sylvia furegatti

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  • 1O contexto artstico brasileiro das dcadas de 1950,1960 e 1970 guarda aspectos importantes para a fundaodas experimentaes artsticas que transcendem as paredesfechadas dos museus e galerias de arte. Efetuando apassagem da modernidade para a contemporaneidade, esseperodo remete-nos a uma configurao geogrfica bastanteespecfica para o modelo dessas aes artsticas no Brasilestabelecidas no eixo urbano Rio - So Paulo, com algumasextenses para Belo Horizonte. Essa determinao tempo-espacial apresentada assume, na pesquisa, um peso deimportncia, justificado pela ordenao de seu objetoprincipal j que o binmio arte e ambiente urbano transmuta-se, pouco a pouco, dificultando sua leitura a partir deenquadramentos mais convencionais.

    PASSAGENS DA ARTE BRASILEIRA PARA OESPAO EXTRA-MUROS.Experimentaes ambientais de Flvio de Carvalho,Hlio Oiticica e Artur Barrio na passagem damodernidade para a contemporaneidade.

    Sylvia Furegatti*

    * Sylvia Furegatti doutoranda e mestre pela FAU-USP, com dissertao sobre Arte noespao urbano, defendida em 2002. Dedica-se pesquisa acadmica e praxis artstica dasformas de Arte no Meio Urbano Contemporneo. No primeiro semestre de 2005 desenvolveuo projeto Arquiteturas provveis como artista convidada do curso de graduao emEducao Artstica da Unicamp. professora da graduao da ESAMC/Campinas e daps-graduao da UNIFRAN-Franca, dentre outras instituies. Realiza projetos de curadoriae produo de arte pela cooperativa Ateli Aberto. Desempenhou funes de coordenaoe assessoria no MAC Campinas, MAC Americana e Instituto Cultural Ita/Campinas.

  • 2Esse eixo, no qual acontecem as primeiras formasartsticas ligadas ao meio urbano, sugere a criao de umcampo gravitacional formado a partir do entrelaamentodos artistas e das instituies oficiais. Numa versoreordenada de sua configurao mais usual, a noo devizinhana que partilhavam o museu e o artista apresentapontos de tenso que fazem com que o artista se interessepelo espao aberto extra-muros. Essa reordenao passaa imprimir novos cdigos estticos gerados por uma prxisaltamente experimental e contestatria para com osdispositivos assumidos pela arte at o momento.

    A despeito da escassa, recente e bem vinda presenade museus de arte moderna e contempornea no pas,alguns dos quais fundados nesse mesmo perodo, interessante observar a insurgncia de uma orientaocriativa que j exibia um cansao pelos formatosmuseolgicos e estanques do sistema artstico entovigente.

    O panorama artstico de meados dos anos 1940buscava reativar o flego que h pouco modernizara acriao cultural nacional, promovendo a construo deacervos, espaos expositivos e incentivos que pudessemgarantir sua atualizao constante. A Diviso Moderna doSalo Nacional de Belas-Artes no Rio de Janeiro ocorre em 1940viabilizando, alguns anos mais tarde, a criao de um SaloNacional. O MASP fundado em 1947 e j em 1948 Riode Janeiro e So Paulo passam a contar com seusrespectivos Museus de Arte Moderna. Na dcada de 1950,So Paulo apresenta a I Bienal Internacional (1951) e criadoo Salo Paulista de Arte Moderna (1951) que, mais tarde,seria substitudo pelo Salo Paulista de Arte Contempornea(1969). Em 1963 aberto o Museu de Arte Contemporneada Universidade de So Paulo e seu diretor, Walter Zanini,

  • 3lana a primeira edio das JACs Jovem Arte Contempornea- que se estenderiam pela dcada de 1970, dando grandecontribuio para a atualizao das formas do trabalhoartstico.

    Galerias como a Rex (SP), revistas como a GAM,Foma, e projetos de exposio como Opinio 65 (RJ) eProposta 65 (SP) fomentam o circuito artstico brasileiro, oque passa a alcanar maior representatividade em museuse mostras internacionais.

    A expanso das experimentaes criativasdesenvolvida ento no pas marcava o processo detransformao pelo qual passava a arte e sua relao como circuito estabelecido, indagando sobre sua natureza,significado e funo. Com uma orientao cada vez maisdesmaterializada, a arte passa a valorizar a ao, o efmero,a relao fenomenolgica entre objeto e espectador.

    Assim, como se dialogassem numa linha paralela, osnovos objetos e propostas artsticas acompanham aconstruo dessas instituies no Brasil apresentando-se,muitas vezes, por meio de projetos curatoriais (institudospor elas) ou por propostas criadas independentementepelos artistas que orbitavam seu ncleo principal. Parceladessa criao ainda consegue adequar-se aos elementosmuseolgicos e aos apelos mercadolgicos, enquanto queoutra parcela vai se configurando de modo arbitrrio aosseus preceitos. Nos dois casos chama a ateno o sentidoorbital constitudo entre museu e artista.

    O escopo criativo de Flvio de Carvalho, Hlio Oiticicae Artur Barrio do a dimenso desse anel paralelo criadono nterim museu-artista-meio urbano-sistema de arte. Suaspropostas representam tanto a provocao quanto acapacidade de absoro dessas instituies em posio deconstante atualizao.

  • 4Contudo, o papel desempenhado pelos artistasextrapola a organizao formal da produo e opensamento museolgico daquele momento, pontuandoas primeiras experincias ambientais brasileiras. Suasincurses para o espao aberto urbano, bem como para aquebra das limitaes tcnicas reconhecidas para a arte,permitem-nos visualizar os mecanismos introdutriosdessa vertente artstica compromissada com afenomenologia e a insero de arte em espao aberto,pblico e urbano.

    Conformados por um manto de marginalidade eexperimentao extremada, esses artistas praticamperformances, produzem ambientes efmeros oupermanentes, discutem e escrevem suas propostasartsticas, impulsionados pela necessidade detransformao dos valores aplicados ao objeto de arte.Seu foco escapa dos museus, uma vez que mal cabem nosprprios objetos ou formas pictricas praticadas por eles. possvel compreender esse olhar criativo como quedirigido pelo fator da reao. Provocar uma reao significa,principalmente nesse momento de aproximao entre artee vida, propor uma questo que revele a insuficincia doscdigos vigentes para se compreender o cotidiano.

    Essa premissa criativa demanda a diluio dasdistncias e formalizaes que determinam os papis dopblico, da instituio e do objeto no sistema artstico.Dentre os demais artistas que compartilhavam o perodohistrico experimentado por Carvalho, Oiticica e Barrio,esses elementos podem ser apontados como os distintivosrecorrentes de sua potica.

    A idia de experincia e de experimentao umaconstante para todos eles. Aplicam o termo diretamenteem seus trabalhos modelados pela noo de fluxo,movimento, ruptura e provocao.

  • 5Flvio de Carvalho elabora projetos que batiza deExperincias. Esses trabalhos envolvem circunstnciaspblicas, cotidianas e urbanas. Foi assim com a Experincian 2 (1931), quando caminhou pelas ruas de So Paulo nadireo contrria a uma procisso de Corpus Christi, sendodepois levado pela polcia para evitar um linchamento, ouquando fez o lanamento de seu traje tropical, o New Look,o que reflete a mobilidade de seus interesses entre paisagemurbana e o vesturio do homem moderno.2 Essa foi aExperincia n3, realizada no ano de 1956. No dia 19 deoutubro de 1956, saindo do edifcio n 296 da Rua Barode Itapetininga, surge Flvio de Carvalho usando seu trajetropical: sandlias de couro, meias de bailarina, um saiote,uma blusa de nilon vermelha, um chapu de panotransparente. Sai do centro velho e caminha at o centronovo, ora fazendo algumas paradas para um caf oradiscursando para a platia que lota as ruas.

    Cercado pela imprensa, preparada para a proposta, epor transeuntes, tomados de surpresa, Flvio busca discutira burrice que nos obriga a agonizar de calor dentro degravatas, colarinhos, coletes e palets.3 Assimila seutrabalho por meio da provocao dos comportamentoscotidianos. Dependente de uma maior interao pblicapara fazer com que seu trabalho acontea, esse artista traja

    2 Em 1955 Flvio de Carvalho tinha uma coluna no jornal intitulada Casa, Homem ePaisagem, na qual discutia a industrializao crescente de So Paulo, os problemas e usosda nova velocidade e da poluio urbana. Trabalhando em todas as frentes nessa dcada de1950, transfere seu interesse do invlucro ambiental para o invlucro corporal verificvel naproduo cenogrfica e de figurinos que realiza. Flvio escrevia frequentemente nos DiriosAssociados, incomodado pela rotulao que sentia na moda, resolve fazer uma extensa pesquisaque resulta em 39 artigos publicados no ano de 1956 no Dirio de So Paulo sob o ttulo Amoda e o Novo Homem. Em sua pesquisa a moda pensada como reguladora mental dospovos. Descobre que, ao longo da Histria, a vestimenta apresenta momentos de indistinoentre o feminino e o masculino. Essa seria a fonte terica que provocaria a prtica daExperincia n 3. MORAES, Antonio Carlos Robert, Flvio de Carvalho, Brasiliense, 1986, pp.66-77.3 Idem, p. 75.

  • 6uma nova proposta de vesturio que buscava rivalizar oconceito importado usual em nossa sociedade. Seu novotraje um misto de stira e revoluo.

    Como coloca Celso Favaretto, a eficcia dessasatividades, eventos, obras e experimentos garantida pelaobservao e considerao cuidadosa, por parte do artista,quanto reao que elas despertam na platia.4 Assim, asExperincias de Flvio de Carvalho so um prenncio dasestratgias artsticas direcionadas para lugares e grupossociais especficos, hoje conhecidas pela nomenclatura deNova Arte Pblica.5

    Tal qual Flavio de Carvalho, Artur Barrio tambmcria Experincias e as enumera. Barrio estabelece em suasExperincias aes corrosivas sobre os espaos onde expe.A primeira delas, feita no ano de 1987 na Galeria do CentroEmpresarial no Rio de Janeiro, prope uma ao sobre oespao expositivo subvertendo as foras do lugar ocupadoe da prpria obra de arte. Perfura as paredes com umachave de fenda, prendendo outros materiais a elas, rasgatrechos inteiros, expondo fissuras e sujeira. Repete suainciso sobre as paredes da mesma galeria em 1989, emsua Experincia n 2.

    4 As novas vanguardas diferem em aspectos bsicos