prevenção quaternária para a humanização da atenção...

Download Prevenção Quaternária para a humanização da Atenção ...bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/mundo_saude/prevencao_quaternaria... ·…

Post on 18-Nov-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 416

    O M

    undo

    da

    Sad

    e, S

    o P

    aulo

    - 20

    12;3

    6(3)

    :416

    -426

    Art

    igo

    Ori

    gina

    l O

    rigi

    nal P

    aper

    Preveno Quaternria para a humanizao da Ateno Primria Sade

    Quaternary Prevention for the humanization of Primary Health Care Charles Dalcanale Tesser*

    Resumo Discutimos a relao do conceito e da prtica da preveno quaternria com a humanizao na ateno primria sade (APS) brasileira, focados no cuidado clnico individual. Algumas consideraes so propostas sobre o momento atual do cui-dado biomdico em geral e na APS brasileira, de modo a contextualizar o significado do conceito de preveno quaternria. Indicamos a incompletude da implantao do SUS e da APS brasileira, bem como a qualidade no raro duvidosa das suas prticas assistenciais, historicamente degradadas e desumanizadas, que tornam a preveno quaternria e a humanizao do cuidado altamente relevantes. Apontamos o significado principal do conceito de preveno quaternria, que prevenir a hipermedicalizao do cuidado e evitar intervenes desnecessrias, reduzindo danos, por meio de tcnicas e prticas quali-ficadas e personalizadas de cuidado. Isso operacionaliza, por dentro das prticas profissionais, o preceito tico primeiro no lesar, desde h muito tempo declarado no discurso mdico. Assinalamos algumas caractersticas da preveno quaternria com nfase no seu exerccio prtico. Apontamos a sua imbricao com a humanizao do cuidado e sua relao com o manejo da medicalizao social nas prticas profissionais, as quais tm historicamente alimentado acriticamente a medicali-zao de forma excessiva; e alguns desafios associados, bem como potencialidades e desdobramentos prticos emergentes, ainda apenas insinuados, como o uso de recursos de cuidado no biomdicos na preveno quaternria, exemplificando a fertilidade do conceito e sua contribuio para a humanizao do cuidado na APS.

    Palavras-chave: Ateno Primria Sade. Medicina - preveno. Sistema nico de Sade.

    AbstractWe discuss the relationship between the concept and the practice of quaternary prevention and humanization in Brazilian Primary Health Care (PHC), focused in individual clinical care. Some considerations are proposed on the present moment of biomedical care in general and in Brazilian PHC, for contextualizing the meaning of the concept of quaternary preven-tion. We indicate the incompleteness of the introduction of Brazilian UHS (Unified Health System) and PHC, as well as the quality, many times doubtful, of their care practices, historically degraded and dehumanized, which makes highly relevant quaternary prevention and humanization of care. We point to the main meaning of the concept of quaternary prevention, which is to prevent hypermedicalization of care and to avoid unnecessary interventions, reducing damages, by means of techniques and qualified and personalized care practices. This implements inside professional practices the ethical precept first, do no harm, ever repeated in medical discourse. We point to some characteristics of quaternary prevention with an emphasis on its practice, as well as to its imbrications to humanization of care and its relationship to dealing to social medicalization in professional practices, which historically has been favoring uncritically excessive medicalization; and some associated challenges, as well as potentialities and emergent practical ramifications, still only insinuated, such as the use of non-biomedical care resources in quaternary prevention, exemplifying the productivity of this concept and its contribution for the humanization of care in PHC.

    Keywords: Primary Health Care. Medicine - prevention. Unified Health System.

    * Doutor em Sade Coletiva. Professor Adjunto do Departamento de Sade Pblica do Centro de Cincias da Sade da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianpolis-SC, Brasil. E-mail: charlestesser@ccs.ufsc.br

    O autor declara no haver conflito de interesses.

  • 417

    O M

    undo

    da

    Sad

    e, S

    o P

    aulo

    - 20

    12;3

    6(3)

    :416

    -426

    Prev

    en

    o Q

    uate

    rnr

    ia p

    ara

    a hu

    man

    iza

    o d

    a A

    ten

    o P

    rim

    ria

    S

    ade

    Introduo

    Este artigo apresenta significados do con-ceito de preveno quaternria, desenvolvido h alguns anos pelos mdicos europeus da ateno primria sade, e algumas de suas relaes com a humanizao do cuidado na APS, especialmen-te o voltado aos indivduos.

    Algumas consideraes sobre o momen-to atual do cuidado biomdico no mundo e no Brasil so inicialmente propostas como contex-tualizao do tema principal, como forma de preparao para uma apresentao do conceito de preveno quaternria. A seguir, refletimos sobre a interface entre a preveno quaternria e o processo de medicalizao social envolvido nas prticas profissionais, as quais tm alimen-tado acriticamente esse processo de forma ex-cessiva. Dedicamos uma maior ateno s me-didas preventivas e a alguns desafios prticos da preveno quaternria, que envolvem tanto arte quanto cincia e tcnica. Abordamos, ao final, brevemente, o uso de recursos no biomdicos de cuidado na prtica da preveno quaternria.

    CuIdado mdICo no mundo, no Bra-sIl e na aPs BrasIleIra

    conhecido o entusiasmo com os avan-os da cincia biomdica a partir do sculo XX, principalmente com o grande desenvolvimento tecnolgico aps as duas Grandes Guerras Mun-diais e a ascenso das especialidades mdicas e da indstria farmacutica. Ao final do sculo, novos avanos tecnolgicos reforaram esse entusiasmo: a genmica, os avanos na informtica / computa-o, internet e a miniaturizao de equipamentos mdicos renovaram o otimismo em relao ao po-der da interveno cientfica para cura, controle e preveno dos adoecimentos. Todavia, tambm relativamente estabelecido certo desencanto com essa medicina, quanto sua potncia para tratar com eficcia (prevenir, curar, cuidar) os adoeci-mentos das coletividades1. A retomada da discus-so sobre a importncia da determinao social da sade e a expanso do tema da promoo da sade2 so exemplos nesse sentido.

    A complexidade da situao aumentou com o envelhecimento populacional e com a conjun-

    o das velhas doenas (infecciosas, endmicas, etc.) com as crnicas e as emergentes, que se so-brepem em muitos pases, como o Brasil. A isso somam-se grandes iniquidades sociais e econ-micas, talvez as maiores geradoras de morbimor-talidade. Outro problema a desproporo entre custo exponencialmente crescente do cuidado biomdico e a pequena melhoria adicional na morbimortalidade e da qualidade de vida.

    Num plano microssociolgico, das relaes entre profissionais e usurios, houve uma pro-gressiva crise de confiana na tcnica e na ti-ca do cuidado3. Progressivamente, aparelhos se interpem entre terapeuta e doente, dificultando a relao de cura e desviando a confiana, que passa a ser projetada na tecnologia dura. Alm disso, certa tradio subcultural dos mdicos in-duz dificuldades relacionais, envolvendo subva-lorizao da comunicao, postura autoritria, indiferente, controladora e arrogante por parte desses profissionais4. Outro fenmeno associado, provavelmente no por coincidncia, a crescen-te e sustentada procura pelas prticas e medici-nas complementares nos pases industrializados5, mesmo esses mantendo o uso e a procura genera-lizada da biomedicina. Como notou Barski6, nes-ses pases, a mudana no perfil da mortalidade no obteve o mesmo efeito no que se refere ao sofrimento: embora objetivamente a sade tenha melhorado, subjetivamente as pessoas sentem-se mais doentes. Segundo o autor, quatro razes explicariam essa discrepncia: 1) A reduo da mortalidade por doenas infecciosas agudas re-sultou, comparativamente, no aumento da preva-lncia de desordens crnico-degenerativas; 2) As sociedades fizeram despertar a conscincia com respeito sade conduzindo a um maior auto-escrutinamento, o que amplificou a conscincia corporal para sintomas e sentimentos de enfermi-dade; 3) A disseminada comercializao da sa-de e um crescente foco sobre questes de sade na mdia criaram um clima de apreenso, insegu-rana e alarme sobre doenas e fatores de risco; e 4) A progressiva medicalizao da vida diria trouxe expectativas irreais de cura e preveno que faz com que enfermidades intratveis, riscos e mal-estares paream ainda piores.

    Nesse contexto complexo, o cuidado bio-mdico individual deixa de ser considerado

  • 418

    O M

    undo

    da

    Sad

    e, S

    o P

    aulo

    - 20

    12;3

    6(3)

    :416

    -426

    Prev

    en

    o Q

    uate

    rnr

    ia p

    ara

    a hu

    man

    iza

    o d

    a A

    ten

    o P

    rim

    ria

    S

    ade

    uma soluo de grande alcance coletivo, mas permanece um direito inalienvel de cidadania um tipo de cuidado ao qual todos podem re-correr, apesar de seus problemas e limites, e no se pensa em deslegitim-lo, apesar da conflitu-osa situao de sua crescente mercantilizao7. Por essa razo, muitas reformas em sistemas na-cionais de sade europeus convergiram para o reforo do papel da Ateno Primria Sade (APS), reafirmando sua funo filtro, de porta de entrada dos sistemas e de coordenao de cui-dado8. Deve ser mencionado que em vrios des-ses pases, diversamente do Brasil, existia uma tradio respeitada de medicina generalista que resistiu social e academicamente, e inclusive se desenvolveu. Isso gerou a Medicina de Famlia e Comunidade (MFC), uma especialidade mdi-ca sui generis especializada em cuidado integral de uma coorte de pessoas, independentemente da natureza dos seus problemas de sade, tpica da APS, definida em termos de uma relao de cuidado e no de tipos de doenas, sistemas or-gnicos ou faixas etrias9.

    No Brasil, apesar de seus 24 anos, o Sistema nico de Sade (SUS) ainda

Recommended

View more >