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1 PAULO E ESTEVÃO FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER ROMANCE DITADO PELO ESPÍRITO EMMANUEL

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    PAULO E ESTEVO FRANCISCO CNDIDO XAVIER

    ROMANCE DITADO PELO ESPRITO EMMANUEL

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    NDICE Breve Notcia PRIMEIRA PARTE CAPTULO 1 = Coraes flagelados CAPTULO 2 = Lgrimas e sacrifcios CAPTULO 3 = Em Jerusalm CAPTULO 4 = Nas estradas de Jope CAPTULO 5 = A pregao de Estevo CAPTULO 6 = Ante o Sindrio CAPTULO 7 = As primeiras perseguies CAPTULO 8 = A morte de Estevo CAPTULO 9 = Abigail crist CAPTULO 10 = No caminho de Damasco SEGUNDA PARTE CAPTULO 1 = Rumo ao deserto CAPTULO 2 = O tecelo CAPTULO 3 = Lutas e humilhaes CAPTULO 4 = Primeiros labores apostlicos CAPTULO 5 = Lutas pelo Evangelho CAPTULO 6 = Peregrinaes e sacrifcios CAPTULO 7 = As Epstolas CAPTULO 8 = O martrio em Jerusalm CAPTULO 9 = O prisioneiro do Cristo CAPTULO 10 = Ao encontro do Mestre

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    Breve Notcia No so poucos os trabalhos que correm mundo, relativamente tarefa

    gloriosa do Apstolo dos gentios. justo, pois, esperarmos a interrogativa: Por que mais um livro sobre Paulo de Tarso? Homenagem ao grande trabalhador do Evangelho ou informaes mais detalhadas de sua vida?

    Quanto primeira hiptese, somos dos primeiros a reconhecer que o convertido de Damasco no necessita de nossas mesquinhas homenagens; e quanto segunda, responderemos afirmativamente para atingir os fins a que nos pro pomos, transferindo ao papel humano, com os recursos possveis, alguma coisa das tradies do plano espiritual acerca dos trabalhos confiados ao grande amigo dos gentios.

    Nosso escopo essencial no poderia ser apenas rememorar passagens sublimes dos tempos apostlicos, e sim apresentar, antes de tudo, a figura do cooperador fiel, na sua legitima feio de homem transformado por Jesus-Cristo e atento ao divino ministrio.

    Esclarecemos, ainda, que no nosso propsito levantar apenas uma biografia romanceada.

    O mundo est repleto dessas fichas educativas, com referncia aos seus vultos mais notveis. Nosso melhor e mais sincero desejo recordar as lutas acerbas e os speros testemunhos de um corao extraordinrio, que se levantou das lutas humanas para seguir os passos do Mestre, num esforo incessante.

    As igrejas amornecidas da atualidade e os falsos desejos dos crentes, nos diversos setores do Cristianismo, justificam as nossas intenes.

    Em toda parte h tendncias ociosidade do esprito e manifestaes de menor esforo. Muitos discpulos disputam as prerrogativas de Estado, enquanto outros, distanciados voluntariamente do trabalho justo, suplicam a proteo sobrenatural do Cu. Templos e devotos entregam-se, gostosamente, s situaes acomodatcias, preferindo as dominaes e regalos de ordem material.

    Observando esse panorama sentimental til recordarmos a figura inesquecvel do Apstolo generoso.

    Muitos comentaram a vida de Paulo; mas, quando no lhe atriburam certos ttulos de favor, gratuitos do Cu, apresentaram-no como um fantico de corao ressequido. Para uns, ele foi um santo por predestinao, a quem Jesus apareceu, numa operao mecnica da graa; para outros, foi um esprito arbitrrio, absorvente e rspido, inclinado a combater os companheiros, com vaidade quase cruel.

    No nos deteremos nessa posio extremista. Queremos recordar que Paulo recebeu a ddiva santa da viso gloriosa do

    Mestre, s portas de Damasco, mas no podemos esquecer a declarao de Jesus relativa ao sofrimento que o aguardava, por amor ao seu nome.

    Certo que o inolvidvel tecelo trazia o seu ministrio divino; mas, quem estar no mundo sem um ministrio de Deus? Muita gente dir que desconhece a prpria tarefa, que insciente a tal respeito, mas ns poderemos responder que, alm da ignorncia, h desateno e muito capricho pernicioso. Os mais exigentes advertiro que Paulo recebeu um apelo direto; mas, na verdade, todos os homens menos rudes tm a sua convocao pessoal ao servio do Cristo. As formas podem variar, mas a essncia ao apelo sempre

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    a mesma. O convite ao ministrio chega, s vezes, de maneira sutil, inesperadamente; a maioria, porm, resiste ao chamado generoso do Senhor. Ora, Jesus no um mestre de violncias e se a figura de Paulo avulta muito mais aos nossos olhos, que ele ouviu, negou-se a si mesmo, arrependeu-se, tomou a cruz e seguiu o Cristo at ao fim de suas tarefas materiais. Entre perseguies, enfermidades, apodos, zombarias, desiluses, deseres, pedradas, aoites e encarceramentos, Paulo de Tarso foi um homem intrpido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da sua vida.

    Foi muito mais que um predestinado, foi um realizador que trabalhou diariamente para a luz.

    O Mestre chama-o, da sua esfera de claridadeS imortais. Paulo tateia na treva das experincias humanas e responde: Senhor, que queres que eu faa?

    Entre ele e Jesus havia um abismo, que o Apstolo soube transpor em decnios de luta redentora e constante.

    Demonstr-lo, para o exame do quanto nos compete em trabalhO prprio, a fim de Ir ao encontro de Jesus, o nosso objetivo.

    Outra finalidade deste esforo humilde reconhecer que o Apstolo no poderia chegar a essa possibilidade, em ao isolada no mundo.

    Sem Estevo, no teramos Paulo de Tarso. O grande mrtir do Cristianismo nascente alcanou influncia muito mais vasta na experincia paulina, do que poderamos imaginar to-s pelos textos conhecidos nos estudos terrestres. A vida de ambos est entrelaada com misteriosa beleza. A contribuio de Estevo e de outras personagens desta histria real vem confirmar a necessidade e a universalidade da lei de cooperao. E, para ve-rificar a amplitude desse conceito, recordemos que Jesus, cuja misericrdia e poder abrangiam tudo, procurou a companhia de doze auxiliares, a fins de empreender a renovao do mundo.

    Alis, sem cooperao, no poderia existir amor; e o amor a fora de Deus, que equilibra o Universo.

    Desde j, vejo os crticos consultando textos e combinando versculos para trazerem tona os erros do nosso tentame singelo. Aos bem-intencionados agradecemos sinceramente, por conhecer a nossa expresso de criatura falvel, declarando que este livro modestO foi grafado por um Esprito para os que vivam em esprito; e ao pedantismo dogmtico, ou literrio, de todos os tempos, recorremos ao prprio Evangelho para repetir que, se a letra mata, o esprito vivifica.

    Oferecendo, pois, este humilde trabalho aos nossos irmos da Terra, formulamos votos para que o exemplo do Grande Convertido se faa mais claro em nossos coraes, a fim de que cada discpulo possa entender quanto lhe compete trabalhar e sofrer, por amor a Jesus-Cristo.

    Pedro Leopoldo, 8 de julho de 1941.

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    PRIMEIRA PARTE

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    1 Coraes flagelados

    A manh enfeitava-se de muita alegria e de sol, mas as ruas centrais de Corinto estavam quase desertas. No ar brincavam as mesmas brisas perfumadas, que sopravam de longe; entretanto, no se observava, na fisionomia suntuosa das vias pblicas, o sorriso de suas crianas despreocupadas, nem o movimento habitual das liteiras de luxo, em seu giro costumeirO. A cidade, reedificada por Jlio Csar, era a mais bela jia da velha Acaia, servindo de capital formosa provncia. No se podia encontrar, na sua intimidade, o esprito helnico em sua pureza antiga, mesmo porque, depois de um sculo de lamentvel abandono, aps a destruio operada por Mmio, restaurando-a, o grande imperador transformara Corinto em colnia importante de romanos, para onde acorrera grande nmero de libertos ansiosos de trabalho remunerador, ou proprietrios de promissoras fortunas. A estes, associara-se vasta corrente de israelitas e considervel percentagem de filhos de outras raas que ali se aglomeravam, transformando a cidade em ncleo de convergncia de todos os aventureiros do Oriente e do Ocidente. Sua cultura estava muito distante das realizaes intelectuais do gosto grego mais eminente, misturando-se, em suas praas, os templos mais diversos. Obedecendo, talvez, a essa heterogeneidade de sentimentos, Corinto tornara-se famosa pelas tradies de libertinagem da grande maioria dos seus habitantes.

    Os romanos l encontravam campo largo para as suas paixes, entregando-se, desvairadamente, ao venenoso perfume desse jardim de flores exticas. Ao lado dos aspectos soberbos e das pedrarias rutilantes, o pntano das misrias morais exalava nauseante bafio. A tragdia foi sempre o preo doloroso dos prazeres fceis. De quando em quando, os grandes escndalos reclamavam as grandes represses.

    Nesse ano de 34, a cidade em peso fora atormentada por violenta revolta dos escravos oprimidos.

    Crimes tenebrosos foram perpetrados na sombra, exigindo severas devassas. O Pr-consul no hesitara, ante a gravidade da situao. Expedindo mensageiros oficiais, solicitara de Roma os recursos precisos. E os recursos no tardaram. Em breve, a galera das guias dominadoras, auxiliada por ventos favorveis, trazia no bojo as autoridades da misso punitiva, cuja ao deveria esclarecer os acontecimentos.

    Eis por que, nessa manh radiosa e alegre, os edifcios residenciais e as lojas do comrcio apresentavam-se envolvidos em profundo silncio, semicerrados e tristes. Os transeuntes eram raros, com exceo de vrios ma-gotes de soldados, que cruzavam as esquinas despreocupados e satisfeitos, como quem se entregava, de bom grado, ao sabor das novidades.

    J de alguns dias, um chefe romano, cujo nome se fazia acompanhar de sombrias tradies, fora recebido pela Corte Provincial, ali desempenhando as elevadas fnes de legado de Csar, cercado de grande nmero de agentes polticos e militares e estabelecendo o terror entre todas as classes, com os seus processos infamantes. Licnio Mincio chegara ao poder, mobilizando todos os recursos da intriga e da calnia. Conseguindo voltar a Corinto, onde estacionara anos antes, sem maior autoridade, tudo ousava agora, por

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    aumentar seus cabedais, fruto de avareza insacivel e sem escrpulos. Pretendia recolher-se, mais tarde, queles stios, onde suas propriedades particulares atingiam grandes propores, esperando a a noite da decrepitude. Assim, de maneira a consumar seus criminosos desgnios, iniciou largo mo-vimento de arbitrrias expropriaes, a pretexto de garantir a ordem pblica em benefcio do poderoso Imprio, que a sua autoridade representava.

    Numerosas famlias de origem judaica foram escolhidas como vtimas preferenciais da nefanda extorso.

    Por toda parte comeavam a chorar os oprimidos; entretanto, quem ousaria o recurso das reclamaes pblicas e oficiais? A escravido esperava sempre os que se entregassem a qualquer impulso de liberdade contra as expresses da tirania romana. E no era s a figura desprezvel do odioso funcionrio que constitua para a cidade uma angustiosa e permanente ameaa. Seus asseclas espalhavam-se em vrios pontos das vias pblicas, provocando cenas insuportveis, caractersticas de uma perversidade inconsciente.

    A manh ia alta, quando um homem idoso, dando a entender que buscava o mercado, pelo cesto que lhe pendia das mos, atravessava a passos vagarosos uma praa ensolarada e extensa.

    Um grupo de tribunos alvejava-o com ditrios deprimentes, entre gargalhadas de ironia.

    O velhinho, que denunciava nos traos fisionmicos a linha israelita, demonstrava perceber o ridculo de que vinha sendo objeto; mas, distanciando-se dos militares patrcios, como desejoso de resguardar-se, caminhou com mais timidez e humildade, desviando-se em silncio.

    Foi nesse instante que um dos tribunos, em cujo olhar autoritrio perpassava acentuada malcia, acercou-se dele, interrogando-o asperamente:

    Ol, judeu desprezvel, como ousas passar sem saudar os teus senhores?

    O interpelado estacou, plido e trmulo. Seus olhos revelaram estranha angstia que resumia, na sua eloqncia silenciosa, todos os martrios infinitos que flagelavam a sua raa. As mos enrugadas lhe tremiam ligeiramente, enquanto o busto se arqueava reverente, premindo a longa barba encanecida.

    Teu nome? tornou o oficial, entre desrespeitoso e irnico. Jochedeb, filho de Jared respondeu timidamente.

    E por que no saudaste os tribunos imperiais? Senhor, eu no ousei! explicou quase lacrimoso. No ousaste? perguntou o oficial com profunda aspereza. E, antes que o interpelado conseguisse oportunidade para mais amplas

    desculpas, o mandatrio imperial assentou-lhe os punhos cerrados no rosto venervel, em bofetes sucessivos e impiedosos.

    Toma! Toma! exclamava rudemente, ao estridor das gargalhadas dos companheiros presentes cena, em tom festivo guarda mais esta lembrana! Co asqueroso, aprende a ser educado e agradecido!...

    O velhinho cambaleou, mas no reagiu. Percebia-se-lhe a surda revolta ntima, a traduzir-se no olhar chamejante, indignado, que lanou ao agressor com uma serenidade terrvel. Num movimento espontneo, olhou os braos encarquilhados na luta e no sofrimento, reconhecendo a inutilidade de qualquer revide. Foi quando o verdugo inesperado, observando-lhe a calma silenciosa, pareceu medir a extenso da prpria covardia e, colando as mos na complicada armadura do cinto, voltou a dizer com profundo desdm:

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    Agora que recebeste a lio, podes procurar o mercado, judeu insolente!

    A vtima dirigiu-lhe, ento, um olhar de ansiosa amargura, no qual transpareciam as dolorosas angstias em toda uma longa existncia. Emoldurado na tnica singela e na velhice venervel, aureolada por cabelos branqueados nas mais penosas experincias da vida, o olhar do ofendido semelhava-se a um dardo invisvel que penetraria, para sempre, a conscincia do agressor desrespeitoso e mau. No entanto, aquela dignidade ferida no se demorou muito na atitude de exprobrao, intraduzvel em palavras. Em breves instantes, suportando os ditrios da geral zombaria, prosseguiu no objetivo que o levara a sair rua.

    O velho Jochedeb experimentava agora estranhas e amargas reflexes. Duas lgrimas quentes e doloridas sulcavam-lhe as rugas da face macilenta, perdendo-se nos fios grisalhos da barba veneranda. Que fizera para merecer to pesados castigos? A cidade fora trabalhada pelos movimentos de rebeldia de numerosos escravos, mas seu pequeno lar prosseguia com a mesma paz dos que trabalham com dedicao e obedincia a Deus.

    A humilhao experimentada fazia-o regressar, pela imaginao, aos perodos mais difceis da histria de sua raa. Por que motivo, e at quando sofreriam os israelitas a perseguio dos elementos mais poderosos do mundo? Qual a razo de serem sempre estigmatizados, como indignos e miserveis, em todos os recantos da Terra? Entretanto, amavam sinceramente aquele Pai de justia e amor, que velava dos Ceus pela grandeza da sua f e pela eternidade dos seus destinos. Enquanto OS outros povos se entregavam ao relaxamento das foras espirituais, transformando esperanas sagradas em expresses de egosmo e idolatria, Israel sustentava a lei do Deus nico, esforando-se, em todas as circunstncias, por conservar intacto o seu patrimnio religioso, com sacrifcio embora da sua independncia poltica.

    Acabrunhado, O pobre velho meditava na prpria sorte. Esposo dedicado, enviuvara quando aquele mesmo Licnio Mincio,

    questor do Imprio, anos antes, instaurara nefandos processos em Corinto, a fim de punir alguns elementos de sua populao descontente e rebelada. Sua grande fortuna pessoal fora extremamente reduzida e houve de amargar uma priso injusta, resultante de falsas acusaes, que lhe valeram pesados dissabores e terrveis confiscos. Sua mulher no havia resistido aos sucessivos golpes que lhe feriram fatalmente o corao sensvel, mergulhando-se na morte, ralada de acerbos desgostoS e deixando-lhe os dois filhinhos que constituam a coroa de esperana da sua laboriosa existncia. Jeziel e Abigail desenvolviam-se sob o carinho de seuS braos afetuosos e, por eles, no acmulo dos sagrados deveres domsticos, sentia que a neve da estrada humana lhe alvejara precocemente os cabelos, consagrando a Deus as suas mais santas experincias. mente lhe veio ento, mais viva, a silhueta graciosa dos filhos. Era um lenitivo conhecer o sabor agradvel das experincias do mundo, a benefcio deles. O tesouro filial compensava-o das flagelaes em cada acidente do caminho. A evocao do lar, onde o amor carinhoso dos filhos alimentava as esperanas paternas, suavizou-lhe as amarguras.

    Que importava a brutalidade do romano conquistador, quando sua velhice se aureolava dos mais santos afetos do corao? Experimentando resignado consolo, chegou ao mercado, onde se abasteceu do que necesitava.

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    O movimento no era intenso na feira habitual, como nos dias mais comuns; entretanto, havia certa concorrncia de compradores, mormente de libertos e pequenos proprietrios, que afluiam das estradas de Cencria.

    Mal no havia terminado a compra de peixe e legumes, luxuosa liteira parou no centro da praa e dela saltou um oficial patrcio, desdobrando largo pergaminho. Ao sinal de silncio, que fizera emudecer todas as vozes, a palavra da estranha personagem vibrou forte na leitura fiel do dito que trazia:

    Licnio Mincio, questor do Imprio e legado de Csar, encarregado de abrir nesta provncia a necessria devassa para restabelecimento da ordem em toda a Acata, convida a todos os habitantes de Corinto que se considerarem prejudicados em seus interesses pessoais, ou que se encontrarem necessitados de amparo legal, a comparecerem amanh, ao meio-dia, no palcio provincial, junto ao templo de Vnus Pandemos, a fim de exporem suas queixas e reclamaes, que sero plenamente atendidas pelas autoridades competentes.

    Lido o aviso, o mensageiro retornou a elegante viatura, que, sustentada por hercleos braos escravos, desapareceu na primeira esquina, envolvida por uma nuvem de p levantada em remoinho pela ventania da manh.

    Entre os circunstantes, surgiram logo opinies e comentrios. Os queixosos no tinham conta. O legado e seus prepostos logo de

    comeo se apossaram de pequenos patrimnios territoriais da maioria das famlias mais humildes, cujos recursos financeiros no davam para custear processos no foro provincial. Da, a onda de esperanas que avassalava o corao de muitos e a opinio pessimista de outros, que no enxergavam no dito seno nova cilada, para obrigar os reclamantes a pagarem muito caro as suas legtimas reivindicaes.

    Jochedeb ouviu a comunicao oficial, colocando-se imediatamente entre os que se julgavam com direito a esperar legtima indenizao pelos prejuzos sofridos noutros tempos.

    Animado das melhores esperanas, desandou para casa, escolhendo caminho mais longo, de modo a evitar novo encontro com os que o haviam humilhado rudemente.

    No havia caminhado muito, quando lhe surgiram frente novos grupos de militares romanos, em conversaes ruidosas, que transbordavam alacremente nas claridades da manh.

    Defrontando o primeiro grupo de tribunos e sentindo-se alvo de comentrios deprimentes a transparecerem em risos escarninhos, o velho israelita considerou: Deverei saud-los, ou passar mudo e reverente, como procurei fazer na vinda? Preocupado com o evitar novo pugilato que agravasse as humilhaes daquele dia, inclinou-se profundamente qual msero escravo e murmurou, tmido:

    Salve, valorosos tribunos de Csar! Mal acabou de o dizer e um oficial de fisionomia dura e impassvel se

    acercou, exclamando colrico: Que isso? Um judeu a dirigir-se impunemente aos patrcios? Chegou a

    tanto a condenvel tolerncia da autoridade provincial? Faamos justia por nossas prprias mos.

    E novas bofetadas estalaram no rosto dorido do infeliz, que necessitava concentrar todas as energias na vontade para no se atirar, de qualquer modo, a uma reao desesperada. Sem uma palavra de justificao, o filho de Jared

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    submeteu-se ao castigo cruel. Seu corao precipite, parecia rebentar de angstia no peito envelhecido; todavia, o olhar refletia a intensa revolta que lhe ia na alma opressa. Impossibilitado de coordenar idias em face da agresso inesperada, na sua atitude humilde reparou que, desta vez, o sangue jorrava das narinas, tingindo-lhe a barba branca e o linho singelo das vestiduras. Isso, porm, no chegou a sensibilizar o agressor, que, por fim, lhe vibrou a ltima punhada na fronte enrugada, murmurando:

    Safa-te, insolente! Sustentando, a custo, o cesto que lhe pendia dos braos trmulos,

    Jochedeb avanou cambaleante, sufocando a exploso do seu extremo desespero. Ah! ser velho! pensava.

    Simultaneamente, os smbolos da f modificavam-lhe as disposies espirituais, e sentia no ntimo a palavra antiga da Lei: No matars. No entanto, os ensinamentos divinos, a seu ver, na voz dos profetas, aconselhavam o revide olho por olho, dente por dente. Seu esprito guardava a inteno da represlia como remdio s reparaes a que se julgava com direito; mas as foras fsicas j no eram compatveis com os requisitos da reao.

    Profundamente humilhado e presa de angustiosos pensamentos, buscou recolher-se ao lar, onde se aconselharia com os filhos muito amados, em cujo afeto encontraria, decerto, a necessria inspirao.

    Sua modesta vivenda no demorava longe e, ainda a distncia, acabrunhado, entreviu o singelo e pequenino teto do qual fizera a edcula do seu amor. Presto, enveredou na trilha que terminava na cancelinha tosca, quase afogada pelas roseiras de Abigail, a exalarem forte e delicioso perfume. As rvores verdes e copadas espalhavam frescor e sombra, que atenuavam o rigor do sol. Uma voz clara e amiga chegava de longe aos seus ouvidos. O corao paternal adivinhava. quela hora, Jeziel, conforme o programa por ele mesmo traado, arava a terra, preparando-a para as primeiras semeaduras. A voz do filho parecia casar-se alegria do sol.

    A velha cano hebraica, que lhe saa dos lbios quentes de mocidade, era um hino de exaltao ao trabalho e Natureza. Os versos harmoniosos falavam do amor terra e da proteo constante de Deus. O generoso pai afogava, a custo, as lgrimas do corao. A melodia popular sugeria-lhe um mundo de reflexes. No havia trabalhado a existncia inteira? No se presumia um homem honesto nos mnimos atos da vida, para jamais perder o ttulo de justo? Entretanto, o sangue da perseguio cruel ali estava a pingar-lhe da barba veneranda sobre a tnica branca e indene de qualquer mcula que lhe pudesse atormentar a conscincia.

    Ainda no transpusera o cercado rstico da vivenda humilde, quando uma voz cariciosa lhe gritava assustadia e veemente:

    Pai! Pai! que sangue esse? Uma jovem de notvel formosura corria a abra-lo com imensa ternura, ao

    mesmo tempo que lhe arrancava o cesto das mos trmulas e doloridas. Abigail, na candidez dos seus dezoito anos, era um gracioso resumo de

    todos os encantos das mulheres da sua raa. Os cabelos sedosos caam-lhe em anis caprichosos sobre os ombros, emoldurando-lhe o rosto atraente num conjunto harmonioso de simpatia e beleza. No entanto, o que mais impressionava, no seu talhe esbelto de menina e moa, eram os olhos profundamente negros, nos quais intensa vibrao interior parecia falar dos

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    mais elevados mistrios do amor e da vida. Filhinha, minha querida filha! murmurou ele, amparando-se nos seus

    braos carinhosos. Em breve, dava conta de todas as ocorrncias. E, enquanto o velho genitor

    banhava o rosto contundido, na infuso balsmica que a filha preparara cuidadosamente, Jeziel era chamado a inteirar-se do acontecido.

    O jovem acorreu solcito e pressuroso. Abraado ao pai, ouviu-lhe o desabafo amargo, palavra por palavra. No vigor da juventude, no se lhe poderia dar mais de vinte e cinco anos; mas o comedimento dos gestos e a gravidade com que se exprimia, deixavam entrever um esprito nobre, ponderado e servido por uma conscincia cristalina.

    Coragem, pai! exclamou depois de ouvir a dolorosa exposio, pondo nas expresses de firmeza um acentuado cunho de ternura nosso Deus de justia e sabedoria. Confiemos na sua proteo!

    Jochedeb contemplou o filho de alto a baixo, fixando-lhe o olhar bondoso e calmo, onde desejaria lobrigar, naquele momento, a indignao que lhe parecia natural e justa, dominado pelo desejo das represlias. verdade que criara Jeziel para as alegrias puras do dever, em obedincia leal execuo da lei; entretanto, nada o compelia a abandonar suas idias de desforra, de maneira a desafrontar-se dos ultrajes recebidos.

    Filho obtemperou depois de meditar longo tempo , Jeov cheio de justia, mas os filhos de Israel, como escolhidos, precisam igualmente exerc-la. Poderamos ser justos, olvidando afrontas? No poderei descansar, sem o repouso da consincia pela obrigao cumprida. Tenho necessidade de assinalar os erros de que fui vtima, no presente e no passado, e amanh irei ao legado ajustar minhas contas.

    O jovem hebreu fez um movimento de espanto e acrescentou: Ireis, porventura, presena do questor Licnio, esperando providncias

    legais? E os antecedentes, meu pai? Pois no foi esse mesmo patrcio quem vos despojou de grande patrimnio territorial, atirando-vos ao crcere? No vedes que ele tem nas mos as foras da iniqidade? No ser de temer novas investidas com o fim de extorquir o pouco que nos resta?

    Jochedeb mergulhou no olhar do filho, olhar que a nobreza do corao orvalhava de lgrimas emotivas, porm, na sua rigidez de carter, acostumado a executar os desgnios prprios at ao fim, exclamou quase seca-mente:

    Como sabes, tenho contas velhas e novas a acertar, e, amanh, de conformidade com o dito, aproveitarei o ensejo que o Governo provincial nos faculta.

    Meu pai, suplico-vos advertiu o rapaz, entre respeitoso e carinhoso no lanceis mo desses recursos!

    E as perseguies? explodiu o velho energicamente e esse turbilhO incessante de ignomnias em torno dos homens de nossa raa? No haver um paradeiro nesse caminho de infinitas angstias? Assistiremos, inermes, ao enxovalho de tudo que possuimos de mais sagrado? Tenho o corao revoltado com esses crimes odiosos, que nos atingem impunemente...

    A voz tornara-se-lhe arrastada e melanclica, deixando perceber extremo desnimo; todavia, sem se perturbar com as objees paternas, Jeziel prosseguiu: - Essas torturas, entretanto, no so novas. H muitos sculos, os faras do Egito levaram to longe a crueldade para com os nossos ascendentes, que

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    os meninos de nossa raa eram trucidados logo ao nascer. Antoco Epifnio, na Sria, mandou degolar mulheres e crianas, no recesso mesmo dos nossos lares. Em Roma, de tempos a tempos, todos os israelitas sofrem vexames e confiscos, perseguio e morte. Mas, certamente, meu pai, Deus permite que assim acontea para que Israel reconhea, nos sofrimentos mais atrozes, a sua misso divina.

    O velho israelita parecia meditar as ponderaes do filho; contudo, acrescentou resoluto:

    Sim, tudo isso verdade, mas a justia reta deve ser cumprida, ceitil por ceitil, e nada poder demover-me.

    Ento, ireis reclamar, amanh, perante o legado? Sim! Nesse momento, o olhar do jovem demorou na velha mesa onde repousava

    a coleo dos Escritos Sagrados da famlia. Animado por sbita inspiraO, Jeziel lembrou humildemente:

    Pai, no tenho o direito de exortar-vos, mas vejamos o que nos suscita a palavra de Deus a respeito do que pensais neste momento.

    E abrindo os textos ao acaso, conforme o costume da poca, a fim de conhecer a sugesto que lhes pudessem facultar as sagradas letras, leu na parte dos Provrbios:

    Filho meu, no rejeites o corretivo do Senhor, nem te enojes de sua repreenso; porque Deus repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem. (1)

    O velho israelita abriu os olhos espantados, revelando a estupefao que a mensagem indireta lhe causava; e como Jeziel o fixasse longamente, demonstrando ansioso interesse por conhecer-lhe a atitude ntima, em face da sugesto dos pergaminhos sagrados, acentuou:

    Recebo a advertncia dos Escritos, meu filho, mas no me conformo com a injustia e, segundo tenho resolvido, levarei minha queixa s autoridades competentes.

    O rapaz suspirou e disse resignado: Que Deus nos proteja!... No dia seguinte, avolumava-se compacta multido junto ao templo da

    Vnus popular. Do antigo casaro onde funcionava um tribunal improvisado, viam-se as luxuosas e extravagantes viaturas que cruzavam a grande praa em todas as direes. Eram patrcios que se dirigiam s audincias da Corte Provinciana, ou antigos proprietrios da fortuna particular de Corinto, que se entregavam aos entretenimentos do dia, custa do suor dos misrrimos cativos. Desusado movimento caracterizava o local, observando-se, de vez em quando, os oficiais embriagados que deixavam o ambiente viciado do templo da famosa deusa, entupido de capitosos perfumes e condenveis prazeres.

    Jochedeb atravessou a praa, sem se deter para fixar qualquer detalhe da multido que o rodeava e penetrou no recinto, onde Licnio Mincio, cercado de muitos auxiliares e soldados, expedia numerosas ordens.

    Os que se atreveram queixa pblica excediam to-somente de uma centena e, depois de prestarem declaraes individuais, sob o olhar percuciente do legado, eram (1) Provrbios, captulo 3, versculos 11 e 12.

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    um por um conduzidos para a soluo isolada do assunto que lhes dizia respeito.

    Chegada a sua vez, o velho israelita exps suas reclamaes particulares, atinentes s indbitas expropriaes do passado e aos insultos de que fora vtima na vspera, enquanto o orgulhoso patrcio lhe anotava as menores palavras e atitudes, do alto de sua ctedra, como quem j conhecia, de longo tempo, a personagem em causa. Conduzido novamente ao interior, Jochedeb esperou, como os demais, a soluo dos seus pedidos de reparao Justia; mas aos poucos, enquanto outros eram convocados nominalmente ao acerto das contas com o Governo provincial, reparava que o antigo casaro se envolvia em grande silncio, percebendo que sua vez, possivelmente, fora adiada por circunstncias que no podia presumir.

    Instado nominalmente a dirigir-se ao juiz, ouviu, grandemente surpreendido, a sentena negativa, lida por um oficial que desempenhava as atribuies de secretrio daquela alada.

    O legado imperial, em nome de Csar, resolve ordenar o confisco da suposta propriedade de Jochedeb ben Jared, concedendo-lhe trs dias para desocupar as terras que ocupa indebitamente, visto pertencerem, com fundamento legal, ao questor Licinio Mincio, habilitado a provar, a qualquer tempo, seus direitos de propriedade.

    A deciso inesperada causou intensa comoo ao velho israelita, a cuja sensibilidade aquelas palavras levaram um efeito de morte. Nem saberia definir a angustiosa surpresa. No confiara na Justia e no estava procura de sua ao reparadora? Queria gritar o seu dio, manifestar suas pungentes desiluses; mas a lngua estava como que petrificada na boca retrada e trmula. Aps um minuto de profunda ansiedade, fixou no alto a figura detestada do antigo patrcio, que lhe causava, agora, a derradeira runa, e, envolvendo-o na vibrao colrica da alma revoltada e sofredora, encontrou energias para dizer:

    ilustrssimo questor, onde est a eqidade das vossas sentenas? Venho at aqui implorando a interveno da Justia e me retribus a confiana com mais uma extorso que me aniquilar a existncia? No passado, sofri a desapropriao descabida de todos os meus bens territoriais, conservando com enormes sacrifcios a chcara humilde, onde pretendo esperar a morte!... Ser crivel que vs, dono de opulentos latifndios, no sintais remorso? Era subtrair ao msero velho a derradeira cdea de po?

    O orgulhoso romano, sem um gesto que denotasse a mais leve emoo, retrucou secamente:

    Ponha-se na rua; e que ningum discuta as decises imperiais! No discutir? clamou Jochedeb j desvairado.

    No poderei altear a voz amaldioando a memria dos criminosos romanos que me espoliaram? Onde colocareis vossas mos, envenenadas com o sangue das vtimas e as lgrimas das vivas e dos rfos esbulhados, quando soar a hora do julgamento no Tribunal de Deus?...

    Mas, recordando subitamente o lar povoado pela ternura dos filhos amorosos, modificou a atitude mental, sensibilizado nas fibras recnditas do ser. Prostrando-se, de joelhos, em convulsivo pranto, exclamou comovedora-mente:

    Tende piedade de mim, Ilustrssimo!... Poupai-me a vivenda modesta,

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    onde, acima de tudo, sou pai... Meus filhos esperam-me com o beijo da sua afeio sincera e desvelada!...

    E acrescentava, afogado em lgrimas: Tenho dois filhos que so duas esperanas do corao. Poupai-me, por

    Deus! Prometo conformar-me com esse pouco, nunca mais reclamarei!... Entretanto, o legado impassvel respondeu com frieza, dirigindo-se a um

    soldado: Esprtaco, para que esse judeu impertinente se afaste do recinto, com

    as suas lamentaes, dez bastonadas. O preposto formalizou-se para cumprir imediatamente a ordem, mas o juiz

    implacvel acrescentou: Tenha cuidado em no lhe cortar o rosto, para que o sangue no escandalize os transeuntes.

    De joelhos, o pobre Jochedeb suportou o castigo e, terminada a prova, levantou-se, cambaleante, alcanando a praa ensolarada, sob as risotas disfaradas de quantos haviam presenciado o ignbil espetculo. Nunca, em sua vida, experimentara to intenso desespero como naquela hora. Quereria chorar e tinha os olhos frios e secos, lamentar a desdita imensa e os lbios estavam petrificados de revolta e dor. Parecia um sonmbulo vagando inconsciente entre as viaturas e os transeuntes que se aglomeravam na praa enorme.

    Contemplou com extrema e ntima repugnncia o templo de Vnus. Desejava ter voz estentrica e poderosa para humilhar todos os circunstantes com a palavra da condenao.

    Observando as cortess coroadas que o encontravam, as armaduras dos tribunos romanos e a ociosa atitude dos afortunados que passavam despercebidos do seu martrio, molemente recostados nas liteiras vistosas da poca sentiu-se como que mergulhado num dos pntanos mais odiosos do mundo, entre os pecados que os profetas da sua raa jamais se cansaram de profligar, com todas as veras do corao consagrado ao Todo-Poderoso. Corinto, a seus olhos, era uma nova edio da Babilnia condenada e desprezvel.

    De sbito, apesar dos tormentos que lhe perturbavam a alma exausta, recordou novamente os filhos queridos, sentindo, por antecipao, a profunda amargura que a notcia da sentena lhes causaria ao esprito sensvel e afetuoso. A lembrana da ternura de Jeziel enternecia-lhe o peito galvanizado no sofrimento. Teve a impresso de v-lo ainda a seus ps, suplicando desistisse de qualquer reclamao e, aos ouvidos, ecoava-lhe agora, com mais intensidade, a exortao dos Escritos: Filho meu, no rejeites a repreenso do Senhor!

    Mas, ao mesmo tempo, idias destruidoras invadiam-lhe o crebro cansado e dolorido. A Lei sagrada estava cheia de smbolos de justia. E, para ele, impunha-se como dever soberano providenciar a reparao que lhe parecia conveniente. Agora, em desolao suprema, regressava ao lar, despojado de tudo que possua de mais humilde e mais simples, e j no fim da vida! Como lhe viria o po de amanh? Sem elementos de trabalho e sem teto, via-se constrangido a peregrinar em situao parasitria, ao lado da juventude dos filhos.

    Inenarrvel martrio moral sufocava-lhe o corao. Dominado por acerbos pensamentos, aproximou-se do stio bem-amado,

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    onde edificara o ninho familiar. O sol quente da tarde fazia mais doce a sombra das rvores, de ramarias verdes e abundantes. Jochedeb avanou no terreno, que era propriedade sua, e, angustiado pela perspectiva de abandon-lo para sempre, deu ensejo a que terrveis tentaes lhe desvairassem a mente. As terras de Licnio no se limitavam com a chcara? Afastando-se do caminho que o levava ao ambiente domstico, penetrou nos matagais prximos e, depois de alguns passos, demorou o olhar na linha de demarcao, entre ele e o seu verdugo. As pastagens do outro lado no pareciam bem cuidadas. A falta de melhor distribuio da gua comum, certa secura geral fazia-se sentir aspe-ramente. Apenas algumas rvores, isoladas, amenizavam a paisagem com a sua sombra, refrescando a regio abandonada, entre espinheiros e parasitas que sufocavam as ervas teis.

    Obcecado pela idia de reparao e vingana, o velho israelita deliberou incendiar as pastagens prximas. No consultaria os filhos, que, possivelmente, dobrariam o seu esprito, inclinados tolerncia e benignidade. Jochedeb recuou alguns passos e, recorrendo ao material de servio ali guardado nas proximidades, fez o fogo com que acendeu um feixe de ervas ressequidas. O rastilho comunicou-se, clere, e em rpidos minutos o incndio das pastagens propagava-se com a velocidade do relmpago.

    Terminada a tarefa, sob a penosa impresso dos ossos doloridos, regressou cambaleante ao lar, onde Abigail o inquiriu, inutilmente, dos motivos de to profundo abatimento. Jochedeb deitou-se espera do filho; mas, dentro em pouco, um rudo ensurdecedor ecoava-lhe aos ouvidos. No longe da chcara, o fogo destrua rvores amigas e frondes robustas, reduzindo pastos verdes a punhados de cinzas. Grande rea ardia, irremediavelmente, escutando-se os gritos lamentosos das aves que fugiam espavoridas. Pequenas benfeitorias do questor, inclusive algumas termas pitorescas de sua predileo, construdas entre as rvores, ardiam igualmente, convertendo-se em negros escombros. Aqui e acol, o alarido dos trabalhadores do campo, em espantosa correria por salvar da destruio a residncia campestre do pode-roso patrcio, ou procurando insular a serpente de fogo que lambia a terra em todas as direes, aproximando-Se dos pomares vizinhos.

    Algumas horas de ansiedade espalharam as mais angustiosas expectativas; mas, ao fim da tarde, o incndio fora dominado, depois de ingentes esforos.

    Debalde o velho judeu enviara mensagens procura do filho, dentro dos crculos de servio da sua pequena herdade. Desejava falar a Jeziel das suas necessidades e da situao tormentosa em que se encontravam novamente, ansioso por descansar a mente atormentada nas palavras dulcificantes da sua ternura filial. Entretanto, somente noite, com as vestes chamuscadas e as mos ligeiramente feridas, o jovem entrou em casa, deixando entrever no cansao da fisionomia a laboriosa tarefa a que se impusera. Abigail no se surpreendeu com o seu aspecto, entendendo que o irmo no deixara de auxiliar os companheiros de trabalho da vizinhana, nas ocorrncias da tarde, preparando-lhe aos ps cansados e s mos doloridas o banho de gua aromatizada; mas, to logo o viu e notou as mos feridas, foi com espanto que Jochedeb exclamou:

    Onde estiveste, filho meu? Jeziel falou da cooperao espontnea no salvamento da propriedade

    vizinha e, medida que relatava os tristes sucessos do dia, o pai deixava trair a

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    prpria angstia nas fcies sombrias, em que se estereotipavam os traos rudes da revolta que lhe devorava o corao. Ao cabo de alguns minutos, erguendo a voz desalentada, falou com profunda emoo:

    Meus filhos, custa dizer-lhes, mas fomos espoliados na derradeira migalha que nos resta... Reprovando minha reclamao sincera e justa, o legado de Csar determinou o seqestro do nosso prprio lar. A inqua sentena o passaporte da nossa runa total. Pelas suas disposies, somos obrigados a abandonar a chcara em trs dias!

    E, elevando os olhos para o Alto, como a insistir junto divina misericrdia, exclamava com o olhar embaciado de lgrimas:

    Tudo perdido!... Por que fui assim desamparado, meu Deus? Onde a liberdade do vosso povo fiel, se, em toda parte, nos exterminam e perseguem sem piedade?

    Grossas lgrimas escorriam-lhe pelas faces, enquanto com a voz trmula narrava aos filhos os pesados tormentos de que fora vtima. Abigail osculava-lhe as mos enternecidamente, e Jeziel, sem qualquer aluso rebeldia paterna, abraava-o depois da sua dolorosa exposio, consolando-o com amor: - Meu pai, por que vos atemorizardes? Deus nunca avaro de misericrdia. Os Escritos Sagrados nos ensinam que Ele, antes de tudo, o Pai desvelado de todos os vencidos da Terra! Essas derrotas chegam e passam. Tendes os meus braos e o cuidado afetuoso de Abigail. Por que lastimar, se amanh mesmo, com o socorro divino, poderemos sair desta casa, para buscar outra em qualquer parte, a fim de nos consagrarmos ao trabalho honesto? Deus no guiou o nosso povo expulso do lar, atravs do oceano e do deserto? Por que negaria, ento, seu apoio a ns que tanto o amamos neste mundo? Ele a nossa bssola e a nossa casa. Os olhos de Jeziel fixavam o velho genitor numa atitude de splica profundamente cariciosa. Suas palavras revelavam o mais doce enternecimento no corao. Jochedeb no era insensvel quelas formosas manifestaes de carinho; mas, ante a revelao de tanta confiana no poder divino, sentia-se envergonhado, depois do ato extremo que praticara. Descansando na ternura que a presena dos filhos lhe oferecia ao esprito desolado, dava curso s lgrimas dolorosas que lhe fluam da alma pungida por acerbas desiluses. Entretanto, Jeziel continuava:

    No choreis meu pai, contai conosco! Amanh, eu prprio providenciarei a nossa retirada, como se faz preciso.

    Foi nesse instante que a voz paternal se ergueu soturna e acentuou: Mas no tudo, meu filho!... E, pausadamente, Jochedeb pintou o quadro de suas angstias reprimidas,

    da sua clera justa, que culminara com a deciso de atear fogo propriedade do verdugo execrando. Os filhos ouviam-no espantados, entremostrando a dor sincera que a conduta paterna lhes causava. Depois de um olhar de infinito amor e funda preocupao, o jovem abraou-o, murmurando:

    Meu pai, meu pai, por que levantastes o brao vingador? por que no esperastes a ao da justia divina?...

    Embora perturbado pelas afetuosas admoestaeS, o interpelado esclarecia:

    Est escrito nos mandamentos: no furtars; e, fazendo o que fiz, procurei retificar um desvio da Lei, porqanto fomos espoliados de tudo que

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    constitua o nosso humilde patrimnio. Acima de todas as determinaes, porm, meu pai acentuou Jeziel

    sem irritao -, Deus mandou gravar o ensinamento do amor, recomendando que o amssemos sobre todas as coisas, de todo o corao e todo o entendimento.

    Amo o Altssimo, mas no posso amar o romano cruel suspirou Jochedeb, amargurado. Mas, como revelarmos dedicao ao Todo-Poderoso que est nos Cus continuou o jovem compadecido , destruindo suas obras? No caso do incndio, no temos s a considerar o nosso testemunho de desconfiana para com a justia de Deus, mas os campos que nos fornecem agasalho e po sofreram com a nossa atitude e os dois melhores servos de Licnio Mincio, Caio e Ruflio, foram feridos de morte quando tentavam salvar as termas prediletas do amo, numa luta intil para livr-las do fogo que as destruiu; ambos, apesar de escravos, tm sido nossos melhores amigos. As rvores frutferas e os canteiros de legumes de nossa propriedade devem quase tudo a eles, no s no concernente s sementes vindas de Roma, mas tambm no esforo e cooperao com o meu trabalho. No seria justo honrarmos sua amizade, dedicada e diligente, evitando-lhes a punio e os sofrimentos injustos?

    Jochedeb pareceu meditar profundamente nas observaes filiais, ditas em tom carinhoso. Enquanto Abigail chorava em silncio, o moo acrescentava:

    Ns que estvamos em paz, nas derrotas do mundo, porque trazamos a conscincia pura, precisamos resolver, agora, em face do que nos advir em represlias. Quando dava o meu esforo contra o fogo, observei que muitos afeioados de Mincio me contemplavam com indisfarvel desconfiana. A esta hora, j ele ter regressado dos servios da Corte Provincial. Precisamos encomendar-nos ao amor e complacncia de Deus, pois no ignoramos os tormentos reservados pelos romanos a todos os que lhes desrespeitam as determinaes.

    Penosa nuvem de tristeza mergulhara os trs em sombrias preocupaes. No velho observava-se uma ansiedade terrvel, que se misturava dor do remorso pungente e, em ambos os jovens, notava-se, no olhar, inexcedvel amargura, angustiosa e intraduzvel.

    Jeziel tomou de sobre a mesa os velhos pergaminhos sagrados e disse irm, com triste acento:

    Abigail, vamos recitar o Salmo que nos foi ensinado pela mame para as horas difceis.

    Ambos se ajoelharam e suas vozes comovidas, como a de pssaros torturados, cantavam baixinho uma das formosas oraes de David, que haviam aprendido no colo maternal:

    O Senhor o meu Pastor, Nada me faltar. Deitar-me faz em verdes pastos, Guia-me mansamente A guas mui tranqilas, Refrigera minhalma, Guia-me nas veredas da justia Por amor do seu nome.

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    Ainda que eu andasse Pelo vale das sombras da morte, No temeria mal algum, Porque Tu ests comigo... A Tua vara e o Teu cajado me consolam. Prepara-me o banquete do amor Na presena dos meus inimigos, Unges de perfume a minha cabea, O meu clice transborda de jbilo!... Certamente, A bondade e a misericrdia Seguiro todos os dias de minha vida E habitarei na Casa do Senhor Por longos dias... (1)

    O velho jochedeb acompanhava o cntico dolorido, sentindo-se opresso de

    amargosas emoes. Comeava a compreender que todos os sofrimentos enviados por Deus sO proveitosos e justos. e que todos os males procurados pelaS mos do homem trazem, invariavelmente, torturas infernais conscincia invigilante O cntico abafado dos filhos enchia-lhe o corao de tristezas pungentes. Lembrava, agora, a companheira querida que Deus havia chamado vida espiritual. Quantas vezes, acalentar-lhe ela o esprito atormentado com aqueles versos inesquecveis do profeta? Bastava que sua observao amiga e fiel se fizesse ouvir para que o sentido da obedincia e da justia lhe falasse mais alto ao corao.

    Ao ritmo da harmOnia caridOSa e triste, que apresentava acento singular na voz dos filhos idolatrados, Jochedeb chorou longamente. Da pequenina janela aberta no aposento humilde, seus olhos buscaram ansiosamente o cu azul, que se enchera de sombras tranqilas. A (1) Salmo 23. (Nota de Emmanuel.) noite abraara a Natureza e, muito longe, no alto, comeavam a luzir as primeiras estrelas. Identificando-se com as sugestes grandiosas do firmamento, experimen-tou intensas comoes na alma ansiosa. Profundo enternecimento f-lo levantar-se e, sedento de revelar aos filhinhos quanto os amava e quanto deles esperava naquela hora culminante da sua vida, inclinou-se de braos abertos, com significativa expresso de carinho e, quando as ltimas notas se desprendiam do cntico dos jovens enlaados e genuflexos, abraou-os em pranto, murmurando:

    Meus filhos! meus queridos filhos!... Mas, nesse instante abriu-se a porta e um pequenino servidor das

    vizinhanas anunciou com grande assombro a lhe transparecer nos olhos: - Senhores, o soldado Zenas e mais alguns companheiros chamam-vos porta.

    O velho colou a destra ao peito opresso, enquanto Jeziel parecia meditar um instante; todavia, revelando a firmeza do seu esprito resoluto, o jovem exclamou:

    Deus nos proteger.

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    Da a instantes, o mensageiro que chefiava a pequena escolta leu o mandado de priso de toda a famlia. A ordem era categrica e irrevogvel. Os acusados deveriam ser recolhidos imediatamente ao crcere, a fim de que se lhes esclarecesse a situao no dia seguinte.

    Abraado aos dois filhos, o pobre israelita marchou frente da escolta, que os observava sem piedade.

    Jochedeb contemplou os canteiros de flores e as rvores bem-amadas junto da casinha singela onde tecera todos os sonhos e esperanas da sua vida. Singular emoo dominou-lhe o esprito cansado. Uma torrente de lgrimas flua-lhe dos olhos e, transpondo a cancela florida, falou em voz alta, olhando o cu claro, agora recamado pelos astros da noite:

    Senhor! compadece-te do nosso amargurado destino!... Jeziel apertou-lhe docemente a mo encarquilhada, como a lhe pedir

    resignao e calma, e o grupo marchou silenciosamente luz das estrelas.

  • 20

    2 Lgrimas e sacrifcios

    A priso que recebera as nossas personagens, em Corinto, era um velho

    casaro de corredores midos e escuros, mas a sala destinada aos trs, conquanto desprovida de qualquer conforto, apresentava a vantagem de uma janela gradeada, que comunicava o ambiente desolado com a natureza exterior.

    Jochedeb estava cansadssimo e, servindo-se do manto que apanhara ao acaso, ao retirar-Se, Jeziel improvisou-lhe um leito sobre as lajes frias. O velho, atormentado por uma aluvio de pensamentos, descansava o corpo dolorido, entregue a penosas meditaes sobre os problemas do destino humano. Sem saber externar suas dores pungentes, engolfara-se em angustioso mutismo, evitando o olhar dos filhos. Jeziel e Abigail aproximando-se da janela segurando-lhe as grades inflexveis e abafando, com dificuldade, a justa inquietao. Ambos olharam, instintivamente, o firmamento, cuja imensidade sempre resumiu a fonte das mais ternas esperanas para os que choram e sofrem na Terra.

    O jovem abraou a irm, com imensa ternura, e disse comovido: Abigail, lembras-te da nossa leitura de ontem?

    Sim respondeu ela com a ingnua serenidade dos seus olhos negros e profundos -, tenho agora a impresso de que os Escritos nos davam uma grande mensagem, pois nosso ponto de estudo foi justamente aquele em que Moiss contemplava, de longe, a terra da Promisso sem poder alcan-la.

    O rapaz sorriu satisfeito por sentir-se identificado nos seus pensamentos e confirmou:

    Vejo que estamos de perfeito acordo, O cu, esta noite, oferece-nos a perspectiva de uma ptria luminosa e distante. L continuava apontando o zimbrio estrelado organiza Deus os triunfos da verdadeira justia: d paz aos tristes; conforto aos desalentados da sorte.

    Certamente, nossa me est com Deus, esperando por ns. Abigail mostrou-se muito impressionada com as palavras do irmo- e

    acentuou: Ests triste? Ficaste agastado com o proceder de nosso pai? De modo algum atalhou o moo afagando-lhe os cabelos , estamos

    em experincias que devem ter a melhor finalidade para a nossa redeno, porque, de outro modo, Deus no no-las mandaria.

    No nos aborreamos com o pai tornou a jovem ; estive pensando que, se a mame estivesse conosco, ele no chegaria a reclamaes de to tristes conseqncias. Ns no temos aquele poder de persuaso com que ela, carinhosa sempre, iluminava a nossa casa.

    Lembras-te? Sempre nos ensinou que os filhos de Deus devem estar prontos para a execuo das divinas-vontades. Os profetas, por sua vez, nos esclarecem que os homens so varas no campo da criao. O Todo-Poderoso o lavrador e ns devemos ser os galhos floridos ou frutferos, na sua obra. A palavra de Deus nos ensina a ser bons e amveis. O bem deve ser a flor e o fruto, que o Cu nos pede.

    Nessa altura, a bela jovem fez uma pausa significativa. Seus grandes olhos estavam velados por um tnue vu de pranto, que no chegava a cair.

    Entretanto, continuou ela, emocionando o irmo carinhoso: sempre

  • 21

    desejei fazer algum bem, sem jamais o conseguir. Quando nossa vizinha enviuvou, quis auxili-la com dinheiro, mas no o possuia; sempre que me surge uma oportunidade de abrir as mos, tenho-as pobres e vazias. Ento, agora, penso que foi til a nossa priso. No ser uma felicidade, neste mundo, podermos sofrer alguma coisa por amor de Deus? Quem nada tem, inda possui o corao para dar. E estou convicta de que o Cu nos abenoar pela nossa resoluo em servi-lo com alegria.

    O rapaz aconchegou-a ao peito e exclamou: Deus te abenoe pelo entendimento das suas leis, irmzinha! Longa pausa estabelecera-se entre ambos, enquanto mergulhavam no

    infinito da noite clara os olhos ternos e ansiosos. Em dado instante, voltou a jovem a considerar: Por que ser que os filhos de nossa raa so perseguidos em toda

    parte, provando injustia e sofrimentos? Suponho respondeu o moo que Deus o permite a exemplo do pai

    amoroso que, para educar os filhos mais jovens e ignorantes, toma por base os filhos mais experientes.

    Enquanto os outros povos amortecem foras na dominao pela espada, ou nos prazeres condenveis, nosso testemunho ao Altssimo, pelas dores e amarguras, multiplica em nosso esprito a capacidade de resistncia, ao mesmo tempo que os outros homens aprendem a considerar, com o nosso esforo, as verdades religiosas.

    E, fixando o olhar sereno no firmamento, acrescentou: Mas eu creio no Messias Redentor, que vir esclarecer todas as coisas.

    Os profetas nos afirmam que os homens no o compreendero; entretanto, ele h de vir ensinando o amor, a caridade, a justia e o perdo. Nascer entre os humildes, exemplificar entre os pobres, iluminar o povo de Israel, levantar os tristes e oprimidos, tomar, com amor, todos os que padecem no abandono do corao. Quem sabe, Abigail, estar ele no mundo, sem o sabermos? Deus opera em silncio e no concorre com as vaidades da criatura. Temos f e a nossa confiana no Cu uma fonte de fora inesgotvel. Os filhos da nossa raa muito tm padecido, mas Deus saber por qu, e no nos enviaria problemas de que no necessitssemos.

    A jovem pareceu meditar longamente e obtemperou, depois de alguns instantes:

    E j que falamos em sofrimentos, como deveremos esperar o dia de amanh? Prevejo grandes contrariedades no interrogatrio e, afinal, que faro os juizes de nosso pai e de ns prprios?

    No deveremos aguardar seno desgostos e decepes, mas no esqueamos a oportunidade de obedecer a Deus - Quando experimentou a ironia de sua mulher. nas desditas extremas, Job teve a boa lembrana de que, se o Criador nos d os bens para nossa alegria, pode enviar-nos igualmente os dissabores para nosso proveito. Se o papai for acusado, direi que fui eu o autor do delito.

    E se te flagelarem por isso? perguntou ela de olhos ansiosos. Entregar-me-ei ao flagcio com a paz da conscincia - Se estiveres junto

    de mim, nesse instante, cantars comigo a prece dos que se encontram em aflio

    E se te matarem, Jeziel? Pediremos a Deus que nos proteja.

  • 22

    Abigail abraou mais ternamente o irmo, que, por sua vez, dissimulava a custo a emoo que lhe ia nalma. A irm querida constitura sempre o tesouro afetivo de toda a sua vida. Desde que a morte lhes arrebatara a genitora, dedicara-se irm, com todas as veras do corao. Sua vida pura dividia-se entre o trabalho e a obedincia ao pai; entre o estudo da lei e a afeio meiga companheira da infncia. Abigail contemplava-o. ternamente, enquanto ele a abraava com o enlevo da amizade pura, que rene duas almas afins.

    Depois de meditar longos minutos, Jeziel falou comovido: Se eu morrer, Abigail, hs de prometer-me seguir risca aqueles conselhos da mame, para que tivssemos a vida sem mcula, neste mundo. Lembrar-te-s de Deus e da nossa vida de trabalho santificador, e nunca ouvirs a voz das tentaes que arrastam as criaturas queda nos abismos do caminho.

    Recordas-te das ltimas observaes da mame no leito da morte? Se recordo respondeu Abigail com uma lgrima. Tenho a

    impresso de ouvir ainda as suas ltimas palavras: e vocs, meus filhos, amaro a Deus acima de tudo, de todo o corao e de todo o entendimento.

    Jeziel sentiu os olhos midos, com aquelas recordaes, e murmurou: Feliz de ti que no esqueceste. E como quem desejava mudar o rumo da conversa, acrescentou

    sensibilizado: Agora precisas descansar. Embora ela se recusasse ao repouso, tomou-lhe o manto pobre, improvisou

    um leito luz baa do luar que penetrava pelas grades e, osculando-lhe a fronte com indizvel ternura, advertiu afetuosamente:

    Descansa, no te impressiones com a situao, nosso destino pertence a Deus. Abigail, para lhe ser agradvel, aquietou-se como pde, enquanto ele se aproximava da janela para contemplar a beleza da noite polvilhada de luz. Seu corao moo, atufava-se de angustiosas cogitaes. Agora que o pai e a irmzinha repousavam na sombra, dava curso s idias profundas que lhe empolgavam o esprito generoso. Buscava, ansiosamente, uma resposta s interrogaes que mandava s estrelas distantes. Esperava, com sinceridade e confiana, no seu Deus de sabedoria e misericrdia, que os pais lhe haviam dado a conhecer. A seus olhos, o Todo-Poderoso sempre fora infinitamente justo e bom. Ele, que esclarecera o genitor e consolara a irmzinha, perguntava tambm, por sua vez, dentro de si, o porqu das suas provas dolorosas. Como se justificava, por causa to comezinha, a priso inesperada de um ancio honesto, de um homem trabalhador e de uma criana inocente? Que delito irreparvel haviam praticado para merecer expiao to penosa? O pranto correu-lhe copioso ao relembrar a humilhao da irm, mas tambm no procurou enxugar as lgrimas que lhe inundavam o rosto, de maneira a escond-las de Abigail, que talvez o observasse na sombra. Rememorava, um a um, todos os ensinamentos dos Escritos Sagrados. As lies dos profetas consolavam-lhe a alma ansiosa. Entretanto, vagava-lhe no corao uma saudade infinita. Lembrava-se do carinho materno que a morte lhe arrebatara. Se presente quele transe, a me saberia como confort-los. Quando criana, nas suas pequenas contrariedades, ela ensinava que, em tudo, Deus era bom e misericordioso; que, nas enfermidades, corrigia o corpo, e nas angstias da alma esclarecia, iluminava o corao; no desfile das reminiscncias,

  • 23

    considerava igualmente que ela sempre o incitara coragem e alegria, fazendo-lhe sentir que a criatura convicta da paternidade divina anda, no mundo, fortalecida e feliz.

    Edificado na f, cobrou nimo e, depois de longas reflexes, aquietou-se na laje fria, procurando o repouso possvel no silncio augusto da noite.

    O dia amanheceu prenhe de lgubres expectativas. Dentro de poucas horas, Licnio Mincio, rodeado de numerosos guardas e

    satlites, recebeu os prisioneiros na sala destinada aos criminosos comuns, onde se ostentavam alguns instrumentos de punio e suplcio.

    Jochedeb e os filhos traam na palidez do semblante a emoo profunda que os dominava.

    Os costumes da poca eram excessivamente desumanos para que o juiz implacvel e a maioria dos circunstantes se inclinassem comiserao pelo aspecto desditoso deles.

    Alguns esbirros perfilavam-se junto dos potros de castigo, de onde pendiam aoites e algemas impiedosos.

    No houve interrogatrio, nem depoimento de testemunhas, como seria de esperar antes de providncias to odiosas, e, chamado rudemente pela voz metlica do legado, o velho judeu aproximou-se vacilante e trmulo:

    Jochedeb exclamou o algoz impassvel e sanhudo , os que desacatam as leis do Imprio devem ser punidos de morte, mas eu procurei ser magnnimo, em considerao tua velhice desamparada.

    Um olhar de angustiada expectao transfigurou o rosto do acusado, enquanto o patrcio esboava um sorriso irnico.

    Alguns operrios l da herdade continuou Licnio viram-te as mos perversas na tarde de ontem, quando incendiaste as pastagens. Esse ato redundou em srios prejuzos para os meus interesses, alm de ocasionar males talvez irreparveis sade de dois servos mui prestimosos. Como nada tens de teu para compensar o dano causado, recebers o justo corretivo em flagelaes, para que nunca mais venhas a erguer tuas garras de abutre contra os interesses romanos.

    Sob o olhar angustiado e lacrimoso dos filhos, o velho israelita ajoelhou-se e murmurou:

    Senhor, por piedade! Piedade? berrou Mincio com rispidez. Cometes um crime e

    imploras favores? Bem se diz que tua raa se compe de vermes asquerosos e desprezveis.

    E, designando o tronco, disse friamente a um dos sequazeS: Pescnio, avia-te! Vergasta-o vinte vezes. Ante a muda aflio dos jovens, o respeitvel ancio foi solidamente

    algemado. O castigo ia comear quando Jeziel, rompendo a expectativa geral,

    aproximou-se da mesa e falou com humildade: Questor Ilustrssimo, perdoai minha covardia de haver calado at agora;

    asseguro-vos, porm, que meu pai est sendo acusado injustamente. Fui eu quem incendiou os terrenos de vossa propriedade, perturbado pela sentena de confisco exarada contra ns. Dignai-vos, pois, libert-lo e dar-me a mim a merecida punio. Aceit-la-ei de bom grado.

    O patrcio teve um lampejo de surpresa nos olhos frios, que se caracterizavam por mobilidade extrema, e acentuou:

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    Mas, no auxiliaste os meus homens a salvar uma parte das termas? No foste o primeiro a medicar Ruflio?

    - Assim fiz levado pelo remorso, ilustrssimo -retrucou o rapaz, ansioso por isentar o pai do suplcio iminente -; quando vi a extenso do fogo comunicando-se s rvores, temi as conseqncias do ato praticado, mas, agora, confesso ter sido o seu autor.

    Nesse nterim, receoso pela sorte do filho, Jochedeb exclamou, ntimamente atormentado:

    - Jeziel, no te inculpes por uma falta que no cometeste!... Mas, pontilhando as palavras com extrema ironia, o legado replicou,

    dirigindo-se ao moo hebreu: - Est bem: poupei-te at agora, baseado nas falsas informaes que me

    deram a teu respeito; contudo, ters tambm o teu quinho de disciplina indispensvel. Teu pai pagar pelo crime em que foi visto, de maneira inegvel; e tu pagars pelo que confessaste espontaneamente.

    Colhido de surpresa pela deciso que no esperava, Jeziel foi conduzido ao poste de tortura, em frente da angstia paterna. A seu lado, postou-se o companheiro de Pescnio, que o atou sem piedade aos elos de bronze, e as primeiras vergastadas comearam a lamber-lhe o dorso, impiedosas, iscronas.

    Uma... duas... trs... Jochedeb revelava profunda debilidade, vendo-se-lhe o peito a arfar

    penosamente, ao passo que o filho demonstrava tolerar o suplcio com heroismo e nobre serenidade; ambos de olhos fixos em Abigail, que os contemplava excessivamente plida, entremostrando nas lgrimas ardentes que derramava o cruciante martrio do seu esprito afetuoso.

    A punio terrvel ia quase a meio, quando um mensageiro entrou no recinto e, em voz alta, anunciou ao legado, em tom solene:

    - Ilustrssimo, portadores de vossa casa participam que o servo Ruflio acaba de falecer.

    O cruel patrcio franziu o sobrolho como costumava fazer nos momentos de exploso colrica. Sentimentos rancorosos lhe afloraram face, que a perversidade de egosmo exacerbado vincara de traos indelveis.

    Era o melhor dos meus homens bradou. Estes judeus malditos pagaro muito caro esta afronta.

    Filcrio, aplica-lhe mais vinte vergastadas e, em seguida, leva-o priso, de onde dever seguir para o cativeiro nas galeras.

    Entre as pobres vtimas e a jovem aflita trocou-se um olhar de significao intraduzvel.

    Aquele cativeiro era a runa e a morte. E ainda no se haviam recobrado da cruel surpresa, quando o juiz inexorvel prosseguiu:

    Quanto a ti, Pescnio, renova a tarefa. Esse velho, criminoso e sem escrpulos, pagar a morte do meu fiel servidor. Golpeia-lhe as mos e os ps at que fique impossibilitado de caminhar e praticar o mal.

    Ante a sentena inqua, Abigail caiu de joelhos, em preces ardentes. Do peito do irmo escapavam fundos suspiros, nevoando-se-lhe os olhos de lgrimas dolorosas, ao conjeturar a inexorvel desdita da irmzinha, enquanto o pai lhes buscava ansiosamente o olhar, receoso da hora extrema.

    As vergastadas continuavam sem trgua, mas, de uma feita, Pescnio no conseguira equilibrar-se e a aguada ponta de bronze do aoite lanhou fundo a

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    garganta do pobre israelita, jorrando o sangue em borbotes. Os filhos compreenderam a gravidade da situao e entreolharam-se ansiosos. Em preces de sublimado fervor, Abigail dirigia-se a Deus, quele Deus terno e amoroso que sua me lhe ensinara a adorar. Filcrio conclurs a sua empreitada.

    A fronte de Jeziel erguia-se a custo, exibindo pastoso suor tisnado de sangue. Os olhos fixavam-se na irm muito amada, mas, em todo o seu as-pecto, deixava transparecer profunda fraqueza, que lhe anulava as ltimas resistncias. Incapaz de definir os prprios pensamentos, Abigail repartia sua ateno angustiada com o pai e o irmo; todavia, em breves instantes, ao fluxo incessante do sangue que corria abundante, Jochedeb deixou pender, para sempre, a cabea alvejada de cabelos brancos. O sangue alagara as vestes e empastava-se-lhe nos ps.

    Sob o olhar cruel do legado, ningum ousou articular palavra. Apenas o aoite, cortando o ambiente morno da sala, quebrava o silncio num silvo singular. Mas, notaram que do peito da vtima ainda se escapavam palavras confusas, das quais sobressaiam as carinhosas expresses:

    Meus filhos, meus queridos filhos!... A jovem talvez no pudesse compreender que chegara o momento

    decisivo, mas Jeziel, no obstante o terrvel sofrimento daquela hora, tudo compreendeu e, num esforo profundo, gritou para a irm:

    Abigail, papai est expirando; tem coragem, confia... No posso acompanhar-te na orao... mas fazes por todos ns... a prece dos aflitos...

    Dando mostras de f invejvel em to amarguradas circunstncias, a jovem, de joelhos, fixou longamente o velho pai cujo peito j no arfava; depois, erguendo os olhos ao Alto, comeou a cantar com voz trmula, porm harmoniosa e cristalina:

    Senhor Deus, pai dos que choram, Dos tristes, dos oprimidos, Fortaleza dos vencidos, Consolo de toda a dor, Embora a misria amarga Dos prantos de nosso erro, Deste mundo de desterro Clamamos por vosso amor!

    Nas aflies do caminho, Na noite mais tormentosa, Vossa fonte generosa o bem que no secar. Sois, em tudo, a luz eterna Da alegria e da bonana, Nossa porta de esperana Que nunca se fechar.

    Suas expresses vocais enchiam o ambiente de sonoridade indefinvel. O canto semelhava-se mais a um gorjeio de dor de um rouxinol que cantasse, ferido, numa alvorada de primavera. To grande, to sincera se lhe revelava a f no Todo-Poderoso, que sua atitude geral era a de uma filha carinhosa e

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    obediente, comunicando-se com o pai silencioso e invisvel. O pranto perturbava-lhe a voz trmula, mas repetia com desassombro a prece aprendida no lar, com a mais formosa expresso de confiana no Altssimo.

    Penosa emoo apossara-se de todos. Que fazer com uma criana cantando o suplcio dos seus entes amados e a crueldade dos seus verdugos? Soldados e guardas presentes mal dissimulavam a emoo. O prprio questor parecia imobilizado, como que submetido a enfadonho mal-estar. Abigail, estranha perversidade das criaturas, suplicando o amparo do Onipotente, no sabia que o cntico era intil salvao dos seus, mas que despertaria a comiserao pela sua inocncia, ganhando-lhe, assim, a liberdade.

    Recobrando alento e percebendo que a cena ferira a sensibilidade geral, Licnio esforou-se por no perder a dureza de esprito e recomendou a um dos velhos servidores, em tom imperioso:

    Justino, leva esta mulher para a rua e solta-a, mas que no cante mais, nem mesmo uma nota!

    Diante da ordem retumbante, Abigail no terminou a orao, emudecendo instantaneamente, como se obedecesse a estranho estacato.

    Lanou ao cadver ensangentado do pai um olhar inesquecvel e, logo contemplando o irmo ferido e algemado, com quem trocava as mais ntimas impresses na linguagem dos olhos doridos e ansiosos, sentiu-se tocada pela mo calosa de um velho soldado que lhe dizia em voz quase spera:

    Acompanha-me! Ela estremeceu; todavia, endereando a Jeziel o derradeiro e significativo

    olhar, seguiu o preposto de Mincio, sem resistncia. Aps atravessar inmeros corredores midos e sombrios, Justino, modificando sensivelmente a voz, deu-lhe a perceber extrema simpatia por sua figura quase infantil, murmurando-lhe ao ouvido, comovidamente:

    Minha filha, tambm sou pai e compreendo o teu martrio. Se queres atender a um amigo, escuta o meu conselho. Foge de Corinto a toda pressa. Vale-te deste instante de sensibilidade dos teus verdugos e no voltes aqui.

    Abigail cobrou algum nimo e, sentindo-se encorajada por aquela simpatia imprevista, perguntou extremamente perturbada:

    E meu pai? Teu pai descansou para sempre murmurou o generoso soldado. O pranto da jovem se fez mais copioso, borbulhando-lhe dos olhos tristes.

    Todavia, ansiosa por defender-se contra a perspectiva de solido, perguntou ainda:

    Mas... e meu irmo? Ningum volta do cativeiro das galeras respondeu Justino com olhar

    significativo. Abigail levou as mos pequeninas ao peito, desejando afogar a prpria dor.

    Os gonzos de velha porta rangeram vagarosamente e o seu inesperado protetor exclamou, apontando a rua movimentada:

    Vai em paz e que os deuses te protejam. A pobre criatura no tardou a sentir o insulamento entre as fileiras de

    transeuntes que cruzavam, apressados, a via pblica. Habituada aos carinhos domsticos, no lar onde o idioma paterno substitua a linguagem das ruas, sentiu-se estranha no meio de tantas criaturas inquietas, assoberbadas de interesses e preocupaes materiais. Ningum lhe notava as lgrimas, nenhuma voz amiga procurava inteirar-se das suas ntimas angstias.

  • 27

    Estava s! Sua me fora chamada por Deus, anos antes; seu pai acabava de sucumbir covardemente assassinado; o irmo, prisioneiro e cativo, sem esperana de remisso. Apesar do sol do meio-dia, tinha a sensao de intenso frio. Deveria regressar ao ninho domstico?

    Mas, com que fim, se haviam sido expulsos? A quem confiar sua enorme desdita?

    Lembrou-se de uma velha amiga da famlia. Procurou-a. A viva Sostnia, muito afeioada sua me, recebeu-a com o sorriso generoso da sua velhice bondosa.

    Desfeita em pranto, a infortunada contou-lhe todo o sucedido. A veneranda velhinha, acariciando-lhe a cabeleira anelada, falou comovida: Nas perseguies passadas, nossos sofrimentos foram os mesmos. E dando a entender que no desejava reviver antigas e dolorosas

    reminiscncias, Sostnia acentuou: indispensvel o mximo de coragem nas situaes penosas como

    esta. No fcil elevar o corao em meio de to terrveis escombros; mas preciso confiar em Deus nas horas mais amargas. Que contas fazer, agora que todos os recursos desapareceram? Por minha vez, nada te posso oferecer, seno o corao amigo, pois tambm aqui estou por esmola da pobre famlia que me agasalhou caridosamente, na ltima tempestade da minha vida.

    Sostnia disse Abigail suspirando , meus pais me prepararam para uma existncia de corajoso esforo prprio. Estou pensando em recorrer ao legado e suplicar-lhe um cantinho da nossa chcara para ali viver uma vida honesta, na esperana de reaver Jeziel e sua fraterna companhia. Que pensas a respeito?

    Notando a indeciso da veneranda amiga, continuou: Quem sabe o questor Licnio se condoer da minha sorte? Minha

    resoluo talvez o enternea; voltarei para casa e levar-te-ei comigo. Ser-me-ias uma segunda me para o resto da vida.

    Sostnia conchegou-a de encontro ao corao e acentuou de olhos midos:

    Minha querida, tu s um anjo, mas o mundo ainda propriedade dos maus. Viveria contigo eternamente, minha boa Abigail; entretanto, no conheces o legado nem a sua camarilha. Ouve, filha! preciso que fujas de Corinto, de modo a no incidires em mais duras humilhaes.

    A moa teve uma exclamao de abatimento e, depois de longa pausa, acrescentou:

    Aceitarei teus conselhos, mas, antes de qualquer providncia, necessito voltar a casa.

    Para qu? interrogou a amiga admirada. imprescindvel que partas quanto antes. No voltes ao lar. A esta hora, possvel j esteja ocupado por homens sem escrpulos, que te no respeitariam. Convm-te uma atitude de sincera fortaleza moral, pois vivemos uma poca em que necessitamos fugir da perdio, como Lot e seus familiares, correndo o risco de sermos transformados em esttua intil, se olharmos para trs.

    A irm de Jeziel bebia-lhe as palavras com dolorosa estranheza, em face do imprevisto da situao.

    Passado um momento, Sostnia levou a mo fronte, como a recordar uma providncia oportuna e falou com animao:

    Lembras-te de Zacarias, filho de Hanan?

  • 28

    Aquele amigo da estrada de Cencria? Ele mesmo. Fui informada de que, em companhia da esposa, prepara-se

    para deixar definitivamente a Acaia, por haver sido assassinado pelos romanos irresponsveis, nestes ltimos dias, o seu nico filho.

    Confortada por ardente esperana, conclua com ansiedade: Corre casa de Zacarias! Se ainda o encontrares, fala-lhe em meu

    nome. Pede-lhe acolhimento. Ruth um corao generoso e no deixar de estender-te as mos generosas e fraternais; sei que ela te receber com afagos maternos!... Abigail tudo ouvia, parecendo indiferente prpria sorte. Mas Sostnia f-la considerar a necessidade do recurso e, decorridos minutos de consolaes recprocas, a jovem, sob o calor causticante das primeiras horas da tarde, ps-se a caminho para Cencria, dando a impresso de um autmato que vagasse na estrada, a que vrios veculos e inmeros pedestres imprimiam considervel movimento. O porto de Cencria ficava a certa distncia do centro de Corinto. Situado de maneira a servir s comunicaes com o Oriente, seus bairros populosos estavam cheios de famlias israelitas, fixadas de longa data nas regies da Acaia, ou em trnsito para a capital do Imprio e adjacncias. A irm de Jeziel chegou casa de Zacarias dominada por terrvel abatimento. Aliado viglia da ltima noite e s angstias do dia, penoso cansao fsico lhe agravava os desalentos. Pernas trpegas, a relembrar o pai morto e o irmo prisioneiro, no reparava em si prpria, no msero estado do seu organismo enfermo e desnutrido. Somente ao defrontar a modesta morada do amigo, verificou que a febre comeava a devorar-lhe as entranhas, obrigando-a a refletir nas suas dolorosas necessidades.

    Zacarias e Ruth, sua mulher, atendendo ao chamado, receberam-na espantados e aflitos.

    Abigail!... O grito de ambos revelava grande surpresa, com o aspecto da jovem

    despenteada, face esfogueada, olhos fundos e vestes em desalinho. A filha de Jochedeb, perturbada pela fraqueza e pela febre, rojou-se aos

    ps do casal, exclamando em tom lancinante: Meus amigos, tende piedade do meu infortnio!... Nossa boa Sostnia

    lembrou-me vosso afeto, no transe doloroso por que passo. Eu, que j no tinha me, tive hoje meu pai assassinado e Jeziel escravizado sem remisso. Se verdade que partireis de Corinto, levai-me, por compaixo, em vossa companhia!

    Abigail abraava-se agora a Ruth, ansiosamente, enquanto a amiga a acarinhava entre lgrimas.

    Soluante, a jovem relatou os fatos da vspera e os tristes episdios daquele dia.

    Zacarias, cujo corao paterno acabava de sofrer tremendo golpe, abraou-a com afeto e amparou-a sensibilizado, exclamando solcito:

    Dentro de uma semana voltaremos Palestina. Ainda no sei bem onde nos vamos fixar, mas ns, que perdemos o filho querido, teremos em ti uma filha estremecida. Acalma-te! Irs conosco, sers nossa filha para sempre.

    Incapaz de traduzir seu jubiloso agradecimento, atormentada pela febre alta, a jovem ajoelhou-se, em pranto, procurando externar sua gratido carinhosa e sincera. Ruth tomou-a ternamente nos braos e, qual desvelado anjo maternal, conduziu-a a um leito macio, onde Abigail, assistida pelos dois

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    amigos generosos, delirou trs dias. entre a vida e a morte.

  • 30

    3 Em Jerusalm

    Depois de contemplar angustiadamente o cadver paterno, o jovem hebreu acompanhou a irm, de olhar ansioso, at porta de acesso a um dos vastos corredores da priso. Jamais experimentara to profunda emoo. Ao crebro atormentado acudiam-lhe os conselhos maternos, quando asseverava que a criatura, acima de tudo, devia amar a Deus. Jamais conhecera lgrimas to amargas como aquelas que lhe fluiam em torrente, do corao dilacerado. Como reaver a coragem e reorganizar o caminho? Desejou, num relance, romper as algemas, aproximar-se do pai inanimado, afagar-lhe os cabelos brancos e, simultaneamente, abrir todas as portas, correr no encalo de Abigail, tom-la nos braos para nunca mais se apartarem nas estradas da vida. Debalde se estorceu no tronco do martrio, porque, em retribuio aos esforos, somente o sangue manava mais copioso das feridas abertas. Singultos dolorosos abalavam-lhe o peito, a cuja altura a tnica se fizera em rubros frangalhos. Abismado em si mesmo, finalmente foi recolhido a uma cela mida, onde, por trinta dias, mergulhou o pensamento em profundas cogitaes. Ao fim de um ms, as feridas estavam cicatrizadas e um dos prepostos de Licnio julgou chegado o momento de o encaminhar a uma das galeras do trfego comercial, onde se encontrava o questor, interessado em assuntos lucrativos.

    O moo hebreu perdera o vio rseo das faces e o tom ingnuo da fisionomia carinhosa e alegre. A rude experincia dera-lhe uma expresso dolorosa e sombria. Vagava-lhe no semblante indefinvel tristeza e na fronte apontavam rugas precoces, nunciativas de velhice prematura; nos olhos, porm, a mesma serenidade doce, oriunda da ntima confiana em Deus. Como outros descendentes da sua raa, sofrera o sacrifcio pungente; todavia, guardara a f, como a aurola divina dos que sabem verdadeiramente agir e esperar. O autor dos Provrbios recomendara, como imprescindvel, a sereni-dade da alma em todas as flutuaes da vida humana, porque dela procedem as fontes mais puras da existncia e Jeziel guardara o corao. rfo de pai e me, cativo de verdugos cruis, saberia conservar o tesouro da esperana e procuraria a irm, at aos confins do mundo, se um dia conseguisse, de novo, o beijo da liberdade na fronte escravizada.

    Seguido de perto por sentinelas impiedosas, qual se fora um vagabundo vulgar, cruzou as ruas de Corinto at o porto, onde o internaram no poro infecto de uma galera adornada com o smbolo das guias dominadoras.

    Reduzido msera condio de condenado a trabalhos perptuos, enfrentou a nova situao cheio de confiana e humildade. Foi com admirao que o feitor Lisipo anotou-lhe a boa conduta e o esforo nobre e generoso. Habituado a lidar com malfeitores e criaturas sem escrpulos, que, no raro, requeriam a disciplina do chicote, surpreendeu-se ao reconhecer no moo hebreu a disposio sincera de quem se entregava ao sacrifcio, sem rebeldias e sem baixeza.

    Manejando os remos pesados com absoluta serenidade, como quem se dava a uma tarefa habitual, sentia o suor abundante inundar-lhe a face juvenil, relembrando, comovido, os dias laboriosos da sua charrua amiga. Em breve, o feitor reconhecia nele um servo digno de estima e considerao, que soubera

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    impor-se aos prprios companheiros com o prestgio da natural bondade que lhe transbordava dalma.

    Ai de ns! exclamou um colega desalentado. So raros os que resistem a estes remos malditos, por mais de quatro meses!...

    Mas todo o servio de Deus, amigo respondeu Jeziel altamente inspirado , e desde que aqui nos encontramos em atividade honesta e de conscincia tranqila, devemos guardar a convico de servos do Criador, trabalhando em suas obras.

    Para todas as complicaes da nova modalidade de sua existncia, tinha uma frmula conciliatria, harmonizando os nimos mais exaltados. O feitor surpreendia-se com a delicadeza do seu trato e capacidade de trabalho, que se aliavam aos mais altos valores da educao religiosa recebida no lar.

    No bojo escuro da embarcao, sua firmeza de f no se modificara. Dividia o tempo entre os labores rudes e as sagradas meditaes. A todos os pensamentos, sobrelevava a saudade do ninho familiar, com a esperana de rever a irm algum dia, por mais que se lhe dilatasse o cativeiro.

    De Corinto, a grande embarcao aproara em Cef alnia e Nicpolis, de onde deveria regressar aos portos da linha de Chipre, depois de ligeira passagem pela costa da Palestina, consoante o itinerrio organizado para aproveitar o tempo seco e tendo em vista que o inverno paralisava toda a navegao.

    Afeito ao trabalho, no lhe foi difcil adaptar-se pesada faina de carga e descarga do material transportado, manobra dos remos implacveis e assistncia aos poucos passageiros, sempre que lhe requisitavam prstimos, sob o olhar vigilante de Lisipo.

    Voltando de Cefalnia, a galera recebeu um passageiro ilustre. Era o jovem romano Srgio Paulo, que se dirigia para a cidade de Citium, em comisso de natureza poltica. Com destino ao porto de Nea-Pafos, onde alguns amigos o esperavam, o moo patrcio se constituiu, desde logo, entre todos, alvo de grandes atenes. Dada a importncia do seu nome e o carter oficial da misso a ele cometida, o comandante Srvio Carbo lhe reservou as melhores acomodaes.

    Srgio Paulo, entretanto, muito antes de aportarem novamente em Corinto, onde a embarcao deveria permanecer alguns dias, em prosseguimento da rota prefixada, adoeceu com febre alta, abrindo-se-lhe o corpo em chagas purulentas. Comentava-se, sorrelfa, que nas cercanias de Cefalnia grassava uma peste desconhecida. O mdico de bordo no conseguiu explicar a enfermidade e os amigos do enfermo comearam a retrair-se com indisfarvel escrpulo. Ao fim de trs dias, o jovem romano achava-se quase abandonado, O comandante, preocupado, por sua vez, com a prpria situao e receoso por si mesmo, chamou Lisipo, pedindo-lhe que indicasse um escravo, dos mais educados e maneirosos, capaz de incumbir-se de toda a assistncia ao passageiro ilustre, O feitor designou Jeziel, incontinenti, e, na mesma tarde, o moo hebreu penetrou no camarote do en-fermo, com o mesmo esprito de serenidade que costumava testemunhar nas situaes mais dspares e arriscadas.

    Srgio Paulo tinha o leito em desalinho. No raro, levantava-se de sbito, no auge da febre que o fazia delirar, pronunciando palavras desconexas e agravando, com o movimento dos braos, as chagas que sangravam em todo o

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    corpo. Quem s tu? perguntou o doente em delrio, logo que enxergou a

    figura silenciosa e humilde do jovem de Corinto. Chamo-me Jeziel, o escravo que vos vem servir. E a partir daquele

    momento, consagrou-se ao enfermo com todas as reservas da sua afetividade. Com a permisso dos amigos de Srgio, utilizou todos os recursos de que podia dispor a bordo, imitando a medicao aprendida no lar. Dias seguidos e longas noites, velou cabeceira do ilustre romano, com devotamento e boa-vontade. Banhos, essncias e pomadas eram manipulados e aplicados com extrema dedicao, como se estivesse a tratar um parente ntimo e muito caro.

    Nas horas mais crticas da enfermidade dolorosa, falava-lhe de Deus, recitava trechos antigos dos profetas, que trazia de cor, cumulando-o de consolaes e carinho fraternal.

    Srgio Paulo compreendeu a gravidade do mal que afastara os amigos mais caros e, no convvio daqueles dias, afeioou-se ao enfermeiro humilde e bom. Depois de alguns dias em que Jeziel conquistara plenamente a sua admirao e o seu reconhecimento, pelos atos de inexcedvel bondade, o doente entrou em rpida convalescena, com manifestaes de geral alegria.

    E contudo, na vspera de regressar ao poro abafado, o jovem cativo apresentou os primeiros sintomas da molstia desconhecida que grassava em Cefalnia.

    Aps entender-se com alguns subordinados de categoria, o comandante chamou a ateno do patrcio, j quase restabelecido, e lhe pediu aprovao para o projeto de lanar o jovem ao mar.

    Ser prefervel envenenar os peixes, antes que afrontar o perigo do contgio e arriscar tantas vidas preciosas esclarecia Srvio Carbo com malicioso sorriso.

    O patrcio refletiu um instante e reclamou a presena de Lisipo, entrando os trs a tratar do assunto.

    Qual a situao do rapaz? perguntou o romano com interesse. O feitor passou a esclarecer que o jovem hebreu lhe viera com outros

    homens capturados por Licinio Mincio, por ocasio dos ltimos distrbios da A caia. Lisipo, que simpatizava extremamente com o moo de Corinto, procurou pintar com fidelidade a correo da sua conduta, suas maneiras distintas, a benfica influncia moral que ele exercia sobre os companheiros muitas vezes desesperados e insubmissos.

    Depois de longas consideraes, Srgio ponderou com profunda nobreza: No posso admitir que Jeziel seja atirado ao mar com a minha

    aquiescncia. Devo a esse escravo uma dedicao que equivale minha prpria vida. Conheo Licnio e, se necessrio, poderei esclarec-lo mais tarde sobre esta minha atitude. No duvido que a peste de Cefalnia esteja trabalhando o seu organismo e, por isso mesmo, que lhes peo a cooperao necessria, a fim de que esse jovem fique liberto para sempre.

    Mas isso impossvel... exclamou Srvio relicenciosamente. Por que no? revidou o romano. Em que dia atingiremos o porto de

    Jope? Amanh, noitinha. Pois bem; espero que vocs no se oponham aos meus planos, e to

    logo alcancemos o porto, levarei Jeziel num bote at s margens, pretextando o ensejo de exerccio muscular, que preciso recomear. A, ento, lhe daremos

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    liberdade. um feito que se me impe, em obedincia aos meus princpios. Mas, senhor... obtemperou o comandante indeciso. No aceito quaisquer restries, mesmo porque Licnio Mincio um

    velho camarada de meu pai. E continuou, depois de refletir um momento:

    No ias atirar o rapaz ao fundo do mar? Sim.

    Pois fase constar nos teus apontamentos que o escravo Jeziel, atacado de mal desconhecido, contrado em Cefalnia, foi sepultado no mar, antes que a peste contagiasse os tripulantes e passageiros. Para que o rapaz no se comprometa, instru-lo-ei a respeito, dando-lhe umas tantas ordens terminantes. Alm disso, noto-o bastante enfraquecido para resistir com xito s crises culminantes da molstia ainda em comeo. Quem poder garantir que ele resistir? Quem sabe morrer ao abandono, no segundo minuto de liberdade?

    O comandante e o feitor trocaram um olhar inteligente, de implcito acordo mtuo.

    Depois de longa pausa, Srvio concordou, dando-se por vencido: Est bem, seja. O moo patrcio estendeu a mo aos dois e murmurou: Por este obsquio ao meu dever de conscincia, podero sempre dispor

    em mim de um amigo. Da a instantes, Srgio acercou-se do jovem, semi-adormecido junto do seu camarote e j tomado da febre em comeo de exploso, dirigindo-lhe a palavra com delicadeza e bondade:

    Jeziel, desejarias voltar liberdade? Oh! senhor, exclamou o jovem reanimando o organismo com um raio de

    esperana. Quero compensar a dedicao que me dispensaste nos longos dias da

    minha enfermidade. Sou vosso escravo, senhor. Nada me deveis. Ambos falavam o grego e, refletindo subitamente na situao de futuro, o

    patrcio interrogou: Sabes o idioma comum da Palestina? Sou filho de israelitas, que me ensinaram a lngua materna nos mais

    verdes anos. Ento, no te ser difcil recomear a vida nessa provncia. E medindo as palavras, como se temesse alguma surpresa contrria aos

    seus projetos, acentuou: Jeziel, no ignoras que te encontras enfermo, talvez to gravemente

    quanto eu, h alguns dias. O comandante, atento possibilidade de um contgio geral, dada a presena de numerosos homens a bordo, pretendia lanar-te ao mar; contudo, amanh de tarde chegaremos a Jope e hei de valer-me dessa circunstncia para devolver-te vida livre. No desconheces, todavia, que, assim procedendo, estou a infringir certas determinaes importantes que regem os interesses de meus compatriotas, e justo pedir-te sigilo do meu feito.

    Sim, senhor respondeu o rapaz extremamente abatido, tentando com dificuldade coordenar as idias.

    Sei que dentro em pouco a enfermidade assumir graves propores,

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    prosseguiu o benfeitor. Dar-te-ei a liberdade, mas s o teu Deus poder conceder-te a vida. Entretanto, caso te restabeleas, devers ser um novo homem, com um nome diferente. No desejo ser inculpado de traidor dos meus prprios amigos e devo contar com a tua cooperao.

    Obedecer-vos-ei em tudo, senhor. Srgio lanou-lhe um olhar generoso e terminou: Tomarei todas as providncias. Dar-te-ei algum dinheiro para atenderes

    as primeiras necessidades e vestirs uma de minhas velhas tnicas; mas, to logo seja possvel, vai-te de Jope para o interior da provncia. O porto est sempre cheio de marinheiros romanos, curiosos e maleficentes.

    O enfermo fez um gesto de agradecimento, enquanto Srgio se retirava para atender ao chamado de alguns amigos.

    No dia imediato, hora esperada, o casario palestinense estava vista. E quando luziam os primeiros astros da noite, pequeno batel aproximava-se de local silencioso das margens, tripulado por dois homens cujos vultos se perdiam na sombra. Derradeiras palavras de bom conselho e despedida, e o moo hebreu osculou, comovidamente, a destra do benfeitor, que voltou galera apressado, de conscincia tranqila.

    Mal no dera os primeiros passos, Jeziel sentou-se premido pelas dores gerais que lhe tomavam todo o corpo e pelo abatimento natural, conseqente febre que o consumia. Idias confusas danavam-lhe no crebro. Queria pensar na ventura da libertao; desejava fixar a imagem da irm, que haveria de procurar no primeiro ensejo; mas estranho torpor infirmava-lhe as faculda-des, acarretando-lhe sonolncia invencvel. Olhou, indiferente, as estrelas que povoavam a noite refrescada pelas brisas marinhas. Reparou que havia movimento nas casas prximas, mas deixou-se, ficar inerte no matagal a que se recolhera, junto da praia. Pesadelos estranhos dominaram-lhe o repouso fsico, enquanto o vento lhe ac