Racionalidade substantiva nas organizações ... ?· Racionalidade substantiva nas organizações: Consolidação…

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Racionalidade substantiva nas organizaes: Consolidao de um modelo metodolgico de pesquisa terico-emprica

Autoria: Dris Oliveira Caitano, Maurcio Serva

Resumo: Este artigo se prope indicar o estgio atual dos estudos realizados sobre a racionalidade substantiva nas organizaes, a partir da proposta de verificao emprica da racionalidade substantiva elaborada por Serva (1996, 1997a, 1997b). Para cumprir este objetivo, foi realizado um levantamento bibliogrfico dos estudos sobre o tema a partir da publicao do modelo de anlise pelo autor supracitado. Os trabalhos localizados foram analisados em sua forma ntegra, mencionadas as principais contribuies de cada um destes estudos. A anlise destes resultados pretende validar a contribuio do modelo para campo dos estudos organizacionais e as eminentes possibilidades de pesquisa sobre a temtica.

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1. Introduo O desenvolvimento da cincia e o domnio da tcnica podem ser considerados como

algumas das caractersticas mais significativas do mundo moderno. Neste contexto, a supremacia da tcnica se erigiu como lema para o crescimento desenfreado, partindo do pressuposto de uma razo nica e homognea, limitando-a uma concepo de homem unicamente movido por uma racionalidade tcnica e utilitarista. No entanto, tal concepo omitiu a compreenso original do conceito de racionalidade humana, como demonstraram diferentes autores da filosofia e da sociologia neste ltimo sculo.

A crtica racionalidade instrumental esteve no cerne de uma crtica muito mais ampla ao sistema capitalista, que se mostrava em pleno desenvolvimento. De acordo com Chanlat (1996), a crtica ao capitalismo foi direcionada a diferentes aspectos do sistema, em Weber pela racionalizao, Marx pela acumulao de capital, Polanyi pela hegemonia das categorias econmicas, Dumont pelo individualismo, entre outros. A partir de Weber que se desenvolve toda uma linha crtica de estudos sobre a racionalidade instrumental. Em Karl Mannheim, Adorno, Horkheimer e especificamente pelas contribuies da Escola de Frankfurt se estabelece toda uma linha crtica ao domnio da razo instrumental (RAMOS, 1981).

No campo da filosofia, os estudos sobre racionalidade receberam a importante contribuio de Jurgen Habermas. Habermas herdeiro da escola de Frankfurt, entretanto apesar da herana frankfurtiana demonstra sua discordncia com o pessimismo weberiano e das concepes marcuseanas da instrumentalidade inexorvel do mundo. Por meio da teoria da ao comunicativa (1999), Habermas explicita sua divergncia dialtica do esclarecimento de Adorno e Horkheimer e empreende um dilogo entre a filosofia e as cincias sociais que culmina na teoria dos atos de fala (FREITAG, 1986).

No cenrio das cincias sociais no Brasil, o autor Alberto Guerreiro Ramos se fundamenta nos pressupostos dos autores supracitados, mas especialmente na obra de Karl Polanyi, para estabelecer uma alternativa teoria crtica predominante nos estudos sociais (SERVA, 1996). A crtica de Guerreiro Ramos ao modelo de sociedade na qual uma razo predominantemente tcnica serve como norteadora dos valores morais se destacou no campo dos estudos organizacionais por no se restringir a crtica, mas por trazer uma contribuio no desenvolvimento de uma nova concepo terica divergente das teorias tradicionais e que se aproxima muito mais da realidade do campo das organizaes (RAMOS, 1981).

A tentativa de Ramos (1981) no sentido de operacionalizar o conceito de racionalidade substantiva recebeu uma influncia importante da teoria da ao comunicativa de Habermas. As obras de Habermas (1999) e de Ramos (1981) permitem lanar um olhar, alm da crtica sobre o impacto que a razo instrumental exerce na sociedade moderna. Atravs das lentes desses dois autores se tornou possvel identificar no espao organizacional outros atributos do ser humano que pudessem ser privilegiados.

Neste sentido, os estudos sobre a racionalidade substantiva nas organizaes assumiram um espao no campo de estudos organizacionais no Brasil. O que se justifica a partir da proposio de Dellagnelo (2004), ao afirmar que a discusso da racionalidade se tornou fundamentalmente o ponto de partida para qualquer possibilidade de emancipao ou desenvolvimento dos indivduos dentro das organizaes formais. nesta perspectiva que a obra de Guerreiro Ramos assumiu um significado expressivo no campo das cincias sociais, especificamente no que tange aos estudos da racionalidade nas organizaes. Em seu livro A nova cincia das organizaes, o autor elabora uma teoria alternativa que viabiliza a possibilidade de privilegiar espaos sociais orientados por uma racionalidade substantiva.

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De acordo com Paes de Paula (2007), sob o legado de Guerreiro Ramos diversos pesquisadores procuraram dar continuidade ao seu trabalho, reforando os estudos organizacionais em uma perspectiva crtica. Paes de Paula (2007) traz uma sntese da obra de Guerreiro Ramos e menciona o nome de diferentes pesquisadores no Brasil considerados como seguidores de Guerreiro Ramos. Dentre os quais, a autora destacou os nomes de: Ramon Moreira Garcia, Wellington Newton Felix Martins , Maurcio Serva, Fernando Guilherme Tenrio. A esta relao possvel ainda acrescentar os nomes de Pizza Jnior e Ariston Azevedo.

Especificamente, o estudo de Maurcio Serva (1996), parece estabelecer dentro dos estudos da racionalidade um novo patamar de explorao no campo das organizaes. Serva (1996) afirma que as crticas razo instrumental, opondo a ela a racionalidade substantiva, no avanaram no sentido de comprovar empiricamente a concretizao desta ltima na gesto das organizaes produtivas. O que para o autor constitua um impasse. Como uma tentativa de preencher esta lacuna, Serva (1996) elaborou um modelo de anlise que passou a ser utilizado por outros pesquisadores no campo dos estudos da racionalidade. O referido modelo foi aplicado em diferentes pesquisas de campo com a finalidade de evidenciar, nos processos de gesto em organizaes formais, elementos que caracterizassem o predomnio de aes subjacentes a uma racionalidade substantiva ou instrumental. Esses estudos que utilizaram o modelo de anlise sucederam as publicaes dos estudos de Serva (1996, 1997a, 1997b) que apresentou o modelo de anlise da racionalidade utilizado na sua pesquisa de campo. Estes trabalhos tinham um ponto de partida semelhante, mas assumiram delineamentos especficos que ampliaram a discusso sobre o tema da racionalidade nas organizaes.

Passados mais de dez anos da publicao do estudo e apresentao do instrumento de anlise adotado por Serva (1996, 1997a, 1997b), diversos estudos foram realizados a partir daquela pesquisa e assim se torna possvel e oportuno empreender um balano sobre os limites e as contribuies que a operacionalizao deste tipo de pesquisa trouxe para o campo das organizaes. Desta forma, apresentamos a questo da presente pesquisa: O modelo de anlise da racionalidade substantiva nas organizaes desenvolvido por Serva (1996, 1997a, 1997b) constituiu uma alternativa metodolgica de pesquisa terico-emprica nos estudos organizacionais sobre a racionalidade; Quais as contribuies cientficas obtidas pelo uso deste modelo? Para se responder a este problema de pesquisa este estudo tomou por base o escopo metodolgico definido a seguir.

2. Metodologia A partir do estabelecimento do problema acima, esta pesquisa assumiu um delineamento

descritivo e qualitativo. A estratgia utilizada para a coleta de dados foi o levantamento bibliogrfico das teses e dissertaes defendidas no Brasil no perodo de 1998 a 2010. Os dados coletados foram unicamente de fontes secundrias e os resultados da pesquisa foram analisados de forma qualitativa.

A relao das dissertaes e teses defendidas no perodo delimitado foi pesquisada por meio do banco de teses do portal da CAPES. O banco de teses da CAPES disponibiliza o resumo das teses e dissertaes defendidas junto a programas de ps-graduao do pas, tambm informa os dados autorais e o local de armazenamento destes trabalhos. A ferramenta de pesquisa permite a busca por autor, ttulo, assunto, nvel (Mestrado e Doutorado) e ano da concluso do estudo. Os critrios estabelecidos nessa busca foram os seguintes: Assunto: racionalidade, racionalidade substantiva, organizaes. Filtro selecionado: qualquer uma das palavras; ano de 1999 a 2010; a pesquisa foi realizada em nveis de mestrado e doutorado. O banco de teses da CAPES indicou a

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relao de trabalhos que atendessem a pelo menos um dos critrios estabelecidos no campo assunto. A partir da leitura dos dados e do resumo alguns trabalhos foram preliminarmente excludos, especificamente os trabalhos que foram desenvolvidos em outras reas de concentrao. Uma leitura atenta do resumo tambm permitiu descartar alguns trabalhos indicados pelo portal que, apesar de conterem as palavras chave relacionadas, no contemplavam a pesquisa emprica. Logicamente, este perfil de trabalho exclui a possibilidade da replicao ou adaptao do modelo de pesquisa emprica. Os trabalhos foram analisados de forma qualitativa. Contudo, antes de adentrar na anlise dos trabalhos selecionados, convm apresentar sucintamente o referido modelo de anlise desenvolvido por Serva (1996), bem como, os pressupostos tericos que fundamentaram o estudo do autor a fim de embasar a discusso posterior.

3. O Modelo de anlise da racionalidade em organizaes Serva (1996) destacou a contribuio de diferentes estudos elaborados no Brasil que

partiam dos pressupostos levantados por Guerreiro Ramos. Entre eles o autor destacou os estudos Garcia (1980), Tenrio (1990), Oliveira (1993), Pizza Jnior (1994), Vasconcelos (1993), Caldas (1994) e Barreto (1993) (SERVA, 1997; PAES de PAULA, 2007). Para Serva (1996), os estudos posteriores a Guerreiro Ramos, apesar de sua importante contribuio, ficaram restritos ao nvel conceitual. Entretanto, esta contribuio por si s no foi suficiente para fazer com que a obra de Guerreiro Ramos avanasse no sentido de comprovar empiricamente a existncia da racionalidade substantiva nos processos organizacionais, nas prticas administrativas. Para o autor, isto constitua um impasse representado pela ausncia de evidncias que demonstrem a concretizao da racionalidade substantiva nas prticas administrativas (SERVA, 1996, p.29), uma vez que a teoria administrativa advm da prtica.

Na concepo de Serva (1996), a ausncia de evidncias empricas da racionalidade substantiva em organizaes produtivas comprometeria o avano da teoria: Se desejarmos desenvolver a abordagem substantiva das organizaes, necessitamos demonstrar claramente o que significa a adoo da razo substantiva nos processos administrativos e examinar a sua influncia na dinmica organizacional (SERVA, 1996, p.158). Para o autor, um avano na teoria dependeria do confronto entre o debate terico e o mundo da vida, com as organizaes e as modalidades pelas quais seus membros praticam administrao.

Desta forma, Serva (1996) adota a proposio de Barreto (1993) e concatena as idias de Guerreiro Ramos (1981) e Habermas (1999) em uma perspectiva de complementaridade. A partir da definio dos diferentes tipos de ao racional e seus elementos constituintes na obra de Habermas e Guerreiro Ramos, Serva (1996) partiu para o reagrupamento lgico desses elementos face aos processos organizacionais, estabelecendo assim um modelo de anlise da racionalidade nas organizaes. A proposta do modelo consistia em estruturar um instrumento de anlise emprica que permitisse identificar a presena da racionalidade substantiva [...] e como ela concretizada nas aes dos membros de organizaes produtivas, ao nvel dos processos organizacionais e da prxis administrativa (SERVA, 1996, p.165). Por meio da aplicao do instrumento de anlise, o autor se props a demonstrar a concretizao da racionalidade predominante nos processos organizacionais no contexto das organizaes produtivas.

O modelo de anlise contemplou um conjunto de onze processos organizacionais essenciais, e ainda um subconjunto de sete processos complementares. De acordo com Serva (1996, p.343), foram considerados processos organizacionais essenciais aqueles nos quais os indivduos definem, mediante aes especficas, o carter bsico do empreendimento grupal ao

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qual participam, delineando seus padres de interrelao e tambm as fronteiras e limites da ao do grupo perante a sociedade que o envolve. Foram considerados processos organizacionais essenciais: hierarquia e normas; valores e objetivos; tomada de deciso; controle; diviso do trabalho; comunicao e relaes interpessoais e ao social e relaes ambientais. J os processos considerados complementares so aqueles que se caracterizaram como necessrios, porm complementares, interpretao dos dados coletados, no sentido de fazer emergir a lgica interna de cada organizao pesquisada, por processos complementares foram tomados: reflexo sobre a organizao; conflitos; satisfao individual; dimenso simblica (SERVA, 1996).

Definidas as categorias de anlise, o autor empreendeu a identificao das unidades de anlise em cada categoria, ou seja, as caractersticas que se presentes nestes processos indicariam o predomnio de uma lgica racional instrumental ou substantiva. A definio destes elementos foi ancorada na complementaridade entre os estudos da razo substantiva em Guerreiro Ramos (1981) e a teoria da ao comunicativa em Habermas (1999). Partindo da complementaridade existente nos estudos de Habermas e Guerreiro Ramos, foi possvel para Serva (1996) desenvolver seu modelo de anlise formado pelas categorias (processos organizacionais) e elementos que caracterizassem a ao racional instrumental ou substantiva, conforme pode se observar no quadro abaixo:

TIPO DE RACIONALIDADE Processos Organizacionais Racionalidade Substantiva Racionalidade instrumental Entendimento Fins, desempenho Hierarquia e normas Julgamento tico Estratgia interpessoal Autorealizao Utilidade Valores e objetivos Valores emancipatrios Fins Julgamento tico Rentabilidade Entendimento clculo, utilidade Tomada de deciso Julgamento tico Maximizao recursos Maximizao recursos Controle Entendimento Desempenho Estratgia interpessoal Autorealizao Maximizao recursos Diviso do trabalho Entendimento Desempenho Autonomia Clculo Comunicao e Autenticidade Desempenho Relaes interpessoais Valores emancipatrios xito/Resultados Autonomia Estratgia interpessoal Ao social e Fins Relaes ambientais Valores emancipatrios xito/Resultados Reflexo sobre Julgamento tico Desempenho a organizao Valores emancipatrios Fins, rentabilidade Julgamento tico Clculo Conflitos Autenticidade Fins Autonomia Estratgia interpessoal Satisfao individual Autorealizao Fins, xito Autonomia Desempenho Dimenso simblica Autorealizao xito/Resultados Valores emancipatrios Utilidade, Desempenho

Modelo de anlise da racionalidade substantiva nas organizaes Fonte: Serva (1996, p.339)

Pela aplicao do instrumento de anlise em trs organizaes produtivas situadas em

Salvador, o...

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