A Profissionalização Docente - Boing

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profisso docente

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  • A Profissionalizao Docente

    Luiz Alberto Boing

    BOING, Luiz Alberto. "A Profissionalizao Docente". in CENTRO PEDAGGICO PEDRO ARRUPE. www.pedroarrupe.com.br.

    VIII Jornada Pedaggica do Grupo Escolas Rio,

    Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2002.

    Tento reunir, a seguir, trs temas em torno da profissionalizao docente. Partindo

    do trabalho dos professores na sociedade do conhecimento, discuto a negociao

    profissional que acontece na passagem de uma identidade a uma socializao profissionais.

    1. O Trabalho dos Professores

    A sociedade do conhecimento o ponto em torno do qual giram as anlises de

    Hargreaves1 sobre o trabalho dos professores, o ensino. O termo sociedade do

    conhecimento, segundo ele, foi cunhado por Daniel Bell em 1973. Para Hargreaves, o

    professor est no centro de um tringulo onde, de um lado, encontramos o ensino para a

    sociedade do conhecimento, de outro o ensino para alm da sociedade do conhecimento e,

    num terceiro lado, o ensino apesar da sociedade do conhecimento. Ao mesmo tempo em

    que o professor deve estar preparado para ensinar no novo paradigma, o seu trabalho deve

    procurar superar o modelo, resistir aos seus abusos e denunciar as suas incoerncias,

    ampliando os horizontes dos estudantes, como sempre foi a funo da escola.

    O ensino no entendido, ento, como mera transmisso de conhecimentos, mas

    como uma sntese de saberes que o professor utiliza no seu trabalho profissional.

    Os saberes docentes so objeto relativamente recente na pesquisa educacional.

    Segundo Tardif 2 , at a dcada de 1980 se percebem duas fases nos estudos educacionais:

    uma em que predominavam os enfoques psicolgicos e psicopedaggicos (dcadas de 40 e

    50) e outra marcadamente sociolgica (dcadas de 60 e 70). Em ambas o trabalho do

    professor aparecia de forma secundria. Na primeira o centro era o aluno, sendo o professor

    1 Anotaes sobre a palestra do autor nos Encontros Instigantes, seo internacional, no dia 11 de outubro de

    2001, no Rio de Janeiro. 2 A respeito do saber docente, sempre que eu citar Tardif sem aluso data de publicao estarei me referindo a

    textos inditos ou colocaes suas no curso Profissionalizao no Magistrio e Saber Docente, disciplina

    lecionada em parceria com Menga Ldke, na PUC/RJ, no primeiro semestre de 2000.

  • 2

    visto apenas como mais uma varivel a influenciar a aprendizagem. Nessa poca, as

    pesquisas behavioristas tinham grande preocupao em definir o efeito docente sobre a

    aprendizagem dos alunos. So pesquisas em torno de uma lgica processo-produto, onde o

    professor quase nunca era estudado, com exceo de alguns casos onde o comportamento

    dos professores estava ligado eficcia da aprendizagem. Nas dcadas de sessenta e

    setenta os estudos se generalizaram para questes mais amplas de projetos de sociedade,

    mas com a manuteno do tipo processo-produto. Foram dcadas de grandes denncias do

    papel reprodutivista dos professores em relao s desigualdades sociais. Nesta fase o

    enfoque recaiu sobre o sistema educacional. No entanto, colocou em crise a funo social

    dos professores. Tal questionamento foi importante para a rea da educao porque

    proporcionou uma nova fase de pesquisa em que o professor passou a ser objeto central de

    vrios estudos. Para Tardif, um grande passo se deu nas dcadas de oitenta e noventa,

    quando o movimento de profissionalizao do magistrio comeou a levantar um repertrio

    de conhecimentos profissionais para o ensino. A partir da perspectiva da profissionalizao

    a pesquisa do que chamamos saber docente passou a se multiplicar e o professor e sua

    formao ganharam cada vez mais crdito como via de transformao da escola.

    Uma amostra da importncia do saber docente para a pesquisa atual em educao

    o esforo da American Educational Research Association (AERA) em elaborar seus

    Handbooks, obras volumosas que tentam reunir as tendncias da pesquisa educacional no

    mundo inteiro. Publicados num intervalo de mais ou menos uma dcada, corre a notcia de

    que o 4 volume, que est sendo elaborado, ter uma parte inteiramente dedicada

    pesquisa do professor (teacher research).

    Se no movimento de profissionalizao no magistrio, que colocou em questo os

    saberes docentes, encontramos a medicina como referncia de profisso, muito

    antes do enfrentamento do problema como uma possibilidade cientfica

    encontramos este tipo de associao da profisso docente com a medicina. Em

    um texto de 1957, Cincia e Arte de Educar, disponibilizado na internet na

    Biblioteca Virtual Ansio Teixeira, este educador brasileiro, que esteve frente

    do Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (INEP), afirma que a educao e a

    medicina so artes. Com isto que dizer que uma rea muito mais complexa e

    completa que as demais reas do conhecimento cientfico. O texto segue

    mostrando como poderiam se tornar cientficos aqueles conhecimentos

    artsticos. Para ele a arte consiste em fazer coisas. Modalidades de fazer

    implicam conhecimento da matria, mtodo operacional e estilo pessoal. Diz

    que a personalidade do artista muitas vezes nos faz achar que tudo o que

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    importa, mas no . O estudo de tcnicas e a necessidade de um contedo

    cientfico so necessrios a uma obra prima. Na educao tambm preciso

    estudar as prticas do professor a partir de mtodos cientficos para superar o

    mero empirismo. Ansio deixa claro, em seu texto, que no sua inteno criar

    uma cincia da educao propriamente dita, mas de condies cientficas ao

    trabalho educativo.

    Um trabalho histrico para a abordagem do saber docente no Brasil foi publicado na

    revista Teoria & Educao n 4, de 1991, por Tardif, Lessard e Lahaye. Para os autores o

    saber docente considerado um saber plural, estratgico e desvalorizado. Os saberes

    docentes so um amlgama de saberes da formao profissional inicial, saberes das

    disciplinas, saberes curriculares e saberes da prpria experincia, tanto profissional quanto

    de vida. Em todos estes saberes podemos perceber uma cultura de aproximao da teoria

    com a prtica. Na formao profissional inicial sempre h uma preocupao com os estgios

    docentes. No so uma prtica real, mas so capazes de mobilizar saberes pedaggicos j

    sistematizados a partir de representaes da prtica educativa. Neste aspecto a escola nova

    contribuiu bastante com algumas formas de saber fazer, com a didtica e certas tcnicas de

    sala de aula. Ao mesmo tempo, os saberes docentes dizem respeito s disciplinas, embora

    no se confundam com os conhecimentos cientficos de cada rea. Uma coisa o

    conhecimento matemtico enquanto cincia, outra saber ensinar matemtica. Tais

    saberes das disciplinas transformam-se em saberes curriculares quando encaixados na

    proposta pedaggica da escola. O professor vai aprendendo, com o exerccio do magistrio,

    a dialogar com a instituio onde trabalha, seu projeto educativo, seu discurso, suas prticas

    explcitas ou tcitas e seus mtodos particulares. Por ltimo entram os saberes da

    experincia ou da prtica, como um saber fazer e um saber ser. Com o tempo o professor

    no s aprende a integrar e mobilizar os saberes de sua experincia como tambm vai

    aprendendo a profisso, vai sendo cada vez mais um profissional.

    Tratando do aspecto estratgico e da desvalorizao do saber docente, os autores

    acima concluem que esta relao , no mnimo, ambgua. Ao mesmo tempo em que se

    evidencia a importncia do saber docente na sociedade da informao, percebe-se que a

    profisso de professor no tem o mesmo prestgio social. O magistrio parece no estar

    acompanhando o status do seu prprio conhecimento. Os autores apontam cinco elementos

    explicativos desta ambigidade.

    Primeiro, por uma diviso social do trabalho. Do ponto de vista histrico, nas

    sociedades ocidentais pr-modernas a comunidade erudita assumia integralmente a

    formao das elites. Com a modernidade os conhecimentos foram se especializando e foi

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    surgindo uma diviso intelectual do trabalho, onde as universidades e a comunidade

    cientfica foram assumindo preponderantemente a funo de pesquisa e o corpo docente a

    parte de formao, ficando sempre mais distante das instncias de produo do saber.

    Segundo, por causa da relao moderna entre saber e formao. At a idade

    moderna existiam saberes mestres, como o caso da filosofia e teologia crists, que

    garantiam toda a racionalidade necessria na poca. A modernidade desestabilizou estes

    conhecimentos. Deixaram de existir os saberes-mestres. Para os professores saber alguma

    coisa j no era suficiente para garantir o domnio de sua rea. Era preciso saber ensinar

    determinados conhecimentos. Para o ensino nenhum conhecimento passou a ter valor em si

    mesmo. Houve uma mudana de natureza dos contedos e isto se refletiu no prestgio dos

    mestres: ela se deslocou dos saberes em si para procedimentos de transmisso dos

    mesmos.

    Terceiro, o aparecimento das cincias da educao e a transformao do discurso

    pedaggico a partir da. Dois fenmenos simultneos podem ser observados sob este

    enfoque: a influncia da psicologia na formao dos professores e as novas relaes entre

    professor e aluno na escola. De outro lado, se percebe a contribuio da psicologia para o

    desenvolvimento da educao enquanto cincia. Mas tal influncia foi to forte que passou a

    ser a referncia para a prpria pedagogia. Esta perdeu progressivamente a sua viso mais

    completa pela substituio paulatina de sub-domnios especializados e cada vez mais

    autnomos. A formao dos professores perde em sua integralidade e generalidade com a

    crescente cientificizao da rea. A pedagogia foi se dividindo e se especializando medida

    que crescia a racionalizao do campo. Neste processo a produo dos saberes

    pedaggicos foi ficando restrita a um grupo de especialistas ligado universidade cada vez

    mais distante da prtica docente, ocorrendo o mesmo fenmeno de diviso intelectual do

    trabalho presenciado nas demais cincias, como vimos acima. Alm do mais, a prtica

    docente passou a seguir modelos de interveno tcnica, metodolgica e profissional,

    acirrando ainda mais a diviso, ficando o corpo docente mais associado s tarefas de

    execuo e aplicao dos saberes pedaggicos. De outro lado, o desenvolvimento das

    cincias da educao mudou a viso sobre a relao entre professor e aluno. As correntes

    pedaggicas que mais marcaram a existncia da pedagogia como cincia tiveram algo em

    comum: a colocao do aluno no centro de gravidade da escola. Vemos progressivamente o

    professor e seus saberes deixar de ser o centro da pedagogia para dar lugar criana. A

    nfase sai do ensino para se concentrar na aprendizagem. O ato de aprender torna-se mais

    importante que o ato de ensinar, o que leva o saber docente para um segundo plano.

    Quarto, pelo tipo de consolidao das instituies escolares na modernidade. Nos

    sculos XIX e XX a educao passou a ser um problema pblico e campo de ao social do

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    Estado. Seguindo o modelo das fbricas, os sistemas escolares passaram a ser concebidos

    como instituies de massa. A democratizao do acesso escola traduziu-se na

    necessidade de uma formao rpida do corpo docente e de especialistas escolares. De

    repente a educao foi lanada no bojo das questes polticas. As instituies privadas de

    formao de professores, basicamente as religiosas, e sua ideologia de vocao foram

    sendo substitudas por instituies pblicas e por uma ideologia de carter profissional. Em

    relao aos professores, cresceu a influncia dos sindicatos, a partir dos quais o corpo

    docente aproveitou para formular vrias demandas de melhoria das condies de trabalho.

    Tudo isso alterou muito pouco o prestgio dos professores: corpo da Igreja ou do Estado, os

    docentes continuaram sendo vistos como um corpo de executores. Nos ltimos anos se

    percebem algumas diferenciaes dentro dos profissionais que trabalham na escola que

    contribuem para a manuteno dos desprestgio da profisso docente: o surgimento de

    especialidades como a psicopedagogia e a orientao escolar, por exemplo. O professor

    perdeu terreno no conjunto de seus saberes na medida em que a escola passou a incluir

    toda e qualquer criana, combatendo toda forma de excluso, e a acolher a diversidade

    cultural tpica da ps-modernidade. O saber docente ficou pulverizado e, em muito casos,

    refm de especialidades, perdendo o seu significado mais amplo de formao, quando no

    se reduzindo mera transmisso de conhecimentos.

    Finalmente, uma quinta explicao da ambigidade existente entre a desvalorizao

    do saber docente e sua importncia estratgica na sociedade do conhecimento apontada

    por Tardif, Lessard e Lahaye: a desconfiana dos diversos grupos sociais em relao aos

    saberes transmitidos pela escola. Este processo vem acontecendo a partir dos anos oitenta

    em quase todos os pases industrializados, espalhando-se para os demais rapidamente.

    Constatou-se que, no havendo uma correspondncia entre os saberes escolares e aqueles

    necessrios ao mercado de trabalho, alguns saberes foram simplesmente considerados

    inteis para a sociedade, enquanto que outros, aqueles que garantiam o acesso ao mercado

    de trabalho, passaram a ser mais valorizados. Isto transformou a escola numa arena de

    negociao onde os consumidores dos saberes escolares passaram a determinar de fora o

    que o professor deveria lecionar. A presso de fora valorizou determinados saberes em

    detrimento de outros e forou os professores a no apenas formar indivduos, mas em

    instrumentaliz-los para enfrentar a concorrncia do mercado de trabalho.

    Um derradeiro aspecto sobre os saberes docentes que eu gostaria de considerar a

    sua dimenso axiolgica. O professor trabalha com duas dimenses do conhecimento: os

    fenmenos da natureza e os atores que conhecem. Se no primeiro aspecto predomina a

    objetividade cientfica, o segundo est centrado na construo da subjetividade. Esta

    segunda dimenso, malgrado todas as foras redutoras dos saberes docentes mera

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    transmisso de conhecimentos teis ao mercado e apesar das tendncias de

    profissionalizao do ensino, sempre permaneceu associada ao educativa. No apenas

    por causa das relaes subjetivas que envolvem o trabalho docente, mas tambm porque

    toda ao educativa uma ao humana, a partir de Sacristn (1999), o saber docente

    eminentemente valorativo. Toda a intencionalidade educativa uma habilidade moral dos

    prprios docentes.

    Perrenoud, em vrios trabalhos, cunhou uma frase que ficou famosa e que mostra

    claramente a intencionalidade do trabalho docente: o professor tem que agir na urgncia e

    decidir na incerteza. Intencionalidade e imprevisibilidade esto presentes nesta idia. Se os

    planejamentos pedaggicos dos professores no lhe garantem a certeza de realizao de

    sua intencionalidade, certo que estes vm marcados por escolhas que envolvem muitas

    variveis, vindo desde a presso externa do mercado, passando pela proposta pedaggica

    do estabelecimento de ensino onde trabalha e indo por suas experincias de vida pessoal e

    profissional.

    Resgatando o sentido decisrio que Perrenoud d aos saberes docentes, Tardif e

    Gauthier (2001) utilizam a metfora da jurisprudncia. Ultrapassam a dimenso

    marcadamente moral...

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