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  • Revista Biotica

    ISSN: 1983-8042

    bioetica@portalmedico.org.br

    Conselho Federal de Medicina

    Brasil

    Neiva de Sousa, Rodolfo; Klein Conti, Valdinei; Salles, Alvaro Angelo; Raimundo Mussel,

    Ivana de Cssia

    Desonestidade acadmica: reflexos na formao tica dos profissionais de sade

    Revista Biotica, vol. 24, nm. 3, 2016, pp. 459-468

    Conselho Federal de Medicina

    Braslia, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=361548490006

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  • 459Rev. biot. (Impr.). 2016; 24 (3): 459-68http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422016243145

    Desonestidade acadmica: reflexos na formao tica dos profissionais de sadeRodolfo Neiva de Sousa 1, Valdinei Klein Conti 2, Alvaro Angelo Salles 3, Ivana de Cssia Raimundo Mussel 4

    ResumoEm vista do elevado grau tecnolgico da atualidade, precisa-se continuamente discutir e revisar a temtica da tica no ambiente acadmico. As ferramentas tecnolgicas no recriaram o padro tico, mas passaram a ofe-recer alternativas aos alunos, facilitando prticas como cola, plgio e falsificaes, o que tornou ainda mais complexo o desafio da instituio de ensino. Este artigo aponta os prejuzos que a desonestidade acadmica pode representar para a sociedade, na medida em que refletem no padro tico dos futuros profissionais. Buscou-se caracterizar os principais tipos de desonestidade acadmica, indicar exemplos de como algumas prticas so toleradas de forma aberta e de como algumas escolas mdicas trabalham o tema em suas ma-trizes curriculares, comparar como outras culturas tratam essa questo, e, por fim, apresentam-se algumas recomendaes gerais acerca de mudanas que possam contribuir para a melhoria do padro tico e moral nas relaes acadmicas.Palavras-chave: M conduta cientfica. Plgio. Direitos autorais. tica. Fraude. Educao superior.

    ResumenDeshonestidad acadmica: efectos sobre la formacin tica de los profesionales de la saludDado el alto nivel actual de la tecnologa, es necesario discutir y revisar constantemente el tema de la ti-ca en el mbito acadmico. Las herramientas tecnolgicas no reformularon el estndar tico, pero ofrecen alternativas a los estudiantes, y facilitan prcticas como hacer trampa, plagio y falsificaciones, lo cual torn el desafo de la intuicin de enseanza an ms complejo. Este artculo cientfico analiza los daos que la deshonestidad acadmica puede representar a la sociedad, en la medida en que repercuten en el estndar tico de los futuros profesionales. Se procur caracterizar los principales tipos de deshonestidad acadmica, presentar ejemplos de cmo se han tolerado abiertamente algunas de estas prcticas y cmo algunas faculta-des mdicas abordan el tema en sus matrices curriculares; comparar cmo se trata el tema en otras culturas y, finalmente, se presentan algunas recomendaciones generales sobre los cambios que pueden contribuir a la mejora de las normas ticas y morales en las relaciones acadmicas.Palabras clave: Mala conducta cientfica. Plagio. Derechos de autor. tica. Fraude. Educacin superior.

    Abstract Academic dishonesty: effects on the ethics education of health professionalsGiven the current high level of technology, it is necessary to continually discuss and review the topic of ethics in the academic environment. Technological tools did not recreate the ethical standard, but began to offer students alternatives, facilitating practices such as cheating, plagiarism, and falsification, which have made the challenges for educational institutions even more complex. This article shows the damage and losses that academic dishonesty may pose to society, as it reflects on the ethical standards of future professionals. The authors sought to characterize the main types of academic dishonesty, present examples of how some unethical practices have been openly tolerated and how some medical schools approach this subject in their curriculum matrices, compare how the issue is dealt with in other cultures, and finally, present some general recommendations on changes that can contribute to improving the ethical and moral standards in academic relations.Keywords: Scientific misconduct. Plagiarism. Copyright. Ethics. Fraud. Education, higher.

    1. Doutor rodolfoneiva@gmail.com Faculdade de Minas (Faminas) 2. Graduado valdineiconti@hotmail.com Faculdade Evanglica do Paran (Fepar), Curitiba/PR 3. Doutor alvaroangelo3@yahoo.com Faculdade de Cincias Mdicas de Minas Gerais (FCMMG), Belo Horizonte/MG 4. Doutora ivana.mussel@faminasbh.edu.br Faminas, Belo Horizonte/MG, Brasil.

    CorrespondnciaRodolfo Neiva de Sousa Rua Luther King, 210, apt. 401, Cidade Nova CEP 31170-100. Belo Horizonte/MG, Brasil.

    Declaram no haver conflitos de interesse.

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    mailto:rodolfoneiva@gmail.commailto:valdineiconti@hotmail.commailto:alvaroangelo3@yahoo.commailto:ivana.mussel@faminasbh.edu.br

  • 460 Rev. biot. (Impr.). 2016; 24 (3): 459-68

    Desonestidade acadmica: reflexos na formao tica dos profissionais de sade

    http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422016243145

    Quando nos aprofundamos no estudo da biotica, deparamos, s vezes, com palavras de sig-nificados variados e sem preciso semntica, como moral e tica. Segundo Beauchamp e Childress1, essas palavras no devem se restringir a meros contextos tericos; teoria tica e filosofia mo-ral deveriam ser os termos apropriados quando enfatizamos a reflexo filosfica sobre a nature-za e o porqu da moralidade. A finalidade de uma teoria sempre aumentar a clareza, a sistemtica e a exatido das nossas reflexes sobre a morali-dade. Orientados por essa linha de pensamento, Beauchamp e Childress incluram, em Princpios de tica biomdica, captulo dedicado moralida-de comum, vista como moralidade universal, que abrangeria, entre outras regras gerais, normas como no mentir, no roubar a propriedade alheia e respeitar os direitos dos outros.

    Se no mentir e no enganar so princpios morais partindo do conceito de biotica como es-tudo sistemtico da conduta humana no mbito das cincias da vida e da sade, examinada luz de valores e princpios morais 2 , a desonestidade acadmica, a exemplo da cola e do plgio, em seu sentido de con-duzir a formas de engano, assunto que se enquadra perfeitamente no conceito, principalmente quando se relaciona a processos avaliativos e produes nos campos das cincias da vida e da sade 3.

    Como consequncia, um dos grandes desafios atuais do sistema educacional brasileiro a criao de cultura em que predominem o comportamento e a postura tica entre os acadmicos. Esse desa-fio, longe de apontar fenmeno novo por essncia, remete aos primrdios da educao em seus di-ferentes nveis, em diferentes eras e localizaes geogrficas. Elemento novo nesse contexto o alto desenvolvimento tecnolgico atual, que tem pro-porcionado meios de comunicao cada vez mais eficazes e que tornaram ainda mais complexo o desafio de lidar com o comportamento tico. Em um mundo de tantos recursos eletrnicos de comu-nicao, os procedimentos de cola e plgio, por exemplo, ganharam novos requintes e amplificao, com recursos cada vez mais elaborados, banalizados em certos contextos e ambientes acadmicos.

    Institutos nacionais e internacionais, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq), a Fundao de Amparo Pes-quisa do Estado de So Paulo (Fapesp), a European Federation of National Academies of Sciences and Humanities (Allea) e a European Research Founda-tion, publicaram guias que definem princpios para a integridade nas prticas acadmicas e de pesquisa.

    De modo geral, esses princpios destacam a lisura da pesquisa como valor absoluto para pesquisado-res e as instituies que representam, incluindo: 1) honestidade na conduo e na apresentao de resultados; 2) confiabilidade na execuo e na co-municao de concluses; 3) objetividade na coleta e no tratamento de dados e na apresentao de evi-dncias; 4) imparcialidade na execuo da pesquisa; 5) respeito aos participantes e objetos do trabalho de pesquisa; 6) veracidade na atribuio dos crdi-tos a trabalhos de terceiros, dentre outros.

    Fomentar cultura em que predomine o com-portamento tico depende de uma combinao de fatores. Nenhum deles, isoladamente, tem o poder de mudar ou formar a cultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB) exige que suas escolas--membro incluam, em seus currculos, componente explicitamente dedicado preparao tica na vida acadmica 4. Segundo Johns e Strand 5, entretanto, ensinar tica como disciplina, isoladamente, no ne-cessariamente implicar a formao de profissionais com melhor perfil tico.

    Estudos em escolas de finanas e negcios apontam que a desonestidade acadmica nes-ses ambientes equivale de escolas de outras especialidades, e que indivduos que aceitam a desonestidade na esfera acadmica esto mais in-clinados a fazer o mesmo no exerccio profissional e nos negcios 6,7. Reconhece-se, portanto, que um dos maiores problemas da desonestidade acadmi-ca que no se encerra na escola, mas se transfere para as etapas seguintes da vida do indivduo, com fortes repercusses na justia e no equilbrio social.

    A preocupao com a tica vlida em qualquer rea de atuao profissional, mas particularmente se agrava na rea de sade, na qual vidas humanas so sujeitas a avaliao e deciso mdica. O Ministrio da Educao, por meio da Resoluo do Conselho Nacional de Educao/Cmara de Educao Superior 4/2001, instituiu as diretrizes curriculares nacionais do curso de graduao em medicina, que servem de espinha dorsal para as grades das faculdades de todo o pas. Em seu artigo 3, essa resoluo determina que o Curso de Graduao em Medicina tem como perfil do formando egresso/profissional o mdico, com formao generalista, humanista, crtica e reflexi-va, capacitado a atuar, pautado em princpios ticos 8.

    O Cdigo de tica Mdica (CEM) 9, aprovado pelo Conselho Federal de Medicina, determina a conduta tica a ser seguida pelo mdico no exerccio de sua profisso. E para que o profissional atue de forma tica, fundamental que todo o seu processo

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  • 461Rev. biot. (Impr.). 2016; 24 (3): 459-68

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    http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422016243145

    de formao se construa em ambiente acadmico com slida valorizao desses princpios, que devem fazer parte no apenas dos regulamentos, mas tam-bm da rotina prtica em sala de aula e ambulatrios.

    Procura-se, portanto, discutir, neste texto, a perspectiva da tica a respeito da questo da deso-nestidade acadmica, em funo de seus reflexos na atuao profissional do indivduo. A tica, no cenrio cultural amplo, tema muito vasto para ser discutido de forma integral em apenas um artigo, razo pela qual se optou por circunscrev-lo ao mbito acadmico brasileiro, com nfase no ensino superior de medicina. Entretanto, mesmo nesse universo, a conduta tica envolve uma diversidade de posturas e atitudes, razo pela qual os autores tambm optaram por enfatizar a cola e o plgio, reconhecendo que a questo tica transcende em muito estes dois aspectos.

    Assim, o objetivo geral apresentar argumen-tos que indiquem os prejuzos que a desonestidade acadmica cria para a sociedade, considerando seu reflexo no padro tico dos profissionais formados em ambientes acadmicos que toleram prticas desones-tas. Alm disso, o artigo tambm visa contribuir com a caracterizao de tipos de desonestidade acadmica, indicando exemplos de como se toleram abertamente algumas prticas e de como algumas escolas mdi-cas trabalham o tema em suas matrizes curriculares, comparando como outras culturas tratam o problema e, por fim, compilando material que sirva de suporte didtico ao debate sobre o assunto, dentro e fora da sala de aula, de modo a propiciar o crescimento de discentes, docentes e gestores que atuam na rea de formao acadmica e na construo da cidadania.

    Tipos mais comuns de desonestidade acadmica

    No possvel estabelecer, com preciso, quantas e quais so as maneiras de ao desonesta em ambiente acadmico, mas a lista a seguir resume treze das principais formas desse tipo de atitude, no necessariamente em ordem de importncia:

    Cola em atitude ativa: o uso ou tentativa de uso no autorizado de materiais acadmicos ou a ajuda de terceiros por ocasio de realizao de exerccios avaliativos. Em geral, ocorre com a leitura das respostas da avaliao de outro cole-ga, a utilizao de material escrito, a obteno de respostas previamente ao exame, o uso no autorizado de equipamentos com mensagens eletrnicas, como relgios, escutas e telefones celulares, entre outros.

    Cola em atitude passiva: a facilitao da cola ativa por colegas, o agir com cumplicidade ou de alguma forma facilitar a desonestidade de terceiros. Isso pode incluir a cesso de trabalho escrito para que seja copiado, a permisso para que um colega tenha acesso a respostas em tes-te escrito etc.

    Plgio: uso de ideias, figuras ou textos de outro autor, sem a atribuio dos devidos crditos, fazendo parecer ser o plagirio o autor da ideia ou texto original. O plgio no se resume c-pia fiel, palavra por palavra, mas tambm inclui textos reproduzidos com mudanas superficiais, suficientes apenas para descaracterizar o origi-nal. Para Silva 10, h trs modalidades de plgio: 1) o integral, quando se faz a transcrio de tex-to completo sem citao da fonte; 2) o parcial, quando se realiza a cpia de algumas frases ou pargrafos de fontes diferentes; 3) e o concei-tual, quando a pessoa se apropria de um ou mais conceitos, ou de uma teoria, e os apresenta como de sua autoria.

    Adulterao ou inveno de dados: exemplos in-cluem a falsificao de dados de experimento ou relatrio de aula prtica, ou mesmo manipula-o de magnitude ou expurgo no justificado de informaes, para forar resultados.

    Mltiplas submisses: o uso de um mesmo trabalho j submetido anteriormente pelo aca-dmico, em tarefa anterior, com mudanas su-perficiais, sem a autorizao do professor ou da instituio proponente.

    Engano e adulterao: refere-se a alteraes de m-f em determinado trabalho acadmico, o que pode incluir a falsificao de assinaturas, a imitao de grafias para simular terceiros, a fal-sificao de cartas de recomendao ou de cre-denciais em geral.

    Forjar participao em grupo: refere-se ao indiv-duo que tira proveito em incluir o prprio nome nos trabalhos em grupo, sem efetiva participa-o e contribuio. Erram tambm os que permi-tem a incluso de alunos no contribuintes, sob pretexto de coleguismo. Essa atitude configu-ra, na verdade, cumplicidade e reforo positiv...