Sensações e deslocamentos – a viagem em Toda a América1

Download Sensações e deslocamentos – a viagem em Toda a América1

Post on 07-Jan-2017

215 views

Category:

Documents

2 download

TRANSCRIPT

<ul><li><p>Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 46, n. 2, p. 69-77, abr./jun. 2011</p><p>LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE</p><p>Sensaes e deslocamentos a viagem em Toda a Amrica1</p><p>Sensations and movements the journey in Toda a Amrica</p><p>Mirhiane Mendes de AbreuUNIFESP</p><p>Resumo: O conceito de viagem repousa sobre duas bases. A primeira consiste em estar em movimento, o priplo propriamente dito. A segunda visa ao reconhecimento do eu atravs do conhecimento do outro, o que abriga tambm uma identificao coletiva, inserida na ideia de nacionalidade e esta, no projeto universalista, tal como se deu na dcada de 1920. A par da questo identitria envolvendo o ato de viajar, a escrita de cartas adotada como procedimento de aproximao e partilha das notcias, das experincias e das sensaes. Estas bases no escaparam a Ronald de Carvalho (1893-1935), escritor que incorporou ao exerccio diplomtico parte da plataforma do projeto modernista e, nesse mbito, construiu o livro de poemas Toda a Amrica (1926). Dialogando com algumas das matrias prprias da tradio literria, o discurso potico aqui apreendido sugere deslocamentos, no apenas no espao, e inclui-se numa dinmica mais abrangente e simblica, que assinala a compreenso sensorial do Brasil integrado americanidade. Encaminhada assim a questo, o presente ensaio tem por finalidade examinar Toda a Amrica, tendo em vista a circunscrev-lo s exigncias do programa modernista em curso.Palavras-chave: Viagem; Vartas; Programa modernista</p><p>Abstract: The concept of journey relies on two bases. The first one consists in being in movement, the periplus itself. The second basis aims the self recognition through the knowledge of others, which also includes a collective identification, inserted in the idea of nationality and the universalist project, as occurred in the 1920s. Considering the identitary aspect involving the act of travelling, it was adopted the habit of writing letters as a procedure of approach and exchange of news, experiences and sensations. These bases were not left out of account by Ronald de Carvalho (1893-1935), a writer who incorporated a part of the modernist project platform in the diplomatic exercise. In this context, he wrote Toda a Amrica (1926), a book of poetry. Dialoguing with some subjects of the literary tradition, the apprehended poetic speech suggests displacements, not only in space, but also includes a more extensive and symbolic dynamics, which points out the sensorial comprehension of Brazil integrated to the American characteristics. Being the subject conducted in this direction, this current essay has the purpose of examining Toda a Amrica. The aim is not to define it but to submit it to the requirements of the modernist program in progress. Keywords: Journey; Letters; Modernism program</p><p>1 Toda a Amrica: ensaios, cartas e viagens em verso potica1</p><p>Ao se examinar o labor potico de Ronald de Carvalho, preciso atentar para os sentidos atribudos ao exerccio intelectual deste modernista no contexto da sua produo: Toda a Amrica veio a lume em 1926, quando as iniciativas de modernizao do pas estavam a pleno vapor, nas quais </p><p>1 Parte das consideraes deste artigo foi desenvolvida no ensaio Modernismo brasileiro e o mundo ibrico da perspectiva de Ronald de Carvalho, aceito para publicao na revista Tempo Brasileiro, 2010.</p><p>os escritor se envolveu com vivo interesse, colaborando de modo incisivo com a atualizao esttica e dedicando-se a divulgar as produes nacionais pelo mundo afora. Este anseio por universalizar a cultura brasileira foi construdo em harmonia com o seu projeto individual, a exemplo de suas viagens (como as realizadas no Mxico entre 1923 e 1924, proferindo conferncias que derivaram no livro Estudos Brasileiros) e de suas colaboraes em peridicos internacionais, conforme ilustram a argentina Nosotros (1922) e a portuguesa Orpheu (1914). Ressalta, deste conjunto politicamente comprometido, um autor </p></li><li><p>70 Abreu, M. M.</p><p>Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 46, n. 2, p. 69-77, abr./jun. 2011</p><p>simptico s novidades e sensvel intimidade com as tradies, o que nos permite esboar algumas hipteses na anlise da viso de mundo de Ronald, sobretudo no que diz respeito a um projeto totalitrio do panamericanismo, que j vinha sendo gestado em 1919, como se l na concluso da Pequena Histria da Literatura Brasileira:</p><p>O homem moderno do Brasil deve, para criar uma literatura prpria, evitar toda espcie de preconceitos. Ele tem diante dos olhos um grande mundo virgem, cheio de promessas excitantes. [...]. Uma arte direta, pura, enraizada profundamente na estrutura nacional, uma arte que fixe todo o nosso tumulto de povo em gestao, eis o que deve procurar o homem moderno do Brasil. Para isso, mister que ele estude no s os problemas brasileiros, mas o grande problema americano. O erro primordial das nossas elites, at agora, foi aplicar ao Brasil, artificialmente, a lio europia. Estamos no momento da lio americana. Chegamos, afinal, ao nosso momento. (CARVALHO, 1968: 307)</p><p>Esse apontamento ensastico parece ter encontrado seu duplo potico em Toda a Amrica, cuja estruturao formal inicia-se por uma Advertncia, seguida de 21 poemas intitulados pela enunciao direta ou em aluso a algum lugar do continente americano. O primeiro deles chama-se Brasil, expresso em sua feio multiforme e continental. O ltimo intitula-se Toda a Amrica e se divide em 5 partes, todas dedicadas ao musiclogo e amigo do escritor Renato Almeida. Analisados, ainda, os chamados protocolos de leitura,2 a quase totalidade deles possui dedicatrias aps o ttulo e so datados. Esses traos conferem ao conjunto do livro um ar de crnica de viagem, alm de, informalmente, conduzirem-no a uma estrutura epistolar, por se referir rede social do escritor. Assim, comparecem os nomes de Fernando Haroldo, Felipe DOliveira, Ribeiro Couto, Mrio de Andrade, Carlos Obregon Santacilia, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Paulo Silveira, Navarro da Costa, Agrippino Grieco, Carlos Pellicer, Diego Rivera, Roberto Montenegro e o j mencionado Renato Almeida. Percorrer minuciosamente toda essa rede de sociabilidade tarefa relevante, mas ficar para outro momento. Por ora, gostaria apenas de apontar que os nomes de pessoas, seu filho ou executores de atividades as mais diversas (poeta, ensasta, pintor, diplomata, musiclogo etc.) ingressam na forma potica, acomodam-se na economia da escrita e engendram os procedimentos de sua multiplicidade, indiciando profcuos caminhos para a leitura do poema.</p><p>Todo esse material circundante formula diagnsti- cos da cosmoviso que norteou o trabalho do escritor, englobando o contexto esttico, histrico, social e cultural do seu tempo. No procedimento de dedicatria, por exemplo, possvel reconhecer muito da ambio </p><p>de sociabilidade do modernismo,2propenso a discutir e fazer circular a potica, buscando interlocutores para a produo.3 Indo um pouco alm, possvel inferir que as dedicatrias dos poemas designam outra instncia na comunicao, pois assinalam de modo pblico aquilo que deveria se inscrever no mbito privado as amizades. Remetendo o leitor a outro universo, externo ao poema (nomes e datas), Ronald evoca seus circuitos heterogneos e internacionais de dilogo e aponta para os emblemas distintivos da sua modernidade, definida em termos mais amplos do que os limites impostos pelo compasso nacional. Por no serem mero adorno descartvel, os ttulos, as datas e as dedicatrias contribuem para a construo de poemas capazes de indicar liricamente o projeto potico-existencial do escritor e como regeu sua perspectiva do modernismo.</p><p>Visto o livro no conjunto, h um procedimento constante e sistemtico na sua composio formal, de clara inteno esttica, que lana efeitos interpretativos para cada uma das unidades poticas. Um desses procedimentos reside na presena dos textos limiares, isto , os paratextos, conforme definio formulada por Genette (2009), qual seja: uma prtica discursiva no exterior de determinada obra, ali presente por razes funcionais. Esse detalhe terico nos concerne para o exame mais acurado de Toda a Amrica porque nos conduz a um aspecto da sua configurao, assentada na presena paratextual (advertncia, dedicatrias, ttulos e datao), dela tomando de emprstimo uma frmula de composio que evidencia no apenas o assunto (as viagens pelo continente americano), mas o empreendimento autoral para valoriz-lo e para consagr-lo no interior de uma unidade formal e temtica para a srie de poemas ali enfeixados pela voz pica do panamericanismo. Pelo que se depreende do tecido paratextual de Toda a Amrica possvel inferir que sua funo bsica assume o papel de uma colagem, envolvendo personagens do meio circundante do poeta, os quais, transformados em texto, constroem um processo de mltiplas funes no sistema esttico da obra. Observando os nomes citados, o fenmeno provoca uma aproximao estreita entre as vertentes modernistas existentes e a indicao de suas afinidades eletivas, tornando pblico o ntimo. Ao 2 Emprego aqui o termo protocolos de leitura em conformidade com </p><p>a definio de Chartier, segundo a qual existe nos livros um sistema textual expressando [...] quais devem ser a interpretao correta e o uso adequado do texto, ao mesmo tempo em que esboa seu leitor ideal. (CHARTIER, 2001: 10).</p><p>3 A par da indicao de que nos peridicos e nas correspondncias encontram-se importantes reflexes sobre o modernismo brasileiro, convm o exame mais cuidadoso do tema da amizade, pois, atravs dela, no contexto brasileiro, entrecuzaram-se os debates e os agrupamentos em favor das plataformas do modernismo. Foi sobre esse campo de pesquisa que versou Mnica Pimenta Velloso no ensaio Razo e sensibilidade. (VELLOSO, 2006).</p></li><li><p>Sensaes e deslocamentos a viagem em Toda a Amrica 71</p><p>Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 46, n. 2, p. 69-77, abr./jun. 2011</p><p>considerarmos que o livro vem lume num contexto de orientao do modernismo de dilogo mais amplo com a ordem mundial, o entroncamento de personalidades e paisagens nacionais e estrangeiras compe um esboo desse campo e ocasiona a encenao de mltiplas e diversas experincias do modernismo. No plano literrio, os paratextos de Toda a Amrica adquirem aspecto formal e se avizinham tanto da estrutura epistologrfica, quanto impem ao complexo dos verbos as diretrizes estticas do momento. </p><p>O texto e seus paratextos, ainda consoante Genette, so consubstanciais (GENETTE, 2009): a advertncia, sinnimo de prefcio, guarda questes gerais e essenciais da obra; as dedicatrias expressam a filiao intelectual do autor no contexto de cada poema; o ttulo geral Toda a Amrica conserva a unidade temtica e imprime ao conjunto um efeito de sequncia, ao mesmo tempo em que resguarda a singularidade versada em cada ttulo particular (os denominados interttulos), interligando-os por uma espcie de sindoque generalizadora; a datao sugere a estrutura da correspondncia, estabelece uma ambincia acolhedora e familiar, afeioando-se confidncia ou exposio de um dirio ntimo ou dirio de bordo, j que o contedo do livro consagrado s impresses da viagem. Esse complexo paratextual define o funcionamento da obra, evidenciando seus atributos mais eficazes. Trata-se de um empreendimento esttico subordinado ao funcionamento da construo temtica, a qual, aqui, integra-se grandiloquncia da matria pica, processada no livro pelas inovaes em pauta, assina- lando o momento em que Ronald escolheu incorporar ao seu verso as conquistas expressionais contempor- neas a um esquema do passado. Entroca-se nesse proce- dimento um estado de esprito de matriz romntica, paradigma a que o poeta carioca recorre articulando um sistema no qual tambm se assentaram seus interlocuto- res da gerao de 1920, como Mrio de Andrade, por exemplo.4</p><p>2 O aceno intertextual do viajante na Amrica</p><p>Em deliberado esforo para construir uma dico prpria e oferecer as suas respostas para as perguntas que estavam no ar, Ronald reelabora procedimentos da tradio literria. Assim, explora a tese do panamericanismo, num poema composto por um ritmo que acompanha a andadura da prosa, invocando aos seus constituintes 4 Alfredo Bosi destaca a presena contundente do romantismo como </p><p>paradigma do pensamento de Mrio de Andrade, considerando especialmente o perodo oitocentista como um estado de esprito congenialmente antiacadmico, trao que guardaria o ponto de interseco entre as duas estticas. (BOSI; 1996: 296-301).</p><p>estruturais o dilogo com a epopia e procedimentos do nosso romantismo.</p><p>Desse ngulo, a renovao da tnica pica se d pela sugesto e pelo tom de otimismo, acomodado ao tema da viagem, que regularmente compreende trs etapas necessrias, a saber: partida, percurso e regresso, se considerada a proposta de Javier Biezma, no artigo Viajes com vitico y sin vitico (BIEZMA, 2006). luz desses traos essenciais, a tnica dos versos de Toda a Amrica recai sobre o segundo termo, assumindo a representao do sentimento de estar em trnsito, de modo que a matria potica a viagem aproxime a lrica do autor de certas modalidades das produes modernistas. Neste tempo, o deslocamento mostrou-se constituinte dos projetos intelectuais, muitos transformados em obras literrias, como Path Baby (1926), de Antnio Alcntara Machado, cujo roteiro assinala o tom cosmopolita do romance, reiterando a feio de Ronald de Carvalho. Em seu caso, o otimismo panamericanista urde uma imagem integrante, ou seja, o pas deixa de ser definido pelos limites da nacionalidade mais estreita e se funde no universal. Retomando a poesia universalizante de Leaves of Grass (1855), de Walt Whitman, e de O Guesa Errante (1876), de Sousndrade, a estratgia discursiva do modernista carioca prefigura os ndices brasileiros no interior de um sistema planetrio, remarcando-os pelo ato de viajar. </p><p>Muito elucidativo de como o deslocamento permitiu o estmulo da mente no perodo romntico, tendo sido reaproveitado por um tipo de lirismo mais profundo durante o modernismo, o ensaio O Poeta Itinerante, de Antonio Candido. Nele, o crtico assinala os meios pelos quais o priplo tornou-se um elemento-chave na relao entre modernidade e tradio, marcando uma etapa importante no caminho do Modernismo (CANDIDO; 1993: 258). Essa indicao valiosa porque ressalta que a poesia de Ronald no se reduz a um cunho didtico, mas engloba a dinmica relao na funo potica, despertando, ao lado da contemplao da natureza, ntima meditao criativa. Seguindo uma caminhada trilhada por muitos poetas e prosadores que se serviram do deslocamento como motivo potico, Ronald de Carvalho aproveita essa tpica para inseri-la no contexto das suas inquietaes, dentre as quais, a mais constante o enriquecimento que uma visada cosmopolita poderia fornecer literatura brasileira. Dentro desse esquema, descrever os grupos e a paisagem (numa notao do exotismo) e compor uma rapsdia do viajante brasileiro pelo continente sugerem a proposio dos caminhos do eu e do pas no mundo.</p><p>Importa assinalar um aspecto do cosmopolitismo de Toda a Amrica. O referente geogrfico no pauta de modo exclusivo o esquema de viagem adotado...</p></li></ul>