Tecnologia Social e economia solidária e as possibilidades de ...

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<ul><li><p>VII ENEDS Tefilo Otoni, MG, Brasil, 23 e 24 de Setembro de 2010 </p><p>Tecnologia Social e economia solidria e as possibilidades de insero </p><p>soberana na economia. </p><p> Ricardo F. de Mello</p><p> 1, Ruth E. S. de Mello </p><p>2. </p><p>1 Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, COPPE/ SOLTEC, Rio de Janeiro/RJ, rmello@pep.ufrj.br </p><p>2 Pontifica Universidade Catlica PUC-Rio / Instituto Gnesis, Rio de Janeiro/RJ, ruth@esp.puc-rio.br </p><p>Resumo </p><p>Este artigo buscou discutir questes derivadas da proximidade entre as teorias circunscritas </p><p>economia solidria e o papel da tecnologia social em um contexto em que esta agregaria </p><p>economia solidria uma maior concretude, elemento importante considerando o carter utpico </p><p>dos seus princpios. A sinergia entre ambos os campos do conhecimento so claras e tambm </p><p>variadas. Iniciativas so apresentadas e agrupadas de modo a possibilitar a formulao de </p><p>questes temticas em torno de teorias circunscritas tecnologia social e economia solidria. </p><p>Ditos agrupamentos identificam a tecnologia social em empreendimentos econmicos </p><p>solidrios sob a tica da inovao e solues tcnicas; da organizao e desenvolvimento </p><p>comunitrio; e da participao popular e controle social da esfera pblica. Tal enfoque </p><p>precedido por ponderaes sobre o lugar que a tecnologia tem na agenda dos agentes da </p><p>economia solidria brasileira. Nesse processo, os valores no so a patente, a propriedade e a </p><p>competio, mas a valorizao da capacidade endgena, o do conhecimento tcito, do saber </p><p>local acumulado tacitamente ainda que no sistematizado e, muitas vezes sequer refletido, </p><p>pelas populaes que trabalham em busca de formas de como sobreviver e de como se inserir </p><p>no mercado com dignidade e autonomia. </p><p>Palavras-chave: Desenvolvimento; Economia, Economia solidria; Tecnologia, Tecnologia </p><p>social. </p><p>1. Introduo </p><p>O presente artigo traz questes oriundas da proximidade entre as teorias circunscritas </p><p>economia solidria e o papel da tecnologia social num contexto em que esta ltima agregaria </p><p>maior concretude economia solidria, em especial por seu carter utpico. </p><p>A primeira seo situa o debate do desenvolvimento e o papel da tecnologia no contexto do </p><p>combate excluso. Referenciais terico-conceituais do campo da tecnologia social enquanto </p><p>categoria analtica so abordados. </p><p>Segue-se como enfoque terminolgico-conceitual em torno da economia solidria enquanto </p><p>campo do conhecimento por entender que se trata de uma abordagem interessante para situar </p><p>os elementos centrais das iniciativas em foco as quais aproximam-se do conceito da tecnologia social, para alm de um olhar simplista de serem ambos contra-hegemnicos. </p><p>Ser visto que as designaes relacionadas economia solidria no so neutras ou ausentes </p><p>de disputas poltico-ideolgicas, ainda que seja possvel conform-lo em um referencial uno </p><p>da economia solidria, com as devidas ressalvas. Nessa lgica, argumenta-se seu processo de </p><p>construo no linear e est inserido em uma dimenso construtivista. </p><p>A abordagem da economia solidria implica ainda a prerrogativa de que o termo detm uma </p><p>mailto:rmello@pep.ufrj.brmailto:ruth@esp.puc-rio.br</p></li><li><p> 2 </p><p>noo que abarca inmeras prticas, as quais indicariam vislumbrar com um sistema </p><p>antagnico ao capitalismo, ainda que convivendo em princpio dentro dele. </p><p>Na seo intitulada com o mesmo nome do artigo, ttulo de experimentao, iniciativas so </p><p>apresentadas e agrupadas de modo a possibilitar a formulao de questes temticas em torno </p><p>de ambos os campos do conhecimento aqui tratados. Ditas classificaes identificam a </p><p>tecnologia social em empreendimentos econmicos solidrios sob a tica da: inovao e </p><p>solues tcnicas; da organizao e desenvolvimento comunitrio; e da participao popular e </p><p>controle social da esfera pblica. Tal enfoque precedido por ponderaes sobre o lugar que a </p><p>tecnologia tem na agenda dos agentes da economia solidria. </p><p>Caracterizam-se normalmente pelo fluxo irregular do acesso a matrias-prima, por baixa </p><p>necessidade de capital financeiro, em contraposio larga utilizao do chamado capital </p><p>social - grau de confiana, relaes duradouras, padres cvicos democrticos, relaes </p><p>duradouras de reciprocidade, de confiana, cooperao etc. </p><p>Nas consideraes finais, questes so formuladas sobre as experincias apresentadas que </p><p>simultaneamente atendem aos princpios ticos da economia solidria e da tecnologia social, </p><p>evocando a necessidade de um novo enfoque sob a economia. </p><p>2. Tecnologia social </p><p>Em meio ao cenrio contemporneo notria e, muitas vezes, manifesta uma insatisfao </p><p>ampla com respeito ao que pode se chamar padro de desenvolvimento. Isto se verifica </p><p>mesmo antes da crise financeira mundial, detonada pelo colapso do mercado habitacional de </p><p>alto risco e baixa qualidade (sub-prime) da economia estadunidense, com conseqncias </p><p>profundas e globais sobre a liquidez, o crdito, a produo, o emprego, e condies </p><p>prejudiciais relativas qualidade de vida em sentido vasto. </p><p>Sem ser possvel perceber de imediato a natureza e o alcance desse agregado de crise com </p><p>insatisfao, uma coisa parece certa: o papel extremamente relevante desempenhado pela </p><p>tecnologia, seja como fator, efeito, ou ambos, mas associada de forma intrnseca aos rumos </p><p>que o desenvolvimento tomou, tem tomado e vir a tomar. </p><p>Surge, neste ponto, uma srie de interrogantes, de carter objetivo e analtico referenciadas, </p><p>tipo: sobre qual desenvolvimento estamos falando? Sobre qual conceito de tecnologia? Sobre </p><p>qual das tecnologias, existentes, a serem criadas, re(a)plicadas? </p><p>Alm de despertar outra srie de questes, prprias a um campo tido como mais social e </p><p>humano, vistas por muitos como ideolgico-existenciais, acerca do papel que a tecnologia </p><p>em princpio, seja ela qual for pode vir a representar na direo da incluso social. </p><p>Esse cenrio catico precipita que a produo de novas formulaes e idias avancem com </p><p>velocidade muito superior nas aes, prticas, muitas boas, outras no tanto, do que a </p><p>reflexo, o debate, a filosofia que formam a efetiva massa crtica associada s novas idias e </p><p>formulaes. </p><p>Tendo essa premissa fortemente presente, com a intencionalidade principal de gerao de </p><p>marcos e referenciais terico-conceituais para a tecnologia social enquanto categoria analtica, </p><p>o caderno de textos para discusso Tecnologia para a Incluso Social e Polticas Pblicas na </p><p>Amrica Latina, organizado por Renato Dagnino, constitui um conjunto de textos que nascem </p><p>com funo bidirecional, voltadas tanto ao estmulo e embasamento ex-ante para o seminrio </p><p>homnimo, realizado em fins de 2008, no Rio de Janeiro, promovido pela Financiadora de </p><p>Estudos e Projetos - FINEP, como produo direta ex-post do seminrio. </p></li><li><p> 3 </p><p>A publicao se situa em terreno duro (esperado, face ao matiz contra-hegemnico da </p><p>mesma), porm e at por isto mesmo propcio para a produo de novas formulaes e </p><p>idias. Caracterstica, alis, que sobressai em perodos histricos marcados por turbulncias </p><p>na ordem vigente, o que pode ser visto de forma conjuntural como na recente crise global </p><p>capitalista , como de forma estrutural, no sentido de que a reduo da desigualdade que ocorre </p><p>no Brasil no governo Lula se faz acompanhada por um aumento da misria em imensos </p><p>territrios vide Haiti, vrias naes africanas, povos nossos irmos sul americanos, entre </p><p>outros. Sem falar que o prprio Brasil composto por vrios brasis onde a desigualdade se </p><p>manifesta, porm um rico campo de experincias, metodologias, inovaes tecnologias , </p><p>novas economias proliferam a cada momento. </p><p>Em meio variada gama de formulaes e idias erigidas sob tal contexto abrangendo, alm </p><p>da emisso de novas cunhas, chaves de interpretao e ressignificaes, o efetuar de resgates </p><p>conceituais, retomadas e aditivaes customizadas a verses anteriores essencial que </p><p>sejam identificadas as obras srias, com trajetria e densidade terico-analticas, as </p><p>distinguindo de idias e mosaicos encobertos em peas de marketing institucional. </p><p>Neste contexto, o trabalho de Dagnino resgate um movimento predecessor ligado </p><p>Tecnologia Apropriada (TA). Esta possui, enquanto expoente de coerncia e um de seus mais </p><p>proeminentes difusores, Mahatma Gandhi, que percebia o impulso s TA como componente </p><p>essencial transformao da situao social e econmico-exploratria vivenciada pela ndia </p><p>no incio do sculo passado. </p><p>Anexando informaes referentes s TAs ps-Gandhi, no perodo mais recente, a trajetria </p><p>chegaria chamada Tecnologia Intermediria (Schumacher, 1973), caracterizada pelo baixo </p><p>custo de capital empregado, pela pequena escala, simplicidade, e atributos correlatos, no </p><p>sentido preciso de small is beautiful (nome que o autor citado deu a sua obra). </p><p>Aps aquele momento h registro de investimentos em TA feito nos anos 1970/80, visando </p><p>principalmente gerao de fontes alternativas de energia, dado que o mundo capitalista </p><p>punha-se em risco energtico, muito pelo descuido ambiental de dcadas. </p><p>Em seguida, contudo, uma vez que o advento neoliberal poria por terra os investimentos feitos </p><p>na direo do que fosse alternativo, este debate acabou adiado, s vindo a reaquecer, depois </p><p>de longa hibernao, ao ser revisitado, na virada do ano 2000. </p><p>Neste ponto do projeto analtico, em meio (auto)crtica a aspectos do movimento das TAs, e, </p><p>considerando um contexto poltico-institucional distinto, cunha-se a expresso Tecnologia </p><p>Social, originariamente no Brasil (havendo, em alguns pases, utilizaes distintas para a </p><p>mesma expresso), com a referncia, de ser campo em construo, voltado para o objetivo </p><p>maior de transformao social. </p><p>Sabe-se que, grosso modo, a preocupao com o amorfo social pode conduzir a caminhos </p><p>difusos, que mesclam desde a expiao de culpas at a mxima sarneyana, de sua poca </p><p>presidencial, do tudo pelo social. </p><p>Longe de corresponder a uma simplificao excessiva de tipo tecnologia para incluso social </p><p>= tecnologia social, que se encontra a, subjacente, a noo de que a tecnologia pode vir a </p><p>desempenhar papel importante para amenizar/eliminar desigualdades. </p><p>Neste sentido, deve se destacar a preocupao, em situar analiticamente, segundo, inclusive, </p><p>categorias marxistas, que a abordagem sobre Tecnologia Social se prope a vos mais longos </p><p>do que simplesmente ser a negao da Tecnologia Convencional. </p><p>Assim, coletando contribuies que vo da economia da inovao sociologia da tecnologia, </p><p>junto a outras tantas contribuies, no que se pretende uma abordagem interdisciplinar, se </p></li><li><p> 4 </p><p>constitui um mosaico associado Tecnologia Social. </p><p>Para o qual tanto a abordagem sociotcnica no sentido da participao social para a </p><p>resoluo de problemas e construo de alternativas quanto nfase ao controle, </p><p>compreendida como varivel estratgica chave, no que se refere a um controle externo sobre a </p><p>organizao do trabalho e da produo, numa espcie de viso atualizada do papel </p><p>historicamente atribudo propriedade privada dos meios de produo, agora vista como </p><p>varivel exgena, configuram no mnimo uma forma de anlise, esta sim, inovadora, sobre o </p><p>campo das tecnologias sociais. </p><p>Vale ressaltar, tecnologias sociais que sejam desenvolvidas, aprimoradas, adaptadas, sem que </p><p>a inovao se restrinja ao dinmico, moderno e, sem dvida, sagaz campeo de </p><p>empreendedorismo agente econmico schumpeteriano, cujo limite de possibilidades de </p><p>investimento seria dado talvez pela frugalidade ou consistncia conferida aos papis </p><p>subprime, de preferncia, em preges realizados em dias que o mercado se encontre de bom </p><p>humor. </p><p>3. Economia solidria, prticas antigas para um conceito em construo </p><p>Fugindo do enfoque conceitual cronolgico do tema no territrio brasileiro1, observa-se a </p><p>existncia de correntes no campo da economia solidria que se refletem tambm as </p><p>diferenciadas terminologias aplicadas. </p><p>Esse enfoque se configura terreno frtil para situar os elementos centrais das prticas da </p><p>economia solidria que se aproximaram sobremaneira do conceito da tecnologia social a qual, </p><p>ao contrrio da primeira, sugere estar mais bem definida j que vem sendo amplamente </p><p>difundida como produtos, tcnicas ou metodologias reaplicveis, desenvolvidas na interao </p><p>com a comunidade e que representem efetivas solues de transformao social. (BTS, 2008) </p><p>No entanto, h de se considerar a anlise critica de Rodrigo Fonseca que mostrou a importncia de </p><p>se vincular do enfoque tecnolgico, normalmente prprio da poltica cientfica &amp; tecnolgica, para </p><p>que a tecnologia social seja vivel e, ao mesmo tempo, contribua para formulao de um modelo de </p><p>desenvolvimento alternativo, econmico e socialmente sustentvel. Nesse contexto, os planos </p><p>conceitual e material deveriam estar articulados, gerando um ciclo virtuoso, no qual a experincia </p><p>do plano material demonstra a viabilidade e eficcia da tecnologia social como conceito, criando a </p><p>base de uma nova concepo de interveno social. (FONSECA, 2009) </p><p>Feitas estas consideraes, as designaes relacionadas economia solidria no so </p><p>neutras ou ausentes de disputas poltico-ideolgicas. Demarcam caractersticas especficas </p><p>de correntes existentes no seio de um emergente movimento social, ainda que seja possvel </p><p>conform-lo em um referencial uno da economia solidria, com as devidas ressalvas. </p><p>A abordagem da economia solidria implica ainda a prerrogativa de que o termo detm uma </p><p>noo que abarca inmeras prticas, as quais indicariam vislumbrar com um sistema </p><p>antagnico ao capitalismo, ainda que convivendo em princpio dentro dele. </p><p>Diferente da tecnologia social, so vrias as formas de se nomear o que aqui se convenciona </p><p>identificar genericamente de economia solidria. Dentre elas pode-se destacar: economia </p><p>social (mais utilizada na Europa em um contexto histrico especfico e datado), economia </p><p>social e solidria, socioeconomia solidria, economia do trabalho, economia popular, </p><p>economia popular e solidria, economia dos setores populares, economia do feminino criador, </p><p>economia da dvida, economia do trabalho, humano-economia, entre outras. </p><p> 1 Para este enfoque: MELLO, Ruth, 2006. </p></li><li><p> 5 </p><p>A rigor, s iniciativas de economia solidria associam aes de consumo, comercializao, </p><p>produo e servios em que se defende, em graus variados, entre outros aspectos, a </p><p>participao coletiva, a autogesto, a democracia, igualitarismo, a cooperao e a </p><p>intercooperao, a auto-sustentao, a promoo do desenvolvimento humano, a </p><p>responsabilidade social e a preservao do equilbrio dos ecossistemas (MANCE, 2002). </p><p>Alguns autores destacam a centralidade da questo do trabalho, da propriedade e da gesto </p><p>concernentes economia solidria. Pode-se argumentar que Bocayuva integra este </p><p>agrupamento ao identificar a economia solidria enquanto um campo de significados e </p><p>prticas cujos projetos pretendem responder, num s tempo, crise do trabalho assalariado e </p><p>da reestruturao produtiva do capital a partir da reorganizao laboral e de modos de </p><p>apropriao da riqueza. O que implica construir, a partir de movimentos e lutas coletivas, </p><p>novas mediaes, espaos e polticas pblicas, novas prticas e mecanismos associativos, que </p><p>unifiquem produtores e consumidores atravs de estratgias de transformao do estatuto da </p><p>propriedade e dos mecanismos de acumulao de capital. (...</p></li></ul>

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