tolkien, j.r.r - o silmarillion

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J. R. R. TOLKIEN

QUENTA SILMARILLION(A Histria das Silmarils)

com

AINULINDAL

(A Msica dos Ainur)

e

VALAQUENTA

(Relato dos Valar)

aos quais foi acrescentado

AKALLABTH

(A Queda de Nmenor)

e

DOS ANIS DE PODER E DA

TERCEIRA ERA O SILMARILLION

J. R. R. TOLKIEN

O SILMARILLION

Organizado por Christopher Tolkien

TRADUO Walda Barcellos

So Paulo 2003

Sumrio

PREFCIO

AINULINDAL

VALAQUENTA

QUENTA SILMARILLION

I.Do incio dos tempos

II.De Aul e Yavanna

III.Da chegada dos elfos e do cativeiro de Melkor

IV.De Thingol e Melian

V.De Eldamar e dos prncipes dos eldali

VI.De Fanor e da libertao de Melkor

VII.Das Silmarils e da inquietao dos noldor

VIII.Do ocaso de Valinor

IX.Da fuga dos noldor

X.Dos sindar

XI.Do Sol, da Lua e da ocultao de Valinor

XII.Dos homens

XIII.Da volta dos noldor

XIV.De Beleriand e seus reinos

XV.Dos noldor em Beleriand

XVI.De Maeglin

XVII.Da chegada dos homens ao oeste

XVIII.Da runa de Beleriand e da queda de Fingolfin

XIX.De Beren e Lthien

XX.Da quinta batalha: Nirnaeth Arnoediad

XXI.De Trin Turambar

XXII.Da destruio de Doriath

XXIII.De Tuor e da queda de Gondolin

XXIVDa viagem de Erendil e da Guerra da Ira AKALLABTH

DOS ANIS DE PODER E DA TERCEIRA ERA

Prefcio

O Silmarillion, publicado agora, quatro anos aps o falecimento do seu autor, um relato dos Dias Antigos, a Primeira Era do Mundo. Em O Senhor dos Anis, foram narrados os grandes eventos do final da Terceira Era; as histrias de O Silmarillion, no entanto, so lendas derivadas de um passado muito mais remoto, quando Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, habitava a Terra-mdia, e os altos-elfos guerrearam com ele pela recuperao das Silmarils.

Mas O Silmarillion no relata apenas os eventos de uma poca muito anterior quela de O Senhor dos Anis; em todos os pontos essenciais de sua concepo, ele tambm , de longe, a obra mais antiga. Na realidade, embora na poca no se chamasse O Silmarillion, ele j existia meio sculo atrs. Em cadernos velhssimos, que remontam a 1917, podem ser lidas as verses iniciais das histrias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas s pressas, a lpis Ele nunca foi publicado (ainda que alguma indicao de seu contedo pudesse ser depreendida de O Senhor dos Anis), mas meu pai, durante sua longa vida, jamais o deixou de lado, nem parou de trabalhar nele, mesmo em seus ltimos anos. Durante todo esse tempo, O Silmarillion, se considerado meramente como uma grande estrutura narrativa, sofreu relativamente poucas mudanas radicais: h muito, tornou-se uma tradio estabelecida e uma fonte de referncia para textos posteriores. Estava, entretanto, longe de se fixar como um texto pronto, e no permaneceu inalterado nem mesmo em certas idias fundamentais relativas natureza do mundo que retrata, quando as mesmas lendas voltaram a ser relatadas em formas mais longas e mais curtas e em estilos diferentes. Com o passar dos anos, as mudanas e as variantes, tanto em detalhes quanto em perspectivas maiores, tornaram-se to complexas, to onipresentes e com tantos nveis, que uma verso final e definitiva parecia inatingvel. Alm disso, as velhas lendas (velhas agora no s por derivarem da remota Primeira Era, mas tambm em termos da vida de meu pai) passaram a ser veculo e repositrio de suas reflexes mais profundas. Em seus textos tardios, a mitologia e a poesia cederam espao a preocupaes teolgicas e filosficas, motivo pelo qual surgiram incompatibilidades de tom.

Quando da morte de meu pai, coube-me tentar organizar obra em forma publicvel. Tomou-se claro para mim que a tentativa de apresentar, num nico volume, a diversidade de materiais revelar O Silmarillion de fato como uma criao contnua e em evoluo, que se estendeu por mais de cinqenta anos levaria na realidade apenas confuso e ao obscurecimento daquilo que essencial. Propus-me, por isso, elaborar um texto nico, selecionando e organizando trechos de tal modo que me parecessem produzir a narrativa mais coerente e de maior consistncia interna Nesta obra, os captulos conclusivos (a partir da morte de Trin Turambar) apresentaram dificuldades especiais, j que permaneceram inalterados ao longo de muitos anos e, sob certos aspectos, conflitavam seriamente com concepes mais elaboradas em outras partes do livro.

No se pode aspirar a uma harmonia perfeita (quer no mbito do prprio O Silmarillion, quer entre O Silmarillion e outras obras publicadas de meu pai), e ela somente poderia ser alcanada, se fosse possvel, a um custo elevado e desnecessrio. De mais a mais, meu pai veio a conceber O Silmarillion como uma compilao, uma narrativa sucinta e abrangente, feita muito tempo depois, a partir de fontes de grande diversidade (poemas, crnicas histricas e narrativas orais), que sobreviveram numa tradio secular. Essa concepo tem de fato paralelo na verdadeira histria do livro, pois um enorme volume de prosa e poesia antiga subjaz a ele; ele , at certo ponto, um compndio de fato, e no apenas em teoria. A esse fator, pode-se atribuir a variao de ritmo da narrativa e a riqueza de detalhes em diversas partes, o contraste (por exemplo) entre as recordaes precisas de lugar e motivo na lenda de Trin Turambar e o relato remoto e sublime do final da Primeira Era, quando as Thangorodrim foram destrudas e, Morgoth, derrotado, bem como algumas diferenas de tom e de descrio, alguns pontos obscuros e, aqui e ali, alguma falta de coeso.

No caso do Valaquenta, por exemplo, temos de supor que, embora ele contenha muitos fatos que devem remontar aos primeiros dias dos eldar em Valinor, deve ter sido reformulado em tempos mais recentes, o que explica sua contnua mudana de tempo verbal e de ponto de vista, de tal modo que os poderes divinos ora parecem presentes e ativos no mundo, ora remotos, constituindo uma camada desaparecida, conhecida apenas na lembrana.

O livro, embora devidamente intitulado O Silmarillion, contm no somente o Quenta Silmarillion ou O Silmarillion, mas tambm quatro outras obras curtas O Ainunlidal e o Valaquenta, que so apresentados no incio, esto na realidade intimamente associados a O Silmarillion. J o Akallabth e Dos anis de poder, que aparecem no final, so totalmente separados e independentes (o que se deve salientar). Esto includos em obedincia explcita inteno de meu pai; por meio de sua incluso, toda a histria descrita, desde a Msica dos Ainur, com a qual o mundo comeou, at a passagem dos Portadores do Anel saindo dos Portos de Mithlond, no final da Terceira Era.

A quantidade de nomes que aparecem no livro muito grande, motivo pelo qual elaborei um glossrio completo; porm, o nmero de pessoas (elfos e homens) que desempenham papel importante na narrativa da Primeira Era muito menor, e todos eles constam nas rvores genealgicas. Alm disso, preparei tambm um adendo, que especifica a denominao bastante complexa dos diferentes povos lficos; uma nota a respeito da pronncia dos nomes dos elfos e uma lista de alguns dos principais elementos encontrados nesses nomes; alm de um mapa.

Deve-se ressaltar que a grande cadeia de montanhas a leste, Ered Luin ou Ered Lindon, as Montanhas Azuis, aparece no extremo oeste do mapa de O Senhor dos Anis. No corpo do livro, h um mapa menor A inteno deixar clara a um mero golpe de vista onde se localizavam os reinos dos elfos depois da volta dos noldor a Terra-mdia. No sobrecarreguei o livro com mais nenhum tipo de comentrio ou anotao. Existe de fato uma grande quantidade de textos inditos de meu pai narrativos, lingsticos, histricos e filosficos -, relacionados s Trs Eras; espero conseguir publicar parte deles futuramente.

Na tarefa rdua e cheia de dvidas de finalizar o texto para o livro, recebi a enorme ajuda de Guy Kay, que trabalhou comigo em 1974 e 1975.

Christopher Tolkien

AINULINDAL

Ainulindal

A Msica dos Ainur

Havia Eru, o nico, que em Arda chamado de Ilvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presena, e ele se alegrou. Entretanto, durante muito tempo, eles cantaram cada um sozinho ou apenas alguns juntos, enquanto os outros escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilvatar da qual havia brotado e evolua devagar na compreenso de seus irmos. No obstante, de tanto escutar, chegaram a uma compreenso mais profunda, tornando-se mais consonantes e harmoniosos.

E aconteceu de Ilvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso, desdobrando diante de seus olhos imagens ainda mais grandiosas e esplndidas do que havia revelado at ento; e a glria de seu incio e o esplendor de seu final tanto abismaram os Ainur, que eles se curvaram diante de Ilvatar e emudeceram.

Disse-lhes ento Ilvatar: - A partir do tema que lhes indiquei, desejo agora que criem juntos, em harmonia, uma Msica Magnfica. E, como eu os inspirei com a Chama Imperecvel, vocs vo demonstrar seus poderes ornamentando esse tema, cada um com seus prprios pensamentos e recursos, se assim o desejar. Eu porm me sentarei para escutar; e me alegrarei, pois, atravs de vocs, uma grande beleza ter sido despertada em forma de melodia.

E ento as vozes dos Ainur, semelhantes a harpas e alades, a flautas e trombetas, a violas e rgos, e a inmeros coros cantando com palavras, comearam a dar forma ao tema de Ilvatar, criando uma sinfonia magnfica; e surgiu um som de melodias em eterna mutao, entretecidas em harmonia, as quais, superando a audio, alcanaram as profundezas e as alturas; e as moradas de Ilvat