Redes Sociais na Internet, Difusão de Informação e Jornalismo ...

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<ul><li><p>Redes Sociais na Internet, Difuso de Informao e Jornalismo: Elementos para discusso </p><p> Raquel Recuero </p><p> Resumo: O presente artigo visa discutir algumas interseces dos processos de difuso de informaes nas redes sociais online e as prticas do jornalismo. Iniciamos discutindo o que so as redes sociais, como so formadas e seu papel como difusoras de informao. A partir disso, discutimos como se d a atuao dessas redes como filtros colaborativos, produtores e reverberadores de informaes. Aps essas interseces, focamos a atuao das redes a partir de uma revisita perspectiva do gatewatching (Bruns, 2005) onde defendemos, a partir dessas prticas, que as redes sociais atuam de forma complementar e colaborativa com relao ao jornalismo online. Palavras-chaves: redes sociais. Difuso de informaes. Capital social. Gatewatching. Jornalismo online. </p><p>1. Introduo </p><p>Recentemente, um grupo de pessoas comeou a questionar diversos projetos de </p><p>lei que estavam sendo discutidos no Congresso Nacional e que traziam propostas </p><p>consideradas draconianas no sentido do cerceamento liberdade de expresso na </p><p>Internet, dentre eles, o Projeto de Lei 84/99, o chamado PL de cibercrimes. Esse </p><p>movimento de debate, que teve seu bero nas redes sociais na Internet, ampliou-se, com </p><p>protestos acontecendo em diversos weblogs1, com debates acontecendo em vrios </p><p>servios como o Orkut2 e com o posterior interesse da mdia, que passou tambm a </p><p>noticiar os projetos em questo3. Atravs de seus contatos na Rede, as pessoas passaram </p><p>a posicionar-se, a ler mais sobre o assunto, a cobrar e a debater as propostas de seus </p><p>representantes. O movimento levou a frente o protesto Mega No!4, um ato pblico </p><p>realizado no dia 14 de maio de 2009, em So Paulo, com a participao de politicos, </p><p>ONGs, ativistas e partidos, igualmente noticiado pela mdia. Esse fato ilustra o potencial </p><p>de difuso de informaes atravs da mobilizao das redes sociais, informaes essas </p><p>que no estavam no mainstream jornastico. E eventos como este comeam a chamar a </p><p>ateno dos pesquisadores, tanto pela abrangncia quanto pelo contrafluxo de 1 Weblogs so ferramentas de publicao na Internet, que podem ser apropriadas com funes diversas. (Vide Amaral, Recuero e Montardo, 2009). 2 Site de rede social muito popular no Brasil. 3 Um dos exemplos foi o blog Trezentos criado como um espao de denncia e discusso dessas questes. 4 http://meganao.wordpress.com/ </p></li><li><p>informao gerado fora dos meios informativos tradicionais. So movimentos de </p><p>difuso e debate de informaes que acontecem no mbito das chamadas redes sociais </p><p>na Internet. </p><p>Nos ltimos anos, a metfora das redes sociais tem sido aplicada com maior </p><p>nfase e pluralidade para o estudo dos grupos sociais na Internet. Principalmente devido </p><p>ao fato dos rastros desses grupos tornarem-se mais visveis na Rede, o interesse na </p><p>perspectiva de anlise mostrou-se renovado nos ltimos anos (vide, por exemplo, boyd, </p><p>2004; boyd e Ellison, 2007 etc.). De um modo especial, a metfora estrutural tambm se </p><p>mostrou til para o estudo da difuso de informaes nesses grupos (Recuero, 2007; </p><p>Adar e Adamic, 2005; Trammell e Keshelashvili , 2004 entre outros), que nos interessa </p><p>neste trabalho. Nosso objetivo aqui , assim, apontar pistas para a discusso a respeito </p><p>das interseces possveis entre o estudo das redes sociais na Internet, suas </p><p>caractersticas e efeitos no jornalismo online. Assim, neste artigo, buscaremos discutir </p><p>de forma breve e introdutria o papel dessas redes como filtros de informao, os </p><p>elementos que proporcionam esse papel e como essas redes vo impactar no jornalismo </p><p>online, a partir de vrios exemplos. Depois, discutiremos como as redes sociais no tm </p><p>uma vocao jornalstica em essncia, mas complementar prtica jornalstica. Para </p><p>tanto, iniciaremos discutindo o que a perspectiva das redes sociais foca e como essas </p><p>redes atuam na difuso de informaes. </p><p>2. Redes Sociais: Da Conexo Informao </p><p>Antes de discutir as intersees informativas das redes sociais, preciso que </p><p>definir o que so redes sociais e suas caractersticas no mbito da mediao e como </p><p>essas sero compreendidas neste trabalho. </p><p>Redes sociais na Internet so constitudas de representaes dos atores sociais e </p><p>de suas conexes (Recuero, 2009). Essas representaes so, geralmente, </p><p>individualizadas e personalizadas. Podem ser constitudas, por exemplo, de um perfil no </p><p>Orkut, um weblog ou mesmo um fotolog5. As conexes, por outro lado, so os </p><p>elementos que vo criar a estrutura na qual as representaes formam as redes sociais. </p><p>Essas conexes, na mediao da Internet, podem ser de tipos variados, construdas pelos </p><p>atores atravs da interao, mas mantidas pelos sistemas online. Por conta disso, essas </p><p> 5 Fotologs so sistemas de publicao de fotografias, semelhantes aos weblogs (Recuero, 2007). </p></li><li><p>redes so estruturas diferenciadas. Ora, apenas por conta desta mediao especfica </p><p>que possvel a um ator ter, por exemplo, centenas ou, at mesmo, milhares de </p><p>conexes, que so mantidas apenas com o auxlio das ferramentas tcnicas. Assim, </p><p>redes sociais na Internet podem ser muito maiores e mais amplas que as redes offline, </p><p>com um potencial de informao que est presente nessas conexes. </p><p>Quanto falamos em redes sociais na Internet estamos, ainda, limitando um </p><p>espao no qual focaremos o fenmeno. Assim, por exemplo, o Orkut pode representar </p><p>diversas redes sociais que so constitudas pelos atores que ali se cadastram e </p><p>interagem. Algumas dessas redes tm tambm uma forte conexo com as redes offline </p><p>(como boyd, 2006 demonstra com relao ao Facebook e o MySpace nos Estados </p><p>Unidos, por exemplo), mas nem todas as conexes o so (como Huberman, Romero e </p><p>Wu, 2009, demonstram). </p><p>As redes sociais tambm devem ser diferenciadas dos sites que as suportam. </p><p>Enquanto a rede social uma metfora utilizada para o estudo do grupo que se apropria </p><p>de um determinado sistema, o sistema, em si, no uma rede social, embora possa </p><p>compreender vrias delas. Os sites que suportam redes sociais so conhecidos como </p><p>sites de redes sociais. Embora quase todas as ferramentas de comunicao mediada </p><p>pelo computador sejam capazes de suportar redes sociais, boyd e Ellison (2007) </p><p>definem esses sistemas como aqueles que permitem a publicizao da rede social, como </p><p>caracterstica diferencial. Esses sites permitem, assim, uma nova gerao de espao </p><p>pblicos mediados (boyd, 2007). O conceito refere-se a ambientes onde as pessoas </p><p>podem reunir-se publicamente atravs da mediao da tecnologia. Boyd utiliza o </p><p>conceito onde a mediao proporciona o surgimento de espaos de lazer, onde normas </p><p>sociais so negociadas e permitem a expresso dos atores sociais. Para a autora, esses </p><p>espaos pblicos mediados possuem caractersticas especiais, a saber: </p><p> Persistncia: Refere-se ao fato de aquilo que foi dito permanece no ciberespao. </p><p>Ou seja, as informaes, uma vez publicadas, ficam no ciberespao; </p><p> Capacidade de Busca (searchability): Refere-se capacidade que esses espaos </p><p>tm de permitir a busca e permitir que os atores sociais sejam rastreados, assim </p><p>como outras informaes; </p><p> Replicabilidade: Aquilo que publicado no espao digital pode ser replicado a </p><p>qualquer momento, por qualquer indivduo. Isso implica tambm no fato de que </p><p>essas informaes so dificeis de ter sua autoria determinada; </p></li><li><p> Audincias Invisveis: Nos pblicos mediados, h a presena de audincias nem </p><p>sempre visveis atravs da participao6. H audincias que, inclusive, podero </p><p>aparecer aps a publicao das conversaes nesses grupos, por conta das </p><p>caractersticas anteriores, que permitem que esses grupos deixem rastros que </p><p>podero ser encontrados depois. </p><p>As caractersticas enumeradas por boyd referem-se, de um modo especial, ao </p><p>fato de que a Internet, enquanto mediao, permite que as informaes sejam </p><p>armazenadas, replicadas e buscadas. So essas caractersticas que fazem com que as </p><p>redes sociais que vo emergir nesses espaos sejam to importantes. So essas redes que </p><p>vo selecionar e repassar as informaes que so relevantes para seus grupos sociais. </p><p> A mediao da Internet, no entanto, tambm proporcionou outro fator </p><p>importante: a complexificao da interconexo entre os indivduos, como apontamos </p><p>antes. A Internet proporciona, assim, que as conexes das redes sociais sejam ampliadas </p><p>no espao online. Assim, essas conexes podem ser de dois tipos (Recuero, 2007): </p><p>aquelas emergentes, que caracterizam laos construdos atravs da conversao entre os </p><p>atores (que vo gerar as redes emergentes) e aquelas de filiao ou associao, </p><p>caracterizadas pela manuteno da conexo realizada pelo software ou site utilizados </p><p>(que vo gerar as redes de filiao). Enquanto as primeiras passam pelo processo de </p><p>aprofundamento do lao social, as segundas podem jamais ter qualquer interao, </p><p>exceto no momento de estabelecimento da conexo. </p><p>Assim, um mesmo ator pode ter uma rede de conexes em um determinado </p><p>sistema e uma rede de conversao e ambas podem ser diferentes e possuir </p><p>caractersticas estruturais diferentes. o que mostrou o trabalho de Huberman, Romero </p><p>e Wu (2009) sobre as redes sociais no Twitter7. Neste trabalho, os autores discutiram </p><p>que as redes de seguidores e seguidos (redes de filiao para ns) eram muito grandes e </p><p>com pouca ou nenhuma interao entre os atores. J as redes que abarcavam as </p><p>conversaes (redes emergentes para ns) eram redes muito menores, mas que </p><p>continham muito mais interaes entre os atores. Como as redes de filiao so </p><p>baseadas em conexes mantidas pelo sistema, so elas que vo complexificar e </p><p>aumentar o potencial de alcance das informaes nas redes sociais online. Isso porque </p><p>essas conexes so potenciais canais de disseminao de idias, notcias e etc. 6 Aqueles denominados lurkers, ou seja, atores que vagueiam pelos espaos sem manifestarem-se abertamente. 7 O Twitter um site cujo objetivo responder questo O que voc est fazendo?. </p></li><li><p>E porque a Internet, no mbito da mediao, permite que esses grupos estejam </p><p>permanentemente conectados nos sites de redes sociais, que essas informaes vo </p><p>espalhar-se e potencialmente criar mobilizaes nesses grupos. Entretanto, antes de </p><p>discutirmos como essas redes vo influenciar o jornalismo preciso discutir como e por </p><p>que as informaes so difundidas nesses grupos. </p><p>3. Redes Sociais, Difuso de Informao e Capital Social </p><p>Dissemos que a Internet permite que os grupos sociais estejam permanentemente </p><p>conectados. Por conta dessa permanente conexo, as informaes que circulam nessas </p><p>redes tambm adquirem as mesmas caractersticas propostas por boyd (2006). As </p><p>informaes que circulam nas redes sociais assim tornam-se persistentes, capazes de ser </p><p>buscadas e organizadas, direcionadas a audincias invisveis e facilmente replicveis. A </p><p>essas caractersticas soma-se o fato de que a circulao de informaes tambm uma </p><p>circulao de valor social, que gera impactos na rede. Em outros trabalhos (Recuero, </p><p>2007), defendemos que as informaes circulam nas redes sociais com base na </p><p>percepo de valor gerado que os atores sociais percebem. Ou seja, as infomaes esto </p><p>relacionadas com o capital social. </p><p>O capital social definido como o valor que circula dentro de uma rede social </p><p>por muitos autores (Coleman, 1988; Lin, 2001; Putnam, 2000). Bordieu (1983), por </p><p>exemplo, define o conceito como aqueles recursos que esto relacionados com a </p><p>associao a uma rede mais ou menos durvel de relaes institucionalizadas de </p><p>conhecimento e reconhecimento mtuo8 (p.248-249). Para Bourdieu, o capital social </p><p>tem, portanto, uma forte conexo com o grupo que o produz9 e est relacionado com o </p><p>pertencimento ao mesmo ou uma rede social. Lin (2001) argumenta que Bourdieu v o </p><p>conceito a partir de uma percepo de grupo, onde o valor produzido e apropriado </p><p>unicamente pelo grupo como um todo. Para outros autores, no entanto, o capital social </p><p>compreende recursos que so coletivos, mas que podem ser emprestados pelos </p><p>indivduos para obter algum tipo de vantagem. Lin (2001) argumenta que, neste sentido, </p><p>o estudo do capital social foca, principalmente, os (1) investimentos que so realizados </p><p>pelos indivduos na estrutura social e (2) os benefcios que so apropriados pelos </p><p> 8 Traduo da autora para: durable network of more or less institutionalized relationships of mutual acquaintance and recognition(p.248-249). 9 Embora tambm esteja relacionado com o capital econmico, que no sera discutido neste artigo. </p></li><li><p>indivduos como forma de retorno de seu investimento. Este , portanto, relacionado ao </p><p>pertencimento a um determinado grupo, constri-se sob os recursos que so construdos </p><p>pelo grupo e est tambm relacionado ao modo atravs do qual os atores percebem e </p><p>mobilizam esses recursos para atingir seus interesses. </p><p> No que se refere Internet e s redes sociais online, vrios estudos focaram j </p><p>como o capital social construdo e mobilizado pelos atores. Esses estudos parecem </p><p>reforar a perspectiva de que a Internet, por proporcionar uma maior participao e um </p><p>maior controle das informaes que circulam na rede social, principalmente atravs da </p><p>capacidade de rastreamento, permite que o capital social seja mais facilmente </p><p>mobilizado pelos atores. Ellison, Steinfeld e Lampe (2007), por exemplo, mostraram </p><p>como o Facebook10 auxilia os atores a manter os laos sociais, atuando como um </p><p>facilitador da construo do capital social. Como o sistema permite que as redes sociais </p><p>sejam mantidas distncia, por exemplo, permite tambm que os atores gerenciem </p><p>melhor essas conexes. De uma certa forma, portanto, a Internet proporciona ao ator um </p><p>maior controle de sua rede social, com um maior controle e mobilizao do capital </p><p>social para sua apropriao. Wellman (2002) mostra esse papel do indivduo na rede </p><p>quando se refere mudana gerada pela tecnologia, criando as redes sociais pessoais </p><p>ou o individualismo em rede. </p><p> Um dos valores que pode ser observado a partir desta perspectiva a publicao </p><p>das informaes nas redes sociais na Internet e seu impacto individual. Marlow (2006), </p><p>em um estudo voltado para os weblogs, mostrou como os blogueiros focam </p><p>determinados tipos de capital social e como os chamados blogueiros profissionais </p><p>(probloggers) so capazes de apropriar mais capital social e gerar reputao, pois </p><p>dedicam mais tempo a seus blogs publicando informaes mais especializadas. </p><p>Concluses semelhantes tambm foram apontadas por Trammell e Keshelashvili </p><p>(2004), que mostraram que alguns blogueiros conseguem mobilizar mais valores do que </p><p>outros. Esses estudos mostram como a atuao dos atores sociais e sua percepo com </p><p>relao rede podem auxili-los a mobilizar com maior facilidade os recursos sociais </p><p>tambm em proveito prprio. Assim, a publicao de determinadas informaes pode </p><p>estar diretamente relacionada com a percepo do impacto no capital social que ir </p><p>gerar para um determinado ator. </p><p> 10 Site de rede social semelhante ao Orkut. http://www.f...</p></li></ul>