a dimensão estética do jogo na filosofia de f. nietzsche* .interpretação do mundo, da vida e

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  • 49cadernos Nietzsche 28, 2011 |

    A dimenso esttica do jogo na filosofia de F. Nietzsche*

    Luis Enrique de Santiago Guervs**

    Resumo: Com a categoria jogo, Nietzsche introduz uma nova lingua-gem, que permite pensar para alm da metafsica. A interpretao do mundo, da vida e da existncia como jogo a resposta a uma concepo de mundo em que a finalidade e a verdade no tm lugar. Este artigo analisa em diferentes contextos a categoria de jogo: em sua metafsica do artista, a partir da filosofia de Herclito, do paradigma da criana que jogo, dos ensinamentos de Zaratustra.Palavras-chave: jogo agn artista criana.

    Desde seus primeiros escritos, especialmente no contexto de sua metafsica de artista, Nietzsche comea a articular suas ideias adotando, como referncia, a misteriosa dimenso do jogo. Trata-se de uma ideia presente nos momentos principais do desenrolar de seu pensamento e talvez seja um desses elementos que, de manei-ra velada, oculta-se sob formas e figuras distintas, a fim de dizer de outra maneira o vir-a-ser, a vida ligeira, a arte; ou, em outras palavras, para pensar para alm da metafsica. por isso que cer-tos estudiosos de Nietzsche se fixaram de modo especial no papel central que o jogo desempenha tanto para expressar suas ideias estticas quanto para pr em relevo seus pensamentos mais ocultos.

    * Traduo de Vinicius de Andrade.** Professor da Universidade de Mlaga, Espanha, e membro do SEDEN (Sociedade

    espanhola de Estudos sobre Nietzsche).

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    Alguns crem que a reflexo de Nietzsche sobre a essncia da filo-sofia como jogo tem todos os ingredientes de uma metafilosofia1; outros, como Masini, pensam que ele uma imagem decisiva para compreender a crtica ao conceito schopenhaueriano de vontade2. Djuric, por sua vez, considera o jogo como uma de suas ideias centrais e fundamentais, pois com ela, talvez o filsofo tenha realmente transcendido todos os limites da metafsica, e o jogo , ao mesmo tempo, a ponte que une sua crtica filosofia prtica com suas intuies estticas3. Thierry Lenain, para quem Nietzsche inaugura a tradio da razo ldica, cr que a ideia do jogo marca a origem e o fim da histria do pensamento, e que o que Nietzsche pretende recuperar esta palavra em sua origem, ao trmino de uma histria da qual ele se considera como o ponto final4. Porm, entre todos os estudiosos da obra de Nietzsche, aquele que tratou do tema com mais profundidade, Eugen Fink, vai mais longe e pensa que a ideia de jogo constitui a ideia central de sua filosofia, e

    1 AICHELE, A. Philosophie als Spiel. Berlim: Akademie Verlag, 2000, p. 12. Sobre o tema do jogo, cf., entre outros, os estudos tericos de: HEIDEMMAN, I. Das Begriff des Spieles. Berlim: Walter de Gruyter, 1968; FINK, E. Spiel als Weltsymbol, Stuttgart: Kohlhammer, 1960 e Oasis de felicidad. Pensamiento para una ontologa del juego. Mxico: UNAM, 1966; LENAIN, T. Pour une critique de la raison ludique. Essai sur la problmatique Nietzschenne. Paris: Vrin, 1993; SAVIANI, L. Ermeneutica del gioco. Npoles: Edizioni Scientifiche Italiane, 1998; SPARIOSU, M.I. Dionysus Reborn. Play and the Aesthetic Dimension in Modern Philosophical and Scientific Discourse. Londres: Cornell University Press, 1989; BEHLER, E. Nietzsche und die romantische Metapher von der Kunst als Spiel In: BATTS, M.S. e outros (Orgs.). Echoes and influences of German Romanticism. Frankfurt/Meno: Peter Lang, 1987, pp. 11-29. Para uma viso mais completa do tema no marco da filosofia da arte de Nietzsche, cf. meu livro, no prelo: Arte y poder. Aproximacin a la esttica de F. Nietzsche. Madrid: Trotta, 2003.

    2 Cf. MASINI, F. Lo scriba del caos. Interpretatione di Nietzsche. Bolonia: Il Mulino, 1978, p. 75.

    3 DJURIC, M. Nietzsche und die Metaphysik. Berlim: Walter de Gruyter, 1985, p. 152. 4 P. Lenain, op. cit., pp. 17-18.

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    que, desse modo, pensando contra Heidegger, Nietzsche se situa verdadeiramente fora da metafsica5, pois mediante a introduo do jogo em sua filosofia, ele teria se emancipado do pensamento de Schopenhauer e expressaria uma nova concepo do ser.

    Esses testemunhos parecem nos indicar que Nietzsche se ser-ve da figura do jogo, porque ela constitui a forma suprema e mais valiosa da relao do homem com o mundo, e nele possvel ver o modelo de uma atividade humana verdadeiramente livre e inocente. De maneira explcita, o filsofo faz do jogo um referente exemplar para a atividade humana criadora e artstica, ao afirmar, por exem-plo, em Ecce Homo: No conheo nenhum outro modo de tratar com grandes tarefas, a no ser o jogo: isso, como sinal de grandeza, um pressuposto essencial (EH/EH, Por que sou to esperto, 10, KSA 6.297. Traduo de Rubens Rodrigues Torres Filho). E essas grandes tarefas para as quais Nietzsche indica teriam muito a ver com a elucidao adequada da posio do homem e do artista em relao com a vida e o mundo. Trata-se, poderamos dizer, de outra forma de reduzir a moral esttica, de explicar toda a vida humana a partir da perspectiva artstica e em nome da liberdade individual, a fim de desmascarar todos os modelos universais, abstratos e abso-lutistas que constituem os principais obstculos potencializao da fora vital: To logo negamos a verdade absoluta, temos de renunciar a toda exigncia absoluta e nos remeter a juzos estticos. Eis a tarefa (...) Reduo da moral esttica!!! (Nachlass/FP da primavera-outono de 1881, 11 [79], KSA 9.471). Portanto, a interpretao do mundo, da vida e da existncia como um jogo a resposta de Nietzsche a uma concepo de mundo na qual j no h mais sentido, finalidade ou verdade. Por isso, o jogo como exemplo concreto da atividade humana se converte na atitude fundamental

    5 Cf. Sobretudo o ltimo captulo de Eugen Fink. La filosofia de Nietzsche. Trad. Andrs Snchez Pascual. Madrid: Alianza, 1979.

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    do homem aps a morte de Deus. Este mundo o cenrio do jogo do criar, o mbito do jogo que d valor e marca o fim do domnio da razo e de toda teoria teleolgica da natureza. O jogo, o intil, como ideal daquele-sobrecarregado-de-fora, como infantil. A infantilidade de Deus (Nachlass/FP do outono de 1885-outono de 1886, 2 [130], KSA 12.129). Em outras palavras, o jogo se desloca da periferia para o centro da vida como a mais alta possibilidade humana, e considerado como quintessncia da vida, elevando-se ao grau supremo, pois certamente a maioria das aes humanas so atividades, movimentos em que se descarrega uma fora que visa sempre a transbordar.

    Diversos so os modos para acessar o fenmeno do jogo, assim como so tambm distintas as tentativas para determin-lo signifi-cativamente. Ora a perspectiva ser a atividade artstica do homem, ora a atividade ldica do mundo ou a dimenso csmica do jogo, ora seu carter de mediao entre homem e mundo.

    1. O jogo no contexto da metafsica de artista

    Parece que os gregos criaram seus deuses e sua arte com a finalidade de poder superar a sabedoria de Sileno e o horror in-suportvel existncia. A arte torna a vida possvel ao seduzir os homens para que sigam vivendo por meio da iluso, nesse sentido, a arte uma forma de jogar que torna possvel a existncia humana apesar do terror fundamental e das contradies que ela encerra. O Nascimento da tragdia j delineia distintos modos e formas de entender o pensamento do jogo. Por um lado, para Nietzsche, sonhar um modo de jogar com o real (wirklich), de tal maneira que permitido falar numa atividade artstica consistente no jogar com o sonho; por outro lado, a embriaguez tambm considerada como um jogo que a natureza joga com o artista. Por isso, a criatividade

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    do artista dionisaco poderia ser entendida como o jogar com a em-briaguez, pois a arte dionisaca, em ltima instncia, repousa sobre o jogo com a embriaguez, com o xtase (DW/VD 1, KSA 1.554). Nietzsche estabelece claramente essa comparao: Assim como a embriaguez o jogo da natureza com o homem, a criao do artista dionisaco o jogo com a embriaguez (DW/VD 1, KSA 1.555). Esse jogo se caracteriza pela dissoluo de toda subjetividade, por um abatimento do eu e por uma superao do princpio de indivi-duao que conduz ao ser um com os homens e a natureza e que, ao mesmo tempo, gera o autoesquecimento. Por sua vez, a arte do artista apolneo jogar com o sonho, sendo preciso entender o sonho como o jogo do homem individual com o real. Jogar com o real enquanto se sonha consiste em impor uma forma e uma medida ao acontecer. O sonho no um mero reflexo da contradio primordial, mas sua transformao.

    Uma das razes fundamentais da ideia do jogo no jovem Nietzsche se encontra na referncia que o filsofo faz estrutura grega do agn e sua importncia para o mbito no apenas poltico, mas tambm artstico do povo grego. Em A filosofia da poca trgica dos gregos, Nietzsche interpreta filosoficamente a tese do carter agonstico da arte e da cultura. Para ele, uma das intuies radicais de Herclito a luta dos contrrios que cria o mundo do vir-a-ser e que marca o vnculo inseparvel entre a filosofia helenista e o modo de vida helenista baseado no jogo como agn. Esse um tema recorrente no primeiro pensamento de Nietzsche, e o que se manifesta como trao essencial e fundamento vital do povo grego a centralidade do impulso agonal6, da justa (Wettkampf), do impulso

    6 A ideia de agn em Nietzsche inspira-se na obra de J. Burckhardt: Griechische Kul-turgeschichte. Berlim, v.4, p. 89. Cf. um escrito de Nietzsche, o quinto prefcio para cinco livros no escritos: A justa de Homero (Homers Wettkampf) (KSA 1.783).

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    agonstico competit

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