Revista Matria 2009

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<ul><li> 1. NDICEREPORTAGENS 2O Brasil e suas Elos VIOLNCIACapa: Simone de Beauvoir em 1949Foto: Elliot Erwitt / Magnum Photos 7As Marias da terra LUTA SOCIALEDITORIALA presena feminina, Clara Charf 112ENTREVISTA avanos e desafios Guerreira da Paz Diretoria Executiva da CNTE 14A qualidade vem da formaoFORMAOARTIGOS520 O silncio perverso da violncia Rompendo barreirasSEXUALIDADE Por: Samantha BuglioneSIMONE26 10As mulheres nos movimentos sociais No se nasce mulher: torna-se mulher DE BEAUVOIR Por: Claudia Prates: A invisibilidade da questo de Os meus, os seus, os nossos:36 18NOVAS FAMLIAS gnero entre ns o novo desafio da famlia Por: Lcia RinconEspao cresceu, mas domnio MULHERES41 24Sexualidade: qual o papel da escola?ainda dos homensNA POLTICA Por: Letcia rica Gonalves Ribeiro 45 30 A passos lentos O que ser mulher? POLTICAS PBLICAS Por: Milton B. de Almeida Filho MULHERES 39 47Recordistas da vida A transitoriedade do amorNO ESPORTE Por: J Moraes Eleies 2008 CRISE50 43 Essa crise no de TPM Mais mulheres no poder INTERNACIONAL Por: Raquel Felau Guisoni 53Ela subiu nas tamancas e o mundo se curvou HOMENAGEM Mtria : a emancipao da mulher / Confederao Nacional dos Trabalhadores em Educao (CNTE) a. 7, 2009 Braslia : CNTE, 2003- 60 p. : il. ; color.Anual ISSN 1980-8984 1. Direitos da mulher. 2. Gnero. 3. Feminismo. I. Ttulo. II.52 Confederao Nacional dos Trabalhadores em Educao (CNTE). GIRO PELO MUNDO CDD 305.42 CDU 396(05) Esta edio foi fechada em Braslia no dia 11 de fevereiro de 2009.Confira tambm a verso eletrnica no site:www.cnte.org.br54 INTERAGINDOA CNTE autoriza a reproduo do contedo desta revista com a devidacitao da fonte. </li></ul><p> 2. EDITORIAL1A presena feminina,avanos e desafiosO destaque da edio a escritora Simone de Beauvoir, que continuaa grande referncia na longa jornada pela igualdade entre mulhe-res e homens. Com seu exemplo de vida, rompeu preconceitos edemonstrou a relevncia dos intelectuais, mulheres e homens, para a lutaterica feminista.Aproveitamos sua histria para abordar o amor, o casamento, a fa-mlia, a transitoriedade dos sentimentos, que desafia as relaes e impemodelos em que o antigo ncleo familiar est em xeque. A participao damulher na sociedade debatida, com base nas eleies de 2008, na perspec-tiva da ampliao feminina no poder.A crise econmica e financeira que assola o mundo tambm atingede maneira particular as mulheres, razo pela qual a revista Mtria discuteo tema e procura divisar os problemas conjunturais que agravam a j difcilcondio feminina. E diante das guerras imperialistas e dos massacres apopulaes inocentes, Clara Charf destaca, em entrevista, a importncia daluta pela paz e por uma nova sociedade, temas caros ao nosso iderio.Uma educao no sexista continua no horizonte desta publicao,da a importncia em debater a sexualidade e a necessidade da visibilidadede gnero na educao, bem como a diversidade sexual e o tratamento quelhe d a escola.No mbito das conquistas, h que reconhecer a lenta evoluo dosdireitos da mulher no tortuoso caminho pela igualdade de gneros. Aplau-sos, portanto, Lei Maria da Penha, que tem encorajado muitas mulheres adenunciar a violncia domstica.As lutas e os avanos revelam-se, tambm, em detalhes de perso-nalidades, conhecidas ou annimas, que transformam diariamente o Pas.Seja por meio da irreverncia de uma Carmen Miranda, que enfrentou pre-conceitos ao afirmar o seu lugar na sociedade; das vitrias de desportistas,que elevam o nome do Brasil no exterior; ou da defesa da terra e do meioambiente por centenas de mulheres, que, em pleno sculo XXI, no Norte dopas, vivem, por isso, sob a ameaa de morte.A novidade deste nmero o encarte terico sobre a concepoemancipacionista do que ser mulher, de Milton B. Almeida Filho, psic-logo e professor de filosofia, um homem que participa da luta feminista, eque, como Jean Paul Sartre e tantos outros ao longo da histria, d contri- Ilustrao: Chico Rgisbuio expressiva luta pela emancipao da mulher. Boa leitura!Direo Executiva da CNTE CNTE - Confederao Nacional dos Trabalhadores em EducaoMtria Maro de 2009 3. vIOLNCIA 2 Ilustrao: Chico RgisO Brasil e suas ElosAs mulheres esto mais conscientesde seus direitos e reagem mais s agresses. Mas a caminhada ainda longa. Em todo o pas, cresceu onumero de denncias, reflexo da Lei Maria da Penha Ahistria se repete diariamente no Brasil. A diferena, agora, que as mulheres esto denun-ciando mais. M., de 24 anos, hesitou muito, antes de procurar ajuda. Me de trs filhas, moravaem uma cidade satlite do Distrito Federal. J estava acostumada com as agresses do marido, que, seguidamente, chegava em casa alcoolizado, fora de si, diz ela.M. era atendente em uma padaria. Era, porque agora est em uma casa-abrigo, com suas filhas, espera de uma nova vida. A histria dela se confunde com a de centenas de milhares de mulheres, subme- tidas violncia dentro da prpria casa. M. denunciou e est traando um novo rumo para sua histria.Ela um dos 269.977 atendimentos realizados no ano de 2008 pela Central de Atendimento Mulher - o de nmero 180. Um aumento de 30% em relao ao mesmo perodo em 2007 (janeiro a dezembro).A Lei Maria da Penha tem ajudado muito nesse processo. As mulheres esto denunciando mais, em- bora o nmero seja ainda pequeno - um levantamento da Fundao Perseu Abramo revela que o total de mulheres espancadas no pas deve chegar a 2 milhes por ano, revela Myllena Calazans, assessora tcnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfmea). CNTE - Confederao Nacional dos Trabalhadores em EducaoMaro de 2009 Mtria 4. vIOLNCIA3 Elo [ Central de Atendimento Mulher Disque 180 ]O ano de 2008 teve como pano269.977 atendimentos realizados em 2008 de fundo histrias de violncia con-O Distrito Federal foi o campeo com 351,9 atendimentos para cada 50 mil mulheres. tra a mulher, que o pblico acom-Em segundo lugar, est So Paulo (220,8) e Gois em terceiro (162,8). panhou de perto. O Caso Elo (Elo PerFil Das usurias Cristina Pimentel, 15 anos), em San- to Andr (SP), foi emblemtico, se-a maior parte das mulheres que entrou em contato com o Disque 180 negra(39,2%), tem entre 20 e 40 anos (53,2%), casada (24,8%), cursou parte ou todo o ensino gundo Myllena. A tragdia da jovemfundamental (33,3%) e no possui dependncia financeira do agressor (47,7%). mobilizou o pas. A adolescente mor- reu assassinada pelo namorado Lin- PerFil Dos agressores demberg Alves, depois que a polciaA maioria das agresses sofridas domstica (94,1%) e partiu dos cnjuges (63,2%), resolveu invadir o crcere privado que fazem uso de lcool e/ou drogas (57,2%). de Elo e, em uma ao de despre- paro, no conseguiu evitar a mor-Brasil acompanhou em tempo real forma a desculpar o criminoso, te da jovem, lamenta a assessora.minimizando suas aes e tratan-Elo morreu previsivelmen- o drama da menina e sua amigado-o como um jovem trabalhador te por estar recusando uma rela- Nayara, que a acompanhou no cr-em crise amorosa, escreveu, no o de poder e dominao. Morreu cere. A cobertura da mdia, entre-site Observatrio da Imprensa. por ser mulher e por ser vtima de tanto, no observou o caso como Segundo ela, cabe uma crti- uma relao de desigualdade, ba- um exemplo de violncia contra aca aos meios de comunicao, que seada em uma cultura machista emulher e tratou-o de forma sensa-tiveram um comportamento de patriarcal, avaliou a Ministra Nil- cionalista, revelando a insensibili-subverso de todos os valores que ca Freire, da Secretaria de Polti- dade nos casos em que as vtimas cas para as Mulheres.devem reger a comunicao so-so mulheres. A verdade queEspecialistas consideramcial, especialmente a dignidade daLindemberg manteve as duas em que Elo foi vtima de sua atitude pessoa humana e a no-discrimi-crcere privado porque estava in- de transgresso a uma chamadanao. Programas de televiso noconformado com o fim do relacio- ordem social, quando se recusourespeitaram sequer a situao de-namento, observa Myllena. a continuar o namoro com Lindem- licada das vtimas e interferiram, O assassinato de Elo, por- berg. Ela teve coragem de romperao vivo, conversando com algumtanto, no pode ser tratado como com ele e sustentar a separao porque estava cometendo um crime.um ato passional apenas, explica um ms. Uma atitude que colocouMyllena. Ela demonstrou um ato em xeque a posse dele sobre ela,Foto: Elza Fiuzade coragem e rompeu uma ordem analisa Myllena.social, apesar de todo o histricoDe acordo com a ministra, ade violncia que sofria dentro da sua recusa, a sua escolha por noprpria famlia, com o prprio pai estar mais com ele, a sua opoacusado de violncia contra a ex- pelo fim da relao foram sua sen-mulher. tena: o lugar da jovem Elo na or- Para Cynthia Semramis denao tcita da sociedade no oMachado Vianna, professora uni- de rechaar o macho e, sim, o de, aoversitria e mestre em Direito pela ser escolhida por ele, aceit-lo, aca-PUC-MG, no caso de Santo Andr, tando a vontade dele.tanto as autoridades quanto osO caso assumiu propores miditicas e durante cinco dias omeios de comunicao agiram deNilca Freire: Elo vtima de relao de desigualdadeCNTE - Confederao Nacional dos Trabalhadores em Educao MtriaMaro de 2009 5. vIOLNCIA 4Campanha para os homensde), Fundo de Desenvolvimentomeio do site: www.homenspelofi-das Naes Unidas para a Mulhermdaviolencia.com.brEm 2008, o governo federal,(Unifem) e o Fundo de PopulaoAinda h muitos desafios por meio da Secretaria Especial dedas Naes Unidas (UNFPA). no campo da violncia contra Polticas para as Mulheres (SPM),Governadores, ministros, a mulher. Por isso, ns decidi- lanou a campanha Homensrepresentantes de classe e de en-mos dialogar diretamente com unidos pelo fim da violncia tidades, jornalistas, escritores e o os homens. A sociedade precisa contra as Mulheres. A iniciativapresidente Luiz Incio Lula da Sil-enten-der que a violncia con- conta com a parceria do Institutova j aderiram a campanha, que tra a mulher no um problema Papai, Instituto Promundo, Aes em janeiro contava com quase 35das mulheres, afirma a minis- em Gnero e Cidadania (Agen- mil assinaturas - todas feitas por tra Nilca. Foto: Arquivo CNTEViolncia presente nas escolasA violncia nas escolas atingetins, as questes sociais e as difi- a cada dia um milho de crianas e culdades familiares so alguns dos adolescentes no mundo inteiro. A fatores que contribuem para a violn- estimativa da Organizao No-Go-cia. Mas no por falta de leis que a vernamental Plan, entidade sem finsviolncia escolar no resolvida. A lucrativos que h 70 anos atua em 66 Constituio Federal, em seu Artigo5o, coloca os direitos individuais e pases em defesa dos direitos da in-coletivos. Ns temos tambm a Con- fncia e da juventude. Um ambienteRoberto F. Leo: O medo tem que ficar fora da escolaveno dos Direitos Humanos, a Lei que deveria ser tranqilo e segurode Diretrizes e Bases (LDB) e o Esta- transforma-se em palco de agresses,escolas tomou um outro rumo: a en-tuto da Criana e do Adolescente. S xingamentos e discriminao.trada das meninas em vrios confli-est faltando passar da teoria pr-O pedagogo Charles Martins,tos. Elas vo para a escola com revol-tica, diz. assessor de Educao da Plan Brasil,veres, estiletes e facas e usam essasE foi a prtica que mudou a diz que a necessidade de policiamen-armas por qualquer motivo: cimesEscola Parque de Ceilndia, cidade to um sintoma de que a violnciado namorado, inveja ou at mesmodo Distrito Federal, que chegou a ser chegou ao extremo. Por que temos para assustar professores.considerada uma das mais violen- que ter uma interveno punitiva?Para Roberto Leo, presidentetas da regio. A comunidade escolar Porque a questo educacional e a re-da Confederao Nacional dos Tra-seguiu risca as orientaes do Mi- lao com a famlia e com a comuni- balhadores em Educao (CNTE), quenistrio Pblico, criou o Conselho dade no conseguiram restaurar na acompanha as denncias de casosde Segurana Escolar e a mudana escola um clima de paz, questiona ede violncia contra professores nasaconteceu com reunies semanais e responde Charles Martins. escolas pblicas por meio das entida-atividades em grupo.Um caso de violncia contrades filiadas Confederao em todoA sociloga e antroploga Mi- professor chocou o Distrito Federal o pas, o medo tem que ficar do ladoriam Abramoway defende que a es- em 2008. O diretor do Centro de Ensi- de fora da escola. A escola uma dascola deve ser aberta para que os jo- no Fundamental do Lago Oeste, Car-bases da sociedade, cuidar para quevens expressem suas opinies, alm los Ramos Mota, foi assassinado noo ambiente escolar seja produtivo,de inserir as famlias no contexto quintal de sua casa porque combatia harmonioso e seguro um papel queescolar. Ao mesmo tempo lamenta o trfico de drogas dentro do colgio.deve ser dividido entre governo, edu-a constatao de que a violncia nasPara o pedagogo Charles Mar- cadores, pais e alunos, ressalta.CNTE - Confederao Nacional dos Trabalhadores em EducaoMaro de 2009 Mtria 6. ARTIgO5O silncio perversoda violncia Samantha Buglione Professora de Direito e Biotica, doutora em Cincias Humanas, coordenadora do CLADEM-Brasil (www.cladem.org) e do Instituto Antgona (www.antigona.org.br) / buglione@antigona.org.br Adireitos de ordem pblica quantoviolncia domstica a vida do outro - como propriedadesilenciosa e brutal. Aprivada. Ou seja, os direitos, que- ficam subsumidos ao interesse doOrganizao Mundial se realizam no mbito privado, somais forte. da Sade relata que quase 50% dasvalores pblicos cuja realizao Nesse sentido, a violncia mulheres assassinadas so mortas se d em espao especfico (o do- contra a mulher sintomtica de pelo marido ou namorado (atual mstico, por exemplo). Isto implica uma forma de compreender a pro- ou ex); o Banco Interamericano deperceber que a paz domstica nopriedade privada e a relao com Desenvolvimento aponta que, na pode ser de exclusiva preocupao os seres vivos em geral. Primeiro, Amrica Latina e no Caribe, a vio- dos atores privados, mas interessaacha-se possvel ter a propriedade lncia domstica incide sobre 25% aa toda a coletividade.de outro ser vivo; depois, acredita- 50% das mulheres. O interesse pblico est ex- se que se tem domnio e arbtrioposto nas normas constitucionaisde vida e morte sobre ele. Ao con- Direito privado como bem comum e no modelo vigente de democra- trrio do que possa parecer, a vio-cia constitucional. Quando difcilA separao entre pblico e lncia domstica contra a mulhercompreender que o campo pblico privado, presente na forma de se no conseqncia da cultura do de todos, acha-se que o privado pensar a violncia contra as mu- ptrio poder dos romanos, porque,o lugar de total arbtrio, sem qual- lheres, evidencia muito da cultura mesmo l, havia regras e limitesquer ligao entre eles - ligao, brasileira. No Brasil, a privatiza-para o seu exerccio.esta, que ocorre do ponto de vista o do espao pblico, em parte,dos direitos e no dos interesses. sintoma da nossa limitao paraUsando medidas compensatrias Tal distino um desafio compor politicamente o interesse A violncia, de modo geral,porque, via de regra, a con...</p>