ouro verde um dos pátios de madeira em conexão felipe milanez medo tensão no oeste e road rage...

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  • 154 Rolling Stone Brasil, Outubro, 2010 Rolling Stone Brasil, Outubro, 2010 155

    POR feliPe milanez

    Medo tenso nooeste

    eroad rage ROAD RAGE

    conexo brasilis CONEXO BRASILIS

    o excesso de cu e guas que se abre minha frente a partir da proa do barco deslumbrante. A floresta uma linha verdejante sua-ve no horizonte, que mar-

    ca a distino entre o azul csmico e o azul mais escuro do rio. Nas margens, praias com areias brancas. Dinael Cardoso, liderana indgena e uma das personalidades mais ativas no Movimento, me acompanha. Chegando a uma pequena comunidade estendida na beira do rio Arapiuns, ele

    aponta para uma dessas margens paradisacas, que poderiam estar no Caribe, escoltadas pelo verde da mata: Foi ali, ano passado. Vai fazer um ano agora que as balsas queimaram.

    apenas uma ponta de areia, chamada So Pedro, que marca uma confluncia. A partir da-qui, cada vez mais o Arapiuns, afluente do Tapa-js, se fecha, at culminar em uma bifurcao. De um lado, o Mar. Do outro, o Aru. Essa terra em frente, para onde sigo, se chama Gleba Nova Olinda. O fogo de um ano antes selou a ligao poltica entre a insurgncia presente na Nova Olinda e as comunidades ribeirinhas ao

    PaRasO PeRdidO na amaznia, a RegiO de nOva Olinda vive em cOnflitO: de um ladO, cOmunidades a favOR

    da extRaO da madeiRa; de OutRO, aquelas que queRem manteR suas teRRas. O imPasse cOntinua

    ouro verde Um dos ptios de madeira em Santarm, destino da extrao ilegal na Gleba Nova Olinda

  • Quase um ano atrs, no dia 10 de novembro, cansada de uma manifestao que j durava um ms, a multido queimou duas balsas carregadas de madeira, avaliadas em R$ 5 milhes. Se a regio vivia tempos de medo e tenso, o ato tornou-se um divisor, o momento em que as comunidades que lutam contra os empresrios perce-beram que poderiam se insurgir.

    neste ltimo ano, sem a demarcao da terra indgena pretendida pelos ndios bora-ri, sem a regularizao dos assentamentos das comunidades ribeirinhas, mas com as autorizaes de corte de madeira na rea e o patrim-nio florestal sendo assim comercializado, o ambiente na Gleba Nova Olinda est tomado de medo e tenso.

    O medo sempre existiu. Mas eu no fiquei com medo de abandonar a luta. Fiquei com mais vontade de lutar, diz Odair Jos Alves de Sousa, o Dad, 28 anos, segundo cacique da aldeia borari Novo Lugar (o primeiro cacique seu tio Higino, mais velho e experiente). noite, a gua do rio ainda mais escura. Reflete as estrelas to nitida-mente que a sensao a de que o barco levita. A aldeia Novo Lugar dorme na terra firme onde atracamos. H calma no ar. Nessa hora, Dad pode ficar tranquilo para conversar. Em 2007 ele foi sequestrado e espancado. Desde ento faz parte do programa de proteo teste-munha e anda com seguranas. Mas, depois que surgiu o Movimento, a confiana na capacidade de luta aumen-tou. O movimento est forte. Nossa luta justa, afirma.

    Antes do episdio do fogo, escorriam semanalmente pelo Arapiuns cerca de 40 balsas carregadas de toras.

    156 Rolling Stone Brasil, Outubro, 2010

    Cada uma com uma mdia de dois mil metros cbicos de madeira. Agora, diz Dad, se passarem trs balsas por ms muito. Foi o fogo? Questo de amedronta-mento, analisa o jovem cacique. O fogo transferiu, ao menos em parte, o medo para o outro lado. A gente est falando no canal de rdio que no tem hora nem momento para ter outra manifestao, para pegar outra balsa. Ento eles reduziram a quantidade, explica. O foco da presso a empacada regularizao fundiria da Gleba, estacionada em gabinetes e negociada entre audincias pblicas e lobbies polticos.

    Nova Olinda se divide em duas posies antagnicas. Para entrar na Gleba, preciso estar de um lado. A gen-te vai ter que discutir com a comunidade. Minha recep-o na aldeia Novo Lugar permeada de desconfiana. Poucas semanas antes, eles haviam recebido uma jor-nalista que se mostrou envolvida com o tal outro lado. Para ter acesso, era preciso explicar que minha presena no implicava em vnculos diretos com o lado de l, os empresrios madeireiros, identificados pelo apoio que recebem de comunidades como F em Deus, Reparti-mento e Vista Alegre. Em todas as outras comunidades, o procedimento de abordagem foi o mesmo. Como ini-ciei a viagem pelo lado da resistncia aos empresrios, que se encontrava antes pela logstica do rio, as comuni-dades opostas fecharam as portas.

    Um daqueles parasos perdidos na Amaznia, lu-gar de floresta altamente preservada, onde um sonho de den ainda parece persistir, a regio de Nova Olin-da banhada por rios de guas escuras, que escor-rem de forma sinuosa, de difcil acesso, praticamente

    longo do Arapiuns, criando o Movimento em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns. Em oposio es-tariam os empresrios que comercializam madeira da regio, as comunidades que so ligadas a esses empres-rios e os agentes econmicos com interesse mais amplo: a mineradora Alcoa, que explora bauxita e faz prospec-o em toda a rea, e os produtores de soja.

    No apenas pelo significado poltico, mas tambm pela dimenso social de unir as comunidades, o protesto e o fogo rebelde em balsas carregadas de madeira mar-cou definitivamente essa curva do Arapiuns.

    O fogo explodiu em chamas gigantes pelo meio do rio, de um tamanho nunca antes visto, em um calor nunca antes sentido. As labaredas invadiram o breu, seguiram o outro dia e queimaram por mais duas noites. As comu-nidades da beira do rio estavam unidas na revolta.

    O sindicato dos trabalhadores rurais, que convocou a manifestao, havia abandonado a luta. O Procurador Federal declarou que havia indcios de extrao irregu-lar da madeira. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) veio fiscalizar a origem das toras e disse que tudo era legal e dentro dos conformes. Ou seja, a madeira conti-nuaria saindo. Sendo saqueada, pensaram as lideran-as que estavam no local. No houve ordem de ningum para dar incio ao fogo, mas uma reao coletiva, em as-sembleias. O motivador maior da queima foi a conivn-cia do Estado com a explorao madeireira. O Estado no quis discutir com as comunidades, mandou apenas um tcnico para fiscalizar. Isso revoltou os manifestan-tes, que esperaram por um ms, afirmou uma liderana que no quis ser identificada. Gr

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    bloqueio civilBalsa carregada de madeira

    supostamente ilegal detida no rio Arapiuns por comunitrios e lideranas

    indgenas da Gleba Nova Olinda, em 2009: chamando a ateno do governo

    para o caos fundirio no Par

    medO e tensO nO Oeste

  • 158 Rolling Stone Brasil, Outubro, 2010

    feli

    pe

    mil

    an

    ez

    isolando a rea na seca do acesso de barcos maiores com o rio cheio, leva-se pelo menos um dia para se chegar de barco at Santarm, percurso feito em semanas nas canoas tradicionais.

    Com 182 mil hectares, a Gleba integra um mosaico de terras, no Oeste do Par, parte em Santarm e ou-tra em Juriti, que est em lento processo de regulari-zao fundiria: o conjunto de glebas Mamuru-Ara-piuns, com 1,2 milho de hectares. Seria a primeira de cinco glebas de terras pblicas nessa regio a ter o problema de destinao do uso resolvido para ex-plorao, preservao ou uso tradicional. O processo, assim que concludo, poderia servir de modelo de re-soluo para as demais terras. Algumas reas de as-sentamento j foram regularizadas. Falta definir a situao dos assentamentos de duas comunidades, Prainha e Vista Ale-gre, e a demarcao da terra indgena. A concluso estacionou, e a tenso cresceu.

    H cerca de 15 comunidades na rea. Pela lei, elas devem ser ouvidas sobre sua ocupao e o uso que fazem da terra, e as necessidades devem ser respeitadas na hora da concesso do ttulo, seja na for-ma de projeto de assentamento, que pode ser coletivo ou em lotes individuais, seja na forma de uma reserva indgena. Mas as interferncias externas, ou seja, dos novos migrantes, mudaram a relao pa-cfica que existia entre as comunidades, que hoje no se comunicam.

    Seria natural imaginar que todas de-mandariam direitos semelhantes. Mas h aquelas que querem a presena dos empre-srios, e as que refutam. Permeada por essa

    disputa, surge uma batalha por identidades: para mar-car suas diferenas e posies polticas assumem cada uma suas razes. A grande batalha acontece entre as que reivindicam a identidade indgena, do povo Borari, e aquelas que querem se ver brasileiras e modernas.

    Foram os gachos (termo genrico para forasteiros) que trouxeram o sonho do progresso e os conflitos. Empresrios madeireiros transferidos pelo governo do Par, eles ocupavam uma rea pblica que havia sido transformada em terra indgena de ocupao dos ndios caiaps no Sul do Estado. O governo paraense decidiu, poca, fazer uma espcie de permuta com os empres-rios, transferindo-os para outra rea administrada pelo Instituto de Terras do Par (Iterpa). Com a transferncia dos ttulos, veio junto a grilagem da terra. A partir de 2002, comearam a surgir laranjas e milhares de no-vos madeireiros permutados. Na floresta, cortes de lotes sobrepunham-se, enquanto as populaes locais obser-vavam tudo cada vez mais esmagadas nas margens.

    Para as comunidades a favor da chegada dos madei-reiros, da pesquisa mineral de bauxita ou da instalao da agricultura mecanizada de soja, deixar a vida dura da excluso em que vivem tornou-se um objetivo urgente.

    Ainda que tenham se dividido entre grupos que passa-ram a apoiar a entrada dos empresrios, recebendo ben-feitorias para isso, e os que os enfrentaram, recebendo ameaas, mas mantendo o sonho da autonomia.

    A comunidade Repartimento, no rio Aru, foi a pri-meira a ceder. No rio Mar, o povoado de F em Deus tomou a frente, liderado por Manoel Benezildo Sousa, que passou a agrupar lideranas com aes financiadas pelos empresrios. Os benefcios imediatos como um gerador mais potente, alguns salrios e algun

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