poetas do barroco - século xvii

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H I S T Ó R I A E ANTOLOGIA DA LITERATURA PORTUGUESA S é c u l o XVII SERVIÇO DE EDUCAÇÃO E BOLSAS N.º 28 FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN

Author: david-carpinteiro

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  • 1H I S T R I AE A N T O L O G I ADA L I T E R AT U R AP O R T U G U E S A

    S c u l o

    XVII

    SERVIO DE EDUCAO E BOLSAS

    N. 28

    FUNDAOCALOUSTE

    GULBENKIAN

  • 2HALP N. 27

    MISCELNEA (Autos. Tragdia. Dilogo.Hagiografia. Sentenas.)

    Professores/Investigadores

    Amrico Costa RamalhoCristina NobreLuciana Stegagno-PicchioNair da Nazar Castro SoaresRaul M. Rosado Fernandes

    Agradecimentos

    Arquivo Histrico UltramarinoBertrand EditoresEditora FigueirinhasImprensa Nacional Casa da MoedaMagno Edies

    HALP N. 28

    Professores/Investigadores

    Margarida Vieira MendesMaria Luclia Gonalves PiresVitor Manuel Aguiar e Silva

    Agradecimentos

    Fundao Lus Miguel NavaEdies 70Editorial PresenaVerbo Editora

    Ilustrao Capa:Nicolas Maes (Dutch, 1632-1693): An Old Woman Dozingover a Book. c. 1655. Canvas 82 x 67 cm. Andrew W. MellonCollection

    Ficha Tcnica

    Edio da Fundao Calouste GulbenkianServio de Educao e BolsasAv. de Berna 45A 1067-001 LisboaAutora: Isabel Allegro de MagalhesConcepo Grfica de Antnio Paulo GamaComposio, impresso e acabamentoG.C. Grfica de Coimbra, Lda.Tiragem de 11.000 exemplaresDistribuio gratuitaDepsito Legal n. 206390/04ISSN 1645-5169Srie HALP n. 28 Setembro 2004

  • 3S C U L O X V I IPOETAS DO PERODOB A R R O C O

    (I)

  • 4joao

  • 5ndiceNota Prvia ..................................................... 7

    Introdues. Estudos Breves.

    A distino Maneirismo e BarrocoVtor Manuel Aguiar e Silva ............................. 13

    Maneirismo e barroquismo na poesia portuguesaJorge de Sena ................................................... 14

    Cultismo e anticultismo na lrica barrocaVtor M. Aguiar e Silva .................................... 17

    Poesia lrica do perodo barrocoMaria Luclia Gonalves Pires .......................... 23

    Pastoral e clogas de Rodrigues LoboLus Miguel Nava ............................................ 31

    A poesia de Sror Violante do CuMargarida Vieira Mendes ................................. 33

    Textos Literrios:

    Francisco Rodrigues Lobo (1573?- 1621)

    clogas. cloga III ............................................. 41

    Pastoral: Cantiga, Sonetos, Tercetos, Redondilha ... 46

    Manuel Faria e Sousa (1590 - 1649)Fuente de Aganipe ou Rimas Vrias: cloga IX .... 53

    Manuel da Veiga TagarroLaura de Anfriso: trs poemas .............................. 56

    Paulo Gonalves de AndradeVrias Poesias. I-III, V-VII, IX ........................... 59

    D. Toms de Noronha ( ? 1651)Poesias Inditas. Fnix Renascida, V: Canes,Soneto, Endechas, outros poemas ..................... 61

    Sror Violante do Cu (1601-1693)Rimas Vrias: Sonetos, Canes, Dcimas,Romances ........................................................ 67Parnaso Lusitano: Romances, outros poemas,Vilancico ......................................................... 73

    Antnio Barbosa Bacelar (1610-1663)Fnix Renascida, I, II, IV, V. Cancioneiros Manuscritos:Sonetos, Dcima, Romance pastoril, Glosas ..... 74

    Antnio Serro de Crasto (1610-1685?)Os Ratos da Inquisio ................................... 82Cancioneiros Manuscritos: Dcimas,Romance, outros poemas ................................. 85

    Bibliografia .................................................... 89

  • 6joao

  • 7Nota PrviaCom o presente Boletim, comea a parte destaHistria e Antologia da Literatura Portuguesa referenteao sculo XVII. Este volume e o seguinte (nmeros28 e 2 9) formam uma unidade so inteiramentededicados poesia seiscentista (incluindo aindaalguns poetas maneiristas, Francisco RodriguesLobo, por exemplo, e os poetas barrocos):Uma seleco de cerca de duzentos poemas, daautoria de vinte e quatro poetas.A poesia portuguesa deste perodo, apesar dotrabalho significativo de edio de obras de alguns,de entre os muitssimos, poetas que escreveramdurante o sculo XVII, est ainda hoje em grandeparte inacessvel ou, pelo menos, de difcil acesso.Por um lado, as edies de obras individuais, excepo de um ou outro caso, datam do sculoXVII e sobretudo do XVIII: preciosidades biblio-grficas protegidas, naturalmente (mas nemsempre), pelas bibliotecas que as possuem.Por outro lado, a maior parte dos poetas tem assuas obras apresentadas apenas em antologias,impressas ou manuscritas, datadas tambm dessessculos. E so essas antologias que constituem asprincipais fontes da poesia portuguesa do perodobarroco. (Sobre essas recolhas, ver aqui, na parteintrodutria, o estudo de M. Luclia GonalvesPires, p. 26-30.)De entre essas colectneas antigas, servi-medirectamente da Fnix Renascida ou Obras dosMelhores Engenhos Portugueses (tambm outras aquifiguram, s que citadas em segunda mo). A FnixRenascida, em cinco volumes, com um total de2186 pginas onde aparecem cerca de quarentapoetas, alguns deles annimos ou assim ditos, tema primeira edio entre 1716-1728. Esse texto, coma data da segunda edio, em 1746, est agoradisponvel on-line: http://purl.pt/261. No entanto,

    dado que, a, a identificao da autoria de muitospoemas nem sempre fidedigna, como j foimostrado por alguns estudiosos do Barrocoportugus, nem assim a tarefa de leitura ficafacilitado.Fnix Renascida pois um cancioneiro, elaboradopor Mathias Pereira da Sylva e por si formalmenteendereado ao poeta D. Francisco de Portugal. Nadedicatria, o compilador expressa o intento doseu trabalho nestes termos: As obras dos melhoresengenhos Portuguezes [...] com venturoso acerto aomelhor de Portugal, de modo a que no maisdeix[em] sepultados no esquecimento os que mereciaos mayores applausos da fama. Curiosamente actual,o seu aviso aos leitores acrescenta o seguinte:

    Na he novo nos Portuguezes fazer pouca estimaa desuas obras com que pudera adquirir novo credito e maiscrecida gloria.

    Este Cancioneiro ainda precedido por umaIntroduo Potica, o que de salientar, dada aescassez de textos tericos portugueses sobre aesttica barroca (diferentemente do que aconteceem vrios pases europeus, como a Espanha e aItlia, por exemplo).Ao longo do sculo XX, mas ainda antes e jdepois, algumas edies monogrficas foramaparecendo. Vrios estudiosos do Barroco tmassim contribudo significativamente para um maisalargado conhecimento da nossa poesia desseperodo. E, para alm da edio das obras de poetassingulares, foram tambm organizadas vriasantologias, individuais e colectivas. Entre outrosnomes, os de Mendes dos Remdios (os poemasde D. Toms de Noronha, 1899), Maria EmaTarracha (uma antologia de diversos poetas,destinada a professores e alunos do Ensino Secun-drio, de), Ana Hatherly (Poesia Visual, 1993; APreciosa, de Sror Maria do Cu, de que fazemparte vrios poemas, 1990; dois poemas deJernimo Baa, 1992 e 1997), Maria LucliaGonalves Pires (uma antologia, com dezassete

  • 8poetas, quase todos por si editados, 1985; Prima-vera, de Francisco Rodrigues Lobo, onde hnumerosos poemas, 2003), Lus Miguel Nava (an-tologia de poemas da Pastoral, de RodriguesLobo, 1985), Gilberto Mendona Teles (poemasde Gregrio de Matos, 1989), Margarida VieiraMendes (Rimas Vrias, de Sror Violante do Cu,1994), etc. No entanto, muito est ainda por fazer.Nestes dois volumes, pretendi reunir a diversidadepossvel de poetas e seus poemas. Mas porque oespao desta publicao, embora algo elstico, temlimites muitos dos que tambm o mereceriamno esto aqui contemplados. A escolha foi pessoale por isso susceptvel de crticas ou discordncias,naturalmente sempre com alguma razo.

    Antes de mais, um aviso quanto a uma ausnciaparcial nesta publicao; a de D. Francisco Manuelde Melo. Dado que um Boletim inteiro (o n. 30)vai ser dedicado imensa Obra do Autor, no teriasentido que a no figurasse tambm a poesia. Noentanto, talvez fosse igualmente descabido o seunome no figurar de todo nestas colectneas dapoesia seiscentista. Por isso decidi incluir aqui,apenas a ttulo simblico, dois poemas seus.

    J que muitos poetas escreveram quase indiferen-temente em portugus e em castelhano, a selecode textos no teve em considerao a lngua:figuram indiscriminadamente poemas em ambasas lnguas, como se sabe, usados na literaturaportuguesa da poca. (At esses dois poemas de D.Francisco Manuel de Melo agora apresentados soescritos em castelhano. Como se sabe, o Poetaescreveu metade da sua poesia em castelhano emetade em portugus.)

    Procurei trazer leitura no s alguns dos poemasque me parecem mais interessantes e significati-vos, como tambm alguns daqueles que esto talvezmenos acessveis. Vm quer das obras individuaispublicadas quer dos volumes da Fnix Renascida.

    (Nesses casos, sou responsvel pela modernizaoparcial da grafia, de modo a facilitar a leitura.)Quando havia poemas modernamente editados, a partir dessas edies que eles foram transcritos.Em vrios casos, porm, limitei-me a escolher apartir de antologias mais ou menos recentementepublicadas. A razo disso prende-se com o factode uma actualizao da grafia representar meticu-loso e longo trabalho, e a publicao destes bole-tins trimestral... (Isto para j no falar de outrasdificuldades, como a de, para qualquer grfica, noser simples reproduzir um texto em grafia antiga,inexistente nos computadores, bem como a de noser fcil o rigor nas revises de provas.)

    Em todos os casos, as fontes directas e indirectas esto sinalizadas a seguir transcrio de cadapoema.As antologias e as edies recentes de que dispusso as seguintes:Poetas do Perodo Barroco de Maria Luclia GonalvesPires (para alguns, ou todos, os poemas de algunsdos poetas); Poesia de Francisco Rodrigues Lobo, de Lus MiguelNova (para todos os poemas); Rimas Vrias, de Sror Violante do Cu ediode Margarida Vieira Mendes (para todos os poemasdeste livro); Se Souberas Falar tambm Falaras a substancialantologia da poesia de Gregrio de Matos, deGilberto Mendona Teles (para todos os poemas); Edies de Ana Hatherly, dos poemas includosem A Preciosa, de Sror Maria do Cu e de doislongos poemas de Jernimo Baa.Assim, no primeiro destes volumes, figuramsessenta e nove poemas, ou excertos de alguns dosmais extensos, de oito poetas:Francisco Rodrigues Lobo, Manuel Faria e Sousa,Manuel Veiga Tagarro, Paulo Gonalves de Andrade,D. Toms de Noronha, Sror Violante do Cu,Antnio Barbosa Bacelar, Antnio Serro deCastro.

  • 9No segundo volume, h dezasseis poetas, cada umcom um nmero diferente de poemas, num totalde cento e vinte e seis poemas, ou excertos depoemas mais longos. So estes os poetas:D. Francisco Manuel de Melo. Frei Jernimo Baa,Andr Nunes da Silva, Antnio da Fonseca Soares(Frei Antnio das Chagas), Gregrio de Matos,Manuel Botelho de Oliveira, Sror Maria do Cu,Toms Pinto Brando, Francisco de Vasconcelos(Coutinho), Jacinto Freire de Andrade, Franciscode Pina e Melo, Leonarda da Encarnao, FranciscoDias de Gusmo, Bernarda Ferreira (de Lacerda),Frei Toms da Cunha, Joo de Torres Pereira; soapresentados dois poemas-visuais annimos.

    A ordenao dos poetas segue uma cronologia as-cendente a partir das suas datas de nascimento, sque nem sempre esses dados tm referncia fivel.

    Como habitual nestas publicaes, cada boletimcomea com breves textos crticos ou tericos,apresentados em Introdues leitura dos poemase seus arredores.No final, uma Bibliografia Sumria. Os estudosde carcter geral e a indicao bibliogrfica sobre apoesia e o perodo barrocos, destinados aos doisboletins, comparecem s neste primeiro nmero.

    Incluo um agradecimento muito especial a MariaLuclia Gonalves Pires, pela sua disponibilidadepara comigo resolver alguns problemas surgidosao longo deste trabalho, bem como pelas infor-maes, sempre to competentes e teis, que mefoi dando.Uma palavra tambm para Ana Hatherly que ps minha disposio um dos textos por si editados,e ainda no catalogado na Biblioteca Nacional.

    Lisboa, Julho de 2004

    ISABEL ALLEGRO DE MAGALHES

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    joao

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    I N T R O D U E S

    ESTUDOS BREVES

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    VTOR MANUEL AGUIAR E SILVA*

    A distinoManeirismoe Barroco(excerto)

    * In Histria Crtica da Literatura Portuguesa Dir. Carlos Reis.3. vol. Lisboa, p. 49-51.

    Alguns autores concebem o maneirismo no comoum estilo perfeitamente autnomo e desenvolvido,mas como uma espcie de ponte entre oRenascimento e o barroco, como um estilo detransio, por conseguinte, onde se entrelaam asmanifestaes derradeiras do estilo renascentistatardio e os alvores do estilo barroco. Assim pensa,por exemplo, na esteira de Carl J. Friedrich, umestudioso como Helmut Hatzfeld e assimpropende tambm a crer Marcel Raymond, queidentifica premier baroque e manirisme.Outros historiadores e crticos, porm, consideramo maneirismo e o barroco como dois estilosautnticos, com a sua autonomia e a sua individu-alidade bem definidas, opondo-se abertamente empontos fundamentais, embora apresentandotambm afinidades de vria ordem. esta adoutrina defendida, entre outros, por Georg Weise,Wylie Sypller, Arnold Hauser e Rocco Montano.As nossas leituras e as nossas reflexes levam-nosa apoiar convictamente a ltima soluo. Comefeito, e como ficou j esclarecido, o maneirismodiferencia-se inequivocamente do Renascimento,quer sob o ponto de vista temtico-ideolgico,quer sob o ponto de vista formal; por outro lado,

    de tal ordem so as suas divergncias em relaoao barroco, que inconfundvel com este estilo.Quais os elementos que assim permitem distinguiro maneirismo e o barroco? O barroco profun-damente sensorial e naturalista, apela gozosamentepara as sensaes frudas na variedade incessantedo mundo fsico, ao passo que o maneirismo, sobo domnio do disegno interiore, da Idea, se distanciada realidade fsica e do mundo sensr io,preocupado com problemas filosfico-morais, comfantasmas interiores e com complexidades esubtilezas estilsticas; o barroco uma arte acen-tuadamente realista e popular, animada de umpoderoso mpeto vital, comprazendo-se na stiradesbocada e galhofeira, dissolvendo deli-beradamente a tradio potica petrarquista, aopasso que o maneirismo uma arte de lites, avessaao sentimento democrtico que anima o barroco,anti-realista, impregnada de um importantesubstrato preciosista e corts, representadosobretudo pelo filo petrarquista; o barrococaracteriza-se pela ostentao, pelo esplendor e pelaproliferao dos elementos decorativos, pelo sensoda magnificncia que se revela em todas as suasmanifestaes, tanto nas festas de corte como nascer imnias fnebres, contrar iamente aomaneirismo, mais sbrio e mais frio, introspectivoe cerebral, dilacerado por contradies insolveis;o barroco tende frequentemente para o ludismoe o divertimento, enquanto o maneirismo aparececonturbado por um pathos e uma melancolia derazes bem fundas.Estas diferenas substanciais no impedem que,como atrs observmos, muitos elementostemticos e formais tenham transitado domaneir ismo para o bar roco, podendo omaneirismo aparecer, sob este ponto de vista,como uma antecipao parcial do barroco. Entreesses elementos, apontaremos: os temas do enganoe do desengano da vida e da transitoriedade dascoisas humanas; o gosto dos contrastes, a pro-penso para o surpreendente, a predileco pela

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    agudeza e pelos concetti, pelas metforas e pelascomplicaes verbais.Todavia, necessrio observar que estes elemen-tos de procedncia maneirista, quando integradosno estilo barroco, apresentam um valor diferente,um timbre e uma ressonncia distintos, que reve-lam inequivocamente que o sentimento vital quese comunica j outro. Por exemplo, o tema dailuso e da efemeridade da vida adquire na poesiamaneirista uma expresso pungente e agnica,reflexo de profunda turbao interior, ao passo quena poesia barroca o mesmo tema se corporizanuma expresso mais exteriorista, no raro teatrale grandiloquente, numa linguagem saturada deelementos sensoriais, denunciadora de um estadode esprito e de uma viso do mundo bemdiferentes dos do maneirismo. Um outro exemploainda, posto em relevo e analisado por Georg Weise:tanto o maneirismo como o barroco oferecemum pronunciado gosto pela metfora, masenquanto a metfora tipicamente maneirista,encerrada na rede dos convencionalismospetrarquistas, apresenta um carcter cerebral e abs-tracto, a metfora barroca riveste un carattere finqui sconosciuto di immediatezza e di concretezzarealistica basato su un pi vivo contatto col mondocircostante e su una nuova ispirazione sensualistica,comunicando-se portanto atravs dela uma expe-rincia naturalista e sensorial que est muitodistante da potica do maneirismo.

    [...]Na literatura portuguesa, e em especial na poesia,maneir istas so pr imacialmente Cames, oSoropita que foi o primeiro a editar-lhe as rimas,Vasco Mouzinho de Quevedo, Manuel da VeigaTagarro, Baltasar Estao, Francisco de Andrade,Jernimo Corte-Real, Lus Pereira Brando,Ferno Ivares do Oriente, Pero da Costa Perestrelo,Eli de S Sotto Maior, Diogo Bernardes, AndrFalco de Resende, Fr. Bernardo de Brito,Rodrigues Lobo, Fr. Agostinho da Cruz. E. D.Francisco Manuel de Melo, amigo de Quevedo,ser, em pleno barroquismo de que alto expoente,o ltimo dos maneiristas tambm.Barrocos so Francisco de Portugal, Violante doCu, Madalena da Glria, Antnio lvares Soares,Brs Garcia de Mascarenhas, Botelho de Carvalho,

    JORGE DE SENA*

    Maneirismoe barroquismona poesiaportuguesados sculosXVI e XVII(excerto)

    * In Luzo-Brazilian Review II (2), 1965. Apud Histria Crticada Literatura Portuguesa, 3. vol., p. 39-43.

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    Jacinto Freire de Andrade, Manuel de Gallegos,Paulo Gonalves de Andrade, Jernimo Baa,Antnio Barbosa Bacelar, Fr. Antnio das Chagas,Botelho de Oliveira, Gregrio de Matos, e muitosoutros inditos ou annimos at Francisco dePina e Melo. [...] Mas a problemtica de distin-guir maneiristas e barrocos depende de toda umadescoberta e reviso que est por fazer, e tem deser feita luz deste esprito.O maneirismo literrio no foi, at hoje, distin-guido do barroquismo que lhe sucede. E este, dadaa deficiente cultura italiana ou anglo-saxnica (ou,por incrvel que parea, at actualizadamentefrancesa, j que se ignora a importncia esignificado de continuadores da Pliade, comoas personalidades de Maurice Scve ou de LouiseLabb e tantos outros pr-clssicos franceses...)da maior parte da nossa crtica, tem sidocaracterizado em termos absorventes de Gngora,hipertrofia crtica para que os estudos hispnicosno sero por certo o melhor dos correctivos.Em 1948, oito anos antes de Wylie Sypher ampliar literatura os resultados das grandes investigaesdeterminadoras e reabilitadoras do maneirismoplstico, eu chamara a ateno para o maneirismode Cames. Que Cames se distinguia, em muito,dos seus antecessores e daqueles seus contempo-rneos tidos, como ele, por renascentistas, foisempre um dos cavalos de batalha da crticacamoniana. E atribui-se largamente ao gniopeculiar de Cames aquilo em que esse gnioreflectia uma nova viso do mundo e um novogosto. E no se reparou nunca no sentido maneiristado curioso fenmeno que foi o de confundir-secom a obra lrica de Cames grande parte daproduo de poetas da sua gerao ou at degeraes posteriores: confuso possvel no pelamedida em que esses poetas camonizavam, maspela identidade de cosmoviso e de mtodocriador que os irmanava a Cames. [...]Quanto aos recursos formais tipos de versificao,plur imembrao do verso, correlatividade,

    hiprboles, latinizaes hiperbticas da frase,alegor ismo, etc. , a poesia barroca apenasenriquece e autonomiza o que os maneiristashaviam produzido. Porm essa autonomia reveste--se de aspectos extremamente peculiares, graas inveno do objecto esttico, significativo por simesmo. Tpica do maneirismo, mesmo quandoconceptista, ou quando utiliza antiteticamente (ouno) a plurimembrao, a fluncia, a fluidez, deuma linguagem extremamente rtmica que norecua, verso a verso, ante um enjambement dosignificado, que precisamente cultiva. Ao arrepiodisto que, por extremamente estilizado, levou acrtica a considerar dessorados, amaneirados eepigonais aqueles que podemos julgar pormaneiristas, o barroquismo caracteriza-se poruma firmeza escultrica do verso, uma seguranaconsonntica, em que a plur imembraorepresenta no instantes sucessivos da aproximaoverbal, mas uma simultaneidade paralelstica doepteto varivel ao infinito por sugesto metafrica.Aos maneiristas, como a linguagem, o tempo foge--lhes; e por isso a morte, ou, no lugar dela, osanseios msticos, ocupar to grande papel na suatemtica. Para o mecanicismo barroco, o tempo apenas uma dimenso mais do mundo fsico, oqual no depende geometricamente dele; e porisso a morte, ou os anseios msticos, representamum papel apenas de memento final, o fim de quese no escapa, mas de que no h que temer: todasas religies do barroco catlico ou protestante oferecem, a preos mdicos de estruturaornamental, um paradise regained. tudo isto que separa, na poesia portuguesa, alinhagem que vai de Cames a Rodrigues Lobo eem metstase a Francisco Manuel de Melo (queainda medita Sobre os rios por forma a no des-merecer do grande antecessor), da linhagemseguinte, que vai de Francisco de Portugal aFrancisco de Pina e Melo. Cronologicamente, osmaneiristas so a gente que nasce entre 1525e l580 e que, por volta de 1670, j morreu toda.

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    Os barroquizantes nascem nos oitenta anosseguintes; mas os de Setecentos como o conde daEriceira ou Pina e Melo, esto j espiritualmentemais prximos da Frana, que ento absorve oesprito de Locke, que da Espanha de Gngora ouda Itlia de Marino.O carcter de jogo profundo que o barroquismopossui permitiu uma multiplicao de trivialidadese superficialidades pomposas, extremamentetraioeira para a compreenso dele. O barroquismobrincou muito, e at consigo prprio, j que asstiras contra o gongorismo so numerosas epartem de muitos que o cultivavam. Isto fez comque se no entendesse a duplicidade possvel doartista que tem em seu poder a criao de umobjecto esttico, e se achasse contraditrio, ouapenas justa diatribe contra os exageros, o que eraautonomia irnica ante a expresso. A ironia foraapangio dos grandes maneiristas, uma ironiadolorosa de quem a sente como contradio vitale condio nica de superao espiritual e esttica.Mas, para os barrocos, a ironia no era isto, e sim apossibilidade de contemplao autnoma dacriao artstica; no a alegria amarga de ser-seum grande homem, qual fora a de Cames ouMiguel ngelo, ou o orgulho de Bruno ante apluralidade dos mundos, mas o gosto tranquilo doarquitecto e do escultor ante a submisso da suamatr ia, perante a qual ele prpr io no responsvel. [...]Para a cultura portuguesa, basta-nos conceituarassim: Renascimento, 1400-1550; Maneirismo,1550-1620; Barroco, 1620-1750; Rococ, 1750-1820. Se todos estes perodos tm sido diversa-mente mal compreendidos, os dois sculos quevo do reinado de D. Joo III at ao de D. Joo Vinclusive o tm sido particularmente pior. Ostextos e os autores foram sempre vtimas deantemas sem apelo, porque os textos andam in-ditos ou esquecidos, e os autores andam confun-didos ou annimos. muito fcil condenar-sequem no tem rosto nem voz. No entanto, o sculo

    XVII, ou seja, o maneirismo e o barroco emsentido estrito, contm algumas das obras maisbelas ou mais importantes da poesia portuguesa.[...]

  • 17

    [...]A linguagem da poesia lrica barroca oferece umavariedade e uma riqueza que s podero sercorrectamente avaliadas quando estudos sistem-ticos de lexicologia nos esclarecerem acerca dodesenvolvimento da lngua literria portuguesadurante o sculo XVI. Actualmente, torna-se im-possvel ao historiador e crtico literrio realizarqualquer investigao ampla e documentada sobreaquela linguagem potica, porque os linguistasainda no lhe proporcionaram os indispensveisinstrumentos de trabalho, a comear por umdicionrio que, rigorosamente, registe, documentee analise a entrada de vocbulos na lnguaportuguesa.Como se poder estudar com exactido ainfluncia do lxico gongorino sobre a linguagemda nossa lrica barroca, sem se conhecer previa-mente o lxico da nossa poesia quinhentista? Eque percentagem desse lxico gongorino, to de-vedor a um poeta maneirista como Herrera, nose encontra j presente na obra de um autor comoCames? No ndice de cultismos do Polifemo queAntnio Vilanova apresenta no final da suaeruditssima dissertao sobre as fontes e os temas

    deste poema de Gngora, registam-se quatrocentose oitenta e trs vocbulos, dos quais, segundo osnossos clculos, duzentos e vinte e nove seencontram inventariados no ndice analtico dovocabulrio de Os Lusadas, organizado por um grupode estudiosos brasileiros. To importante, porm,como esta percentagem de cultismos de OsLusadas que figuram no lxico do Polifemo, ser apercentagem dos cultismos camonianos que,ausentes desta obra gongorina, se encontrampresentes, e desempenhando funo de relevo, nalinguagem potica do sculo XVII. E temos razespara crer que a inventariao do lxico de poetascomo Andr Falco de Resende, Lus PereiraBrando, Vasco Mousinho de QuevedoCastelbranco, Ferno lvares do Oriente e Elide S Sotto Maior h-de proporcionar surpresasaos estudiosos da nossa poesia seiscentista.A linguagem culta, saturada de latinismos ehelenismos, de hiprbatos, aluses, perfrases ehiprboles, erudita, ostentadora e obscura,caracteriza grande parte da poesia lrica barroca,manifestando-se em sonetos, canes, silvas, oitavas,idlios, etc. Para a anlise destes processos estilsticostipicamente barrocos, que complicam e adensama frase, que evitam a nomeao directa do real,que intensificam os significados at desmesura eao sublime, reenviamos de novo j tantas vezesmencionada obra de Ares Montes. sabido, porm, que, semelhana do que ocorreuna literatura espanhola, tambm entre ns esteestilo cultista foi objecto de crticas, de caricaturase de cidos remoques. J tivemos oportunidade,no captulo III, de documentar e discutir algumasmanifestaes deste esprito anticultista, quedenuncia a obscuridade e o pedantismo dalinguagem dos discpulos de Gngora e queprope, implcita ou explicitamente, uma poesiade fcil entendimento e capaz de nomear clara edirectamente o real quotidiano. Diversostestemunhos poderamos acrescentar aos jaduzidos naquele captulo, mas limitar-nos-emosa referir e comentar apenas mais dois.

    Cultismo eanticultismo nalrica barroca(excerto)

    VITOR M. AGUIAR E SILVA*

    * In Maneirismo e Barroco na Poesia Lrica Portuguesa. Coimbra:Centro de Estudos Romnicos, 1971, p. 474-489.

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    O primeiro texto pertence stira de SimoTorreso Coelho, mencionada no captulo anterior,sobre os vcios e os desmandos da corte de Madrid,constituindo uma espcie de prlogo stirapropriamente dita:

    Pedisme que uos de nouasdo que qu uay, e l uay,mas por uida de meu pay,que hade ser a carta em trouas.Porem com tal condioque no seiais to madraoque espereis por Garcilao,por Petrarcha, ou Bosco.Que minha muza no andano canto dos mais sotis,qu imito as trouas uisdo nosso S, e Miranda.Mas em regras uerdadeirasa diuina poeziahade ser mais profeciaque trocados para freiras.No me dou com o pensamentoe hus Poetas serafins,que elles calo borzeguins,eu com socos me contento.E por ultima rezopois seos cantos no lhe enuejo,com canto de orgo esteio,que eu me estou com o cho.

    Este texto interessante sob mais de um aspecto.Claramente se distinguem nele duas espcies depoesia: uma, feita de subtilezas verbais e vagasideaes a poesia dos Poetas serafins; outra, singelae at rstica, sem os requintes e as polidashabilidades do corteso e, por isso, TorresoCoelho ope simbolicamente os borzeguins aossocos e o canto de orgo ao canto cho. A primeiradestas poesias, filia-a Torreso Coelho em Petrarca,Boscn e Garcilaso, apontando assim como origensda poesia cultista o petrarquismo e o italianismorenascentista; como paradigma da poesia singela e

    rstica, apresenta as trouas uis/do nosso S, e Miranda,pensando decerto nos poemas mirandinos que, em1626, foram editados sob a designao de Satyras.Deste modo, contrape-se uma poesia tradicional,escrita em linguagem ch e em medida velha observe-se, a esta luz, o significado do possessivoem trouas uis/do nosso S, e Miranda , a uma poesianova, de razes petrarquescas e italianistas, rebuscadae de difcil entendimento. Esta contraposiooferece ainda outra faceta de muito interesse:enquanto a poesia cultista se revela destituda deuma inteno moral e pedaggica, reduzindo-se auma ldica e ftil manifestao verbal trocadospara freiras , a outra poesia, a divina poezia exaltadapor Torreso Coelho, tem uma grande misso acumprir a misso de revelar a verdade, de ensinaros homens, de rasgar horizontes e preparar o futuro,tudo, enfim, o que est denotado e conotado napalavra profecia. Ao depreciar-se a culta latiniparla,valoriza-se o conceito e, por conseguinte, sublinha--se a funo docente da poesial. E por detrs desteconceito tico de poesia, ergue-se ainda o vultotutelar do nosso S, e Miranda.O segundo testemunho pertence a Antnio daFonseca Soares e encontra-se no seu romanceOlyva, insigne, e famozo:

    Que tenho saudades vossas,j disse; gavaime o claro,que eu no sou dos IdiomasCalvenista, ou Luterano.Porque heide fazerme escuro,se o nosso Deos me faz claro?Porque direy por tablilhao que bem psso de hum jacto?Fazer giros na lingoagem,he parecer sacatrapo:Navio que vai s voltas,nunca vay bem navegado.Pois f, que tambem seyfalar por Planeta quarto;e s digreens enfadonhasdar nome de pleonasmos.

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    Mas cuido, que lanso pulhasquando desta sorte falo;e que se me deve hum irra,com mais justissa q hu gabo.

    Fonseca Soares, ao fazer a apologia da clareza,estigmatiza os poetas cultos como herticos queeu no sou dos Idiomas/Calvenista, ou Luterano ,retomando assim uma condenao muitofrequente na literatura espanhola do sculo XVIIe que, no condicionalismo ideolgico e poltico--social ento prevalecente, se revestia de agudomelindre. A clareza exaltada por Fonseca Soaresimplica, como seus elementos nucleares, aexpresso directa e, diramos, linear da realidade,sem os circunlquios refinados e preciosistas aluses, perfrases, metforas que dificultam eobscurecem a percepo dessa mesma realidade.Dizer por tablilha, fazer giros na lingoagem, falar porPlaneta quarto, com digreens enfadonhas eis comoFonseca Soares caracteriza, condenando-a, alinguagem cultista, sublinhando, em todas estasfrmulas, a tendncia dessa linguagem para fugir designao directa das coisas. De modo similar seentende a contraposio entre a poesia escura e apoesia clara num romance annimo publicado notomo segundo da Academia dos Singulares de Lisboae em cujas duas primeiras coplas se l o seguinte:

    De la poesia escuraes antipoda la clara,afecta galas aquella,esta recusa las galas.Pan por pan, vino por vino,y tambien agoa por agoadize, tan clara como ella,y en lo frio la aventaja.

    Esta orientao anticultista andou estreitamenteligada tendncia realista e satrica da poesiabarroca e manifestou-se predominantemente nosinmeros romances em que se desentranhou o

    estro dos poetas e versejadores seiscentistas, emborase tenha revelado tambm em formas tradicional-mente cultas, como o soneto e a cano.Numa atitude de oposio extrema linguagemculterana, diversos poetas barrocos no hesitaramem trasladar para a sua poesia a lngua popular ecoloquial, na sua simplicidade, no seu pitoresco eat na sua crueza plebeia, perfazendo assim, aonvel dos significantes, o mesmo processo de alar-gamento das fronteiras da poesia que, no seuaspecto temtico, analismos j no captulo ante-cedente. D. Toms de Noronha, por exemplo,captou em vrios sonetos os dilogos coloridos,impetuosos e desbocados das regateiras e rascoasdos bairros populares lisboetas, transfomando assimo poema numa espcie de esboo teatral. Observe--se a viveza e a malcia desta altercao entre duasregateiras:

    Bibora q me ques? q lhe quereis?Desditosa do mi! c que vem agora?Que vos fiz? porq mordeis? aonde mora?Coroa sou da rua. Quem vos? sereis.

    Sempre honrada viui. Como viueis?Senhora Brasia Andr. No sou senhora.Sou virtuosa e honrada: andar embora.Que dizeis? q o no sou? Vos o dizeis.

    Lembrada houuereis de ser! De q lembrada?Do q sabeis q vi. Vos q me vistes?O q sempre callei. Douuos licena.

    E vos no vos lembra? huy lembranas tristes!Se o haueis por hu~ peccado, mal lograda,Quantas vemos morrer dessa doena.

    Fonseca Soares, nos seus numerosssimos romances,cultivou repetidamente uma linguagemdesafectada, correntia, despida de galas e de alardescultos, tombando at, no raras vezes, numdeslavado prosasmo. O lrico que se sabia guindar

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    at s culminncias do estilo gongrico, hermticoe lantejoulante, era tambm capaz de se cingir auma linguagem quotidiana, familiarmentecoloquial e afectiva. Leia-se o seguinte passo doromance Huy, Maricas dos meus olhos!, em que opoeta imagina o dilogo de um namorado quetenta dissipar os arrufos e as suspeitas da mulhercortejada:

    Eu vos no perdoo o susto:Ora acabemos com isto:Daime essa mo: sim, meus olhos:Apertai hum pequenino.Huy! que melindres so estes?Porque? Apertei de rijo?Doeu-vos? Que assim me pza:Ora eu aprto mansinho.Oh que Mo to soberana!Que dedos to bem feitinhos;que sendo cristais por brancosso veludo por macios!Hora aqui ninguem nos ouve:Falay, que estamos szinhos:A My, l foy para dentro:Ninguem ha de vir, meu Brinco.Andai; falai: Que esperais?Olhay, que me estou podrindo:Que esperais? Que venha gente,para estarmos sezudinhos?Como estais hoje teimosa!Huy, Amor! eu vos afirmo,que ninguem ha de escutarnos,que esto todos devertidos.Dizey, dizey outra vez:Como, Amariles? Que he isso?Huy, Amariles! Zombais?Ahi! H tal desvario!Se eu, Amariles, quiz bem?Que? Que no jure: Isso he rizo?No chegue a ver... Que dizeis?Que me cale: H tal martirio!

    Observem-se as formas diminutivas pequenino,mansinho, bem feitinhos, sezudinhos , de tom familiare, neste contexto, carregadas de conotaeserticas; as breves notaes, de sabor realista, doambiente em que decorre o dilogo: a me que lfoy para dentro, o divertimento dos outros, que fazcom que ningum repare nas intimidades dosamantes; as interrogaes, as interjeies e asreticncias que exprimem o espanto, a indignaoe a perplexidade do namorado e que permitemao leitor reconstituir as acusaes, os lamentos eas recusas do interlocutor feminino. Cerca de doissculos mais tarde, Garrett, para exprimir, comromntico dramatismo, a agonia de uma rupturaamorosa, adoptar no seu poema Adeus uma tcnicaestilstica muito semelhante. indubitvel, por conseguinte, que no parnasobarroco se distinguem e se confrontam at, tantono plano da temtica, como no plano do estilo,duas espcies de poesia: a poesia culta e a poesia aque chamaremos, como outros crticos tm feito,poesia vulgar. Cremos, todavia, que essa dife-renciao, ou contraposio, embora no possa serignorada, no deve ser entendida em termosabsolutos. Observe-se, primeiramente, que osmesmos poetas que escrevem poesia vulgar, quea defendem e exaltam e que, concomitantemente,r idicular izam a poesia gongrica, escrevemtambm da mais aprimorada poesia culta: SimoTorreso Coelho o autor das Saudades de Albanoe de Las dos peas. A los desdenes de Silvia, poemaeste cujos dois primeiros versos Estas q~ me ditrimas sonoras/ricas de tanto sol culta Thalia , cpiaquase literal do incio do Polifemo gongorino,patenteiam logo a sua qualidade culterana;Fonseca Soares o brilhante e requintado poetade Filis y Demofonte e de tantos outros poemascultos; D. Prspero dos Mrtires, o sarcstico autordo Pegureiro do Parnaso e das Saudades de Apolo, nodesdenha escrever, por exemplo, um consumadoculteranista como esta dcima em que, atravs deengenhosas e preciosas imagens, se alude a umasangria feita no brao de uma beldade:

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    Cobioso amor tratoude descobrir nouas minasfes bateis tres conchas finasproas das setas formouvellas do sendal cortoubreue luz por farol quisas veas de azul matisrompem cristalino braoe voltando em breue espaotrouxe asombros de robis.

    Por outro lado e aqui nos parece residir oessencial da questo , tanto a poesia culta como apoesia vulgar testemunham, embora em nveisdiferentes, uma das caractersticas fundamentais doestilo barroco: uma extraordinria capacidade deinveno verbal, uma quase volpia em jogar coma linguagem, conduzindo-a a um estado de tensocontnua, arrancando s palavras os mais recnditos,variados e surpreendentes matizes semnticos,cr iando, enfim, com os significados e ossignificantes, uma festa para o engenho e para ossentidos. Com efeito, a poesia vulgar barroca poesia realista, satrica e burlesca, de tom populare coloquial revela uma riqueza e uma fantasiaverbais que nada ficam a dever poesia dos cultos.Vejamos alguns exemplos.A uma dama que lhe pedira quatorze varas de tafetverde para forrar um vestido, respondeu D. Tomsde Noronha com uma humorstica silva, na qualfaz ressaltar a exorbitncia que para ele, fidalgo degrande linhagem mas de minguados cabedais,representava tal pedido. A silva desenvolve-se emtorno dos mltiplos e ambguos valores semnticosque possvel extrair do significante varas e dojogo verbal propiciado por lexemas dele derivados,utilizando tambm o poeta, subsidiariamente, amesma tcnica em relao ao significante verde. Asvaras a que se referia o pedido da dama, comoinequivocamente se depreende do contexto verbal,so uma medida, mas o poeta, libertando-se de tal

    imposio contextual, transita, desde os primeirosversos, para outras reas semnticas: O que em varaspedis, Senhora Prima,/de tafet, vos quero dar em rima;/porque j fogir dellas conta fiz,/por peyores que varasde Agoazis; que no so para homem to arisco,/varasde tafet, varas de visco.//Mas quando meu amor finose v,/sero somente varas de alap; e pois que talbrandura em mim se abona,/me quereis varejar comoazeitona.//Varejadas a mim? Grande cegueira,/pois quepasso sem ellas carreira./No vedes, que se der, muiprezenteiro,/as tais varas, que quais de marmeleiro,/mais nalma, que debaixo dos calens,/me ho de ficarardendo os seus vergens?; Sabey Senhora, q~ acabado seho/varas, que houve algu tempo de condo; Amor, queordenas? para q me espantas,/se eu nunca plio vi devaras tantas?; Confesso-vos, q~ sou de tais cautellas,/quecomo varas verdes trmo dellas; Deste vosso criado,/aquem hum tal pedir, deixou varado.Nos romances de Fonseca Soares, so copiosssimosos exemplos dessa tenso a que o engenho barroco,numa nsia incontida de novidade, surpresa eemaravilhamento, submete a linguagem no culta.Com um lxico singelo, de uso quotidiano,procedente dos mesteres e tarefas humildes quedesempenham tantas das personagens femininascantadas nos seus romances, o poeta vai urdindoludicamente uma caprichosa teia de argcias,subtilezas e ambiguidades verbais. Como nestetexto, dominado por trocadilhos forjados com olxico relativo ao labor da fiandeira:

    Fia pois com tanta grassasta Fiadeira linda,que quem se no fiar della,he porque em si se no fia.Com to galante ademno fuzo na mo trazia,que eu fiquei de a ver confuzo,envejozo de tal dita.

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    Trazendo o fio entre os dedos,que deixa, he coiza sabida,por hum fio as vidas todas,pois s caricias enfia.

    Quando ta o linho na roca,he com tanta bizarria,que deixa a todos atadosde ver como o linho alinha.Por fazer da roca espada,a trs metida na cinta;que no s fia na roca,mas com ella dezafia.

    Mais um exemplo, agora extrado de um romancede Joo Sucarelo em que se descreve e comentairnicamente a vida dos soldados portugueses que,durante as lutas da Restaurao sitiaram Badajoz:

    Os pobretes dos soldadospor esse cho se estenderoserinissimos Infantesdormindo sempre ao sereno.

    Contrastando com a penria e a modstia socialdos soldados, incisivamente expressas no primeiroverso pelo diminutivo pobretes, aparece depois aexpresso serinissimos Infantes: Sucarelo joga com adupla significao de infante filho de rei e soldadode infantaria e inventa comicamente uma relaosemntica entre o adjectivo superlativado serinissimo tratamento devido aos infantes-filhos de rei eo substantivo sereno, sinnimo de ar hmido e frioda noite, j que ao relento que dormem sempre e este advrbio explica aquele superlativo ospobretes dos infantes-soldados de infantaria.A poesia barroca realista e satrica possui um lxicomuito rico e, no raras vezes, de mais difcilinterpretao do que o lxico erudito da poesiaculta. em geral uma linguagem pitoresca etruculenta, em que o plebesmo e os giroscoloquiais se mesclam com neologismos, com

    criaes vocabulares fantasistas, por entre profusashiprboles e metforas. Eis como D. Toms deNoronha caricaturou, num soneto, um homempequeno e desprezvel:

    Sapo concho furo lagarto em tcameyo vintem sem cunho bazarucono corpo ganso e nas pernas cuconovello de fiado maaroca

    Mona q~ cachorrinho afaga e acocamonstro de Achem Brazil e Mamalucosobre pequeno torpe Feyo e mucolpa em p cascavel sizo de rca

    Potra barbada Arroz cabea em odrede Enanos Rey, e de Pigmeus cassismama de m mulher de homem meyo

    Pequeno em tudo es e em tudo podrese he verdade o q a letra de ti dizou tu s o Diabo ou Paulo Feyo.

    As formaes vocabulares inesperadas, de teorcmico e burlesco, constituem um importanteelemento do lxico desta poesia barroca vulgar.Alguns exemplos: Jernimo Baa, ao descrever asua jornada de Lisboa para Coimbra, anota quedescavalgou na Goleg, mas, lembrando-se de queera um esfomeado macho o seu meio detransporte, logo emenda aquele verbo paradesmachar, arranjando ainda pretexto, atravs deuma proposio hipottica, para acrescentar overbo desasnar (e se desasnra, fora/mzy mais elegantemodo); o mesmo autor, referindo-se a uma moaque encontrou numa venda de Ansio, chama-lheesta vendavel cachopa, de modo a insinuar que arapariga da venda tambm vendia favores amorosos;D. Toms de Noronha, ao narrar a sua penria,confessa que, muitas vezes, fica acomodadotaboalmente isto , dormindo com os ossos no cho, mngua de dinheiro para alugar uma cama; e

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    numa silva sobre a barba de D. Andr de Almada,reitor da Universidade de Coimbra, D. Toms, poranalogia com a expresso cabecear de sono,escreve: que como sois letrado de mo cheya,/barbejastesco sono na candeya;/porque assim como eu doucabessada,/vs bem podeis co sono dar barbada; BarbosaBacelar, para designar a musa que ter inspirado oridculo parto potico de hum engenho da villade Thomar, utiliza a expresso metricana Divindade.Na poesia barroca realstica e satrica, a rima podedesempenhar a funo de reforar o significadocmico ou burlesco que o lxico empregado jde si possua. As rimas esdrxulas, que em Fernolvares do Oriente e noutros poetas seiscentistasso indcios de estilo sublime e culto, realizam porvezes na poesia barroca essa funo de elementoconotador do cmico e do burlesco: SimoTorreso Coelho, no poema que dedicou smizerias scholasticas, isto , penria e fomesuportadas pelo estudante coimbro, serviu-se detais rimas; e transcrevemos no captulo III umsoneto de Barbosa Bacelar em que se exibe omesmo artifcio. todavia, nos chamados sonetosparonomsticos ou de consoantes forados, queocorre mais frequentemente aquela funoconotadora da rima.[...]

    Poesia lricado perodobarroco(excerto)

    MARIA LUCLIA GONALVES PIRES*

    A poesia lrica , juntamente com a oratria, ognero literrio mais abundantemente cultivadoao longo do perodo barroco. Importa referir eanalisar algumas das questes mais relevantessuscitadas por esta poesia, tais como as fontes deque hoje dispomos para o seu conhecimento, isto, os textos que chegaram at ns e as formas dasua transmisso; as caractersticas temticas eretrico-estilsticas que a individualizam, o quepode ser lido como a expresso de atitudes doscriadores poticos desta poca perante o mundoe a poesia; os conceitos de linguagem potica e osvalores esttico-literrios que presidem suaproduo; os modelos que se pretende imitar e asformas de imitao / transformao dessesmodelos; e finalmente, as diversas atitudes de leituradessa poesia e a consequente diversidade de juzoscrticos perante ela formulados.

    Os textos

    Comecemos por referir as fontes de que dispomospara o conhecimento da poesia lrica barroca.

    * In Histria da Literatura Portuguesa: da poca Barroca aoPr-Romantismo. Vol. 3. Lisboa: Alfa, 2002, p. 119-128.

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    Podemos agrupar essas fontes em trs classes: osvolumes de poesia individual, contendo a produopotica de um autor, publicados geralmentedurante a sua vida ou pouco depois da sua morte;os cancioneiros impressos contendo poemas devrios autores; e, por ltimo, os cancioneirosmanuscritos.

    Volumes individuais

    Aceitando os marcos cronolgicos apontados porAguiar e Silva para a delimitao periodolgicado barroco portugus (v. Maneirismo e Barroco naPoesia Lrica Portuguesa, Coimbra, 1971), podemosconsiderar Laura Anfriso (1627) um dos primeiroslivros de poemas barrocos portugueses. Do seuautor, Manuel da Veiga Tagarro quase nada sabemos:apenas que seria natural de vora e que, a julgarpela atitude de encmio e subservincia que noseu livro manifesta em relao casa de Bragana,deve ter pertencido ao crculo de letrados que jfoi designado Parnaso de Vila Viosa. O seu livro,que ainda reflexo do universo espir itualpredominante na poesia do perodo maneirista,pela atitude de renncia aos bens terrenos e deconverso plena a Deus que insistentemente refere,apresenta j formas de expresso e atitudes dosujeito lrico que constituiro as linhas dominantesda produo potica barroca: o comprazimentona descrio dos bens efmeros a que se renuncia,a transfigurao metafr ica do universorepresentado e a acumulao de um materialvocabular, articulado em complexos processosretricos, criador de um mundo esplendoroso debrilho e riqueza.O livro de Paulo Gonalves de Andrade VriasPoesias, publicado em 1629 e com 2. edio em1658, j uma compilao de poemas bem repre-sentativos das tendncias barrocas; e os poemasencomisticos de poetas contemporneos queacompanham a sua publicao, correspondendo

    embora a prtica relativamente frequente na poca,testemunham a comunho desses poetas na estticaque na obra se concretiza.Por estes anos se comeam a manifestar-se algumasdas vozes mais relevantes da nossa poesia barroca,como Barbosa Bacelar e Violante do Cu (doisdos poetas portugueses representados no volumepublicado em honra de Lope de Vega aquando dasua morte), mas os seus poemas circulam como osde tantos outros, em cpias manuscritas. Noentanto, de Violante do Cu (1601-1693), a freirado convento dominicano da Rosa aureolada como prestgio dos seus dotes poticos, publica-se emRouen, em 1646, um volume intitulado RimasVrias. Os poemas que o constituem tratam, nasua maior parte, o tema do amor como fonte desofrimento, cantado em estilo engenhosamentetrabalhado numa tessitura verbal que insistente-mente recorre aos jogos de contrastes, aos adynataou impossibilia, argumentao conceituosamenteparadoxal. Uma grande parte da sua produopotica, sobretudo poemas de temtica religiosa,foi publicada depois da sua morte em dois volumescom o ttulo de Parnaso Lusitano de Divinos eHumanos Versos (1733).Especial destaque merece, no panorama da poesialrica desta poca, a obra de D. Francisco Manuelde Melo (1608-1666). Em 1628 publica uma sriede doze sonetos sobre o tema da morte de Ins deCastro, Doze Sonetos por Varias Acciones en la Muertede Doa Ins de Castro, obra de juventude que vira repudiar ao compilar o conjunto da sua obrapotica. De 1649 a publicao de Las Tres Musasdel Melodino, que vir a constituir a primeira partedas suas Obras Mtricas, compilao que publicaem Lyon, em 1665. A organizao deste volumedas suas poesias completas segue o modelo quefora adoptado pelos editores da poesia do seumestre e amigo Francisco de Quevedo: divididoem trs partes, cada uma delas subdividida em trscoros, dedicados a cada uma das nove musas. Estaorganizao respeita ainda uma distribuio

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    lingustica: os trs primeiros coros (El harpa deMelpomene, La citara de Erato, La tiorba dePolimnia) e os trs ltimos (La lira de Clio, Laavena de Tersicore, La fistula de Urania) soconstitudos por poemas em castelhano; a segundaparte, designada As segundas trs musas, cons-tituda por poemas em portugus, organizadosigualmente em trs coros: A tuba de Calope,A sanfonha de Euterpe, A viola de Talia. Cadacoro apresenta uma homogeneidade de formaspoticas sonetos, romances, clogas e cartas ,com excepo do terceiro coro de cada uma daspartes, em que se nos deparam formas vrias. Umaorganizao que revela o cuidado posto pelo autorna edio das suas Obras Mtricas, sem dvida amais importante colectanea potica individual dobarroco portugus, uma obra em que frequente-mente uma rigorosa e complexa tcnica potica veculo de profunda reflexo filosfica e religiosa.Poeta dos mais prolficos Manuel de Faria eSousa, que publica um volume intitulado Divinase Humanas Flores. Mas a sua obra potica funda-mental a Fuente de Aganipe, de que publica quatropartes entre 1644 e 1646. Nesta obra inclui o autorconsideraes tericas e histricas acerca dos vriosgneros e formas que cultiva. A sua produopotica norteada pelo sonho de imitar Cames.Este trabalho de imitao do poeta que admiravacom um fervor quase idlatra , na forma comorescreve temas, expresses e versos camonianos,manifestao eloquente de tendncias da poticabarroca.Num volume intitulado Poesias Vrias Sacras eProfanas (1671) inclui Andr Nunes da Silva(1630-1705) os seus melhores poemas, alguns dosquais encontramos publicados em colectneas deproduo colectiva. Os textos aqui reunidos sorepresentativos de alguns dos temas recorrentesna poesia da poca a meditao sobre a fragili-dade da vida, o panegrico de ilustres personagens,o nascimento e paixo de Cristo , tratados comnotvel virtuosismo tcnico. Este autor publicou

    ainda, com o ttulo de Hecatombe Sacra (1686), umconjunto de cem sonetos narrando a vida de S. Cae-tano (note-se a utilizao do soneto constituindouma longa srie de carcter narrativo) e compsum volume de sonetos Imaculada Conceio, como ttulo de Voto Mtrico e Aniversrio (1695).Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711), poetaque viveu quase toda a sua vida no Brasil, publicouMsica do Parnaso (1705), obra em que incluipoemas em portugus, castelhano, italiano e latim.A crtica brasileira tem valorizado a obra destepoeta, considerando-o um precursor do mito donativismo, pelo entusiasmo com que descrevebelezas e riquezas da terra braslica num longopoema sobre a ilha da Mar. Mas esta inovaotemtica limita-se a este poema: o resto da obraexplora com mestria e alguma originalidademotivos consagrados, como a rosa, o espelho, oretrato de uma dama.A maior parte da obra potica de Soror Maria doCu (1658-1752), religiosa franciscana, encontra--se disseminada em textos narrativos de carcteralegrico que combinam verso e prosa, dos quaisse destacam A Preciosa (1731) e Enganos do Bosque,Desenganos do Rio (1736, 1741), alm de umvolume em que se reuniram textos diversos e quefoi publicado com o ttulo de Obras Vrias eAdmirveis (1735). A poesia desta autora, repassadade emoo lrica, aproveita com frequncia formasde expresso da poesia de amor profana comoveculo de valores de natureza religiosa.No perodo barroco proliferou a poesia de cunhojocoso e mesmo burlesco, mas foram relativamentepoucos os autores deste tipo de poesia que viramas suas obras publicadas. Entre estes conta-se TomsPinto Brando (1664-1734) que publicou oprincipal da sua produo potica num volumecom o ttulo parodstico de Pinto Renascido (1732).Predomina nesta obra a atitude faceta, mesmoquando trata episdios autobiogrficos ou temasque correspondem noutros autores a umapercepo dolorosa da vida.

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    De Francisco de Vasconcelos Coutinho (1665-1723)foram publicadas postumamente duas obras: Feudodo Parnaso (1729), um panegrico de D. Joo V, eHecatombe Mtrico (1729), uma srie de cem sonetosem que se narra a histria da redeno do homem,desde o pecado de Ado at paixo redentora deCristo. Mas o seu prestgio literrio no lhe advmdestas obras, mas sim dos poemas includos na FnixRenascida. um exmio sonetista que consegueainda mobilizar de forma engenhosa o materialtemtico e retrico j ento estereotipado.Tal como na obra de Soror Maria do Cu, tambmna de Soror Madalena da Glria (1672-1759) ospoemas se integram em narrativas alegricas defuno moralizadora: Brados do Desengano contra oProfundo Sono do Esquecimento (1749), Reino deBabilnia Ganhado pelas Armas ao Empreo (1749),Orbe Celeste (1742), entre outros.A concluir esta breve enumerao de obraspoticas individuais publicadas no perodobarroco, refiram-se os dois volumes de textoslricos de Francisco de Pina e Melo (1695-1765):Rimas (1727) e A Buclica (1755). Na poesia desteautor as marcas da potica barroca combinam-sej com elementos o gosto do nocturno, a atracodo horrendo, o pendor melanclico que iro terpleno desenvolvimento na poesia pr-romntica.

    Cancioneiros impressos

    Fnix Renascida

    Quando se fala de poesia lrica barroca, o primeirottulo que geralmente ocorre memria FnixRenascida. Com efeito, a Fnix Renascida ou Obrasdos Melhores Engenhos Portugueses a maisconhecida colectnea de poemas da poca barroca.Editada por Matias Pereira da Silva, a suapublicao estende-se de 1716 a 1728. Os cincovolumes que compem a obra vo sendopublicados ao longo deste perodo com intervalos

    irregulares, determinados por factores vrios, desdeo acolhimento do pblico at problemas com acensura. Do interesse com que o pblico acolheuesta obra do testemunho no s os cinco volumesque o editor foi sucessivamente dando a lume,como tambm a 2. edio, aumentada, que delesfoi feita em 1746.Mas, apesar da importncia desta obra para oconhecimento da poesia do perodo barroco, nopodemos deixar de ter presente o seu carcterrestrito, limitado, para evitar o erro corrente deidentificar a poesia barroca com os poemas daFnix.O carcter limitado desta obra decorre, antes demais, da sua natureza antolgica. Como todas asantologias, ela limitada pelas preferncias do seuorganizador e pelos critrios que orientaram a suaseleco dos poemas a incluir. De alguns dessescritrios d-nos conta Matias Pereira da Silva noprlogo dos volumes que vai publicando. O seuprimeiro objectivo salvar do esquecimentopoemas que ele considera obras dos melhoresengenhos portugueses e que, no tendo at entosido publicados, corriam o risco de se perder. Porisso no encontramos na sua antologia poemas dasobras que referi na alnea anterior, pois essas tinhamj encontrado na forma impressa uma defesa contraa aco destrutiva do tempo. H apenas umacuriosa excepo: a incluso de numerosos poemasde Violante do Cu, quase todos apresentadoscomo annimos, que se encontravam publicadosdesde 1646 nas suas Rimas Vrias. Tal facto tornaplausvel a hiptese de que esta obra, publicadaem Rouen, no tivesse at ento circulado emPortugal.Ressalvada esta excepo, temos, pois, a selecodo editor da Fnix recaindo s sobre textos quepermaneciam inditos. E o primeiro critrio quepreside a essa seleco de natureza esttica:publicar obras dos melhores engenhosportugueses, isto , poemas que o editor considerarelevantes pelo seu valor potico. Um critrio

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    regido por uma inevitvel margem de subjecti-vidade, revelando, de um modo geral, um editordotado de aprecivel sensibilidade esttica.Mas h tambm critrios de natureza moral acondicionar a seleco de Matias Pereira da Silva,como explica no prlogo do primeiro volume:No tenho teno de dar lugar nestes tomos sobras que, por profanas ou impdicas, o nomerecem. Uma opo pessoal determinadatambm pelas circunstncias histricas em que sever ificava a publicao, como ele prpr ioreconhece logo a seguir: Quanto mais que, aindaque quisera fazer-lhe aqui lugar, de que soindignas, lho no deixariam lograr os a quempertence a correco de semelhantes profani-dades. Ou seja: dada a existncia de ummecanismo controlador das obras a publicar, oeditor tem de aceitar as regras do jogo, ou mesmoantecipar-se-lhes por uma prvia atitude deautocensura. Da resulta que aspectos significativosda produo potica barroca, abundantementerepresentados em cancioneiros manuscritos, notenham tido lugar nesta antologia.Mas h outras lacunas mais surpreendentes, de maisdifcil explicao. Como explicar, por exemplo, quea poesia de carcter religioso, to abundantementeproduzida na poca barroca, tenha to escassarepresentao nas pginas da Fnix?Dos cerca de quarenta poetas representados naFnix Renascida (na 2. edio, que apresenta maiornmero de poemas e de poetas que a primeira),destaquemos aqueles que assumem maior relevo,tanto pelo nmero de poemas seus a includoscomo pelo seu valor literrio.Comecemos por Antnio Barbosa Bacelar(1610-1663). Encontrando-se a sua obra poticadispersa por numerosos cancioneiros manuscritos, na Fnix que encontramos impressos muitos dosseus poemas, mais de uma centena. Poeta que,como tantos outros do seu tempo, fez de Camesseu modelo e de poemas camonianos pretexto paraalgumas das suas produes, Bacelar o autor da

    maior parte das glosas de textos camonianos, desonetos de imitao e de outras formas de aprovei-tamento do texto camoniano. um dos melhorespoetas da poca. Um poeta que canta, maneirapetrarquista, os sofrimentos do amor ou a belezada amada, que medita sobre a morte e aefemeridade dos bens terrenos, que compepanegricos de circunstncia; que compe tambmpoemas jocosos, ldicos, ou que se compraz napardia de textos e tpicos literrios. Esta facetaparodstica, representada em vrios dos seus textosinditos, documentada na Fnix pela Relaodas festas de touros (vol. v), um poema narrativocujo principal motivo de interesse para os leitoresde hoje a atitude irnica e a reelaboraoparodstica de tpicos e estilemas caractersticosda poesia do tempo. Em suma: um poeta bemrepresentativo das linhas temticas e estilsticasdominantes na potica barroca, cuja tcnicadomina com mestria, o que justifica o lugar derelevo que Matias Pereira da Silva lhe concedeuna sua antologia.Outro poeta que assume na Fnix relevo idntico Jernimo Baa (c.1620-1688). Deste fradebeneditino, abundantemente representado nascompilaes manuscritas, tambm s foramimpressos na poca a centena e meia de poemasrecolhidos neste cancioneiro. Conhecidosobretudo como autor desse extenso eengenhosssimo panegrico que o Lampadriode cristal (vol. III), Baa um exmio construtorde correlaes engenhosas, um persistente explo-rador de equvocos, um artfice que se deleita emcomplexos jogos verbais, quer componha poemasprofanos ou religiosos, panegricos ou satricos.O caso de Soror Violante do Cu (1601-1693),uma das vozes mais notveis da nossa poesiabarroca, na Fnix objecto de um tratamentoinslito. So publicados, com indicao do seunome, vinte e oito poemas (nos vols. I, II e V),todos eles com um carcter panegr ico ecircunstancial; mas nos volumes I e II incluem-se

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    trinta e trs poemas com a seguinte indicao:Poesias vrias de uma poetisa annima. Todosestes poemas se encontravam j publicados nasRimas Vrias, desta autora, livro impresso em 1646.No , pois, por ignorncia do nome da autoraque Pereira da Silva apresenta estes poemas comoannimos, tanto mais que no se limita a referir oseu anonimato, como acontece com tantos outrosdos poemas que seleccionou, mas esclarece que setrata de uma poetisa. Porqu ento esta diferenade tratamento? Decorrer da diferena temticados poemas ali includos: uns de carcter inocua-mente panegrico, outros expresso veemente desentimentos amorosos? Na impossibilidade deultrapassarmos o mbito das conjecturas, limitemo-nos a verificar como a incluso destes poemasannimos constitui um enriquecimento da anto-logia, no s por corresponder a uma das facetasmais importantes da produo potica de Violantedo Cu, mas tambm por incluir alguns dos maisoriginais poemas de amor produzidos na poca.No entanto, custa a compreender que a vasta pro-duo potica de carcter religioso desta autorano tenha aqui nenhum poema a represent-la.O poeta D. Toms de Noronha (m. 1651), cujospoemas se encontram no vol. V, a voz maisgalhofeira que se nos depara nas pginas da Fnix.Comprazendo-se no retrato caricatural e nohumor satrico, ri-se de tudo e de todos, a comearpor si prprio. Desmistificando pseudo-heris epseudopoetas que os cantam, dos primeirospoetas barrocos a questionar (jocosamente) apoesia do seu tempo. Mas a maior parte da suaproduo potica no era de molde a figurar naantologia de Pereira da Silva.Uma presena dominante nos volumes da Fnix a de Antnio da Fonseca Soares (1631-1682). Maso facto de o nome deste poeta, o mais abundante-mente representado nas colectneas manuscritasda poca, nunca ser ali referido, aparecendo os seuspoemas annimos, obriga-nos a formular algumasquestes: Antnio da Fonseca Soares autor de

    quantos e de quais dos poemas includos na Fnix?E porque que o seu nome nunca referido? Eporque no incluiu o editor poemas da segundafase da sua produo potica, isto , da faseposterior sua converso a Deus e ingresso naOrdem Franciscana, onde tomou o nome de FreiAntnio das Chagas?Apesar de Matias Pereira da Silva, ao publicar asua antologia, se orgulhar de nela dar o seu a seudono, atribuindo a autoria correcta a poemas quecorriam manuscritos com autorias errneas, ocerto que os factos no confirmam esta seguranado editor. Encontramos na Fnix, alm deatribuies de autoria duvidosas, outras claramenteerradas. Exemplo de erros desta natureza aatribuio a Francisco de Vasconcelos de vriossonetos de Fonseca Soares, erro claro no caso depoemas de circunstncia motivados por eventos(morte do prncipe D. Teodsio, restituio dacoroa inglesa a Carlos II, vitrias na Guerra daRestaurao) anter iores ao nascimento deVasconcelos (1665). Assim, para a identificao dospoemas de Fonseca Soares includos na Fnix,temos de recorrer ao testemunho dos cancioneirosmanuscritos, embora esses testemunhos nemsempre sejam unnimes (v., sobre esta questo, aobra de Maria de Lourdes Belchior, Bibliografia deAntnio da Fonseca Soares, Lisboa, 1950).Quanto no incluso do nome do poeta, sabemos,pelo parecer de um dos censores, que se tratou dedeciso das autoridades censrias.Tambm por deciso das mesmas autoridadesaparecem como annimos nas pginas da Fnix ospoemas de Antnio Serro de Crasto (1610-1685). que este poeta, acusado de prtica do judasmo,foi preso pela Inquisio, em cujos crceres per-maneceu durante dez anos. Embora tenha sadoreconciliado em auto-de-f realizado em 10 deMaio de 1682, lembrado ainda como ruconfesso, publicamente arrependido, certo, massempre suspeito de heresia. Por isso, segundo algica inquisitorial e a sua prtica habitual, o nome

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    do autor devia mergulhar no esquecimento,mesmo se s suas obras, por nada conterem contraa f e os bons costumes, era dada licena deimpresso. Os textos de Serro de Castro includosna Fnix foram, no entanto, objecto de algumasmutilaes, nomeadamente um poema autobio-grfico de que foram cortadas todas as estrofesreferentes sua permanncia nos crceresinquisitoriais.Alm destes poetas aqui destacados, muitos outrosse encontram representados na Fnix Renascida,uma obra que, apesar das limitaes j apontadas, sem dvida a mais importante compilao depoesia barroca; uma antologia bem representativada produo lrica desta poca, tanto no que serefere a motivos poticos e atitudes do sujeitoperante eles, como no respeitante s formasretrico-estilsticas utilizadas.

    Postilho de Apolo

    Postilho de Apolo a designao corrente de umaoutra antologia de poesia lrica barroca, publicadaem 1762 com o ttulo, claramente parodstico nasua barroca exuberncia, de Ecos que o Clarim daFama d, Postilho de Apolo, Montado no Cavalo Pgaso,Girando o Universo para Divulgar ao Orbe Literrio asPeregrinas Flores da Poesia Portuguesa com queVistosamente se Esmaltam os Jardins das Musas doParnaso. Academia Universal em a qual se Recolhem osCristais mais Puros que os Famigerados EngenhosLusitanos Beberam nas Fontes de Hipocrene, Helicona eAganipe. O compilador desta antologia, Jos Angelode Morais, que usa o anagrama de Jos Maregelode Osan, recorre em grande parte aos textos jpublicados na Fnix Renascida. Voltamos a encontraraqui a longa Introduo potica com que inicia acolectnea de Matias Pereira da Silva, sonetos deBacelar e as suas glosas a textos camonianos, sone-tos de Violante do Cu, as Jornadas de JernimoBaa, bem como a sua verso da Fbula de Polifemoe Galateia, e muitos outros.

    relativamente escasso o material indito includono Postilho. Destaque-se o poema vaidade domundo de Francisco de Vasconcelos quedesenvolve neste poema em tercetos, um tema queto frequentemente tratou em sonetos includosna Fnix; ou textos motivados por acontecimentosconsiderados relevantes, como a cloga na mortedo Senhor D. Miguel, filho de D. Pedro II, quenaufragou no Tejo, escrita pelo conde da Ericeira,D. Francisco Xavier de Meneses, ou a Epanforapotica em que se descrevem os festejos que oshabitantes da vila de Setbal dedicaram ao rei D.Joo V na entrada que fez na mesma vila.Note-se a data tardia da publicao do Postilho deApolo (1762), tanto em relao ao momento deproduo da maior parte dos poemas que incluicomo s balizas cronolgicas geralmente aceitespara delimitar o perodo barroco na literaturaportuguesa. Recordando alguns dos marcos maissignificativos da radicao dos valores literrios dobarroco Exame Critico, de Valadares e Sousa(1739), publicao do Verdadeiro Mtodo de Estudarde Verney (1746), fundao da Arcdia Lusitana(1756), entre outros , no deixa de surpreender apublicao de um cancioneiro de poesia barrocaem 1762. Mas a publicao do Postilho de Apolo(bem como a reedio de algumas obras de poetasdo sculo XVII), documenta a permanncia, nasdcadas finais de setecentos, de um pblicoconsumidor e apreciador de uma poesia moldadapelos valores literrios da poca que Verneydepreciativamente designou de seiscentista.

    Cancioneiros acadmicos

    Podemos considerar tambm entre os cancioneirosimpressos as obras que incluem produes poticasdos membros de algumas das academias quedurante este perodo proliferaram por todo o pas.Se certo que grande parte dessa produo ficouindita, temos, no entanto, volumes publicados poralgumas das academias. o caso da Academia dos

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    Singulares, que publicou dois volumes de textosproduzidos pelos seus membros e apresentados nassuas sesses, com o ttulo de Academias dos Singu-lares de Lisboa (1692 e 1698). Nesta obra encon-tramos poemas de Antnio Serro de Crasto, Si-mo Cardoso, Andr Rodrigues de Matos e AndrNunes da Silva, entre muitos outros.Tambm a Academia dos Annimos publicoutextos dos seus membros, intitulando-se acompilao Progressos Acadmicos dos Annimos deLisboa (1718). Fazendo jus ao nome que usavamos seus autores, estes poemas so publicados...annimos.Refira-se ainda o volume Aplausos Acadmicos(1675), conjunto de textos em prosa e em verso,em portugus e em latim, compostos por membrosda Academia dos Generosos para celebrar a vitriaportuguesa na batalha de Ameixial.

    Cancioneiros manuscritos

    Uma fonte indispensvel para o conhecimento danossa poesia barroca constituda por numerososcancioneiros manuscritos que encontramos emtodas as principais bibliotecas portuguesas. Estescdices, geralmente cpias dos sculos XVII eXVIII, do-nos a conhecer, em muitos casos, umtipo de poesia que, pelo seu carcter irreverente,muitas vezes grosseiro e at mesmo obsceno, nopodia ter sido publicada em poca de funciona-mento de complexos mecanismos censrios. Do--nos tambm a conhecer textos de autores que,por razes diversas, nem sempre para ns evidentes,no chegaram a ver a sua obra impressa. Para almdos poemas que Matias Pereira da Silva recolheuna Fnix Renascida, muitos textos de poetas comoBarbosa Bacelar, Antnio da Fonseca Soares, Tomsde Noronha, Serro de Crasto, etc., chegaram atns apenas atravs de cpias manuscritas. De outrospoetas nenhum testemunho impresso nos deixoua sua poca, restando-nos assim os manuscritos

    como fontes nicas para o conhecimento da suapoesia. o que se verifica com a obra de Gregriode Matos (1633-1696), um prolfico autor que, sepelo carcter satrico e desbocado da sua poesiamereceu dos seus contemporneos o epteto deBoca do Inferno, no deixou tambm de compordelicados textos lricos e religiosos.A proliferao destas cpias e a insistncia comque aparecem determinados autores, determinadostextos, so ainda ndices importantes de gostos epreferncias epocais.[...]

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    A PASTORAL

    A to enaltecida prosa da Corte na Aldeia viera,entretanto, sendo preparada, construda, pelo poeta,ao redigir a trilogia pastoril, composta, comovimos, por Primavera, Pastor Peregrino e Desenganado(Primavera tambm o nome do conjunto dasnovelas). No se sabe ao certo de que modo opoeta as escrevia, sendo de admitir que as suaspartes circulassem, ainda antes de impressas, medida que iam saindo da pena do escritor. Este, semelhana do que modernamente acontececom as telenovelas, auscultaria assim a opinio dosseus leitores, segundo a qual depois faria progredira intriga.No vamos alongar-nos no estudo da evoluodo gnero, com que o leitor deparar em qualquermanual. A novela pastoril, cuja voga se sucede do romance de cavalaria, esboar-se-ia j nasclogas da antiguidade clssica, mas em Itlia queos seus contornos se definem, primeiro comBoccacio, autor do Ameto (1341), e depois comSannazaro, autor da Arcadia (1502), obra com quese fixa duma vez por todas, o padro do gnero.

    Qualquer deles mistura o verso e a prosa,intercalando-os.A Jorge de Montemor, portugus radicado emEspanha e que por essa razo escreveu emcastelhano, caberia, no entanto, a glria de criar oque foi considerado o seu mais perfeito paradigma.Diana o ttulo do livro, o qual publicado em1559, contou at ao fim do sculo com dezasseteedies, medindo-se a sua importncia ainda pelastradues que dele por toda a Europa foram feitas.LAstre (1607/1610) figura entre as diversas obrasonde a sua influncia detectvel. Sannazaro eJorge de Montemor, que Rodr igues Lobolamentou que desse lingua e aos valesestrangeiros o que devia ao Mondego aondenasceu, seriam, pois, os criadores ilustres do queno tardou a dar, ainda em Espanha, numerososfrutos entre os quais se distinguiram a Galatea(1585) de Cervantes e a Arcadia (1598) de Lopede Vega. Tais so as obras entre cuja descendnciaas de Rodrigues Lobo se viriam a contar. A estasconvir, contudo, no deixar de acrescentar umaoutra, escrita em lngua portuguesa: trata-se daMenina e Moa (1554), de Bernardim Ribeiro, ondeos ingredientes das fices cavaleiresca e pastorilparecem misturar-se.Dos vrios exemplares do gnero que entretantoapareceram, deve-se a Ferno lvares do Orientea Lusitnia Transformada (1607), obra que, apesarde ter vindo a lume depois da Primavera, decrer que seja de redaco anterior, j que o autor,segundo se supe, ter morrido antes de acabadoo sculo XVI, provavelmente vtima da peste.Consagrada ao marqus de Vila Real, a quem nelase dedicam duas odes, a concepo da LusitniaTransformada afasta-se, contudo, da das novelas dopoeta de Leir ia, aproximando-se, pelo seuhieratismo, muito mais da Arcadia de Sannazaroque da Diana, que Rodrigues Lobo teve pormodelo. No , no entanto, impossvel que os doisautores se conhecessem. Ricardo Jorge admite sera Ferno AIvares do Oriente que Lereno se refere,

    Pastorale clogas deRodrigues Lobo(excerto)

    LUS MIGUEL NAVA*

    * Introduo, Poesia de Rodr igues Lobo. Lisboa:Comunicao, 1985, p. 28-32.

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    ao aludir, na Primavera, a um pastor, meu grandeamigo, embora se mostre mais inclinado aidentificar tal personagem com frei Bernardo deBrito (1569-1617), o iniciador da MonarquiaLusitana (primeira parte: 1597) para a testada decujo segundo tomo, vindo a lume em 1609,Rodrigues Lobo redigiu uma cano que, porrazes no apuradas, acabou por no ser integradanessa obra. Aproxim-los-ia, alm da vida estudantilde Coimbra, onde eles se conheceram, o culto dapoesia, de que frei Bernardo de Brito daria,anonimamente, testemunho na Slvia de Lisardo(1597), livro publicado um ano depois da estreiade Rodrigues Lobo.Digamos, para rematar esta breve introduo novelstica pastoril, que seria Cervantes quem,ironizando-a, veio a desfechar-lhe, no D. Quixote(1605/1615) e em Colquios dos ces, uma dassuas Novelas Exemplares (1613), as primeirasmachadadas. Tal no obstou, contudo, a que asnovelas continuassem a gozar de considervelpopularidade por muito tempo ainda, do que entrens comprovativo o facto de a Primavera atmeados do sc. XVII ter sido editada nada menosque dez vezes.

    CLOGAS

    Vejamos a seguir as clogas, com as quais, namedida em que se integram na buc1ica, se prendeo que dissemos nos pargrafos anteriores. A suarelao com a novela pastoril atestada, antes demais, pelo facto de Sannazaro a ter utilizado, naArcadia, como nica composio em verso. Nissoo no seguiram Jorge de Montemor nemRodrigues Lobo, em cujas obras as formas poticasso muitssimo variadas. Surgida na antiguidadeclssica (primeiro com Tecrito, na Grcia, e depoiscom Virglio, em Roma), a cloga encontroumuitos cultores entre os poetas dos scs. XVI eXVII. Pouco se tendo interessado por ela os

    preceptistas, apresenta formas muito diversas, tantono que toca ao nmero de versos como ao tipode mtrica e de estrofes que a compem. Nemsempre escrita em dilogo, embora nos frequentescasos em que tal ocorre se suponha que os autoresa destinassem a ser representada. Tal como nasnovelas as personagens, pastores ou vaqueiros,exprimem o pensamento e os sentimentos dequem as deu luz, sendo esse disfarce, mais oumenos evidente, uma das convenes do gnero.Tambm no que respeita ao aspecto temtico huma enorme variedade, embora nos casos maisfrequentes se faa a apologia da vida rstica e seexalte a natureza, onde a imagem da idade do ouro,que no poucas vezes se refere, conservada, aoinvs do que sucede nas cidades, donde os vciose a ganncia h muito a desterraram. A aco, talcomo o nmero de personagens, geralmentereduzida a um mnimo e termina com o anoitecer,a que em muitos casos se faz explcita aluso. Aotpico do lugar ameno associa-se assim, entreoutros o do fim do dia.Entre ns a cloga assimila uma tradio buclica,de que tanto os cancioneiros medievais, onde ela patente nas serranilhas e nas pastorelas, como oteatro vicentino nos do conta. Foi com Garcilaso(1503-1536), poeta que com Boscn (1493-1542)introduziu em Espanha as formas literrias italianas,que a cloga se estabeleceu na Pennsula, onde dolado portugus se iriam distinguir no seu cultivoautores como Bernardim Ribeiro, CristvoFalco, S de Miranda, Antnio Ferreira, CamesDiogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz.Quando no incio do sc. XVII, Rodrigues Lobose dispe a publicar as suas clogas, j esta formacomeava a dar sinais de esgotamento. Grande foi,por isso, o mrito do poeta, ao conseguir, dando--lhe novo alento, levar a cabo o que veio a merecerde D. Francisco Manuel de Melo a afirmao deque em nenhuma lngua achareis versos de maiorpropriedade e energia1. Denunciando pontos decontacto com Bernardim (-lhes comum o

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    sentimento da desventura), Gil Vicente (ambos seafastam da linguagem rebuscada, procurando oemprego dum vocabulrio consentneo com a falados pastores) e S de Miranda (de quem o poetaherda o tom sentencioso do discurso), RodriguesLobo assume, nestes textos, intenes moralizantes,devendo eles, por tal razo, ser confrontadosigualmente com a parnese da poca.[...]

    A poesia deSror Violantedo Cu(excerto)

    MARGARIDA VIEIRA MENDES*

    A POESIA NAS RIMAS VRIAS

    de amor escrevo, de amor trato e vivo

    Os louvores

    1. Mais de um tero das Rimas Varias (26composies) levam a cabo panegricos a indivi-dualidades e a feitos contemporneos da escritora,o que implica um estilo pomposo, hiperblico eafectado que desagrada ao gosto de hoje, comotambm pode desagradar a adulao enquantogesto potico. Todavia, os elogios mtricos, comointitulou Faria e Sousa uma parte da sua Fuente deAganipe, integravam a produo literria da pocae foram decisivos na formao da potica e doestilo barroco. Sonetos, Canes, Silvas, Dcimase Tercetos so as formas estrficas que tomam oselogios, ao passo que os Romances e as Glosasservem apenas temas de amor.Nesses panegr icos de Violante podemosdiscriminar: os louvores de aristocratas, os deescritores ou de livros, os de pregadores ou de

    * Introduo. In Rimas Vrias, de Sror Violante do Cu.Margarida Vieira Mendes. Lisboa: Presena, 1994.

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    sermes, os encmios de D. Joo IV e daRestaurao, e trs outros endereados a persona-lidades vrias (um mdico da corte, um nncio,um prior de S. Domingos). As famlias homena-geadas, quer nas Rimas quer no Parnaso so osNoronhas, os Lencastres, os Castros onde seentrev, por conjectura, uma dvida de criao oude benesses.Destaco mais seis poemas de circunstncia, aindaque no sejam panegricos: uma exposio sobrea amizade (n. 9), uma expresso de dor enco-mendada por algum a quem morrera um irmo(n. 37), dois engenhosos comentrios de versos(n.os 52, 55) e dois recados com pedidos (n. 48,54), sendo o pr imeiro quase inteiramentepreenchido com topoi da lisonja. Conviracrescentar que, por vezes, os assuntos cruzam-se:alguns encmios de pregadores elogiam tambmo seu nome fidalgo; outros valorizam o carcterpoltico do sermo louvado.Os restantes 65 poemas so de expresso amorosa.Alguns incluem os tradicionais ingredientes dalaudatio do ser amado ou amigo, muito enfatizadosna lrica barroca (p. ex., o n. 88, a Menandra). Derealar ainda a inexistncia de qualquer temticareligiosa, prevalecendo a dimenso cortes,mundana, literria e poltica.Os reflexos da sociabilidade conventual naproduo potica iro evidenciar-se apenas noParnaso lusitano p. ex., o hbito de fazer Glosasem comemoraes religiosas j que a Glosaalcanara a sua mxima popularidade no sculode ouro espanhol, ou ainda os Vilancicos destinadosao canto na liturgia do Natal. Embora a poesia dasRimas Varias no remeta para o quotidiano devotodum mosteiro, excepo feita para o Captulo(n. 48), sabemos que no era estranha vidamonstica a incurso artstica e intelectual emterritrios laicos. conhecido o grande nmero de poetas que com-prometeram a sua musa na aclamao de herislusos, na Restaurao e na propaganda patritica

    nacionalista que a acompanhou e antecedeu. Deentre as escritoras, a mais considerada no tempo,Bernarda Ferreira de Lacerda, foi autora de Espaalibertada (Parte I, 1618, Parte II, pstuma, 1673),epopeia que narra as origens da reconquista cristpeninsular e que valoriza, embora s na Parte II, opapel dos lusitanos. Lembro tambm D. Marianade Luna, de Coimbra, que escreveu um Ramalhetede flores felicidade deste reino na sua milagrosarestaurao, publicado em Lisboa, em 1642. Poroutro lado, inmeros foram os sacerdotes queutilizaram os seus discursos sagrados na defesaexaltada da autonomia nacional.

    2. Violante escreveu a maioria dos elogios mtricosem castelhano, mesmo quando servem para apoiara causa portuguesa. Impera neles o vocabulriograndiloquente (deidades, eternidade, celestial,prodgio, portento, divino, peregrino) e outrostraos convencionais da literatura encomistica: asmaisculas, os graus comparativo e superlativo,imagens clssicas como a Fnix, a dcima Musa, aquarta Graa, a convocao de Musas, dos astros,do Oriente, de heris e divindades (Apolo, Vnus,Minerva, Adnis). No domnio simblico, sobressaia grandeza espacial (a imensidade, a esfera, o globocristalino, de plo a plo), o eixo vertical etotalizante (celeste/terrestre), a metfora tradicionalda escr ita e do livro (resumo de virtudes,compndio, suma, epilogar), as isotopias da luz ouclaridade e, finalmente, a sistemtica aproximaodo humano e do divino. Sor Violante exprime-seento, de preferncia, nos modos exclamativo eimperativo, ao mesmo tempo que evidenciaadmiraes, espantos, suspenses, acompanhadasdo alarde de paradoxos extremados e de arrevesadashiprboles. Nada existe de personalizado nestediscurso, excepto a eleio obstinada de umnmero restrito de receitas.Os traos louvados tambm podem ser facilmenteenumerados, porque uniformes: a nobreza dosangue, ou seja, o nome e a prospia; a beleza fsica;

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    a inteligncia e engenho; os efeitos de assombro emaravilha causados por esse engenho, sobretudono caso de livros escritos e de sermes proferidos.Quase sempre, esses traos sobrepem-se em cadauma das composies, chegando a decidir da suaestrutura compositiva. o caso da Cano a D.Mariana de Noronha (n. 31) onde a partir docontedo binrio exposto na terceira estrofe, en tise ven iguales / belleza y descricin, Violante elaborauma sequncia de simetrias, em microestruturaslexicais, sintcticas e rtmicas: versos como DoctaVenus, en fin, Palas hermosa ou a la gloria de orte y demirarte. Tal como noutros, neste encmio argu-menta-se somando o mrito do sangue com o dainteligncia.O tema do engenho verbal aquele onde seesmera a paleta do vocabulrio e demais recursosde sor Violante. Alm da palavra engenho, topamosrecorrentemente com outras do mesmo campo,como agudeza, elegncia, erudio, saber, sutileza,entendimento, conceitos, ideia, eloquncia, semesquecer os prottipos mitolgicos (Palas Atena,Apolo, as Musas). com uma exuberncia de luxoque a autora presenteia aqueles que admira,certamente os destinatrios reais de cada escrito.De facto, a designao das qualidades artsticas vemrecamada de eptetos e imagens da convenolaudatria: o smile do imprio e da vitria blicaaplicado eloquncia (que rende, ganha o trofu,glorifica); a aluso ao emblema de Hrcules Glico,significando o efeito poderoso das palavras doorador que aprisionam com correntes os ouvintes(cf n. 28). Violante do Cu participa assim datendncia esttica prpria do barroco, que consistena reflexividade artstica, ou seja, no facto de umapea de arte representar, comentar ou aplaudir aprpria actividade que a gera.

    3. Nas Rimas Varias, os versos panegr icosactualizam de modo sistemtico, para no dizermontono e cansativo, estratagemas ou troposenunciativos que posso apresentar de forma sucinta.

    O primeiro e mais insistente, quase obrigatrio, o que explora e amplifica, de forma rebuscada,o lugar-comum da falsa modstia: a declaraoda inferioridade do discurso relativamente ao entecelebrado. Este topos adquire forte dinamismo nascomposies de sror Violante, pois converte-seno motor de grande parte ou at de toda ainveno, no conceito que a estrutura. Chama asi a diversidade, ainda que circunscrita, de outrostpicos, como os impossibilia, e de figuras daoposio, como o paradoxo, a anttese, aantonmia: os louvores so delitos, toda alabanzaes osada, que sern los hiprboles ofensas. Brotamcom algum efeito as interrogaes retricas dotipo: Qu hiprbole habr ya que se os aplique? Epredominam os paradoxos metapoticos, cujotema consiste na prpria feitura da poesia temaconstante em Violante do Cu. O tpico podeainda servir de achado para rematar um poemacomo o n. 27, que termina assim: que aplauda tuvalor con mi silencio.Os impossveis com que sor Violante tematiza aactividade potica do encarecimento, multi-plicando a ideia de que o significante fica sempreaqum dum significado sublime, assentam emvariaes sobre imagens tradicionais: semear nagua, arar o vento, aprisionar as ondas, endurecera espuma, edificar no ar, e ainda sobre aconstruo frsica do tipo: atrevase mi pluma / areducir lo inmenso a breve suma ou querer encarecer--vos, eleger os caminhos de perder-vos. Se as realizaesverbais recorrem a frmulas previsveis, o seuemprego acaba por agradar, dada a leveza eelegncia da execuo.Esta uma das caractersticas da arte de srorViolante. Dona do seu estilo, artifce consumada,encontrou uma maneira sua, colhida obviamenteno repertrio de arqutipos e convenes jexperimentadas anteriormente, mas seguindo umprocesso de seleco e uma actualizao do primor,onde sou obrigada a reconhecer uma marcapessoal. inconfundvel o seu modo de dizer o

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    louvor: obsessivo e depurado ou pobre, sequisermos, nos recursos figurativos sempre iguais,sempre os seus , mas instintivamente harmonioso.No elogio dos talentos literrios, ao acentuar adistncia que vai do seu estilo indigno e curto superior eloquncia do escritor, orador ou livrogabado, Violante do Cu converte esse antigo tropodo discurso na matria ou inveno integral deum poema, de muitos poemas encomisticos;outras vezes resolve pedir socorro ao prprioengenho que est a aplaudir (n. 31):

    dctame de ti misma lo que entiendes:pues sola t, tus gracias comprehendes,hars con esta accin que el canto mosea milagro tuyo,y admiracin del orbe el eco suyo.

    O tema da fuso da imortalidade do ser cantadocom a do prprio canto ocorre nesta poesia,podendo servir para, com amplificaes, armarintegralmente um poema de louvor (ou at deamor, como o Soneto n. 1): hacindonos eternos enun punto / a ti la perfecin, a mi el asunto. A individu-alidade de Violante no reside no recurso a esselugar-comum, mas sim na sua eleio exclusiva eno gesto de o converter num concepto orgnico,dotado de energia criadora, ou pelo menos, doa-dora de forma: dele extrai e com ele edifica inte-gralmente um poema. A sua arte a da variaoordenada, quer dizer, moldada numa estruturaunitria, geomtrica e fechada.Uma segunda tctica, restringida a certos poemas, a que expe e desenvolve, intensificando-a, arelao encontrada entre o discurso que objectodo louvor de sor Violante um livro, um sermo,uns versos e o assunto desse mesmo discurso.Por exemplo, na composio n. 28, a escritoravai extremar a oposio entre a excelncia sagradada erudio de um pregador (frei Domingos de S.Toms) e o caso horrendo do assunto tratado numsermo seu, ou seja, o roubo do SS. Sacramento,

    desacato sacrlego cometido na Igreja de SantaEngrcia: que aspira a competencia / la honra con lainjuria. Competem ou imitam-se entre si a honraou valor literrio do sermo e a injria prpria dotema nele tratado.O paradoxo torna-se a figura ou achado retricoque confere a alguns poemas laudatrios a orga-nizao barroca alicerada no nmero dois:bimembraes, paralelismos, simetrias, antteses caso dos Sonetos n.os 15, 16 ou o n. 4. Este ltimoelogia a fineza do amor conjugal da condessa daVidigueira, por meio da amplificao do contrasteclaro-escuro (o Sol do amor manifestado pelaescurido do traje pardo do luto).Uma terceira situao discursiva de carctermetapotico e encomistico, que no envolve atotalidade de uma poesia, a que transforma aMusa ou o voo de mi pluma no sujeito das acesrepresentadas (vejam-se as composies n.os 33 e34). Invocada a Musa, a lira, a mtrica cincia,Apoio, etc., a autora ausenta-se, cumprindo simul-taneamente a obrigao da modstia e a exaltaodo ser louvado, servido j no por si mas peladivindade interpelada.[...]

    Os amores

    1. Podem as observaes metapoticas de Violantedo Cu incidir sobre dois aspectos da relao doamor coma poesia. O primeiro diz respeito aomodo, o segundo funo ou finalidade da escrita.Quanto ao modo, a escritora defende a tcticado encarecimento: ao interpelar a prpria Musapotica, pede-lhe que o seu dizer seja tohiperblico e excessivo quanto o so as perple-xidades dos estados causados pelo amor cantadpues exagerando / lo mismo que estis sentiendo (n.51) a fim de que, pelo canto, as loucuras seconvertam em excelncias, os delrios em acertos.

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    No que diz respeito funo, atr ibuiexplicitamente poesia a vocao para imortalizartanto as glrias quanto as infelicidades do amor com a pluma, coronista ser (n. 1) e; implicita-mente, orienta-a para a biografia sentimental, cujassequncias vo tomando forma durante o exerccioda prpria produo escrita e dela resultam.Ficam assim postulados dois temas de uma teoriapotica da expresso amorosa: a intensidade, poisa poesia s pode ser homloga do estado amoroso,equivalente ou simulacro dos seus excessosparoxsticos (da o elogio da hiprbole); a qualidade,pois ela opera uma transformao alqumica dosentimento, que o arranca efemeridade anedticado tempo, para o candidatar ao bronze da eternidade.So temas que se inserem na interrogaotradicional das misteriosas relaes entre o cantoe a experincia do amor, e na insistente reflexobarroca sobre os efeitos e possibilidades dos cdigosartsticos.Por outro lado, a linguagem potica, ento forte-mente codificada e plena de recursos (com o seulxico, g iros sintcticos, metforas, troposdiscursivos, rimas variadas, referncias mitolgicas,temas consagrados, menu de tpicos e de smiles),estimula a emergncia de cada poema e, com ele,a construo das prprias vivncias amorosas.Topamos assim com uma espcie de histeria oude mediao metapotica no confessionalismo deViolante: o sujeito no sente, pensa ou imaginaantes, escrevendo depois; com efeito, s namedida em que escreve, recorrendo a esquemasliterrios, que os sentimentos e a sua perscrutaologram uma possibilidade de forma consistente,efectiva e necessria. Da o recorrente temametapotico do trnsito entre o modo de expressoe o prprio estatuto da poesia. Sor Violante doCu prolonga pois, tal como tantos outros poetasda poca mas com a sua maneira ao mesmo tempoconvencional e pessoal, a ateno dada ancestralassociao do amor ao canto potico.

    2. No que respeita a situaes enunciativas,predomina na poesia de Violante a queixa contraas penas de amor causadas pela ausncia, pordesdns e demais agravos, por ofensas presumidas,inconstncia, crueldades, e a expresso dodesengano, dos cimes, do temor das mudanas.Isto sobretudo nos versos de medida velha(Dcimas, Glosas, Voltas e Romances). A escritorapersiste na anlise e descrio potica dos sintomasamorosos: desassossego, cativeiro, suspiros,desfalecimentos e toda a espcie de contradiesemocionais. As frmulas conceituosas a que deitamo em cada poema vm condensadas numaorganizao unitria, ora breve ora acumulativa,caracterstica da esttica barroca:

    Que suspenso, que enleio, que cuidado este meu tirano deus Cupido?pois tirando-me em fim todo o sentidome deixa o sentimento duplicado.

    Ao proceder desse modo, sor Violante utiliza omesmo lxico, a mesma sintaxe, as mesmas rimas(mudanas / esperanas, glria / memria) dapoesia cancioneir il do amor corts e dopetrarquismo, com muitos ecos de Garcilaso oude Cames e com o acento caracterstico dasRimas de Lope de Vega. E