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  • DIAMANG, MUSEU E O CONHECIMENTO DO OUTRO

    A pesquisa em duas pocas distintas no Museu do Dundu

    Prof. Doutor Manzambi Vuvu Fernando

    Antroplogo/Muselogo

    Professor Auxiliar UAN

    Director Nacional de Museus

  • I. Introduo As grandes mutaes constatadas no mundo, o desaparecimento de certas etnias, o

    acesso difcil a certos terrenos de investigao, os considerados etnolizados

    impedem que as suas sociedades continuem a ser objecto de estudo, a rpida

    evoluo com que se defrontam as sociedades africanas, o avano tecnolgico

    determinante para a reduo do distanciamento existencial e intelectual do

    antroplogo em relao ao seu objecto de estudo, no condicionaram no domnio da

    Antropologia Social e Cultural o questionamento do seu objecto de estudo, nem da

    definio de novos objectos, nem do novo relacionamento no tratamento do seu

    tradicional objecto de estudo, mas, acima de tudo foi o posicionamento do

    investigador1 que se modificou profundamente em relao ao espao e ao tempo (M.

    Aug, 1997).

    Actualmente, as culturas africanas reafirmam-se e o antroplogo debrua-se

    sobre o trabalho numa determinada sociedade cujo resultado exige um controle

    dessa mesma sociedade que constituiu no passado, o seu objecto de estudo,

    a quem ele deve recorrer para uma cooperao mtua. atravs dessa nova

    ordem de relacionamento que se desconstri sob um olhar endgeno a

    relao unilateral criada entre o Outro e o antroplogo durante o processo

    de colonizao, que na hodierna dominaram as sociedades africanas por

    supremacia e mecanismos da dependncia tecnolgica e econmica criadas

    para o efeito. Pensamos ter sido nesta base que foi erguido o Museu do Dundu

    e sua evoluo no tempo que caracterizou as suas actividades de pesquisa em

    duas pocas distintas; A primeira, de 1936 a 1953 e a segunda, de 1956 a

    1975.

    esta a constatao de um antroplogo de campo, Marc Aug, incidido no seu

    artigo sobre Le nouvel Espace-temps dans lanthropologie, in Dire les autres.

    Rflexions et pratiques ethnologiques (1997), que a base da nossa reflexo.

    O contexto no qual o Museu foi criado e as fases que constituram a sua

    histria enquadra e fundamenta a nossa abordagem diacrnica e sincrnica. O

    1 - , o olhar exterior do investigador. Refere-se ao investigador europeu.

  • Museu do Dundu, apesar de ser uma instituio erguida por uma empresa

    mineira de capital de investimentos estrangeiros, a DIAMANG, ela, surge em

    pleno perodo de incremento da Poltica de colonizao cientfica e de criao

    das instituies cientficas em Angola. Essas ideias de ocupao cientfica do

    Ultramar para a colonizao de Angola fundamentaram a ideologia da poca

    que de forma directa ou indirecta, caracterizaram o sistema socioeconmico

    das empresas capitalistas em Angola, circunscritas no quadro das reformas

    econmicas e do plano de desenvolvimento da colnia durante o mandato do

    Alto-Comissrio Jos Mendes Ribeiro Norton de Matos. Partiremos do

    incremento da sua poltica de governao para contextualizarmos o surgimento

    dos museus na base da legislao colonial, elaborada entre 1912-1915. Sendo

    o Museu do Dundu propriedade privada da DIAMANG, as actividades

    cientficas e culturais a desenvolvidas enquadraram-se provavelmente na

    poltica de colonizao, isto , para alcanar os objectivos da empresa no

    domnio da pesquisa e do conhecimento das populaes da regio mineira,

    premissas para o trinmio de explorao. A abordagem pesquisa em duas

    pocas distintas, ser delimitada entre 1936-1953 e 1956-1974 em que se

    pretende estabelecer a forma como essa pesquisa se desenvolveu nessas

    duas pocas, bem como o resultado do seu trabalho no domnio da Arte e

    Cultura, digamos, da Antropologia Social e Cultural.

    II. Historial do Museu do Dundu e a constituio das coleces

    II. 1. Reflexo sobre a criao do Museu do Dundu

    Foi em 1936, no extremo Nordeste de Angola, distrito da Lunda, concelho de

    Portugalia, hoje Citatu, na localidade do Dundu, na actual provncia da Lunda-

    Norte, que se criou o primeiro Museu Etnogrfico em Angola. Em 1942, na sua

    trajectria cientfica, evoluiu para um Museu pluridisciplinar. Foi atravs da

    Companhia de Diamantes de Angola, (DIAMANG), que foi instalado esse

    grande empreendimento cultural na sua zona de concesso mineira, sua

    propriedade privada at 1974, altura em que se normalizou a sua

    nacionalizao, formalizada em 1976.

  • Mas qual foi o objectivo que a Diamang pretendeu atingir ao criar o Museu do

    Dundu?

    A. de Barros Machado, que foi director do Laboratrio de Biologia do Museu do

    Dundu durante longos anos, fornece-nos alguns elementos do historial desse

    Museu. Na sua introduo da obra sobre Diamang, Estudo do Patrimnio

    Cultural da ex-Diamang2, ele refere que foi por iniciativa de um grupo de

    amigos de Jos Rdinha, ex-funcionrio administrativo (aspirante) do posto civil

    de Citatu, sit h cerca de sete quilmetros do Dundu, artista-pintor habilitado e

    com treino de desenhador desenvolvido nas suas anteriores funes ao servio

    da indstria vidreira da Marinha Grande, tinha preparado uma exposio com

    objectos nativos da sua coleco privada. A exposio foi visitada pelo Eng

    Henrique Quirino da Fonseca, Director Geral da Diamang na Lunda que decidiu

    colocar o homenageado ao servio da Companhia com a tarefa principal de

    constituir uma coleco de objectos de alta qualidade cujo ncleo inicial teria

    de ser a sua prpria coleco privada, que ele decidiu ceder Diamang para a

    criao do Museu.

    II. 2. Constituio das coleces do Museu do Dundu

    A constituio das coleces do Museu do Dundu no domnio da etnografia

    deve-se ao empenho de Jos Redinha que aceitou assumir a complexa tarefa

    de assegurar a edificao desse empreendimento, o Museu do Dundu. Em

    1936, foram recolhidos objectos na rea perifrica do Dundu, que reforaram o

    ncleo constituinte das coleces do Museu. Em 1937, foi organizada a

    primeira Campanha de recolha designada Expedio de Kamaxilo. Em 1939,

    foi realizada uma outra importante expedio Campanha Etnogrfica de

    Civoko na regio do Alto Zambeze. Ambas expedies reuniram um

    importante acervo que definiu a orientao etnogrfica ao museu. Entretanto,

    nas proximidades do Dundu foram recolhidas quantidades de materiais

    2 -MUSEU ANTROPOLGICO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 1995, Diamang, Estudo do Patrimnio Cultural da

    ex- Companhia de Diamantes de Angola, Universidade de Coimbra.

  • etnogrficos. Na ocasio, foram adquiridos objectos quer por oferta de chefes

    tradicionais, quer por compra.

    O relatrio de 1945, reala uma orientao interna no procedimento da

    aquisio dos objectos por compra. Contudo, durante a nossa pesquisa no

    encontramos provas documentais sobre a compra de objectos junto das

    populaes nativas. Comprova-se sim, o sistema de trocas entre os objectos

    culturais, os produtos manufacturados, e outros de primeira necessidade, que

    vigorou nesse perodo das campanhas.

    O relatrio anual de 1943, refere-se a 374 objectos adquiridos ao longo do ano:

    ...figurando entre eles, uma srie razovel de esculturas, algumas regulares e de boas madeiras.

    Aumentou, tambm, o nmero de armas lazarinas e objectos em marfim e osso, hoje, uns 53, em geral

    peas interessantes.3

    Atendendo ao critrio de avaliao desses objectos, era comum utilizar os

    qualificativos tais como: esculturas razoveis de boas madeiras, de algum

    mrito, ou outras para seleccionar os objectos de valor museolgico. No

    relatrio mensal do ms de Fevereiro de 1949, Mrio Fontinha assinala que

    dos objectos de arte indgena existentes no Museu do Dundu encontravam-

    se peas de real, valor atendendo rudimentar indstria de que dispunham

    os seus autores e ao primitivismo em que ainda se encontram.4 O critrio de

    seleco dessas peas no era determinado pelos nativos mas sim, pelo

    conservador do Museu ou pelos seus colaboradores. Nesse contexto, os

    objectos adquiridos submetiam-se apreciao do especialista baseados

    fundamentalmente nos critrios de beleza, para constarem ou no, nas

    coleces. Segundo nos informam esses relatrios, muitos desses objectos

    que no respondiam aos critrios de seleco eram oferecidos.

    Um outro modo de aquisio do acervo etnogrfico para o Museu levado em

    considerao foi o enquadramento dos melhores escultores na execuo da

    produo artstica exclusiva para o Museu. Nas dcadas 40 e 50 do Sc. XX o

    Museu reorganizou novas campanhas de recolha nas mesmas reas e

    3 - MUSEU DO DUNDU, Relatrio anual de 1943, Dundu, Lunda, Angola. p.3.

    4 - MUSEU DO DUNDU, Relatrio de Fevereiro de 1949, Dundu, Lunda, Angola, p. 5

  • localidades prximas do Dundu, pela necessidade que o Museu se debatia,

    sobre aquilo que os responsveis do Museu consideravam carncia em

    objectos culturais, sobretudo, em esculturas. Os objectos produzidos por

    esses escultores, tinham como objecti