caminho do dragão

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O não-atingimento do estágio de sonho lúcido pode contar como fonte inúmeros fatores, estes altamente subjetivos. Tentarei, entretanto, ajudá-lo em palavras gerais de acordo com a linha de tradição na qual fui iniciado. O sonho normal e o sonho lúcido se encontram em uma plataforma suspensa sobre o senso comum de realidade, onde a concordância (Agreement) é completamente suprimida. O Sonhar, em seu primeiro estágio, compreendendo aqui tanto os sonhos normal e lúcido, é caracterizado justamente pela ausência de concordância. O domínio do Sonhar, com efeito, é o Lado Noturno (Nightside) -- onde não há certeza, ceticismo ou razão; apenas aceitação, experiência direta e magia. O movimento que leva do sonho normal ao sonho lúcido compreende a ação positiva em dois planos, enquanto a concordância está suspensa: o plano do controle (Control) e da consiência (Awareness). Cruzando a rota deste movimento, entretanto, há um estágio intermediário a ser atingido: o sonho de poder (Power Dreaming) -- em oposição à sua contraparte, o sonho sem poder (Powerless Dreaming). No Caminho do Dragão, Aquele Que pretende atingir o sonho lúcido trabalha em uma ordem estabelecida: primeiro busca trazer controle, depois consciência. Ou seja: primeiro busca preencher sua experiência com o poder, para apenas depois buscar atingir a consciência no domínio de sua experiência. Isso implica em uma importante conclusão: no Caminho draconiano, busca-se primeiramente aprimorar a experiência do Sonhar em todos os seus aspectos, para então, e somente então, atingir o sonho lúcido pela consciência nesse sonho de poder já estabelecido. Fazer o contrário, ou seja, privilegiar primeiro a consciência num sonho sem poder para então dar atenção ao plano do controle, é igualmente (hipoteticamente) possível, mas não concordante com o Caminho do Dragão -- assim, também, não harmonioso em relação ao sistema de treinamento do vampirismo como um todo.

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Page 1: Caminho do Dragão

O não-atingimento do estágio de sonho lúcido pode contar como fonte inúmeros fatores, estes altamente subjetivos. Tentarei, entretanto, ajudá-lo em palavras gerais de acordo com a linha de tradição na qual fui iniciado.

O sonho normal e o sonho lúcido se encontram em uma plataforma suspensa sobre o senso comum de realidade, onde a concordância (Agreement) é completamente suprimida. O Sonhar, em seu primeiro estágio, compreendendo aqui tanto os sonhos normal e lúcido, é caracterizado justamente pela ausência de concordância. O domínio do Sonhar, com efeito, é o Lado Noturno (Nightside) -- onde não há certeza, ceticismo ou razão; apenas aceitação, experiência direta e magia.

O movimento que leva do sonho normal ao sonho lúcido compreende a ação positiva em dois planos, enquanto a concordância está suspensa: o plano do controle (Control) e da consiência (Awareness). Cruzando a rota deste movimento, entretanto, há um estágio intermediário a ser atingido: o sonho de poder (Power Dreaming) -- em oposição à sua contraparte, o sonho sem poder (Powerless Dreaming).

No Caminho do Dragão, Aquele Que pretende atingir o sonho lúcido trabalha em uma ordem estabelecida: primeiro busca trazer controle, depois consciência. Ou seja: primeiro busca preencher sua experiência com o poder, para apenas depois buscar atingir a consciência no domínio de sua experiência. Isso implica em uma importante conclusão: no Caminho draconiano, busca-se primeiramente aprimorar a experiência do Sonhar em todos os seus aspectos, para então, e somente então, atingir o sonho lúcido pela consciência nesse sonho de poder já estabelecido. Fazer o contrário, ou seja, privilegiar primeiro a consciência num sonho sem poder para então dar atenção ao plano do controle, é igualmente (hipoteticamente) possível, mas não concordante com o Caminho do Dragão -- assim, também, não harmonioso em relação ao sistema de treinamento do vampirismo como um todo.

Para que se atinja o sonho de poder, destarte, é necessário que se leve a experiência do sonho ao extremo. Como? Existem diversos métodos. Dentre eles: otimize seu aproveitamento das noites de sono, mantendo uma prática saudável de repouso; fortaleça a memória dos sonhos, através de um diário de sonhos (melhor solução) e/ou de auto-sugestões ("Meus sonhos são intensos e eu consigo lembrá-los facilmente", por exemplo); estimule experiências de sonho mais vívidas através de complementos nutricionais como, por exemplo, uma alimentação diária rica em vitamina B6.

Sendo bem sucedido nesse primeiro objetivo, você trará a noite ao dia. Você perceberá que a realidade do sonho pode ser tão vívida quanto a formal. Perceberá igualmente com mais

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clareza, ao seu tempo, como as duas experiências são lados (sides) da mesma moeda (o Sonhar).

Feito isso, o caminhar para o sonho lúcido não será difícil. A falta de consciência no sonho não é nada mais que fenômeno provocado pela ilusão da falta de controle. Da mesma forma como, em tese, controlamos a experiência de nossa realidade formal, também podemos ter o controle da outra caso quebremos o muro ilusório que separa os dois lados.

Um alerta, no entanto: na sua vivência do Lado Noturno, dê a César o que é de César. Não infecte a experiência do Nightside com suposições próprias de seu irmão, o Dayside. Isso significa que tentar racionalizar a experiência ou se preocupar com nexos causais só trarão efeitos negativos (como a tão temida, pelos magistas do caos, expectativa de resultado). Aprenda a vivenciá-la em sua inteira dignidade.

Muitos dos conceitos aqui trabalhados fazem parte da doutrina transmitida pela bíblia dos adeptos. Caso um dia tenha a oportunidade de tê-la em mãos, não esqueça de reportar-se novamente a este e-mail.

A Comunhão por si só nunca foi um método empregado para a obtenção de poderes mágicos no Vampirismo. É, entretanto, um poderoso catalisador. Desta forma, a ajuda dos mortos-vivos irá servir muito para desenvolver aceleradamente os poderes que você já estiver buscando desenvolver, mas nunca será por si só um agente para transformação. Você é o agente; eles servirão apenas como um instrumento auxiliar.

Já sobre sonhos lúcidos, projeção astral e relativos, vale lembrar algo pequeno, mas crucial na compreensão do sistema mágico do vampirismo: toda a base simbólica da magia draconiana se baseia na dualidade Sonho/Realidade, Dayside/Nightside. Não existe, a priori, intermediário. Apenas dois estados que devem se fundir em um só ("Twilight").

Com efeito, não busque diferenciar, como os sistemas mágicos da tradição oculta ocidental, o sonho lúcido da projeção astral. Eles são, em essência, a mesma coisa, estando regidos também pelas mesmas leis.

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Para pôr em termos simples: seu objetivo será desenvolver suas habilidades no Sonho, buscando, como meta final, Acordar no Sonho. Não direi nada além.

O Shurpu Kishpu é a base de toda a magia vampírica. Leia atentamente seus sutras, não se contentando apenas com a explicação dada. Esta só serve como distração, embora nem por isso deixe de ter utilidade.

Siga as orientações da bíblia e memorize-os. Caso possa fazê-lo em inglês, melhor ainda. Lembrar é a chave da obtenção de muitos poderes nesse ponto.

Infelizmente não disponho de nenhuma bíblia em formato digital. Ainda que morássemos perto, minhas ações ainda estão sob a força de meus juramentos. Minhas palavras, entretanto, não. Na medida do possível, poderei auxiliá-lo em sua busca.

Sonho e Realidade é a chave.

Olhe para um espelho, feche os olhos e depois abra-os se colocando no lugar de sua imagem.

Qual deles é real?

I am thee and thou art Me.

Yea, even My Symbol is the Mirror!

And know well My Name for by honoring It in all thy Actions

thou wilt Be and remain worthy of

My Dragon Magic.

A Bíblia Vampírica é um documento preciosamente escrito e rico em parábolas. A forma como ele foi escrito, além de seu conteúdo, tem uma razão de existir. Especialmente pela razão de ser o intróito de toda a praxis da ToV, sua existência é mais que introdutória - é um teste.

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TUDO que a ToV escreve pode ser interpretado sob, ao menos, três pontos de vistas diferentes: como pura fábula, literalmente e de forma inteligente. Destes meios, apenas o último dará àquele que lê a chave para a verdadeira prática do vampirismo tal como a ToV ensina. Isso traduz outro aforismo de grande uso por seus membros: Within lies fact and fancy, truth and metaphor. Discriminate with care. - Aqui permanece fato e fantasia, verdade e metáfora. Discrimine com cuidado. (tradução livre)

A ToV é uma organização essencialmente elitista. Seus membros são minuciosamente testados e seus respectivos progressos acompanhados. O fato de muitos interpretarem seu funcionamento como um RPG vivo não é nada mais que fato premeditado: é intenção da ToV que isso aconteça. Apenas com isso, muitos indevidos acabam tirando suas cartas do jogo - salvando assim a Tradição.

Existem aqueles dentro da ToV, naturalmente, que ainda portando alto grau dentro de sua hierarquia não condizem, em prática e entendimento, com seu status declarado. Até isso, entretanto, é vantajoso. Aqueles que não entendem os ensinamentos da ToV estarão fadados a viverem uma vida inteira acreditando que a drenagem será seu único meio de existência após a "primeira morte", com a convicção que, enquanto esta não vem, sua obrigação é alimentar aos Deuses Mortos-Vivos (Aqueles Que passaram pela "primeira morte").

Desta forma, podem os membros incautos viverem felizes com suas honrarias e status, os Mortos-Vivos com sua legião de escravos e aqueles mais inteligentes como depositários de uma tradição única - todos devidamente satisfeitos. Esta é a sabedoria da organização adotada pelo Temple of the Vampire.

Já sobre seus ensinamentos, resta alguns comentários:

O Vampiro é um Predador de Humanos. A função do Vampirismo, segundo a Tradição resguardada pela ToV, é se utilizar do contingente humano para fins de alimentação. Alimentação. Porém, nada de canibalismo. Existem formas mais sutis de alimentação, e aqui não se trata apenas de força-vital. Reconhecimento, liderança, dominação - são todos exemplos de alimentação na visão do Predador. Através disso poderá o Vampiro gozar de uma confortável existência neste e em outros planos, seja através dos benefícios materiais imediatos oferecidos por tais práticas como seus reflexos espirituais, abordados com detalhes pela Tradição.

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Após esta vida física, nos sobra apenas o corpo astral. Antes alimentado pelos processos físicos (sim, a ToV não compartilha a visão do vampiro frágil e sedento energeticamente), sua função agora será manter seu corpo astral - sede de sua consciência - vivo, como chave para sua imortalidade. Isto não apenas por esforço próprio. Conforme comentei, até mesmo os membros incautos servem Àqueles Que Ascenderam voluntariamente.

Na ToV não há espaço para especulações metafísicas sobre o papel de indivíduo num suposto esquema de evolução, tampouco se preocupa com suposições sobre a positividade ou negatividade de determinados atos - coisa geralmente fundada em valores e preconceitos. Para a filosofia da ToV, há apenas sobrevivência. O humano e o vampiro como duas meras particulas no vasto jogo da vida sobre o gigantesco tabuleiro do Universo.

Existência é a Lei Mais Alta. Assim, buscaremos o melhor dela agora e para sempre.