um telescópio brasileiro nos andes

Click here to load reader

Post on 21-Jul-2016

267 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Pesquisa FAPESP - Ed. 169

TRANSCRIPT

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 3

    imagem do ms*

    a foto de uma esfera de poliestireno microscpica cercada por fibras de polmeros com dimetros equivalentes a 1/500 do de um fio de cabelo venceu um concurso anual promovido pela revista Science e pela National Science Foundation, dos Estados Unidos, cujo objetivo premiar imagens e ilustraes de beleza impactante e capazes de traduzir conceitos cientficos potencialmente difceis de compreender. os autores da foto, batizada de Save our Earth. Lets go green (Salve a nossa Terra. Vamos nos tornar verdes), so trs pesquisadores da Escola de Engenharia e Cincias aplicadas da Universidade Harvard e produziram a imagem com um microscpio de varredura eletrnica para demonstrar novas maneiras de controlar a automontagem de polmeros. Segundo eles, o resultado tambm uma representao da necessidade de cooperao entre pessoas de todas as reas para enfrentar, de forma sustentvel, as questes fundamentais do planeta.

    SU

    Ng

    Ho

    oN

    Ka

    Ng

    , Bo

    az

    Po

    Kr

    oy

    E J

    oa

    NN

    a a

    izEN

    BEr

    g

    Metfora microscpica

  • 169 MARO 2010

    16 CAPA

    > E

    \/

    82

    58

    > CAPA > POLTICA CIENTFICA > CINCIA ZOOLOGIA 5816 Instrumentos E TECNOLGICA Sapos da Caatinga tm

    astronmicos feitos Z NEUROLOGIA adaptaes fisiolgicasno Brasil equipam 30 COOPERAO Prtica de exerccios para sobreviver aoso telescpio Soar, Tese discute por que fsicos e consumo meses sem chuvanos Andes chilenos no cresce a participao de mega-3 emergem

    da pesquisa brasileira como tratamentos GENTICA 61

    > ENTREVISTA em redes internacionais complementares Equipe de So Paulo10 O bilogo Miguel da epilepsia identifica estrutura

    Trefaut, da USP, 34 INTEGRAO rara no materialum dos especialistas Ampliao dos grupos SADE INFANTIL gentico de moscasque mais descreveram de trabalho nos Estados Mes nem sempreespcies e gneros Unidos deve acelerar reconhecem quando GEOLOGIAnovos de rpteis aplicaes de suas crianas esto Impacto de meteoritono mundo pesquisa mdica acima do peso ergueu cadeia de

    morros no oeste doRio Grande do Sul

    > SEES 3 IMAGEM DO MS 6 CARTAS 7 CARTA DA EDITORA 8 MEMRIA 24 ESTRATGIAS 38 LABORATRIO 62 SCIELO NOTCIAS 64

  • > EDITORIAS > POLTICA C&T > CINCIA > TECNOLOGIA > HUMANIDADES

    /

    /

    58 ASTROFSICA

    Estudo flagra o inciodo processo de fusode um grupo depequenas galxias

    61 FSICA

    Equipe internacionalexplica comportamentode partculas emexperimento quereproduz os momentosiniciais do Universo

    48

    > TECNOLOGIA

    68 ENGENHARIA QUMICA

    Novos processosde pr-tratamentodo baqao da canafacilitam a produode etanol desegunda gerao

    72 QUMICA

    Polmero misturadoao etanol faz obiocombustvelpercorrer um alcooldutocom mais velocidade

    42

    74 NANOTECNOLOGIA

    Novas aptiaes parananotubos de carbonoso geradas na USPem Ribeiro Preto

    76 PTICA

    Pesquisador da Unicamppublica artigo sobrea nova geraode fibras pticas

    80 ENGENHARIA

    ELETRNICA

    Aparelho destinadoa deficientes visuaisidentifica e comunicanomes de cores e ovalor do dinheiro

    s 64 LINHA DE PRODUO 96 RESENHA 91 LIVROS 98 CLASSIFICADOS

    WWW.REVISTAPESQUISA.FAPESP.BR

    cafi).-i

    > HUMANIDADES

    82 LITERATURA

    O livro que ElizabethBishop escreveusobre o Brasil

    88 CINCIA POLTICA

    Ao contrrio domito, parlamentaresentram no Congressocom experincia

    92 SOCIOLOGIA

    Seminrio discutedilemas da segregaosocial brasileira

    CAPA LAURA DAVINA FOTO RICARDO ZORZETTO

  • rUNDAO DE AMPARO PESQUISA 00 ESTADO DE SO PAULO

    CELSO lArERPRESIDENTE

    JOst ARANA VARELAVICEPRESIDENTE

    CONSELHO SUPERIOR

    CELSO LAFER, EDUARDO MOACYR KRIEGER, HORCIO LAFER PIVA,HERMAN JACOBUS CORNElIS VOORWALD, JOS ARANA VARELA,.ios DE SOUZA MARTINS, JOS TADEU JORGE, LUIZ GONZAGABELLUZZO, SEDI HIRANO, SUElY VllELA SAMPAIO, VAHAN AGOPYAN,YOSHIAKI NAKANO

    CONSELHO TCNICO'ADMINISTRATIVO

    RICARDO RENZO BRENTANIDIRETOR PRESIDENTE

    CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZDIRETOR CIENT(FICO

    JOAOUIM J. DE CAMARGO ENGLERDIRETOR ADMINISTRATIVO

    CONSELHO EDITORIALunz HENRIQUE LOPES DOS SANTOS (COORDENADORCIENTlnco),CARLOS HENRIOUE DE BRlTO CRUZ, CVLON GONALVES DA SILVA,FRANCISCO ANTONIO BEZERRA COUTtNHO, JOAQUIM J. DE CAMARGOENGLER, JOO FURTADO, .iost ROBERTO PARRA, LUiS AUGUSTOBARBOSA CORTEl, LuiS FERNANDES LOPEZ, MARIE ANNE VAN SLUYS,MRIO JOS ABDALLA SAAD, PAULA MONTERO, RICARDO RENZOBRENTANI, SRGIO OUEIROZ, WAGNER DO AMARAL, WALTER COLU

    DIRETORA DE REDAOMARILUCE MOURA

    EDITOR CHEFENELDSON MARCOLlN

    EDITORES EXECUTIVOSCARLOS HAAG (HUMAHI04DES),FABRICIO MAROUES (POCIncA),MARCOS DE OLIVEIRA (lEOtOLOGIA),RICARDO ZORZETIO (CI(NCIA)

    EDITORES ESPECIAISCARlOS FlORAVANTI. MARCOS PIVETTA ([(HOOHUND

    EDITORAS ASSISTENTESDINORAH ERENO, MARIA GUIMARES

    REVISOMRCIO GUIMARES DE ARAJO, MARGO NEGRO

    EDITORA DE ARTELAURA DAVINA E MAYUMI OKUVAMA (COORDENAO)

    ARTEMARIA CECILIA FELU E JllA CHEREM RODRIGUES

    FOTGRAFOSEDUARDO CESAR, MIGUEL BOYAYAN

    WEBMASTERSOLON MACEDONIA SOARES

    SECRETARIA DA REDAOANORESSA MATlAS

    COLABORADORESANA UMA, ANDRt SERRADAS (BANCO DE (4005), BRAZ, DANIELLE MAClEL,EVANILOO DA SllVEIRA, JOSEUA AGUIAR, LAURABEATRIZ, REINAlDQ.ost LOPES, SALVADOR NOGUEIRA E YURI VASCONCELOS.

    OS ARTIGOS ASSINADOS NO REFLETEMNECESSARIAMENTE A OPINIO DA FAPESP

    PROIBIDA A REPRODUO TOTAL OU PARCIALDE TEXTOS E FOTOS SEM PRVIA AUTORIZAO

    PARA FALAR COM A REDAOcertesetapesp.br

    PARA ANUNCIARmpiliadis,lapesp.br

    PARA ASSINARtaoesceteretarcet.com.tx

    TIRAGEM: 36.900 EXEMPLARES

    DISTRIBUiOOINAP

    GESTO ADMINISTRATIVAINSTITUTO UNIEMP

    FAPESPRUA PIO XI, N 1.500, CEP 05468901ALTO DA LAPA - SO PAULO - SP

    SECRETARIA DO ENSINO SUPERIOR

    GOVERNO 00 ESTADO DE SO PAULO

    Este produto impresso na PLURAL com papel certificadoFSC - garantia de manejo florestal responsvel, e com tintaecolgica Agriweb - elaborada com matrias-primasbioderivadas e renovveis.

    INSTITUTO VERIFICADOR OECIRCULAO

    6 MARO DE 2010 PESQUISA FAPESP 169

    [email protected]

    Raios X

    Parabns pelo artigo "Segredos debai-xo da tinta" (edio 168). Ao divulgaro interessante trabalho da pesquisadoraCristiane Calza, a revista contribui paraque pessoas leigas em fsica como eu,mas apaixonadas pelas artes plsticas,saibam que a energia nuclear pode serum grande aliado para melhor conhe-cer e preservar nosso patrimnio ar-tstico. Tendo em mente que a revistaPesquisa FAPESP divulga, como diz seuttulo, a cincia e a tecnologia no Brasil,acrescentaria, sobre o mesmo assunto,o trabalho pioneiro desenvolvido peloGrupo de Fsica Nuclear Aplicada daUniversidade Estadual de Londrina. Ogrupo tem uma linha de pesquisa emfluorescncia de raio X desde 1999, cominmeros trabalhos com o mesmo focoapresentado na matria em tela. Umavisita ao site do grupo (www.fisica.uel.br/gfna) permitir aprofundar as infor-maes trazidas no excelente artigo.

    Lurz ANTONIO DIAS QUITRIOSo Paulo, SP

    Marcello Damy

    Li a homenagem muito justa que vo-cs prestaram a Damy, grande cientistae empreendedor ("Talento e energia':edio 167). No entanto vocs come-teram uma injustia ao esquecer demencionar que a instalao do reatorno foi somente obra de Damy, massim dele e de Paulo Saraiva de Toledo,professor do Instituto de Fsica da USP,fsico de renome internacional, naquelemomento trabalhando em estreita cola-borao com Damy, O professor Saraivateve atuao extremamente relevantena instalao do reator e vocs nem se-quer mencionaram seu nome junto aode outros que trabalharam com Damy.Gostaria muito que vocs pudessem re-parar essa omisso, que, tenho certeza,foi totalmente involuntria.

    JEANElTE CARDOSO DE MELLO

    Professora aposentada do IB/USPSo Paulo, SP

    Recomendao contestada

    Causou-nos certa preocupao a reco-mendao dos pesquisadores do Proje-to Temtico sobre o uso de efluentes deesgotos tratados para irrigao agrco-la ("Irrigao alternativa", edio 166)qualificando o sistema de irrigao porgotejamento como o mtodo indica-do nessa aplicao. Somos foradosa admitir que, por esquecimento, ospesquisadores consultados ignorarama alternativa de irrigao por sulcosque, em muitos locais, constitui o ni-co sistema indicado para assegurar osucesso desse tratamento. Em trabalhoque resultou em dissertao de mes-trado em nossa unidade universitria,utilizamos a gua de um ribeiro querecebia o esgoto urbano da cidadede Botucatu para irrigar plantas dealface por sulcos, em um perodo deestiagens, com grande concentraode poluentes. Os resultados revelaramque, alm dos benefcios nutricionais cultura, a frao orgnica contida nagua comprovadamente poluda con-tribuiu para melhorar a condio fsicado solo e que no houve contaminaopor coliformes nas plantas, uma vezque a gua foi aplicada na superfciedo solo. Alm disso, todo o materialpatognico existente na gua foi ex-posto ao profiltica exerci da pelaradiao solar.

    EDMAR Iost SCAWPPIFCA/UnespBotucatu, SP

    Correo

    Na edio de fevereiro o texto "Ass-duas em hospitais", sobre a resistnciabacteriana a medicamentos, trouxeo nome da bactria Staphylococcusaureus grafado erroneamente, comoStreptococus aureus.

    Cartas para esta revista devem ser enviadas para oemail [email protected] ou para a rua JoaquimAntunes. 727 . 10 andar CEP05415001 . Pinheiros'So Paulo, SP.As cartas podero ser resumidaspor motivo de espao e clareza.

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 7

    O impacto visual provocado pela inesperada elegncia da cpula branca e brilhante sobre o telescpio Soar contra o cu azul intenso dos Andes ou a aguda percepo da formidvel energia que o planeta acionou para, num remotssimo passado, fazer levantar, dobrar e redobrar a cordilheira impressionante, certamente no foram pequenos para o autor da reportagem de capa desta edio de Pesquisa FAPESP, o editor de cincia, Ricardo Zorzetto. Mas no o desviaram, ainda bem, de seu foco principal em Cerro Pachn, ou seja, detalhar a recente montagem de um enorme e pesado espectrgra-fo no Observatrio Austral de Pesquisa Astrofsica, que o nome por inteiro do Soar, sem esquecer o contexto da coisa. Algo como observar detidamente a rvore sem perder a percepo da floresta, digamos, o que aqui mesmo total metfora, j que s um ou outro cac-to cortam de vez em quando a aridez extrema da paisagem nos Andes.

    Vamos, contudo, nos concentrar no espectrgrafo: trata-se, como Zor-zetto relata a partir da pgina 16, do maior e mais complexo equipamento astronmico j feito no Brasil, com 3 mil peas, peso de meia tonelada, cuja funo decompor a luz nos diferentes espectros ou cores que a formam, algumas das quais, como a ultravioleta e a infravermelha, invis-veis para o olho humano. No interior de qualquer espectrgrafo, como ele observa, a luz de astros prximos ou distantes explode em uma sucesso de cores do arco-ris, em propores que variam segun-do a composio qumica do objeto observado. Mas o espectrgrafo instalado no Soar, depois de uma viagem de mais de 3 mil quilmetros desde Itajub, em Minas, no um qualquer, e vale a pena ler a reportagem para entender por qu.

    Permito-me um salto, com certo grau de risco, do mirante de estrelas num cume dos Andes para o interior da subjetividade potica de uma aclamada escritora norte-americana, Elizabeth Bishop. essa subjetividade que inquestionavelmente est em cena mesmo quando ela busca objetivar seu olhar para falar, por exemplo, do Brasil, por encomenda da editora Time-Life. O contrato resultaria no Brazil, livro de 1962 que logo adiante a au-tora iria recusar e que recentemente se transformou em

    objeto de pesquisa abordado pelo editor de humanida-des, Carlos Haag, em reportagem a partir da pgina 82. Para alm de um olhar sobre as idas e vindas da relao de Bishop com este pas, no qual, entre outras coisas pde experimentar a profunda viagem emocional por um amor intenso e duradouro, Pesquisa FAPESP oferece ao leitor dois pequenos textos inditos da escritora sobre o Amazonas. Trechinho: O menino correu pelo cais e escalou o paredo, arrastando-se, segurando em plantas e pedras. Ele parecia prestes a cair e ser engolido a cada segundo. O capito apareceu sobre nossas cabeas, na escada, de pijama branco, e atirou na margem o que pa-

    recia ser um envelope grosso por que ele no o entregou ao menino um mistrio (...). Melhor ir direto pgina 87!

    Preciso, entretanto, deixar o terreno encharcado de poesia para entrar no campo mais duro e pro-saico da tecnologia, onde a editora assistente Dinorah Ereno relata, a partir da pgina 68, como dois grupos brasileiros de pesquisa de-senvolveram novos processos para vencer o grande obstculo atual produo do chamado etanol celu-lsico, qual seja, a converso qumi-ca da celulose em glicose, chamada tambm de hidrlise. No caso bra-sileiro, isso permitiria aproveitar todo o acar contido no bagao e na palha da cana para a produo do etanol. Os dois grupos propem atingir ou quebrar os polissacar-

    deos em que o acar de bagao e palha se encontra estruturado via modos diversos de pr-tratamento da biomassa, um a temperatura ambiente e outro trmico a vapor. Vale a pena ler a reportagem para conferir tudo em detalhes.

    E encerrando, uma notcia importante para nossos leitores: a redao de Pesquisa FAPESP, juntamente com seus setores de distribuio, circulao e marketing, est deixando por razes operacionais a sede da Fundao, na Pio XI, e se instalando no 10o andar do prdio n-mero 727, da Joaquim Antunes, em Pinheiros.

    Os e-mails de todas as pessoas vinculadas revista permanecem os mesmos. Quanto aos telefones, os divulgaremos em breve em nosso site .

    O mirante de estrelas e os textos iluminadosMariluce Moura - Diretora de Redao

    carta da editora

    la

    ur

    ab

    Eat

    riz

  • 8 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    rEp

    ro

    Du

    Es D

    o l

    ivr

    o C

    in

    Cia

    , his

    tr

    ia e

    ar

    te

    Anatome plantarum (1675), de Marcello Malpighi. Este o ttulo mais antigo do acervo do IB/USP. Trata-se do maior tratado de anatomia de plantas daquela poca. Malpighi foi um dos primeiros a usar o microscpio para estudar vegetais e animais.

    Diplusodon floribundus, inclusa em Plantarum brasiliae icones et descriptiones hactenus ineditae (1826-33), de Johann Baptist Emanuel Pohl. As litografias de Wilhelm Sandler, como esta, compem uma das mais bonitas publicaes da flora brasileira.

    Acrydium latreillei, inclusa em Delectus animalium articulorum (1830-34), de Johann Baptist von Spix. Junto com o botnico Martius, o zologo Spix viajou por boa parte do Brasil e produziu relatos e desenhos magnficos, como este.

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 9

    A Biblioteca do Instituto de Biocincias da Universidade de So Paulo (IB/USP) deu uma dupla contribuio difuso da cincia no comeo deste ano. A primeira foi organizar um catlogo de obras raras e especiais de seu acervo. A segunda foi ilustr-lo com algumas das mais belas e significativas imagens do prprio acervo, feitas em sua maioria por artistas contratados pelos cientistas. Dessas duas aes resultou

    um catlogo com jeito de livro de arte, que traz o que h de melhor da cincia sistematizada do sculo XVII ao XIX. Cincia, histria e arte (Edusp/FAPESP, 352 pginas) foi idealizado e organizado por Nelsita Trimer, diretora tcnica do Servio de Biblioteca do IB/USP, e levou cinco anos e meio para ficar pronto.

    A maioria das obras do sculo XVIII ao XIX. O acervo foi formado por meio de doaes, pela aquisio de outros acervos,

    Eucheuma isiforme, alga da coleo Phycotheca Boreali-Americana (1895-1912), de Frank Collins, Isaac Holden e William Setchell. So 41 volumes encadernando pginas onde foram distendidos 1.900 espcimes de algas. A obra praticamente um herbrio porttil.

    instituto de Biocincias da usp lana catlogo de obras raras com o melhor da cincia do sculo Xviii e XiX

    Neldson Marcolin

    Brilho do passado

    pela transferncia de obras da biblioteca da Escola Politcnica e da Faculdade de Farmcia e por ttulos importantes identificados no prprio IB. A restaurao dos 2.440 ttulos comeou h 14 anos com recursos da FAPESP, em sua maior parte, Fundao Vitae e do IB. No meio do processo achei que deveramos publicar um catlogo com descries mais rigorosas do que as existentes e ilustr-lo com as lindas imagens disponveis, diz Nelsita. Nossa sala de obras raras e especiais pequena, mas tem quase tudo o que foi produzido de importante nas cincias naturais nos ltimos trs sculos. Entre elas esto os 40 volumes da Flora brasiliensis (1840-1906), de Carl von Martius, os 11 da Florae fluminensis (1825-27), de frei Jos Mariano da Conceio Vellozo, Historie naturelle, de Buffon (1825), Le rgne animal (1827-38), de George Curvier e Edward Griffith, e outras preciosidades.

    A obra de grande importncia, pelo acervo que classifica e revela, e de impressionante beleza, pelo cuidado e esmero das imagens e dos textos, diz o linguista Carlos Vogt, presidente da FAPESP na poca em que o projeto foi apresentado a ele por Nelsita, e um dos principais incentivadores do projeto. Alm da descrio tcnica dos livros, h pequenas resenhas e perfis de cientistas escritos por 12 pesquisadores do IB. Veja nestas duas pginas uma amostra de algumas imagens de Cincia, histria e arte.

    EDu

    ar

    Do

    cEs

    ar

    memria( )

  • 10 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    entrevista

    Miguel Trefaut Urbano Rodrigues entre cobras e lagartosBilogo da USP descreveu 53 espcies e gneros novos de rpteis

    Em 3 de agosto de 1970, Jandyra Planet do Amaral, diretora do Instituto Butantan, escreveu no p de um formulrio de so-licitao de estgio: Esse rapaz se interessa pela herpetologia. Ela tinha razo sobre o ento jo-

    vem Miguel Trefaut Urbano Rodrigues. Nascido em Lisboa, no Brasil desde os 3 anos, filho de me francesa e pai portu-gus, Rodrigues comeou o estgio no Butantan aos 16 anos, quando cursava o primeiro ano do atual ensino mdio, e saiu de l cinco anos depois saben-do muito sobre serpentes brasileiras. Entrou em biologia na Universidade de So Paulo (USP), mas terminou o curso na Universit Paris VII Diderot, em Paris. Lecionou trs anos na Uni-versidade Federal da Paraba, voltou USP e hoje um dos grandes sistematas especialistas em classificar seres vivos do Brasil. Em um artigo de janeiro de 2010 na revista Zootaxa, Peter Uetz, do J.Craig Venter Institute, dos Estados Unidos, apresentou os 40 bilogos que mais descreveram espcies de rpteis no mundo desde o sculo XVIII, quando o botnico sueco Lineu criou o sistema binomial de classificao de seres vivos, em que cada animal ou planta identi-ficado por dois nomes, um para o gne-ro e outro para a espcie. Rodrigues, o nico brasileiro dessa lista, est em 35o lugar, com 53 espcies descritas, duas delas mostradas mais adiante o belga George Albert Boulanger (1858-1937) est em primeiro lugar, com 573 espcies

    Carlos Fioravanti e Neldson Marcolin

    descritas. Entre as 25 revistas que mais apresentaram novas espcies de rpteis, esto duas brasileiras, a Papis Avulsos de Zoologia, do Museu de Zoologia da USP, e a Memrias do Instituto Butantan, hoje extinta. Nesta entrevista Rodrigues conta de sua vida entre cobras e lagartos e de espaos ricos em espcies nicas, como as dunas do rio So Francisco, na qual ele pisou pela primeira vez h 30 anos e para onde voltou outra vez em fevereiro. Aos 57 anos, Rodrigues deve passar duas semanas deste ms de maro nas matas da Guin-Bissau, com o mes-mo propsito: encontrar bichos novos e entender melhor como os seres vivos surgiram e evoluram.

    n Este trabalho da revista Zootaxa colocou o senhor entre os 40 maiores descritores de rpteis do mundo desde Lineu. Desse grupo de zologos, s oito esto vivos. Os outros so de 1700, 1800 ou do incio de 1900. Por qu? Essa a poca em que se descrevia muita coisa. Comeou com o Lineu, que criou o sistema binomial de nomenclatu-ra. Depois esto os nomes que dominam a herpetologia mundial, como George Boulenger, do Museu Britnico de His-tria Natural, e os curadores das grandes colees de museus zoolgicos do mundo, como Dumeril do Museu de Paris, que ti-nha a maior coleo de rpteis do mundo do final do sculo XVIII e incio do sculo XIX, suplantado depois pelo Museu Bri-tnico, que no final do sculo XIX acabou superando a herpetologia francesa.

    n Como mostrar que uma espcie real-mente nova? O que o senhor faz, por exem-plo, quando traz do campo um animal que suspeita que seja de uma espcie nova? Como j conheo a literatura sobre as espcies semelhantes, a primeira coi-sa pegar as espcies mais conhecidas usadas como modelo para comparaes e examinar todas, incluindo a suposta-mente nova, sob a lupa. Tenho de com-parar absolutamente todos os caracteres: o nmero, tamanho, formato, posio, ornamentao das escamas dorsais, ven-trais, da cabea, cada uma delas com um nome especfico; o tamanho e a posio do olho, do ouvido, da narina; a colora-o do bicho; o comprimento do corpo, da cabea e de cada membro; os poros femorais, que so glndulas de ferom-nios; enfim, uma srie bem grande de variveis. E as estruturas internas, o es-queleto? Podemos fazer uma radiografia ou diafanizar, tornando transparente, e assim por diante. Quando encontro di-ferenas consistentes entre o grupo de indivduos que trouxe do campo e outro j conhecido e quando essas diferenas afetam mais de um caractere e ocorrem em uma mesma rea geogrfica, no h dvida de que essas diferenas resultam da expresso de um patrimnio gentico distinto, e no de variao geogrfica, individual ou sexual. A tem de fazer uma descrio e uma comparao, que uma defesa de por que essa espcie nova, mostrando por que pode ser sepa-rada de outras. Tem de escrever um ar-tigo e submeter a uma revista cientfica. ED

    Ua

    rD

    o c

    ESa

    r

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 11

  • 12 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    meu pai, que era um jornalista conhe-cido, era editorialista do Estado. Dali a pouco chamam ele e outro jornalista que estava l dentro, o Anthony de Christo, e ficam com eles mais ou menos uma meia hora. Quando Markun volta, vejo que ele est completamente transtornado. Falei: O que foi, Markun?. Ele falou: No, no foi nada. Como no foi nada? Eu sei que voc est perturbado. Passou um tempo, insisti, ele falou: Miguel, mata-ram o Vlado. Agora a gente sabe o que aconteceu, voc parou de apanhar por causa disso, agora eles esto apavorados, daqui a 10 minutos vo vir me pegar e o Anthony, para levar a gente para o enter-ro, j pediram para pr manga comprida para esconder os sinais de tortura.

    n O senhor militava na poca? Eu era militante do Partido aqui na universidade, o Partido. Fazia jornal de classe, coisas de estudante, absolutamen-te incuas... Sa do Doi-Codi, fui para o presdio do Hipdromo, fiquei l durante dois meses mais ou menos... Fui preso em 17 de outubro e sa em 23 de dezem-bro. Voltei para casa e comeou uma s-rie de atentados em casa, com pichaes nas paredes dizendo que iam matar todo mundo. Achei melhor ir embora para a Frana. O cnsul francs e o portugus me levaram para o Paraguai, de l fui para Lima e fiquei na casa do Darcy Ri-beiro, que era amigo do meu pai. De l fui para Paris. Cheguei em Paris, pedi equivalncia [de disciplinas] daquele ano e meio de curso que j tinha comeado. Na verdade consegui mais, porque fiz um exame e consegui os dois primeiros anos completos na universidade e terminei a faculdade na Frana. Depois voltei para o Brasil para fazer o doutorado.

    n O senhor terminou o curso de biologia em 1978 j com a primeira espcie des-crita, certo? O primeiro bicho que descrevi foi uma cobrinha da Guiana Francesa, Atractus zidoki, junto com o Jean-Pierre Gasc, do Museu de Paris. Sempre observava bi-chos de lugares diferentes e falava: Puxa vida, o que aconteceu?. O que mais me interessava era a evoluo, a histria de um grupo de espcies, que um sistema-ta vai traando a partir do estudo dos caracteres dos animais. Ser sistemata ser sistemata para tudo. Quer dizer, en-contrar diferenas, o que separa as coisas, fazer agrupamentos de vrias maneiras possveis. A primeira parte do trabalho de sistemata justamente responder o

    O artigo vai ser examinado por outros especialistas e, se convencer, aceito e publicado. A espcie nova passar a exis-tir oficialmente a partir da publicao desse artigo que a apresenta. n A revista Papis Avulsos de Zoologia tambm apareceu com destaque... Gostei muito que a Papis Avulsos, que a Capes [Coordenao de Aperfei-oamento de Pessoal de Nvel Superior] considera brega e diz que no serve para nada, tenha aparecido na Zootaxa como uma das 20 revistas mais importantes para descrio de espcies de rpteis da biodiversidade mundial. O pessoal no colocou na cabea que informa-o absolutamente importante para a humanidade, esteja onde estiver. Se amanh dependermos de uma informa-o que foi publicada em um jornaleco em um dialeto da Ucrnia, vamos ter de encontrar e traduzir aquilo. impor-tante publicar na Science e na Nature, mas o mais importante ter informa-o e informao de qualidade. Como as revistas brasileiras podem chegar ao nvel das revistas do exterior se a Capes desestimula as revistas brasileiras? Est todo mundo indo para a Zootaxa, mas os trabalhos publicados l no so me-lhores que os da Papis Avulsos; saem l simplesmente porque a Zootaxa tem mais sada, tem dinheiro para publicar e, por causa dos direitos autorais, ganha dinheiro com os artigos.

    n A quantidade enorme de espcies de rp-teis que o senhor descreveu, 53, impressio-na. Tem alguma explicao para isso? No, no tenho. simplesmente vontade de trabalhar. a curiosidade. Sempre fui muito curioso. Desde me-nino, eu ia para o litoral e saa muito com os caiaras. Aprendi a andar no mato com os caiaras, caava, pescava com eles, e comecei a me interessar pe-los rpteis. Depois entrei no Butantan. Fiquei fascinado com aquelas colees de cobras e pedi para um amigo do meu pai, Alberto Candeias, que era professor no ICB [Instituto de Cincias Biom-dicas da USP], para fazer um estgio l. Tenho at o original do pedido da doutora Jandira do Amaral, que era di-retora do Butantan, encaminhado para Alphonse Richard Hoge, chefe da diviso de biologia, dizendo assim: Esse rapaz foi recomendado pelo doutor Alberto Candeias, parece que se interessa pela herpetologia, veja se d para aproveitar. E o Hoge escreveu embaixo: Podemos

    Quando fazemos trabalhos mais refinados, utilizando caracteres moleculares, a sistemtica feita com base em dados morfolgicos s vezes precisa ser toda refeita

    receber por seis meses. Eu tinha 16 anos incompletos, estava no primeiro ano do colgio, quando fui estagiar no Butantan. Trs anos depois eu j conhecia todas as cobras brasileiras... Fiquei l at entrar para a universidade.

    n J em Paris? No, na Universidade de So Paulo. Entrei na USP, fiz um ano e meio te-nho uma vida acadmica conturbada , quando estava no final do segundo ano na USP consegui a primeira bolsa de ini-ciao cientfica da FAPESP, que nunca usufru, j como estagirio de [Paulo Emlio] Vanzolini no Museu de Zoolo-gia, a quem admiro muito.

    n Por que no usufruiu a bolsa? Porque fui preso naquela leva de pri-ses de 1975. Fui preso, torturado, parei de apanhar no dia em que mataram o Vlado [jornalista Vladimir Herzog]. No sabia por que pararam, pois eu estava apanhando h quase 72 horas seguidas, me jogaram num ptio do lado do Doi- Codi, no 2o Exrcito, tinha umas celas na frente, eu fiquei l no ptio durante uma meia hora, tentando me recuperar, dali a pouco me jogam dentro de uma cela e a primeira pessoa que vem tratar de mim ali foi o Paulo Srgio Markun, da TV Cultura hoje, que estava preso comigo. Markun era muito amigo do

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 13

    seguinte: Quais so as unidades evolu-tivas com que estou mexendo aqui? So espcies ou so variaes geogrficas?. Foi isso que fiz no meu doutorado, pe-guei um grupo de lagartos que todo mundo achava que era a mesma coisa na Amrica do Sul e acabei descobrindo que tinha ali 14 espcies, vrias tiveram de ser descritas como novas. n H muitos sistematas no Brasil? Faltam sistematas. A ornitologia uma das reas onde faltam muitos sistematas. Olha como a histria explica: quando fiz minha ps-graduao com Vanzoli-ni, havia pouqussimos herpetlogos no Brasil. Tinha o Vanzolini, o Tales de Lima no Rio Grande do Sul, e praticamente s. O primeiro curso de ps em herpetologia foi o Instituto de Biocincias da USP, jun-to com o Museu de Zoologia. Comecei a ser orientado por Vanzolini e orientei uma leva de gente. Hoje um congresso de herpetologia rene 800 pessoas. Na ornitologia, a pessoa mais importante no sculo passado foi Olivrio Pinto, pai da professora Eudxia Froehlich, daqui do departamento. Olivrio Pinto foi diretor do Museu de Zoologia, se aposentou e nunca orientou na ps-graduao. Ou seja, no teve nenhum orientador em ornitologia sistemtica no Brasil. Hoje os poucos ornitlogos sistematas, por in-crvel que parea, so alunos da Elizabe-th Hfling, desse departamento, que foi orientada pelo Vanzolini em anatomia. Ela anatomista e resolveu orientar os alunos porque no havia mais ningum. S em alguns anos que teremos um nmero de sistematas adequado, o que pssimo num pas com uma diversidade biolgica altssima como o Brasil.

    n Em vista disso, como fica a proteo da biodiversidade? Muito difcil, se no temos sistema-tas o bastante e se no conhecemos a biodiversidade. Estamos fazendo vrios trabalhos em morfologia e outros com a parte molecular, mas quando iniciamos com trabalhos mais refinados, utilizan-do caracteres moleculares, a sistemtica feita com base em dados morfolgicos s vezes precisa ser toda refeita. Apenas pela morfologia no conseguimos detec-

    tar espcies crpticas [morfologicamente idnticas, mas geneticamente distintas]. Se queremos conservar uma determina-da espcie em uma rea, posso falar ela est preservada nesta rea aqui. Menti-ra, porque, na hora em que vou fazer o trabalho molecular, vejo que o que estou preservando uma espcie. A outra, que detectei com os dados moleculares, est numa rea que no est protegida.

    n O senhor abre um captulo do livro Fau-na da Caatinga dizendo que durante muito tempo prevaleceu a ideia de que a Caatinga no tinha fauna prpria. Cita Vanzolini e o zologo norte-americano Michael Mares e em seguida faz uma crtica, dizendo que foi uma viso apressada, baseada em cole-es biolgicas pouco representativas, com uma amostragem geogrfica insuficiente dos ecossistemas vizinhos. Quer dizer, no obstante a importncia do trabalho de Van-zolini, o conhecimento sobre a diversidade de rpteis est cheio de lacunas? Sim, e o problema que estamos percebendo isso tarde. S no final dos anos 1990 que, com um pesquisador americano, Jack Sites, e Nelson Jorge da Silva, de Goinia, que decidimos mudar

    o mtodo de amostragem de rpteis no Brasil. Decidimos fazer uma coleta gran-de na regio de serra da Mesa, em Gois, com armadilhas de interceptao e queda, que os americanos j usavam para coletar em desertos. uma armadilha simples, voc enterra baldes e entre eles faz uma cerca de lona plstica; os bichos batem na cerca e a seguem at que caem nos baldes. Com essas armadilhas mudamos a maneira de coletar no Brasil, e hoje ningum mais coleta s manualmente. Comeamos a pegar uma quantidade imensa de bichos desconhecidos e esp-cies antes consideradas raras passaram a ser comuns. Alguns marsupiais do gnero Monodelphis, considerados rarssimos, eram na verdade comunssimos. Uma parte dessa fauna secretiva [difcil de ser detectada]comeou a aparecer com esse mtodo de coleta, que fez com que cres-cesse bastante o conhecimento sobre a fauna brasileira. At essa poca se pensava que a Caatinga no tinha fauna prpria ou tinha uma fauna comum com o Cer-rado, mas a comeamos a ver que havia muito endemismo [espcies de animais ou plantas prprias em uma rea geogr-fica restrita] na Caatinga e no Cerrado.

    Psilophthalmus paeminosus, de Santo Incio: membros

    anteriores com quatro dedos e posteriores com cinco

    mig

    UEl

    T.U

    . ro

    Dr

    igU

    ES

  • 14 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    n As pesquisas nas dunas do So Francisco so um dos marcos de sua trajetria cien-tfica, certo? Como que comeou? Eu estava fazendo meu doutorado com os lagartos do gnero Tropidurus e desco-bri que numa rea da Caatinga, em Santo Incio, na Bahia, tinha duas espcies de Tropidurus. Falei: U, por que l tem duas espcies se no resto da Caatinga tem uma s?. Fui para l, confirmei a existncia das duas e peguei outro bicho, que descrevi como Tropidurus amathites. O Tropidu-rus de Santo Incio vivia na areia, quando todos os outros eram bichos saxcolas, quer dizer, viviam sobre pedras. Alm de estar na areia, o parente mais prximo dele era um bicho saxcola da serra do Es-pinhao em Minas Gerais, a mais de mil e tantos quilmetros dali. Puxa, como possvel? Como um bicho saxcola acaba virando um que vive na areia, ou vice- -versa? Descobri que Richard Burton, o pesquisador, dizia que nessa regio do So Francisco havia um pequeno Saara. Pensei: Se tem um pequeno Saara, tem areia que no brincadeira. Fui atrs e encontrei os trabalhos do Aziz AbSaber e do Jean Tricart mostrando que a maior regio de paleodunas da Amrica do Sul estava ali. Descobri ali um ecossistema novo, do qual descrevemos gneros e es-pcies novas de cobra, de lagarto, de sapo, de vrias coisas.

    n Essa rea foi reconhecida como biologi-camente relevante? No s foi reconhecida, como est em processo a criao do Parque Nacional das Dunas do So Francisco, por propos-ta minha. Fiz uma proposta ao Ibama, foi

    aceita, fiz um sobrevoo com eles, uma rea grande...

    n Deve ter outras reas como as dunas pelo Brasil, no? Com certeza. Nossos trabalhos no Cerrado tm mostrado que as regies arenosas comportam espcies endmicas que eram desconhecidas. A nica maneira de ver se a situao semelhante en-contrada nas dunas do So Francisco trabalhando no campo. impossvel dizer se uma rea importante sem coletar no lugar. Nosso conhecimento sobre os me-canismos que levaram diferenciao das espcies insuficiente para dizer se uma rea ou no relevante para a diferencia-o dos bichos. Quem chegar no topo da serra de Baturit, no Cear, vai ver que a rea montanhosa dos arredores de Mata Atlntica. Em volta tudo caatinga, aquele serto incrvel. Quem coleta ali em cima tem uma probabilidade alta de encontrar espcies endmicas, porque as espcies de floresta no atravessam as reas abertas, esto isoladas desde o tempo em que essa mancha de floresta estava em contato com a floresta atlntica ou com a Amaznia.

    n A confuso causada por uma deformao das leis do Ministrio do Meio Ambiente en-tre pesquisador e biopirata ainda persiste? Em parte sim. Falaram que biodiversi-dade d dinheiro, quando no necessaria-mente d, e colocaram isso na cabea de todo mundo. Nas comunidades indgenas e quilombolas boa parte do pessoal fala quero dinheiro para voc trabalhar na minha terra, os caras perderam com-pletamente a noo de que aquilo, para

    dar dinheiro algum dia, s vezes precisa de 10 anos de investigao. Trabalhos meus e de meus alunos foram tremen-damente prejudicados, tnhamos de ir para o exterior para ver material porque eles [pesquisadores de outros pases] no mandavam o material para o Brasil. Hoje a coisa est mais simples, mas ainda resta um pouco da noo de que pesquisador um cara que meio criminoso, que est matando bicho ou fazendo pirataria... Tudo por causa de dois ou trs casos...

    n Para resolver esses conflitos, seria im-portante integrar os pesquisadores com outros grupos, para que participassem das pesquisas, no? Lgico. Isso uma coisa que sempre defendi. O problema que a maioria dos parques nacionais, que poderiam fazer essas ligaes, infelizmente no funciona. A maioria dos parques deveria ter mui-to mais informao e no tem. Faltam guias de campo para a maior parte dos grupos. Os parques nacionais teriam que ter dinheiro e acordos amplos com as universidades, porque l, nos parques, que est a matria-prima para os pesqui-sadores trabalharem. O Museu Goeldi tem o parque e a reserva de Caxiuan, cedida a eles por 30 anos pelo Ibama. O Museu Goeldi est gerindo Caxiuan e gerando conhecimento, j saram vrios livros, mas o que predomina nos par-ques nacionais so pesquisas sem norte, porque resultam do pedido espontneo de cada pesquisador. Voc chega num parque nacional e quer saber qual a

    So Paulo, a cidade mais rica do pas, no tem um museu de zoologia altura

    Phyllopezus periosus: maior lagartixa da Caatinga

    mig

    UEl

    T.U

    . ro

    Dr

    igU

    ES

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 15

    infraestrutura e a base de dados e v que eles no tm nada sobre variao de tem-peratura, clima ou fenologia das plantas mais comuns... Uma equipe de tcnicos em cada parque poderia se responsabi-lizar por esses dados, manter contato com o pessoal das universidades, levar o pessoal, sei l, com apoio da FAB, co-mo o antigo Projeto Rondon, e acertar coisas do tipo durante 10 anos vocs vo estudar este parque nacional para termos informaes sobre esse ecossis-tema; coisa planejada. Outra coisa que est relegada a dcimo quinto plano de importncia no Brasil o turismo. Com a biodiversidade que temos! No temos nada to chamativo como a megafauna de mamferos da frica, mas temos on-as, macacos... Em que pas se consegue ver 14 ou 15 espcies de macacos numa s localidade, como na Amaznia? O turista adora ver lagarto no campo e fo-tografar sapo noite no campo, mas no exploramos isso. Quem trabalha nesse ramo no conhece a fauna brasileira, no conhece os ecossistemas brasileiros, nem o que o turista gosta.

    n Como foi seu trabalho como diretor do Museu de Zoologia?

    n Qual? So Paulo, por ser a cidade mais rica do Brasil, e o Brasil, por ser lder mundial em biodiversidade, deveriam ter um mu-seu altura. E no temos. No Museu de Zoologia faltam tcnicos, falta uma srie de coisas importantes para poder tocar o trabalho. Eu poderia ter descrito muito mais do que 50 espcies se tivesse tido mais apoio de tcnicos para trabalhar no museu. Falta apoio infraestrutural, falta espao para exposies e para as colees. Isso o que s vezes a universidade no enxerga, e muito importante. Uma co-leo que no est arrumada no serve para estudar, a mesma coisa que uma biblioteca desarrumada. A cincia no avana assim. Se um cara publica um trabalho na Nature ou na Science, voc olha e fala: Putz, tenho um bicho que mostra que o negcio diferente, mas cad esse bicho? Coletei anos atrs, mas a coleo est desarrumada..., acabou, voc perdeu o tempo da resposta. Agilidade importante, as colees tm que estar bem organizadas, com gente capaz para tomar conta delas. Com o Infra [projeto do programa Infraestrutura da FAPESP], consegui compactar praticamente todas as colees do museu e abrir novos es-paos, mas eu sabia que aquilo seria para quatro anos. J faz oito, o museu est es-tourando. O museu precisa de trs vezes a rea dele, no tem mais como crescer. um prdio que foi construdo para abri-gar colees no comeo do sculo XX.

    n Qual a soluo? Construir um prdio grande para o museu aqui na Cidade Universitria. Tinha um projeto para fazer um prdio do Museu de Zoologia aqui, a Praa dos Museus, que eu propus USP. Foi aceito pela Reitoria, mas ficou parado por falta de vontade poltica. O Brasil merece um museu altura. Ainda mais agora, ano da Copa do Mundo, o Brasil sendo colocado em evidncia, no tem uma dessas coi-sas que um marco cultural de qualquer cidade importante. Voc no vai a Paris e deixa de ir ao Jardin des Plantes e ao Museu de Histria Natural, nem a Lon-dres sem ir ao British Museum. Buenos Aires tem o Museu de La Plata, aquela coisa espetacular. O Brasil no tem um museu assim. Tem o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que d pena, ver aquela casa maravilhosa que foi o palcio impe-rial caindo aos pedaos. Agora est sendo reformado. So Paulo, a cidade mais rica do Brasil, ainda no tem um museu de zoologia altura de sua riqueza. n

    Estive na direo do museu por qua-tro anos. Fui o primeiro diretor depois que Vanzolini se aposentou. Trabalhei com empenho mximo para valorizar o museu e acho que consegui. O Museu de Zoologia hoje tem uma posio de desta-que na universidade. No se faz nenhu-ma ps-graduao em zoologia no Brasil sem consultar as colees do museu. As colees neotropicais mais importantes do globo esto l. As colees, que o mu-seu acumula desde a fundao, em 1885, so a base para entender a histria dos ecossistemas e para retraar um futuro melhor para o pas. Se pensar na expan-so de doenas endmicas, as colees de dpteros [insetos] so estratgicas. Darwin no teria elaborado a teoria da seleo natural se no tivesse acesso s colees do Museu Britnico e compa-rado os bichos que ele pegou com os que haviam sido depositados ali ao longo de geraes. O museu representa o mago do trabalho do pesquisador. As colees que fiz ao longo da minha vida vo estar depositadas no Museu de Zoologia e da-qui a 20, 30 anos algum vai olhar aquilo e se aproveitar do meu trabalho, enrique-cendo com o material que ele mesmo pegou. Mas tem um problema...

    EDU

    ar

    Do

    cES

    ar

  • 16 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    O branco e o prata: o elegante prdio do Soar e o vizinho Gemini Sul, ao fundo

    capa

    ric

    ar

    do

    zo

    rz

    et

    to

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 17

    Instrumentos astronmicos feitos no Brasil equipam o telescpio Soar, nos andes chilenos

    O fsico Antnio Csar de Oliveira mal viu a luz do dia na ltima semana de janeiro. Ele, o astrno-mo Flvio Ribeiro e o engenheiro mecnico Fernando Santoro pas-saram cinco dias seguidos traba-lhando em uma sala sem janelas

    no topo de uma montanha pedregosa e sem vegetao dos Andes chilenos. Deixa-vam o dormitrio pela manh, percorriam trs quilmetros em uma estrada de terra estreita e poeirenta e s retornavam tarde da noite, quando um nmero incontvel de estrelas j povoava o cu. Havia pouco tempo e muito a fazer. Com a ajuda de tc-nicos chilenos, eles conectavam o maior e mais complexo equipamento astronmico j feito no Brasil ao telescpio do Obser-vatrio Austral de Pesquisa Astrofsica (Soar), construdo com financiamento brasileiro e norte-americano prximo cidade de Vicua, no norte do Chile.

    Ricardo Zorzetto, de Cerro Pachn

    Com cerca de 3 mil peas e pouco mais de meia tonelada, o equipamento que os brasileiros instalavam no final de janeiro um espectrgrafo, aparelho que decompe a luz nas diferentes cores (espectros) que a formam algumas delas invisveis ao olho humano, como o ultravioleta e o infraver-melho. No interior do espectrgrafo, a luz de astros prximos ou distantes explode em uma sucesso de cores do arco-ris, mas em propores que variam segundo a compo-sio qumica do objeto observado.

    O instrumento instalado no Soar, po-rm, no um espectrgrafo qualquer. O aparelho que chegou ao prdio do observatrio no Cerro Pachn em 10 de dezembro, depois de viajar quase 3,5 mil quilmetros por ar e terra desde as oficinas do Laboratrio Nacional de Astrofsica (LNA) em Itajub, Minas Gerais, um es-pectrgrafo com inovaes tecnolgicas que o tornam nico no mundo. Uma das

    Rumo s estrelas

  • 18 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    caractersticas que fazem do Espectr-grafo de Campo Integral do Soar (Sifs) um instrumento especial sua capa-cidade de fracionar a imagem de um objeto celeste em 1.300 partes iguais e, a um s tempo, registrar o espectro de todas elas. Em alguns meses, quando estiver funcionando com todo o seu potencial, o Sifs permitir, por exem-plo, avaliar a composio qumica de 1.300 pontos de uma galxia em uma nica medio de poucos minutos, tarefa que at ento exigia centenas de medies distintas.

    Para os astrnomos, isso mui-ta informao, explicou o fsico Cle-mens Gneiding em outubro passado, durante a etapa final de montagem do Sifs nos laboratrios do LNA, antes do embarque para o Chile. E no s. Esse espectrgrafo foi projetado para ter um altssimo poder de resoluo espa-cial. Ele pode distinguir objetos muito prximos no cu, separados por um segundo de arco [unidade de medida de ngulo], completou. Em termos mais concretos, isso corresponde ao tamanho de uma bola de futebol vista a 50 quilmetros de distncia algo absurdamente pequeno.

    Na tarde de 28 de janeiro a equipe brasileira corria de um lado para o outro no prdio branco reluzente do Soar que pode ser visto ao longe por passageiros dos voos que pousam na regio. Eles tentavam concluir a conexo do Sifs antes que a semana terminasse. Uma semana muito pouco tempo para com-pletar a instalao e fazer os ajustes ne-cessrios, afirmou Santoro, responsvel pela parte mecnica do projeto.

    O mais complicado instalar o cabo com as fibras pticas que unem as duas partes do espectrgrafo, co-mentou Oliveira, enquanto avaliava a melhor maneira de acomodar na base do telescpio o tubo flexvel de oito centmetros de dimetro e 14 metros de comprimento contendo as fibras de vidro superfinas tm metade da

    espessura de um fio de cabelo que devem conduzir a luz do primeiro ao segundo mdulo do instrumento. Te-mos de ser cuidadosos porque essas fibras vo se mover alguns centmetros para acompanhar os movimentos do telescpio, mas no podem ficar ten-sionadas, explicou o fsico especialista em ptica, coordenador do Laborat-rio de Fibras pticas do LNA. Se forem tracionadas, as fibras podem romper e deixar cego o espectrgrafo de US$ 1,8 milho financiado pela FAPESP.

    Com o Sifs em atividade, a luz cole-tada pelo espelho de 4,1 metros do Soar ser focalizada no chamado mdulo pr-ptico do espectrgrafo, uma caixa preta retangular um pouco maior que o gabinete de um computador, acoplada base do telescpio. No interior desse mdulo um conjunto de lentes ampli-fica de 10 a 20 vezes a intensidade da luz e a lana sobre 1.300 microlentes. Cada microlente, por sua vez, orienta a luz que recebe para uma das 1.300 fibras pticas, que, como os fios de eletricidade de uma casa, a conduzem at o segundo e maior mdulo do equi-pamento: o espectrgrafo de bancada, instalado dois metros abaixo, na torre

    Fios de luz:1.300 fibras conectam o

    telescpio ao espectrgrafo Sifs

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 19

    Sem descanso: equipe de instrumentao do Soar faz ajustes no equipamento recebido em dezembro

    trio do Pico dos Dias, em Braspolis, cidade mineira vizinha a Itajub.

    Motivos no faltavam para justificar o investimento na inovao um deles, econmico. Quanto menor o dimetro das fibras, mais prximas entre si elas podem ser alinhadas na entrada do se-gundo mdulo do equipamento. Como consequncia, tambm diminuem as dimenses das lentes e dos outros com-ponentes pticos, cujo preo aumenta proporcionalmente ao tamanho. O uso de fibras com o dobro do dimetro faria o espectrgrafo dobrar de tamanho, conta o astrnomo Jacques Lpine, do Instituto de Astronomia, Geofsica e Cin cias Atmosfricas da Universidade de So Paulo (IAG-USP), o primeiro coordenador do projeto que desenvol-veu o Sifs em parceria com Gneiding, do LNA. No caso desse espectrgrafo, duplicar o tamanho do segundo mdu-lo um octgono de 70 centmetros de altura e 2,4 metros na sua maior dimen-so significaria deix-lo com a altura de quase uma pessoa e a largura de um quarto amplo de apartamento.

    Nos 15 metros que separam o foco do telescpio do sensor do espectrgra-fo, a luz j tnue de estrelas, galxias ou

    de sustentao do telescpio. Ali outras 18 lentes algumas delas podem girar at 130 graus com a preciso de milsi-mos de milmetro ora dispersam, ora alinham, ora fazem convergir os feixes luminosos at que alcancem o sensor onde sero registrados.

    A escolha de fibras pticas to deli-cadas e finas foi uma aposta arris-cada dos pesquisadores brasileiros. O ncleo das fibras, por onde de fato passa a luz, tem apenas 50 micrmetros (milsimos de milmetro) de espessura e, na poca, diferentes grupos de pes-quisa afirmavam que fibras com menos de 100 micrmetros causariam a perda de boa parte da luz que deveria chegar ao segundo mdulo do espectroscpio. Baseando-se nos bons resultados de um equipamento construdo na Austrlia, a equipe que projetou o Sifs decidiu experimentar as fibras mais finas. Mas foi um risco bem calculado. Antes de empenhar tanto esforo e dinheiro no equipamento, eles construram em par-ceria com os australianos uma verso menor do espectrgrafo, que h cerca de dois anos funciona e muito bem, por sinal no telescpio do Observa-fo

    toS

    rIc

    ar

    Do

    zo

    rz

    Etto

    1. Construo de dois espectrgrafos pticos para o telescpio Soar n 1999/03744-12. Steles: espectrgrafo de alta resoluo para o Soar n 2007/02933-33. Evoluo e atividade de galxias n 2000/06695-04. Nova fsica no espaco formao e evoluo de estruturas no Universo n 2006/56213-9

    mOdAlIdAdE 1. auxlio regular a Projeto de Pesquisa2., 3. e 4. Projeto temtico

    CO Or dE nA dOrES1. Beatriz Leonor SiLveira BarBuy IaG/USP2. auguSto DamineLi neto IaG/USP3. ronaLDo euStquio De Souza IaG/USP4. reuven opher IaG/USP

    InvEStImEntO 1. r$ 3.254.030,59 (faPESP)2. r$ 1.373.456,33 (faPESP)3. r$ 1.520.687,31 (faPESP)4. r$ 1.926.187,91 (faPESP)

    Os prOjetOs>

  • 20 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    planetas sofre uma srie de desvios e reflexes e perde intensidade. E, quan-to menos intensa, pior a definio do espectro produzido pelo equipamento. Os pesquisadores reduziram essa perda usando espelhos com maior capacidade reflexiva e lentes com tratamento an-tirreflexo, que evitam a perda de luz. Assim conseguiram garantir a chegada de 80% a 85% da luz captada pelo te-lescpio ao sensor do Sifs.

    P lanejado h pouco mais de uma dcada, o Sifs integra a primeira gerao de equipamentos do Soar, que s estar completa em 2011, com a instalao do quarto e ltimo instru-mento que o Brasil se comprometeu a fornecer. Na criao do consrcio que administra o telescpio, o pas ficou responsvel por produzir esses equipamentos, diz Beatriz Barbuy, as-trofsica do IAG-USP e coordenadora do Projeto Temtico que financiou a construo do espectrgrafo.

    Foram quase 10 anos de trabalho da concepo instalao do equipa-mento, que usou a mo de obra e o

    conhecimento de ao menos 20 pesqui-sadores e tcnicos altamente especiali-zados. A execuo do projeto tambm exigiu a formao de uma parceria pouco frequente no pas, entre uni-versidades, institutos de pesquisa e empresas privadas.

    No havia no Brasil a cultura e a expertise de produzir equipamentos de astronomia com tal porte, comen-ta Keith Taylor, astrofsico ingls que coordenou o grupo de ptica do Obser-vatrio Anglo-australiano, na Austrlia, e h dois anos gerencia o desenvolvi-mento de instrumentos do Soar.

    O tempo de produo do Sifs, di-zem os pesquisadores, talvez fosse bem menor caso houvesse no pas acesso mais fcil aos materiais que precisa-ram ser importados. Parte do atraso se deveu a complicaes na importao de peas como as lentes de fluoreto de clcio fornecidas pela empresa norte--americana Harold Jonhson, que leva-ram nove meses para chegar ao Bra-sil, e das fibras pticas compradas da Polymicro Technologies, tambm nos Estados Unidos.

    Primeira gerao

    de equipamentos

    s estar completa

    em 2011, com a

    instalao do quarto

    e ltimo instrumento

    que o pas se

    comprometeu

    a fornecer para

    o telescpio

    Made in Brazil: o espectrgrafo Sifs, j instalado no telescpio, e ao lado o imageador BtFi, que segue para o chile em breve

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 21

    mecnico dessa cmera e comprou dois dos quatro detectores infravermelhos, conta Ronaldo de Souza, astrnomo do IAG que assumiu a coordenao do projeto aps a mudana de Sueli para os Estados Unidos.

    S os dois detectores custaram cerca de US$ 700 mil, metade paga com verba do projeto de Sueli Viegas e metade com verba do Instituto do Milnio, coorde-nado por Beatriz Barbuy, do IAG-USP, e Miriani Pastoriza, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde setembro de 2009 a Spartan funciona em modo experimental. Nessa fase, os astrnomos esto aprendendo a lidar com o equipamento, que ainda pode passar por ajustes, e no h garantia de que as observaes sejam muito precisas. O Soar foi projetado para apresentar um alto desempenho, com equipamentos de altssima qualidade ptica, afirma Keith Taylor.

    Pouco mais de cinco anos aps a concluso do prdio e a montagem do telescpio, o Soar vai ganhando vida e se tornando independente. Est pre-vista para este ms a entrega do filtro imagea dor ajustvel brasileiro (BTFI), equipamento de US$ 2,2 milhes que permitir identificar a composio qu-mica e medir os movimentos relativos internos dos objetos celestes. Esse ins-trumento ser acoplado a um mdulo que corrige os efeitos da turbulncia na atmosfera, conta Claudia Mendes de Oliveira, da USP. Aliada qualidade de imagem do BTFI, essa correo re-sultar em imagens com nitidez indita, dando ao Soar capacidades que outros telescpios do mesmo porte no tm, diz a astrofsica, que coordenou as equi-pes do Brasil, da Frana e do Canad que construram o BTFI.

    A produo desses instrumentos inaugurou uma nova era da astronomia

    lado a lado: arranjo de fibras

    pticas exigiu preciso e

    muita pacincia

    foto

    S E

    DU

    ar

    Do

    cES

    ar

    Em meados de 2009, poucos meses antes de o Sifs seguir para o Chile, ou-tro equipamento projetado e construdo com a participao de brasileiros havia sido conectado ao Soar: a cmera Spar-tan, especializada em produzir imagens no infravermelho forma de radiao eletromagntica percebida pelos seres humanos na forma de calor e capaz de atravessar as gigantescas nuvens de poei-ra interestelar que ocultam galxias e berrios de estrelas. Parte do primeiro grupo de instrumentos fabricados espe-cificamente para esse telescpio, a Spar-tan substituiu uma cmera emprestada do telescpio Blanco do Observatrio Interamericano de Cerro Tololo, locali-zado cerca de 10 quilmetros a noroeste do Soar em uma das inmeras monta-nhas avermelhadas da cordilheira.

    A astrnoma Sueli Viegas, aposen-tada da USP, iniciou cerca de oito anos atrs, em cooperao com a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o projeto que levou ao desen-volvimento da Spartan. O Brasil parti-cipou da elaborao do projeto ptico e

  • 22 n maro DE 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    brasileira e impulsionou a instrumenta-o astronmica nacional, afirma Bea-triz Barbuy. que esses aparelhos caros, pensados com o objetivo de ampliar a compreenso humana do Universo, consomem um nmero grande de pe-as muito pequenas que se encaixam e se movimentam com altssima preciso. S para ao BTFI, fornecemos cerca de 1.500 peas, conta Paulo Silvano Car-doso, diretor da empresa material op-tomecnico Metal Card, de So Jos dos Campos, interior de So Paulo.

    Em 10 anos o Brasil conseguiu es-tabelecer um programa de instrumen-tao de nvel internacional, afirma Joo Steiner, o astrofsico do IAG-USP que integrou o conselho diretor do Soar por 12 anos e participou do projeto do telescpio desde sua concepo, em 1993 (ver Pesquisa FAPESP n 98). Ele conta que os pesquisadores brasi-leiros at tentaram comear a produ-o de instrumentos astronmicos anos

    atrs, quando o pas passou a integrar o consrcio do observatrio Gemini, que conta com dois telescpios com espelhos de 8,2 metros, um instalado no Hava e outro a 350 metros do Soar, no Cerro Pachn, a 2.701 metros acima do nvel do mar. Mas o projeto no vin-gou. O salto era grande demais, expli-ca Steiner, que chegou a ser internado por causa do nvel de estresse durante a construo do telescpio.

    A t o incio de 2011 um quarto instrumento deve ficar pronto: o espectrgrafo chelle do teles-cpio Soar (Steles), que a equipe do astrnomo Bruno Vaz Castilho cons-tri atualmente nos laboratrios do LNA. De modo semelhante ao Sifs, o espectroscpio que os brasileiros ins-talavam em janeiro no prdio do Cer-ro Pachn, o Steles tambm analisar as cores da luz emitida por estrelas e galxias. A diferena que enxergar

    dois anos depois de aprovado o projeto, as obras iniciam em 1998 com a exploso do topo do cerro Pachn, em Vicua, norte do chile, e a extrao de 13 mil metros cbicos de pedras para aplainar o local da sede do Soar

    cerca de um ano mais tarde comea a ganhar corpo o prdio que abrigar o telescpio e a sala de controles, erguido em um terreno a 2.701 metros acima do nvel do mar e 80 quilmetros de distncia do oceano Pacfico

    em 2002 o prdio recebe a cpula metlica de 14 metros de altura feita pela empresa equatorial, de So Jos dos campos, no interior paulista, que protege o telescpio de dia e quando a umidade do ar aumenta noite

    o espelho de 4,1 metros de dimetro e poder de captao de luz 350 mil vezes superior ao do olho humano chega ao Soar em janeiro de 2004, aps viajar quase 10 mil quilmetros desde o local de fabricao nos estados Unidos

    o nascimento de um telescpio

    Em dez anos

    o Brasil conseguiu

    estabelecer um

    programa de

    instrumentao

    astronmica de nvel

    internacional, com

    benefcios tambm

    para a indstria

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro DE 2010 n 23

    uma proporo maior do espectro da luz visvel e com melhor resoluo. Pode parecer redundante o uso de dois instrumentos da mesma famlia, mas no . Cada um tem aplicaes especficas. Enquanto o Sifs gera 1.300 espectros em uma nica exposio, o Steles produz um s. Como o Steles registrar todo o espectro da luz visvel de uma nica vez, permitir analisar diferentes caractersticas do objeto ob-servado, como composio qumica, temperatura, velocidade de rotao ou de afastamento, conta Castilho.

    Com a entrega desses equipamen-tos, a primeira e a segunda gerao de instrumentos definidas no projeto inicial estaro completas, diz Alberto Rodriguez Ardila, gerente nacional do Soar. Isso no significa, porm, que o telescpio estar completamente equi-pado. O avano cientfico sempre ge-ra a necessidade de desenvolver novos instrumentos, afirma. Na opinio des-

    se astrofsico do LNA, o resultado de tanto trabalho dever ser notado em alguns anos nos projetos cientficos desenvolvidos no Soar. O uso desses instrumentos dever aumentar a dispu-ta por tempo de observao e melhorar a qualidade das pesquisas, diz Ardila.

    Antes mesmo da chegada de seu prprio conjunto de equipamentos, o telescpio branco do Cerro Pachn no ficou parado. Desde que recebeu a primeira luz de uma estrela em 2004 at dezembro do ano passado, o Soar gerou 36 artigos cientficos publicados em peridicos internacionais. Deles, 19 artigos (53% do total) foram produzi-dos por pesquisadores brasileiros, que dispem de apenas 34% do tempo de observao do telescpio.

    M as o reconhecimento da comu-nidade cientfica internacional veio mesmo em 2007, quando o resultado de uma observao feita no Soar por um brasileiro saiu nas cobi-adas pginas da revista Nature. Quase dois anos antes, na madrugada de 25 de setembro de 2004, o observatrio espacial Swift, da agncia espacial nor-te-americana (Nasa), emitiu um alerta com as coordenadas do que poderia ser uma exploso de raios gama a morte de uma estrela com massa dezenas de vezes superior do Sol que se trans-forma em um buraco negro, um dos eventos mais energticos conhecidos ocorrida nos confins da constelao de Peixes (ver Pesquisa FAPESP n 116). Eduardo Cypriano, um dos primeiros astrnomos residentes do Soar, uma espcie de desbravador do telescpio, trabalhava naquela noite e detectou os primeiros sinais da exploso.

    A pedido de Daniel Reichart, norte-americano estudioso desses fenmenos, Cypriano apontou o telescpio para o mesmo ponto do cu por mais alguns dias. Uma semana mais tarde veio o anncio oficial: as imagens feitas por Cypriano e analisadas com o auxlio de sua mulher, a astrnoma Elysandra Figueredo, haviam flagrado a exploso de uma estrela a 12,7 bilhes de anos- -luz da Terra. O Soar havia sido o nico telescpio em terra a acompanhar esse fenmeno raro, mais tarde confirmado por outros observatrios. Era o objeto mais distante e antigo j observado, ao menos at aquela data, conta Cypriano,

    para quem, to logo estejam terminados os ajustes nos equipamentos do Soar, os astrnomos brasileiros estaro bem servidos por pelo menos uma dcada.

    Enquanto aguardam a concluso dos ltimos equipamentos o Soar comporta oito no total , os brasilei-ros planejam os prximos passos. Um grupo coordenado por Joo Steiner e Beatriz Barbuy avalia a possvel par-ticipao do pas na prxima gerao de telescpios. So projetos grandiosos que devem consumir de US$ 700 mi-lhes a US$ 1,4 bilho para erguer te-lescpios com espelho de at 40 metros de dimetro, quatro vezes maior que o dos maiores telescpios em atividade. S para ter um parmetro de compara-o, o Soar custou US$ 28 milhes, dos quais US$ 14 milhes foram pagos pelo Brasil, divididos entre o Conselho Na-cional para o Desenvolvimento Cien-tfico e Tecnolgico (US$ 12 milhes) e a FAPESP (US$ 2 milhes).

    O ingresso para a primeira diviso da astronomia, porm, no sai barato. O Brasil negocia pagar 10% do valor total para ter acesso ao Thirty Meter Telescope, com espelho de 30 metros, ou 5% para ter o direito de usar o Giant Magellan Telescope ou o European Ex-tremely Large Telescope, de 22 metros e 42 metros, respectivamente. Mas exige uma contrapartida. No entraremos em nenhum projeto se ao menos 70% desses recursos no forem destinados fabricao de equipamentos pela in-dstria nacional, afirma Steiner.

    Os astrnomos tm ao menos dois bons motivos para justificar tamanho investimento. O primeiro e mais abs-trato: o acesso a esses megatelescpios garantiria aos pesquisadores brasileiros pelo menos a chance de olhar cada vez mais longe no Universo procura de respostas convincentes para uma das perguntas mais simples e fundamentais que o ser humano sempre se fez: Co-mo tudo comeou? O segundo e mais pragmtico: a astronomia nacional, uma rea jovem que cresceu muito rapidamente na dcada de 1990, no pode estagnar caso queira se manter competitiva internacionalmente. Se pararmos, diz Steiner, condenaremos a prxima gerao de astrnomos a ficar fora da pesquisa de ponta nessa rea a partir de 2025. Seramos o nico dos pases emergentes a fazer isso. n

    Na noite de 17 de abril de 2004 o telescpio faz sua primeira observao ou, como dizem os astrnomos, v sua primeira luz, ainda utilizando equipamentos emprestados de outros observatrios

    foto

    S S

    oa

    r/l

    na

    /mc

    t

  • > ESTRATGIAS MUNDO

    24 MARO DE 2010 PESQUISA FAPESP 169

    Vrios pases doOriente Mdio se uni-ram para ajud-ar osagricultores de suasregies mais ridasa tirar o mximo pro-veito dos recursos h-dricos disponveis. Ainiciativa vai envolvercomunidades ruraisdo Egito, Jordnia,Lbano, Palestina, S-ria, Iraque e lmen.O objetivo ampliara produtividade dasculturas agrcolas eda pecuria. O Cen-tro Internacional paraPesquisa Agrcola emreas Secas (lcarda), com se-de na Sria, vai liderar o projetoe gerenciar os recursos forne-cidos por agncias e doadoresestrangeiros. Universidadesnorte-americanas fornecerosuporte tecnolgico. TheibOweis, pesquisador do Icar-da, disse que os agricultoresconhecero tcnicas parafazer um uso "mais efetivo econstrutivo" da gua, como achamada irrigao suplemen-tar. Por meio dela, as culturasso irrigadas durante os est-gios crticos de crescimentoutilizando apenas um terodo consumo habitual de gua.At agora a iniciativa j rece-beu US$ 1milho da Usaid, aagncia norte-americana parao desenvolvimento internacio-nal. O sucesso do plano sermonitorado em nvel local,com pesquisadores medindoa produtividade de gua antese depois da aplicao de umanova tcnica. A ideia que osresultados do projeto ajudema moldar novas polticas p-blicas na regio.

    > Degelomonitorado

    A Agncia deCooperao Internacionaldo Japo (Iica) fez umacordo com a UniversidadMayor de San Andrs(Umsa), da Bolvia,e disponibilizou US$ 3,8milhes para desenvolverestudos capazes demedir o impacto doderretimento de geleirasno abastecimentode gua das cidades deLa Paz e EI Alto, quejuntas formam a principalaglomerao urbanado pas. O acordoprev treinamentode profissionaisbolivianos em cursosde ps-graduao,intercmbio de especialistase fornecimento deequipamentos ao longodos prximos quatro anos.Segundo um informe deimprensa da Iica, o projetovai desenvolver

    metodologias e propostaspara a gesto sustentveldos recursos hdricos,levando em conta cenriosdas mudanas climticase o crescimento dademanda nas cidadesanalisadas. O diretordo Instituto de Hidrologiae Hidrulica da Umsa,Carlos Herbas, disse agncia SciDev.Net que j

    C

    li

    S

    r

    o

    comeou a coletarinformaes hidrolgicase meteorolgicas nacordilheira oriental do pas,especificamente nasgeleiras Huayna Potosie Tuni Condoriri, quefornecem gua para asduas cidades e abastecem10 usinas hidreltricasresponsveis por 80%da energia eltrica da regio.

    JIu

    rf

  • Embora no tenha experincia cient-fica, uma irlandesa de 59 anos vai ocu-par um dos cargos mais influentes dapesquisa europeia. Mire Geoghegan-

    Quinn uma ex-parlamentar da Irlanda que j foi ministra depastas como Transportes, Justia e Turismo, mas afastou-seda poltica em 2000 para se tornar membro do Tribunal deContas Europeu. Escolhida para o cargo de comissria paraPesquisa, Inovao e Cincia, ela assume com o desafio depromover mudanas na poltica cientfica do bloco que voafetar os pesquisadores dos 27 pases membros. Segundo arevista Nature, sua principal tarefa ser organizar o OitavoPrograma-Quadro de Pesquisa (FP8), a ser lanado em 2014.Os programas-quadro recebem crticas pelo excesso de bu-rocracia que impem aos pesquisadores, mas so o principalmecanismo de financiamento cincia da Unio Europeia.A oitava edio deve investir pelo menos 50 bilhes emsete anos. A comissria prope gerar uma estrutura maisleve, capaz de dar suporte criao do Espao Europeu dePesquisa, iniciativa voltada para integrar os pesquisadoressob um mesmo arcabouo jurdico e permitir que, indepen-dentemente da nacionalidade, eles possam disputar recursosoferecidos pelos governos de quaisquer pases do bloco.

    CZARINAEUROPEIA

    > Jovens queremser ouvidos

    Jovens pesquisadores doPaquisto criaram umainstituio para compartilharpreocupaes, como afalta de oportunidades decarreira e os baixos salriosno pas, e tentar ampliarseu espao no sistemanacional de cincia e

    tecnologia. A Academiaacional de Jovens

    Pesquisadores voltada paracientistas com 40 anos oumenos e tambm est abertaa paquistaneses que atuemno exterior. J conta comcerca de 350 filiados, quemantm uma newsletter,obtiveram representaona Academia de Cinciasdo Paquisto e lanaram

    propostas de parceria comorganizaes multilaterais.A meta principal dainstituio convencer asautoridades a dar um papelmaior aos jovens cientistasno desenvolvimento dopas, aproveitando sua forade trabalho e ouvindosuas reivindicaes, disse agncia SciDev.Neto presidente da academia,Aftab Ahmad.

    > A geopolticadas patentes

    Dados divulgados pelaOrganizao Mundial dePropriedade Intelectual(Ompi) mostram queo volume de patentesinternacionais sofreu em2009 a primeira quedaem 30 anos, em virtude dacrise financeira internacional.A reduo foi de 4,5%.A liderana ainda dosEstados Unidos, queregistraram no ano passado

    45,7 mil patentes, quase30% do total. Mas, devido recesso, o pas amargouuma queda de 11,4%no nmero de patentesentre 2008 e 2009, reduosemelhante de outrasnaes desenvolvidas.A emergente China andana contramo da tendnciae aumentou o nmero depatentes em 29,7% entre2008 e 2009. Registrou maisde 7,9 mil patentes noano passado, superando aFrana e o Reino Unido e setornando a quinta economiamais inovadora do planeta.Mas ainda est atrs deoutro emergente, a Coreiado Sul, com 8 mil patentes.Entre 2005 e 2009,o Brasil praticamentedobrou seu nmero depatentes. Mas isso representauma frao restrita dasinovaes registradas noplaneta. Em 2009 foramcontabilizadas 470 patentesbrasileiras, 0,3%do total mundial.

    PESQUISA FAPESP 169 MARO DE 2010 25

  • > ESTRATGIAS MUNDO

    SpaceShipTwo: desenvolvido para transporte suborbital

    > A transformaodos vnis

    Os Arquivos Nacionais daGr-Bretanha liberarampara anlise de especialistase do pblico leigo um novolote de 6 mil pginas dedocumentos que incluemrelatos de supostas apariesde objetos voadores noidentificados entre 1994e 2000. Segundo a agnciaBBC, pesquisadores queavaliaram o material dizemque o alegado formatodos vnis mudou em relaoao declarado em dcadasanteriores e a explicaopode estar nas representaesda cultura popularpara tais objetos. Vriosrelatos no ltimo lote dedocumentos - o quintode um projeto de trs anospara a liberao de arquivos- descrevem as supostasnaves como grandes, negras,triangulares e com luzesnas pontas. Nas dcadas de

    1940 e 1950, o formatopredominante era de disco."No perodo coberto pelosmais recentes documentosliberados, bombardeirosamericanos de formatotriangular e avies espiesAurora apareciam muitona TV, assim como emprogramas como Arquivo X.As referncias de apariesde vnis so semelhantes",diz David Clarke, professorda Universidade HallamSheffield.

    > Da indstriapara Harvard

    Um executivo da empresa-farmacutica Eli Lilly vaitornar-se decano da rea depesquisa da Escola Mdicada Universidade Harvard.O endocrinologista WilliamChin atuava na companhiadesde 1999, ocupando, nosltimos anos, o cargo device-presidente de pesquisa

    o presidente norte-america-no, Barack Obama, desistiudos planos de enviar missestripuladas Lua em 2020 equer delegar iniciativa pri-vada a tarefa de conduzir tri-pulantes para a Estao Espa-ciallnternacional. O abandonodo programa lunar, que haviaconsumido US$ 9 bilhes,segue recomendaes de umpainel de especialistas, que oapontou como excessivamen-te caro. J a ideia de desen-volver a explorao comercialdo espao, que custar US$ 6bilhes em incentivos a em-presas nos prximos anos, justificada pela reduo decustos no oramento da Nasa

    e pela capacidade de gerar empregos na iniciativa priva-da. Foguetes suborbitais, como o SpaceShipTwo, da VirginGalactic, programado para voar em 2011, podem ofereceracesso frequente ao espao. Outra empresa, a SpaceX, dizque pode produzir em trs anos uma cpsula de sete lugarespara acoplar em seu foguete Falcon. Ela estima que umaviagem estao custaria US$ 20 milhes - uma pechinchase comparada aos US$ 50 milhes que os Estados Unidospagam Rssia por voo na nave Soyuz. O Congresso norte--americano ainda vai avaliar as decises de Obama.

    clnica. Formado emHarvard na turma de 1972,ele ter agora a misso desupervisionar a pesquisabiomdica da escola e suasinteraes cientficas coma indstria. Arnold Relman,ex-editor da revista The NewEngland [ournal of Medicine,disse ao jornal The BostonGlobe que a indicao deChin preocupante portornar fluida a necessriaseparao de papis entrea medicina acadmica e ascompanhias farmacuticas.Jeffrey Flier, diretor daescola, disse que o novo

    CI)OCN-~o:::a.CI)OO>

    decano vai ajudar aimplementar uma novaestratgia, "com nfaseespecial na pesquisainterdisciplinar queperpassa as fronteirasde departamentos einstituies;' e tambm serresponsvel por estabelecerparmetros de interaocom a indstria capazes de,ao mesmo tempo, respeitaras normas relacionadasa conflitos de interesse eavanar na busca de meiospara engajar a massacrtica da escola na criaode terapias inovadoras.

    Odbi,folprquSeEsPrdirdetfpeSdeTemvosenaqdede19ade3.

    26 MARO DE 2010 PESQUISA FAPESP 169

  • nerlca-esistiu

    '020 elva prl-

    zir tri-oEspa-andonohaviaIhes,de um,que oamen-:!esen-nercialUS$6a em-nos, :o deaNasapriva-Virginerecer!X, dizgares

    inchaJnidosorte-

    sercer

    . de,itar

    ios

    o

    > ESTRATGIAS BRASIL

    o prazo mdio para anlisedas 18.177 solicitaes rece-bidas pela FAPESP em 2009foi de 80 dias, o menor dosltimos nove anos. "Esseprazo mdio bem menor doque o anunciado pela NationalScience Foundation (NSF), nosEstados Unidos,em seu GrantsProposal Guide, que de 180dias", disse Carlos Henriquede Brito Cruz, diretor cien-tfico da FAPESP. "Tambm menor do que o praticadopelos Institutos Nacionais deSade (NIH) para propostasdo tipo ROl (similares a umTemtico), que de nove a 12meses. Nosso principal objeti-vo o constante aperfeioamento do processo de anlise e deseleo de propostas na FAPESP,visando melhor qualidadenasdecises. Nos ltimos anos, temos conseguido melhorar aqualidade do processo e ao mesmo tempo reduzir os prazos",destacou. Os prazos mdios para anlise e as quantidadesde propostas despachadas anualmente, com dados desde1992, esto reunidos na pgina . Os dados mostram o grande aumento no nmerode propostas analisadas a cada ano. Em 1992, o total foi de3.655; em 2009, chegou a 18.177.

    La.I(I)-..J-ZzNLa.IC-o.a::

    > Da militncia academia

    Morreu no dia 15de fevereiro, aos 60 anos,Gildo Maral BezerraBrando, pesquisadordo Centro de Estudos deCultura Contemporneada Universidade deSo Paulo (Cedec/USP), emdecorrncia de problemascardacos. Natural deAlagoas, Brando atuoucomo jornalista e militouno Partido Comunista

    Gildo Maral Brando:analista poltico e cientista

    Brasileiro (PCB), sendo oprimeiro editor do jornalVoz da Unidade, publicaodo partido. Nos anos 1970deixou a militncia polticapara se dedicar carreiraacadmica. Lecionou naUniversidade EstadualPaulista, na PontifciaUniversidade Catlica de SoPaulo e na USP. Sua tese dedoutoramento deu origemao livro A esquerda positiva(As duas almas do PartidoComunista, 1920-1964).Brando era assessor ad hocda FAPESP e coordenava oProjeto Temtico "Linhagensde pensamento poltico esocial brasileiro", apoiadopela Fundao. "Gildoera um arguto analistapoltico e cientista degrande competncia. Foium incansvel defensorde referenciais acadmicoselevados para a universidadepblica brasileira", disseCarlos Henrique de BritoCruz, diretor cientficoda FAPESP.

    > Ecologicamentecorreto

    A partir desta edio,Pesquisa FAPESP passaa circular com o seloFSC (Forest StewardshipCouncil), que certificaprodutos impressos compapis provenientes deflorestas manejadasde forma ecologicamentecorreta, socialmente justa,economicamente vivel ecom respeito legislao.O selo foi obtido pelagrfica Plural, de So Paulo,onde so impressos osexemplares da revista.O FSC uma organizaono governamental presenteem 81 pases, que atua detrs maneiras: desenvolveos princpios e critriospara certificao, credenciaorganizaes certificadorasespecializadas eindependentes; e apoia odesenvolvimento de padresnacionais e regionais demanejo florestal.

    PESQUISA FAPESP 169 MARO DE 2010 27

  • > ESTRATGIAS BRASIL

    > Espaointerativo

    A capital paulista ganhouuma nova biblioteca pblica.A Biblioteca de So Paulofoi inaugurada no dia8 de janeiro no Parque daJuventude, zona Norteda cidade, criado no localem que funcionou aCasa de Deteno, demolidaem 2002. Instalado numarea de 4.257 rrr', o espaoconta com uma centenade computadores comacesso internet e recursosmultimdia, 30 mil livros,4 mil CDs e DVDs,mil audiolivros, mil lbunsde histria em quadrinhos,50 ttulos de gibis, 100 jogoseletrnicos, cerca de 20 jornaisnacionais e internacionais emais de 15 ttulos de revistas.Com foco na literaturabrasileira, internacional elatino-americana, tambm

    disponibiliza ttulos sobrefilosofia, religio, histria,geografia, artes, administrao,entre outros, que podem seremprestados aos usurioscadastrados por um perodode at 15 dias. Inspiradanos servios e programasda Biblioteca Pblica de

    o Instituto de Pesquisas Tecnol-gicas (lPT) comprou um novo mi-croscpio eletrnico de varredura(MEV), que permitir pesquisas em

    escala nanomtrica. O custo total foi de 1,046 milho, eminvestimento do governo paulista. O novo equipamento trabalhacom dois tipos de feixes: o feixe principal de eltrons capazde produzir imagens de alta resoluo com uma ampliao deat 300 mil vezes, enquanto o feixe de ons de qllo executa ausinagem de amostras - pode, por exemplo, realizar um cortede superfcies para observao em trs dimenses. O institutoj possua dois microscpios de varredura, adquiridOS na dcadade 1990. Recentemente recebeu tambm um modelo de alta re-soluo, no projeto viabilizado pela Rede Temtica de Materiaise Controle de Corroso da Petrobras. Nenhum desses micros-cpios, contudo, dispe de recursos to avanados quanto osdo modelo recm-adquirido. "As partculas caracterizadas nosmodelos convencionais atingiam somente a escala de mcrons,em uma ampliao de at 20 mil vezes. Agora podemos chegara 500 mil vezes", disse o pesquisador Adriano Marim.

    ESCALANANOMTRICA

    Santiago, no Chile, aBiblioteca de So Paulopossui cinco reas deatividades, divididas porfaixas etrias. Foraminvestidos R$ 12,5 milhes,sendo R$ I-milhes dogoverno paulista e R$ 2,5milhes do Ministrio da

    Cultura. Ser a sede doSistema Estadual deBibliotecas, que integra 941bibliotecas pblicas paulistas.Um auditrio para 106pessoas ser utilizado paraa realizao de cursos detreinamento dos profissionaisda rede de bibliotecas.

    Biblioteca de So Paulo: atividades divididas por faixas etrias

    28 MARO DE 2010 PESQUISA FAPESP 169

    o;EdpaiTBi Proezainesperada

    a estudante RicardoBarroso Ferreira, doInstituto de Qumica daUniversidade Estadualde Campinas (Unicamp),conseguiu um feitoraro para um aluno degraduao: foi coautorde um artigo na revistaScience. No incio de2009 ele foi enviado Universidade da Califrnia,Los Angeles (Uela),como bolsista de iniciaocientfica de um programade intercmbio que envolve

    ..J-C)-a::u,Ot-ZLaJ~O"a::O

    Um estudo divulgadopela consultaria leqls-lativa da Cmara dosDeputados chamouateno para a fragi-lidade oramentriado Programa EspacialBrasileiro. Segundoo texto, o oramentoprevisto para 2010, deR$ 353 milhes, ametade do necessriopara fazer frente aosprojetos em andamen-to, informao atribu-da ao diretor da Agn-cia Espacial Brasileira,Carlos Ganem. Outrospases emergentes in-vestem muito mais emseus programas, casoda ndia e da China,

    com oramentos de, respectivamente, US$ 800 milhes eUS$1 bilho. As consequncias da escassez de recursos so oatraso em diversos projetos, como os lanamentos do fogueteVLS 1e do satlite Cbers-3, previstos, respectivamente, para2009 e 2007, mas adiados para 2011. "Estima-se que os Es-tados Unidos detenham 41% do mercado global de satlites,deixando 59% para o restante do mundo, sendo de 1,9% aparticipao do mercado brasileiro. O desafio dos gestores depolticas pblicas avaliar se esse percentual corresponde spotencial idades do pas e atende s necessidades da socieda-de brasileira ou se preciso empreender mais esforos paraalavancar as atividades espaciais brasileiras", diz o estudo.

    a FAPESP e a Diviso deQumica da NationalScience Foundation (NSF),nos Estados Unidos.Fez parte, durante trsmeses, da equipe depesquisa coordenada poramar Yaghi no Institutode Nanossistemas da Uela.a grupo desenvolveu umcristal capaz de capturaremisses de dixido decarbono. Embora aexperincia tenha sidoenriquecedora, a publicaofoi uma conquistainesperada. "Fiquei muitosurpreso", disse AgnciaFAPESP. Segundo ele,Yaghi criou uma nova elasse

    de materiais, as estruturasmetalorgnicas. Descritoscomo "cristais esponja", tmporos em nanoescala, emque possvel armazenargases. "Sintetizamos vriosmateriais diferentes. Eume encarreguei da sntese eda anlise de alguns deles",disse. Criado em 2008,o Programa Piloto deIntercmbio em Pesquisapara Bolsistas de IniciaoCientfica da rea deQumica j teve quatrochamadas, que selecionaram38 estudantes paulistas paraestgios de pesquisa de at12 semanas em instituiesdos Estados Unidos.

    PESQUISA FAPESP 169 MARO DE 2010 29

  • poltica cientfica e tecnolgica>

    ilu

    sta

    r

    es

    br

    az

  • PESQUISA FAPESP 169 n maro De 2010 n 31

    Enquanto vrias naes conseguiram ampliar sua produo cientfica feita em colaborao internacional, os artigos de pesquisadores bra-sileiros escritos em parceria com estrangeiros estacionaram na casa dos 30% e vm crescen-do, em nmeros absolutos, num ritmo menor do que as colaboraes internas, aquelas que

    resultam do trabalho conjunto de cientistas da mesma nacionalidade. Essa evidncia um dos destaques de uma tese de doutorado sobre as redes de colaborao cientfica do pas, defendida no ano passado por Sa-mile Vanz, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob orien-tao de Ida Stumpf. Samile analisou 49.046 artigos brasileiros publicados em revistas indexadas na base Web of Science, da empresa Thomson Reuters, entre os anos de 2004 e 2006, e constatou que mais de 95% deles baseavam-se em algum tipo de colaborao. As parcerias dentro do prprio pas respondiam por cerca de dois teros dos artigos e registraram estabilidade, com uma ligeira alta: de 69,2% do total em 2004 para 70,1% em 2006. J o nvel de colaboraes internacio-nais apresentou uma pequena oscilao negativa.

    A proporo de artigos brasileiros com pelo me-nos um autor estrangeiro, que era de 30,8% do total em 2004, foi a 30,1% em 2005 e a 30% em 2006. A estabilidade nesse patamar chamou a ateno da pes-quisadora, num perodo em que a produo cientfica brasileira cresceu a taxas anuais que chegam a 8%, sendo responsvel atualmente por 2% da produo mundial e 45% da Amrica Latina, e polticas para ampliar a insero internacional foram criadas no incio dos anos 2000, a Coordenao de Aperfeioa-mento do Pessoal de Nvel Superior (Capes) passou a conceder os conceitos mais elevados (6 e 7) apenas a programas de ps-graduao que mantivessem cola-boraes internacionais. O trabalho em colaborao

    COOPERAO

    a construo da teiatese discute por que no cresce a participao da pesquisa brasileira em redes internacionais

    Fabrcio Marques

    est crescendo no Brasil e responsvel por quase a totalidade da produo cientfica indexada, mas as parcerias internacionais oscilam sem conseguir avan-ar, conclui Samile Vanz.

    A quantidade de artigos escritos em coautoria usada como indicao da colaborao cientfica entre pases, instituies e pesquisadores, ou entre setores (academia, governo e empresas privadas). Embora existam caminhos para ampliar a insero internacio-nal da pesquisa que no necessariamente resultam na publicao de artigos, como o intercmbio de alunos de ps-graduao e a participao em congressos e workshops, a importncia para a pesquisa brasileira do indicador de coautoria j foi observada em vrios estudos. Um deles, publicado em 2006 por Abel Packer e Rogrio Meneghini, do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informao em Cincias da Sade (Bire-me), analisou os artigos brasileiros com mais de 100 citaes na base Web of Science entre os anos de 1994 e 2003. Constatou-se que 84,3% deles eram fruto de parcerias com outros pases. Outro estudo de Rogrio Meneghini publicado em 1996 mostrara que artigos resultantes de colaboraes internacionais tm, em mdia, quatro vezes mais citaes do que os trabalhos que envolvem colaboraes nacionais, os quais, por sua vez, tm impacto 60% superior aos publicados por um nico autor. O Brasil precisa lutar para que sua pesquisa tenha uma insero internacional maior, porque isso dar mais visibilidade sua produo e significar o acesso a recursos e equipamentos que no esto disponveis quando se faz pesquisa de forma isolada, afirma a pesquisadora Samile, cujo trabalho teve a colaborao de um grupo especializado em bibliometria da China ela fez um estgio doutoral de um ano num laboratrio da Universidade Tecnolgica de Dalian, onde aprendeu tcnicas de tratamento e anlise de dados utilizados na tese.

  • 32 n maro De 2010 n PESQUISA FAPESP 169

    A tendncia ao trabalho colabora-tivo justificada, segundo a literatura, por mltiplos fatores, que vo desde a necessidade de dividir custos de equipamentos e de se relacionar com pesquisadores de outros campos do conhecimento em estudos interdisci-plinares at a ampliao do acesso a fi-nanciamentos e o desejo de aumentar a bagagem acadmica, conhecer novas metodologias e desenvolver habilidades por meio do contato com quem tem mais experincia. O advento da internet e das redes sem fio facilitou o acesso de pesquisadores separados por grandes distncias. As motivaes para a cola-borao, diz Samile, no so as mesmas em todos os campos do conhecimento. Na matemtica, por ser uma disciplina terica, as parcerias tendem a resultar da necessidade de trocar ideias e deba-ter problemas. J na fsica a colaborao fortemente marcada pela necessidade de compartilhar equipamentos custo-sos, como aceleradores de partculas.

    O s cerca de 30% de colaboraes obtidas pelo Brasil nem de longe representam um dado trivial. A estabilidade desses nmeros mostra que temos uma comunidade cientfi-ca consolidada, com grupos fortes em vrias reas que conseguem caminhar sozinhos, diz Jacqueline Leta, profes-sora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que participou da banca da tese de Samile. Uma explicao possvel que a comunidade cientfica formal, que aquela que celebra as par-cerias, est relativamente estabilizada. O que vem crescendo no o nmero de pesquisadores, mas o de estudantes de ps-graduao, para quem produ-zir em colaborao uma tarefa mais difcil, afirma. Segundo Jacqueline, pases pequenos tendem a ter ndices de colaborao muito elevados, o que denota dependncia de sua comunidade cientfica. Os 30% do Brasil esto acima dos cerca de 25% obtidos pelos Estados Unidos, responsveis por mais de um tero de toda a produo cientfica do planeta. Mas se encontram abaixo de outros pases da Amrica Latina, como Chile, Argentina e Mxico. A Europa vem ampliando seus ndices de colabo-rao. Eles chegam a 50% da produo, o dobro de duas dcadas atrs, e foram impulsionados por polticas no mbito

    da Unio Europeia de aproximao dos cientistas de seus pases membros. O nvel europeu duas vezes maior que o de pases como Estados Unidos e Japo, mas o patamar desses pases tambm vem crescendo, num sinal de crescente internacionalizao da pesquisa.

    Lea Velho, professora do Departa-mento de Poltica Cientfica e Tecnol-gica da Unicamp, diz que difcil avaliar o significado dos 30%. Ainda no existe uma teoria clara capaz de interpretar da-dos desse tipo, diz. Mas afirma que o patamar pode ser til para refletir sobre os motivos que levam o Brasil a no con-seguir elevar esses indicadores. Faltam estmulos para que a nossa comunidade cientfica se relacione mais com o exte-rior, ela diz. De um lado, deixamos de mandar alunos de doutorado para o exterior, o que era uma fonte potencial de colaboraes no futuro, e passamos a privilegiar os doutorados sanduche e os ps-doutorados l fora, que no geram vnculos to fortes. De outro, dispomos de um sistema de financiamento que vem oferecendo oportunidades cada vez maiores de bolsas e recursos para projetos aqui mesmo no Brasil. bem diferente do que acontece em outros pases, onde a participao em redes internacionais e a disputa por recursos do exterior so cru-ciais para que o pesquisador possa seguir trabalhando, afirma. Segundo Lea, nos pases da Europa fundamental que um

    pesquisador consiga obter recursos dos programas-quadro da Unio Europeia, baseados em redes. As universidades europeias chegam a contratar pessoas para formatar a apresentao dos pro-jetos, tal a sua importncia. Aqui no Brasil no h esse tipo de estmulo para as parcerias.

    A internacionalizao da pesquisa brasileira um tpico importan-te da estratgia da FAPESP, que mantm acordos de cooperao com agncias, empresas e/ou instituies cientficas da Alemanha, do Canad, dos Estados Unidos, da Frana, do Mxico, de Portugal, do Reino Unido e da Sua. Um exemplo o acordo de cooperao firmado em 2004 com o Centro Nacional de Pesquisa Cient-fica (CNRS) da Frana, voltado para estimular o intercmbio de cientistas e a submisso de projetos conjuntos en-volvendo pesquisadores de instituies paulistas e colegas franceses, que j ge-raram quatro chamadas de propostas e contemplaram 27 projetos. Em moldes semelhantes, a FAPESP mantm um convnio com o DFG (Deutsche Fors-chungsgemeinschaft), principal agncia de fomento pesquisa da Alemanha. No ano passado, a Fundao estabeleceu uma ponte com a pesquisa britnica, ao firmar acordos de cooperao com os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK, na sigla em ingls) e com o Kings College London, que se tornou a primeira universidade britnica par-ceira da FAPESP. Tais acordos ainda vo gerar chamadas de propostas. A estrat-gia de internacionalizao da FAPESP inclui tambm trazer cientistas de fo-ra. Por isso, oportunidades de bolsas de ps-doutorado so oferecidas em anncios mensais na revista Nature e tambm no site da fundao, em portu-gus e em ingls. Grandes iniciativas da Fundao, como os programas Biota, que estuda a biodiversidade paulista, o Bioen, de pesquisa em bioenergia, e o programa de pesquisa sobre mudanas climticas globa