Comemoração do centenário da descoberta do Schistosoma ?· cólera, malária, calazar, sífilis,…

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    Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 41(6):689-691, nov-dez, 2008 FATO HISTRICO/HISTORICAL FACT

    No remoto dia 27 de julho de 1908, a Revista Cientfica Brazil Mdico publicou um artigo de autoria de Manuel Augusto Piraj da Silva, sobre a presena de pacientes com esquistossomose no Brasil. Embora a doena nunca tivesse sido encontrada no pas, a notcia era de se esperar, pois em 1902 a parasitose j havia sido assinalada por Mauren em Antigua, por Letulle em 1903, em Martinica e por Gonzalez-Martinez em 1904, em Porto Rico. A exemplo do que j havia acontecido com outras doenas, devido ao grande comrcio entre frica e Brasil, inclusive intenso trfico de escravos, no sentido da frica para a Amrica, haveria muita probabilidade de, algum dia, ocorrer a importao da esquistossomose pelo Brasil.

    A poca coincidia com grandes avanos no estudo das doenas tropicais. A causa de molstias tradicionais, tidas como de origem desconhecida, como peste, clera, malria, calazar, s f i l is , tuberculose e muitas outras estava sendo esclarecida. Era o advento da poca pasteuriana. Acompanhada do ocaso da teoria dos miasmas, e da gerao espontnea, que veio junto de espetaculares progressos na teraputica especfica das doenas, nas vacinas e no diagnstico imunolgico. Entidades, como a clorose do Egito, a anemia dos trabalhadores em minas ou tneis, a opilao do Brasil, que constituam problemas de difcil soluo foram elucidadas, ao se comprovar serem causadas por anemia, provocada pelos ancilostomdeos que se localizavam no intestino delgado.

    Para estudar os variados tipos de vermes, o jovem Bilharz deixou Friburgo, na Alemanha, para acompanhar o seu antigo Professor Griesinger. Por sugesto de Von Siebold, ele se dedicou ao estudo dos helmintos.

    Realizava duas a trs necrpsias por dia no Hospital Kasr El Aini. No Cairo, o Doutor Theodore Bilharz fez observaes fundamentais e, certamente, a maior delas, foi o descobrimento, em 1851, de um trematdio de sexos separados. Este verme estava associado a extensas leses nos intestinos, causando disenteria. No aparelho urinrio, era o responsvel por calcificaes,

    Comemorao do centenrio da descoberta do Schistosoma mansoni no Brasil

    Aluzio Prata1

    hemorragias, infiltraes celulares, edemas, papilomas, principalmente na bexiga, uretra, bacinete e vescula seminal. No meio das leses encontrou grande nmero de ovos e os descreveu muito bem. Alguns tinham espculo terminal e outros, lateral. Ao novo verme, introduzido no sistema helmintolgico, Bilharz deu uma denominao de origem latina, chamando-o de Distomum, por possuir duas ventosas, haematobium, pelo habitat sangneo e a doena distomase. Posteriormente, Von Siebold e Meckel Von Hemsbach propuseram a denominao Bilharzia. Por fim, prevaleceu o nome genrico de origem grega Schistosoma, sugerido por Weinland, em 1858, por causa da

    fenda no corpo do verme macho, onde se aloja a fmea. Deciso da International Commission on Zoological

    Nomenclature, Opinio 226, suplementar Opinio 77.

    Harley no encontrando vermes eliminando ovos com espculo lateral na frica do Sul, pensou ser o helminto encontrado neste pas diferente do existente no Egito

    e chamou-o Distoma capense. Tambm Sonsino, de certa feita,

    interrogou se o verme eliminando ovos com espculo lateral no seria de espcie diferente.

    Piraj examinando fezes, em 1904, no laboratrio do Hospital Santa Izabel, deparou com ovos com espculo lateral, mas no soube o real significado do achado. Em 1908, voltou a encontrar os

    mesmos ovos, agora j classificados alhures como Schistosomum. Tais ovos tinham espculo terminal e estes, de agora, tinham espculo lateral. Primeiro encontrou um

    verme, na segunda necrpsia que fez, outro e na terceira, isolou 24 vermes, sendo dois casais em cpula. Todos na veia porta.

    Assim, o descobrimento da esquistossomose no Brasil celebrou seu jubileu de ouro em 1958. Houve sesso solene, distribuio de medalhas comemorativas e emisso de selos. O episdio deve ser considerado sob dois aspectos, sendo um deles do ponto de vista de Sade Pblica, pela descoberta no pas de uma endemia grave como a esquistossomose. Na poca talvez no tivssemos meios de avaliar suas propores. Mas, pouco depois, os exames anatomopatolgicos, comearam a definir a magnitude do problema. J na dcada de 1920, as observaes de Heraldo Maciel, realizadas em marinheiros, revelaram a rapidez com que

    1. Professor de Medicina Tropical da Universidade Federal do Tringulo Mineiro.

    Manuel Augusto Piraj da Silva

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    Fato Histrico

    a endemia havia se alastrado. Porm, a quantificao do problema somente ocorreu em 1950, com o inqurito coprolgico nacional em escolares, realizado na Diviso de Organizao Sanitria, por Barca e Pellon. Calculou-se que na poca, j havia cerca de dois milhes e meio de exames de fezes positivos para ovos de Schistosoma mansoni no Brasil. Para 1960, a estimativa era de, pelo menos, seis milhes de esquistossomticos no pas.

    O outro aspecto da descoberta o cientfico e est relacionado ao reconhecimento de uma nova espcie de Schistosoma. exatamente neste sentido que as cuidadosas pesquisas de Piraj da Silva foram fundamentais. Quando Bilharz fez referncia aos dois tipos de ovos, diferenciados pela posio do espculo, embora achasse o fato estranho, ele considerou ambos como pertencentes a mesma espcie e esse engano perdurou por mais de meio sculo. Arthur Looss na ocasio era Professor de Biologia e Parasitologia da Escola de Medicina do Cairo, onde uma ctedra fora criada especialmente para ele. Looss era considerado o maior helmintologista vivo. Famoso por vrios motivos, principalmente por ter elucidado todo o ciclo evolutivo e o modo de transmisso do Ancylostoma duodenale. Quanto esquistossomose, ele participou ativamente da polmica. Achava que havia somente uma espcie de Schistosoma e que os ovos com espculo lateral eram no fecundados. O debate tornou-se acirrado depois que Sambon props que pertenciam outra espcie de verme, para o qual sugeriu, em homenagem a Manson, o nome de Schistosoma mansoni. Dizia Sambon que a diferena no era somente pelo espculo, mas tambm porque os ovos com espculo lateral eram encontrados nas fezes e os com espculo terminal, na urina. Havendo ainda diferenas geogrficas. Posteriormente, Looss mudou sua interpretao sobre os ovos com espculo lateral, considerando-os como ovos partenogenticos. Depois, julgou que eles eram o resultado de toro no ootipo, mudando a posio do espculo que de terminal passaria a ventral. No entanto, Fritsch em 1888, j mostrara que havia alterao anatmica no oviduto dos esquistossomas, entrando no ootipo lateralmente nos casos de produo de ovos com espculo lateral e terminalmente quando o espculo era terminal. No se encontravam os dois tipos de ovos, juntos, no tero da mesma fmea. Todas essas observaes eram importantes, mas no decidiam a questo. Piraj da Silva aprofundou suas observaes com o material obtido na Bahia, publicando seus trabalhos entre 1908 e 1916. Na verdade, at a publicao dos seus trabalhos, no se sabia como separar o Schistosoma haematobium do mansoni. Piraj da Silva mostrou que alm dos ovos, outras caractersticas diferenciais seriam o nmero de massas testiculares, quase o dobro no mansoni, e tambm o ovrio situado na metade anterior do corpo, curta dimenso do tero e extensa distribuio das glndulas vitelognicas nos dois teros posteriores do corpo nas fmeas. Na poca, Piraj da Silva, cauteloso como fazia habitualmente, consultou sobre os seus achados Patrick Manson, Leiper, Blanchard, Letulle, Le Dantec, Henry, Lortet e Rocha Lima.

    Piraj tambm descreveu a cercaria blanchardi, isolada do Planorbis bahiensis (Australorbis glabratus), mostrando pela primeira vez um hospedeiro intermedirio do trematdio. Tais fatos foram posteriormente confirmados por Leiper e Lutz.

    Um dos ancestrais de Piraj da Silva era o portugus Jos Ribeiro da Silva, natural de Vila Nova de Famalico que veio para o Brasil, na poca em que o mesmo se separava de Portugal, e foi residir em Amargosa. Abraou a causa dos brasileiros por simpatia e incorporou em sinal de inteira solidariedade, um nome indgena aos seus de origem ptria: Piraj. Nas lutas pela Independncia do Brasil, houve batalha pela posse da localidade de Piraj. Salvador fica em uma pennsula e Piraj est situada numa elevao na base desta, tendo de um lado as guas do oceano Atlntico e de outro as da Bahia de Todos os Santos. Tem uma posio estratgica em relao entrada de mantimentos em Salvador, pela Estrada das Boiadas, e domina as enseadas embaixo. Jos Ribeiro casou-se com Joana Baptista Dantas de Moraes. Do enlace nasceu Maria Veridiana da Silva Piraj, que se casou com Eduardo Augusto da Silva. Seu primognito foi Manuel Augusto da Silva, que entrou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1891. Matriculado no 1 ano, mudou seu nome, adotando todo o sobrenome materno e passou a se chamar Manoel Augusto Piraj da Silva. Teve excelente formao humanstica. Quando estudante, aprendeu alemo com o professor Weber e violino com o professor Trautleuf.

    Logo depois de formado em medicina, foi atrado pela Amaznia, como aconteceu com outros seus conterrneos. Mas, aps trs meses, estava de volta Bahia.

    Em 1908, ele foi para a Europa, levando consigo o abundante material que havia selecionado para suas pesquisas sobre esquistossomose. Fez sua base na Faculdade de Medicina de Paris com o professor Blanchard. Este o apresentou ao professor Lettulle em cujo Servio completou sua investigao sobre esquistossomose e lhe auxiliou na parte histopatolgica. Em Paris, ele fez curso no Instituto Pasteur e no Instituto para Medicina Colonial. Neste, ele obteve uma medalha de Ouro e o ttulo de major, com permisso para praticar medicina nas colnias francesas. Da Frana, ele foi a Hamburgo, fazendo estgio no Tropeninstitut. Em Hamburgo, ele encontrou Henrique da Rocha Lima que tinha projeo elevada no Instituto, e com quem estreitou sua amizade. Tambm em Hamburgo, soube por Von Prowazeck da grande descoberta de Carlos Chagas. Ao regressar a Salvador, em Mata de So Joo, Parafuso e Candeias, encontrou triatomneos infectados pelo Trypanosoma cruzi, e com Brumpt inocularam camundongos. Assim, tiveram idia de como a doena havia se alastrado.

    Em 1911, ele foi solicitado pelo Comit que escolheria candidatos ao Prmio Nobel em 1912 e indicou Carlos Chagas (conforme publicado pelo Jornal de Notcias na Bahia, em 03/02/1913).

    O doutor Piraj da Silva tinha especial pendor para o estudo das doenas tropicais. Antes de tudo era um naturalista. Tinha gosto pelas Cincias Naturais. Em 1902, ele tornou-se assistente de Medicina na Ctedra do Prof. Ansio Circundes de Carvalho. Este tinha voltado de uma visita Frana e Inglaterra, entusiasmado com os Institutos de Medicina Tropical que havia visitado em Paris, Londres e Liverpool, verdadeiras escolas especializadas em Medicina Tropical. O Prof. Ansio lhe aconselhou a se dedicar aos exames laboratoriais para esclarecimento do diagnstico das doenas tropicais. E assim o fez, montando seu pequeno

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    Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 41(6):689-691, nov-dez, 2008

    laboratrio no Hospital Santa Izabel, em Salvador, Bahia em conexo com a Primeira Cadeira de Medicina Interna.

    Ao voltar Bahia, estudou uma epidemia que grassava em Salvador, chamada de boto de Brotas e verificou que o agente etiolgico era a mesma leishmania que produzia a chamada lcera de Bauru. Antes, j havia se interessado por uma epidemia de meningite crebro-espinhal epidmica e pela sfilis. Estudou tambm casos de amebase, miases, ofidismo, casos de paracoccidioidomicose, p de madura e uma epidemia causada pelo inseto caustico e vesicante conhecido por pot (Paederus columbimis). Na Bahia, em 1911, fez estudos tambm sobre o Phlebotomus intermedius.

    Depois de assumir a ctedra de Parasitologia na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1911, Piraj pela segunda vez voltou a freqentar o Laboratrio de Blanchard em Paris. Tambm cursou de novo o Tropeninstitut de Hamburgo.

    Aps tratar das pesquisas sobre a esquistossomose, principal objetivo desta reunio, seria de interesse, em nossa apresentao, falar um pouco sobre o principal protagonista desta noite: o doutor Piraj da Silva. Inclusive para completar as informaes sobre sua formao, atividades mdicas, e assuntos correlatos, como professor e cidado. Ele gostava de seu pas, de sua gente e da sua Faculdade de Medicina da Bahia. Era um patriota. Reimprimiu s suas custas a publicao do major-cirurgio Bernardino Ferreira da Nbrega Memria Histrica sobre as Vitrias alcanadas pelos Itaparicanos quando o Brasil Proclamou a sua Independncia.

    Quando tomou conhecimento da obra de Carlos Frederico Philippe Von Martius, sobre Natureza, Doenas, Medicina e Remdios dos ndios Brasileiros, Piraj achou que o livro no teve a devida repercusso. Von Martius era etngrafo e famoso naturalista. Decidiu comentar o livro e com o auxlio de Paul Wolf fazer a traduo do alemo para o portugus.

    Trabalho muito maior teve Piraj com os comentrios sobre o livro Notcias do Brasil, escrito por Gabriel Soares de Sousa, em 1587. Este era um portugus, senhor de engenho no Jaguaribe e Jequiri. Segundo Pandi Calgeras, o livro de Gabriel Soares uma das mais notveis obras da mentalidade portuguesa no sculo XVI. Trata a um tempo, em relao ao Brasil, de geografia, histria, topografia, hidrografia, agricultura, horticultura, matria mdica indgena, das madeiras de construo e marcenaria, da zoologia em todos os seus ramos, de economia administrativa e at de mineralogia. Gabriel Soares descreveu magistralmente toda a flora e fauna brasilera. Piraj da Silva identificou, cientificamente, as magistrais descries de Gabriel

    Soares, de acorso com o sistema de nomenclatura de Lineu. Todos os acidentes topogrficos e a etnologia foram interpretados e localizados. A velha toponomia foi comparada com a atual. As anotaes de Piraj so mais extensas do que o texto do livro.

    Eu no convivi com Piraj. Quando cheguei Bahia, ele j no mais vivia aqui. Mas seus trabalhos foram fonte de inspirao e de estmulo para todos ns e suas pesquisas seguiram nossa melhor tradio de estudar nossas endemias no ambiente onde existiam. Participei de uma reunio em So Paulo, com 35 pesquisadores em 1952, na qual ele compareceu, como homenageado.

    Piraj da Silva teve dois bigrafos, ambos mdicos: Itazil Bencio dos Santos e Edgard de Cerqueira Falco.

    Edgard de Cerqueira Falco foi aluno de Piraj, o admirava muito e tornou-se seu amigo desde 1925. Republicou quase todos os trabalhos de Piraj e sempre se empenhou no reconhecimento de suas realizaes, pois acreditava que no lhe era dado o devido crdito. Achava-o trabalhador, honesto, modesto, grande pesquisador e que via as coisas sem interesse material.

    Piraj e Falco tinham interesse comum na divulgao de obras de importncia relacionadas a assuntos histricos e artsticos, principalmente quando envolvia a Bahia, terra natal de ambos. Geralmente eram documentos de difcil acesso.

    Falco publicou vrios livros e, em muitos deles, teve a cooperao de Piraj, que lhe fornec...