores, de máquinas aos milhões, de leis científico-matemáticas; mundo em que até os animais já foram considerados máquinas, e os próprios homens são, em coisas, transformados.

Quando Volta construiu a sua pilha elétrica, deu-lhe o nome de órgão elétrico artificial, porque já se conheciam, desde Aristóteles, os peixes elétricos. Se, por esse tempo, já existissem bombas para transportar líquidos através de canos, elas levariam o nome de corações artificiais. No entanto, como os conceitos técnicos são hoje mais comuns que os biológicos, a própria biologia emprega o termo bomba para o coração, e o professor ensina aos alunos que o coração bombeia o sangue através das artérias. Formou-se, deste modo, a mentalidade do homo technicus que nunca houve antes, podendo-se falar da nossa como uma civilização tecnológica.

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Uma jovem, um dia, num navio, exigiu de Ortega que a tratasse como um ser humano, e ele respondeu-lhe não conhecer seres humanos abstratos, em geral, ideais, infiguráveis, e sim, homens e mulheres reais, concretos. E acrescenta que a mocinha recebera educação idealista nalgum "College", e tomava, agora, o que é concreto e real pela forma de generalidade abstrata, ideal, referindo-se, o menos possível, às coisas em situação objetiva.

No entanto, era preciso que os conceitos idealistas, do uso, chegasse a tais abusos, para que o idealismo se esgotasse como antítese que é, surgida como reação à tese-realismo-grego, a fim de que se tornasse possível, agora, organizar a síntese que dominará o futuro. O realismo grego foi a tese cuja antítese se viu no idealismo moderno; falta, agora, a síntese... que deveria ser efetuada pelo existencialismo contemporâneo. Como, todavia, os existencialistas teimam em ser anti-sistemáticos, a possibilidade da síntese saiu-lhes das mãos.

Mas aí está como a convivência, o estado civil, a cidade, constrói a mentalidade, forma o complexo cultural, educa e civiliza, pelo que se torna absurdo quaisquer isolamentos definitivos, sendo só úteis, proveitosos, sadios, os retiros temporários, com o fim do estudo e da meditação.

Sendo as coisas, o mundo, o correlativo do corpo, não se pode ter acesso às essências das coisas e do mundo, a não ser através do corpo, a começar pelos sentidos; corpo e alma, indissoluvelmente unidos, deste modo, são o correlativo do mundo real e do mundo essencial, do inteligível e do sensível, um enfrascado no outro, isto, em todos os níveis do universo, dos planos inferiores até o mais alto empíreo. Assim, do mesmo modo como alma e corpo formam uma unidade indecomponível, também o mundo inteligível e o mundo sensível são unitários, pelo que o sábio terá de considerar, em pé de igualdade, o aspecto espiritual ou essencial do mundo com o seu oposto e complementar aspecto corporal ou material. Deste modo, esta área sempre desprezada pelos pensadores (o mundo corporal), é explorada pelos poetas e artistas, tornando possível recompor a unidade perdida do mundo e do homem, naquele que se propõe a conquistar a esquiva amante, a sabedoria. Fale Gusdorf:

"Sendo assim, as dimensões vividas do silêncio, do amor, da luz ou da noite, os ritmos opostos da alegria e da angústia, evocados pelos artistas, restituíam a profundidade de campo da existência, sem contudo lograrem obter a validação ontológica por parte dos filósofos, que persistiram em excluir o poeta da cidade dos puros espíritos". Mais:

"Cada momento de uma consciência faz um todo com seu

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universo; uma consciência separada brutalmente de seu universo de referência fica imediatamente reduzida à condição de pessoa deslocada. É o que acontece com o camponês na cidade, ou com o citadino no campo, que se sentem desorientados e, ainda por cima, grotescos. Outro tanto sucede com o filósofo racionalista, se o extrairmos do seu universo do discurso e da segurança das liturgias universitárias, para o levarmos a defrontar-se com uma situação em que suas justificações usuais não são aceitas nem encontram senão o vácuo. A figura de cada homem desenha-se sobre o fundo de sua paisagem vital, da qual não há maneira de o dissociar".

Subscrevemos isto de Gusdorf, pois não o faríamos melhor. Por outras palavras, Ortega diz o mesmo. Ora, se o filósofo se tem como amante da sabedoria, que amante é esse que toma a amada só por metade? Que amante desejaria possuir, da amada, a alma, apenas, desprezando-lhe o corpo? O amante que se dá, todo, inteiro, sem reservas, corpo e alma, pede, da amada, alma e corpo; tal o exige o amor, por sua natureza substancial. Só na tresloucada cabeça de Dom Quixote pode caber o amor ideal, feito só da pura essência!

Nem, porque cada consciência faça unidade com o seu universo, os universos das várias consciências se separaram; antes, interpenetram-se; e ainda é Gusdorf quem, magistralmente, a questão aclara:

"Sem dúvida as personagens são tomadas, direta ou indiretamente, da experiência íntima do criador, mas este deve de algum modo despersonalizar-se para constituir cada uma delas em sua objetividade real. Balzac, Tolstoi, Shakespeare, devem o melhor de seu gênio a essa possibilidade de abdicarem de si mesmos, para viverem uma consciência estranha que eles habitam por procuração. A contraprova é, aliás, subministrada pelo fato de leitores e espectadores confirmarem, por seu turno, a verdade da ficção; eles senão, por sua vez, Madame Bovary, simpatizarão com a heroína, cuja experiência íntima se impõe também a cada um deles em sua certeza objetiva”.

"Sendo assim, minha consciência pode visitar outras consciências, e ser por elas visitada. Interesso-me pelo que há fora de mim, quer dizer que há em mim mais do que eu, a matéria não de uma, mas de muitas existências".

Ninguém há que negue esta evidência vivencial, ainda comprovada nos fenômenos de transferência da psicologia, e nos da catarse, da psicanálise. Um filho que recebeu sempre maus tratos e humilhações de seu pai, tende a transferir sua revolta a quantos, depois, lhe forem superiores em poder, em mando. Graças a este fenômeno de transferência, torna-se possível a catarse que significa limpeza ou

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purgação psíquica. Assistindo a um filme, ou peça teatral, ou novela de televisão, de pronto, todos se empatizam com o herói; todos sofrem, com ele, as peripécias todas, os maus tratos, as violências sem razão, mas se aliviam quando o herói "faz justiça", ainda que com as próprias mãos. Aqui desponta já o consenso de justiça, gênese daquela outra despersonificada e complicada do poder público e dos tribunais. Daí que nem sempre os romances históricos servem a este fim, visto como, pode acontecer de o herói levar a pior a vida toda, e, alfim, acabar morrendo, sem compensação nenhuma. Na tela do cinema e no livro, as histórias dos heróis da humanidade que triunfaram só depois de mortos, causaram-nos depressão e revolta contra a estupidez dos nossos ancestrais. Esta revolta contra os do passado rebenta na frase angustiada de Cristo quando exclama:

"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que edificais os sepulcros dos profetas, e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: se nós houvéramos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus companheiros no sangue dos profetas. E assim dais testemunhos contra vós mesmos, de que sois filhos daqueles que mataram aos profetas. Acabai vós pois de encher a medida de vossos pais"! (Mat. 23, 27 a 32).

Se alguém nos ofende, e não retribuímos em dose igual a ofensa, nosso sentimento se recalca. Assistindo a um filme, transferimo-nos, já, para o herói que passa a representar-nos por procuração, feio ou belo, não importa, e, identificamos o nosso agressor no vilão. E acontece que feita de novo a ofensa, o vilão apanha a valer, pelo que nos sentimos aliviados, desforrados. O herói feio pode ser amado, e o vilão bonito, odiado, porque a beleza moral supera a beleza física, e amamos muito mais nos outros um gesto nobre e belo, do que um corpo bem prendado e jovem. Logo, bons filmes, boas peças de teatro e boas novelas fazem bem à saúde mental. Cada um, então, busca o seu "remédio": os injustiçados, ainda que bons, gostam de filmes de violência; os introvertidos, os de comédia, que os façam rir.

Por este motivo, como diz Gusdorf, "a afirmação de um contra o outro é, de fato como de direito, posterior à afirmação de um com o outro, ou antes de um pelo outro. A consciência insularizada do intelectualismo concede um preconceito favorável à solidão e à independência: "Sofremos, afirma Spinoza, enquanto somos uma parte da Natureza que não pode ser concebida sem as demais partes". O filósofo que pensa reforçar seu ser, isolando-se do resto da humanidade, não dá conta que estar privado dos outros é estar privado de si. O condenado à reclusão perpétua, se for submetido ao isolamento total, tem todas as probabilidades de enlouquecer".

O homem é um; mas quando se vai examinar esse um, vêmo-lo que é dois pelas partes oponentes e complementares alma e corpo; de

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novo fixamos a vista, e outra vez o um é dois, agora pelos opostos ente-biológico e sócio. E quando vamos delimitar esse sócio, eis que ele se estende a outros, à comunidade como um todo. Assim, o que fizer a mim, faço-o aos outros e vice-versa. É deste modo que, como doutamente diz Gusdorf, "as palavras evangélicas: "Amarás o próximo como a ti mesmo", não são um mandamento, senão que exprimem um estado de fato que se impõe a cada um de nós, quer queiramos quer não queiramos. Não devemos fazer aos outros aquilo que não quereríamos que eles nos fizessem; mas também o que faço aos outros, faço-o a mim mesmo. Em virtude da mutualidade das existências, dizer que "o inferno é o outro", é admitir igualmente que o inferno está em mim. Se alguém se nega ao próximo, priva-se ao mesmo tempo do próximo, e na mesma proporção se empobrece". Mais:

"O eu, enamorado de autenticidade, deve separar-se da multidão, mas seu protesto deixa entrever a miúdo a nostalgia das solidariedades que ele exclui. A auto-estimação da consciência que afirma os valores, apesar de violenta, não basta para mascarar o apelo desesperado ao seu semelhante". Mais isto:

"Assim como existe uma encarnação biológica do homem, ligado por seu organismo ao meio natural, assim também podemos asseverar que existe uma encarnação social onde se manifesta a essência comunitária da vida pessoal (...) Deste ponto de vista, a pretensão filosófica à autonomia equivale a uma espécie de mito de Robinson, que desconhece as mais elementares evidências da realidade humana, cedendo à muito antiga nostalgia da insularização da consciência individual”.

Se o homem não pode isolar-se, e mesmo quando se vê de todo só, ainda leva em si o sócio, que é a contrametade oposta ao ser biológico; se as consciências se entrelaçam, se interpenetram, se visitam, mutuamente, donde vem que o ser social do coletivo forma um todo unitário, um contínuo, onde cessa a corporeidade descontínua da multidão reunida para um fim preciso; considerando que a consciência coletiva é aquilo que se acha em todos, e que não pode separar-se da corporeidade do social, pela mesma razão por que a alma está jungida ao corpo, o ente biológico ao sócio e a essência à substância; então, já se vê, o sábio tem que considerar todas as formas de relacionamento entre alma e corpo, e, por extensão, entre o homem e o mundo, não apenas segundo uma medida racional, científico-matemática, mas, também, no que se refere ao resto do complexo antropológico que é o das artes, das técnicas, da política, da religião, da economia, da história, do dia a dia do homem das ruas. Como todo este complexo inalienável não é redutível a puros princípios de razão, a enunciados de ciência,

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a formulações matemáticas, não se pode fugir a esta conclusão: PARA CONHECER A VERDADE, O HOMEM NÃO PODE EMPREGAR SÓ SUA INTELIGÊNCIA, SUA RAZÃO, E SIM, TEM DE EMPREGAR-SE A SI MESMO COMO UM TODO EM QUE ENTRAM ALMA E CORPO NA SUA UNIDUALIDADE IN-DIS-SO-LU-VEL.

O ente biológico e o sócio não se divorciam na unidade do homem, nem este, do social; o corpo não se dissocia da alma; o homem, na sua unidualidade biológico-social, não se desvincula do mundo sensível com o qual se acha jungido por meio de seu corpo (sentidos, sensações e sentimentos); igualmente, não se desmembra o homem do mundo das essências às quais se conecta por sua inteligência, por sua razão; o mundo unidual (sensível-inteligível) no qual, por todos os aspectos, o homem está inseparavelmente embebido, estende-se até o Universo distante e total que, em sentido escatológico, se confunde com o Deus Imanente, o Deus Criação, este que é um encurvamento do Deus Transcendente - o Oceano que abrange o Universo inteiro em todas as dimensões e direções, como arquiluminoso incêndio enceguecente da sempiterna Substância-Amor. Transborda, então, de júbilo o coração do sábio nesta concepção acro-emotiva, enquanto sua mente, situada no centro da pinha ou da esfera dos conceitos-essências, tudo possui ... tudo domina...

Tudo, pois, unidao e nada apartado... a não ser para o infeliz que se sente só, fechado em seu egoísmo ignorante, tão míope que só a si enxerga, e que, por isto, se vê perdido, sem poder achar-se, inteiramente nu, no corpo e na alma, e por isto mesmo, cheio de misérias; e ainda que aferrado quanto pode aos bens, às posses de matéria, nem de longe vislumbra a portentosa abundância daquele que, não pedindo nada, nem poder, nem riqueza, nem glória, é nimiamente afortunado, visto como, estando em Deus, repousa para sempre..., num repouso (!) co-criativo de silente, serena e jubilosa atividade.

Dado que o inteiro complexo vivencial é um globo, só o entende o sábio com sua intuição, com sua hiperconsciência, com sua consciência volumétrica em que razão e sentimento se fundem, mostrando-se globalmente unidos.

Se o sonho dos gregos era alcançar a realidade real só com a inteligência, falido se acha este sonho grego; se os idealistas modernos pensam o mesmo, está falido o idealismo; se os materialistas cuidam que a verdade está só no complexo substancial oposto à alma, está falido o materialismo; se os espiritualistas, dando primazia à alma, supõem seja possível, um dia, alhures, viver fora de um corpo substancial, como alma pura sem matéria alguma, está

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falido o espiritualismo; se os existencialistas cuidam que sua missão é só a de opor-se ao idealismo, sem, contudo, promover a síntese, a só que pode nortear agora o mundo, está falido o existencialismo. Eis, pois: se no exclusivismo está a falência, a salvação estará na síntese total, e, nesta, todas as verdades parciais se salvam, tendo sua razão os gregos, tendo sua razão os idealistas, tendo sua razão os materialistas, tendo sua razão os espiritualistas, tendo sua razão os existencialistas. Todos têm sua razão, porém, a sua é aquela que falta aos outros.

A síntese, portanto, se impõe, como necessidade do momento e com urgência, para a salvação do mundo. No entanto, ela não poderá fazer-se, senão, com uma chave. E a chave está no modo novo da determinação do Ser, visto como ele é a Referência primordial e suprema, ponto de partida para tudo e Causa primeira da união, da integração, da síntese. Ora, Aristóteles, para quem a essência é tão necessária à substância, quanto esta, àquela, quando se esperava que ele operasse a síntese que resultaria dessa sua conclusão, dando Substância a Deus, perdeu a chave da verdade no ponto em que assentou que Deus é essência pura sem matéria alguma. Com isto, manteve a ruptura operada por Parmênides, e, mais tarde, confirmada por Descartes. Repugnou à mente de Aristóteles, como à de Kant, que Deus pudesse existir no espaço objetivo infinito, sendo, por isto, espacial e material.

Esta é a chave que estava por achar-se. E o que lhe possibilitou a descoberta foi o próprio andar da história que nos demonstrou, primeiro, que matéria e energia são termos reversíveis entre si; segundo: que todas as energias são transformáveis umas nas outras. Estas verdades incontestes serviram de base para Einstein projetar o seu "Campo Unificado".

Ora, concluímos: a vida é energia-substância, visto não poder classificar-se como essência, nem como qualidade do ser; ela é subsistente, substantiva. E como não apareceu do nada, só pode ter surgido, por transformação, das energias-substâncias que lhe estão abaixo na escala dinâmica. Do tronco da vida, a partir da irritabilidade, dois galhos saíram, um para a inteligência, e outro para os sentimentos, sendo estes, outra vez, energia-substância, visto se oporem à razão de natureza essencial. E a mais alta forma de sentimento é o amor, pelo que este é, também, energia-substância, visto como não se reduz a ente de razão. Deste modo, das energias inferiores nasceu a energia vital, e, desta, os sentimentos sobre os quais se exalta o amor na sua expressão mais sublime, humanitária, como se pode observar no santo.

Mas, o amor é o oposto do egoísmo, e a vida é egoísta

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desde a sua mais remota origem neste nosso mundo. Se a vida é egoísmo, e, no sábio-santo, ela se mostra como amor, segue-se, então, que o egoísmo se inverteu no amor. Civilização, portanto, é sinônimo de inversão da natureza bruta na sobre natureza, na natureza civilizada, visto como esta se mostra como inversão da primeira; ou de outro modo: a natureza bruta, selvática, se mostra invertida em relação à natureza civilizada.

Se, no homem, a natureza selvagem tende a negar-se a si mesma; se tende a mostrar-se como sua oposição; qual, o agente que promove esse fenômeno inversório? Pois não foi outro que não a moral... apregoada pelas religiões as quais não podem existir sem Deus. Deus, deste modo, se mostra como a contradição da natureza selvagem, como oposição do egoísmo; e buscando o homem pautar sua conduta por esse padrão divino, foi compelido a encetar sua ingente e dificílima tarefa de negar-se de animal. Deus, logo, é a sua eterna Referência, e o seu fim é o amor, que só este pode viabilizar a civilização.

Então, não há fugir: Deus é Amor, e esta é a mais subida forma de Energia-Substância. Não há sentimento acima do amor, e, a ele, todos os sentimentos sublimes se reduzem, ou dele se derivam.

Como do nada não sai nada, Deus criou tudo de si, da Energia-Substância-Amor que é. E criou tudo em coerência com suas qualidades. Logo, o Universo primeiro que Deus tirou de si, da sua Energia-Substância-Amor, tinha que ser perfeito como ele o é, e os Filhos do seu Amor, perfeitos também.

No entanto, o amor, como todas as demais energias-substâncias, é livre, mutável, transformável, que, de outra maneira, o Universo primeiro e os Filhos, habitantes dele, não podiam ter sido criados, uma vez que criação é transformação. Sendo o amor necessariamente livre, pelo que é polarizável, pôde esfriar-se primeiro, e depois, mudar-se no seu contrário. Não podia Deus tornar fixo, imutável, intransformável o amor, porque estas são as propriedades das essências, e o amor não é essência, e, sim, substância.

Então, mudou-se o amor, invertendo-se no seu contrário que é o egoísmo. Como o amor integra, o egoísmo, como oposto, desintegra. E aqueles Filhos em que se inverteu o amor no egoísmo, entraram em processo de desintegração, a começar pelo social, e suas quedas, espacialmente, se deram no sentido da periferia para o centro do Universo primeiro, naquele ponto que, depois, se chamou o Caos, do qual se originou este nosso universo, ou universo segundo.

Esses Filhos caídos do amor, arrastaram consigo, em sua queda, tudo aquilo em que puderam influir. Não só eles, pois, senão também seu meio, seu ambiente, inverteram-se, ruíram, desintegraram-se no

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atro abismo central. E a energia-substância-egoísmo dos caídos se foi transformando, de plano em plano, de nível em nível, nas energias inferiores, ganhando em potência dinâmica o quanto perdiam em potencialidade espiritual. Tais energias espiritualmente degradadas, porém, dinamicamente, cada vez mais potentes, de ondas cada vez mais curtas e penetrantes, convergiram para o centro em que se achou o Caos em cujo bojo a matéria se formou. Nessa amplíssima fornalha ardente, arqui-infernal, forjaram-se todos os átomos, até os transurânicos que, explodindo-se, fizeram o Colosso Primitivo abrir-se em espirais, dado que a imensidade do universo concentrado, de dez mil anos luz de diâmetro, rodava sobre si, sob formidolosas pressões dos espaços exteriores e das energias que ainda para o centro se fechavam. Tais explosões não eram como as de bombas em nosso espaço aéreo, mas explosões sob as enormíssimas pressões do resto das energias que, em se concentrando, tendiam, também, a se tornar matéria.

Do Caos medonho nasceu nosso universo, e neste, a vida, a consciência unibinária, porque formada do dualismo razão e sentimento. Os sentimentos e paixões negativos fundados no egoísmo vital, pouco a pouco desinvertem-se, e todos nós, seres dragontinos, satânicos, recriados por evolução, nos desviraremos de dragões em santos e sábios, transformando, com isto, nosso inferno terrestre em estância celestial.

Enquanto, porém, não formos sábios, e, porque sábios, por isto mesmo, santos, nossa civilização procederá por avanços e recuos, andando e desandando, saindo da barbárie e a ela retornando. Spengler, com sua doutrina do periodismo, tem e não tem razão: tem-na, porque somos demônios; e não a tem, porque, um dia, seremos santos e sábios, e santos porque sábios, cessando, para sempre os avanços e recuos da civilização.

Esta é a verdade, e não há outra, porque quantas verdades vierem a descobrir-se, enquadrar-se-ão nesta SINTESE que não exclui nada, e, antes, pelo contrário, agasalha todas as visões nesta VISÃO plena de luz e de gozo, luz para a inteligência, e gozo para o coração.

Eis o que a madurez dos tempos nos oferece, tornando-se possível esta SINTESE: a) matéria e energia são termos reversíveis entre si; b) todas as energias são transformáveis umas nas outras; c) como a vida não nasceu do nada, e é algo, esse algo só pode ter saído das energias do mundo dinâmico que lhe fica abaixo. Esta conclusão impõe-na o princípio de conservação da substância: "na natureza nada se cria e nada se perde, mas tudo se transforma" (Lavoisier). Além de a vida não se enquadrar como essência, ainda serve de base para os fenômenos estudados pela Parapsicologia (telergia ou

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energia biótica, ectoplasmia, psi-gamma, etc.) Afora estas energias físico-psíquicas e psico-mentais nascidas da energia vital, há ainda as energias psico-morais tais como a vontade, os sentimentos, pelo que estes também são energias-substâncias, sujeitas, portanto, ao imperativo da transformabilidade. d) a mais alta manifestação do sentimento é o amor; como não há posto a subir acima do amor; como não há nada acima ou além dele a que se refira ou. a que se relacione, sem termo de relação, o amor fica não relativo, o que vale dizer: absoluto. Como absoluto, o Amor é Deus, ou "Deus é Amor" (I João 4, 7 e 8). Logo, Deus não é Essência pura, senão, também, ENERGIA-SUBSTÂNCIA-AMOR da qual tudo foi criado, em primeira instância. Por causa de esta SINTESE filosófica dar SUBSTÂNCIA a Deus, foi possível, como conseqüência, reabilitar o mundo e o corpo, no que um e outro tem de bom, de direito, de desinvertido. Não há prevalência do espírito (alma) sobre a matéria, porque alma e corpo são partes integrantes, oponentes e complementares, do unidualismo - homem. Não há prevalência, porque ambos, alma e corpo, ocupam o mesmo nível hierárquico, tal como tese e antítese, estando acima somente a unidade resultante dessa integração - o HOMEM.

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XIII - PENSAMENTO E LINGUAGEM

A linguagem é o sucedâneo do real, por necessidade do pensamento que teve de substituir as coisas, os seres, o mundo objetivo por símbolos. Deste modo o homem pode ter presente o mundo, o universo, na linguagem. Pensamento e linguagem, pois, nasceram juntos, formando outro unibinário da consciência, cujo desenvolvimento se deu pela interatuação de ambos, visto como a linguagem enriquece o pensamento, como este enriquece àquela. O mundo que o contorno social oferta à criança, começa quando esta toma posse da linguagem. Por meio desta, infindas experiências que a criança e o adolescente não tiveram, são-lhes transmitidas. Dado que a maioria dos homens vivem a crédito da sociedade, repensando e revivendo o que esta lhes transmitiu através da linguagem, já se vê quão importante é esta como substituta do mundo real que permanece ausente. Cultura é linguagem e vice-versa, de sorte que a queda de uma implica na imediata falência da outra.

O homem autêntico, o que é si mesmo, e não, o social nele, difere do homem-massa, simplesmente porque se deu ao trabalho de tirar a limpo com a razão, as verdades que lhe inculcara o contorno social pela educação. Em solidão, só consigo, ele deu xeque-mate à verdade, cessando, para si, a crendice que o levara a aceitar tudo com base no princípio da autoridade: magister dixit. Ora, isto é fazer filosofia.

A mais rudimentar forma de linguagem é a que ainda pode ser vista nos macacos, conforme estudos feitos por Beatrice e Alien Gardner, da Universidade de Nevada, quando observaram que os chimpanzés, nas florestas, empregam muito mais os sinais manuais do que os símbolos vocais. A partir daí, esses pesquisadores resolveram ensinar aos chimpanzés a linguagem de sinais manuais, usada pelos surdos-mudos, cuja sigla é ASL, iniciais das palavras: American Sign Language. A revista "Realidade", em seu n.° 98, de maio de 1974, trouxe uma reportagem de Joyce Dudney Fleming, pela qual ficamos sabendo que mais de trinta chimpanzés estão sendo ensinados a falar, tendo um deles, chimpanzé fêmea, de nome Washoe, chegado a adquirir cento e sessenta palavras. Por meio de tal linguagem, os chimpanzés podem comunicar-se entre si e com os homens. Fazem generalizações e criam expressões novas pela combinação dos símbolos já conhecidos.

Como não podia ser de outro modo, a linguagem dos macacos é substantiva, material, com uma simbologia diretamente ajoujada ao concreto, ligada à coisidade do mundo. As coisas ausentes em realidade, estão presentes ou compresentes sob a forma de sinais. Esta

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linguagem, todavia, mantem-se ao nível do pré-refletido das imagens, representando um pensamento sensorial, que ainda não vai além da substituição da coisa-concreta pelo símbolo da coisa em situação.

Assim também teriam pensado os pitecântropos ancestrais do homem. E na proporção em que o unidualismo pensamento-cérebro foi evoluindo, já foi sendo possível abstrair, das imagens, os conceitos genéricos, já não mais imagéticos, sensoriais, e sim, agora, abstratos e irrepresentáveis, visto como as essências, os conceitos, não se representam, a não ser por palavras. Temos, assim, esta evidência: do pensamento-linguagem pré-refletido das imagens, saiu a linguagem refletida dos conceitos, toda quanta, feita de abstrações. Já, aqui, temos três níveis de linguagem: a linguagem do ser, feita de concreções, e ao nível das coisas, do mundo real objetivo; a linguagem pré-refletida feita, toda de imagens do mundo real; e a linguagem abstrata, da qual se expungiram as duas anteriores.

Porém, ainda que o pensamento voe tão alto como o condor, precisa, como este, sempre retornar à terra..., pousando aqui, com pés firmes, e aqui procurar sua substância. Ainda, como a águia, por alto que voe, o signo-palavra tem os seus limites que correspondem aos da razão. Quando a máquina voadora, já não mais águia nem condor, se toma de velocidade uma, duas, três... vezes supersônicas e ganha a ionosfera, esse velocíssimo e acrológico raciocinar se torna intuição, cessando, com o pensamento discursivo e moroso, a representação simbólica da palavra. Os artifícios dos poetas e dos místicos para explicarem o inexplicável, são falsificações, porquanto a intuição, transcendendo o raciocínio abstrato, se põe para além do mundo das palavras. Aqui, onde já não há mais palavras-sinais, a intuição trabalha com fórmulas nas ciências físico-matemáticas, e com teses, nos mundos mais complexos onde a simplicidade matemática não se aplica. Tais teses são sentenças em que se resumiram ingentes estudos de determinada matéria. Alegorias e parábolas são empregadas num processo genético ou de cunhagem de palavras novas, quando estas precisam nomear realidades segundas que não se encontram no mundo primário dos sentidos, em primeira instância. Uma megalópolis, com tudo o que nela há, constitui um exemplo dessas realidades segundas, em segunda instância, resultantes das aplicações das idéias e das descobertas científicas em invenções e criações de toda a espécie. Tal, pois, como ocorre com o poeta e com o místico, o cientista e o filósofo deparam-se também, com o novo ao qual lhes cumpre dar nome e explicar.

Através do lusco-fusco da intuição, o pensador trabalha, e a cada relâmpago dela ele descobre uma até então oculta realidade. Tais clarões vagos da intuição delineiam-se em símbolos que, após

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simplificados, se tornam sinais e linguagem corrente para uso de todos, daí para o futuro. Deste modo, a fronteira da palavra é o limite para além do qual a intuição opera, com sua simbólica específica, obrigando-se o escritor a esgarcear, às vezes, o pensamento, com reticências, anuviando, com isto, que há mais a dizer, e, no entanto, as idéias tumultuam-se, bloqueando a passagem no bico da pena. "Husserl (diz Gusdorf), para ser mais rápido, criou uma estenografia pessoal; apesar disso, em seu espólio inédito, sentimo-lo de quando em quando, desesperado por não conseguir escrever tão depressa como pensava”....

E quando o homem da intuição, o homem da totalidade, vindo das alturas, desce para partilhar, em comum, da vida dos demais homens, traz, no semblante, um ar de nostalgia, e é com sacrifício que se mantém no meio de todos que tratam de nadas, ao tempo que se riem, contentes da vida que levam, sem nenhuma necessidade de saber, nem de perguntar. Contudo, estes são os homens da caverna de Platão, com os quais ao iluminado cumpre conviver.

A intuição, que está no começo e no fim do pensamento discursivo, não usa palavras: no começo há a intuição sensível das coisas, dos acidentes, dos fatos observados in natura, que são a muda linguagem do ser; no fim, ela pode mostrar-se como intuição espiritual, como intuição intelectual, como intuição emotiva, como intuição volitiva. Aquele começo e este fim se referem à evolução do homem, e são, também, os pontos de partida para o pensamento. Hajam vista os postulados que são pontos de partida intuitivos para o pensamento que age por dedução. Transcendendo a mediocridade dos que vivem na caverna, uns poucos, vivendo nas alturas, recorrem à intuição que tateia na penumbra, fazendo aventurosas incursões em regiões ignotas, ou tornando novas as coisas velhas, com lhes ampliar e aprofundar os sentidos, as significações, mantendo, assim, a dignidade da comunicação por meio da palavra. As intuições sensíveis carecem de palavras porque tomam diretamente o dado natural. Aqui, ainda não se deu a substituição das coisas objetivas pelos seus sinais abstratos. No outro extremo da evolução, as intuições não sensíveis também prescindem de palavras, porque estão para além do racional. E quando estas intuições descem a pensamentos discursivos, agora sim, estes têm de arrimar-se nas palavras para poder transmitir-se aos outros.

Está patente, portanto, que as palavras são meios, não, fins; as palavras existem, por causa do pensamento, da inteligência que as criou para ter presente e para interpretar o mundo. O mundo é o fundamento primeiro, o ponto de aplicação, o lugar de partida e de chegada da inteligência; foi nele e aos embates da vida que a inteligência nasceu, desenvolveu-se, e chegou até à intuição. Não,

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afirmar, à moda idealista, que o mundo da inteligência, dos conceitos, das essências, das palavras, cria-o o homem em si, para, depois, projeta-lo fora, pelo que o mundo passa a existir, primeiro, na inteligência, e, a partir daqui, sem substância, só por meio das essências, dos sinais, das palavras, é projetado fora. Nem o Verbo divino, o Demiurgo, criaria o mundo a partir só das essências, sem substância, como querem fazer os idealistas, porque do nada substancial não poderia sair o mundo... que é, também, substância, e não somente essência. Se Deus fosse Essência pura, sem Substância, não teria sido possível criar o Universo. Logo, a substituição do mundo real de verdade pelo mundo vazio do discurso, foi o pecado original da filosofia, praticado pelo primeiro e pelo segundo Adão que, respectivamente, se chamaram Parmênides e Descartes.

A concepção de um Deus-Essência-Pura-sem-matéria-alguma, que criou a partir do nada (Santo Agostinho), ou a partir de uma matéria-substante (Aristóteles) cuja origem não se explica, meteu a filosofia num beco-sem-saída, gerando a confusão, a balbúrdia e as polêmicas estéreis e infindáveis. Faltava dar valor à incógnita do problema, e essa incógnita é a MATÉRIA, recusada com este nome, mas aceita pelo seu sinônimo ENERGIA-SUBSTÂNCIA-AMOR.

Os pré-homens macacóides levantaram-se em um mundo de pensamento ... concreto, muscular, objetivo, real, em que as palavras-imagens eram cópias fiéis das coisas. Para explicarem como aconteceu a caçada de burros selvagens, que tanto os empolgara, os primitivos precisavam repeti-la, simbolicamente, com gestos, com movimentos corporais e com danças. Não havia, então, outro recurso que não este: a imitação servil das situações, in natura, que é a pantomima. Com o correr dos tempos, o homem se foi desprendendo do real, para levantar-se, em vôo, no reino da idealidade e da fantasia, criando dois sobremundos: o mundo imagético primeiro, e o abstrato depois, ambos súbstitutos do mundo real ausente, ou seja, uma idealização da natureza, que era comunicada de uns a outros por meio de palavras. Tais palavras, pelo exercício, se foram identificando tanto com o pensamento, que palavra e pensamento passaram a ser como uma só coisa. Daí que o domínio duma língua só se dá quando, o tempo todo, se é capaz de pensar nessa língua.

O grande equívoco principiou quando se deu o nome de real a esse subjetivismo, a essa abstração, a essa idealidade, e, ao mundo verdadeiramente real, concreto, objetivo, feito de situações, de seres, de coisas e de movimentos, designou-se como sendo o mundo de irrealidades e de sombras. Ninguém atinou, então, que a realidade em

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nosso mundo se acha, em parte, invertida, por efeito da queda que aconteceu; esteve ela outrora, totalmente invertida, e se vai desinvertendo na medida em que avança a evolução. Nosso mundo participa (participação platônica) da realidade do mundo celeste, NAQUILO EM QUE JÁ SE DESINVERTEU. Nosso mundo não é irreal por conter, em si, o erro, a dor e o mal; o erro, a dor e o mal existem, porque nosso mundo é, em parte, invertido, imundo, negativo, dragontino, infernal. Contudo, isto, que é fundamental, passou despercebido, em razão do que se cometeu o colossal equívoco, razão do perpétuo funambular da filosofia. Como resolver o magno problema do Ser, depois desta monstruosa falsificação? Deste abuso decorreu, como de uma premissa, todos os demais desatinos, e tais desvirtuamentos da inteligência produziram o correlato desvirtuamento da linguagem, da palavra, que passou a servir até para ocultar os pensamentos.

Por causa desta formidolosa falsificação, a linguagem e o seu correlato idealismo antigo e moderno, caíram em descrédito, obrigando-nos a esta nova retomada, a partir, de novo, do dado realmente real, tendo em vista que a solução que se tentou, após o repúdio ao idealismo funambulesco, está levando o mundo à beira de um abismo. A tentativa positivista fracassou, porque, em se insurgindo Comte contra a metafísica, fez, ele próprio, metafísica, e da pior espécie. Por outro lado, o fisicalismo, o cientismo, o tecnicismo não resolveram o problema do mundo que é o do mal e da dor, e antes, o fizeram mais intrincado e obscuro. Os filósofos contemporâneos, existencialistas e fenomenologistas, ocupados em replicar ao idealismo, são contra quaisquer sistemas, afirmando que o melhor da filosofia é fazê-la e refazê-la, indefinidamente, sem nunca concluir. Gusdorf escreve que "a marca do gênio consistiria pois na vontade de não querer chegar ao termo, no propósito tenaz de deixar sempre em aberto a investigação".

Deixando sempre em aberto a investigação, sem concluir nada, em que se há de apoiar a vida para ir por diante? Sem um oriente, a história caminhará, como sempre aconteceu, por puro ensaio-e-erro animal. Alguma coisa tem que ser dada como definitivo, até que este "definitivo" seja complementado ou desalojado por um outro "definitivo" mais aberto e de nível mais alto. Seja, logo, o desenvolvimento da filosofia uma espiral em que, portanto, os sistemas-círculos, em vez de se fecharem sobre si, ligam-se uns a outros em continuidade. No entanto, uma espiral completa, incluindo todos os círculos possíveis dos dois idealismos, o grego e o renascentista, não deixa de ser, também, um sistema; e é contra este sistema que se insurgiram Comte, Marx e os existencialistas. Ninguém acertou: os dois primeiros, por criarem um intelectualismo aéreo, inaplicável à

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realidade vivida; os existencialistas, por não concluírem nada... que pudesse guiar a história, tornando-a menos irracional do que sempre foi. Tudo isto, porém, serviu a provocar o recrudescimento do verbalismo teórico, divorciado do dado natural.

Assim como o dinheiro circulante de um país tem por garantia o lastro das riquezas desse país, também as palavras postas em circulação pela inteligência, semelhante à moeda, são validadas pelo lastro ontológico da realidade. E tal como a da moeda, também pode haver uma inflação de palavras, e isto acontece sempre quando a inteligência substitui o lastro-realidade, pelo lastro-aéreo do discurso. Para evitar esta inflação, o homem deve curar de fazer que a inteligência se ajuste à realidade; as palavras hão de servir a uma inteligência que se subordinou à realidade, e não, a uma inteligência que se fez, ela mesma, a realidade primeira do mundo. Há outro perigo contra o qual se deve estar precavido:

A linguagem é meio de expressão do pensamento, e não, um fim em si mesma. Então, quando, como agora, fica desacreditada a palavra, é preciso verificar se o descrédito vem da idéia que a linguagem carreia, ou se da própria linguagem que se tornou um fim. Quando, em qualquer arte, a forma de expressão se enfuna, se enche de vento, esmera-se nas vestes e ornatos, requinta-se, tornando-se um fim em si mesma, é necessário que esteja o homem em guarda, não se deixando, como Ulisses, fascinar pelo canto de sereia, e, pelo contrário, esteja ele atento para descobrir a mensagemm que vem de envolta com a musicalidade dos períodos, dos versos, das formas, das cores. Esta prevenção tem em vista manter o equilíbrio da unidualidade fundo e forma, idéia e expressão.

Fora esta, há a outra forma de abuso, que estávamos vendo, muito mais perigoso, de que a linguagem participa, sem, contudo, caber-lhe a culpa. Neste caso, a língua continua a servir à idéia, como simples meio, sem fazer-se fim, porém, ao que ela serve é um pensamento divorciado da realidade. A culpa cabe, então, ao "pensamento-teia-de-aranha”, (Bacon) e não, à linguagem.

Neste caso, como ocorreu com os dois idealismos, o grego e o renascentista, a inteligência divorciou-se do mundo, fazendo-se a si mesma absoluta e ponto de referência para tudo. O cúmulo deste abuso foi considerar o mundo à mão, espontâneo, que é real, objetivo, concreto, palpável, visível, sensível, como IRREALIDADE, e o outro, o mundo ideal, essencial, inteligível, como sendo o REAL. Fosse tida por real a idéia que está nas coisas, no mundo, como forma, como essência, ainda vá lá! Mas o real do idealismo não é o mundo das essências, encaixado, embebido, no mundo da substância, e sim, o outro, o imaculado, o distante, diáfano, etéreo, luminoso, existente, mas sem

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substância, como se isto fosse possível: existir fora do tempo, existir sem a substância espacial e temporal. Com isto, a filosofia tornou-se tão difícil e confusa, que ficou tendo razão Cícero para quem "nada existe de obscuro, que não se possa encontrar nos livros dos filósofos".

E a linguagem? Acaso se pode imputar o pecado da confusão à palavra? Não. Ela se manteve sempre como meio de expressão, sempre dócil, sempre servindo a sua ama, a inteligência. A balbúrdia não vinha da palavra, mas da própria inteligência que dissociou a essência da substância, para prosseguir só com a primeira. Que esperar da filosofia, se Deus foi havido pelo filósofo que mais influenciou a cultura Ocidental, Aristóteles, como sendo "essência pura sem matéria alguma"? um Deus que só "se ocupava de pensar pensamentos"?... pensamentos vazios que não se referiam a coisa alguma, sem nenhuma substância?, tal como o era si mesmo, ou sua natureza?...; um Deus cujo motivo do pensar, era o prazer metafísico da própria contemplação, isto é, da contemplação de si mesmo? Mas, que dizemos? acaso pode haver prazer em Deus? dado que o prazer, o gosto, o sentimento, a vontade são substâncias, e, em Deus, então, não cabia substância? Quem não percebe logo que todo este estulto palavrório não leva a nada?, não passando de abuso da razão e da linguagem? Ora, a expressão "pensar pensamento" é um ôco, um vazio, um nada conceptual! Por causas quais esta, "Lutero disse que Aristóteles não passava de um asno", e Huberto Rohden, mais eufemizado, declara que "Aristóteles é, na história da filosofia ocidental, o rei dos acróbatas". Ora bem: apresentar acrobacias a quem busca, unicamente a verdade, é asneiríce. Se a filosofia se presta só a apresentar acrobacias, fora com ela! Se Aristóteles é acróbata do pensamento, fora com ele! E Descartes primeiro, e o intelectualismo depois, ao invés de resolver a questão, ainda mais a agravou. Com sua geometrização do mundo, Descartes se constituiu noutro cúmulo o qual deu azo a que Kant declarasse ser o homem o que cria o mundo, na própria inteligência, a partir de intuições puras, e depois projeta esse mundo feito só de idéias, só de essências, no mundo real, objetivo, vestindo um no outro como por milagre.

Primeiro Parmênides, e depois, Descartes, transformou a filosofia em puros símbolos de linguagem, desarraigados da realidade verdadeira, e esta foi a razão do descrédito da metafísica. A filosofia transformou-se na "ciência admirável" (Descartes), no "mel que só as abelhas humanas sabem fazer" (Garcia Morentes), em arte de subtilezas, em acrobacias do pensamento, em agradável passatempo como o xadrez e a literatura, mas que não respondeu ao apelo profundo do espírito eterno que inquire a respeito de por que vive e por que sofre. Como era de esperar-se, o resultado de tudo isso foi o

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descrédito da filosofia, o desprezo da metafísica. O etéreo jogo de abstrações ocultador da ignorância do profundo, invalidou a filosofia-de-palavras, e os homens, hoje, propendem a voltar-se só para as ciências que podem apresentar fatos.

No entanto, como já vimos, nos primórdios, a linguagem dos macacos, e pré-homens tinha que ser substantiva, material, concreta, muscular, direta e imediatamente ajoujada à coisidade do mundo. As coisas ausentes em realidade, precisavam representar-se pelos símbolos e pela liturgia ou ritual da pantomima. Agora, de novo, por causa do descrédito da metafísica, voltamos ao objetivismo, à linguagem auditiva, visual, fáctica, pantomímica, como no começo, só que, agora, vinda pelo rádio e pela televisão massificadores. O que vale, agora, é a linguagem dos fatos, como na ciência, que substitui os discursos retóricos pelo microscópio, pela retorta, pelos aparelhos, pelas análises, pelos computadores, pelas máquinas automáticas, pelos microprocessadores. Como não se pode prescindir da linguagem para referir-se ao ausente, ela tem que ser fáctica, deve corresponder a fatos para gozar de credibilidade. Como, todavia, nem tudo se pode ver, passou-se a duvidar de tudo o que se não vê.

Ora, isto é regredir às origens, à linguagem feita de concreções, de gestos pantomímicos. Com isto, a própria linguagem se empobreceu, uma vez que ela fundamentalmente, foi criada para ocupar o lugar daquilo que se acha ausente e não se vê. Se tenho um objeto à mão, pego-o e o mostro logo; se o não tenho, refiro-me a ele por seu nome. Daí que Vieira diz ser o nome uma "definição breve". Definir é traçar "fins" ou limites à coisa, recortando-a, num todo maior; definir é conceituar, estabelecer o conceito, fixar a essência, donde vem que o nome, como definição breve, é o conceito, a essência. Era, portanto, inevitável que a linguagem se transformasse num conjunto de abstrações, não só para substituir o ausente, como para falar das realidades que, por sua própria natureza, são invisíveis e impalpáveis. Aí está, como até a linguagem erudita com todos os seus artifícios e estratagemas é necessária, e, recusá-la, é recusar-se o homem ao seu estatuto, às suas possibilidades, à sua cultura.

O abuso idealista, desvinculando o inteligível do sensível, a substância da essência, para ficar só com esta última, com absoluto desprezo da primeira, desnaturou a própria inteligência que vem de inter (entre) e legere (ler), ou seja: ler, apanhar, escolher entre as coisas individuais um nexo oculto que os sentidos não percebem. Esta "leitura entre"... passou a atuar sobre si mesma, fez-se autônoma, cessando, por completo, sua subordinação ao dado natural, às coisas que, desde o início, foram seu objeto e seu ponto de partida. Por causa do divórcio do real e da autonomia da razão, a linguagem se tornou

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parlenga, parlapatice, donde o seu descrédito e a recusa de todos em aceitá-la, passando as massas a substituir as palavras pelas coisas, pelos fatos que elas deviam representar, mas não o fazem, e, com isto, fechamos o círculo, retornando ao ponto de que partiu o primitivo.

A palavra é "uma definição breve"... da coisa à qual representa, e da qual não pode, existencialmente, desvincular-se. O primeiro ato da inteligência é construir os seus conceitos, abstraindo-os das imagens das coisas gravadas no psiquismo, para, depois pensar por abstrações, por essências, por conceitos, visto como pensar diretamente por imagens e por coisas concretas, é próprio de homens primitivos e de antropóides. Rebelar-se contra a linguagem escrita dos mestres, que é cuidada, rica de nuances, caprichada, escorreita, substituindo-a pela linguagem oral, descompromissada, do rádio e da televisão, eivada de erros crassos, primitiva, pobre, ou pela malfadada leitura dinâmica, rápida, dos que têm pressa, e correm para nada, ou ainda pela linguagem visual dos livros em quadrinhos, das revistas fotográficas, espalhafatosas, sensacionalistas, próprias para semi-analfabetos, é retornar à linguagem pantomímica do selvagem..., é tornar-se o homem no "bárbaro moderno" de que fala Ortega. Substituir, portanto, a linguagem da cultura pela linguagem visual e corporal de analfabetos, é pretender retornar ao macaco, donde vem que a rebelião do primitivo moderno contra a linguagem culta, é um equívoco: é contra o abuso idealista, contra a inflação da palavra que deve o homem revoltar-se. Fora isto, é, também, dever de todos protestar contra a idéia de fazer da línguagem, em qualquer de suas formas (literária, pictórica, musical, escultural, etc.), um fim, "um estilo em busca de um assunto", quando ela é apenas um meio que tem por finalidade a expressão do pensamento ou do sentimento.

E como meio que é, a linguagem será sempre limitada, escassa, podendo ela ir da fala popular, espontânea, de quem discorre oralmente, até a mais requintada e erudita expressão do literato, do escritor. Falem Afrânio Coutinho e outros: "A linguagem literária, escolhida, limitada e grave, não é por certo a linguagem cediça e comum, que se fala diariamente e basta para a rápida permuta das idéias: a primeira é uma arte, a segunda é simples mister. Mas essa diferença se dá unicamente na forma e expressão; na substância a linguagem há de ser a mesma, para que o escritor possa exprimir as idéias de seu tempo e o público possa compreender o livro que se lhe oferece".

Uma estrada, que também é meio, pode ser uma picada no mato, pode ser de terra, ou asfaltada com seis pistas, mas será sempre limitada, nunca sendo um campo extenso em longo em largo, revestido de macadame; tal é a linguagem cujo fim é sempre servir a idéia, e

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nunca transformar-se em sino campanudo, ou gongo, ou pomposas vestes em cujo interior, em vão, se busca um corpo.

Porém, agora, como são tempos de primitivismos, nas danças, na gíria, nas barbas e cabelos longos, no trajar roupas novas-velhas-sujas-desbotadas, também, nalguns, deu-lhes para fazer da música uma não-arte, constituída toda de berreiro rouquenho, de sons fortes, acompanhado de requebros e de gesticulação exdrúxula, grotesca, e de indumentária exotíssima. Muitos há, "artistas" pederastas, que se dão os parabéns, como dizem, por representar os dois sexos num só tempo, de homens possuindo a inteligência, e, de mulheres, o terno e doce sentimento, a sensibilidade e o gosto aprimorado. A Arte Moderna, primitiva, esquemática, pobre ou isenta de mensagem, postou-se ao nível do homem comum que diz de si consigo: como não pensei nisso antes? de borrões, de frases sem sentido, de poesias sem metro e sem rima ... que não dizem nada, também eu sou artista. Eis como nasce um artista para cujo trabalho Goethe dá a receita:

Muita ação sobretudo. Os circunstantesquerem ver e mais ver. Chovam sucessosuns sobre outros a flux. Folga a platéia,na curiosa abundância embasbacada;entra o poeta em moda, e cresce em fama.Pela turba é que a turba se conquista:cada qual tem seu gosto; o que um refuga,outro vem que o prefere. Assim, dar muitocifra a receita de agradar a todos.

Armar de peças mil uma só peçaé que é o non plus ultra; afortunadoo poeta que o logra: é mestre cuquede chanfana afamada entre os fregueses.

Há comédia que chegue a um embrechado,que se arma, enquanto o demo esfrega um olho,e enquanto esfrega o outro, se desmancha?

O compacto! a unidade! história; petas.

Que vale ao ramalhete ser tuchado,se a crítica lá está que ri do junco,e a uma e uma as flores lhe desfolha?

( . . .)

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Apuros, para que? para que ouvintes?Este vem aborrido, aquele impandode festim lauto; e, o que é pior, não poucosda Babel jornalística aturdidos.Vêm aqui, como vão às mascaradas:matar tempo; açodados, porém frios ...curiosos, quando muito. E as damas? Essastrá-las o empenho de assoalhar os luxos;são atrizes gratuitas; são figurasque só trabalham pelo amor da glória.

Já basta de quiméricos Parnasos.Obtens enchente; aplaudem-te; vês nissomotivo de ufanar-te? Observa atentoa gente que em mecenas se te arvora:metade dela é fria, o resto bronco.Um tomara-se já no fim da peçapara se ir ao baralho que o namora.Outro está já na idéia pregustandoa noite que vai ter entre os abraços,no seio nu de delirante Frine.

Para relé tão pífia invocar musas!valha-vos Deus, basbaques da poesia!

Se agradar pretendeis, teimo na minha:dai ação, mais ação, ação que farte.O ponto é por os cérebros num caos;contentá-los em cheio era impossível...

... (Goethe, Fausto, Diálogo Preliminar)

Aí está! "para jumentos, música de jumentos", já dizia, revoltado, Paganini, ao tempo em que fazia seu violino ornear ... A linguagem dos fatos é primária e basilar, própria de um pensamento indigno deste nome, porque concreto, visual, corporal, para uso de pré-homens e de antropóides. Na proporção que o pensamento se eleva, se alteia e se aprofunda, a linguagem se abstratiza, e, de abstração em abstração, o pensamento se torna unitário e intuitivo, enxergando tudo em termos de totalidade. Tal, o pensamento da elite criadora que deve governar o mundo em todos os campos, inclusive o político.

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No entanto, o abuso idealista, desacreditando a palavra, provocou a volta aos fatos, donde o cientismo, o fisicalismo, a invalidação da filosofia, e, conseqüentemente, o descrédito da elite que, unicamente, pode dirigir e nortear o mundo. Os homens, então, se tornaram todos iguais, sem hierarquia, e as massas avançam para todos os postos de comando, na política, nas artes, nas técnicas, substituindo a elite criadora por uma minoria apenas dominante.

Esta minoria, como é massa, vive e governa, enquanto pode bajular as massas. O gosto do público é-lhe o padrão, diferente da elite verdadeira, feita de homens autênticos, que traçam rígidos programas e os executam, doa a quem doer. Em lugar destes homens de eleição que não têm outro compromisso além do da verdade que sentem, surgem os demagogos que pautam seus atos pela doutrina da subordinação às massas. A prova disto temos em Afrânio Coutinho e outros.

"Se a obra é mediadora entre o autor e o público, este é mediador entre o autor e a obra, na medida em que o autor só adquire a plena consciência da obra quando ela lhe é "mostrada" através da reação de terceiros. O mesmo vale dizer que o público é condição do autor conhecer a si próprio, pois esta revelação da obra é a sua revelação". Isto quer dizer: se a reação de tais terceiros for negativa, por ser reação de medíocres que não podem entender uma obra de gênio, então, a obra deste não presta. Só presta, logo, o que passar com felicidade pelo metro da mediocridade. O aplauso da multidão é medida do valor. Mais:

"Quando se diz que escrever é imprescindível ao verdadeiro escritor, quer-se dizer que ele é psiquicamente organizado de tal modo que a reação do outro, necessária para a autoconsciência, é por ele motivada através da criação. Escrever é propiciar a manifestação alheia, em que a nossa imagem se revela a nós mesmos". Aí está de novo: o público é o espelho no qual o autor se enxerga refletido e se conhece. O homem de letras não vale por si mesmo, mas segundo o testemunho de terceiros. O autor se conhece pelo reflexo de sua obra sobre terceiros que lhe devolvem sua imagem, como em espelho. Para o autor conhecer-se a si mesmo, precisa produzir obras que, em se refletindo sobre terceiros, lhe mostre, como em espelho, sua fisionomia a qual ele vai corrigindo, modificando, no sentido de atingir o "ótimo" no conceito dos para quem escreve. O autor, então, vai sendo modelado pelo público; até que fique do modo como o público exige que ele seja. Em lugar de o autor se fazer guia do público, que é o modo como age o homem de elite ou elegante, ou elegente, ou o que elege ou escolhe o melhor, em vez disto, o público é que se impõe como guia do autor, mostrando-lhe como e sobre o que deve escrever. Em vez

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de o autor criar o seu público com a sua pena, como guia que é de massas, estas é que criam o autor à sua imagem e semelhança. Sendo o autor o conduzido, e o público o condutor, em que se fundamenta este para ser o guia? Funda-se em si mesmo...; como o faz o rebanho estourado, escapando ao comando do pastor. É que estamos vivendo tempos de decadência, nos quais os homens regridem às suas origens bárbaras. A massa é a que manda, e seu mando é conducente ao caos. Tudo isto de Afrânio até parece eco de Sartre para quem a consciência que cada um tem de si, é dada pelos outros. Da sua enfermidade diz ele: ``Foram os Outros que ma ensinaram, os Outros a podem diagnosticar; ela é presente aos Outros, mesmo que disso eu não tenha consciência. É, pois, em sua natureza profunda, um puro e simples ser para outrem"! Em suma, o médico é o responsável de minha enfermidade; "exatamente como, sem a mediação do anatomista, eu nunca saberia que meu estômago tem a forma da bolsa de uma gaita de foles". Mas, continuemos com Afrânio:

"De modo geral, todavia, a existência de uma obra levará sempre, mais cedo ou mais tarde, a uma reação, mínima que seja; e o autor a sentirá no seu trabalho, inclusive quando ela lhe pesa pela ausência". Se, pois, não houver reação nenhuma, como vai o autor conhecer-se, dado que o espelho seu, o público, não o reflete? Contudo, esta falta de reação do público, também foi considerada como reação existente, pelo que sempre há reação, e tanto que, quando a não há nenhuma, "ela pesa pela ausência",... de certo, mostrando ao autor que sua obra não vale nada e ele é zero! E se o autor for genial, e estiver convicto de que escreve para o futuro, sendo sua obra uma antecipação? Como, logo, poderão conhecer-se a si mesmos os autores cujas obras só aparecem depois de eles estarem mortos? (que confuso modo é esse de dizer, que faz da ausência, presença, do negativo, positivo, do não-existir, existência? Um escritor escreve porque tem público, e por este se conhece; outro, porque não tem público, precisa criá-lo na sua mente, como ente imaginário, ideal, e para este escreve; todavia, como não pode saber como será a reação do seu público, quando este, no futuro, existir in concreto, fica sem conhecer-se a si mesmo, visto que seu espelho não o retrata, no presente. Isto é como afirmar: os seres vivos estão sempre estimulados pelo Sol, esteja ou não este a brilhar no firmamento; mesmo quando é noite, e não há Sol, há o estímulo da ausência. Ausência e presença são estímulos promanados do Sol, tal qual a presença ou a ausência de público são igualmente aptas a estimular o autor. Só que o autor que tem público, se conhece a si mesmo através desse público que reflete a sua imagem; o autor que o

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não tem, não possui esse espelho refletor de si, pelo que não se conhece a si mesmo, e vai inconsciente de si, produzindo sua obra... que, se não é feita para homens, certamente o será para as polilhas e para os ratos. Todavia, pode acontecer de tal obra ser desentranhada do espólio inédito e publicada; aí, então, o mundo, boquiaberto, manda fundir uma brônzea estátua desse autor. Sem falar dos muitos que não tiveram a mínima chance de apresentar suas obras, a história está cheia daqueles nomes que, em vida, foram desprezados ou perseguidos, e cultuados depois de mortos.

Em que, logo, se baseiam os autores sem público para, em fazendo suas obras, se fazerem a si mesmos? Baseiam-se, como unicamente é certo fazer, na filosofia (visão geral do mundo) que constituíram para si; baseiam-se, como não há outro modo, em suas convicções profundas que se chamam suas crenças, estas não postas em discussão, por serem eles mesmos, dado que "nós somos as nossas crenças" (Ortega).

Em tempos como agora, o autor que quisesse pautar-se pelo público... público que desaprendeu, que regrediu à linguagem fáctica, pobre, muscular, concreta, gesticulada, visual, mímica, pantomímica, simiesca..., só poderia produzir obras medíocres, nada criando de duradouro, pelo que nosso mundo só teria o hoje, e não, o amanhã; todavia, ser homem, é ser em função do futuro, uma vez que todo o ato humano tem em vista o porvir. No entanto, por falta de visão filosófica, se forem realizados os prognósticos que se fazem hoje, nosso futuro não será feliz. Fala-se já que esta nossa sociedade moderna, industrial, vai desaguar na "sociedade tecnetrônica", em que, como diz Joelmir Beting, "a liderança será disputada não pelos mais ricos, mas pelos mais capazes". Eis renovado o velho sonho de Platão. Só que Platão propunha o mais capaz entre os filósofos, no passo que, para Joelmir Beting, o mais capaz deve ser recrutado entre os tecnocratas; ei-lo: "Na sociedade tecnetrônica, tecnologia no lugar da ideologia, estrutura no lugar do homem, o poder será absolutamente impessoal e, por isso mesmo, de contestação mais difícil. A despersonalização do poder político e do poder econômico será decretada pela interdependência altamente viscosa entre instituições governamentais, organizações científicas e complexos industriais”.

A mais não podia descer o abuso oposto ao abuso idealista; a "estrutura no lugar do homem", e um "poder absolutamente impessoal" que, sonho vão, não tem nada "de contestação mais difícil", precisamente, por ser tudo obra do homem. O robô governante poderá ser tão perfeito, como o computador HAL 9.000, de vigésima geração. "Um robô que pensa, que toma decisões, que canta, ri,

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chora, ama, odeia e mata"). Ainda que tal seja o computador-presidente, não faltará um homem que o destruirá; por que? fale o próprio Joelmir: porque, ainda que o astronauta do "Discovery" é um super-homem, "não consegue libertar-se de si mesmo". Aí está a razão por que, verdadeiramente, "na prática a teoria é outra": O homem "não consegue libertar-se de si mesmo"... escravo que é de suas pulsões dragontinas. E ainda um presidente robô implicaria em ter, por detrás dele, um super-presidente humano que lhe assinasse as resoluções e atos.

Como, por conseguinte, só o homem pode tomar decisões e decretar, então, como serão os homens postos à frente dos computadores governamentais? Outra vez, dê a resposta, o próprio Joelmir: "A velha democracia do mais popular ou do mais sagaz vai deslocando o poder político na direção do mais preparado ou do mais capaz. É a chamada tecnocracia, quase sempre recrutada no anonimato da Universidade e dos quadros executivos da administração profissional da empresa privada". Tal pesadelo de robôs governando por detrás dos tecnocratas é bem próprio de quem acha que o homem vive só de pão..., contrário ao pensar de Cristo.

A escravidão do homem pela máquina irá até o ponto de os sistemas sociais serem organizados por computadores, como se acha escrito: "A simulação de sistemas sociais (por computadores) é aclamada pelo professor Cândido Mendes como a única saída científica capaz de derrubar o "verbalismo furibundo e impreciso" que ameaça a sociologia". Aí está: a questão toda se resume em derrubar o "verbalismo furibundo e impreciso" que ameaça a sociologia". Repete-se, como se vê, a velha regra histórica que diz: contra um abuso, outro abuso; contra o abuso da tese, o abuso da antítese de uma história que se desenvolve pelo método arcaíssimo do ensaio-e-erro animal. Deste modo, fica respondida a pergunta que faz Joelmir no décimo capítulo: "Se o homem continuar falhando, quem pilotará a espaçonave Terra I rumo ao terceiro milênio"?. Resposta: o Computador... que, até, já recebeu o nome de "Irmão Grande”. Em que ficamos?

Nisto: para "fugir ao verbalismo furibundo e impreciso" dos idealistas, criaremos os computadores que desconhecem palavras; e reduzida a números artificiais, a IMPENSÁVEL sociologia será "PENSADA" (?!) pelo robô que criará sistemas, na certa, para não serem seguidos. Pois claro: sendo os fatos sociais impensáveis, imprevisíveis, camaleônicos, rasteiradores, pelo que a sociologia não é ciência, por não possuir leis, em razão do que seu nome deve ser mudado para socioônica (técnica social), tão situacionista e inconstante como a economia e a política, passar este trabalho em que

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fracassa o homem para a máquina criada pelo mesmo homem, é um absurdo tão grande, qual seria o de exigir que o índio Sexta-Feira resolvesse os problemas nos quais fracassara Robinson Crusoé. Não saímos ainda do pasmo em que nos meteu tal proposição: era inverossímil que, para escapar ao "verbalismo furibundo e impreciso" idealista, tivesse, um dia, alguém sonhado com uma criatura que fosse superior a seu criador. Se o computador pudesse fazer isso, diria, também, antecipadamente, qual será o número premiado na loteria federal, ou qual, o time vencedor numa partida de futebol.

Razão de sobra tem Laurence J. Peter, quando afirma que, não somente os homens, senão também os computadores tendem a parar no seu limite de incompetência. Explica ele: "O computador, qual o empregado humano, está sujeito ao Princípio de Peter. Se começa realizando bem seu trabalho, há uma forte tendência para promovê-lo a tarefas de maior responsabilidade, até que atinge seu nível de incompetência". Ainda Peter, para os exemplos:

"O Departamento de Educação de Quebec pagou a mais 275.864 dólares em empréstimos estudantis. Engano cometido pelos serviços de multicopiadoras dirigidos por um computador”.

"Num banco de Nova York o computador pifou e três bilhões de dólares em depósitos permaneceram sem compensação por 24 horas”.

"O computador de uma companhia aérea emitiu 6 mil, em vez de dez, avisos de recompletamento. A companhia aérea viu-se com 5.990 pedidos a mais de chocolate com recheio de menta”.

"Um estudo levado a efeito em 1966 mostra que acima de 70 por cento das instalações de computadores feitas até aquela época na Grã-Bretanha deviam considerar-se comercialmente fracassadas”.

"Certo computador era tão sensível à eletricidade estática, que cometia erros cada vez que se aproximava uma programadora vestindo lingerie de "nylon”. Aí está!... como confiar num computador, ainda que ele não erre, se ele fica na dependência de programadores humanos que erram? Onde está o gênio capaz deste impossível que é programar a sociologia impensável para computadores? Ainda Peter:

"O computador não tem tato. Não adula. Não usa de julgamento. Nunca diz "Sim, senhor; agora mesmo, senhor!" ante uma instrução errada, depois sai e faz certo o que tem que fazer. Simplesmente segue as ordens erradas, contanto que sejam claras”.

"O negócio de Fogg decaiu rapidamente, e em um ano sua companhia estava falida. Ele sucumbira vitimado pela Incompetência Computadorizada".

Aí estão as razões suficientes para não serem aceitas as decisões dos computadores no campo da sociologia. Ainda que o computador

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seja eficiente, o programador humano não o é; e se o for, há duas coisas a considerar: a primeira é que o robô será sempre mero instrumento, cabendo a palavra final ao homem que se acha por detrás da máquina. Estando por detrás, mostra-se na frente, não só porque foi o inventor da máquina, como ainda, porque há de assumir a responsabilidade por ela. Logo, por detrás da máquina, porque na frente dela. A segunda razão é que a sociologia, sendo simples disciplina do espírito, e não ciência, não se reduz a discurso racional, e, menos ainda, a fórmulas e sinais matemáticos para uso de computadores.

O homem partiu da linguagem dos fatos, pensando por cosas concretas, reais de verdade; depois, pelas imagens-das-coisas; depois, pelas essências-das-coisas, depois, pelas essências-apesar-das-coisas; depois, pelas essências-sem-coisas, essências vazias de conteúdo, isentas de coisidade, imaculadas de mundo, indo, assim, às aéreas alturas, com total desprezo do ponto de partida. Tudo, então, se tornou "verbalismo furibundo e impreciso", pelo que, como reação, o pensamento teve de descer das alturas à superfície, à planura onde, outra vez, pontificam os fatos, impera a linguagem da vista, dos gestos, dos sentidos, e falam os computadores sem vida e desalmados. De agora em diante, quem não for massa, quem for autêntico, quem for si mesmo, quem penetrar o sentido acrológico do mundo, alteia-se, sobe-se, requinta-se, aristocratiza-se, e, com isto, fica isolado no seu "deserto de homens e de idéias" (Osvaldo Aranha). Para o que se elevou acima das massas, não há lugar no meio delas. Sua obra será um grito no deserto e na solidão, e ainda bem, se chegar a ser publicada para perder-se na Babel em que todos gritam, mas ninguém escuta ninguém. Esse é o nosso mundo atual, ainda sem lugar para o filósofo.

Visto como a linguagem enriquece o pensamento e vice-versa, pobreza de linguagem é apoucamento da capacidade de pensar. O mundo que o contorno social oferta à criança, começa quando esta toma posse da linguagem. Por meio desta, infindas experiências que a criança, o adolescente e o adulto não tiveram, são-lhes transmitidas. Dado que a maioria dos homens vivem a crédito da sociedade, repetindo e vivendo o que esta lhe transmitiu através da linguagem, já se vê quão importante é esta como substituta de tudo o que permanece ausente. Se é pobre a linguagem, pobre é este mundo ausente, e se rica é ela, rico é ele. Cultura é linguagem e vice-versa, de sorte que a queda de uma implica na imediata queda da outra.

O homem autêntico, o que é si mesmo e não o social nele, o que sabe perguntar por que?, difere do homem massa, simplesmente,

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porque se deu ao trabalho de repensar, conferir, tirar a limpo com a razão tudo o quanto leu, viu e ouviu. Sua substância psico mental fica sendo sua, própria, e não a substância do social nele. Ora, fazer isto é o que se chamou, desde sempre, filosofar.

Já o homem massa vive no mundo dos sentidos, dos olhos, dos ouvidos, do sexo, do estômago, da televisão, do cinema, 'das revistas só de fotografias, dos livros de leitura dinâmica para os que tem pressa de chegar a lugar nenhum, dos livros em quadrinhos. Todo mundo tem pressa, e corre para nada, porque está no mundo da superfície, dos fatos, da matéria onde ser é correr, onde a matéria deve a sua existência à velocidade. Os ídolos das multidões falam a mesma linguagem delas, linguagem de massas, e suas "músicas", músicas com aspas, não têm mensagem a não ser a das paixões dragontinas manifestadas por meio de requebros simiescos e berros sub-humanos. Os que se acham nos lugares dos líderes, únicos capazes de educar as massas, são, como elas, "porcos bipedus", em demanda do charco das vilãs paixões. Assim, pouco a pouco, se vão emudecendo, entediados, todos os valores, até o soçobro final da civilização, ainda que sem a tão profetizada Terceira Guerra Mundial.

Na crista da onda histórica de um mundo decadente, vão os demagogos rumo ao caos, levados pelas massas que, com seus aplausos, impõem as bugiarias de suas preferências. A "liderança" dos demagogos não é liderança, é servilismo rasteiro; os que lideram de verdade traçam rumos, são inflexíveis, azorragam as multidões com seu verbo de fogo, tomados que se acham, de fúrias proféticas, e acabam por arrastar as massas, ainda mesmo depois de destruídos por elas, como Cristo, como Sócrates. Já os ídolos-de-nada vivem consultando o IBOPE, para ver como vai a aceitação de suas nulidades, pelo que não passam de estriões, comparsas. Os líderes verdadeiros estão na dimensão da altura, na que se abre para a amplidão, para o infinito, em que se fixam os anseios divinamente nobres da pessoa humana.

Os nossos são tempos deseducativos, porque os demagogos são deseducadores. Quando os medianos -da classe de alunos se põem à frente como mestres, a classe inteira desaprende. O ensino cada dia cai mais e mais, e grande parte dos "doutores" saem de universidades pagas que trazem o epíteto de "chocadeiras". Estamos desaprendendo as grandes lições dos mestres do passado, para aceitar a doutrina sofística de que o aplauso da multidão é critério de verdade, e a de que a verdade é só o evidente que pode ser visto e apalpado. Por causa disto, todo mundo sabe tudo, atualizando-se a doutrina de Protágoras, o sofista, para quem cada "homem é- a medida de todas as coisas". Logo, para saber, um homem qualquer não precisa

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consultar ninguém: basta consultar-se a si mesmo; despudoradamente, o nulo diz: eu acho; e desde que acha, o que acha é a verdade. E quando se lhe pergunta: por que?, sua resposta vem logo: porque sim! Neste porque sim vai oculta a sofística protagoriana pela qual "o homem é a medida de todas as coisas", donde ninguém precisa apelar para nenhuma instância superior de regulação fora de si.

Ora, para evitar isto que seria abdicar da cultura, tornando-nos primitivos modernos, como ocorre hoje, o que temos a fazer é lutar contra a inflação da linguagem produzida pelo idealismo; lutar contra abuso dela, contra o "verbalismo" que fala mas não diz, porque dito não condiz com a realidade. Uma nova filosofia impõe-se, é a anti-divorcista que se opõe aos idealismos antigo e moderno, visto que um e outro separou na unidualidade ontológica, a essência da substância. Não há que separar o unido, nem para curar só da essência (idealismo), nem para cuidar só da substância (materialismo), porque ambas são iguais em importância, iguais em valor, não havendo primazia de uma sobre outra. O pensável e o impensável caminham unijugados na unidade do ser: do pensável, cuide a inte-ligência, e do impensável, sinta-o a INTUIÇÃO, não só com a luz da supra-racionalidade, senão, também, com o egrégio complexo de todos os nobres sentimentos. A sabedoria, objetivo supremo do filósofo, não consiste no puro intelectualismo vazio, e sim, sobretudo, na vivência efetiva dos sentimentos puros, sobre os quais se sublima o amor. A isto, fale Gusdorf.

"A verdadeira questão consiste aqui em saber qual seja precisamente o sentido da verdade em filosofia. A investigação filosófica impõe-se como tarefa justificar a existência, por outras palavras tende a assegurar uma correspondência entre a vida humana e uma verdade que a fundamente em valor. Não se trata de jogo de idéias, mas de tentativa para assumir a realidade humana integral e elevá-la de sua desordem congênita a uma ordem onde se exprima a obediência do espírito. A existência empírica é a ocasião, inicial e a saída terminal, ao mesmo tempo que o critério. O mito platônico da caverna descreve a odisséia do filósofo que transita das incertezas do conhecimento usual à contemplação da verdade, e que volta de novo a ocupar seu posto na caverna entre os demais homens, onde sua presença daí por diante deve significar a visitação dos valores superiores de que ele teve comunicação".

Se a tarefa da filosofia é justificar a existência; se é preciso "assegurar uma correspondência entre a vida humana e uma verdade que a fundamente em valor"; se a filosofia não consiste em mero jogo de idéias, e antes é a séria tentativa de "assumir a realidade humana integral e elevá-la de sua desordem congênita a uma ordem

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onde se exprima a obediência ao espírito"; espírito, aqui, que é o mesmo que inteligência-sentimento; se a vida espontânea, quotidiana, ou "a existência empírica é a ocasião inicial e saída terminal, das preocupações filosóficas, sendo a "ocasião inicial" quando o homem se acha iludido na caverna de Platão, e, a "saída terminal" quando ele, após sua odisséia pelo mundo do pensamento, volta à mesma caverna, para ocupar seu posto "entre os demais homens, onde sua presença daí por diante deve significar a visitação dos valores superiores que ele teve comunicação"; se em tudo isto consiste o objetivo da filosofia, já se vê quão distanciada andou ela da verdade, ao cuidar que o seu fim era o desprendimento e o abandono da vida. Que? "Não é no desprendimento da vida que consiste o verdadeiro alvo da filosofia? E não são os esforços em prol do desprendimento individual e a salvação social reciprocamente incompatíveis,ao ponto de se excluírem mutuamente? Como pode alguém propor-se salvar a Cidade da Destruição, quando está justamente lutando para ser livre? Sob o ponto de vista do filósofo, a encarnação do auto-sacrifício - o Cristo Crucificado - é uma personificação da Loucura".

O alvo do idealismo antigo e moderno, exceto o de Platão, pregava o desprendimento da vida, do mundo, visto como tudo isto era irredutível a princípio de razão, a discurso racional. No entanto, agora, nesta nossa visão de síntese, tudo tem que se mostrar integrado. Conseqüentemente (Gusdorf), "a filosofia não é divertimento, alheio à vida; é obra de edificação, no sentido prenhe do termo; é o cometimento de uma sabedoria ativa que quer, por entre as influências contraditórias, delinear-se como linha de força e linha de vida". Isto, na vida individual, no que diz respeito à conduta, e isto, também, na vida coletiva, nas várias ações sociais. Assim (Gusdorf), "o termo verdadeiro de toda filosofia é uma transformação do mundo, que sirva de ponto de arranque de novos empreendimentos. Ao contrário do que Marx afirmava, temos de admitir que a metafísica, quando interpreta o mundo, o transforma". "Pelo que, o filósofo e, mais geralmente, o homem de gênio, é um revelador do mundo, ou artes um transformador das significações. O mundo, após Sócrates, após Platão, nunca mais volta a ser o mesmo".

Segundo Ortega, a "série dos filósofos aparece como um só filósofo que houvesse vivido dois mil e quinhentos anos e durante ele houvesse "prosseguido pensando". E este "prosseguir pensando" não para, porque (Ortega), "se não podemos alojar-nos nas filosofias pretéritas, não temos outro remédio senão tentar edificarmos outra. A história do passado filosófico é uma catapulta que nos lança pelos espaços ainda vazios do futuro para uma filosofia por vir". É ainda

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Ortega o que afirma ser a filosofia o "repositório dos erros", e, ao mesmo tempo, "o tesouro dos acertos"; porque, como diz, cada filósofo, ao fazer sua filosofia, incorpora o certo dos anteriores, no passo em que lhes faz a crítica dos erros. Deste modo (Gusdorf), "o senso comum da história e seu veridicto asserenado reconcilia de alguma sorte todos os metafísicos que mutuamente se condenavam, e faz-lhes justiça aceitando-os todos a um tempo, ou seja, rejeitando a pretensão deles ao monopólio". Merece estar neste alinhamento histórico todo filósofo de mérito, ou seja (Gusdorf), "aquele que em si realiza, por um momento, a conjunção das paralelas. Seu êxito é o resultado de uma justificação da existência, que transfigura o mundo, irradiando num sentido de verdade persuasiva que a todos empolga". A todos empolga, sim, porque (Gusdorf), "as questões, de que o metafísico se ocupa, são do domínio público. A sensibilidade intelectual do filósofo, ao acolhê-las, satisfaz a uma justa exigência comunitária e esforça-se por dotar os contemporâneos de nova fórmula de vida: obra de mutualidade que, tanto na matéria como na forma, desemboca numa realidade cooperativa, e que, para ser eficaz, deve persuadir e criar adeptos".

Eis como se situa a filosofia contemporânea a qual se nos afigura como um novo neoplatonismo, no que toca à imposição que faz ao filósofo de retornar à caverna, e, nela, exercer sua função de orientar a humanidade perdida na congérie. Portanto, cumpre ao pensador estar lembrado de que (Gusdorf) "existem outras atividades essenciais em que o homem empenha sua vida; a arte, a religião, a moral, o próprio ramerrão da vida quotidiana, permanecem irredutíveis, ou quase, a serem postos em equação segundo o esquema da inteligibilidade positiva. Uma razão que só dá razão às matemáticas prova, por isso mesmo, que perdeu o contacto com a realidade humana, e evolve à maneira do "geometrismo mórbido" descrito pelos psiquiatras no caso de certos doentes, arrastados pela vertigem de um raciocínio oco, que nada tem, de comum com a situação real". Deste modo, paralelamente à linguagem pensamento, todo um outro mundo se abre para os conceitos, onde estes não são para serem pensados, mas, sentidos. Ninguém poderá saber o que é o amargo, o doce, o ácido, o ardido, se não provou as substâncias destes sabores; igualmente com os variados cheiros, agradáveis e ruins; não saberia o que seriam as cores todas do espectro, e ainda as nuances e tonalidades, se não as visse; nem possuiria o conceito de laranja, de pimenta, de águardente de cana, de losna (absíntio), se os não provasse. Igualmente, com os sentimentos: só se sabe o que são vontade, orgulho, humilhação, alegria, êxtase místico, artístico, filosófico, erótico, a ambição de poder, o desejo de glória, a cobiça de riquezas, a paixão amorosa, a dor da perda de um ente querido, quando se os sofreu ou gozou

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na própria alma e carne. Contudo, para desenvolver tais temas, aí estão todas as artes, sobretudo a literatura, a poesia, que podem auxiliar-se, para a expressão, do teatro, da pantomima, da tela do cinema e da televisão.

Como estamos vendo, o homem está embebido num mundo de sensações, de emoções e de sentimentos, a -partir de sua vida espontânea, sobre o qual não pontifica a razão. O conceito duma coisa é sua idéia associada à sua representação pela linguagem; esta, porém, não deve reportar-se somente à inteleção da coisa, mas, também, à nossa vivência, isto é, à experiência vital que, um dia, tivemos dela. Conceito e vivência não se separam na realidade, e quem dispuser só do ' conceito vazio duma coisa, possui a esta só por metade. E porque a vida propiciou oportunidades a todos, de quase todas as experiências fundamentais, quando nos comunicamos, nossa linguagem não carreia só idéias, senão, também, sensações, emoções e sentimentos. A idéia de chupar limão põe-nos água na boca, e, "afirma-se que uma banda musical de instrumentos de sopro pode ser reduzida ao silêncio chupando-se um limão diante dela, devido ao efeito sobre as glândulas salivares de seus membros. Mas não precisaria o ato; basta a idéia: pela hipnose comprovamos, harto, que uma palavra, carreando a dupla idéia-sensação, produz reações ou respostas orgânicas de sede, fome, frio, calor, anestesia e hiperestesia: até queimaduras reais se podem produzir, com selos postais, mas com a sugestão de que eles são emplastros causticantes. Se o hipnotizados sugere aos hipnotizados que eles se acham num avião que sobrevoa uma cidade, todos, logo olham para baixo, e vêem uma cidade imaginária que é diferente para cada espectador, porque cada um enxerga a sua cidade, ou seja, uma das cidades de suas experiências. É por isto que uma estória contada a um sujeito que tem a tarefa de repeti-la para um outro, e este, para outro, e assim por diante, o último reproduzirá uma estória muito diferente. É que cada ouvinte adapta a estória às suas experiências pessoais, à sua linguagem-vivência; passando de um a outro, a estória vai-se modificando até ser outra, mesmo quanto ao sentido.

Confirmando esta forma de mutualidade de vivências em todos os homens, escreve Gusdorf: "Sem dúvida as personagens são tomadas, direta ou indiretamente, da experiência íntima do criador, mas este deve de algum modo despersonalizar-se para construir cada uma delas em sua objetividade real. Balzac, Tolstoi, Shakespeare, devem o melhor de seu gênio a essa possibilidade de abdicarem de si mesmos, para viverem uma consciência estranha que eles habitam por procuração. A contraprova é, aliás, subministrada pelo fato de leitores e espectadores confirmarem, por seu turno, a verdade da ficção; eles

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serão, por sua vez, Madame Bovary, simpatizarão com a heroína, cuja experiência íntima se impõe também a cada um deles em sua certeza objetiva". Mais: "Sendo assim, minha consciência pode visitar outras consciências, e ser por elas visitada. Interesso-me pelo que há fora de mim, quer dizer que há em mim mais do que eu, a matéria não de uma, mas de muitas existências. Recursos secretos, virtualidades sem aplicação podem vir à tona, ao acaso dos encontros. E de certo nunca lograrei sair de meu ser próprio, a não ser mediante a ficção".

Daí que, tendo nós aberto este capítulo com o título de pensamento e linguagem, forçoso, agora, é reconhecer que a linguagem não serve só ao pensamento, senão também às sensações, as emoções e aos sentimentos, havendo, portanto, outro unidualismo integrante do homem o que se poderia nomear de linguagem-vivência. Como a linguagem é comunicação, por esta muita coisa pode transmitir-se sem palavras, só pelas expressões fisionômicas, pelo ar expressivo que se dá ao rosto, pelos olhos, pelo torcer dos lábios, pelo arquear das sobrancelhas, pelo franzir da testa, pelo modo resoluto de encarar, ou, pelo medroso e acanhado de furtar-se, de fugir. Por meio de tal linguagem psicológica, os que têm "psicologia" que são os experientes na arte de devassar os íntimos, podem descobrir a verdade mascarada por palavras mentirosas, que é quando estas serviram para ocultar os pensamentos. Por meio desta linguagem expressionista, psicológica, descobrimos, como por intuição, as pessoas, e se elas tentam enganar-nos, dizendo uma coisa, harto, entendemos outra, a verdadeira, a autêntica, a escondida. Esta é também a arte de ler nas entrelinhas dos escritos, o não impresso. O hipócrita não conseguirá ludibriar, embair, o mestre desta arte de decifração desta forma de linguagem, a menos que o falsário, como artista camaleônico, como expressionista fisionômico, sinta e viva com todas as cores da verdade, a mentira que quer impingir.

Deste modo, como se vê, não basta ouvir e sondar atentamente nosso interlocutor, como ainda é necessário conhecer-lhe a vida. Assim, a linguagem dos fatos que atrás verberamos, como abusivo reduto dos que fogem do abuso oposto idealista, assume, aqui, agora, o aspecto psicológico e moral da indispensável e vital linguagem-das-obras, linguagem-da-conduta, somente pelas quais podem ser os homens conhecidos: porque cada homem é o que faz...; e o que faz, fá-lo conforme com a crença... que é ele. O homem é a sua crença (Ortega), e esta é a que, inexorável, se manifesta na conduta e nas obras da vida. O homem é aquilo que faz... segundo sua crença profunda, crença que é ele, porque condensa sua certeza vital, para si inquestionável... certeza nascida das experiências de sua vida. De modo que pelas ações, pela conduta, se conhece a crença que é o

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homem. Pelas ações, pela conduta, cada homem está sempre gritando a sua "verdade" ! pessoal, que é uma intuição volitiva e emotiva, sendo, por conseguinte, neste seu substrato profundo que se embasam todos os seus raciocínios e argumentos, desde que sejam para ser postos em prática. Mostra-me as tuas obras e a tua conduta, e dir-te-ei qual é a tua crença e quem és.

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XIV - A MORAL OBJETIVA DE CONFÚCIO

Confúcio, procurando uma base para a moral, que não fosse Deus, recebeu o aplauso de Will Durant que o coloca na lugar primeiro da fila de "Os Grandes Pensadores". Em sua obra deste nome, Will Durant, assim, se explica:

"Por que incluir Confúcio e omitir Buda e Cristo? Pelo fato de ser um filósofo moral antes que um pregador de fé religiosa; pelo fato de seu apelo à vida nobre ter base em motivos seculares e não em considerações sobrenaturais; pelo fato de, muito mais que Jesus, assemelhar-se a Sócrates". Mas, que disse Confúcio? Transcreve-o, o próprio Will Durant:

"Os grandes antigos, quando queriam revelar e propagar as mais altas virtudes, punham seus Estados em ordem. Antes de porem seus Estados em ordem, punham em ordem suas famílias. Antes de porem em ordem suas famílias, punham em ordem a si próprios. Antes de porem em ordem a si próprios, aperfeiçoavam suas almas. Antes de aperfeiçoarem suas almas, procuravam ser sinceros em seus pensamentos e ampliavam ao máximo os seus conhecimentos. Essa ampliação dos conhecimentos decorre da investigação das coisas, ou de vê-las como são. Quando as coisas são assim investigadas, o conhecimento se torna completo. Quando os pensamentos são sinceros, a alma se torna perfeita. Quando a alma se torna perfeita, o homem está em ordem. Quando o homem está em ordem, sua família fica em ordem. Quando sua família está em ordem, o Estado que ele dirige também pode alcançar a ordem. E quando os Estados alcançam a ordem, o mundo inteiro goza de paz e felicidade".

Pusemos em destaque a base de Confúcio, em que ele afirma: "Essa ampliação de conhecimentos decorre da investigação das coisas, ou de vê-las como são". Ele desce, como se vê, por uma cadeia hierárquica do Estado até o conhecimento das coisas, e acentua que esse conhecimento consiste em descobrir ou ver como as coisas são. Um chefe de Estado, um rei filósofo (Platão), que consegue enxergar as coisas como elas são, passa a possuir um conhecimento completo, seus pensamentos se fazem sinceros, sua alma se torna perfeita, sua pessoa fica em ordem, e esta ordem se irradia para a sua família, para o Estado que governa. O tudo, logo é enxergar as coisas como elas são.

A isto, acrescenta Will Durant: "Eis aqui uma sã filosofia moral e política enfeixada em poucas linhas" (op. cit. pág. 13). Para o que disse, Confúcio empregou linhas até de mais, visto como deixou por explicar o que as coisas são, fundamento, por excelência, de que tudo o mais

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decorre. Dado que o vulgo, em sua vida espontânea, não sabe o que as coisas são, e sim, só, o que elas aparentam ser, consistindo nisto a opinião ou doxa; dado que enxergar através das aparências, penetrar o sentido profundo das coisas é a ciência ou para-doxa, donde paradoxo; dado que nesta para-doxa se ocuparam todos os filósofos durante dois mil e quinhentos anos, e ainda há o que dizer; a que pode reduzir-se a frase de Confúcio: "Essa ampliação de conhecimentos decorre da investigação das coisas, ou de vê-Ias como são"? Porque as coisas não são isoladas, mas se relacionam entre si, ligam-se em cadeia, enchendo o mundo que se integra a outros mundos que formam sistemas planetários, sistemas galácticos e universo. E se as coisas forem tomadas como unidades isoladas, estanques, como todos separados, elas são, outra vez, universos constituídos por unidades menores, em cadeia descendente, cujo último termo se perde no ignoto. O dado natural é inesgotável.

Se, pois, de ver como são as coisas depende o "conhecimento completo", então não há conhecimento completo, porque o dado natural, é inesgotável, e tanto, que cada pensador o retoma e o desenvolve em sua filosofia. Se não há conhecimento completo, não há alma perfeita; se não há alma perfeita, o homem não está em ordem, pelo que, como o notou Nietzsche, ele é inacabado. Como o homem não está em ordem, porque inacabado, também não o pode estar a família, nem o Estado que o filósofo-rei governa. Ocupado no dificílimo e árduo trabalho de saber o que as coisas são, perdido em pensamentos grandes, inculcado em acrologias, o filósofo-rei se descura dos problemas de Estado que são práticos, concretos, objetivos, vivenciais, e os ministros despacham em seu nome, fazem-se interesseiros, mercadejam intercessões, roubam, defraudam, perseguem inimigos pessoais, empestam o Estado; por que? Porque o rei deixou em suas mãos os problemas práticos, concretos, objetivos, próprios de sua função de rei, para enfrascar-se em lucubrações profundas, abstratas, teóricas, distantes, ocupação absorvente em que, até os ossos, se embebem os filósofos.

Metendo-se o rei-filósofo a querer saber o que são as coisas, esbarra com o mal, com a fealdade, com a injustiça, com as dores misérias do mundo, e vê que tudo decorre de a vida ser agoísta, o de e a Natureza ser amoral. Não querendo recorrer a soluções nenhumas escatológicas para ater-se somente a motivos seculares, perde o norte, e entra em desequilíbrio ideológico e emocional. Em estado de desequilíbrio não pode aperfeiçoar sua alma, nem "ampliar ao máximo seus conhecimentos", e quanto mais teima nessa linha, mais se perde na Babel em que todos gritam, mas ninguém escuta nem entende ninguém. O caos na alma gera o caos da conduta que se expande à

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família que, como peste, infesta o Estado. Marco Aurélio foi um rei-filósofo cuja sabedoria deu para deixar a nau do Estado navegar à deriva, e antes de ocupar o trono, seu filho Cômodo já praticava a "arte" de gladiador amador, assassinando indefesas gentes dentre os quais mendigos. Governe o rei, e filosofe o pensador, que como já dizia Vieira, "ninguém pode executar bem dois ofícios", sobretudo, se cada um deles exige dedicação exclusiva tempo integral!

A um discípulo que pergunta a Confúcio se devia pagar o mal com o bem, responde ele perguntando: "Com que então recompensarás a bondade? Pagarás o bem com o bem, e o mal com a justiça". Contudo, Confúcio não explicou o que é a justiça, como se ela fosse uma coisa clara, evidente por si mesma. Acaso a justiça é a vingança? o "olho por olho e dente por dente"?, que é o mesmo que .a pena de Talião? Seria o desassombro do forte, como o entendia Nietzsche? Seria o respeito pelo limite do egoísmo alheio? Guerra Junqueiro já dizia que um justo não perdoa, visto como exige a reparação da ofensa, e que a caridade consiste no perdão. Não fora melhor tivesse dito Confúcio que o bem se paga com o bem, e o mal, com o perdão? com o esquecimento? com a omissão da resposta punitiva? Porque num mundo, como o nosso, em que a justiça se mascara e se veste do interesse, todos a têm do seu lado, e, em nome dela, os homens e as nações estarão eternamente em luta fratricida. Sem um Padrão, sem uma Referência distante, suprema, sem uma Instância superior de apelação sobre humana, que vem a ser a justiça? Como dedicar-se alguém ao conhecimento das coisas sem ligá-las em hierarquia que, transcendendo ao mundo, ao universo, perde-se num Horizonte distante em que se aloja o Absoluto inacessível? Como podem os motivos seculares existir e se bastar a si mesmos, com que ficam sendo absolutos, se a história nos demonstra que tais motivos se mudam com o tempo? Como encetar o aperfeiçoamento da alma eterna, e mantê-lo norteado por tais padrões móveis, relativos, que, para existir, pedem um fundamento mais remoto? Em que se basearia o homem para ser justo e bom, se a bondade e a justiça não acham apoio nem exemplo na Natureza circundante, nem num social que se fun demente nela? Que significa uma moral alicerçada em motivos seculares?

O próprio Confúcio teve de fundamentar tais motivos seculares na correta visão de como as coisas são... coisas que se abrem para o mundo... que se liga a outros mundos até o universo o qual, de si, já transcende nossa capacidade imaginativa, conceptiva. Contudo, este universo não é o fim, e menos ainda o Deus que a nossa intuição promove, determina, como Referência suprarracional, só em cuja função podemos saber o que as coisas são.

Diz, Confúcio, no texto transcrito: "Antes de porem em ordem a si

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próprios, aperfeiçoavam suas almas". Como o si próprio é um elo da cadeia que, para ser posto em ordem, depende do elo anterior que é o aperfeiçoamento da alma, vale perguntar: que é o si próprio, independente da alma? Qual, a diferença entre "alma", "eu" e "si próprio"? Mais: "Antes de aperfeiçoarem suas almas, procuraram ser sinceros em seus pensamentos". Ser sincero nos pensamentos é ser exato e verdadeiro; é não procurar enganar-se a si mesmo com ilusões, com falazes esperanças, quaisquer que sejam os motivos. Em vez de manter-se em pensamentos verdadeiros, realistas, por medo ou covardia, procura o homem agarrar-se a sonhos, a falazes esperanças quais sejam: a de viver, quando se está quase moribundo; a de continuar rico por sorte ou pela ajuda de Deus, quando a pobreza é iminente ... por causa do esbanjamento dos bens, ou do jogo, ou da má administração deles. Como os pensamentos não nascem do nada, e sim, de motivos, quando os motivos reais são indesejáveis, procuramos afastá-los com contra-motivos falsos. Ora, para aperfeiçoar a alma, condição necessária para pôr em ordem si próprio, é preciso ser sincero, verdadeiro, realista, em seus pensamentos. E para que o pensamento possa alcançar o grau máximo de perfeição ou de verdade, é indispensável esteja ele seguro a respeito de o que as coisas são, como, por exemplo: o que são alma e corpo? Qual, a diferença entre "alma", "ego' e "si próprio"? Tais coisas... somadas a todas às demais, são em si mesmas, ou são em outras, ou são em nós? Se em outras, qual a fundamental na hierarquia delas? Esta fundamental, a que todas as coisas se reduzem..., ou de que se deduzem..., ou de que nascem, é fixa e imutável, ou é móvel e transformável? Eis aí os "motivos seculares" em que Confúcio fundamenta sua moral-sem-Deus, segundo o entende Will Durant...

E visto como Wíll Durant faz empenho de alicerçar a moral em motivos seculares, próximos, imediatos, objetivos, palpáveis, fizesse o mesmo com as matemáticas, desprezando os postulados e os axiomas também indemonstráveis; fizesse o mesmo com as ciências, dando as costas aos primeiros princípios improváveis em que elas se baseiam. Se Deus é criação do homem, e não, o inverso, então, os postulados e os primeiros princípios também o são; e como as ciências e as matemáticas se firmam neles, tais ciências e tais matemáticas não subsistem por si mesmas, não são descobertas, e sim, invenções do homem. Pois claro: foi o homem que inventou os primeiros princípios, os postulados e os axiomas, visto que os não pode demonstrar.

Dir-se-á, no entanto, que a praticabilidade, o utilitarismo e a objetividade das ciências, das técnicas, são a prova acabada de que

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os primeiros princípios e os postulados são verdadeiros. Neste caso, o pragmatismo a funcionalidade dos sistemas éticos e legais, que dão azo a se formarem as sociedades, a se desenvolverem as civifi-zações, são a prova da existência de Deus, fonte primária do ético o do legal. Contra os que afirmam que inventar Deus foi uma necessidade do social, opomos o argumento igual de que inventar os primeiros princípios e os postulados foi uma necessidade das ciências e das matemáticas. E a invenção de postulados diferentes, dando geometrias diferentes, prova que tais geometrias são histriônicas invenções ou criações humanas; partindo do enunciado geométrico de que a verdade é arbitrária, a geometria tornou-se, como agora é, truanice e zombaria de matemáticos brincalhões. Diferente deste resultado, a "invenção" de Deus como fonte da justiça e da bondade, inspirou e fez desenvolver-se as civilizações; e sempre, quando tal idéia de Deus como sendo a Natureza pelo avesso; sempre quando esta idéia de Deus se trocou pela de que Deus morreu, ou pela de que Deus não existe, as civilizações, em se materializando, se desfizeram em nada; nas épocas de decadência e extinção, a injustiça, a maldade e a violência imperam, porque, então, a moral cessou de existir com a sua intuição basilar, com o seu fundamento que é Deus.

E ao sofisma comunista que declara ser Deus criação das classes opressoras, para docilizar e subjugar, com "o ópio dos povos", as classes operárias, respondemos que os criadores de religiões sempre vieram de baixo, não, de cima, e a única exceção, a do faraó Akhenaten, deu em nada, pois sua religião do Uno-Deus-Luz não foi aceita pelas massas, talvez por haver-lhe faltado um Apóstolo Paulo, no dizer de Charles F. Potter. Igualmente, o Deus aristocrático, etéreo, pura idéia vazia dos filósofos, Deus intuído como essência pura, sem substância, nunca pode produzir nenhuma religião popular. A religião nasce do sofrimento (Toynbee), pelo que são os próprios proletários que criam e desenvolvem a indústria e a distribuição do seu "ópio", único modo de suportar o peso e a truculência de seus opressores, mas isto, também, na sociedade comunista, visto como não se conseguiu, lá, erradicar a religião. Se é o sofrimento que produz a religião com que a vida se defende do aniquilamento; e certo que os chefes comunistas não puderam erradicar a religião, segue-se que os comunistas não conseguiram acabar com o sofrimento como, demagogicamente, o assoalham. Logo, a presença da religião, em países comunistas, é uma afronta ao comunismo. É como se, no atro abismo infernal, na cara de Satã, se cultuasse a Deus, o supremo Criador dos mundos.

Confúcio achava, como é certo, que os homens são desiguais

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quanto à inteligência; respondendo ao discípulo Mâncio, sobre esse assunto, sentenciou: "O que diferencia o homem dos outros animais é muito pouco - e a maior parte dos homens deita fora esse pouco". Que diferencia o homem dos animais? A inteligência. E a maioria deita fora esse pouco? Sim. Tal o entende Confúcio. A inteligência, todavia, não diferencia o homem dos animais... e se ela não estiver acompanhada do senso moral; sem isto, o homem, apenas inteligente, desce abaixo do animal. Daí que os pré-homens macacóides, tanto que se viram armados de simples varapaus, já se puseram a praticar atos sangrentos de tal selvageria, que os tigres e os leões se mostraram surpreendidos.

"Um cérebro de novecentos gramas, declarou o pessimista Hooton, é suficiente para um comportamento humano ótimo. O que passa disso é empregado em maldades. Os pré-homens dotados de grande cérebro ainda estavam longe de atingir esse ótimo, mas, com o auxílio da nova arma milagrosa, a pedra, já praticavam toda a sorte de atos sangrentos". Mais:

"Enquanto os antropologistas ainda não se tinham decidido sobre se os sul-africanos deviam ser considerados macacos ou homens, Weinert escrevia esta frase que tem sido freqüentemente citada: Nenhum macaco mata, assa e devora os membros da própria

espécie: isso é humano. E acrescentou: Era bonito considerar o ato de Prometeu como o primeiro da humanidade nascente; mas nós não podemos deixar de antepor-lhe o ato de Caim". Mais isto:

"A esse respeito escreveu há alguns anos, com notável franqueza, o antropologista americano Hooton: Não vejo por que, olhando um macaco nos olhos, qualquer homem possa pretender algum parentesco com ele, baseado nas suas maneiras. Todo o macaco que se preza rejeitaria qualquer pretensão a uma origem comum com o homem".

"No princípio do século, quando se confirmou definitivamente o parentesco do homem com o macaco, para nos livrarmos do peso desse atestado, clamávamos: "Afastemo-nos do macaco!" Em meado do mesmo século, que nos demonstrou, numa medida que não julgaríamos absolutamente possível, a bestialidade do "Honro sapiens" gritamos, cheios de saudade e de pesar: "Voltemos ao gibão!".

Se só a inteligência, sem o senso moral, pode colocar o homem muito abaixo dos animais, como desceram os alemães de Hitler, uns milhares pela ação, alguns milhões pela conivência e o resto do povo pela omissão; se, graças ao senso moral, se pode chegar a super-homem como Cristo, como Sócrates, como São Francisco de Assis, vale perguntar a Confúcio se é a inteligência que, de fato, diferencia o homem dos animais. Se os tigres e os leões podem surpreender-se face a

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selvageria sem nome do homem "civilizado" (!), pelo que, se pudessem pensar, haveriam de concluir que a civilização tecnológica sem Deus, é sinônimo de satanismo sub-animalesco; se tais quadrúpedes, por isso, se dessem os parabéns, primeiro, por não serem homens, e segundo, por não serem "civilizados"... como os homens; a que fica reduzida a sentença de Confúcio? Conseqüentemente, Confúcio não deixa de ter razão..., mas noutro sentido; moralmente se pode dizer com ele: "O que diferencia o homem dos animais é muito pouco - e a maior parte dos homens deita fora esse pouco", pelo que, por isto, pode chegar a tornar-se, como Mengele, num arrematado sub-animal inteligente, mas dantescamente sanguinário.

Fritz Kahn aventura-se a dar, também, sua sentença, relativamente ao fim do pensamento: "Ser céptico é o nível mais elevado que se pode atingir no pensamento. Poder-se-ia dizer, portanto:

O cepticismo é a religião do homem culto". Ora bem: o céptico é que duvida de tudo, o que não tem certeza de nada. Logo, quem duvida de tudo e não tem certeza de nada não pode dar sentença sobre coisa alguma. Então, como sabe Fritz Kahn, o duvidador de tudo, que o cepticismo "é o nível mais elevado que se pode atingir no pensamento"? Se duvida de tudo, em que base indubitável se firmou para sentenciar isso? Se duvida de tudo, como pode asseverar mais isto: "É preciso banir do mundo o sofrimento. Não pretendemos ser filhos da natureza; timbramos em ser rebeldes contra ela".

Se "não pretendemos ser filhos da natureza", de quem ou de que somos filhos? Se é nosso dever rebelarmo-nos contra a natureza... para a corrigir, porque a julgamos errada, em que nos basearemos para esse juízo, e nos alicerçaremos para esse feito? Em nós próprios? E onde, no universo, está algo que em si mesmo tenha a sua fundação? E há mais isto: nós somos produto da Natureza, e o produto que se revolta, insubmisso, contra o produtor, é, prontamente, destruído por ele...

Pesado, por ventura, não é o tributo pago pelo santo e pelo sábio em nostalgia, dor e morte, por sua insubmissão à Natureza amoral que dá a palma da vitória e da vida aos fortes e aos astutos? estes que tripudiam sobre o justo, o manso, o magnânimo, o bom? Então, basear-nos-emos em que? se duvidamos de tudo? Acaso a base está no amor? na piedade? E de que nascem estes sentimentos, a não ser da religião? Logo, temos de supor (sub-pôr, pôr por de baixo, como fundamento) ALGO extra-natural a que nos REFERIR, o qual, governando-nos, põe ordem no caos do nosso natural.

No entanto, o céptico, duvidando de tudo, não pode possuir este fundamento, para ele dubitável. Acaso, fundar-se-á nos motivos seculares de Confúcio? Mas, estes motivos seculares implicam em

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saber o que são as coisas, e o céptico não pode conhecê-las, uma vez que elas se abrem para o mundo, para o universo, remontando-se ao Absoluto ou à Referência suma, Deus, que ele põe em dúvida. Por causa disto, já o vimos, os motivos seculares de Confúcio não dão azo a reformas nenhumas, nem do homem, nem da família, nem do Estado, nem do mundo, ficando sem sentido o elogio de Will Durant, e a proposição de Fritz Kahn.

Will Durant fala dos motivos seculares, base da pretensiosa moral objetiva, como se esses motivos, apesar de seculares, do século, absurdamente, não tivessem história, e existissem como um dom da Natureza. Acontece que o civilizado não é o homem natural, pois, como o afirma Fritz Kahn, "não pretendemos ser filhos da natureza; timbramos em ser rebeldes contra ela". Ora, em que nos alicerçaremos para efetivar a nossa rebeldia ativa contra a natureza que tem como resultado a civilização? Se o homem pode negar-se em natureza, para afirmar-se em civilização, segue-se que esta é a negação da natureza. E como poderia um São Francisco de Assis, um Sócrates, tornar efetiva, em si, tamanha empresa, sem um sólido fundamento em que se firmar? Que portentosa atividade interior, que fabuloso dinamismo dalma são necessários para desinverter, em si, a natureza egoísta e amoral, em sobrenatureza, em civilização? E como executar tão gigantesca obra, sem uma idéia chamejante que no coração se oculta como causa, e só mostra efeitos?

Move-nos a riso a fala de Politzer para quem "o homem não é bom, nem mau: ele é aquilo que as circunstâncias o fazem"; como se a vida, para todos os homens, fosse feita só de pura reação. A portentosa atividade interior do santo e do sábio, oculta sob a capa de serenidade, nega este pressuposto de Politzer, pois um e outro age sobre as circunstâncias, sobre o contorno, modificando-os; eles não são conduzidos, conduzem; não são produtos do meio, mas agentes modificadores. Fundados em sua Referência, entusiasmam e lideram as massas, escrevem a história, quando a sociedade se acha em sua ascensão; e quando eles faltam, quando já não há "este sal da Terra", a civilização, tornada insulsa, desanda para o seu ocaso e se decompõe como um corpo morto.

O Homo Technicus de hoje, com sua civilização que se encaminha da industrialização para a automação e para a robotização, vai ter, como decorrência, mais horas de lazer. Então se faz preciso esteja ele preparado para empregar bem esse tempo disponível. Falando a respeito da revolução que se está processando no mundo pelos microprocessadores, tão minúsculos que cabem, folgados, na ponta de um dedo, tão eficientes quanto os grandes computadores, e tão baratos que, em breve, invadirão o mercado e as

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nossas vidas, tratando deste assunto, "O Estado de S. Paulo" em sua edição de 19 de setembro de 1976, transcreve a fala de C. William Kessler, vice-presidente adjunto da National Cash Register: "Não há tempo a perder, e os que não fizerem o esforço de reconversão e reaprendizagem estarão perdidos". Pois bem: a par desse avanço tecnológico de resultado imprevisível, que supera até a própria ficção, faz-se preciso um igual avanço filosófico qual este que inauguramos. Eis, pois, que, necessariamente, quem não se reestruturar mentalmente, sem perda de tempo, segundo estes moldes, quem não reaprender, igualmente, estará perdido, não lhe valendo quanto em si tenha de engenhosa tecnologia. Uma outra revolução, pois, se impõe, e é a filosófica.

Uma prova em favor desta nossa tese, temos na Suécia que se tornou no Estado de Bem-Estar social mais próspero e avançado de que se tem notícia. O Estado, aí, garante, a par da máxima liberdade democrática e de suficiente segurança pública, benefícios sociais nunca vistos tais como: assistência médico-hospitalar e dentária gratuitas; ensino gratuito até o grau universitário; semana de apenas quarenta horas de trabalho; seis meses de licença para fins de maternidade; aposentadoria compulsória aos sessenta e cinco anos de idade; subsídio para aluguel de casa, além de grande facilidade para a aquisição de casa própria; acesso a quaisquer tipos de créditos, independente da renda auferida; quota de viagens para velhos aposentados de setenta anos de idade em diante e ainda serviços de assistência domésticos, se deles tiverem necessidade. Por causa de tudo isto, convencionou-se usar a expressão "paraíso sueco".

Que mal atacaria uma tal sociedade? O tédio... o horrível tédio de quem não sabe o que fazer... Este paraíso da matéria, como o lendário de Adão, não se emparelha a um correspondente paraíso do espírito; daí que a Suécia não pode dar nada ao mundo, a não ser sua experiência de que um paraíso só de matéria não subsiste. Os jovens, sobretudo, sentem o "fastio da abastança" e se voltam para as perversões de todos os tipos e para o crime, em vez de se tornarem sábios e santos. Se o bem-estar e o lazer são indispensáveis às altas criações do espírito, onde é que estão estas altas criações vindas do povo sueco? Que mais tem exportado a Suécia para o mundo além de seus festivais de pornografias? Por que não levanta logo seu vôo, a coruja de Minerva, no entardecer dessa civilização?

"Capitalismo ou socialismo?" - pergunta Joelmir Beting em seu livro "Na Prática a Teoria é Outra" - e responde: "os dois. O vigor bucaneiro do capitalismo produz e o espírito comunitário do socialismo distribui. A democracia econômica caminha de mãos dadas com a

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democracia social. E na base, uma democracia política secular. É um modelo ideal de sociedade? Para a Suécia parece que sim. O sueco das ruas, bem formado e esclarecido, diz que não vive no sistema perfeito, vive no menos imperfeito. Entende, como qualquer cidadão não bitolado pelas viseiras ideológicas, que as ciências sociais ainda não apuraram a fórmula infalível da sociedade perfeita". E prossegue adiante: "Gunnar Myrdall, um dos lapidadores do modelo sueco de sociedade, diz que os sistemas rotulados de capitalistas e de socialistas, com todas as suas versões, são sistemas convergentes. E o modelo sueco, segundo ele, se coloca exatamente nesse ponto de convergência, por ter sabido combinar dosada e pacientemente as virtudes de um com os méritos do outro, dando ao homem o mínimo de segurança sccial para que ele possa, a partir daí, afirmar-se livremente, segundo o próprio talento".

Até aqui, o "paraíso"; porém, como esse "paraíso", à semelhança dos outros lugares da Terra, está habitado por seres dragontinos, prossegue Gunnar Myrdall, pela pena de Joelmir Beting: "O que não impede, evidentemente, que a Suécia lidere hoje, na Europa, os índices de alcoolismo, consumo de drogas e de assaltos a bancos”...

Como a história desenvolve-se por ensaios-e-erros, isto é, por tentativas e falências, a que Hegel deu o pomposo nome de tese, antítese e síntese, donde vem o dito de Ortega: "Vê-se então que uma das maneiras que o passado emprega para nos inspirar é o incitamento a que façamos o contrário daquilo que ele havia feito. Isso é o que se chamou desde Hegel o "movimento dialético", em que cada novo passo consiste somente na mecânica negação do anterior. Certamente essa inspiração dialética é a forma mais estúpida da vida humana, aquela em que precisamente andamos mais perto de nos comportarmos com um automatismo quase físico". Daí que Ortega acha ser preciso, com urgência, "inverter a fórmula de Hegel e dizer que, bem longe de ser a história "racional", acontece que a própria razão, a autêntica, é histórica".

Como dizíamos, por causa de a história desenvolver-se por ensaio-e-erro; por fazer, numa fase, o oposto da fase anterior, então, contra o "laissez faire" do tempo do liberalismo econômico, veio a fase oposta do arrocho da intervenção estatal produzindo o tal de "paraíso sueco". Como é, logo, esse "paraíso"? Pois o intervencionismo estatal em assuntos econômicos se tornou tão grande, que a escritora sueca Astrid Lindgreeh se interroga: "Háverá outro país do mundo em que uma pessoa antes de aceitar um trabalho pergunte "quanto me restará depois de pagar impostos?" e depois de fazer as contas conclua que deverá pagar impostos tão altos a ponto de não valer a pena trabalhar?" (O Estado de S. Paulo de 22/9/76). Depois de fazer tais

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cálculos, o cineasta Igmar Bergman deixou o seu país declarando: "Recuso-me a ser tratado como uma vaca. Acreditava que meu país fosse o melhor do mundo. No entanto, meu despertar foi um choque. Seja pela humilhação dificilmente suportável, seja porque me tenha dado conta de que nesse país qualquer um pode ser brutalizado por um tipo especial de burocracia completamente despreparada para desenvolver sua complexa e delicada tarefa" (O Estado de S. Paulo de 22/9/76).

O que está faltando, então, ao "paraíso sueco'?, senão a sabedoria... que os seres dragontinos não têm. Decerto, não foi pensando só nas outras nações que Gunnar Myrdall escreveu: "Estamos vivendo a terceira guerra, a guerra da violação dos espíritos e do envenenamento moral de gerações inteiras. Uma guerra mais terrível que a das bombas e dos canhões, a guerra da poluição do corpo e da mente, a guerra da ajuda transformada em negócio, a guerra da imposição ostensiva ou camuflada de fórmulas importadas de libertação do homem, a guerra moral estrábica que condena a bomba atômica e aceita a dinamite de fabricação caseira, a guerra de uma juventude ociosa e marginal que não é julgada, é promovida, a guerra dos que pregam a justiça social de salão, arrotando os ganhos de balcão, a guerra dos que sobem ao poder por suas convicções políticas duvidosas e não por sua habilitação técnica para o exercício da mais responsável das tarefas, a direção da sociedade". Eis, pois, que, como escreve Astrid Lindgreeh, "o regime social-democrático que proporcionou tantos benefícios sociais, endurecido e desgastado na direção destas práticas, tendia a transformar-se numa ditadura na qual o ser humano recebe ordens quanto ao que deve fazer ou deixar de fazer" (O Estado de S. Paulo de 22/9/76).

Aí está para onde vai indo a Suécia, a Suécia roborizada ... dos circuitos integrados. "Esse tipo de circuito interligado de bancos entre si e destes com o comércio já foi considerado utopia nos Estados Unidos e no Japão. Na Suécia, vai entrar em cena em agosto de 1973, arquivando o dinheiro, o talão de cheques e, só para esnobar, o cartão de crédito" ( ... ) "E lá se vai a primeira e última das utopias: a do homem livre”... Face a isto, teimamos na nossa: só podem ser livres, o sábio e o santo; nunca, jamais, seres dragontinos presos só ao mundo da matéria. Repetimos aqui: os que não fizerem o esforço da reconversão ou da desviragem de dragões, permanecerão infernados, que isto é estarem perdidos já neste mundo ou fora dele, seja com seus corpos de matéria densa, seja com seus corpos espectrais. A prática da moral é esforço de reconversão; mas moral não há sem Deus, como não há matemáticas sem postulados, nem ciências sem primeiros princípios. Ainda que só, contra todos, havemos de gritar

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esta formidolosa verdade da qual, um dia, como um raio, tivemos comunicação. Este mundo nosso em desintegração, busca, ansiosamente, salvar-se do caos que se aproxima; contudo, isto só será possível com uma nova mensagem, e tal mensagem está neste livro.

FIM

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