poética da prosa - tzvetan todorov

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  • Potica da Prosa

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  • Tzvetan Todorov nasceu na Bulgria e vive na Franadesde 1963. Pesquisador do CNRS, autor de vrias obras sobre teoria literria, histria do pensamento e anlise da cultura.

  • Tzvetan TodorovPotica da Prosa

    TraduoCLAUDIA BERLINER

    Martins Fontes

  • S o P a u l o 2 0 0 3Esta obra foi publicada originalmente em francs com o ttulo

    P0TIQUE DE LA PROSEpor ditions du Seuil.

    Copyright ditions du Seuil, 1971.Copyright 2003, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,

    So Paulo, para a presente edio.

    1 ediojunho de 2003

    TraduoCLAUDIA BERLINER

    Acompanhamento editorialLuzia Aparecida dos Santos

    Reviso grficaMaria Luiza FavretMargaret PresserProduo grfica

    Geraldo AlvesPaginao/Fotolitos

    Studio 3 Desenvolvimento Editorial

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Todorov, Tzvetan, 1939- .Potica da prosa / Tzvetan Todorov ; traduo Claudia Berliner.

    So Paulo : Martins Fontes, 2003. (Tpicos). Ttulo original: Potique de la prose. ISBN 85-336-1777-1

    1. Crtica literria 2. Narrativa (Retrica) 3. Prosa Tcnica 1.Ttulo. II. Srie.

    03-30005 CDD 808.888

    ndices para catlogo sistemtico:1. Literatura em prosa 808.888

    2. Potica da prosa : Literatura 808.8883. Prosa : Potica : Literatura 808.888

    Todos os direitos desta edio para o Brasil reservados Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

    Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 01325-000 So Paulo SP Brasil

  • Tel. (11) 3241.3677 Fax (11) 3105.6867e-mail: info@martinsfontes.com.br http://www.rnartinsfontes.com.br

    NDICE*

    Nota introdutria.................................. VII1. O legado metodolgico do formalismo 12. Linguagem e literatura.................... 313. Potica e crtica............................... 454. Tipologia do romance policial.. ....... 635. A narrativa primitiva....................... 796. Os homens-narrativas..................... 957. Introduo ao verossmil................. 1138. A fala segundo Constant................. 1259. A gramtica da narrativa................. 14910. A busca da narrativa....................... 16511. O segredo da narrativa.................... 19512. Os fantasmas de Henry James. ....... 24113. O nmero, a letra, a palavra............ 25714. A arte segundo Artaud.................... 27715. As transformaes narrativas.......... 29516. Como ler?........................................ 317

    ______________________________* Nota do digitalizador: A numerao de pginas aqui se refere edio original, que se encontra inserida entre colchetes no texto.

  • Entende-se que o texto que est antes da numerao entre colchetes o que pertence quela pgina e o texto que est aps a numerao pertence pgina seguinte.

    NOTA INTRODUTRIA

    Os textos aqui reunidos foram escritos entre 1964 e1969 e alguns so inditos. No os modifiquei; apenasatualizei as referncias e vez por outra corrigi pequenosdetalhes de estilo. Uma correo profunda teria acarretado o desaparecimento do livro, pois, a meu ver, cada umdestes estudos nada mais que uma nova verso do oudos precedentes (no exploramos temas novos; semprevoltamos, como o assassino ao local do crime, s marcasj deixadas). Se os retomo nesta coletnea precisamente pelo que tm de incorrigveis.

    Conforme o adgio de Pascal, a concluso de umainvestigao nos leva a conhecer seus fundamentos. Estes textos constituem uma srie de tentativas (a menosque haja duas) que eu no conseguiria substituir por umaexposio sistemtica, por uma sntese ordenadora. Nonos arrependeremos se em qualquer pesquisa, portantoem potica, aceitarmos a lei que Schiller formulou paracerta poesia: "a meta do poeta pico j se encontra emcada um dos pontos de seu movimento; por isso no

  • corremos, impacientes, na direo de um objetivo, mas nosdemoramos amorosamente em cada passo".

    CAPTULO 1O LEGADO METODOLGICODO FORMALISMO

    1.1. O mtodo estrutural, inicialmente desenvolvidoem lingstica, encontra um nmero cada vez maior deadeptos em todas as cincias humanas, inclusive no estudo da literatura. Essa evoluo ainda mais justificadauma vez que, entre as relaes que a lngua mantm comas diferentes formas de expresso, as que a unem literatura so profundas e numerosas. Alis, esta no a primeira vez que tal associao se estabelece. A origem doCrculo Lingstico de Praga, uma das primeiras escolasde lingstica estrutural, no outra seno uma corrente de estudos literrios que se desenvolveu na Rssia durante os anos 1915-1930, e que conhecida pelo nomede "formalismo russo". A relao entre ambos incontestvel; estabeleceu-se tanto por intermdio daquelesque participaram dos dois grupos, simultnea ou sucessivamente (R. Jakobson, B. Tomachevski, P.

  • Bogatyrev),como pelas publicaes dos formalistas, que o Crculo dePraga no ignorava. Seria um exagero afirmar que o estruturalismo lingstico foi buscar suas idias no formalismo,

    pois os campos de estudo e os objetivos das duas escolas no so os mesmos; contudo, nos estruturalistas encontramos as marcas de uma influncia "formalista" tanto nos princpios gerais como em certas tcnicas de anlise. Porisso hoje, quando vemos nascer um interesse pelo estudo estrutural da literatura, natural e necessrio recordaras principais concepes metodolgicas devidas aos formalistas e compar-las s da lingstica contempornea1.

    1.2.1. Antes de iniciar essa confrontao, devemosdefinir alguns princpios bsicos da doutrina formalista. Costuma-se falar de "mtodo formal", embora esta expresso seja imprecisa e seja possvel contestar tanto aescolha do substantivo como do adjetivo. O mtodo, longe de ser nico, engloba um conjunto de procedimentose de tcnicas voltados para a descrio da obra literria, mas tambm para investigaes cientficas muito diferentes. Para resumir, poderamos simplesmente dizer que, antes de tudo, deve-se considerar a prpria obra, o textoliterrio, como um sistema imanente, o que, evidentemente, apenas um ponto de partida e no a exposio detalhada de um mtodo. Quanto ao termo "formal", trata-seantes de um rtulo que se tornou cmodo do que de umadenominao precisa, e os prprios formalistas o evitam. Para eles, a forma abarca todos os aspectos, todas as partes da obra, mas s existe como relao dos elementosentre si, dos elementos com a obra toda, da obra com a literatura nacional etc., em suma, um conjunto de funes. O estudo propriamente literrio, que hoje chamamos deestrutural, caracteriza-se pelo ponto de vista escolhidopelo observador e no por seu objeto, objeto este que, deoutro ponto de vista, poderia prestar-se a uma anlise

  • [Pgina 2]

    ___________________(nota de rodap) 1. Ver, no final do texto, uma lista das tradues recentes dos

    textos formalistas e das outras obras citadas.

    psicolgica, psicanaltica, lingstica etc. A frmula deJakobson: "o objeto da cincia literria no a literaturamas a literaridade (literaturnost), isto , o que faz de umadeterminada obra uma obra literria"2, deve ser interpretada em termos da investigao e no do objeto.

    1.2.2. Todo estudo que pretenda ser cientfico deparacom problemas de terminologia. No entanto, a maioriados pesquisadores nega aos estudos literrios o direito auma terminologia bem definida e precisa, sob a alegaode que o recorte dos fenmenos literrios muda conforme as pocas e os pases. O fato de forma e funo, duas faces do signo, poderem variar independentemente uma da outra impede qualquer classificao absoluta. Toda classificao estvel tem de manter uma dessas faces idntica, sejam quais forem as variaes da outra. Segue-se disso que: a) cada termo tem de ser definido em relao aos outros e no em relao aos fenmenos (obras literrias) que ele designa; b) todo sistema de termos vale para um determinado corte sincrnico, cujos limites, postulados, so arbitrrios. J. Tynianov formula o problema no prefcio da coletnea La prose russe (1926) e ilustra-o com a classificao dos gneros em seus artigos "Le fait littraire" e "De l'volution littraire" (este ltimo traduzido em TL, pp. 120-37). Nas suas prprias palavras, "o estudo dos gneros isolados impossvel fora do sistema no qual e com o qual eles esto em correlao" (TL, p. 128). As definies estticas dos gneros, que empregamos correntemente, apenas levam em conta o significante. Um romance [Pgina 3]

  • _________________________________________________(nota de rodap) 2. Citado conforme a coletnea Thorie de la littrature. Textes des

    formalistes russes, Paris, Seuil, 1965, p. 37. Todas as referncias a essacoletnea aparecero daqui em diante com a abreviao TL, seguidado nmero da pgina.

    contemporneo, por exemplo, deveria ser relacionado, do ponto de vista de sua funo, com a antiga poesia pica; mas em geral o associamos ao romance grego devido forma prosaica que tm em comum. "Aquilo que foi o trao distintivo do 'poema' no sculo XVIII deixou de s-lo no sculo XIX. Da mesma maneira, j que a funo da literatura correlativa das outras sries culturais da mesma poca, o mesmo fenmeno pode ser fato literrio ou extraliterrio" (Russkaja proza, p. 10).

    1.2.3. A finalidade da investigao a descrio dofuncionamento do sistema literrio, a anlise de seus elementos constitutivos e a exposio de suas leis, ou, num sentido mais estrito, a descrio cientfica de um t