Racionalidade argumentativa da Filosofia e a dimensão discursiva ?GICA.pdf · RACIONALIDADE ARGUMENTATIVA…

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  • RACIONALIDADE ARGUMENTATIVA DA

    FILOSOFIA E A DIMENSO DISCURSIVA DO TRABALHO

    FILOSFICO

    Aires Almeida SPF e APF

    Noes elementares de lgica para a disciplina de Filosofia. Documento elaborado no mbito da definio das Aprendizagens Essenciais

  • Ficha tcnica

    Autor: Aires Almeida, 2017 Documento elaborado no mbito da definio das Aprendizagens Essenciais da disciplina de Filosofia. Uma colaborao da Sociedade Portuguesa de Filosofia e da Associao de Professores de Filosofia Utilizao sob licena Creative Commons Atribuio Uso No-Comercial Proibio de Realizao de Obras Derivadas (by-nc-nd)

  • Sumrio

    TESE, VERDADE, ARGUMENTO, VALIDADE E SOLIDEZ ......................................................... 3

    Tese .......................................................................................................................................................... 3

    Verdade .................................................................................................................................................. 4

    Argumento............................................................................................................................................. 5

    Validade .................................................................................................................................................. 7

    Solidez ..................................................................................................................................................... 9

    O QUADRADO DA OPOSIO ......................................................................................................... 11

    FORMAS DE INFERNCIA VLIDA ............................................................................................... 15

    Conectivas proposicionais ........................................................................................................... 15

    Tabelas de verdade ......................................................................................................................... 19

    Tabelas de verdade e teste de validade das formas argumentativas .......................... 24

    Regras de inferncia vlida .......................................................................................................... 27

    PRINCIPAIS FALCIAS FORMAIS ................................................................................................. 28

    TIPOS DE ARGUMENTOS E FALCIAS INFORMAIS ............................................................... 29

    Induo: generalizao e previso ............................................................................................ 30

    Argumentos por analogia ............................................................................................................. 31

    Argumentos de autoridade .......................................................................................................... 32

    FALCIAS INFORMAIS ...................................................................................................................... 34

    Apelo ignorncia ........................................................................................................................... 35

    Falsa relao causal ........................................................................................................................ 36

    Petio de princpio ........................................................................................................................ 37

    Falso dilema ....................................................................................................................................... 37

    Derrapagem ....................................................................................................................................... 38

    Boneco de palha ............................................................................................................................... 39

    Ad hominem .............................................................................................................................................. 40

    Ad populum ......................................................................................................................................... 41

    BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 42

  • 3

    TESE, ARGUMENTO, VALIDADE, VERDADE E SOLIDEZ Tese

    Uma tese uma resposta a um problema que est em aberto.

    Um problema est em aberto quando, devido sua natureza ou dificuldade,

    no dispe de solues consensuais, impedindo que o debate se encerre.

    Uma tese filosfica uma resposta a algum problema filosfico. Devido ao seu

    carcter geral e fundamental, os problemas da filosofia no tm respostas

    consensuais, permanecendo em aberto. Por exemplo, no consensual que nunca

    devemos mentir ou que no h justia social sem igualdade.

    Tambm h problemas em aberto nas cincias, na economia e em outras reas.

    Mas os genunos problemas filosficos so todos problemas em aberto, mesmo que

    permitam esclarecer muitas situaes particulares e tenham fortes implicaes

    prticas.

    Geralmente, as teses articulam-se com outras teses auxiliares que as suportam

    ou complementam, assim formando teorias. habitual as teorias serem identificadas

    pela sua tese principal, que normalmente expressa por uma frase declarativa.

    Os filsofos costumam chamar proposies ao que expresso pelas frases

    declarativas. A noo de proposio fcil de entender e relativamente consensual,

    mesmo para os filsofos que duvidam da sua existncia. Mas que noo essa

    exatamente?

    Deixemos de lado todas as frases que no so declarativas, como as

    interrogativas, as imperativas, as exclamativas ou as compromissivas, pois nenhum

    destes tipos de frases serve para descrever ou transmitir informao sobre o que

    pensamos ser o mundo. Isto porque perguntar (interrogativas), dar ordens

    (imperativas), exprimir emoes (exclamativas) e fazer promessas (compromissivas)

    servem para outros fins, que no primariamente para veicular informao sobre

    como so ou no so as coisas. Essa a funo das frases declarativas como Lisboa

  • 4

    a capital de Portugal, Mentir sempre errado, Todas as nossas aes so livres,

    Os gatos so felinos. Claro que algumas destas frases podem descrever erradamente

    as coisas ou estados de coisas, caso em que exprimem proposies falsas. Assim, uma

    proposio a ideia, verdadeira ou falsa, expressa por uma frase declarativa.

    A frase , pois, um item lingustico (formado por sons articulados ou inscries

    numa superfcie), sendo a proposio o seu significado ou contedo, o qual no um

    item lingustico. A frase O gato Tobias est a comer ou o desenho numa folha de

    papel de um gato a comer so apenas modos de exprimir algo; neste caso, um certo

    gato a comer. Caso esse gato esteja de facto a comer, a frase ser verdadeira mas o

    desenho no verdadeiro nem falso apenas representa bem ou mal um gato a

    comer. Alguns filsofos pensam ento que a frase s verdadeira, ao contrrio do

    desenho, porque exprime uma proposio. De maneira que, deste ponto de vista,

    dizer que uma frase verdadeira ou falsa apenas uma forma indireta de dizer que a

    proposio por ela expressa verdadeira ou falsa.

    Para tornar mais clara a diferena entre frases e proposies, basta pensar que

    frases diferentes podem exprimir a mesma proposio. Por exemplo, as frases Paris

    a capital da Frana, A capital da Frana Paris e Paris is the capital town of

    France so todas diferentes mas dizem a mesma coisa, tm o mesmo significado: isto

    , exprimem a mesma proposio. Neste caso, sabemos que aquelas trs frases

    exprimem uma proposio verdadeira. Ora, as discusses filosficas geralmente no

    so acerca das frases elas prprias, mas das ideias que elas veiculam e se tais ideias

    so verdadeiras ou falsas.

    Note-se que uma frase nunca uma proposio; apenas exprime uma

    proposio se for verdadeira ou falsa. Tal como o numeral que escrevemos num papel

    4, por exemplo nunca o prprio nmero quatro: apenas o exprime.

    Verdade

    O que se espera de uma tese que seja verdadeira. A verdade de uma tese

    ou de qualquer proposio a caracterstica de ela representar adequadamente as

  • 5

    coisas como elas realmente so. Caso isso no acontea, essa tese ou proposio

    falsa.

    Por exemplo, a proposio de que h extraterrestres s verdadeira se houver

    extraterrestres, independentemente de ns sabermos que h ou no

    extraterrestres. Do mesmo modo, a tese filosfica de que toda a arte representa

    algo s verdadeira se no houver mesmo obras de arte que no representem

    algo; caso contrrio, falsa.

    Algumas proposies so verdadeiras, outras falsas (quer o saibamos quer

    no); chama-se valor de verdade verdade e falsidade das proposies. As

    proposies mais comuns so ou verdadeiras ou falsas, mas no as duas coisas; mas

    um problema filosfico em aberto saber se h proposies sem valor de verdade, ou

    simultaneamente com os dois, ou se h outros valores de verdade, alm da verdade e

    da falsidade.

    Ningum est interessado em teses falsas porque elas no nos permitem

    compreender como as coisas realmente so e, portanto, no nos proporcionam

    conhecimento.

    Como referido, as teses filosficas so respostas a problemas em aberto e

    esto, portanto, sujeitas a discusso. Isto significa que no h maneira de provar

    inequivocamente que uma dada tese verdadeira (ou falsa). Por isso se espera que o

    proponente de uma tese seja capaz de defender, de algum outro modo, a verdade

    dessa tese, apresentando boas razes que a apoiam e mostrando ser justificado

    acreditar que a tese verdadeira. Assim, apresentar razes que sustentem uma tese

    argumentar a seu favor, de modo a persuadir os outros.

    Argumento

    frequente apresentarem-se vrios argumentos em defesa de uma dada tese.

    Um argumento um conjunto varivel de proposies (ou afirmaes) articuladas

    entre si, com o intuito de uma delas ser apoiada pelas outras.

  • 6

    A proposio que se procura apoiar ou defender a concluso do argumento

    e as que visam apoiar a concluso so as premissas do argumento. A concluso no

    tem de surgir em ltimo lugar nem as premissas tm de surgir antes da concluso. O

    que importa saber qual a concluso visada, e quais so as premissas usadas para

    a apoiar.

    Mas se precisarmos de ser completamente claros, podemos apresentar os

    nossos argumentos na sua forma mais simples (a forma cannica ou tambm

    forma-padro), com as premissas separadas e a concluso no fim. O nmero de

    premissas de um argumento varivel, mas a concluso s uma. (Quando

    encontramos vrias concluses porque estamos perante vrios argumentos

    encadeados.)

    comum num texto haver vrios argumentos e importante avaliar cada um

    deles, pois tanto podem ser bons como maus. Para isso preciso comear por

    identific-los, pois muitas vezes surgem misturados com outras informaes e

    consideraes laterais.

    A melhor maneira de identificar um argumento comear por identificar a sua

    concluso, isto , o que se quer defender. Muitas vezes, h palavras ou expresses

    indicadoras de concluso. Por exemplo, logo, portanto, consequentemente, por

    isso, da que, por conseguinte, infere-se que, como tal, assim so termos que

    normalmente indicam que a concluso surge imediatamente a seguir. Por sua vez,

    palavras ou expresses como porque, pois, dado que, visto que, devido a, j

    que, a razo que so termos que normalmente servem para apresentar razes, ou

    seja, premissas.

    Uma vez identificados os argumentos a favor de uma dada tese ou contra teses

    rivais, ainda preciso averiguar se tais argumentos so aceitveis ou no. Isso faz-se

    averiguando dois aspetos: um acerca da relao entre as premissas e a concluso e

    outro acerca da credibilidade das premissas.

  • 7

    Validade

    O primeiro desses aspetos diz respeito validade. O que, neste caso, se procura

    apurar se as premissas apoiam efetivamente a concluso. Quando as premissas

    apoiam da maneira mais forte uma concluso isso significa que no h maneira de a

    concluso ser falsa caso todas as premissas sejam verdadeiras; ou seja, significa que

    as premissas implicam a concluso ou, para falar ainda de outra maneira, significa

    que a concluso se segue logicamente das premissas. Quando isto acontece diz-se

    tambm que a verdade das premissas garante a verdade da concluso. E isto que

    significa dizer que um argumento vlido.

    A validade , assim, uma propriedade ou caracterstica dos argumentos como

    um todo, e no das premissas nem da concluso.

    Para se compreender melhor a noo de validade, atente-se nos dois exemplos

    seguintes:

    Argumento 1

    A Sofia fala francs e portuguesa. Portanto, portuguesa.

    Argumento 2

    A Sofia fala francs ou portuguesa. Portanto, portuguesa.

    fcil, em cada um destes argumentos, identificar as premissas e as respetivas

    concluses, pois a palavra portanto indica claramente que a frase que se lhe segue

    exprime a concluso. Em ambos os casos a concluso A Sofia portuguesa.

    Identificada a concluso, resta uma frase, pelo que temos apenas uma premissa

    em cada argumento. A premissa do primeiro argumento A Sofia fala francs e

    portuguesa ao passo que a premissa do segundo argumento A Sofia fala francs

    ou portuguesa. O que queremos agora saber se os argumentos so vlidos, isto ,

    se as concluses de cada um se seguem das respetivas premissas.

    Como vimos, num argumento vlido, a verdade das premissas garante a verdade

    da concluso. Esta ideia costuma ser expressa de vrias maneiras e todas acabam por

    ir dar ao mesmo. Eis as mais comuns:

  • 8

    Num argumento vlido

    - impossvel todas as premissas serem verdadeiras e a concluso falsa,

    simultaneamente.

    - a concluso no pode ser falsa, se todas as premissas forem verdadeiras.

    - a concluso tem de ser verdadeira, se todas as premissas forem

    verdadeiras.

    Se lermos com ateno, veremos que em nenhum caso se diz que um

    argumento vlido tem de ter premissas verdadeiras e em nenhum caso se diz que um

    argumento vlido tem de ter concluso verdadeira. Um argumento vlido tanto pode

    ter premissas falsas como concluso falsa, como at premissas e concluso falsa. A

    nica coisa que no pode acontecer num argumento vlido ter todas as suas

    premissas verdadeiras a sua concluso falsa. A ideia simples: algo estar a correr

    mal no nosso raciocnio quando obtemos concluses falsas exclusivamente a partir

    de premissas verdadeiras. Tal como haveria algo estranho em algum dar uma notcia

    falsa, baseada apenas em informaes verdadeiras; ou em um pasteleiro fazer um

    bolo mau s com ingredientes bons. Em ambos os casos consideramos que se

    procedeu algures de forma incorreta.

    Mas podemos raciocinar corretamente e, mesmo assim, chegar a uma

    concluso falsa. Para isso, basta que alguma das premissas de que partimos seja falsa.

    Assim, raciocinar corretamente ou incorretamente (validamente ou invalidamente)

    no tem que ver com as premissas ou a concluso serem, isoladamente, verdadeiras

    ou falsas, mas antes com a ligao entre as premissas e a concluso.

    Volt...

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