voo da esperanÇa

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    I n s p i r a d o p e l o e s p r i t o

    A L B E R T O S A N T O S D U M O N T

    O Vo da Esperana

    Mdium Woyne Figner SacchetinE D I T O R A L A C H T R E

    AGRADECIMENTOPor mais elevados sejam os autores espirituais, por mais

    brilhantes, inspiradas e divinas sejam suas idias, eles

    no conseguiriam desempenhar a misso de espalhar

    luzes s almas dos homens, se no tivessem o precioso

    auxlio de pessoas como Natal Andreta, Maria Elena

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    Castagnoli Costa Neves, Danilo Costa Neves Paoliello e

    Sylvia Rodrigues Blanco, que digitaram toda a obra, e de

    Renata Nogueira Manoel, Rita de Cssia Conde e Walter

    Tiss Figner Sacchetin, que organizaram tudo com

    profundo amor e dedicao. A eles estendemos nossa

    inspirao e reconhecimento cheios de amor fraterno.

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    SUMRIOPrefcio.................................................................................11

    1 - Cicatrizes na histria .....................................................13

    2 - Causas do sofrer .......................................................... 21

    3 - A justia ordena parar................................................... 27

    4 - A agonia - o Umbral...................................................... 33

    5 - Reencontros ................................................................. 41

    6 - O passado e a guerra................................................... 49

    7 - Ferido na neve....................... ..................................... 63

    8 - Sacrifcio at a loucura ................................................. 69

    9 - Voltando do mundo espiritual ....................................... 73

    10 - Retorno escola da vida.............................................. 7711 - A infncia no pas do amor.................. ....................... 83

    12 - A formao poltica na escola ...................................... 91

    13 - O primeiro vo ........................ .................................. 101

    14 - Vida perigosa - primeiro susto.................................... 105

    15 - Aprendendo a voar ....................... ............................ 113

    16 - Sobre o rio Tiet ......................................................... 119

    17 - Formando dois grandes pilotos .................................. 12318 - Conhecendo o melhor pas do mundo ....................... 129

    19 - Cruzando os cus da Amaznia................................. 135

    20 - A violncia da tempestade ......................................... 139

    21 - O grande piloto se despede ....................................... 14522-0 aeroporto estrangulado .............................................151

    23 - Lies da vida............................................................. 155

    24 - Pagamento de graves delitos..................................... 16525 - O amor vence o dio .................................................. 169

    26 - Punio nunca - o amor eternamente ........................181

    27 - Mensagem de J.K...................................................... 185Nota explicativa.................................................................. 189

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    PREFCIO

    Na madrugada chuvosa, vejo chamas no aeroporto, em plena SoPaulo, a terra do corao, que me deu os meios para construir Braslia.Eu choro. Chorando, orei pelo Brasil e por aqueles dirigentes quedesviam nossa Ptria do caminho da dignidade. Que Deus tenhamisericrdia deles. Porm peo que lhes aplique, com todo rigor, Sua justia, para que os maus brasileiros aprendam que a Ptria instituio sagrada, merecedora de muito mais do que o nosso respeito- exige venerao dos seus filhos. Minha carinhosa saudao svtimas e aos familiares, neste acontecimento que nos enche o coraode amargura e tristeza. Quero abra-los com todo respeito e profundoafeto patritico. Nunca me esqueci, todos ns - brasileiros - estamos

    ligados, pelos laos do afeto, a este pas magnfico que haveremos deconstruir esplndido, para brilhar na sua grandeza, iluminando oscaminhos da civilizao humana.

    JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRAFundador de Braslia

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    1- CICATRIZES NA HISTRIA

    Nos paredes do caminho estreito que levava Aquitnia, ecoavao rudo das patas dos cavalos nas pedras, marcando a passagem datropa montada por soldados gauleses a servio de Roma.Aproveitavam o claro da lua cheia, que se destacava no cu daGlia Cisalpina feito romntico foco luminoso. O sol amava aquelaregio da Europa. A estrela-me da Terra, mesmo noite, naquelevero quente, queria ilumin-la atravs do reflexo da lua.

    Estvamos no ano 58 antes de Cristo. A Glia era cheia de vida,

    de povo ardente, de mulheres apaixonadas e gnio caloroso, que seexpressavam nas danas insinuantes de trejeitos temperados demalcia. Os sons de instrumentos, no pas da castanhola,provocavam os ouvidos atentos dos homens guerreiros, de carterforte, cheios de desejo, que no hesitavam em retirar, dos largoscintos de couro de cabra, o punhal com o cabo cravejado de pedras,coladas como lembranas de lutas passionais, de crimes, debatalhas, que eles ostentavam com orgulho nos seus encontros.

    s vezes, o olhar mais demorado de um homem em direo auma mulher atraente, de colo mostra, era mais que suficiente paradar incio, entre eles, a um dio que brotava como as chamas deuma fogueira, nas noites claras.

    Juntavam-se, homens e mulheres, s bilhas de vinho envelheci-das no uso, exalando o perfume das parreiras que sugavam as pai-xes da terra. As mulheres depositavam o sangue das uvas nas ca-

    necas de cabo amassadas e, durante as noites quentes, faziam cir-cular a bebida de cheiro penetrante, como penetrante era odestemor daqueles povos indomveis que, ora ameaavam o Imp-rio Romano, ora eram seus aliados.

    Muitas vezes, embriagados pelas paixes e pelo vinho, punhaisvibravam no ar, feito raios rasgando os cus dos sentimentos dese-quilibrados, instigados pelos olhares maliciosos de uma mulher sen-sual, fazendo-se desejada, ao mesmo tempo, por dois homens. A

    lmina, como raio alucinado, cravava-se no peito do suposto rival. Amulher continuava a danar, com as saias rodadas, vermelhas como

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    sangue, bordadas de rendas, sob a noite de lua cheia, na apaixo-nante Glia Cisalpina. Naqueles lugares, sculos mais tarde, brotari-am do solo das paixes partes do atual territrio da Frana, da Es-panha e do norte da Itlia.

    Os guerreiros das Glias espalhavam a dor e o desespero. A in-

    disciplina e a injustia campeavam soltas, at que o poder do Imp-rio Romano, graas a Csar, dominou as tribos clticas, ricas e to-talmente divididas entre si. Povos fortes, to fortes quanto cruis, tocruis quanto indisciplinados, foram submetidos pelas foras impla-cveis de Roma, que, com a sabedoria poltica de Csar, dominarama peso de ouro soldados mercenrios, principalmente os belicososiberos.

    No cavalgar da tropa de soldados de fidelidade comprada pelasmoedas da guia de Roma, at no tilintar das armas chocando-secom os metais dos arreios dos cavalos treinados para as batalhas,percebia-se a volpia por sangue daqueles guerreiros valentes,rudes e, ao mesmo tempo, religiosos e msticos, que os romanos,inteligentes e dominadores, usavam como mquinas de guerra.Naquela noite perdida nos confins dos tempos, a luz da lua, refletidado sol, lembrava aos soldados que, mesmo noite, a paixo para a

    luta lhes vinha do fulgor do prprio sol, pois sob a lua brilhavam asarmas prateadas e lustrosas: lanas, espadas, chicotes metlicoscom esferas cheias de pontas.

    Sob o ritmo montono das passadas dos cavalos, noite adentro,quando os soldados aproveitavam para atravessar o territrioinimigo, percebia-se no ar o sentimento de vingana e de diopulsando na intimidade dos coraes. Os caminhos que elesutilizavam eram trilhas secretas no meio das montanhas, feitas de

    rochas negras e rudes. A trilha estreita, por onde passavam apenasdois cavalos empareados, obrigava a que as lanas fossemcolocadas verticalmente, apoiadas nos suportes dos arreios. svezes, ouvia-se o guinchar de uma pedra rgida e negra sechocando contra os metais. O rudo fazia o cavaleiro aproximar-semais do companheiro ao lado. A nascia, no silncio da noiteenluarada, outro tipo de som, o das perneiras das armaduras se

    atritando. Naquela msica desagradvel, marcavam compasso oscascos e as ferraduras de cavalos treinados em duros combates,

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    alguns deles com cicatrizes nos flancos, no pescoo, na cabea,fruto das encarniadas batalhas em que haviam se metido ossoldados que os dominavam.

    Os combatentes seguiam. No fim do cortejo, carros de boi iambatendo as protees metlicas das extremidades das rodas de

    madeira contra as pedras da trilha. Os carros eram especialmenteconstrudos bem estreitos. Os bois, musculosos e com as cangas ecanzis nicos, eram ligados em fila indiana. As passadas, lentas efortes, dos cascos que iam tropeando nas pedras tambm faziamtropear as rodas gigantescas, fixas nos coces bem azeitados paraimpedir o atrito da madeira contra madeira, que poderia cantar, des-pertando a ateno dos inimigos.

    Os carroes carregavam amontoados vinte e dois prisioneiros deolhos vendados e mos atadas s costas. Os iberos transformavamos vencidos em magotes de sofredores. Para aumentar as paixes edescarregar a bestialidade daquelas almas cruis, de vez em quan-do, entre os rudos das armaduras se atritando contra as paredes depedra, ouvia-se o estalar de um chicote nas costas nuas, iluminadaspela lua cheia. Do estalido desumano, vinha o gemido dolorido deum prisioneiro no carro que o transportava. Aps o rudo elo chicote,

    a lua, envergonhada pela maldade desses homens, clareava as ci-catrizes no dorso do prisioneiro. Notava-se algo parecido ao vinhotinto escorrendo do ferimento. Os passageiros feridos gemiam e cho-ravam, soluando, sofrendo sob o taco das botas dos mercenriosgauleses a soldo de Roma.

    Era deslumbrante a luz da lua naquela noite. Deus tentava cha-mar a ateno dos homens para Sua bondade infinita. Para isso, elepintava com pontos estrelados o cu sem nuvens e a lua prateava o

    mundo. Queria mostrar o quanto amava seus filhos.Silenciam os rudos de ferros dos cascos dos cavalos e das rodas

    dos carros nas pedras da trilha. Os soldados tiram algumas partesdas armaduras, que colocam apoiadas nas pedras, bebem gua dorio, encostam-se nas salincias das pedras e, por algumas poucashoras, descansam da jornada rude, pois, ao cansao fsico, juntam-se as tenses e o medo dos ataques num despenhadeiro longo e es-

    treito, onde o inimigo poderia surpreend-los.

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    A luz da noite clareia, no apenas os ferros ou as rodas pesadase as armaduras; agora ilumina tambm as guas claras descendodas montanhas para o vale l embaixo. O caudal, similar a imensaserpente de prata corcoveando entre as rochas, contornandobarrancos de pedras negras, rapidamente mergulha suas guas no

    leito que se estreita e se apressa. As guas quase espumejam e selanam em mltiplas cachoeiras, que vo saltando das pedras paraoutras mais abaixo, mais abaixo, mais abaixo...

    O cu comea a se manchar de listras vermelhas no mantoescuro que a natureza vestiu a terra. Amanhece. Uma alma bondosaentre os soldados se lembra dos vinte e dois prisioneiros, toma umacaneca de metal bastante amassada e, aproveitando a pouca luz,vai tropeando nas pedras para distribuir gua entre eles,colocando-lbes nos lbios, secos e feridos, o lquido precioso. Elesbebem sofregamente e agradecem, a cada gole barulhento,conforme a gua da caneca desce s gargantas ressecadas de cadaum.

    Um soldado truculento, vendo os gestos de compaixo docompanheiro de batalha, ri sarcstico:

    - Noluen, para que encharc-los de gua, se logo mais sero

    ressecados pelas chamas onde eu os atirarei?O soldado, mercenrio, mas digno, profissional de guerra, baixa acabea:

    - No se esquea de que a compaixo pelos vencidos sinal degrandeza do soldado.

    A um canto, um magote de guerreiros pede ao comandanteIccius:

    - Senhor, logo mais estaremos em batalha. A viagem secreta foi

    abenoada pela nossa inteligncia; estamos perto da cidade inimiga.Fizemos prisioneiros na calada da noite, vencemos os guardas nasentradas estratgicas, passamos sem ser vistos pelas colunasinimigas e estamos aqui, bem perto das cocheiras dos fogososcavalos treinados pelo inimigo. H vrias carruagens de batalha,conforme verificaram dois rastreadores que galoparam na frente donosso batalho. Vejo l embaixo os trofus, que so como pedaos

    saborosos de carne para ns, os Lees. Assim, para vencermos -diz um dos soldados, representando o grupo -, sugiro que matemos

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    todos os prisioneiros, livrando nossos carros do peso, para levarmosmais trofus de guerra.

    O comandante, esprito rgido, mas justo, possua tal capacidadede liderana que os seus soldados eram imbatveis. Algumasdezenas deles haviam conseguido desarticular e vencer exrcitos

    em cruentas batalhas, graas aos seus conhecimentos deestratgia. Sua principal qualidade, porm, era a compaixo pelosvencidos. Sabia que, para conviver com lobos e lees, necessriomuitas vezes jogar-lhes pedaos de carne para saciar-lhes osapetites cruis. Argumentou, ento, que poderiam deixar osprisioneiros de mos amarradas nas vilas atacadas, ou mesmosoltos at, para ajudar nos saques. Props uma votao entre osgraduados do batalho. Sua proposta foi derrotada. "Pobresprisioneiros", pensem Iccius...

    O sol ainda no havia surgido. Dez homens truculentos pegarama corda que amarrava a longa fila de prisioneiros e arrastaram-nosviolentamente. De olhos vendados, alguns caam, gemendo, ferindo-se, outros choravam. Depois, foram amontoados em uma depressodo terreno. Algumas tochas embebidas num lquido negro e malchei-roso fizeram arder as costas, as cabeleiras e os farrapos que

    vestiam, encharcados com leo. Os infelizes comearam a gemeralto. Tentando evitar que a cidade fosse alertada pelos gritos egemidos, a soldadesca enlouquecida perfurava-lhes o pescoo, aface, o trax com golpes de lana. De repente, algum grita:

    - Soltem a corda! E muito preciosa para ser queimada com essesporcos. Ela servir para carregarmos nossas posses, que seencontram na vila l embaixo!

    Os prisioneiros, trespassados pelas lanas assassinas, ardiam

    amontoados na fogueira humana.O comandante deu ordem para colocarem as armaduras:- Montar!Aquele rudo de mais de cem soldados montando, vestidos com

    armaduras, espadas e lanas, prontos para o ataque, amedrontariaquem o ouvisse. De repente, o barulho se amplia como uma avalan-che descendo a montanha. Imediatamente cercaram a cidadezinha,

    que era um entreposto de armas, veculos de guerra, cavalos e ali-mentos. A cidadela estava quase desguarnecida de soldados, que

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    haviam se deslocado para as fronteiras da regio, esperando o ata-que.

    O plano do inteligente comandante de atravessar pelosdespenhadeiros de pedra colocou-lhe nas mos o importante entre-posto sem qualquer defesa: armas, animais, mulheres e crianas es-

    tavam disponveis. Os poucos homens que l estavam - os velhos,os doentes e os feridos - foram impiedosamente trucidados. Mulhe-res choravam, crianas corriam, fugindo sem saber para onde.

    Os cavalos foram atrelados, os carros carregados com armas,lanas, espadas e armaduras. Muitos soldados, imediatamente, lar-gavam as armaduras velhas e colocavam, sobre o corpo, as novas,perfeitas. Muitos cavalos do batalho foram ali substitudos porcorcis novos, preparados para carregar cargas. Um cavalo, cego deum olho ferido por lana inimiga, foi substitudo por um mais novo,que estava nas cocheiras. O carro de boi, que carregara os prisionei-ros que foram queimados, logo se encheu de mulheres de cabeloslongos e negros. A corda chamuscada que atava as vinte e duas v-timas serviu para amarr-las. Outro veculo foi carregado com car-nes temperadas e defumadas, preparadas para alimentar os solda-dos durante as campanhas. Todos os valores foram roubados da ci-

    dade. Mulheres choravam, crianas se desesperavam, correndo a-trs dos carros velozes que levavam suas mes.

    2- CAUSAS DO SOFRER

    Os Lees iam em fuga. Pelos portes da cidadezinha usurpada,os soldados saram galopando, levando fogosos cavalos e deixandoos animais imprestveis. Ficaram, na sada do desfiladeiro, ascinzas que sobraram daqueles corpos sofredores, que o ventoespalhou pelo campo. Restaram l apenas a dor, o desespero e ascrianas que viram as mes serem raptadas pelo batalhoimplacvel, que desapareceu no p da estrada. Eles seguiambuscando outras batalhas para deixar para trs mais um rastro dedestruio, dor e orfandade.

    Contornando uma montanha baixa, nas proximidades de onde

    seria, hoje, a cidade francesa de Lio, numa curva fechada daestrada, deram de frente com outro batalho, que seguia na direo

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    contrria, tambm caando aventuras, procurando vilas indefesaspara pilhagens. Ao ver o grupo dos Lees, com carros novos, cheiosde lanas, espadas e escudos, tracionados por bois e corcis fortes,o outro grupo, com soldados razoavelmente aparelhados, estacou.Prepararam as armas - as lanas foram colocadas na salincia de

    metal dos arreios, posicionadas para o ataque; os elmos, abaixados.O comandante preparou-se para a batalha. Separados por uns oiten-ta metros de distncia, as caudas dos batalhes se escondiam nacurva da estrada, contornando a pequena montanha.

    Tentando planejar o ataque, ambos os comandos analisavam asforas inimigas antes do banho de sangue. Todos pararam ao mes-mo tempo. As ferraduras rugiram num s golpe, encaixando-se nassalincias das pedras do caminho. O barulho de metal das espadassaindo das bainhas, as lanas riscando as protees nos peitos doscavalos, tudo dava impresso de um monte de ferros atritados vio-lentamente. Depois veio o silncio... Olhares se alongavam. O co-mando de ambos os batalhes deu alguns passos e novamente es-tacou.

    Iccius, o inteligente comandante do batalho dos Lees, comohavia feito antes do grupo voltar para queimar os vinte e dois prisio-

    neiros, reuniu-se com os subcomandantes. Cinco deles optaram porno lutar, pois percebiam serem ibricos os supostos inimigos.O silncio parecia durar uma eternidade; o vento soprava entre as

    frinchas das rochas, cantando msicas tristes que mais pareciamcanto fnebre de desespero. A lana de Iccius foi colocada em posi-o sobre seu cavalo. O outro comandante, protegido por custosaarmadura, com a lana pronta para o combate, adiantou-se uns dezpassos. O barulho das quatro patas nas pedras ecoou entre as pa-

    redes altas do caminho e o vento fez coro tristeza da mensagem,mostrando que a bruxa da morte, com o alfanje, ceifadora de vidas,ia surgindo em cena, gargalhando desrespeitosa com a dor alheia.Ela, como sombra maldosa, ficou sentada sobre uma pedra, entre osdois batalhes. Quanto mais sangrenta a batalha, mais coraes ecabeas a colher, maior sua satisfao. Assim a morte...

    Iccius tambm se adiantou uns dez passos, virou-se para os cinco

    experientes subcomandantes e perguntou, num idioma antigo:- Lutar ou negociar?

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    A distncia no permitia que o outro comandante ouvisse. O diale-to um pouco diferente fazia parte da confuso de idias, tribos eraas que comeavam a forjar o povo espanhol e o francs.

    Dialogaram o comandante e os auxiliares do batalho dos Lees.De repente, de um dos carros de carga, aparece uma bandeira

    branca. Um cavaleiro, montando um corcel negro, sai da fila decavalos, aproxima-se do comandante dos Lees e estende umalonga lana com a bandeira branca, smbolo da paz, amarrada naextremidade.

    As caudas de ambas as filas de soldados estavam estacionadasatrs da curva da montanha. Era um jogo inseguro, Nenhum doscomandantes saberia avaliar soldados, cavalos e carros escondidos.A sorte venceu a megera da morte. Tivessem se encontrado numaestrada reta, podendo avaliar as foras contrrias, o banho desangue destruiria ambos os batalhes.

    Iccius, comandante dos Lees, pegou a bandeira branca. Ocomandante da outra faco, para amedront-los, desencadeou umagargalhada zombeteira. Inteligente e observador, Iccius percebeu aordem do adversrio para que todos gargalhassem. Pelo som, notouque a fila era curta, o nmero deles era pequeno. Baixou a bandeira,

    jogou a lana para seu auxiliar e gritou ao outro comandante:- Se voc quer sangue, ter muitos mortos para comandar! Tudosilenciou. O sol comeou a aquecer as armaduras dos cavalos e dossoldados; o calor refletido das pedras negras incomodava-os. Icciuslevantou a mo direita. Mais de cem espadas, manejadas por mose braos truculentos, fizeram ecoar, nas paredes de pedra, o rudodo metal das lminas se atritando com o metal das bainhas.

    O adversrio conversou com os seus soldados que estavam por

    perto, tomou de uma lana, ordenou que uma bandeira branca fosseatada a ela e fez seu cavalo andar trs passos. Iccius deu mais trspassos. A distncia entre eles diminuiu. A bandeira branca foi levan-tada na lana e os expectadores da enervante situao ouviram asferraduras das patas dos dois cavalos se aproximando lentamente.Quando as cabeas estavam a uns dez metros de distncia, Icciusrompeu o silncio:

    - Ns, ibricos, soldados valentes, no tememos a morte, mas osinimigos se multiplicam. So celtas, germanos, helvcios. Esto

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    espreita para arrancar nossos coraes a golpes de espada, e lan--los aos abismos dos Pireneus. Estamos fortemente armados, ar-mas novas, animais novos, carros novos. A valentia da raa ibricano seja desculpa para a deciso da estupidez.

    O comandante do outro batalho jogou longe a sua lana. Iccius

    fez o mesmo. Ouviram-se os metais resvalando nas pedras com ru-do. Todos os soldados comemoraram aos gritos. Iccius retirou a luvade metal que protegia sua mo e levantou os braos:

    - Estamos a soldo dos romanos e tenho autoridade para contrat-los nas mesmas condies de meu batalho.

    Acauno, sem saber da pilhagem, concluiu tratar-se de um grupobem pago. Aproximaram-se os carros repletos de armaduras. Osguerreiros do outro grupo abandonaram as armaduras desgastadase vestiram-se com as novas. Alguns cavalos feridos, com cicatrizesno corpo, at sem orelhas, foram substitudos por aqueles puxadospelos soldados de Iccius.

    sombra do paredo, que se elevava ao lado direito do grupo, ocarro das provises, com patos e galinhas defumados e pes novos,foi descarregado, tendo as mulheres, agora escravas, como servido-ras. Algumas jarras cheias de vinho foram distribudas abundante-

    mente. A bebedeira comemorativa se estabelece. Comem, bebem ea festa se prolonga. O vinho roubado em volumosos garrafes debarro e bolsas de couro, com aroma das uvas da terra ibrica, queproduz bebidas das mais perfumadas e saborosas, desce aos borbo-tes pelas gargantas dos guerreiros.

    O sol j comeava dar sinais de que a noite logo tomaria contadaquela parte dos Pirinus. A bebida, enchendo os estmagos,passa a subir s cabeas. Um soldado de Acauno foi o primeiro aapertar violentamente o brao de uma prisioneira. Ela reage,empurrando-o; ele, bbado, quase cai de costas. Um seu colega se-gura-a por trs e, como se um raio eletrizante atingisse asconscincias, cerca de duzentas bestas humanas, para saciar osapetites animais, se servem dos corpos de mes puras, as mulheresque haviam sido raptadas. Soluos, tapas, mordidas, choro, at quetudo se transforma em cansao, nessa noite de incio do inverno.

    Tudo silencia...

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    A lua cheia comea a soluar lgrimas de prata e as estrelasdaquele lindo cu ficam envergonhadas diante das cenas deselvageria e horror. O sol encontrou mais de duzentos sereshumanos bbados, dormindo, exceto um deles, Iccius, ocomandante, que no participara dos atos de selvageria, distribua

    jarros de gua s mulheres que jaziam feridas sobre as pedras daestrada, enquanto os soldados bestiais roncavam como animais.Iccius tomou um pedao de couro de carneiro e, com a l, limpava orosto de cada uma das mulheres. Muitas delas soluavam. Asestrelas, nos seus olhos de luzes, gravaram, pelos sculos afora,aquelas cenas. A lua, como imensa arca do amor de Deus, guardouaqueles nomes, aqueles atos, aquelas cenas, aqueles gritos,gemidos e soluos por vinte sculos. A justia viria mais tarde...

    O dia, no incio de inverno na Glia Cisalpina, onde seria, hoje, osul da Frana, raiou lindo e rubro, refletindo na cor o carter dossoldados iberos, do batalho de duas centrias dos invencveisLees. Juntavam-se agora, pelo acaso do encontro de dois gruposde guerreiros - se que existe acaso -, formando um peloto demais de duzentos atletas, hbeis em cavalgar, em lutar com o gldioe a lana. Nas lutas corpo a corpo, eram geis como gatos, fortes

    como elefantes, rpidos como guias, inteligentes como o leo; porisso, aqueles soldados eram os invencveis do batalho dos Lees.O animal-smbolo, nas bandeiras brilhantes, vermelhas, negras everdes, era o rei dos animais, dentes mostra e garras expostas,como se estivesse saltando para um ataque mortal. Aquela estampade animal agressivo, frente do cortejo mortfero, fazia tremermsculos e coraes dos mais valentes inimigos, colocando em totaldesespero populaes de cidades e vilas que gemiam, sofrendo por

    antecipao, quando rufavam os tambores anunciando a morte.Pobres populaes servindo aos seus apetites de um dio semcausa, que parecia nascer no corao dos soldados iberos. Poronde passavam, semeavam o desespero e a dor. Quando suasmos, quais garras de lees sanguinrios, agarravam alguma vtima,um rosrio de dores jorrava dos coraes humilhados.

    As mulheres prisioneiras, mes na vila assaltada pelas tropas de

    Iccius, serviam agora de pasto para os desequilbrios do sexo deambos os grupos. Nos carros puxados por cavalos, elas seguiam

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    como se fossem, ao mesmo tempo, animais de carga no trabalho depreparar a comida para mais de duzentos soldados e tambm, assimdiziam alguns deles, a sobremesa dos apetites do sexo. Quando oinimigo o escraviza e esmaga com suas garras de guia, o melhor,para o pssaro, esconder-se no ninho e aguardar a proteo de

    Deus.Agora, todo o grupo comandado por Iccius, tendo Acauno comosubcomandante, deslocava-se pelas montanhas e desfiladeiroscomo o leo, sedento de sangue, vagando procura de vtimas, emcujas carnes pudesse mergulhar as garras e os dentes. A surpresado ataque, inteligentemente planejado nas sombras da noite, eratrunfo imbatvel. As pilhagens foram aperfeioando aquela mquinade guerra com o que havia de mais eficiente e moderno naquelasparagens. Vilas e cidades eram saqueadas e, em muitas delas,principalmente nas pequenas comunidades, salvavam-se apenas asmulheres jovens e belas; os demais seres viventes eram degolados.

    3 - A JUSTIA ORDENA PARAR

    A vida continuava, assim como continuava a marcha daquele rolo

    compressor impiedoso, ensangentando os campos da Glia. Quemvisse uma dessas batalhas, com a balbrdia e o desespero regadosa dio, no perceberia o que se passava do outro lado, alm da vidafsica. O dio do lado de l manchava de negro e sangue o cu espi-ritual. A ventania era um grito de dor e desespero. Espritos, cujoscorpos caam com as cabeas decepadas ou com os coraes dila-cerados por lanas, urravam como animais selvagens, emitindo pa-lavras de dor e sofrimento que poucos seres humanos vivos seriam

    capazes de reproduzir. Quando um dos Lees caa ferido, espritosempurrados por uma raiva sem limites o atacavam. Estavam enlou-quecidos pela dor de ver filhas e esposas sendo esmagadas pelaspatas treinadas dos fogosos cavalos, ou vidas sendo dizimadas porpesadas lanas e espadas.

    Quando partiam, aps os ataques, nuvens de fumaa seenovelavam no ar, pois, para finalizar a destruio, corpos feridos,

    ainda vivos, eram transformados em tochas humanas, que ardiamem sofrimentos terrveis.

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    O tempo, lenta e inexoravelmente, rolava na ampulheta dos desti-nos.

    Era madrugada, o inverno comeava a lanar na atmosfera flocosbrancos, como se fossem montculos de algodo. Eram as primeirasneves do ano no sul da Frana. Iccius, Acauno e os dois grupos de

    estrategistas se reuniram, obedecendo a um centurio romano, queviera com ordens de Csar para atacarem uma cidade-fortaleza naregio dos Pirineus. Ele trazia moedas de ouro que dobravam o sol-do prometido, em razo do risco de se lutar nas montanhas no in-verno. Aproveitariam a surpresa e o relaxamento da guarda: o leoataca quando a presa no espera.

    A madrugada comeava a pintar o horizonte de vermelho; uma ououtra mulher acendia os foges rsticos alimentados por lenha, cor-tada pelos lenhadores nos bosques, ao redor da cidade. A fumaasaa das chamins, entrecruzando os fumos negros com os flocosbrancos da neve do incio de inverno. Uma mulher desce as escadasde madeira tosca, carregando uma lata de leite de cabra, trazida doestbulo ao lado da casa. Viu, contrastando com as pedras negrasda montanha e o fundo branco da neve, que comeavam a pintar oscontrafortes, tremular algo, e conseguiu divisar as cores negra, ver-

    melha e verde que se aproximavam. O corao parecia sair-lhe pelaboca, quando, sob a luz fraca que se atrevia a varar as sombras danoite que se afastava, distinguiu a figura de um leo. Perdeu a voz,petrificada, sem conseguir correr, nem gritar.

    A soldadesca da cidade, confiando no incio do inverno, dormiasobre montes de feno do celeiro, com as lanas, armaduras e espa-das deixadas em repouso em outras construes distantes.

    Os comandantes Iccius e Acauno, a um estalo de chicote como

    combinado, ordenam que os tambores comecem a rufar, enquanto obarulho das ferraduras dos cavalos invade a cidade com umaviolncia atroz. Muitas vezes, a surpresa faz mais poderoso oatacante. No se sabia de onde tochas surgiam; de cima doscavalos eles lanavam o fogo. As casas de madeira, aindaressecadas pelos ventos do outono, comearam a arder. Ossoldados jogavam tochas s dezenas tambm sobre o feno seco do

    celeiro, onde dormiam os defensores da cidade. Rapidamente,

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    trancaram janelas, portas e portes pelo lado de fora. A soldadescafoi sufocada e queimada viva.

    Crianas gritavam, mulheres, com lenos de l cobrindo a cabeae o rosto, caam das escadas das casas, tentando correr para apraa central. Um velho sem uma perna, apoiado numa muleta, ao

    descer a escada rstica, rolou, arrebentando-se sobre as pedras.Um invasor crava-lhe comprida lana no peito, dando gargalhadas,fugindo rpido com o cavalo para atropelar uma criana na vielaestreita. As patas do cavalo destroam-lhe o peito.

    Na praa, amontoados e morrendo de frio, crianas e velhos soseparados das mulheres jovens, colocadas em carroes, queserviam de priso. Os outros foram pisoteados pelas patas doscavalos. Obedecendo a ordens de no atrasarem a marcha deataque a outra vila, os Lees no roubam nem armas, nem carros deguerra. O plano era dizimar rapidamente os soldados defensores dacidade. Saem da vila, enquanto negros vus de fumaa tapam o sol,que parecia envergonhado ao ver tanto dio. Do outro lado, nomundo espiritual, os espritos recm-desencarnados no entendiamo que se passava; estavam surpresos e chocados.

    Depois de dois quilmetros, o batalho pra, esperando os que

    ficaram para trs. Viam a fumaa negra subindo, raivosa e injusta.Havia ainda um ataque planejado, mais ou menos a vinte quilme-tros, onde pretendiam chegar no incio da noite. Seguem por umdesfiladeiro que desembocava na cidade onde hoje se encontraToulouse, outro local defensor da regio ocupada pelos gauleses.Eles seguem por trilhas beira de abismos, galopando quando pos-svel, caminhando lentamente na maioria das vezes. Chegam beirade um afluente do rio Lot, que despencava das alturas das monta-

    nhas. Junto s guas cristalinas, apeiam dos animais e matam a se-de. Depois de um breve descanso, Iccius olha as guas caindo demais de oitenta metros de altura, e ordena:

    - Lees invencveis, montar!O barulho de botas nos estribos, de espadas e lanas tilintando

    ferro contra ferro, ecoa nas paredes altas.- Mesmo arriscando a vida, ordeno que, daqui em diante, o trote e

    o galope sejam a velocidade usada. Os carros com as prisioneiras e

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    os alimentos iro mais devagar, enquanto os guias adiantados verifi-cam o caminho.

    Os Lees invencveis seguem, margeando a gua que desaba ve-lozmente. Iccius na frente, a bandeira enrolada e guardada na sela.Logo adiante, a margem do rio era inclinada para as guas, dificul-

    tando muito a marcha. O comandante diminui a velocidade da tropa,levanta a mo e grita:- A neve comeou violenta. Precisamos sair daqui rapidamente!De repente, os animais comeam a resvalar. Cavalos e cavaleiros

    vo escorregando nas pedras cobertas de neve. Carros e armamen-tos, armaduras, alimentos e prisioneiras vo deslizando, e so lan-ados no rio encachoeirado. Tudo arrastado pelo rio em poucosminutos. A violncia das guas, batendo loucas contra as pedraspontiagudas do leito e das margens, leva de roldo toda a caravana.A mquina de guerra se destroa. Braos e pernas tentam se segu-rar nas pontas das pedras salientes. Cavalos e homens so frag-mentados rapidamente. S restou, na margem, enroscado na pontade uma pedra, um pedao do capote de Iccius. A senhora morte,com seu alfanje misterioso, colhia mais de duzentos seres humanos,cavalos e bois.

    Do outro lado da vida, continuava uma batalha diferente, semeadade dio e urros. Os corpos destroados libertavam espritos odientose enlouquecidos, endividados perante a suprema lei. No rio gelado,fecham-se as cortinas e apagam-se as luzes do palco da histria demuitas vidas. Silncio, silncio...

    4 - A AGONIA - O UMBRAL

    Restou o rio, apenas o rio, a gua borbulhante e violenta, e aspedras, somente as pedras. Do outro lado da vida, assustados, sementender o que lhes acontecera, soldados iberos acordavam do ter-rvel pesadelo da morte acossados pelos espritos inimigos, cujoscorpos haviam sido destroados pelo batalho dos Lees. Novas ba-talhas, das mais cruentas, se travaram nas baixezas odientas domundo espiritual. Nos portais do sofrimento e da loucura, abria-se

    um mundo, rotulado pela palavra latina 'umbra'- sombra - regio detrevas, choro, horrores, sofrimento e dio - o Umbral.

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    Agora, os Lees chegavam em total desvantagem, atacados pe-los espritos inimigos, cujos corpos eles haviam desrespeitado, truci-dado e queimado. Chibatadas barulhentas explodiam de chicotescom esferas cheias de pontas, que penetravam nas vtimas, arran-cando-lhes pedaos. Gemidos, gritos, imprecaes e horrores se

    espalhavam dos vingadores. O sadismo destes cria cenasdantescas, que a mais perversa mente humana dificilmente conse-guiria imaginar. Os espritos recm-chegados ao mundo espiritualtentavam se defender e no conseguiam, pois suas energias eramviolentamente sugadas por vampiros humanos, que se alegravam aover o sofrimento deles. A dor era imensa; o desespero, gigantesco; odio era um mar de lama e sangue, tentando afogar os algozes quechegavam.

    Dezenas de anos se passavam e aquelas cenas se repetiam. Ic-cius, o comandante ibero, cansado de sofrer, um dia refugiou-senum local pantanoso, de lamas negras, atrs de uma rocha ftida,chorando lgrimas de sangue, com o peito aberto, dilacerado pelaponta de uma pedra da cachoeira onde morrera. Ele podia ver oprprio corao pulsando. Desesperado, orava:

    - Oh, deuses, por compaixo, orientem-me. Estou morto? Mas

    como, se vejo, ouo, sinto o meu corao batendo, caminho, tenhodores? Como estou morto? Se estou vivo, como posso estar vivo, seos meus membros foram arrancados na violncia das guas, se omeu pescoo pende para frente, para trs, sem suporte?

    Chorando, vendo as cenas de horror sua volta, o comandantedos iberos ajoelhou-se, escondido, pois era caado impiedosamentepela malta cruel. Comeou a suplicar. Conforme falava, uma luz lhesaa da regio do crebro e parecia subir aos cus. No anoitecer que

    se avizinhava daquele local, sempre escuro e ttrico, ele viu surgir,nos portais que se abriam, uma figura luminosa, lmpida e serena,que descia quele mundo ftido, de ar pegajoso e frio. O ser che-gou-se a ele, colocando-lhe carinhosamente a mo sobre a cabea.Iccius asserenou-se, olhou para o alto e percebeu que seus mem-bros desconjuntados tomavam posio normal, o trax fechou-se, osangramento do peito cessou. Notou que retomava a mesma forma

    e aparncia de antes da morte. Comeou a dialogar em pensamentocom o anjo que o protegia e perguntou-lhe:

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    - Em que ano estamos?- Estamos no incio de uma Nova Era, h sessenta anos da data

    em que Csar invadiu as Glias, meu irmo.Iccius, desesperado, comeou a soluar:- Meu Deus! Faz, ento, cinqenta e oito anos que estamos nesta

    batalha encarniada, neste lugar horroroso!Em pensamento, o dilogo continuou. Iccius chamava de Mestre oprotetor angelical, que retrucou:

    - Mestre, para ns, aquela luz em forma de criana que nasceuna Palestina, numa manjedoura. Mestre o Messias, cujo nascimen-to confirma as Escrituras. Todas as legies romanas estoaquarteladas. A paz reina na Terra desde trs anos antes do Subli-me Nascimento. Sua divina presena espiritual tomou a amplitudede um trovo poderoso ordenando: "Parem, soldados germanos, ibe-ros, celtas e gauleses. A fora de meu amor os obriga a parar"... e apaz desceu sobre a Terra.

    Iccius chorava, enquanto o esprito falava. Parecia que aquelepedao de Umbral ligava-se a luzes que invadiam todo o planeta,vindas da manjedoura do Oriente. Iccius se emocionava, tocado poraquele sentimento que poucos homens, principalmente os guerreiros

    das Glias, eram capazes de sentir - o amor.Tocados, tambm, pela luz que atingia aquele local, os coman-dantes das tropas pararam, meditando sobre seus atos passados.Sons divinos ecoavam, como se os mensageiros, que enchem asparagens celestiais, tocassem melodias pelas escadas do infinito.De repente, ouve-se a voz do Amor Maternal. Um silncio suavedomina a paisagem do imenso campo de batalha, onde a dor, o dioe o desespero rugiam de ambos os lados. O Amor se faz presente:

    silncio, silncio, silncio...Surge, anunciado pelo primeiro mensageiro, um ser brilhante, lin-

    da mulher jovem, cabeleira longa, iluminada, rosto enfeitado por o-lhos azuis, pele rosada, mos que se abriam abenoando os sofre-dores em luta, enquanto dos dedos lhe saam focos de luzes clare-ando a escurido. Ela comeou a falar. Sua voz parecia espalhar osol naquele lugar de sofrimento. Era o canto de um rouxinol entoan-

    do cano de amor que, por um milagre de Deus, penetrava todasas cavernas, ia ao fundo das rochas negras, despenhadeiros e va-

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    les. Conforme a luz clareava, apareciam das sombras escuras oshomens, cujo dio os fazia sofrer. Aquela regio recebia a visita desublime entidade espiritual. A voz meiga, como o canto dos pssarosdivinos, expressou-se:

    - Vocs, que usaram a ddiva do corpo para destruir seus irmos,

    recebem agora a mensagem do perdoar indefinidamente. Soldadosfortes, comandantes impiedosos, umedeceram os campos de bata-lha com o sangue e com as lgrimas dos semelhantes. Chegou ahora do perdo...

    Aps esse episdio, aqueles espritos comearam a renascer, agrande maioria na Europa, em corpos aleijados, com marcas da ter-rvel doena na pele, conseqncia das profundas queimaduras quecausaram nos corpos das suas vtimas. Por isso, a lepra, vinda dassombras da alma, se espalhou no antigo batalho dos Lees renas-cido.

    Sob a proteo da mesma sublime entidade, a visit-los durantemuitos anos, estivessem nas Glias, no norte da Itlia, ou nos valesdos imundos, na Palestina, o influxo do seu amor animava-os a ven-cerem as prprias provaes.

    Algumas mulheres, antigas prisioneiras, imitando a maldade dos

    homens nos campos de batalha, tambm contraram pesadas dvi-das perante a Lei. Elas, que ajudaram a queimar os inimigos, tam-bm renasciam com a terrvel doena na pele, abandonadas juntoaos comparsas da dor nos vales do sofrimento.

    A justia de Deus espalhou-os por locais onde compromissos ain-da no resgatados exigiam-lhes a presena. A justia o outro no-me do amor que canta em cada ponto do universo. Depois de quei-mar homens e mulheres, reaprenderiam com a lepra, nas regies da

    Itlia, da Blgica e da Frana, a justia de Deus.Na Glia Cispadana, nas vizinhanas do rio P, grupos de lepro-

    sos eram repelidos pelo chicote quando tentavam beber de suas -guas. Do grupo de dezoito que perambulavam juntos por aquela re-gio, muitos morreram de sede. Eram os chefes do batalho dos Le-es.

    Quase um sculo antes, no celeiro incendiado onde foram tranca-

    das sob os escombros, as vtimas do batalho morreram mngua,gemendo de fome e sede. As bocas e as gargantas ressecadas

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    sangravam, tentando gritar por socorro, e ali pereceram na torturacruel. Para que alcanassem a conscincia dos erros cometidos e oposterior perdo aos prprios desacertos, a justia divina encontrouos artfices daquele sofrimento, quase um sculo depois, com as bo-cas sangrando, as gargantas cheias de lceras, vendo as guas do

    rio P, onde eram impedidos, pelos chicotes do preconceito, de be-ber daquelas guas e ali morriam sem compaixo.A sabedoria divina, que a bondade somada justia, ensinava-

    lhes, na melodia do estalar do chicote, as lies para a eternidade.Aprenderiam o valor da compaixo para enfeitar-lhes a alma em a-perfeioamento.

    Para bem entendermos os mecanismos da justia, voltemos

    Glia, cinqenta anos antes de Cristo.Naquela regio, graas disciplina imposta pelos romanos, prin-cipalmente por Jlio Csar, vilarejos, vilas e cidades comearam aser fundados. Batizadas pelos romanos com nomes latinos, nasciamcidades que seriam verdadeiras jias da civilizao humana: Lio,Bordus, Toulouse e Paris.

    Outros membros do grupo devedor renasceram junto estradamilitar, ligando o sul ao norte da Glia. A estrada se destinava a

    impedir que os helvcios tomassem territrios controlados porRoma. Todas as Glias: Cisalpina, Transalpina, Transpadana eCispadana, assim como os celtas, germnicos, helvcios e osbretes, do outro lado do canal da Mancha, eram um vulco deconvulses raciais e militares.

    Jlio Csar, que dominou aquele povo rebelde, foi o NapoleoBonaparte do perodo clssico. Napoleo, tambm como Csar, teve

    a misso de unir vrios pases da Europa moderna e falhou. Osromanos, com violncia, com suas seis legies aquarteladas naGlia, impuseram a dura disciplina. Os gauleses, extremamentenumerosos, eram muito respeitados pelos soldados de Roma, porcausa de sua valentia e fibra na luta. As foras romanas vestiramfardas e armaduras em dezenas de estrangeiros mercenrios, queos estrategistas da capital do Imprio manipulavam com muitaastcia, estimulando-lhes o orgulho, a valentia e o suposto

    patriotismo.

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    Os guerreiros gauleses eram lutadores ferozes. Passados algunssculos, a histria vai encontr-los, como vtimas dos preconceitos,nos vales dos imundos. As mesmas legies romanas, pelas quaisaqueles soldados gauleses, iberos e celtas lutaram, trouxeram dasterras do Oriente, durante as suas conquistas, os bacilos da lepra,

    que agora os vitimavam.A Lei, soberanamente justa e bondosa, reeducava os soldados,utilizando-se dos seus erros e dios nas batalhas para dom-los.Aqueles antigos gigantes dos campos de batalha achavam-se agoracom as foras minadas diante dos invencveis micrbios da lepra. "necessrio que o escndalo venha, mas ai daquele por quem oescndalo vier", ensinava o Mestre da manjedoura, durante os anos29 a 33 da Era do Amor.

    A sabedoria divina no se esquece dos detalhes das dvidas,principalmente aquelas originadas da falta de compaixo. Ficoumarcado, na conscincia de cada soldado, de cada mulher, de cadacomandante, o compromisso em resgatar os prprios erros. Aprovidencia divina to profunda e amorosa que nos permiteresgatar a paz da conscincia violentada pelo erro atravs de duasmoedas: o trabalho em nome do amor ou o sofrimento depurador.

    A severidade da justia reeducou o batalho dos Lees e algunsdos seus prisioneiros, durante mais de dois mil anos. Pela gravidadedos seus erros, foram obrigados a vrias reencarnaes desofrimento. Mortos na correnteza do rio, perambularam pelas regiesdo Umbral e renasceram, sofrendo horrores, com a pele tostada nasprovaes da lepra. Um dependia do outro para a conquista doprogresso espiritual. Mas poucos escolheram a redeno pelotrabalho aos sofredores. A maioria ainda orgulhosa preferiu enclau-

    surar-se na prpria teimosia e ir pagando as dvidas com a dor.Iccius, o comandante, e Acauno, o subcomandante das foras

    gaulesas, pelos laos de afeto que os prendiam, depois do curso desofrimento na escola da lepra na Europa, juntos, foram renascer noano de 204 da era crist, numa aldeia de leprosos na frica Negra.Levaram alguns sculos para se livrar dos pesadelos noturnos,lembranas de mais de cinqenta anos no Umbral. Quando

    adormeciam, viam homens brancos com a pele negra, queimados

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    por eles ou pelos seus comandados. " necessrio que venha oescndalo, mas ai daquele por quem o escndalo vier..."

    Iccius, o comandante, no torturava diretamente os prisioneiros,mas seus soldados usavam da crueldade, sem punio. Quemcomanda tem a responsabilidade sobre seus ombros, e quem imita

    Pilatos, lavando as mos, sofrer todas as punies que a suafraqueza originou. O comandante tem que resolver os problemasnecessrios para dominar e disciplinar os comandados, como um paiamoroso faz com a famlia. Os lderes no tm o perdo da justiase no desempenharem bem as suas funes de chefe, por issoambos sofreram torturas com a pele queimada pela lepra.

    Na frica, auxiliavam os nativos na confeco de armas de caa ena construo de arados de madeira, que multiplicavam as colheitas.O trabalho lentamente lhes foi creditando conquistas, atravs daMisericrdia Divina. Outros, do grupo dos Lees, escrevem com aprpria vida algumas histrias de amor, trabalhando no caminho dossculos. Vo descontando, da folha dos graves delitos, os crditosque adquiriam nos sacrifcios do amor.

    Portadores de lepra, durante seis perodos reencarnatrios, osofrimento pouco lhes modificava nos valores arraigados no perodo

    dos Lees. Muito ainda lhes restava fazer, diante da coletividade quelesaram. Quantas crianas tiveram seu futuro prejudicado,truncando-lhes a evoluo do esprito. Filhos ficaram sem aorientao da me, alterando profundamente seus planos deburilamento espiritual baseado na presena materna, no lar. Ohomem leva consigo, e dentro de si, a histria da prpria evoluoespiritual.

    Outros do batalho foram renascer em terras distantes da Europa,

    mas atrelados aos compromissos com os espritos que foram suasvtimas nas Glias. A sabedoria divina, s vezes, obriga o devedor aseguir o credor, para ajud-lo na ascenso. Dentro de cada espritoest gravado, por processos da mente, o caminho que o devedordeve trilhar para se superar. Conforme vai se aperfeioando nocaminho infinito, mudam na sua intimidade as caractersticas daalma, refletindo as lies recebidas. Muitos homens rebeldes

    chamam essas lies de sofrimento; os mais sbios chamam-nas deexperincias eternas.

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    Para que um grupo devedor possa resgatar seus delitos, muitasvezes o grupo se separa, como estudantes que vo aprender emescolas distantes e mais tarde retornam juntos mesma sala deaula, a fim de serem examinados pelos mestres nas duras provasplanetrias, de acordo com os erros que cometeram.

    5 - REENCONTROS

    Assim, no ano de 1492, alguns do grupo dos Lees, mais dequinze deles, necessitando aprender ou sofrer para valorizar a civili-zao que desprezaram na Europa, se encontravam nas caravelasSanta Maria, Pinta e Nina, comandadas pelo missionrio do futuro,

    Cristvo Colombo. Desembarcaram em Cuba e, ali, alguns foramdeixados quando a esquadra retornou Europa.

    Os sofrimentos, novas idas e vindas Terra e ao mundo espiritu-al, vo levar muitos dos culpados a alguns pases que comeavam ase delinear como naes na Amrica do Sul, pases de lngua espa-nhola. A sabedoria divina facilitava o aprendizado da lngua espa-nhola aos devedores iberos e gauleses, que tinham no subconscien-

    te espiritual lembranas de lnguas que se desenvolveram posteri-ormente ao perodo das Glias. Alguns deles comearam a progredirintelectualmente e, a partir do ano de 1871, mais de dezenove scu-los depois daquelas batalhas sangrentas, voltaram ao palco da vidanum pas culto, mas ainda violento, chamado Argentina.

    Afinidades espirituais e semelhanas culturais atraem os mem-bros formadores de uma coletividade. Muitos deles cresceram emcultura, mas se esqueceram da compaixo e do amor, desenvolven-

    do apenas uma das asas que elevam o homem s alturas espiritu-ais. No conhecimento, caminhavam bem; no amor, deixavam passaras oportunidades de aperfeioamento, esquecidos de que, de possede apenas uma asa, no se pode alar o vo da elevao espiritual.

    Iccius e Acauno dedicaram-se vida militar. O primeiro na Argen-tina e o antigo companheiro no Uruguai. Outros do grupo eram pro-fessores, agricultores, tipgrafos, engenheiros, aproveitando mais davida do que oferecendo a ela seus esforos espirituais, na aquisiode crditos diante da contabilidade divina. Nada que os destacasse,naquelas decises em que o homem faz a mudana do seu estado

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    evolutivo para tomar de assalto um plano espiritual mais elevado. Osanos foram passando e, apesar dos sofrimentos redentores, parte dadvida do passado continuou guardada nos cofres da conscincia.No apenas o sofrimento que anula o dbito, principalmente oamor que reconstri o que foi destrudo. Cabe ao que destruiu refa-

    zer o caminho para seguir com a conscincia em paz. Viver por vi-ver, os animais tambm vivem. Ao homem exigido um pouco mais:que ele viva na plenitude da prpria conscincia para planar no voascensional, alm e acima das imperfeies espirituais limitantes.Quanto mais sofrer um esprito, mais a sabedoria divina lhe exigirque aplique o conhecimento recebido para auxiliar a outros sofredo-res. O viver por viver, comer e beber, deixando a vida passar, faz-nos acumular dbitos diversificados, que se acrescentam de jurosdolorosos diante da contabilidade divina.

    Corria o ano de 1931. Iccius - agora Mrio - encontrou um grupode turistas brasileiros em Buenos Aires e afeioou-se a uma jovembrasileira, com traos de espanhola garbosa e atraente. Junto com ogrupo, guiado por ela, dirigiram-se a Montevidu. Os brasileiros e oargentino ficaram maravilhados com a pequena capital uruguaia,numa poca em que a exportao de carne trazia divisas para aque-

    le pas. O acaso, que no existe, fez o grupo de jovens passear emaprazvel local que comeava a tomar forma, na capital uruguaia, oParque de la Carretera.

    Como se os esperasse, sentado em um banco, Acauno viu o gru-po aproximar-se, pedindo-lhe informaes sobre pontos tursticos dacapital. Ao responder, comeou a gaguejar. Uma morena, Marta Al-buquerque, sorriu e zombou, dizendo que o estudante uruguaio nosabia mais falar espanhol. As gargalhadas amenizaram a tenso do

    encontro. Ao dirigir-lhe a palavra, Acauno parecia conhec-la. Amente, com rapidez, vagou num passado muito distante, penetran-do-lhe o subconsciente, reavivando cenas rpidas de sonhos cons-tantes que tinha com batalhas nos campos da Europa. No embaraopara explicar-lhes as direes, intempestivamente, levantou e ofere-ceu-se para acompanh-los.

    Comeam as brincadeiras dos jovens. Marta Albuquerque afei-

    oa-se a Acauno, agora vestido com a identidade de DomingoGonzales, jovem de Montevidu. Os passeios os aproximam; o fim-

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    de-semana juntos estreita as relaes. As brasileiras voltam ao Bra-sil; o moo uruguaio e o argentino tornam-se grandes amigos, co-municam-se e visitam-se constantemente.

    No Brasil, a vida conduzia as jovens pelos seus caminhos, en-quanto cartas, telegramas, telefonemas, to difceis poca, os a-

    proximavam. Um dia, Iccius e Acauno, ou Mrio e Domingo, resolve-ram pagar a visita que lhes fizeram as brasileiras e viajaram ao Bra-sil. Uma srie de acontecimentos ia empurrando os quatro jovens nadireo de relacionamentos firmes.

    A sabedoria infinita, em nome do amor, ia montando o palco davida com aqueles jovens, que se reencontraram aparentemente poracaso. Os dias foram passando e direcionando os destinos dospersonagens para aprenderem a respeito da vida. As vrias idas evindas acabaram levando os quatro jovens ao altar da Igreja NossaSenhora do Perptuo Socorro, na cidade de So Paulo.

    Tendo as esposas nascido no Brasil, as leis do pas permitiamque o argentino e o uruguaio se tornassem cidados brasileiros.Ambos decidiram continuar na carreira militar. Mas, por seremestrangeiros, no conseguiam promoes no Exrcito. Chegaramambos, depois de muito trabalho, ao posto de cabo. A justia estava

    dando lies de humildade aos que, mais de vinte sculos atrs,comandavam sem conter a avalanche de violncia dentro da prpriaalma: saqueavam, queimavam, violentavam e raptavam mulheres-mes, lanando-as no desespero. Os excessos do passadoresultavam-lhes agora numa vida de militares modestos,sobrevivendo com pequeno soldo.

    Passado o sonho romntico, que leva muitos jovens ao matrim-nio, o descontentamento comeou a minar a felicidade dos casais.

    Ao mesmo tempo, s esposas retornavam as lembranas do dioaos maridos que estavam depositadas no subconsciente, desdepocas muito recuadas. Os personagens eram os mesmos, apesardos corpos diferentes. Eram as mesmas mulheres, arrancadas dosfilhos nas cidades invadidas. Eram os mesmos soldados quecomandavam as tropas cruis do batalho dos Lees, na Glia. Advida caminha com o devedor por sculos, ensina a Sabedoria, e

    determina que os afetos se sublimem, enquanto a esponja do

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    perdo, de um lado, e a reconciliao com a prpria conscincia, deoutro, reorganizam os sentimentos.

    Dentro de ambos os lares o descontentamento comeava a criaratritos por causas sem importncia, nas ocorrncias dirias. As duasamigas, Marli e Marta, saam juntas para tudo: compras, cinemas,

    consultas. Um dia, andando por uma das ruas do bairro, Marli sentia-se irritada, odienta mesmo. A amiga-irm, carinhosamente apoiadano seu brao, percebeu-lhe o estado de alma, quando a esposa deMrio disparou a chicotada:

    - Marta, escondi de voc, mas estou grvida.A amiga pressentiu que sombras comeavam a enegrecer as te-

    las sutis do destino. Os dias passavam montonos. Marli relatava companheira que aumentava a averso ao marido, conforme pro-gredia a gravidez, chegando ao dio. Marta tambm engravidara,com diferena de seis meses da amiga. O dio na casa de Domingotambm comeava a fazer seu ninho.

    Certa manh, enquanto faziam compras numa feira livre do bairro,um jovem atltico e elegante sorriu abertamente para Marli. A futurame corou, olhou para Marta e a emoo dominou-lhe. Sem perce-ber, disse alto amiga:

    - ele!- E ele, quem? - retrucou Marta.Conforme o moo as ultrapassava, virou-se e, atrevidamente, bei-

    jou o rosto de Marli. Ambas pararam e Marta sentiu o mundo desa-bar. Comeou a entender por que, alguns meses atrs, quando osmaridos haviam viajado para instrues de guerra, numa regio friae montanhosa do interior de So Paulo, estranhamente, Marli saasem a sua companhia. Muito emocionada, Marli no conseguia en-

    ganar a companheira. Comeou a transpirar intensamente e apoiou-se no ombro da amiga. Um feirante que as conhecia ajudou-a a sesentar e deu-lhe um copo de gua aucarada. O moo encostou-se cadeira, gaguejando:

    - Est grande, hein! As horas boas voam. J faz quase sete me-ses...

    Marta suspirou fundo:

    - J entendi...

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    Marli melhorou, o moo se afastou e as amigas seguiram para ca-sa, levando as sacolas de frutas e legumes. Marli convidou Marta aentrar. Sentaram-se, saboreando um cafezinho. O filho que ela car-regava no ventre no era de Mrio; Marta, tambm grvida,empalideceu e momentaneamente recostou a cabea na cadeira al-

    ta, de madeira velha.Marli, muito plida, percebeu que algum lhe falava aos ouvidos:- Dentro do lar, quando a semente do descontentamento comea

    a germinar, os frutos do dio se evidenciam. Os inimigos se reen-contram para acerto dos dbitos. O dio que sentem reflexo daloucura que praticaram nos campos de guerra, h vinte sculos. Ospais que desprezaram a maternidade alheia recebem o desprezodos filheis.

    Marli voltou ao estado normal de conscincia. Sacudiu a cabea,endireitou-se na cadeira, sem entender o que se passava:

    - Meu Deus, cada pensamento! Devem ser coisas da gravidez.A esposa de Domingo despediu-se aps o lanche. Quando ia su-

    bindo a escada de sua casa, Marli escutou novamente a mesma voz,como se falasse da intimidade do prprio crebro:

    - Vou cortar a cabea do louco que h sculos me destruiu; ele

    vai me pagar...Com muita tontura, andou at o quarto e sentou-se na cama:- Meu Deus, a gravidez faz tanta coisa diferente no pensamento,

    parece loucura. Quem este soldado de armadura que me apareceuna cabea? Isso tudo fruto do cansao...

    No outro lado da vida - na verdadeira vida - a sabedoria reuniu v-timas e algozes diante da justia de Deus. Aps o nascimento dobeb de Marli, aquele ano passou rpido.

    A averso ao marido aumentou muito. Mrio, tambm, mal supor-tava pegar sua criana no colo; s vezes, tinha mpetos de jog-lacontra a parede. Ele sempre se lembrava: "Numa casa de caboclo,um pouco, dois bom, trs demais...", msica popular que, napoca, era um hino de amor. No entanto, em seu lar, "um era pouco,dois no era bom e trs era muito pior".

    Ah! O amor bom! Quando coraes que se amam juntam-se sob

    o mesmo teto, a alegria se aninha sob o telhado. Um filho a bn-o desse amor. No importam os problemas, a esperana e a ale-

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    gria transformam o mais modesto lar em um palcio. O paraso naTerra na casinha humilde, cheia de amor, enfeitada por dlias erosas coloridas, espalhando perfume pela vizinhana.

    6 - O PASSADO E A GUERRACorria o ano de 1944, nos dias em que a mais terrvel das guerras

    ensangentava os campos de toda Europa. A Segunda GuerraMundial, como lobo feroz, rugia devoradora, destroando famlias,cidades e pases, ameaando o futuro da humanidade. O Brasil, en-to, era dirigido pelo pulso firme de Getlio Dornelles Vargas, umgrande estadista. O presidente, cujo corao era impregnado por

    profundo amor pela ptria brasileira, pressionado pelos donos dopoder e por manifestaes populares incitadas pela mdia facciosa,quase chorando, viu-se obrigado a assinar a declarao de guerraaos pases do Eixo, em 1942. A Argentina, ptria de Mrio, inteligen-temente, permaneceu neutra, durante todo o conflito. Vendia produ-tos agrcolas e matrias-primas, tanto para as foras aliadas, quantopara os pases do Eixo: Alemanha, Itlia e Japo.

    Getlio Vargas percebeu o erro da sua deciso logo nos primeiroscombates brasileiros na Itlia. A primeira vtima foi seu filho. Apsreceber a notcia, o presidente, que defendia com todas as forasnossas riquezas, abaixou a cabea, emocionado, e, valente,comeou a orar diante dos mveis antigos e escuros do seu quartono palcio do Catete. Pediu a Deus que protegesse nossossoldados, nos campos de batalha da velha Europa. Rezava,pensando na dor que, como ele, os pais sentiriam ao perder seus

    filhos em plena mocidade, na guerra causada pela loucura doslderes mundiais.As notcias do conflito que se espalhava por todo o planeta

    assustavam os jovens, principalmente os da carreira militar. Um dia,Mrio chega a sua casa com a convocao para a guerra. Logodepois, Domingo, esbaforido, chega casa do amigo com o mesmoimpresso do Ministrio da Guerra, convocando-o em regime deurgncia, ante o feriado prolongado de 7 de setembro. As mulheresse esforaram para no demonstrar felicidade: estariam livres poralgum tempo. Poucos dias depois, junto com as crianas, foram

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    estao da Luz para as despedidas dos pracinhas brasileiros, queviajariam, primeiro, at o porto de Santos.

    Os dois soldados, promovidos a cabo, mudaram de feio. O tremchegou bufando na gare, sob a abbada de ferro artisticamentetrabalhada, soltando fumaa negra que atingiu o teto de ao feito na

    Inglaterra. Mrio olhou para cima e admirou aquele trabalho perfeito.Muitos vages estavam engatados na mquina possante e logo seencheram de jovens vestidos de verde, com um emblema amarelo,nos ombros: uma cobra fumando cachimbo. Mrio e Domingoalongaram seus olhares entre as mos que acenavam adeuses.Conseguiram ver as esposas com os filhos no colo, e seguiram...

    O trem atravessou a serra e chegou ao porto. O navio, feitocavalo nervoso, pintava o cu com uma esteira de fumaa negra. E,na manh fria, foi engolindo batalhes e mais batalhes de soldadoscom o bornal verde s costas, o fuzil, a baioneta, o cantil na cinturae, sempre, a figura romntica da cobra verde e amarela com ocachimbo na boca. Horas depois, um apito melanclico, transmitindoprofunda tristeza, fez a hlice acelerar, criando ondas fortes quebateram contra as paredes do cais. A mquina de navegar dirigiu aproa para a sada da barra do porto de Santos e rumou para o Rio

    de JaneiroNo cais e nas praias, nos canais e jardins prximos, por ondepassava a nau, acenos de adeuses e bandeiras desfraldadaspintavam a melancolia do povo. Mrio parou, olhou tudo aquilo e,silenciosamente, virou-se para o companheiro. Domingo colocou amo no ombro do amigo e, no silncio, percebeu que aquela cenatinha um perfume de adeus que lhes tocava o corao.

    As esposas ficaram na cidade de So Paulo com os filhos,

    enquanto os maridos seguiam para a guerra. Havia no ar um mistode ansiedade, de esperana e de patriotismo pulsando no coraodos moos brasileiros. Naqueles dias tumultuosos, suas vidasestavam profundamente influenciadas pelo dio de lderes mundiais,desequilibrados nas suas ambies de poder. De ambos os lados doconflito, os interesses de dominao esqueciam a dignidadehumana. Nas reunies, secretas ou abertas, entre dirigentes de

    vrias naes, tentava-se esconder os comportamentos maissrdidos da alma humana.

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    Mrio entrou no navio levado pela responsabilidade de sercidado brasileiro. Dentro do peito, porm, o orgulho por ser pai deum brasileirinho empurrava-o para as trincheiras europias. Docesiluses, onde a alma tenta planar alm e acima das prpriasimperfeies e se quebra em pleno vo. As asas do idealismo s

    vezes se esfacelam nas montanhas do engano e da falsidade. Ascobranas dos crimes de guerra, na Glia Cisalpina, voltavam agoraatravs do algoz espiritual camuflado na figura do filho. A plantaode dor e destruio que Domingo fez nos campos da Glia eraparecida com a de Mrio. A Lei mandava que ambos colhessemfrutos semelhantes de dor, pobreza e dio.

    Para eles, a guerra comeou quando puseram os ps na escadaque os levava ao tombadilho do navio. Um silncio profundo se fezquando a Banda dos Fuzileiros Navais, aquartelada no porto deSantos, iniciou a execuo do Hino Nacional Brasileiro. Os sorrisos eas brincadeiras durante a viagem de trem, atravessando a serra doMar, foram substitudos por profunda preocupao. A belonavedeixou o porto de Santos em direo ao Rio de Janeiro. Em seguida,o maestro da Banda dos Fuzileiros regeu seus msicos, executandoum lindo hino, cheio de romantismo:

    Qual cisne branco que em noite de luaVai deslizando, num lago azul,O meu navio tambm flutuaNos verdes mares, de norte a sul.

    Linda galera que, em noite apagada,Vai navegando, num mar imenso,

    Nos traz saudades da terra amada,Da ptria minha em que tanto penso.

    Qual linda gara que a vai cortando os aresVai navegando sob um belo cu de anil.Minha galera tambm vai cruzando os mares,Os verdes mares, os mares verdes do Brasil.

    Quanta alegria nos traz a volta

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    A nossa ptria do corao.Dada por finda a nossa rotaTemos cumprido nossa misso.

    A embarcao j navegava bem distante de Santos, to paulista e

    to patriota, onde nasceu a famlia ilustre dos Andradas, queinspiraram a grandeza do imprio do Brasil.Algum tempo depois, enquanto o navio balanava sobre as

    ondas, o maestro orientou a banda para outro hino notvel, que s asensibilidade de um brasileiro - Guilherme de Almeida - poderiaproduzir. As notas, vibrando no ar, carregavam palavras de amor:

    Voc sabe de onde eu venho?Venho do morro, do engenho,Das selvas, dos cafezais,Da boa terra do coco,Da choupana onde um pouco,Dois bom, trs demais.Venho das praias sedosas,Das montanhas alterosas,

    Dos pampas, do seringal,Das margens crespas dos rios,Dos verdes mares braviosDa minha terra natal...

    ... e continuava a splica do corao brasileiro que no aceitaviolncia.

    Por mais terras que eu percorra,No permita Deus que eu morraSem que volte para l;Sem que leve por divisaEsse 'V que simbolizaA vitria que vir.Nossa vitria final,

    Que a mira do meu fuzil,A rao do meu bornal,

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    A gua do meu cantil,As asas do meu ideal,A glria do meu Brasil.

    Eu venho da minha terra,

    Da casa branca da serra,E do luar do meu serto,Venho da minha Maria,Cujo nome principiaNa palma da minha mo.Braos mornos de Moema,Lbios de mel de IracemaEstendidos para mim. minha terra queridaDa Senhora AparecidaE do Senhor do Bonfim!

    Por mais terras que eu percorra,No permita Deus que eu morraSem que volte para l;

    Sem que leve por divisaEsse 'V que simbolizaA vitria que vir.Nossa vitria final,Que a mira do meu fuzil,A rao do meu bornal,A gua do meu cantil,As asas do meu ideal,

    A glria do meu Brasil.

    Voc sabe de onde eu venho? de uma ptria que eu tenhoNo bojo do meu violoQue, de viver em meu peito,Foi at tomando jeito

    De um enorme corao.Deixei l atrs meu terreiro,

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    Meu limo, meu limoeiro,Meu p de jacarand,Minha casa pequenina,L no alto da colinaOnde canta o sabi.

    Por mais terras que eu percorra,No permita Deus que eu morraSem que volte para l;Sem que leve por divisaEsse 'V que simbolizaA vitria que vir.Nossa vitria final,Que a mira do meu fuzil,A rao do meu bornal,A gua do meu cantil,As asas do meu ideal,A glria do meu Brasil.

    Venho do alm desse monte

    Que ainda azula o horizonte,Onde o nosso amor nasceu;Do rancho que tinha ao ladoUm coqueiro que, coitado,De saudade j morreu.Venho do verde mais belo,Do mais dourado amarelo,Do azul mais cheio de luz,

    Cheio de estrelas prateadasQue se ajoelham deslumbradas,Fazendo o sinal da cruz !

    Por mais terras que eu percorra,No permita Deus que eu morraSem que volte para l;

    Sem que leve por divisaEsse 'V que simboliza

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    A vitria que vir.Nossa vitria final,Que a mira do meu fuzil,A rao do meu bornal,A gua do meu cantil,

    As asas do meu ideal,A glria do meu Brasil.

    Aquelas notas romnticas ecoavam nas ondas do mar, levando amensagem da expedio brasileira.

    Chegaram ao Rio de Janeiro. No cais, os esperavam naviosestadunidenses de grande capacidade de defesa para levarem oshomens e os equipamentos pesados at a Europa. Quando o naviopartiu, Mrio e Domingo, apesar de estrangeiros, sentiam o quantoamavam o pas que deixavam para trs. Mas a sensao deinsegurana, como se bombas potentes estivessem sob o navio,causava-lhes medo. Navegar, naquelas pocas, tornara-seempreitada muito arriscada. A tenso aumentava dentro daembarcao, quanto mais se aproximavam das costas do VelhoContinente. Pelo estreito de Gibraltar, adentraram o mar

    Mediterrneo, como imenso lago a banhar as costas da frica e demuitos pases da Europa. No Mediterrneo, como se fora a esculturade uma gigantesca bota, estava a velha Itlia, antigo palco de lutasdas legies romanas, do Imprio dominador, e dos guerreiros iberos,celtas, gauleses e helvcios.

    Conforme se aproximavam do porto de Npoles, Domingo e Mriopercebiam dominar-lhes a sensao do 'j visto', que no sabiamdireito de onde vinha. Eram recordaes que nasciam das

    profundezas do ser, no subconsciente espiritual, onde ficamgravadas, eternamente, as lembranas dos nossos erros passados,quando nos desviamos dos caminhos do amor. Aquela regioitaliana fazia parte da antiga Glia, onde aqueles espritos, que alihaviam semeado dor e desespero, voltavam para colher desesperoe dor. Fecharam-se as cortinas do palco da guerra na Glia, masrestaram, guardadas no corao, lies que lhes serviriam de farol

    para as vidas futuras.

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    Quanto mais prximos s terras da Itlia, mais a inseguranaaumentava. Perto do porto de Npoles, uma esquadrilha de aviesda Luftwaffe, a fora area alem, passa voando baixo, em direoao norte. O smbolo do nazismo sob as asas e nas laterais dasmquinas voadoras, feitas para matar e destruir, d uma profunda

    sensao de medo aos poucos soldados que estavam trabalhandono tombadilho do navio. Mrio e Domingo sentem exatamente amesma comoo dos habitantes das vilas e cidades da Glia,quando percebiam, no horizonte, o estandarte verde, vermelho epreto, com a figura de um leo, de aspecto feroz.

    Subitamente, os dois amigos experimentam um sentimentoestranho que parece envolver-lhes as entranhas do subconsciente.Como uma fasca mental, surgem-lhes cenas rpidas de combatesnos campos da Glia Cisalpina, sob o comando das foras romanas.Coincidentemente, estavam, agora, sob o comando dos romanosmodernos, muito parecidos com os de Roma, o Quinto ExrcitoEstadunidense. Ficaram petrificados, esperando que a esquadrilhaalem voltasse, fazendo um arco nos cus para atac-los. Mas osavies seguiram, deixando no horizonte pequenos pontos, que foramdesaparecendo, como se tragados pelas nuvens daquela manh de

    setembro.A saudade do Brasil, apesar do pouco tempo de ausncia, doa-lhes no peito, machucando o corao. Palavras do hino vieram-lhes mente, como se sopradas pelo vento:

    "Voc sabe de onde eu venho, venho do morro, do engenho... Pormais terras que eu percorra, no permita Deus que eu morra semque eu volte para l..."

    Passado o susto com as aeronaves alems, ainda havia a

    possibilidade dos ataques de submarinos. Os avies, visveis,amedrontavam menos. A tripulao do navio e os soldadosbrasileiros colocaram os coletes salva-vidas e continuaram rumandoem direo a Npoles. Um silncio pesado tomou conta daembarcao. Falava-se o mnimo necessrio. A tenso crescia. Derepente, a fumaa das chamins aumentou, acionando o apito queavisava da aproximao do porto, j sob o domnio das foras

    aliadas, juntamente com a cidade. Havia, no cais, dezenas deembarcaes - encouraados, destrieres e, de vez em quando, um

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    ou outro submarino vindo tona, na tarefa de proteger o lugar contranovos barcos inimigos.

    O general Mascarenhas de Moraes, comandante das forasbrasileiras, l estava, espera de nossos valentes rapazes.Enquanto a embarcao ancorava, cordas gigantescas eram

    amarradas a troncos de ao fincados nas muralhas de cimento docais. Vinte tiros de canho saudaram a chegada. Assim que asarmas silenciaram, a banda a bordo comeou a tocar o HinoNacional Brasileiro. A soldadesca, carregando, nos ombros e nascostas, os embornais, os cantis, os fuzis e todo o equipamento deguerra, tomou o tombadilho. Em seguida, comearam a cantar oHino Bandeira:

    Salve lindo pendo da esperana!Salve smbolo augusto da paz!Tua nobre presena lembranaA grandeza da Ptria nos traz.

    Recebe o afeto que se encerra,Em nosso peito juvenil,

    Querido smbolo da terra,Da amada terra do Brasil!

    Em teu seio formoso retratasEste cu de purssimo azul,A verdura sem par destas matasE o esplendor do Cruzeiro do Sul.

    Recebe o afeto que se encerraEm nosso peito juvenil,Querido smbolo da terra,Da amada terra do Brasil!

    Contemplando o teu vulto sagrado,Compreendemos o nosso dever,

    E o Brasil, por seus filhos amado,poderoso e feliz h de ser!

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    Recebe o afeto que se encerraEm nosso peito juvenil,Querido smbolo da terra,Da amada terra do Brasil!

    Sobre a imensa nao brasileira,Nos momentos de festa ou de dor,Paira sempre, sagrada bandeiraPavilho da justia e do amor!

    Recebe o afeto que se encerraEm nosso peito juvenil,Querido smbolo da terra,Da amada terra do Brasil!

    Enquanto isso, era hasteada enorme bandeira verde e amarela,tremulando ao vento da Itlia. Os soldados sentiam-se emocionados.Logo depois, ouviu-se:

    "Voc sabe de onde eu venho, venho do morro, do engenho, das

    selvas, dos cafezais..." E seguia: "Por mais terras que eu percorra,no permita Deus que eu morra..."De repente, como se surgisse do mar, uma esquadrilha de avies

    alemes comeou a cuspir fogo das metralhadoras, enquantobombas levantavam enormes borrifos de gua ao redor do navio. Aartilharia antiarea, montada pelos norte-americanos no porto,respondeu rpida. Logo, a primeira nuvem de fumaa, enovelando-se no ar, aponta um avio em parafuso, em chamas, caindo nas

    guas. Ao tocar a superfcie do mar, ele explode, jogando, sobre otombadilho do navio estadunidense, jorros de gua, leo negro efumaa. O bombardeio continua e a artilharia cospe fogo para oscus. Outro avio rodopia no ar e tambm explode. O leo e ocombustvel derramados misturam-se na gua, provocando umincndio. Juntos, dois avies do um vo rasante ao navio, lanandobombas. O fogo, dirigido aos cus em exploses ensurdecedoras,

    derruba outro avio. Mrio v o piloto alemo sendo ejetado dacabine, como um pacote, e o corpo resvalando na superfcie da

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    gua, em vrias cambalhotas. O pra-quedas no pde ser utilizadodevido pouca altura. Domingo avista o inimigo, a menos de cemmetros do navio, boiando com o pescoo jogado para trs, a cabeaquase desarticulada do peito. O antigo soldado ibrico olha aquelacena dramtica e sente um tremor de medo. No meio daquela

    barulheira infernal, percebe que, do outro lado da batalha, tambm ajuventude alem estava sendo destruda.O que restou da esquadrilha bateu em retirada, desaparecendo

    no horizonte. No porto, fogueiras aqui e ali, queimam, alimentadaspelo leo diesel dos depsitos perfurados. A fumaa negra e ftidad um aspecto de destruio. Os moos, que haviam se deitadorapidamente no tombadilho para se protegerem, levantam-se e, aosinal de vitria, comearam a gritar, festejando. Na fileira da extremaesquerda, na frente, quatro brasileiros no se levantaram. Uma poade sangue, em cada corpo, marcava, sobre a chapa de ao, o localonde as balas das metralhadoras alems haviam perfurado coraesbrasileiros. Alguns correram para auxiliar os quatro feridos. Osmdicos e enfermeiros os examinam e, balanando a cabea, fazemum sinal negativo - os quatro estavam mortos. O acontecimentoabalou o moral da tropa. Mrio e Domingo tomam conscincia de

    que o batismo de fogo lhes anunciava muito sacrifcio e dor nastrilhas da guerra.Desembarcados, os moos foram transferidos para a regio mais

    ao norte, sob o comando dos militares estadunidenses. Seguem emdireo a monte Castelo, reduto resistente de tropas alems muitobem equipadas. Aquartelados, depois so distribudos pelastrincheiras do campo de batalha.

    Muitos soldados brasileiros que embarcaram no Rio de Janeiro

    vinham do Nordeste. Hbeis rastejadores, pareciam lagartos dascaatingas, com os punhais boca, pequeninos, mas extremamentefortes e valentes, subindo pelo morro, raspando as barrigas naspedras da montanha, abaixados entre as balas das metralhadoras,que zuniam sobre seus capacetes de ao. Os nordestinos, depois demais de dez dias de combates ferrenhos, estavam sendo atacadospelos canhes e metralhadoras alems assentados firmemente nas

    rochas da montanha. Um paraibano, Raimundo Nonato Ferreira,consegue passar sob as balas inimigas que martelavam os ouvidos

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    brasileiros vinte e quatro horas por dia. O soldado, muito gil, entrana casamata alem e, com golpe certeiro, mata o atirador dametralhadora. Toma posse dela. Fica de tocaia por muito tempo,estudando como atacar os alemes. Com a astcia da ona dasselvas brasileiras, aprendeu, rapidamente, como manejar a mquina.

    Raimundo empurra para o lado o corpo do soldado morto, vira aboca da gigantesca metralhadora contra as linhas inimigas e comeaa cuspir balas sobre a artilharia alem. Enquanto isso, nos flancosda retaguarda, outros brasileiros se arrastavam para atacar, pelascostas, outros metralhadores alemes. Os soldados-atletasgermnicos so mortos pela agilidade e astcia dos soldados doNordeste brasileiro.

    Aps mais de dois meses de batalha, a neve e o frio da Itliaatacam nossas tropas impiedosamente. Cobertores e mantasplsticas, oferecidos pelo Quinto Exrcito Estadunidense, protegiamos valentes brasileiros. Naquela noite, o silncio imperava. Oscanhes haviam se calado, as metralhadoras, tambm. A nevediminuiu e a lua, linda, derramava suas bnos de prata sobre ocampo dos sofredores humanos. Aproveitando a luz natural, osartilheiros, soldados brasileiros que haviam assaltado as casamatas

    e dominado algumas metralhadoras e canhes, comearam a cuspirfogo sobre os alemes. Pressionados pela violncia do ataque dasprprias metralhadoras, que os destroem ao p do monte, muitosalemes vo se entregando como prisioneiros. Mais quinze dias debatalha selam a vitria brasileira, naquele flanco do monte Castelo.Porm, jogados entre as pedras e as trincheiras, corpos fardados deverde-escuro esto cados s centenas. Bem prximos, um deitadode bruos e o outro de costas, com o peito salpicado de manchas de

    sangue, dois corpos atlticos jazem sobre as pedras do monteCastelo - o antigo comandante e o subcomandante do batalho dosLees. Estava decretado ali o fim de mais uma etapa nas atribuladasexistncias de Iccius, ou Mrio, e Acauno, ou Domingo.

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    7- FERIDO NA NEVE

    A neve voltou a cair, enquanto os padioleiros da Cruz VermelhaBrasileira recolhiam os corpos. Encontraram Mrio sem vida.

    Domingo gemia, gravemente ferido, com grande hemorragia. Ocapito-mdico, carioca competente, percebeu que Domingo aindaestava vivo. Jogou-lhe sobre o corpo um cobertor plstico,protegendo-o da neve. Fez alguns curativos e colocou-o na maca,para que dois padioleiros o levassem ao pequeno hospital decampanha, todo de lona, montado no sop do monte Castelo. Ali, oferido amargaria vinte e dois dias de febre e dores terrveis,delirando. Descrevia, aos que estavam perto, cenas de batalhas,mas no com metralhadoras e canhes, e sim com cavalos,armaduras, espadas, lanas e chicotes. Narrava, em mincias, acarnificina durante as lutas. Eram as cenas em que participara nasguerras da Glia antiga. Soldados, enfermeiros prestavam atenos descries e at se divertiam com o delrio do doente. Numamanh, o capito-mdico aproximou-se e percebeu-lhe a febrealtssima. Os msculos tensos, a nuca rgida. Domingo havia

    contrado ttano, devido aos ferimentos.Enquanto isso, Mrio chegava ao mundo espiritual e, surpreso,via cenas em que ele raptava mulheres e as violentava. Dentre elas,estava Marli. Era um rosto pouco diferente da atual esposa, mas obrilho dos olhos e o trejeito da mulher gaulesa mostravam tratar-sedo mesmo esprito.

    Domingo, inconsciente, seu esprito semiliberto no mundoespiritual, percebia a seqncia educativa das suas vrias

    existncias: desde as Glias, depois leproso na frica, compassagens do mesmo sofrimento redentor, na Europa, at tornar-sesoldado pobre do Exrcito brasileiro, agora ferido no rigoroso invernoitaliano, sob uma tenda de plstico. Mrio havia partido sem tantosofrimento. Domingo, porm, agarrava-se ao corpo, que sedecompunha numa infeco, agravada pelo ttano. O capito-mdico tentava dar-lhe gua, mas a musculatura da face o impedia

    de abrir a boca. O mdico, ento, usava uma seringa volumosa parainjetar o lquido por entre os dentes do moribundo. Pelo rdio

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    precrio, pediu que lhe enviassem um relaxante muscular.Conseguiu, assim, prolongar a vida do valente pracinha. Apesar dosesforos, contudo, a infeco progredia...

    Durante a Segunda Guerra, os antibiticos comeavam a serusados no combate s infeces. A penicilina, descoberta pelo

    missionrio da sade Alexander Fleming, comeava a salvar muitossoldados. Pelo rdio, o capito-mdico Macedo ordena que lhemandem rapidamente a medicao, pois havia muitos casos deinfeco. Apesar de medicado, o sofrimento de Domingo seprolonga. A doena vai se alastrando para algumas reas da perna ea necrose comea a aparecer. Ali mesmo, sob a tenda de lona, feita a amputao da perna direita, sem qualquer anestesia.Enquanto o mdico amputava e ligava os vasos, o espritorelembrava as cenas em que sua espada pesada cortava braos epernas dos inimigos.

    "A semeadura voluntria, mas a colheita obrigatria", eleouviu...

    No passado, usara machados de guerra e espadas para deceparbraos e pernas. No ano de 1944, nos limites da antiga Glia, eleera cortado pelas balas das metralhadoras e pelas tesouras e

    bisturis. Quase inconsciente, viu o auxiliar do cirurgio carregandosua perna para fora da tenda. Comeou a chorar. O coto da coxadoa-lhe profundamente.

    O capito, apesar de ter sido treinado para a guerra, no HospitalMarclio Dias, no Rio de Janeiro, comoveu-se diante do caso totriste. A ameaa de gangrena estava temporariamente afastada. Noentanto, dois dias aps a ci-rurgia, devido ao traumatismo, quandofugia das metralhadoras, um vaso lesado causa-lhe trombose na

    artria radial do brao direito. Surge nova rea de gangrena, e oantigo subcomandante perde um dos braos. Nova ameaa denecrose aparece na mo esquerda, que tem de ser amputada.

    Surgem novas infeces e novas amputaes. O mdicodedicado luta para salvar a vida daquele moo, principalmentesabendo-o nascido no Uruguai e defendendo o Brasil. Dentre osmembros, restava-lhe apenas a perna esquerda. Ligado ao corpo,

    mas j mergulhando no mundo espiritual, aquele esprito indomvelcomea a perceber que a nica maneira de progredir trabalhando

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    no bem. Cada ato de dio e agresso que executamos repercute atsculos mais tarde em nossas vidas.

    Chegam as tropas auxiliares, alguns brasileiros que haviam ficadoaquartelados, estrategicamente. Destroem canhes e outras armaspara que os inimigos no se sirvam delas. O capito decide levar

    Domingo para a cidade, em hospital de mais recursos, dominadopelos norte-americanos. Ele tinha um coto no lugar da perna direita,um coto no lugar do brao direito e o brao esquerdo cortado renteao ombro.

    Os dias vo passando, cheios de infortnios para os pracinhasbrasileiros. Domingo, naquele corpo sofrido, despede-se da vida. Naverdadeira vida, relembra sua histria: decepando, ferindo,amputando com machado de guerra, sem necessidade. Seu corpo,mutilado, enterrado no cemitrio de Pistia, ali ficou, juntamente comos de centenas de outros companheiros, testemunhando o absurdoda guerra, no vale cheio de cruzes brancas alinhadas, com nomesem placas verde e amarelas. A lio que brota dali que a justia ea bondade divinas do a cada um segundo suas obras.

    E a guerra cruel continuava. O medo diante da morte, noscoraes dos pracinhas, cedeu lugar a uma coragem sem fim. O

    exemplo de Raimundo Nonato Ferreira incentivou-lhes a bravura.Outros soldados, hbeis em manejar as lminas das peixeiras, agorasubstitudas por punhais do Quinto Exrcito Estadunidense,rastejavam durante a noite, por mais de cinco horas, sobre aspedras frias, no inverno da Itlia. As lagartixas humanas, como eramconhecidos os esfaqueadores, conquistavam vitrias muitopreciosas, o que os tornava dignos de admirao peloscomandantes estadunidenses. Aquele era um dos mais difceis

    pontos estratgicos a serem destrudos pelos aliados. Centenas desoldados de vrios pases, ali, haviam perecido, vtimas dos projteisdas metralhadoras e dos canhes alemes, entrincheirados nascasamatas.

    Os heris rastejavam na noite fria, dormiam sobre as pedras poralgum tempo e continuavam deslizando na escurido. Os inimigosno acreditavam pudesse algum ser humano sobreviver naquelas

    condies, por isso relaxavam a guarda. Da os brasileiros tinham avantagem do ataque de surpresa, na luta corpo-a-corpo.

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    Os pracinhas entrincheirados sofriam horrores, inclusive fome.Contavam com a ajuda dos aliados estadunidenses, que, nasmadrugadas, lanavam-lhes alimentos de pra-quedas. No entanto,apenas aqueles que caam dentro dos abrigos, ou bem prximos,podiam ser aproveitados. To intenso era o bombardeio que muitos

    soldados ficavam vrios dias sem sair das trincheiras. Numa delas,um soldado negro, cansado da imobilidade, levantou-se por umminuto, segurando uma carta. Imediatamente, teve a cabeadecepada por uma rajada de metralhadora e caiu, na borda datrincheira, com a carta manchada de sangue na mo.

    O inverno facilitava a conservao dos corpos mutilados pelosprojteis e quem visse as encostas do monte Castelo, cobertas deuniformes verdes, principalmente se fosse brasileiro, no conseguiriaficar sem se comover. Enquanto os rastejadores iam silenciando,uma por uma, as metralhadoras alems, centenas de corpos debrasileiros iriam encher as bocas famintas das covas do cemitrio dePistia.

    As cenas se repetiam na histria que se repete. Dois mil anosantes, na Glia, os romanos guerreavam contra tribos germnicas.No final do ano de 1944, os romanos modernos, os estadunidenses,

    instigando os antigos gauleses reencarnados, lutavam contra osalemes, descendentes das tribos germnicas. A dor seesparramava, parecendo que a alucinao do matar e do destruirtomava conta de toda a Terra. Das Glias, de 50 anos antes deCristo, at a Itlia, de 1944, vinte sculos haviam se passado emuito pouco amor ainda havia nos coraes...

    Do outro lado do Pacfico, as foras da violncia, numa manh desol de agosto de 1945, lanavam sobre o Japo o primeiro artefato

    atmico da histria humana. Trs dias depois, para humilhar o nobrepovo japons, os modernos romanos lanavam outra descargaatmica, matando instantaneamente mais de duzentas mil pessoas.

    Em monte Castelo e Pistia, o grupo de iberos das Gliasresgatava, como espritos, mais um pouco do saldo das dvidasgigantescas que haviam feito com a prpria conscincia. A vidamarca, nas pegadas do infrator das leis divinas, o caminho

    necessrio a trilhar, atravs dos sculos, para liberar o esprito daculpa pelos erros que o prendem ao passado. No sofrimento, ele

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    plana buscando a sublime perfeio, forjando a luz e a prpriagrandeza espiritual.

    Do outro lado da vida, enlouquecidos pela violncia, os espritosque perdiam os corpos se digladiavam ferozmente, sem saber bem oque lhes acontecera. O sentimento era de dor, desespero e dio.

    Tais cenas se multiplicavam pelos campos de toda Europa. Emfuno da sintonia mental de dio, os recm-chegados ao mundoespiritual eram atrados para lugares de noite eterna, ar pegajoso emido, sons tenebrosos e o ruido de seres horripilantes que habitamas cavernas escuras. Mesmo Dante Alighieri, em seu Inferno, noconseguiu descrever a realidade. O resgate longo, por isso a dorse prolonga quase indefinidamente na percepo do espritoendividado. Desse modo, o antigo grupo dos Lees seguiu, sofrendoas piores privaes.

    Passaram por mais de vinte reencarnaes, em vrios pases.Aprendendo a linguagem do amor universal. Cada membro dobatalho foi, paulatinamente, se aproximando do nosso pas, muitosdeles ren