ovelhas negras

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Amostra do Livro Ovelhas Negras do Escritor Caio F. Abreu

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  • 3L&PM POCKETwww.lpm.com.br

    OVELHAS NEGRAS(De 1962 a 1995)

    Caio Fernando Abreu

  • 5Introduo

    Nunca pertenci quele tipo histrico de escritor que rasga e joga fora. Ao contrrio, guardo sempre as vrias verses de um texto, da frase em guardanapo de bar impresso no computador. Ser falta de rigor? Pouco me importa. Graas a essa obsesso foi que nasceu Ovelhas negras, livro que se fez por si durante 33 anos. De 1962 at 1995, dos 14 aos 46 anos, da fronteira com a Argentina Europa.

    No consigo senti-lo embora talvez venha a ser acusado disso, pois escritores brasileiros geralmente so acusados, no criticados como reles fundo-de-gaveta, mas sim como uma espcie de autobio grafia ficcional, uma seleta de textos que acabaram ficando fora de livros individuais. Alguns, proibidos pela censura militarista; outros, por mim mesmo, que os condenei por obscenos, cruis, jovens, hermticos etc.; outros ainda simplesmente no se enquadram na unidade temtica ou/e formal que sempre ambicionei em meus livros de contos. Eram e so textos margi-nais, bastardos, deserdados. Ervas daninhas, talvez, que foi alis um dos ttulos que imaginei.

    Foram s vezes publicados em antologias, revistas, jornais, edies alternativas. Mas grande parte de inditos relegados a empoeiradas pastas dispersas por vrias cidades, e que s agora como pastor eficiente que me pretendo consegui reunir. Cada conto tem seu o conto do conto, frequente-mente mais maluco que o prprio, e essas histrias

  • 6tambm entram em forma de minipre fcios. A ordem quase cronolgica, mas no rigorosa: alguns tinham a mesma alma, embora de tempos diversos, e foram agrupados na mesma, digamos, enfermaria.

    Eram cerca de seiscentas pginas e cem textos, material para uns trs rebanhos... O que ficou foi o que me pareceu melhor, mas esse melhor por vezes o pior como a arqueolgica novela A maldio dos Saint-Marie, melodrama escrito aos quatorze anos. Claro: h autocomplacncias, vanguardismos, juvenlias, delrios lisrgicos, peas-de-museu. Mas jamais o assumiria se, como s minhas outras ovelhas brancas publicadas, no fosse eu capaz de de fend-lo com unhas e dentes contra os lobos maus do bom-gostismo institudo e estril.

    Remexendo, e com alergia a p, as dezenas de pastas em frangalhos, nunca tive to clara certeza de que criar literalmente arrancar com esforo bruto algo informe do Kaos. Confesso que ambos me se-duzem, o Kaos e o in ou dis-forme. Afinal, como Rita Lee, sempre dediquei um carinho todo especial pelas mais negras das ovelhas.

    (O Autor-Pastor)1995

  • 7 E para Gil Veloso, anjo da guarda

    Para Lygia Fagundes Telles, fada madrinha

  • 8Por que publicar o que no presta? Porque o que presta tambm no presta. Alm do mais, o que obviamente no presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graa no cho.

    (Clarice Lispector: A Legio Estrangeira)

  • 9I CHIEN ...........................................................11A maldio dos Saint-Marie .................................13O prncipe Sapo ....................................................45A visita .................................................................57Introduo ao passo da guanxuma .......................66Loucura, chiclete & som ......................................76Sagrados laos ......................................................84Por uma tarde de junho ........................................88De vrias cores, retalhos ......................................92

    II KAN .............................................................97Lixo e purpurina ...................................................99Creme de alface ..................................................129Mas apenas e antigamente guirlandas sobre o

    poo ..............................................................136Antpodas ...........................................................144Noites de Santa Tereza .......................................152Tringulo em cravo e flauta doce .......................156Red roses for a blue lady ....................................161O escolhido ........................................................168

    III KN ...........................................................177Venha comigo para o reino das ondinas .............179Anotaes sobre um amor urbano ......................187A hora do ao .....................................................195Uma histria confusa .........................................200Sob o cu de Saigon ...........................................207Onrico ...............................................................214

    Sumrio

  • 10

    Metmeros ..........................................................223I. A perda ......................................................223II. Sobre o vulco .........................................224

    Depois de agosto ................................................226

  • 11

    I

    CHIEN

    Aparece uma revoada de drages sem cabea.(I CHING, O Livro das Mutaes)

  • 13

    A maldio dos Saint-Marie

    ParaIlone Madalena Dri Almeida, minha primeira leitora

    No ginsio, em Santiago, tive a sorte de ter um professor de Portugus muito bom Jos Ca-valcanti Jr. Certa vez ele realizou um concurso de romances, e este meu foi o vencedor. Foi em 1962, eu tinha 13 ou 14 anos. O sucesso foi enorme: as meninas faziam fila para ler (s havia uma cpia, escrita em caderno Avante com ca neta Parker 51). evidente que a histria cheia de clichs, influen-ciada por radio novelas, fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe, no presta, mas talvez possa render algumas risadas. Anos mais tarde, foi a base para Luiz Arthur Nunes e eu escrevermos a pea teatral A maldio do Vale Negro. No mudei absolutamente nada do original: a graa aqui, creio, est justamente no tos co e no tolo.

    CAPTULO I

    Adriana estava sentada em uma poltrona, fo-lhean do um livro sem muito interesse. Suas roupas eram modestas, mas no pobres, tinha longos cabelos

  • 14

    ne gros que nunca prendia e seus olhos tambm eram negros, dando-lhe uma expresso triste que jamais se apagava, nem mesmo quando ela sorria.

    Subitamente, uma batida porta. Adriana assus-tou-se, mas logo levantou correndo para abrir, no sem antes arrumar os cabelos com as delicadas mos.

    Boa noite, Adriana disse o homem a quem a jovem atendeu.

    Oh, Fernando! falou ela, com sua voz quente e vibrante. Fernando, tenho tanta coisa para contar...

    O homem entrou. Estava ricamente vestido, mas seu rosto era vulgar. Tinha a testa muito larga, con-trastando com os olhos midos e vivos que examina-vam a moa com avidez.

    Adriana f-lo sentar e, tomando as mos dele en tre as suas, levou-as boca, roando-as suavemente com os lbios.

    Querido ela disse comovida , h mais uma estrela no cu, h mais um anjinho aos ps da Vir gem Maria...

    Que significa isso, Adriana? perguntou Fernan do, com o largo sobrecenho franzido.

    A moa, surpreendida com a reao, no conse-guiu falar e fez um quase imperceptvel aceno com a cabea. Por fim conseguiu balbuciar timidamente al gumas palavras.

    S-sim, Fernando... Agora poderemos nos casar e... ento ns iremos viver no seu castelo, Fernan do... no castelo de Saint-Marie... ns e nosso filhinho...

    Fernando, furioso, deu-lhe um empurro gritan do: Idiota! Voc pensava que eu, o senhor de

    Saint- Marie, iria casar-me com voc? Com voc,

  • 15

    uma zi nha qualquer? Mulheres iguais a voc, Adriana, encontram-se aos montes em qualquer lugar, mulhe res que com um gesto oferecem-se a qualquer ho mem!

    Adriana estava em p. Sua aparncia to doce trans formara-se em uma mscara onde se estampavam simultaneamente o dio, o desespero e o desprezo. Levantando a cabea, ela olhou fixamente para Fer-nando e em voz rouca, entrecortada pelas lgrimas, gritou-lhe:

    E homens iguais a voc, Fernando de Saint-Ma rie, no se encontram todos os dias. Homens que em sua suja alma no tm um pingo de moral, uma gota de honra nem de dignidade. Homens que no pen sam nas mulheres puras e honradas que sacrificam- lhes toda a sua pureza para que eles sa-tisfaam os seus desejos sexuais, desejos de bestas. E depois de saciados no hesitam em abandonar uma pessoa que sofreu todos os seus sofrimentos, deixando tambm o sangue de seu sangue, a carne de sua carne que germinou no ventre de quem o amou. Voc, Fernando, estava num alto pedestal. Por voc eu abandonei tudo, mas agora o pedestal caiu e o dolo caiu ao cho esfacelando-se.

    Cinicamente, o homem contemplava Adriana. Por fim levantou-se, furioso com as ltimas palavras da jovem e, dando-lhe uma violenta bofetada, atirou-a ao cho.

    Prostituta! gritou. Prostituta a palavra que serve para voc, Adriana!

    Em seguida tirou algumas notas da carteira e ati rou-as no rosto de Adriana, lavado em sangue e l grimas.

  • 16

    Infeliz! gritou a moa. Hei de vingar-me, e minha vingana ser terrvel, Fernando de Saint-Ma rie. Hei de ving...

    Com um gemido, Adriana perdeu os sentidos. Fer nando apanhou o chapu e o sobretudo e saiu asso biando.

    Pouco depois, a moa voltou a si do desmaio e arrastando-se penosamente pelo tapete manchado de sangue conseguiu chegar a uma mesinha, sobre a qual estava uma imagem da Virgem com Jesus ao colo. Erguendo o belo rosto para a imagem, Adriana juntou as mos plidas e rogou:

    Virgem Santssima, o que mais quero na vida que meu filho nasa. Por favor, Senhora, deixe-o nascer... deixe-o nascer...

    E proferindo essas palavras caiu novamente des maiada.

    CAPTULO II

    Ali, nas montanhosas escarpas dos Pirineus, er guia-se o imponente castelo Saint-Marie, nome que tambm designava a famlia possuidora do castelo. frente do casaro hav