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  • Teoria Crtica e Educao: contribuies da Teoria Crtica para a formao do professor

    Bruno Pucci1

    Resumo: Este artigo, em forma de fragmentos, tenta estabelecer relaes polares entre teoria crtica e educao e, dessa aproximao perigosa, criar circuitos complementares para iluminar o obscurecido campo de foras que a educao do educador. Por se tratar de fragmentos, espalhados pelo texto, sua forma de exposio inacabada, supe do leitor continuidade e interveno. O exerccio filosfico e esttico de compor os quadros visa aguar a razo e a fantasia e tornar o percurso de formao mais denso e expressivo.

    0 Introduo Fazemos parte, como pesquisador e coordenador, do Grupo de Estudos e Pesquisa

    Teoria Crtica e Educao, constitudo em agosto de 1991, em So Carlos, SP, com

    sedes, atualmente, na Universidade Federal de So Carlos (UFSCar), na Universidade

    Metodista de Piracicaba (UNIMEP) e na Universidade Estadual de So Paulo (UNESP-

    Araraquara). Estamos comemorando, pois, o dcimo aniversrio de vida. Somos

    aproximadamente quarenta pesquisadores 07 doutores, 08 doutorandos, 15 mestrandos

    e 10 bolsistas de iniciao cientfica e graduandos que se preocupam, em suas

    investigaes, com as contribuies da teoria crtica para se pensar os problemas da

    educao e da formao cultural contempornea. Reunimo-nos semanalmente em nossas

    sedes universitrias. Pertencemos a diversas reas do saber filosofia, pedagogia,

    comunicao social, sociologia, psicologia, arte, literatura que se contrapem e se

    complementam, sob as luzes interdisciplinares dos conceitos frankfurtianos, na busca do

    saber e da interveno crtica. Realizamos uma expressiva produo cientfico-acadmica

    nestes dez anos: livros2, captulos de livros, artigos cientficos, tradues, participao em

    1 Professor titular da Faculdade de Educao da UNIMEP. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas Teoria Crtica e Educao. Pesquisador do CNPq e da FAPESP. 2 Os livros por ns produzidos nesse perodo: 1) - LASTRIA, Luiz Antnio Calmon Nabuco. tica, esttica e quotidiano: a cultura como possibilidade de individuao. Piracicaba: Ed. UNIMEP, 1994; 2) - PUCCI, Bruno (Org.). Teoria Crtica e Educao: A Formao Cultural na Escola de Frankfurt. Editora VOZES/EDUFSCar, Petrpolis, RJ, 1 Edio: maro de 1995 e 2 Edio: agosto de 1995; 3) - PUCCI, Bruno, RAMOS-DE-OLIVEIRA, Newton, ZUIN, Antnio lvaro Soares (orgs.), A Educao danificada:

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    eventos cientficos, dissertaes e teses, relatrios cientficos, organizaes de eventos

    cientficos, cursos e palestras. O trabalho e a reflexo coletiva tm-nos feito bem e

    fertilizado nossa produo. O CNPq, desde o incio, e a FAPESP, a partir de 1997, tem nos

    acompanhado e auxiliado em nossas atividades de pesquisa. A partir da experincia

    acumulada neste perodo, muitas coisas poderamos dizer sobre a temtica acima exposta.

    Abordaremos, porm, apenas alguns tpicos pertinentes e de forma assistemtica, aberta e

    fragmentria.

    1 Pinceladas sobre a Teoria Crtica

    Quando falamos em Teoria Crtica3 nos referimos ao pensamento de um grupo de

    intelectuais marxistas no ortodoxos, alemes, que, a partir dos anos 1920, desenvolveram

    pesquisas e intervenes tericas sobre problemas filosficos, sociais, culturais, estticos

    gerados pelo capitalismo tardio e influenciaram sobremaneira o pensamento ocidental

    particularmente dos anos 40 aos anos 70 do sculo passado. Esses pensadores constituem a

    chamada Escola de Frankfurt, pelo fato de se estabelecerem enquanto um grupo de

    pesquisadores nesta cidade alem, criando a seu instituto de investigao e o rgo de

    divulgao de suas produes, a Revista de Pesquisa Social. Destacam-se entre seus

    membros, Max Horkheimer, coordenador da Escola de 1930 at 1967, Herbert Marcuse,

    mais conhecido no Brasil nos anos 1970, por seus livros aqui publicados, Theodor Adorno,

    Contribuies Teoria Crtica da Educao, Petrpolis: Vozes/Edufscar, 1 edio: fev. 1998, 2 edio nov 1998; 4) PUCCI, Bruno e ZUIN, Antnio lvaro Soares, A Pedagogia Radical de Henry Giroux: uma crtica imanente. Srie Teoria Crtica. Ed. da UNIMEP, Piracicaba, 1999; 5) ZUIN, Antnio lvaro Soares. A indstria cultural e educao: o novo canto da sereia. Campinas/So Paulo: Autores Associados/FAPESP, 1999; 6) - BEREOFF, Paulo Srgio. Experincia formativa e educao fsica. So Paulo: Editora UNISA, 1999; 7) - PUCCI, Bruno, RAMOS-DE-OLIVEIRA, Newton, ZUIN, Antnio lvaro Soares, T. W. ADORNO: o poder formativo do pensamento crtico. Petrpolis: Editora Vozes, Coleo Educao e Conhecimento, 1 edio: maro/2000; 2 edio: outubro/2000; 191 pgs.; 8) PUCCI, Bruno, LASTRIA, Luiz Antnio Calmon Nabuco e COSTA, Belarmino Csar Guimares da (Orgs.), Teoria Crtica, tica e Educao. Srie Teoria Crtica. Piracicaba: Editora UNIMEP/Autores Associados/FAPESP. 2001, 237 pp.; 9) PUCCI, Bruno, RAMOS-de-OLIVEIRA, Newton. e ZUIN, Antnio. lvaro Soares (Orgs.). Teoria Crtica, Esttica e Educao. Srie Teoria Crtica. Campinas: Autores Associados/Editora da UNIMEP/FAPESP. 2001. 3 Alguns textos sobre a Teoria Crtica: JAY, Martin. La imaginao dialctica: histria de la Escuela de Frankfurt y el Instituto de investigacion social (1923-1950). Versin espanhola de Juan Carlos Curutchet. Madrid: Taurus ediciones, 1974; SLATER, Phil. Origem e significado da Escola de Frankfurt. Traduo de Alberto Oliva. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978; FREITAG, B. A teoria crtica ontem e hoje. So Paulo: Brasiliense, 2 ed. 1988; BUCK-MORSS, Susan. Origen de la dialctica negativa: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin y el Instituto de Frankfurt. Traduo de Nora Rabotnikof Maskivker. Mxico: Siglo Veintiuno editores, 1981.

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    que ingressou no Instituto no final dos anos 1930 e dirigiu-o de 1967 a 1969, Walter

    Benjamin, bolsista do Instituto nos anos 1933-1940 e Jrgen Habermas, ainda vivo e muito

    produtivo, mas que se afastou da Escola posteriormente. O termo teoria crtica se

    consagrou a partir do artigo de Max Horkheimer, em 1937 Teoria tradicional e teoria

    crtica, em que o autor prefere utilizar essa expresso para fugir da terminologia

    materialismo histrico utilizada pelo marxismo ortodoxo, hegemnico na poca, e por

    querer mostrar que a teoria marxiana era atual, mas devia se importar em suas reflexes

    com outros aspectos crticos presentes na abordagem da realidade: o filosfico, o cultural, o

    poltico, o psicolgico e no se deixar conduzir predominantemente pelo economicismo

    determinista. Os autores frankfurtianos clssicos dos anos 1930 a 1970 escreveram

    fundamentalmente sobre temas filosficos (crtica razo iluminista; dialtica negativa;

    particular concreto; verdade inintencional), culturais (cultura e civilizao; Indstria

    cultural; semiformao); sociais (indivduo e sociedade; sociedade unidimensional;

    sociedade administrada); estticos (ensaio como forma; constelao; experincia esttica;

    mimese e racionalidade na obra-de-arte); psicolgicos (personalidade autoritria;

    preconceito; antissemitismo). E mesmo permanecendo nos horizontes do pensamento

    marxista, dialogaram critica e intensamente com Kant, Hegel, Weber, Nietzsche e Freud.

    Centralizaremos a anlise de nossa temtica nos escritos de Theodor Adorno4. Isso

    porque, durante os dez anos de nossa pesquisa, o autor que mais lemos, que mais nos atraiu

    a ateno e que mais subsdio trouxe para nossas reflexes foi ele. Nasceu em Frankfurt

    em 1903, filho de um comerciante judeu abastado e de uma cantora profissional, de origem

    italiana que lhe deu o sobrenome; leu a Crtica da Razo Pura, de Kant, aos 15 anos,

    estudou msica em Viena com Berg aos 18 anos, cursou filosofia, sociologia, psicologia;

    conheceu Horkheimer e Benjamin quando tinha dezenove anos e se tornaram velhos

    amigos e parceiros de textos e de conceitos inovadores ; defendeu sua tese de doutorado

    com 21 anos de idade, tornou-se professor da Universidade de Frankfurt; deixou a

    Alemanha, em 1933, com a subida de Hitler ao poder, exilou-se inicialmente para a

    4 Para melhor entender o pensamento de Adorno, sugerimos os livros: JAY, Martin. As idias de Adorno. Traduo de Adail Ubirajara Sobral. So Paulo: Editora Cultrix, 1988; PUCCI, Bruno, RAMOS-DE-OLIVEIRA, Newton, ZUIN, Antnio lvaro Soares, T. W. ADORNO: o poder formativo do pensamento crtico. Petrpolis, RJ, Editora Vozes, Coleo Educao e Conhecimento, 1 edio: maro/2000; 2 edio: outubro/2000; 191 pgs.

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    Inglaterra e depois para os Estados Unidos, onde viveu de 1938 a 1950, em New York e

    depois na Califrnia, vivenciando por dentro a experincia de uma sociedade

    industrializada avanada; de volta sua ptria, foi professor universitrio, autor de

    inmeros livros, ensaios, conferncias, cursos; escreveu sobre filosofia, arte, literatura,

    sociologia, psicologia, observou atentamente os fenmenos culturais de sua poca e

    analisou-os criticamente; viveu tenses provindas do movimento estudantil dos anos 1968,

    enquanto diretor do Instituto de Pesquisa Social; faleceu em 1969. A filosofia e a arte

    acompanharam esse pensador em todos os seus escritos5. Seu livro de crnicas tico-

    filosficas, Minima Moralia6 1944-47 , escrito no exlio e, parte dele, durante os

    horrores da 2 Guerra Mundial, um aglomerado de aforismos, em que a imagem, o

    conceito e a palavra se unem na composio de um pequeno ensaio e na expresso esttica

    de agudas anlises tico-filosficas. Seu livro declaradamente filosfico, Dialtica

    negativa7, divulgado em 1967, perpassado por uma cadncia musical, cujo tema central se

    desvela paulatinamente medida que suas mltiplas variaes so executadas na releitura

    do texto. Teoria Esttica8, sua obra-prima sobre a arte, publicada em 1970, aps sua morte,

    se utiliza o tempo todo das categorias filosficas para iluminar seus cantos e desvendar seus

    encantos.

    2 Teoria Crtica e Educao.

    Adorno no escreveu nenhum livro especfico sobre educao, embora em suas

    coletneas de textos se encontrem ensaios sobre a questo educacional. Assim, por

    exemplo, na coletnea Palavras e Sinais: modelos crticos9, constituda por 11 ensaios,

    h dois que analisam problemticas educacionais e merecem ser destacados: A educao

    5 O livro j citado T. W. ADORNO: o poder formativo do pensamento crtico, de PUCCI, RAMOS-de-Oliveira e ZUIN, pp. 177-191, apresenta uma ampla e detalhada bibliografia comentada sobre as obras adornianas. 6 ADORNO, T. W. Minima Moralia: reflexes a partir da vida danificada. Traduo de Luiz Eduardo Bicca. So Paulo:tica, 1992. 7 ADORNO, T.W. Dialctica negativa. Versin em espanhol de Jos Maria Ripalda. Madrid: Taurus Ediciones, 1975. Newton Ramos-de-Oliveira est traduzindo este livro do alemo para o portugus. um trabalho lento, difcil, acompanhado e revisado pelo GEP Teoria Crtica e Educao, em suas reunies semanais. 8 ADORNO, T.W. Teoria Esttica. Traduo de Artur Moro. Lisboa: Edies 70, 1992. 9 ADORNO, T.W. Palavras e Sinais: modelos crticos. Traduo de Maria Helena Ruschel. Petrpolis: VOZES, 1995.

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    aps Auschwitz10 e Tabus que pairam sobre a profisso de ensinar11. Do mesmo

    modo, na coletnea Sociologica12, organizada e escrita por Adorno em parceria com

    Horkheimer, h um ensaio, do prprio Adorno, fundamental para se entender o que ele

    pensa sobre a educao, denominado Teoria da Semicultura13. Em 1995, Wolfgang Leo

    Maar, professor da UFSCar, traduziu um conjunto de conferncias e entrevistas de Adorno,

    sobre a educao, e publicou-as no livro Educao e Emancipao14: so elas: O que

    significa elaborar o passado, A filosofia e os professores, Televiso e formao,

    Tabus acerca do magistrio, Educao aps Auschwitz, Educao para qu?,

    A educao contra a barbrie, Educao e Emancipao.

    As conferncias sobre questes educacionais so bem elaboradas e gozam de

    densidade terica compatvel com ensaios filosficos, estticos e culturais adornianos. As

    entrevistas livres, de que participou especialmente com Hellmut Becker, transmitidas pelas

    Rdios de Hessen e de Frankfurt15, algumas delas presentes no livro Educao e

    emancipao, se revestem de numa linguagem coloquial, em que o entrevistado se

    preocupa sobremaneira com o entendimento dos ouvintes e apresenta, inclusive, sugestes

    concretas sobre a relao teoria-prtica educacional, contribuindo assim para amenizar a

    imagem do crtico apenas negativo, predominante em seus escritos.

    Vamos enfatizar, a seguir, algumas contribuies de Adorno para a formao dos

    professores, presentes em duas de suas principais conferncias sobre educao. Na 10 Este ensaio possui trs tradues na lngua portuguesa. A primeira foi feita por Aldo Onesti e publicada no livro COHN, Gabriel. Theodor W. Adorno. Sociologia. So Paulo: tica, 1986; as duas outras foram feitas por Maria Helena Ruschel, no livro citado na nota anterior, e por MAAR, Wolfgang Leo, no livro Theodor W. Adorno. Educao e Emancipao. So Paulo: Paz e Terra, 1995. Eu me utilizo sempre da primeira traduo. 11 O ensaio de Adorno Tabus ber dem Lehrberuf, recebeu na lngua portuguesa trs verses. A mais antiga, a de Newton Ramos-de-Oliveira, elaborada em 1992, e publicada apenas em 2000, no livro T. W. ADORNO: o poder formativo do pensamento crtico, de PUCCI, RAMOS-de-Oliveira e ZUIN, pp 157-176, sob o ttulo de Tabus a respeito do professor; em 1995, saram mais duas verses, a de Maria Helena Ruschel, no livro j citado, com o ttulo de Tabus que pairam sobre a profisso de ensinar e a verso de Wolfgang Leo Maar, Tabus acerca do magistrio, no livro na nota anterior citado. 12 HORKHEIMER, M. e ADORNO. T.W. Sociologica. Traducin de Victor Snchez de Zavala. Madrid: Taurus Ediciones, 1966. 13 ADORNO, T. W. Teoria da Semicultura. Traduo de Newton Ramos-de-Oliveira, Bruno Pucci e Cludia B. Moura Abreu. In Educao e Sociedade: revista quadrimestral de cincia da educao. Ano XVII, n 56, Campinas: Editora Papirus, dez/96:388-411. 14 Cf. nota 10 deste ensaio. 15 De 1959 at 1969, Adorno foi convidado ao menos uma vez por ano para participar de debates pedaggicos ou estticos nas Rdios de Hessen e de Frankfurt. Sua primeira experincia radiofnica se deu em 1959, com

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    Educao aps Auschuwitz, adverte que as condies objetivas que permitiram os

    horrores de Auschwitz ainda esto por a, no corao da civilizao industrializada, e

    podem a qualquer momento gerar situaes semelhantes. Numa sociedade danificada, que

    pode, continuamente, parir manifestaes de barbrie, s tem sentido pensar a educao

    como geradora da auto-reflexo: educao que se desenvolva enquanto esclarecimento

    geral, a comear pela infncia, que ajude a criar um clima espiritual, cultural, que no

    favorea os extremismos, a insensibilidade, a explorao das pessoas. Nesse sentido, no se

    deve fomentar experincias formativas que valorizem a dor, a capacidade para suport-la. A

    imagem da educao para a dureza, dominante...

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