sÓ se morre uma vez - ?· afinal de contas, tenho uma nova idade e uma nova cir-cunstância nunca...

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  • Rita Ferro

    S SE MORRE UMA VEZ

    Dirio 2

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    Estoril, domingo, 24 de Novembro de 2013

    Insatisfao permanente, esvaziamento de sentido de vida, preguia de continuar.

    Lcia quem resume as minhas queixas. Lembra -me que somos amigas h 18 anos e que me ouve sempre as mesmas.

    Coro de vergonha. Com que direito imponho aos outros questes destas? Baratas, comuns a toda a huma-nidade?

    (Um amigo cnico assegura -me que os outros se pelam por ouvir exposies pormenorizadas dos dramas alheios, s para se regozijarem com a distncia a que esto deles. Acontece -me o mesmo quando, to raramente, os papis se invertem. Felizmente, no o caso da Lcia, que fica triste quando me encontra abatida.)

    Escolho outras palavras para, afinal, dizer o mesmo. Descrevo o que sinto, actualizo -a sobre as ltimas crises. Afinal de contas, tenho uma nova idade e uma nova cir-cunstncia nunca discutidas.

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    Lcia, os quarenta e os cinquenta foram o que lhe disse: uma tristeza ilegtima ou legtima, sem a com-preenso de ningum interrompida por muitas graas, alegrias e privilgios. Os 60 so diferentes. Os filhos h muito saram de casa e, saturados da espiga das regras, dos sermes e de uma dedicao maternal j invasiva, celebram a alforria aparecendo menos. No critico nem to -pouco sou a tpica vtima da sndrome do ninho vazio. Mal a ltima cria bateu asas, agradeci por elas e por mim.

    Mas voltando nova fase, Lcia: se isto a velhice, no a quero. Uma rbita em redor de ns mesmos, um siln-cio lunar, o desfasamento total dos ritmos e das vidas dos meus amigos chega -se a uma idade em que a nossa cir-cunstncia to individualizada que no voltar a coinci-dir com a de ningum. Durante a juventude, ir ao cinema ou dar um passeio era algo que podia ser feito a todo o momento, com qualquer pessoa. No hoje. As exigncias e predileces acabaram por nos isolar. Aos quase -sessenta faltam dois anos o filme que quero ver no quer ser visto por mais ningum; e o passeio que quero dar no apetece a nenhum outro ser vivo. Como se no bastasse, a hora a que eu gostaria de ver o filme ou de passear no coincide com a disponibilidade dos outros. Houve sem-pre solido, mas agora a responsabilidade nossa, por-que nos tornmos ainda mais rigorosos e exigentes, e no encontramos quem acerte exactamente com as nossas necessidades mais prosaicas.

    Em tanta abundncia de amigos, por vezes no encon-tro um nico que sintonize o meu estado de esprito ou

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    demasiado popular e integrado, sem experincia ou den-sidade, ou ainda mais dependente, inseguro e neurtico. Em ltima instncia, no s no aliviar o meu estado de esprito, como pode dar -se o caso de o agravar.

    Mas no s isso, Lcia. A velhice est a e, apesar dos muitos amigos, todos tm as suas vidas. Pensamos ento que um dia vamos desta para melhor, durante a noite, e que os filhos s nos descobrem trs dias depois, alertados por um vizinho. Alis, tenho que tirar as chaves da porta quando a tranco de noite. Entreguei cpias ao meu irmo e minha filha, mas, se no comunico por uns dias e se se lembram de entrar por aqui adentro para confirmar o meu bito, muito custoso fazerem -no com as chaves penduradas na ranhura.

    E sabes como sei que a velhice chegou, Lcia? Por ser a primeira vez em que penso nisto na sncope, nas cha-ves, no trabalho que darei.

    Mas, Lcia, dizia eu: no sei se quero a velhice e, ateno, no falo de suicdio. Uma coisa querer viv -la, outra, no querer, mas aceitando -a apesar de tudo que remdio. o mesmo que dizer, Lcia, que no sei se vou querer mesmo viv -la ou se a viverei por no ter soluo. Querer viver at aos 85 e arriscar -me surdez, cegueira e incontinncia, parece -me ainda fora de questo. claro que posso viver at aos 90 com memria, ganas e mobili-dade, mas mesmo assim no sei se quero, compreendes? Ouvir ainda ests estupenda o mesmo que me amor-talharem em vida no, no sei se quero.

    H pessoas que querem tudo at ao fim, j repa-raste? Sem um minuto de desconto, mas de um modo

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    customizado: querem as doenas que Deus mandar e morrer quando chegar a minha hora. Como se Deus enviasse as doenas por FedEx e A Hora fosse agendada pelo Prprio.

    Quando falo assim, em catadupa, porque me falta dizer o principal. Minto: porque no o encontro, embora o saiba em falta. Mas calei -me abruptamente. Talvez a Lcia perceba o resto, pensei.

    Passaram dois minutos antes que a primeira falasse.

    Estoril, segunda -feira, 25 de Novembro de 2013

    Segundo dia do meu segundo dirio que ter mudado desde o ltimo? Que alteraes sofreu a minha vida? Por que motivo associamos sempre a mudana a progressos? Nem todas as mudanas correspondem a uma evoluo ou, sequer, a um benefcio. E mesmo quando parecem corresponder nem sempre a evoluo se confirma no tempo. A culpa minha, gosto de movimento. Escolhi um dia a minha divisa com uma convico juvenil:

    Antes pior que igual

    E, no entanto, olhando para mim e para o que me rodeia, reparo que permaneo quieta no mesmo stio, no

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    mesmo lugar, na mesma mesa onde, h um ano, comecei o primeiro dirio; onde, h trs anos, escrevi o primeiro romance biogrfico; onde, h cinco anos, escrevi o nico livro ertico; onde, h 25 anos, escrevi o romance de estreia.

    Nem posso dizer, em rigor, que durante todo este tempo alguma vez me ausentei desta mesa, apesar de as mesas mudarem com as casas, as casas com os homens, e os homens com a minha forma de amar e de escrever.

    Tambm me ouvem dizer que detesto rotinas. Chego mesmo a asseverar no as ter, sem conscincia de que estou a mentir. A verdade que me dispus um dia a cont--las e desisti so tantas que incomodam. E no mentia, claro; limitava -me a ser fiel ideia que fazia de uma pes-soa que entretanto mudou, mudou muito, mudou tanto que j no se reconhece na verso que tem de si.

    Todas as manhs entro no escritrio antes de tomar o pequeno -almoo para ver se h mails no computador ou mensagens no telefone. Todas as manhs bebo meio litro de gua em jejum. Todas as manhs torro uma fatia de po de centeio e acompanho -a com uma pea de fruta. Todas as manhs vou varanda, Vero ou Inverno, para respirar ar puro e sentir a temperatura.

    tarde, substituo estas por outras rotinas. Fazer um back -up no disco rgido; pr pingos nos olhos; anotar aquilo de que preciso para a casa; hidratar -me tarde e noite; dar duas voltas chave de casa antes de me deitar. Sou, afinal, um inventrio de rotinas, de modo que preciso pausar de vez em quando para actualizar a ideia que fao de mim e cuja disparidade tem aumentado com os anos.

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    O que mudou, perguntava eu? Nada como escrever um dirio para encontrar as diferenas.

    Outra mistificao pensarmos que temos uma vida solicitada e preenchida, quando , muitas vezes, apenas solicitada.

    Hoje, por exemplo, tinha uma conferncia na Casa da Paula Rego, moderada pelo Jos Paulo Fafe, pessoa de quem muito gosto e cuja oratria gostava de conhecer, mas, mesmo sendo perto e o tempo no estar mau, disse--lhe que tinha outro compromisso. Tinha, mas no fui a nenhum deles.

    Dantes, perguntava -me por que razo saa tanto noite, agora pergunto -me porque saio to pouco. Aqui, sim, noto alteraes.

    *

    Mais uma noite de sono denso e confuso. Enquanto sonhamos, algum nos humilha, arriscamo -nos como heris de banda desenhada, salvamo -nos risca. Acorda--se tonto, esfarrapado da refrega, desconfiado. E chega a manh para nos dizer veste a farda. E chega o pequeno--almoo da recada: O que foste ontem, minha menina, sers hoje tambm. Que raiva. H quem quebre este ciclo infernal transcendendo -se aqui e ali, mas iluso. Morrers quem sempre foste.

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    Estoril, tera -feira, 26 de Novembro de 2013

    Um salto ao Prncipe Real para a vernissage do Carlos Pedro Barahona Possollo, a quem trato carinhosamente por Kap. J no sei como o conheci. Ou sei: foi h vinte anos, num jantar em casa de dois anfitries memorveis: a Matilde e o Jorge Guimares. Ele, escritor, dramaturgo e artista plstico, j desaparecido; ela, conhecida autora de livros de gastronomia, minha vizinha aqui do Estoril e me de um grande amigo1.

    O Kap era um mido na altura, com a pele rosada e duas turquesas nos olhos, cintilantes; mas, em Portugal, na Itlia e um pouco por toda a Europa, j era o grande pintor que hoje. As exposies so sempre emocionan-tes, com as telas muito grandes, de um realismo quase fotogrfico, e as figuras, mormente inspiradas na mitolo-gia grega ou romana, nos pecados capitais ou na herana egpcia, projectam -se em toda a sua nudez. Nem todos tm estmago para aquilo. Os genitais so portanto esca-lados a propores ciclpicas, enquanto os rostos so perversamente comuns, como os das pessoas com quem nos cruzamos diariamente, o carteiro, a cabeleireira, o gerente de conta.

    As telas so indecorosas, ofensivas para muitos, mas o talento tamanho que amortece o escndalo. Para mim, o que espanta o contraste dos seus nus com a expresso arcanglica que Deus lhe deu. Continua um mido na aparncia, mas, como rapa o cabelo, os olhos

    1 Henrique Sousa Lara.

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    reclamam o protagonismo de todo o rosto, brilhando como estrelas.

    Ana Maria Caetano, filha do Professor Marcello Cae-tano, mulher culta e livre, tem um trabalho dele a toda a largura da sua sala de Belas, representando a arquetpica Ins, que provoca chiliques s visitas. Embora trajada com vestes de rainha, est nua da cintura para baixo, sentada, as pernas abertas, as mos pousadas nos joelhos afasta-dos, como se se preparasse para introduzir um tampo.

    risonho e doce, fala muitos decibis abaixo da maio-ria das pessoas, e daquela delicadeza sincera e humilde prpria dos m