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6 artigo 362ARTIGO ORIGINAL

TRATAMENTO DE FRATURAS E COMPLICAES PS-TRAUMTICAS DO MERO COM FIXADORES EXTERNOS OSTEOLINE:

UMA OPO DE TRATAMENTO

TREATMENT OF POST-TRAUMATIC HUMERAL FRACTURES ANDCOMPLICATIONS USING THE OSTEOLINE EXTERNAL

FIXATOR: A TREATMENT OPTION

Marcos Coelho de Azevedo1, Gualter Maldonado de Azevedo2, Alexandre Yoshio Hayashi3, Paulo Emilio Dourado Nascimento3

1 Mdico Ortopedista; Chefe do Servio de Ortopedia e Traumatologia do Hospital dos Acidentados Maternidade So Lucas em Cacoal, Rondnia, Brasil.2 Mdico Ortopedista do Servio de Ortopedia da Santa Casa de Misericrdia de Marlia; Estagirio do Servio de Ortopedia e Traumatologia do Hospital dos Acidentados

Maternidade So Lucas em Cacoal, Rondnia, Brasil.3 Mdico Ortopedista do Servio de Ortopedia da Santa Casa de Misericrdia de Marlia, So Paulo, Brasil.

Trabalho realizado no Hospital dos Acidentados Maternidade So Lucas em Cacoal, Rondnia.

Correspondncia: Rua Luther King, 2.399, Jardim Clodoaldo 78975-000 Cacoal, RO.E-mail: [email protected] / [email protected]

Trabalho recebido para publicao: 25/05/2010, aceito para publicao: 29/10/2010.

RESUMOObjetivo: Avaliar os resultados obtidos no tratamento das fra-turas diafisrias do mero e suas complicaes com o uso de fixadores externos uniplanares Osteoline. Mtodos: Foram avaliados, retrospectivamente, os resultados radiogrficos e funcionais de 78 pacientes com fraturas diafisrias do mero tratados com a tcnica de fixao externa uniplanar. A idade variou de 23 a 71 anos, com mdia de 47 anos. O sexo mascu-lino foi predominante em 79% dos casos. Dos 78 pacientes, 45 apresentavam fraturas expostas, 14 pseudartroses e seis falhas de sntese. No houve nenhuma perda durante o seguimento, sendo que todos os pacientes receberam alta aps a consolidao da fratura e recuperao funcional. Os resultados foram avaliados com base nos trabalhos de Catagni em bom, regular e mau. Resultados: Observamos a consolidao da fratura em 98% dos casos tratados com fixao externa uniplanar. Somente um caso de pseudartrose necessitou de converso para fixao interna rgida e enxerto sseo autlogo. Ao final do tratamento, todos os pacientes receberam alta com consolidao da fratura, sem dor e com boa funo do membro. Concluso: A fixao externa descrita no presente trabalho mostrou-se eficiente e segura como mtodo de tratamento das fraturas diafisrias do mero e suas complicaes, preservando o status biolgico local e propiciando movimentao passiva e ativa no ps-operatrio imediato.

Descritores - Fraturas do mero; Fixadores Externos; Pseudartrose

ABSTRACTObjective: To evaluate the results obtained from treatment

of humeral shaft fractures and their complications using theOsteoline uniplanar external fixator. Methods: The radiographic and functional results from 78 patients with humeral shaft frac-tures treated using the uniplanar external fixation technique were retrospectively assessed. The patients ages ranged from 23 to 71 years, with a mean of 47 years. Male patients pre-dominated (79%). Out of the 78 patients, 45 presented open fractures, 14 presented pseudarthrosis and six presented syn-thesis failure. There were no losses during the follow-up and all the patients were discharged after fracture consolidation and functional recovery. The results were evaluated based on the studies by Catagni, as good, fair or poor. Results: Frac-ture consolidation was observed in 98% of the cases treated with uniplanar external fixation. Only one pseudarthrosis case required conversion to rigid internal fixation and autologous bone grafting. At the end of the treatment, all the patients were discharged with consolidated fractures, without pain, and good limb function. Conclusion: The external fixation described in this paper was shown to be an efficient and safe method for treating humeral shaft fractures and their complications. It preserved the local biological status and enabled passive and active movementimmediately after surgery.

Keywords Humeral Fractures; External Fixators; Pseudoartrhorosis

Rev Bras Ortop. 2011;46(4):390-97

Os autores declaram inexistncia de conflito de interesses na realizao deste trabalho / The authors declare that there was no conflict of interest in conducting this work

Este artigo est disponvel online nas verses Portugus e Ingls nos sites: www.rbo.org.br e www.scielo.br/rbortThis article is available online in Portuguese and English at the websites: www.rbo.org.br and www.scielo.br/rbort

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INTRODUO

As fraturas da difise umeral compem aproximada-mente 1% de todas as fraturas. So fraturas que apre-sentam taxa de consolidao elevada com tratamento conservador(1) ou cirrgico. rteses funcionais geral-mente levam a consolidao com limites aceitveis de deformidades sseas enquanto mantm a mobilidade das articulaes adjacentes durante o tratamento. A con-solidao nesses casos ocorre em mdia de 90 a 98% em sries que utilizaram imobilizaes funcionais(1-4). Embora os mtodos de tratamento conservador ofere-am normalmente excelentes resultados, podem persistir alguns problemas, o que estimulou o desenvolvimento de vrias tcnicas de fixao interna e fixao externa(5).

A opo cirrgica geralmente reservada para fra-turas expostas, fraturas instveis aps reduo, fraturas patolgicas, intolerncia ao tratamento conservador, paciente politraumatizado, ombro flutuante, cotovelo flutuante, fraturas bilaterais, dficit neurolgico pro-gressivo do nervo radial, leso do plexo braquial e leso vascular(6), sendo de exceo qualquer outra indicao, inclusive a utilizao da fixao externa como forma de tratamento. Quando for indicado o tratamento cirrgico, o cirurgio dever selecionar o mtodo mais adequado para cada paciente, baseando-se na razo para fixao, na localizao e configurao da fratura, na qualidade do osso e na capacidade tcnica do prprio cirurgio.

A fixao externa das fraturas do mero tem indica-es limitadas. Isso inclui as fraturas expostas, onde as leses sofridas pelo tecido mole impedem que o cirur-gio possa executar com segurana a fixao interna, bem como as fraturas nas quais ocorreram perda ssea segmentar(7,8). Alm disso, a utilizao da fixao ex-terna pode ser a maneira mais rpida para se estabilizar uma fratura, a fim de que o cirurgio vascular execute a reconstituio dos vasos prejudicados, quando existem leses vasculares capazes de colocar em risco o membro afetado(9). A maioria dos relatos clnicos concentra-se na utilizao da fixao externa para estabilizar fraturas causadas por armas de fogo(7,8).

A ausncia de consolidao da fratura umeral diafisria em mais de 24 semanas(3) configura uma pseudartrose, que, embora pouco frequente, considerada grave pelas potenciais complicaes que a acompanham. O tratamento efetivo fundamental a fim de evitar perda funcional persistente para o paciente(10). Benedetti e Argnani(11), Catagni et al(12), Lopes Neto et al(13) e Pallazzo Neto(14) analisaram as vantagens e

inconvenincias do uso do fixador externo de Ilizarov, salientando a possibilidade de consolidar a pseudartrose, tratar a infeco, corrigir os desvios e preencher a perda ssea por meio do transporte sseo.

No presente trabalho, foram estudados, retrospecti-vamente, 78 casos de pacientes tratados com fixadores externos no mero. Em todos os pacientes, portadores de fraturas de vrios tipos com diferentes graus de cominui-o, alm de complicaes pr-operatrias, foram reali-zadas avaliaes funcionais peridicas dos membros. O objetivo foi avaliar a evoluo e o grau de recuperao funcional nas fraturas dos membros superiores tratadas com o fixador externo tipo Osteoline.

CASUSTICA E MTODO

Foram estudados, retrospectivamente, os pronturios de 78 pacientes com fraturas do mero que utilizaram fi-xadores externos, tratados de junho de 1996 a maro de 2009. Os pronturios mdicos foram revisados conforme protocolo previamente elaborado, para registro de todas as informaes concernentes s fraturas, ao tratamento realizado e ao seguimento do paciente. Em seguida, os exames radiogrficos disponveis das leses, da data do trauma e do seguimento at a alta ambulatorial foram estudados com a finalidade de avaliar a consolidao, a evoluo e o retorno funo do membro lesado.

Dos 78 pacientes estudados, 62 eram homens e 16 mulheres (Figura 1), com idade mdia de 47 anos (va-riao: 23 a 71 anos). Quarenta e cinco eram fraturas expostas, 13 fraturas fechadas, 14 pseudartroses e seis falhas de sntese (Figura 2). Nenhum dos pacientes foi a bito devido s leses iniciais, nem posteriormente du-rante o tratamento. No houve tambm nenhuma perda de seguimento entre os pacientes estudados.

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Figura 1 Distribuio dos pacientes quanto ao sexo.

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Quanto ao mecanismo de trauma, predominaram os de alta energia, como os acidentes motociclsticos (60 casos) e automobilsticos (sete casos) e acidentes no trabalho (cinco casos) (Figura 3).

Figura 2 Distribuio dos pacientes quanto s leses.

Figura 3 Tipo de trauma.

Figura 4 Paciente 1. As imagens A e B mostram as radiogra-fias do trauma inicial. Em C, nota-se a evoluo do tratamento efetuado (pseudartrose infectada). Em D, temos a retirada do material de sntese e, em E, com a colocao de um fixador externo monoplanar simples e gesso.

Todas as pseudartroses do mero (Figuras 4 e 5) e as falhas de sntese (Figura 6) eram provindas de outros servios. As pseudartroses foram tratadas com estabili-zao cirrgica com fixador externo (Figura 5) e, destes, em cinco foi associado enxerto sseo autlogo de crista ilaca e trs com infiltrao local de 20ml de aspirado de medula ssea.

Como comorbidades, tivemos trs pacientes com traumatismo cranienceflico, dois com fraturas de fmur, seis com fraturas de tbia, um paciente com cotovelo flutuante (Figuras 7 e 8) que chegou com sndrome compartimental do antebrao e necessitou de fasciotomia (Figura 9).

Em todas as 78 fraturas, foi seguido um rgido es-quema de tratamento que consistiu na reduo e estabi-lizao da leso ssea, mobilidade precoce e acompa-nhamento ambulatorial peridico.

A B C

D E

Figura 5 Mesma paciente da Figura 1 aps dois anos de tra-tamento em diversos servios. A imagem A mostra a radiografia depois da retirada do fixador externo e limpeza cirrgica. Em B, nota-se o fixador externo instalado e com compresso do foco. Nas imagens C, D e E temos a consolidao da fratura aps nove meses de tratamento e infiltrao com aspirado de medula ssea e, em F, notamos a paciente ainda com o fixador externo, mas j apresentando bom resultado funcional.

A B C

D E F

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Os resultados foram classificados com base nos tra-balhos de Catagni(12) em bom, regular e mau. Sendo bom quando h consolidao sem infeco, indolor e com boa funo do membro afetado; regular, quando h consolidao sem infeco, porm permanece dor e/ou restrio dos movimentos articulares; e mau, quan-do existe ausncia de consolidao ou infeco ou ri-gidez articular limitante, com m funo do membro. Foi considerado como boa funo do membro quando o paciente conseguia levar o membro tratado cabea, boca, ndega e ombro contralateral.

Os fixadores externos Osteoline (Figura 10) so unilaterais e uniplanares compatveis com meios-pinos sseos cilndricos e no transfixantes. Este aparelho pos-sui uma haste metlica com mecanismo que permite o alongamento ou encurtamento do seu comprimento sem alterao da estrutura primariamente montada. Na

Figura 6 Paciente 2. A imagem A mostra as radiografias do trauma inicial. Em B e C, nota-se o tratamento efetuado e sua evoluo com pseudartrose. Em D, iniciamos o tratamento com retirada do material de sntese e colocao de um fixador externo com compresso do foco fraturrio. Em E, nota-se a formao de calo sseo exuberante.

A B C

D E

Figura 7 Paciente 3. As imagens A e B mostram as radiogra-fias do trauma inicial (cotovelo flutuante). Em C e D, temos o tratamento efetuado com fixadores externos em mero, ulna e rdio (tero mdio e distal). A paciente chegou com sndrome compartimental e foi necessria fasciotomia. Em E e F, temos a paciente em tratamento, j com fechamento da fasciotomia e com boa funo do ombro e do cotovelo.

A B

C D

E F

Figura 8 Mesma paciente da Figura 4 aps a retirada dos fixadores externos. A imagem A mostra as radiografias com consolidao das fraturas e, em B, C e D, nota-se boa funo do ombro e cotovelo ao final do tratamento.

A B

C D

Figura 9 Distribuio dos pacientes quanto s leses asso-ciadas.

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montagem, utilizam-se meios-pinos sseos (pinos de Schanz), sendo dois a trs proximais e distais ao foco fraturrio inseridos com um protetor de partes moles e gabarito (Figura 11), permanecendo paralelos longitudi-nalmente e a uma distncia predeterminada. Os pinos de Schanz so firmemente fixados a uma estrutura circular chamada rtula. Como elemento de conexo entre os pinos e a haste, h uma pea que fixa firmemente a haste na rtula, em uma montagem tipo bola-soquete (Figura 10). Estando com os parafusos que travam as rtulas no elemento de conexo em estado de meio aperto e as rtulas presas aos pinos sseos, podemos utilizar o conjunto como um joystick, auxiliando na reduo e alinhamento da fratura. A somatria dos movimentos da barra e das rtulas permite a essa montagem uma ampla variedade de movimentos, alm da possibilidade de ser ajustada ambulatorialmente.

TCNICA CIRRGICA

Todos os pacientes foram operados pelo mesmo cirurgio. Foi optado pela utilizao de bloqueios do plexo braquial, tanto pela qualidade anestsica quanto pelo efeito analgsico ps-operatrio. Aps assepsia e antissepsia rigorosa em todo membro afetado, lo-calizamos os pontos de insero dos pinos sseos na via lateral, abrindo-se a pele com o bisturi e seguindo com dissecao romba cuidadosa at o osso. Levamos ento, cuidadosamente, o protetor de partes moles at o osso de modo que no haja interposio de partes moles. Cada passo conferido com radioscopia. Per-furamos o orifcio piloto com uma broca de 3,0mm em baixa rotao e introduzimos o pino de 4,0mm manu-almente com chave-mandril (Figura 11), visando evitar osteotermonecrose.

So introduzidos dois a trs pinos sseos proximais e distais ao foco de fratura, paralelos entre si. Cada pino tem uma distncia predeterminada pelo protetor de partes moles, e ser fixado firmemente estrutura do fixador externo. Em seguida, sem o aperto mximo e com ajuda da radioscopia, pode-se reduzir a fratura utilizando-se os pinos como joystick e a haste como estruturas de extenso ou compresso (Figura 10). Aps obter-se a reduo desejada, realiza-se o aperto final, bloqueando o fixador. Sempre utilizamos pinos adequa-dos de acordo com a qualidade ssea da regio, ou seja, em regio metafisria, utilizamos pinos prprios para osso esponjoso e em regio diafisria, utilizamos pinos adequados para osso cortical.

PS-OPERATRIO

A maioria dos pacientes recebeu alta aps cessar o efeito do bloqueio anestsico. Apenas os pacientes com comorbidades tiveram sua alta retardada at a compensao clnica.

No ps-operatrio imediato, os pacientes foram orientados sobre os cuidados higinicos com os meios--pinos sseos, curativos, mobilidades passiva e ativa precoces. Sempre orientamos os pacientes a retirar os curativos antes do banho e a realizar a lavagem com gua corrente e sabonete o membro e o fixador externo. Aps o banho, orientamos curativos aplicando pomada com neomicina e bacitracina nos meio-pinos sseos as-sociados a curativos com gaze seca a fim de diminuir a movimentao da pele na interface pino-pele.

As radiografias so solicitadas no 15 dia aps a ci-

Figura 10 Montagem do fixador externo Osteoline. Apre-sentando os elementos de conexo (superior direita) e rtula montada (inferior direita).

Figura 11 Gabarito e protetor de partes moles esquerda e chave-mandril para insero manual dos pinos de Schanz direita.

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rurgia, e as subsequentes conforme a avaliao caso a caso. Aps a formao de calo sseo radiogrfico, iniciada a dinamizao, sendo o fixador externo flexi-bilizado com liberao axial. Estando o paciente sem dor e com funo adequada do membro por 15 dias, o fixador externo retirado.

Nos casos de pseudartrose ou retarde de consoli-dao, utilizada a tcnica de Catagni(12) na qual se faz trs dias de compresso, trs dias de extenso com descanso de um dia por semana. Esse processo repetido por trs semanas, quando realizada uma nova avaliao.

Todos os fixadores so retirados ambulatorialmente sem anestesia e, em algumas situaes, com sedao.

RESULTADOS

A consolidao ocorreu em 98% dos casos. A faln-cia na obteno da consolidao ocorreu somente em um dos casos de pseudartrose, no qual houve ostelise intensa decorrente de falta de cuidados higinicos com o fixador externo. Devido no colaborao e intole-rncia do paciente ao fixador, optamos pela utilizao de uma rtese de Sarmiento et al(1) por trs semanas, at obtermos uma boa cicatrizao da pele, e posteriormente foi realizada osteossntese com fixao interna rgida associada a enxerto sseo autlogo.

Considerando-se apenas os casos de pseudartroses (14 pacientes), a consolidao ocorreu em 93% dos ca-sos (Figura 5). Em cinco pacientes, foi associado enxer-to sseo autlogo de crista ilaca e, em trs, infiltrao local de 20ml de aspirado de medula ssea.

O tempo mdio de consolidao foi de seis meses, variando de trs a nove meses, sendo o mais prolongado o caso de uma paciente com pseudartrose infectada de difise umeral (Figuras 4 e 5).

A maioria dos pacientes apresentou reaes infla-matrias locais na regio dos pinos, sem nenhuma ma-nifestao clnica significativa, chegando at o final do tratamento.

A taxa de complicaes foi de 8%, incluindo um caso de pseudartrose j mencionado acima e um caso de sndrome compartimental que necessitou de fascio-tomia (Figura 12). Houve quatro quebras de pinos em trs fixadores e um caso de ostelise, sendo que todos os casos j apresentavam sinais de consolidao e ter-minaram o tratamento com uma rtese de Sarmiento sem outras intercorrncias. No houve nenhum caso de leso do nervo radial.

Considerando-se os tratamentos associados descri-tos acima, ao final do tratamento todos os pacientes receberam alta com consolidao das fraturas e bom resultado funcional segundo os critrios de Catagniet al(12) (Figura 8).

DISCUSSO

As fraturas do mero representam 10% de todas as fraturas dos ossos longos, sendo que a sua difise acometida em 30% dos casos. Apesar de a literatura enfatizar o tratamento conservador como mtodo de escolha para o tratamento das fraturas da difise umeral, a indicao cirrgica vem crescendo nos dias atuais(10). As tcnicas de osteossntese incluem placas de compres-so ou em ponte, hastes intramedulares e os fixadores externos(15).

O tratamento das fraturas do mero e, principalmen-te, das complicaes do seu tratamento, sempre um desafio para o cirurgio. A fixao externa uma opo com baixo ndice de complicaes, com bons resultados clnicos, reduzindo o tempo de internao e o intervalo entre internao e procedimento, minimizando sua con-dio de morbidade.

A indicao e a aplicao correta de um sistema de fixao externa dependem de trs conceitos bsicos(16): conhecimento anatmico da regio(17), da fisiopatologia da leso e conhecimento biomecnico do aparelho de fixao externa(18). Devem ser tambm consideradas a habilidade do cirurgio em manipular esses aparelhos e as caractersticas socioeconmicas e psicolgicas do paciente.

O fixador externo apresenta vrias vantagens(19,20): reteno do hematoma fraturrio, pouca perturbao das partes moles e permite a dinamizao. Segundo Ruland(19), combina as vantagens do tratamento conservador

Figura 12 Complicaes.

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e cirrgico, influenciando a formao de calo sseo pela dinamizao, extenso e compresso.

Claramente, o fixador externo tambm tem desvanta-gens. Uma o risco de infeco no trajeto dos pinos(19), que atravessam todos os tecidos da pele ao osso, colo-cando-os em contato relativo entre si e desencadeando frico com as massas musculares. Outra a ocorrncia de no consolidao, particularmente associada aos ca-sos de comprometimento grave do membro(19).

O cirurgio ortopedista tem que se manter atento aos pr-requisitos necessrios para a consolidao da leso que est tratando. Montagens inadequadas, seja por rigidez excessiva, seja por instabilidade, determinam retardes de consolidao e pseudartroses(21).

A maioria dos estudos na literatura corresponde ao tratamento de fraturas expostas com fixao externa. Em nossa casustica, a consolidao ocorreu em 98% dos casos tratados com fixao externa definitiva, sendo superior aos de Mostafavi e Tornetta(7) e Wisniewski e Radziejowski(8), 94% e 89%, respectivamente, e inferior aos de Ruland(19), que obteve 100% de consolidao em sua srie em que o fixador externo foi aplicado como primeira opo. O tempo de consolidao mdio de 24 semanas foi superior s 11(7) e 16(8) semanas citadas. As leses mais extensas, as pseudartroses e as falhas de sntese necessitaram maior tempo para a cura, inclusive com utilizao de enxerto sseo autlogo em segundo tempo, mantendo-se a fixao externa.

Watson Jones(22), Sarmiento et al(23), Shapiro e Ko-zhokmatov(24) e Taylor(25) afirmam que a consolidao da fratura aguda do mero relativamente fcil de obter, mas, na ocorrncia da pseudartrose, o sucesso do trata-mento raramente consiste em um s mtodo ou tcnica cirrgica(26). Para tanto, a associao de tcnicas como enxertia ssea, aspirado de medula ssea, dinamizao ou flexibilizao do aparelho ou tcnicas de compres-so/extenso so de fundamental importncia para o incremento da consolidao. Concordamos que a dina-mizao aps a formao de calo sseo radiogrfico especialmente importante no mero, pois, ao contrrio dos ossos dos membros inferiores, no h solicitao cclica axial.

Avaliando somente nossos casos de pseudartroses, a consolidao ocorreu em 93% dos casos, sendo com-parveis aos de Baptisto et al de 92%(26) e Silva eCatagni(27) de 95,7%. Em cinco pacientes, associamos enxerto sseo autlogo de crista ilaca e, em trs casos, aspirado de medula ssea.

A taxa de complicaes (8%) foi inferior aos valores

de outras sries. Wisniewski e Radziejowski(8) referem 36% de complicaes, que incluem dois casos de infec-o profunda e dois casos de pseudartrose. Mostafavi e Tornetta(7) apresentam 22% de complicaes, sendo trs casos de consolidao viciosa e um caso de pseudartrose.

Em nosso ambulatrio, procuramos criar um am-biente com certa descontrao, para que os pacientes se conheam e dividam suas experincias pessoais com os fixadores. Consideramos que esse intercmbio fundamental para a desmistificao do fixador entre os pacientes. Nesses retornos so avaliados os curativos, as condies de partes moles, higiene do paciente e do fixador externo e a funo do membro lesado a fim de evitar futuras complicaes. Sempre orientamos os pacientes quanto mobilidade precoce, buscando uma rpida e melhor recuperao funcional.

Comparando com outros mtodos de tratamento ci-rrgico, as taxas de consolidao foram superiores ou idnticas tanto com o uso de hastes intramedulares como placas e parafusos. Crates e Whittle(28) e Lin e Hou(29) apresentaram consolidao em 71% a 100% dos seus casos tratados com hastes intramedulares antergradas. Em se tratando de osteossntese com placas e parafusos, Lin(30) e McCormack et al(31) relataram ndices de con-solidao de 96%, enquanto Jawa et al(32) apresentaram consolidao em 100% de seus casos.

importante enfatizar que a indicao do tratamento com o fixador externo no residia apenas no fato de tratar-se de fratura exposta ou fechada e sim no conceito atual de que a magnitude das leses das partes moles pode ser intensa mesmo nas fraturas fechadas, e, nesses casos, o mtodo com fixao externa contribui para no aumentar esses danos. O fixador que escolhemos deve ser malevel em sua configurao espacial, adaptando--se s condies anatmicas de cada segmento corporal e s diferentes situaes clnicas determinadas pelas leses das partes moles.

Alm de ser j consagrado como mtodo de escolha para fraturas expostas e multifragmentadas, demonstrou ser efetivo e seguro para fraturas mais simples, como alternativa fixao interna. No mtodo h pleno res-peito s partes moles sem interferir na evoluo natural da consolidao e sem danificar a irrigao ou a dre-nagem dos tecidos lesados. A aplicao de fixadores externos para o tratamento de pseudartroses de me-ro no interfere negativamente no potencial biolgico da pseudartrose, promovendo fixao estvel e man-tendo a mobilidade das articulaes adjacentes, o que fator importante.

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CONCLUSO

O fixador externo Osteoline se mostrou seguro e eficiente, facilitando o manejo das leses, a reabilita-o e mantendo a funo das articulaes adjacentes. A

fixao externa utilizada no presente trabalho foi capaz de promover a consolidao em fraturas agudas e pseu-dartroses do mero.

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TRATAMENTO DE FRATURAS E COMPLICAES PS-TRAUMTICAS DO MERO COM FIXADORES EXTERNOSOSTEOLINE: UMA OPO DE TRATAMENTO