Hendrix silveira -_a_cultura_religiosa_dos_iorubas

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<ul><li> 1. Sociedade Educacional Sul-Rio-Grandense FACULDADE PORTO-ALEGRENSE DE EDUCAO, CINCIAS E LETRAS FAPA DEPARTAMENTO DE HISTRIA Hendrix Alessandro Anzorena Silveira Turma 1221 Monografia apresentada a FAPA como requisito parcial aprovao na disciplina de Histria Antiga II. Orientadora: Prof Marise Hoff Failace A Cultura Religiosa Dos Iorubs Do Surgimento Dispora Porto Alegre 2004 </li></ul><p> 2. 2 INTRODUO O ser humano desde tempos imemoriais, busca explicao para todas as coisas que desconhece. Coisas simples como a chuva, o arco-ris, o Planeta Terra, e outras um pouco mais complicadas como a vida, o fogo, o astral, etc. O homem, quando no podia explicar as coisas que o rodeavam, atribuam tais coisas a um poder divino. Quando, por exemplo, caa um relmpago numa rvore e esta era consumida pelo fogo, com certeza algum perguntava: De onde vem os raios? Para uma mentalidade primitiva, no h uma resposta racional, com embasamento cientfico. Mas se no h resposta e a coisa real, ento s pode ter sido mandado por algum muito poderoso. Algum sobrenatural. Ento eles respondiam: Vem de Deus! Baseados neste raciocnio deduzimos terem surgido as primeiras religies na face da Terra. E mesmo hoje, a religio utilizada para explicar o que no foi ainda explicado. Apesar de sabermos que o relmpago uma descarga eltrica, o motivo pelo qual essa descarga acionada pode provir de um desejo divino premeditado. Este um exemplo clssico de como a religio se contorce para continuar viva. Ingressei no curso de Histria da FAPA, com a inteno de me especializar em religio, especialmente a religio africana. O que me levou a esta deciso foi a minha prpria bagagem de conhecimentos sobre o tema, pois sou adepto do Batuque a religio africana como conhecida no Rio Grande do Sul. Ao saber que teria de fazer uma monografia referente histria antiga, no foi preciso nem pensar numa escolha. Era bvio que seria sobre a Cultura Religiosa dos Iorubs. Isso porque no existe uma bibliografia que exponha a histria da frica, incluindo o aspecto religioso que de vital importncia para esse povo, pois permeia tanto sua vida social quanto a vida poltica e econmica. Ento devo salientar que este trabalho tem como finalidade um avano de ordem pessoal, e que serve de primeiros passos para uma maior compreenso do fenmeno que a cultura religiosa da frica ocidental. Logo pensei em fazer um trabalho diferenciado, incluindo outros aspectos tais como a relao poltica/economia/sociedade/religio. Por isso o ttulo Cultura Religiosa, pois o termo cultura pode ser definido como conjunto complexo dos cdigos e padres que regulam a ao humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo especfico, e que se manifestam em praticamente todos os aspectos da vida: modos de 3. 3 sobrevivncia, normas de comportamento, crenas, instituies, valores espirituais, criaes materiais, etc.1 Entretanto, uma monografia um trabalho que exige uma especificidade para esgotamento de dados sobre um tema. Escrever sobre a Cultura Religiosa Africana seria de uma grande pretenso e at de um grande erro, j que no podemos definir um aspecto estudado como sendo a matriz de um processo que levou geraes para ser desenvolvido em um continente que, sozinho, possu mais povos, lnguas e, certamente, culturas diferentes que todos os outros juntos. Ento dissertarei sobre a cultura religiosa da frica Ocidental. O bero dos africanos que vieram para o Brasil poca da escravatura e origem da religio praticada nas terras gachas. Darei nfase total cultura dos iorubs, povo de cultura muito rica e organizada, cujos domnios se estendem do sudoeste da Nigria at o leste do Benin. Sempre que estudamos a Mesopotmia ou a sia, ou ainda a Europa, nos deparamos com grandes povos que habitavam aquelas regies. Sejam assrios, hebreus, hititas, caldeus ou persas; chineses, mongis, japoneses ou siameses; romanos, gregos, cretenses ou indo- europeus; sempre os estudamos de forma individual. Mas no tocante a frica, esse vasto continente tratado como se fosse um pas em que todos so iguais: falam a mesma lngua, tm os mesmos costumes, tm as mesmas crenas. Isto no verdade. Existem muitas culturas africanas grandiosas e este trabalho se voltar para a iorub. No semestre passado, na aula de antropologia (prof Aline), debatamos sobre o livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. A colega Thas Staninski formula uma pergunta: como estariam os ndios brasileiros, se o Brasil no tivesse sido achado? Imediatamente me veio a pergunta: como estaria o povo africano se no tivesse sido invadido pelos europeus? Considerando que os africanos no tinham uma viso expansionista de mercado, nem estavam interessados na converso religiosa de estrangeiros, tampouco na arrecadao tributria de povos conquistados ao menos no na escala demandada pelos europeus presumimos, ento, que esses fatores somados a noo de tempo cclico, manteriam os africanos estagnados, ou seja, o seu presente no seria diferente do seu passado pr-histrico. 1 Dicionrio Aurlio Eletrnico sc. XXI verso 3.0 novembro de 1999 4. 4 Utilizarei como principal procedimento na elaborao deste trabalho, a pesquisa no acervo bibliogrfico, tanto particular quanto na biblioteca da FAPA. Devido problemtica pessoal (falta de tempo, principalmente), no pesquisarei em outros acervos. CAPTULO 1 - AS DIVINDADES: Mitologia, Espiritualidade, Liturgia 1.1. ORIGEM DA RELIGIO IORUB No se sabe exatamente se o homem pr-histrico africano desenvolvia algum tipo de religio. A maioria dos antigos povos africanos com certa civilidade tinha a dana, a msica e a oralidade (pronunciamento de certas palavras), alm de pinturas como formas de contato entre os homens e os deuses. Mas no podemos utilizar estas informaes para definir o carter religioso de desenhos e formas pintadas nas paredes de cavernas de povos pr- histricos. Entretanto pode-se pesquisar sobre os sepultamentos desses povos. O homem de Neandertal (homo sapiens neanderthalensis2 ) cuidava muito bem de seus mortos, sepultando-os junto com utenslios e alimentos, o que sugere uma crena numa vida em outro mundo. Alm disso, tambm deixa com clareza que estes povos tinham o conhecimento da inevitabilidade da morte, bem como a noo de tempo de vida. Os africanos que viviam na mesma poca tambm percebiam que tudo tinha uma ordem que se aplicava tanto aos animais como a eles mesmos. Tudo nascia, crescia e vivia durante algum tempo e morria. Ver que tudo e todos sucumbem morte, poderia ter ocasionado uma srie de reflexes sobre a vida deles mesmos. Saber que as coisas tinham uma ordem, sugeria que esta ordem era de responsabilidade de algum. Algum invisvel, mas que agia na natureza. Algum com poderes sobrenaturais e, por conseqncia, um ser sobrenatural. Mesmo que este ser tenha caractersticas humanas. Todos estes fatos levam a crer que o homem da poca acreditava na existncia de um ou mais seres sobrenaturais que causavam todos estes acontecimentos. Isto o levou a procurar ter influncia sobre estes deuses para que eles pudessem ter as suas atividades dirias concludas com xito. Na poca Neoltica, a colheita foi aos poucos sendo substituda pela agricultura, assim como a caa pela criao de animais. Parece bvio que medida que a agricultura e a criao de animais se tornam estabelecidas pela humanidade, as plantas das quais o homem e animais dependem para viver, 2 O Homem de Neandertal (400 mil 50 mil a.p.) foi contemporneo do homo sapiens arcaico (500 mil anos a.p) e do homem moderno (homo sapiens sapiens 100 mil a.p.), embora s tenha surgido na Europa. 5. 5 tornam-se importantssimas. O ciclo agrcola torna-se fator dominante para as comunidades da poca e alvo das manifestaes religiosas. Ainda hoje so encontrados em vrias partes do mundo festivais e ritos para assegurarem bons resultados na colheita. Isto ocasionou uma maior dependncia dos homens com os seres divinos, pois o processo agrcola lento e independente do homem, deixando-o na passividade. J a caa dependia muito da astcia e da coragem do caador, assim como de sua fora e agilidade. 1.2. OS IRUNMALS Para os iorubs a existncia transcorre simultaneamente em dois planos: no ai3 e no orum. O ai o mundo material, palpvel, onde vivem os ara-ai, os seres naturais. Orum o mundo imaterial, transcendente, onde vivem os ara-orum, os seres sobrenaturais. Quanto ao orum, Juana dos Santos insistente: (...)o espao run compreende simultaneamente todo o do iy, terra e cu inclusos, e conseqentemente todas as entidades sobrenaturais, quer elas sejam associadas ao ar, terra ou s guas, e que todas so invocadas e surgem da terra. assim que os ra-run so tambm chamados irnmal (...) (SANTOS, 1986:72) no orum que se encontra Olodumar (ou Olorum, Ob-orum, etc.), o deus supremo dos iorubs e detentor dos poderes que possibilitam e regulam toda a existncia, tanto no orum como no ai. Esses poderes foram transmitidos para os irunmals, de acordo com suas funes. Os irunmals so divididos em dois grupos: os quatrocentos irunmals da direita e os duzentos irunmals da esquerda. Os nmeros assinalados no significam, para os iorubs, nmeros regulares, limitados, mas sim, que o nmero duzentos represente, simbolicamente, um nmero grande e o quatrocentos um nmero muito grande4 . O sentido utilizado para direita e esquerda muito profundo e exige um estudo pormenorizado que no caberia neste trabalho. A obra de Juana dos Santos5 excepcional e indispensvel para essa compreenso. 3 No decorrer de todo o trabalho utilizarei as palavras da lngua Iorub transformadas foneticamente para a lngua portuguesa, a fim de tornar mais inteligvel a pronncia por parte do leitor. 4 Segundo VERGER, 1997:21 6. 6 1.2.1. Os quatrocentos irunmals da direita: os orixs funfun Os quatrocentos irunmals da direita so os orixs, no os orixs como so conhecidos no Brasil, mas sim um grupo mais restrito. Seriam os orixs funfun, ou orixs do branco, mais conhecidos no Brasil como Oxals. Na frica so chamados Orixanl (grande orix), Obatal (rei do pano branco), ou ainda Obarix (rei dos orixs). So divindades relacionadas criao do mundo e dos homens. Um mito iorub conta como se realizou essa faanha. Olorum-Olodumar encarregou Obatal, o senhor do pano branco, de criar o mundo. Para isso lhe entregou o saco da criao. Obatal foi consultar Orunmil, que lhe recomendou fazer oferendas para ter sucesso na misso. Mas obatal no levou a serio as prescries de Orunmil, pois acreditava somente em seus prprios poderes. Odudu, o irmo mais novo, observava tudo atentamente e naquele dia tambm consultou Orunmil. Orunmil assegurou a Odudu que, se ele oferecesse os sacrifcios prescritos, seria o chefe do mundo que estava para ser criado. Odudu fez as oferendas. Chegado o dia da criao do mundo, Obatal se ps a caminho at a fronteira do alm onde Exu o guardio e no fez as oferendas nesse lugar, como estava prescrito. Exu ficou muito magoado com a insolncia e usou seus poderes para se vingar de Oxal provocando-lhe uma grande sede. Obatal aproximou-se de uma palmeira e tocou seu tronco com seu basto fazendo jorrar vinho em abundncia, que bebeu at embriagar-se, adormecendo na estrada, sombra da palmeira de dend. Quando se certificou do sono de Oxal, Odudu apanhou o saco da criao e foi a Olodumar lhe contar o ocorrido. Olodumar viu o saco da criao em poder de Odudu e confiou a ele a criao do mundo. Com quatrocentas mil correntes Odudu fez uma s e por ela desceu at a superfcie de ocum, o mar. Sobre as guas sem fim, abriu o saco da criao e deixou cair um montculo de terra. Soltou a galinha de cinco dedos e ela voou sobre o montculo, pondo-se a cisc-lo. A galinha espalhou a terra na superfcie da gua. Odudu exclamou na sua lngua: Il nf!, que o mesmo que dizer a terra se expande!, frase que depois deu nome cidade de If, cidade que est exatamente no lugar onde Odudu fez o mundo. Em seguida Odudu apanhou o camaleo e fez com que ele caminhasse naquela superfcie, demonstrando assim a firmeza do lugar. Obatal continuava adormecido. Odudu partiu para a Terra para ser seu dono.6 Obatal despertou e, tomando conhecimento do ocorrido, voltou at Olodumar contando sua histria. Olodumar, para castig-lo, proibiu-o de beber vinho-de-palma, ele e todos os seus descendentes. Mas Olodumar deu outra misso a Obatal: a criao de todos os seres vivos que habitariam a Terra. E assim Obatal criou todos os seres vivos. Ele modelou em barro os seres humanos e o sopro de Olodumar os animou. O mundo agora se completara e todos louvaram Obatal No prximo captulo veremos que Odudu o ancestral dos reis iorubs. 5 Os nag e a morte: pde, ass e o culto gun na Bahia : Petrpolis, Vozes, 1986 6 PRANDI, 2001:503 7. 7 Segundo Verger (1997:254) os orixs funfun seriam em nmero de cento e cinqenta e quatro. Estes orixs so cultuados, cada um, em uma cidade diferente, onde ele pode ser o padroeiro dessa cidade, ou um orix secundrio. Entretanto, mesmo no sendo o padroeiro da cidade ou comunidade, ele tem grande importncia graas a sua relao com a criao, mantendo, assim, uma posio de destaque, possuindo um ritual prprio e sacerdotes prprios tambm7 . Desenvolveram-se rituais muito semelhantes para estes orixs nas diferentes cidades em que se apresenta, o que nos leva a crer que, na verdade, estes orixs so os desdobramentos de um nico orix (Orixanl) cultuados em diferentes locais, e no divindades diferentes. Como divindades do branco, tudo o que for branco lhes pertence. S se vestem com essa cor e seus pertences so marcados com pintas brancas. Os albinos, por terem a pele branca, so tambm consagrados a este orix. Com rarssimas excees, estes orixs se apresentam como sendo muito velhos, lentos e sbios. Como todas as culturas antigas, existe tambm na frica um grande respeito pelos mais idosos, graas a relao com a ancestralidade, cosmoviso que se evidencia na representao da maior divindade do panteo iorub. So representantes do poder fecundador masculino, sendo considerados os pais da humanidade. Tambm so considerados como pais dos duzentos irunmals da esquerda. Ento conclumos que os orixs funfun so os grandes senhores deste mundo (ai) e do outro tambm (orum). Suas oferendas so constitudas por alimentos brancos ou claros. Os animais oferecidos em sacrifcio so tambm de pelagem ou penugem branca. muito utilizado como oferenda o igbin, um caracol grande muito comum na regio. Verger nos conta que, em If, a Meca dos iorubs, so sacrificadas duas cabras para Orixanl e Iemou, sua nica esposa o que ressalta aqui que os africanos so poligmicos. A primeira cabra, aps os procedimentos litrgicos, cozida e distribuda a todos os participantes, j a segunda sofre um tratamento diferente. Antigamente era um ser humano que devia ser sacrificado8 , por isso evita-se tocar no animal que, aps a imolao, arrastado com uma forquilha e jogado no mato. Comer a carne desta cabra seria atrair para si uma maldio, e tambm seria antropofagia. 7 Em todas as cidades iorubs, independentemente do irunmal padroeiro, existem templos para os orixs funfun e para Exu, Com ritos e sacerdotes distintos....</p>