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  • Os Mensageiros em Linguagem Atual

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    Os Mensageiros (OBRA MEDINICA)

    II

  • Os Mensageiros em Linguagem Atual

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    Srie Andr Luiz

    I - Nosso Lar II - Os Mensageiros III - Missionrios da Luz IV - Obreiros da Vida Eterna V - No Mundo Maior VI - Agenda Crist VII - Libertao VIII - Entre a Terra e o Cu IX - Nos Domnios da Mediunidade X - Ao e Reao XI - Evoluo em Dois Mundos XII - Mecanismos da Mediunidade XIII - Conduta Esprita XIV - Sexo e Destino XV - Desobsesso XVI - E a Vida Continua...

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    FRANCISCO CNDIDO XAVIER

    Os Mensageiros

    Quando o servidor est pronto,

    o servio aparece.

    DITADO PELO ESPRITO

    ANDR LUIZ

    (atualizao de texto de Masa Intelisano - 2004)

    FEDERAO ESPRITA BRASILEIRA

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    NDICE

    Os mensageiros 7 1 Renovao 9 2 Aniceto 11 3 No Centro de Mensageiros 13 4 O caso Vicente 15 5 Ouvindo Instrues 17 6 Advertncias profundas 19 7 A queda de Otvio 21 8 O desastre de Acelino 24 9 Ouvindo impresses 26 10 A experincia de Joel 28 11 Belarmino, o doutrinador 30 12 A palavra de Monteiro 32 13 Ponderaes de Vicente 34 14 Preparativos 36 15 A viagem 38 16 No Posto de Socorro 40 17 O romance de Alfredo 42 18 Informaes e esclarecimentos 44 19 O sopro 46 20 Defesas contra o mal 48 21 Espritos dementados 50 22 Os que dormem 52 23 Pesadelos 54 24 A prece de Ismlia 56 25 Efeitos da orao 58 26 Ouvindo servidores 60

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    27 O caluniador 62 28 Vida social 64 29 Notcias interessantes 66 30 Em conversa carinhosa 68 31 A cano de Ceclia 70 32 Melodia sublime 72 33 A caminho da Crosta 75 34 Oficina de Nosso Lar 77 35 Evangelho no lar 79 36 Me e filhos 81 37 Em casa 83 38 Em plena atividade 85 39 Trabalho incessante 87 40 Rumo ao campo 89 41 Entre rvores 91 42 Evangelho no campo 93 43 Antes da reunio 95 44 Assistncia 97 45 Mente doente 99 46 Aprendendo sempre 101 47 No trabalho ativo 103 48 Pavor da morte 105 49 Mquina divina 107 50 O desencarne de Fernando 109 51 Despedidas 111

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    OS MENSAGEIROS Lendo este livro, que relaciona algumas experincias de mensageiros espirituais, certamente muitos leitores concluiro, com os velhos conceitos da Filosofia, que tudo est no crebro do homem, em virtude da materialidade relativa das palsagens, observaes, ser vios e acontecimentos. Foroso reconhecer, todavia, que o crebro o aparelho da razo e que o homem desencarnado, pela simples circunstncia da morte fsica, no penetrou os domnios anglicos, permanecendo diante da prpria conscincia, lutando por iluminar o raciocnio e preparando-se para a continuidade do aperfeioamento noutro campo vibratrio. Ningum pode trair as leis evolutivas. Se um chimpanz, guindado a um palcio, encontrasse recursos para escrever aos seus irmos de fase evolucionria, quase no encontraria diferenas fundamentais para relacionar, ante o senso dos semelhantes. Daria notcias de uma vida animal aperfeioada e talvez a nica zona inacessvel s suas possibilidades de definio estivesse justamente na aurola da razo que envolve o esprito humano. Quanto s formas de vida, a mudana no seria profundamente sensvel. Os pelos rsticos encontram sucesso nas casimiras e sedas nodernas. A Natureza que cerca o ninho agreste a mesma que fornece estabilidade moradia do homem. A furna ter-se-ia transformado na edificao de pedra. O prado verde liga-se ao jardim civilizado. A continuao da espcie apresenta fenmenos quase idnticos. A lei da herana continua, com ligeiras modificaes. A nutrio demonstra os mesmos trmites. A unio de famlia consangnea revela os mesmos traos fortes. O chimpanz, desse modo, somente encontraria dificuldade para enumerar os problemas do trabalho, da responsabilidade, da memria enobrecida, do sentimento purificado, da edificao espiritual, enfim, relativa conquista da razo. Em vista disso, no se justifica a estranheza dos que lem as mensagens do teor das que Andr Luiz enderea aos estudiosos devotados construo espiritual de si mesmos. O homem vulgar costuma estimar as expectativas ansiosas, espera de acontecimentos espetaculares, esquecido de que a Natureza no se perturba para satisfazer a pontos de vista da criatura. A morte fsica no salto do desequilbrio, passo da evoluo, simplesmente. maneira do macaco, que encontra no ambiente humano uma vida animal enobrecida, o homem que, aps a morte fsica, mereceu o ingresso nos crculos elevados do Invisvel, encontra uma vida humana sublimada. Naturalmente, grande nmero de problemas, referentes Espiritualidade Superior, a espera a criatura, desafiando-lhe o conhecimento para a ascenso sublime aos domnios iluminados da vida. O progresso no sofre estacionamento e a alma caminha, incessantemente, atrada pela Luz Imortal. No entanto, o que nos leva a grafar este prefcio singelo, no a concluso filosfica, mas a necessidade de evidenciar a santa oportunidade de trabalho do leitor amigo, nos dias que correm. Felizes os que buscarem na revelao nova o lugar de servio que lhes compete, na Terra, consoante a Vontade de Deus. O Espiritismo cristo no oferece ao homem to somente o campo de pesquisa e consulta, no qual raros estudiosos conseguem caminhar dignamente, mas, muito mais que isso, revela a oficina de renovao, onde cada conscincia de aprendiz deve procurar sua justa integrao com a vida mais alta, pelo esforo interior, pela disciplina de si mesma, pelo auto-aperfeioamento. No falta concurso divino ao trabalhador de boa vontade. E quem observar o nobre servio de um Aniceto, reconhecer que no fcil prestar assistncia espiritual aos homens. Trazer a colaborao fraterna dos planos superiores aos Espritos encarnados no obra mecnica, enquadrada em princpios de menor esforo. Claro, portanto, que, para receb-la, no poder o homem fugir aos mesmos imperativos. indispensvel lavar o vaso do corao para receber a gua viva, abandonar envoltrios inferiores, para vestir os trajes nupciais da luz eterna.

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    Entregamos, pois, ao leitor amigo, as novas pginas de Andr Luiz, satisfeitos por cumprir um dever. Constituem o relatrio incompleto de uma semana de trabalho espiritual dos mensageiros do Bem, junto aos homens e, acima de tudo, mostram a figura de um emissrio consciente e benfeitor generoso em Aniceto, destacando as necessidades de ordem moral no quadro de servio dos que se consagram s atividades nobres da f. Se procuras, amigo, a luz espiritual; se a animalidade j te cansou o corao, lembra-te de que, em Espiritualismo, a investigao conduzir sempre ao Infinito, tanto no que se refere ao campo infinitesimal, como esfera dos astros distantes, e que s a transformao de ti mesmo, luz da Espiritualidade Superior, te facultar acesso s fontes da Vida Divina. E, sobretudo, recorda que as mensagens edificantes do Alm no se destinam apenas expresso emocional, mas, acima de tudo, ao teu senso de filho de Deus, para que faas o inventrio de tuas prprias realizaes e te integres, de fato, na responsabilidade de viver diante do Senhor.

    EMMANUEL

    Pedro Leopoldo, 26 de fevereiro de 1944.

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    1 RENOVAO

    Quando me desliguei dos laos inferiores que me prendiam Terra, alcancei um grande entendimento espiritual. Essa libertao, no entanto, no foi espontnea. No fundo, sabia quanto havia me custado deixar o lar na Terra, suportar a incompreenso da esposa e o desentendimento dos filhos queridos. Tinha certeza de que amigos espirituais muito elevados e bondosos haviam me ajudado a superar minhas imperfeies nessa transio. Antes, a preocupao com Zlia me torturava constantemente. Mas agora, vendo-a em perfeita harmonia com o segundo marido, no tinha outra opo a no ser procurar outros interesses. Foi assim que, muito surpreso, percebi minha prpria transformao no decorrer dos acontecimentos. Sentia grande alegria com a descoberta de mim mesmo. Antes, vivia como um caramujo isolado na concha, incapaz de aproveitar os espetculos grandiosos da natureza, rastejando no lodo. Agora, entretanto, reconhecia que a dor havia funcionado como uma picareta em minha casa mental, sem que eu pudesse entender seus golpes imediatamente. Essa picareta havia destrudo a concha de antigos vcios do sentimento, libertando-me, expondo-me o esprito ao Sol da bondade de Deus. E comecei a ver mais longe e mais alto. Pela primeira vez, classifiquei adversrios como benfeitores. Voltei a visitar minha antiga casa, no mais como dono ou senhor, mas como trabalhador que ama o servio na oficina em que a vida o colocou. No procurei mais a esposa do mundo, a companheira que no me compreendia, mas a irm a quem devia ajudar, naquilo que estivesse ao meu alcance. No voltei a considerar os filhos como minhas propriedades, mas como companheiros muito queridos, aos quais deveria levar o novo conhecimento, ajudando-os espiritualmente como pudesse. Forado a destruir meus castelos de egosmo, senti que um novo amor passava a habitar meu esprito. Sem os afetos do mundo e conformado com o caminho que Deus havia me traado, comecei a ouvir o Seu chamado. S agora percebia o quanto havia vivido longe das leis sublimes que comandam a evoluo das criaturas. A natureza me recebia com amor. Agora suas vozes eram muito mais altas que as dos meus interesses pessoais. Aos poucos, conquistava a alegria de escutar seus ensinamentos misteriosos no grande silncio das coisas. Os elementos mais simples ganhavam um novo significado aos meus olhos. A colnia espiritual, que me acolhia com carinho, mostrava novos aspectos de imensa beleza. O rudo das asas de um pssaro, o sussurro do vento e a luz do Sol pareciam tocar-me o esprito, enchendo-me o pensamento de profunda harmonia. A vida espiritual, bela e indescritvel, abrira suas portas para mim. At ento, vinha vivendo em Nosso Lar como hspede doente de um palcio brilhante, incapaz de notar as maravilhas minha volta de to preocupado que estava comigo mesmo. A conversa espiritualizada era indispensvel agora. Antigamente gostava muito de torturar a prpria alma com as lembranas da Terra. Valorizava os relatos dramticos de alguns companheiros, lembrando meu prprio caso pessoal e deixando-me levar pela perspectiva de me agarrar novamente aos parentes do mundo, reforando laos inferiores. Mas agora... Havia perdido totalmente a paixo pelos assuntos menos elevados. At as descries dos doentes nas Cmaras de Retificao me pareciam sem interesse. No queria mais saber de onde vinham, no perguntava sobre suas aventuras nas zonas inferiores. Procurava necessitados. Queria saber como poderia ser-lhes til. Percebendo minha profunda transformao, um dia Narcisa me disse:

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    - Andr, meu amigo, voc vem fazendo a renovao espiritual. Nesses perodos, grandes dificuldades espirituais atingem nosso corao. Lembre-se da meditao no Evangelho de Jesus. Sei que voc vem sentindo grande alegria no contato com a harmonia universal, depois que deixou os caprichos de lado, mas acho que, ao lado das rosas da alegria, junto aos novos caminhos que se abrem para sua esperana, h espinhos de tdio nas margens das antigas estradas que voc vai deixando para trs. Seu corao uma taa cheia da luz divina, mas tambm vazia dos sentimentos do mundo, que a encheram por muito tempo. Nem eu mesmo poderia ter dado um definio to exata de meu estado de nimo. Narcisa tinha razo. Junto a uma imensa alegria que inundava meu esprito, havia uma sensao enorme de tdio por todas as coisas inferiores. Sentia-me liberto de pesadas correntes, mas no tinha mais a casa, a esposa, os filhos amados. Voltava sempre ao lar terreno e trabalhava pelo bem de todos, mas sem qualquer motivao. Minha amiga querida estava certa. Meu corao era um clice luminoso, mas vazio. Emocionei-me com a definio. Vendo minhas lgrimas silenciosas, Narcisa acrescentou: - Encha sua taa nas guas eternas do doador divino. Alm disso, Andr, todos ns temos a semente do Cristo na terra do corao. Em fases como essa que voc atravessa, mais fcil nos desenvolvermos com xito se soubermos aproveitar as oportunidades. Enquanto o esprito do homem se perde em clculos e raciocnios apenas, o Evangelho de Jesus no lhe parece mais do que um monte de ensinamentos comuns. Mas quando seus sentimentos superiores despertam, medida que trabalha na elevao de si mesmo, como instrumento de Deus, ele percebe que as lies do Mestre tm vida prpria e revelam aspectos desconhecidos de Sua inteligncia. Quando crescemos para Deus, suas lies tambm crescem aos nossos olhos. Vamos fazer o bem, meu caro! Encha seu clice com o blsamo do amor divino. Se voc j sente os raios de um novo amanhecer, caminhe confiante para o dia que surge!... E, conhecendo meu temperamento de homem que ama o servio movimentado, acrescentou: - Voc tem trabalhado muito aqui nas Cmaras, onde me preparo para futuro prximo na Terra. Por isso, no posso ir com voc, mas acho que deve aproveitar os novos cursos de servio, instalados no Ministrio da Comunicao. Muitos companheiros se habilitam a trabalhar na Terra, nos campos visveis e invisveis aos encarnados, todos acompanhados por nobres instrutores. Voc poderia ter novas experincias, aprender muito e cooperar com grande atividade individual. Por que no tenta? Antes que eu pudesse agradecer a preciosa sugesto, Narcisa foi chamada s Cmaras, a servio, deixando-me com esperanas diferentes das que haviam me motivado at ali para o meu trabalho.

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    2 ANICETO

    Comentando com Tobias sobre meus novos planos, percebi a satisfao que traspareceu de seus olhos. - Fique tranquilo disse com bondade voc tem horas de trabalho suficientes para justificar o pedido. E de nossa parte, temos um grande nmero de colegas na Comunicao. No ser difcil colocar voc com instrutores amigos. Conhece o nosso querido Aniceto? - Ainda no tive o prazer. - antigo companheiro de servio continuou amvel e esteve conosco algum tempo na Regenerao. Depois dedicou-se ao trabalho no Ministrio do Auxlio e hoje um competente instrutor na Comunicao, onde vem prestando valioso servio. Vou conversar com o Ministro Gensio a respeito. No tenha dvidas de que seu desejo, Andr, muito nobre para ns. O amigo atencioso deixou-me muito contente. Comecei a compreender o valor do trabalho. A amizade de Narcisa e Tobias era um tesouro de valor incalculvel, que o esprito de servio havia me proporcionado ao corao. Novas lutas se apresentavam ao meu esprtito e no poderia perder a oportunidade. Nosso Lar estava cheio de entidades ansiosas por chances como essa. No seria justo entregar-me com disposio ao novo aprendizado? Alm disso, certo de reencarnar em futuro no muito distante, a experincia seria de muita utilidade ao meu aproveitamento geral. Uma alegria misteriosa me dominava por inteiro, uma esperana sublime iluminava-me os sentimentos. Aquele desejo forte de trabalhar em benefcio dos outros, que Narcisa havia despertado em mim, parecia encher agora a taa vazia do meu corao. Trabalharia sim. Conheceria a satisfao de quem colabora de forma annima para a felicidade dos outros. Procuraria a luz poderosa da fraternidade ajudando as outras criaturas. noite, Tobias, sempre muito atencioso, procurou-me para avisar da aprovao do Ministro Gensio. Muito sorridente, convidou-me para ir com ele conversar com Aniceto, para falarmos do assunto. Muito emocionado, fui para a casa daquele que se ligaria de forma profunda minha vida espiritual. Aniceto, ao contrrio de Tobias, no havia se casado em Nosso Lar. Vivia com cinco amigos que foram seus discpulos na Terra. Moravam todos em um edifcio confortvel, localizado entre rvores grandes e tranquilas, que pareciam postas ali para proteger um lindo e enorme roseiral. Ele nos recebeu com gentileza, o que me deu uma tima impresso. Demonstrava a calma de quem chegou meia idade sem as fantasias da juventude inexperiente. Embora houvesse muita energia em seu rosto, demonstrava o otimismo sadio de um corao cheio de ideais elevados. Muito sereno, ouviu todas as colocaes de Tobias, olhando-me, de vez em quando, de forma amigvel e indagadora. Tobias falou por um longo tempo, comentando minha posio de ex-mdico na Terra, agora em reajustamento de valores no plano espiritual. Depois de me examinar com ateno, o orientador comentou: - No h o que questionar, Tobias. No entanto, preciso reconhecer que a deciso depende do candidato. Voc sabe que aqui trabalhamos para instituir o homem novo. - Andr est pronto e disposto adiantou o amigo, carinhosamente. Aniceto olhou-me fixamente e advertiu-me: - Nosso servio variado e rigoroso. O departamente de trabalho de nossa responsabilidade s aceita os interessados em descobrir a felicidade de servir. Estamos comprometidos, uns com os outros, a evitar qualquer reclamao. Ningum exige comprovao de resultados e todos respondem por qualquer erro cometido. Trabalhamos para extinguir as antigas vaidades pessoais, trazidas do mundo fsico. Em nossa hierarquia, nosso nico interesse o bem divino. Acreditamos que todas as oportunidades construtivas vm de Deus e esta convico nos ajuda a esquecer as exigncias absurdas de nossa personalidade inferior.

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    Percebendo minha surpresa, Aniceto fez um gesto e continuou: - Nos trabalhos de emergncia, destinados a preparar colaboradores ativos, tenho um quadro amplo de auxiliares suplementares, com 50 lugares para aprendizes. No momento, tenho trs vagas. H muita atividade de instruo, necessria a servidores que trabalharo em socorros urgentes na Terra. Nessas ocasies, alguns orientadore vo acompanhados de todo o pessoal em aprendizado. Mas eu adoto sistema diferente. Costumo dividir a classe em grupos especializados, de acordo com a profisso, para que possam aproveitar melhor o treinamento e a prtica. No momento, tenho um sacerdote catlico, um mdico, seis engenheiros, quatro professores, quatro enfermeiras, dois pintores, 11 donas de casa e 18 operrios diversos. Em Nosso Lar todas as nossas atividades so coletivas, mas nos dias de treinamento na Terra, no levo todos comigo. Claro que no ser negada ao engenheiro ou ao operrio a oportunidade de aprender outras coisas alm das que esto relacionadas sua profisso. No entanto, essas oportunidades devem surgir por esforo prprio, no grande tempo livre que tm para descanso e entretenimento. Assim, considerando o servio atual, temos interesse em aproveitar ao mximo as horas livres, no s em favor daqueles que precisam, como tambm em nosso prprio benefcio, no que diz respeito eficincia. Admirado, fiquei pensando no curioso processo, enquanto Aniceto fazia longa pausa. Depois de se concentrar em mim, como se quisesse descobrir o efeito de suas palavras, continuou: - Este mtodo no visa apenas a criar obrigaes para os outros. Tanto aqui como na Terra, quem alcana melhores oportunidades no propriamente o aluno, mas o instrutor, que enriquece e aprofunda experincias. Quando o Ministro Espiridio me chamou para o cargo, aceitei-o com a condio de no perder tempo em minha prpria educao. Acho que j disse o suficiente e no preciso me alongar mais. Se voc est disposto, no posso me recusar aceit-lo. - Compreendo seus programas respondi emocionado ser uma honra para mim poder acompanh-lo e receber suas determinaes de servio. Aniceto demonstrou ter chegado onde queria e concluiu: - Pois bem, voc pode comear amanh. E, olhando para Tobias, acrescentou: - Leve o nosso amigo ao Centro de Mensageiros amanh cedo. L estaremos em estudo ativo e posso providenciar para que passe a ser bonificado pelos quadros da Comunicao. Agradecemos satisfeitos e, logo depois de Tobias, despedi-me cheio de novas esperanas.

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    3 NO CENTRO DE MENSAGEIROS

    No dia seguinte, depois de ouvir vrias recomendaes de Narcisa, segui para o Centro de Mensageiros, no Ministrio da Comunicao. Tobias foi comigo, apesar de todo trabalho que tinha sob sua responsabilidade. Encantado, cheguei srie de edifcios da sede da instituio. Achei que se tratava de vrias universidades reunidas, de to grande que era o lugar. Ptios amplos, cheios de rvores e jardins, convidavam meditao. Tobias tirou-me da divagao, exclamando: - O Centro muito grande. Atividades complexas so desempenhadas neste departamento da colnia. No pense que a instituio se limite aos prdios que vemos. Nesta parte temos apenas a administrao central e alguns pavilhes destinados ao ensino e preparao em geral. - Mas esta organizao imensa se destina apenas troca de mensagens? perguntei, curioso. O companheiro sorriu de forma expressiva e esclareceu: - No pense que vai encontrar aqui apenas o servio de correio. O Centro prepara entidades para que se transformem em cartas vivas de socorro e auxlio aos que sofrem no Umbral, na Crosta e nas Trevas. Voc achou que todo esse trabalho fosse apenas para a circulao de notcias? Amplie sua viso! Este servio cpia dos que esto sendo feitos nas mais diversas cidades espirituais dos planos superiores. Aqui vrios companheiros so preparados para a difuso de esperana e consolo, instruo e avisos, nos vrios setores de evoluo humana. No falo s de emissrios invisveis. Organizamos grandes turmas de aprendizes para a reencarnao tambm. Centenas e centenas de mdiuns e doutrinadores saem daqui todos os anos. Vrios companheiros seguem para o plano fsico em quantidade considervel, com a misso de levar conforto espiritual, habilitados pelo nosso Centro de Mensageiros. - Como que ? perguntei, surpreso Pelo que voc me diz, os trabalhos de esclarecimento espiritual devem estar muito adiantados no mundo!... Tobias fez uma cara estranha, sorriu tranquilo e me disse: - S que voc no pensou, Andr, que essa preparao ainda no a realizao propriamente dita. Milhares de mensageiros aptos para o servio saem, mas so raros o que alcanam sucesso. Alguns conseguem cumprir parte da tarefa, outros fracassam completamente. O servio real no brincadeira. Requer esforo, sem o qual a obra no pode se concretizar, nem se manter. Muitos mdiuns e doutrinadores partem daqui para o plano fsico, com todas as instrues necessrias, porque os espritos superiores precisam de sua renncia e fraternidade para intensificar o esclarecimento humano. Quando os mensageiros se esquecem da misso e da dedicao ao prximo, costumam se transformar em ferramentas inteis. H mdiuns e mediunidade, doutrinadores e doutrina, assim como existem lavradores e a enxada. A enxada pode ser excelente, mas, se o lavrador no tiver esprito de servio, a enxada s servir para juntar ferrugem. Isso acontece tambm com as faculdades psquicas e com os conhecimentos elevados. O potencial medinico pode ser enorme, mas se o portador no for capaz de olhar para alm dos prprios interesses, estar condenado ao fracasso na tarefa que lhe foi confiada. Acredite, meu caro, que todo trabalho construtivo tem dificuldades inerentes. So muito poucos os que suportam os obstculos e contrariedades da luta. A grande maioria fica longe do fogo cruzado. Muitos trabalhadores recuam quando a tarefa oferece oportunidades mais valiosas. Bastante impressionado, argumentei: - Isso me surpreende muito. No imaginava que alguns mensageiros encarnados fossem preparados aqui. - Ah, meu amigo falou Tobias sorrindo voc acha que as obras do bem poderiam ficar sujeitas a operaes automticas? Na Terra, nossa viso costuma ficar viciada pelos cultos externos das atividades religiosas. L acreditamos que podemos resolver todos os problemas pela atitude de splica. Entretanto, ficar de joelhos no soluciona as questes

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    bsicas do esprito, assim como a adorao a Deus no nos garante o crescimento interior. claro que todo ato de humildade e amor considerado sagrado e Deus, com certeza, nos dar suas bnos por eles. No entanto, precisamos nos lembrar que a manuteno do merecimento dever de todos ns. Assim, neste Centro no preparamos meros carteiros, mas espritos que devem se transformar em cartas vivas de Jesus para a humanidade encarnada. Pelo menos, este o programa de nossa administrao espiritual... Calei-me emocionado, pensando na importncia daqueles ensinamentos. Meu companheiro, depois de alguns momentos, prosseguiu observando: - Muito poucos alcanam sucesso, porque quase todos ns ainda estamos ligados a vasto passado de erros e enganos que deformaram nossa personalidade. Em cada nova encarnao, acreditamos muito mais em nossas tendncias inferiores do passado do que nas possibilidades divinas do presente, sempre complicando o futuro. Assim, l continuamos agarrados ao mal e esquecidos do bem, chegando ao cmulo, s vezes, de dizer que as dificuldades so punies, quando, na verdade, todo obstculo valiosa oportunidade para os que j tm olhos de ver. A essa altura, chegamos a grande recinto. Centenas de entidades entravam no amplo edifcio, cujas escadarias subimos conversando animadamente. Os detalhes do saguo maravilhoso impressionavam pela beleza. Flores de espcies que eu no conhecia enfeitavam as colunas, espalhando cor e perfume pelo ambiente. Quebrando meu encanto, Tobias explicou: - As vrias turmas de aprendizes esto indo para as aulas. Vamos procurar Aniceto no departamento de instrutores. Atravessamos grandes galerias, sempre em meio a grandes multides que seguiam para as aulas conversando. Em um pequeno grupo que conversava de forma discreta, encontramos Aniceto, que nos abraou sorridente e calmo. - Muito bem! disse alegre e bondoso estava esperando o novo aluno desde muito cedo. E como Tobias tinha muita pressa, Aniceto explicou: - De agora em diante Andr ficar aos meus cuidados. V tranquilo.

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    4 O CASO VICENTE

    Difcil expressar minha alegria com o novo companheiro. Rosto muito calmo, olhar inteligente e lcido, Vicente transmitia carinho e bondade, sensatez e compreenso. Disse-me que estava muito feliz por ter encontrado um companheiro mdico e me alojou perto dele, demonstrando muita gentileza. Era o primeiro colega de profisso, tambm recm-chegado da Crosta, com quem me relacionava mais de perto. Trocamos idias sobre as surpresas que havamos tido. Comentamos as dificuldades com as iluses da Terra, a cegueira da cncia, os problemas graves da medicina espiritual. Embora ainda no tivesse ido com Aniceto ao plano fsico para visita de servio, Vicente admirava profundamento o instrutor e comentava comigo os estudos que vinha fazendo com ele. Tinha muitos conceitos interessantes. Em pouco mais de uma hora, j nos sentamos como irmos muito unidos, h muito tempo, por laos espirituais. O novo companheiro havia conquistado minha confiana plena. Demonstrando grande gentileza, perguntou por minha situao em relao aos parentes terrenos. Respondi contando-lhe resumidamente minha surpresa ao saber do segundo casamento de Zlia. Dei toda nfase possvel ao meu relato, emocionando-me muito enquanto narrava os acontecimentos. Em cada detalhe mais importante dos fatos, detinha-me mais tempo, de propsito, ressaltando meus antigos sofrimentos e tristezas, que me pareciam insuperveis. Vicente me ouviu em silncio, sorrindo de vez em quando. Quando terminei o comovente relato, ele colocou a mo direita em meu ombro e comentou: - No se julgue to azarado e incompreendido. Saiba, meu caro Andr, que voc teve muita felicidade. - Como assim? - Sua esposa respeitou o marido at o fim e no de se espantar que tenha se casado pela segunda vez nessas condies. No meu caso, porm, a coisa foi muito pior. E, percebendo meu espanto, o novo amigo continuou: - Vou explicar. Pensou um pouco, como se quisesse organizar as lembranas, e prosseguiu: - Voc no imagina como foi lindo o sonho de amor do meu casamento. Logo depois de tirar o diploma de mdico, aos 25 anos, casei-me com Rosalinda, cheio de alegria. Minha esposa no tinha s uma situao material confortvel, mas tambm todo o meu carinho e dedicao. Minha felicidade no tinha limites. Em pouco tempo, tivemos dois filhos que nos enriqueceram o lar. Impossvel expressar meu bem estar. - Como tinha uma boa reserva financeira, no me especializei em clnica, dedicando-me apaixonadamente s pesquisas em laboratrios. Como tinha grande vocao, no foi difcil conseguir a confiana de vrios colegas e centros de estudos, amplicando trabalhos e resultados brilhantes. E Rosalinda era sempre a primeira e a que mais colaborava comigo. s vezes, percebia seu tdio com os tubos de ensaio, mas ela sabia evitar as pequenas contrariedades para manter nossa felicidade. Parecia que me compreendia totalmente. Para mim, era a me dedicada e a esposa perfeita. - Estvamos casados havia dez anos, quando meu irmo Eleutrio, advogado, solteiro, um pouco mais velho que eu, decidiu morar perto de ns. Rosalinda foi toda gentilezas, considerando que se tratava de parente meu. Eleutrio entrou em nossa casa como irmo. Embora morasse em um hotel, estava sempre conosco, demonstrando muita gentileza e respeito. - Ento percebi que, aos poucos, minha mulher comeou a se modificar. Exigiu que contratssemos uma empregada para fazer os servios domsticos, alegando que nossos filhos precisavam de ateno mais prxima e constante. Concordei satisfeito. Afinal, era para o

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    bem de nossos filhos. No entanto, a mudana de Rosalinda ganhou propores impressionantes. Deixou de ir ao laboratrio, onde nos abravamos alegremente quando vamos nossas pesquisas bem sucedidas. Preferia sempre ir ao cinema ou distrair-se ao lado de Eleutrio. - Isso me aborrecia muito, mas no poderia desconfiar da conduta de meu irmo. Quando em famlia, agia sempre com respeito, embora fosse arrogante e ousado como advogado. - Minha vida familiar, to feliz, passou a ser de grande solido, que eu tentava despistar com muito trabalho dedicado. - Assim, o tempo a passando, quando algo mexeu profundamente com minha vida. Pequena bolha nasal, que nunca havia me incomodado, depois de levemente ferida, transformou-se em problema muito grave. Em poucas horas declararam infeco generalizada. Vrios colegas se reuniram em meu quarto, mas todos os cuidados foram inteis. Entendi que estava chegando minha hora, e rpido. Rosalinda e Eleutrio pareciam arrasados e, at hoje, tenho a impresso de v-los ansiosos, no momento de minha morte fsica. Nessa altura, Vicente fez longa pausa, como a fixar lembranas mais dolorosas, e continuou com voz mais triste: - Depois de algum tempo de profundas perturbaes nas zonas inferiores, quando j estava recuperado em Nosso Lar, soube de toda a verdade. Voltando minha casa na Terra, para minha grande surpresa, encontrei Rosalinda casada com Eleutrio. - Como as nossas histrias so parecidas! falei impressionado. - Voc que pensa respondeu sorrindo. E continuou: - Outra surpresa ainda esperava para me ferir. S quando voltei minha casa, soube que ela havia sido cmplice de um crime horrvel. Meu prprio irmo planejou tudo. Os dois se apaixonaram perdidamente e se deixaram levar por sentimentos menos nobres. No havia como pedir divrcio e, mesmo que a justia permitisse, seria um escndalo o fato de Rosalinda sair de casa para unir-se ao cunhado. Eleutrio lembrou-se, ento, que tnhamos experincias de laboratrio e sugeriu a Rosalinda que me aplicasse uma cultura de bactrias, que ele mesmo se encarregaria de conseguir, na primeira oportunidade. - Minha pobre esposa no vacilou e, aproveitando que eu dormia sem suspeitar de nada, colocou o material contagioso em meu nariz levemente ferido. - E essa a minha histria, contada rapidamente. Eu estava bobo. Vicente sorriu de leve e disse: - Rosalinda e Eleutrio vivem aparentemente felizes, so grandes materialistas, por enquanto, e desfrutam de grande fortuna e timo status no plano fsico. - Mas..., e a justia? perguntei muito assustado. - Ora, Andr esclareceu calmente tudo vem na hora certa, tanto no bem, como no mal. Primeiro planta-se a semente, depois vm os frutos. E, percebendo minha tristeza, Vicente concluiu: - No vamos mais falar nisso. Est chegando a hora da aula. Vamos atender nossas necessidades essenciais, ajudando nossos entes queridos, que ainda esto longe, encarnados. No se impressione tanto. A rvore, para dar frutos, precisa perder algumas folhas. Para ns, atualmente, meu amigo, o mal no passa de simples resultado da ignorncia, nada mais.

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    5 OUVINDO INSTRUES

    Aniceto nos esperava com carinho no grande salo. Fileiras enormes de assistentes enchiam o espao muito amplo. Homens e mulheres, de vrias idades, permaneciam quietos, em grande expectativa e interesse. - Hoje explicou nosso instrutor, dirigindo-se a Vicente, em maneira particular teremos a palavras de Telsforo, antigo colaborador da Comunicao, que pediu a presena de todos os aprendizes do intercmbio entre encarnados e desencarnados. Sentamo-nos, aguardando nossa vez. Logo em seguida, Telsforo entrava na sala, em atmosfera de grande simpatia. Aniceto e outros instrutores instalaram-se ao lado dele, em torno de grande mesa, onde se localizava a direo dos trabalhos. Aps cumprimentar todos, desejando paz e incentivando-nos harmonia, Telsforo entrou no assunto principal da reunio. - Agora disse com autoridade sem afetao vamos conversar sobre as necessidades de representar nossa colnia nos trabalhos terrestres. Aqui esto companheiros que fracassaram em suas intenes mais nobres e outros que desejam colaborar nas tarefas que condizem com nossas atuais responsabilidades. Estamos falando das atividades da Comunicao no plano fsico. Nesta reunio vemos grande parte dos cooperadores de Nosso Lar que falharam em misses de mediunidade e doutrinao, bem como outros que se preparam para tarefas desse tipo no mundo. - Nosso departamento vem promovendo grande movimento de ajuda aos encarnados e desencarnados que se mostram incapazes de se desligar da superfcie do planeta. - Nossa tarefa enorme. Precisamos disseminar novos ensinamentos, a fim de preparar os habitantes da colnia para grandes realizaes e esforos no presente e no futuro. - indispensvel socorrer aos que enfrentam com coragem as profundas transformaes do planeta. - As transies essenciais da existncia fsica pegam os homens completamente distrados e alheios s realidades eternas. A mente humana se abre, cada vez mais para o contato com o mundo invisvel, onde funciona e se movimenta. Isto um fato evolutivo. Queremos e precisamos ajudar os encarnados. No entanto, contra nossa iniciativa trabalham fortes correntes de incompreenso. No estamos falando apenas da ignorncia e da maldade. Grandes foras do prprio espiritualismo agem dessa forma contraditria. Algumas escolas crists nos combatem, como se no colaborssemos com o Mestre Jesus. A Igreja Romana classifica nossa colaborao como diablica. A Reforma Protestante, nas suas mais variadas expresses, persegue nosso trabalho amigo. E h correntes espiritualistaas de elevado teor educativo que interpretam mal nossa influncia, por quererem que o homem se aperfeioe de um dia para outro, salvo instantaneamente pela vontade, sem precisar fazer qualquer esforo. - No grau evolutivo em que estamos, no podemos conden-los pela atual ignorncia. O Catolicismo Romano tem suas razes, o Protestantismo digno de nosso respeito e as escolas espiritualistas tm conseguido grandes feitos. Toda expresso religiosa sagrada, todo movimento superior de educao espiritual santo em si mesmo. Assim, diante de ns, temos a incompreenso dos bons, que representa prova muito difcil para todos os trabalhadores sinceros, porque, afinal, no estamos cuidando de obra individual e, sim, promovendo movimento de libertao da conscincia humana, a favor da prpria idia religiosa no mundo. Sacerdotes e intrpretes da religio e da filosofia ainda no perceberam que a revelao progressiva, assim como a alma do homem. As interpretaes religiosas evoluem com a mente do homem. Muitas ingrejas ainda no entendem que no devemos espalhar a crena nos tormentos eternos para os sofredores, e sim que h homens atormentados criando infernos para si mesmos. - No entanto, no podemos perder tempo analisando a teimosia alheia. Temos servios complexos e delicados. E, como estvamos dizendo, a humanidade encarnada cada vez se aproxima mais da esfera invisvel de vibraes inferiores que a rodeia em todos os sentidos.

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    Mas, como vimos, a grande maioria dos encarnados no se preparou para os acontecimentos evolutivos atuais. E hoje se verificam os mais perturbadores conflitos no mundo material. A Cincia progride vertiginosamente, mas, ao mesmo tempo em que suprime os sofrimentos do corpo, amplia as dores da alma. Os jornais esto cheios de notcias maravilhosas sobre o progresso material. Mistrios da natureza so desvendados nos domnios do mar, da terra e do ar, mas as estaststicas dos crimes humanos so espantosas. Os assassinatos da guerra apresentam requintes de maldade muito maiores que os de outros tempos. Os homicdios, os suicdios, as tragdias conjugais, os desastres do sentimento, as greves, os impulsos da indisciplina, a sde por experincias inferiores, a perturbao sexual, as doenas desconhecidas, a loucura, invadem os lares terrenos. Nenhum pas tem preparo espiritual suficiente para o conforto fsico. Entretanto, esse conforto tende a aumentar naturalmente. O homem dominar cada vez mais o seu ambiente externo, mesmo sem conhecer a si mesmo. Mas o corpo atendido mostrar as necessidades da alma e hoje j vemos os encarnados perturbados por problemas graves, no s por suas prprias deficincias, mas tambm pela proximidade psquica cada vez maior com os planos inferiores de criaturas desencarnadas que se apegam ao planeta, tentando recuperar a vida que desperdiaram sem maior considerao pelos desgnios de Deus. - Tambm acreditamos que, na verdade, os servios da Comunicao na Terra deveriam acontecer apenas pela inspirao divina, do superior para o inferior, mas como agir diante dos milhes de doentes e criminosos, encarnados e desencarnados, ligados experincia humana? S com o culto externo como a Igreja Romana? Apenas pelo ato de f, como o Movimento Protestante? S pela manifestao da vontade, como afirmam algumas escolas espiritualistas? No podemos limitar nossa viso a apenas um dos lados do problema. Concordamos que o respeito a Deus, a f e a vontade so expresses bsicas da realizao divina do homem, mas no podemos esquecer que o trabalho necessidade fundamental de cada esprito. Os outros que se limitem s especulaes religiosas. Ns encararemos de frente os trabalhos de Deus, como se faz necessrio. - Atualmente, a humanidade encarnada um grande organismo coletivo, cujas clulas, representadas pelas personalidades humanas, desequilibram-se interiormente em processo de reajustamento e libertao. - Todos os que nos ajudam, percebem a gravidade dos conflitos que vive a mente humana. Criminosos agarram-se a criminosos, doentes ligam-se a doentes. Precisamos levar ao mundo os instrumentos adequados aos reajustamentos espirituais, habilitando nossos irmos encarnados a um maior entendimento do esprito cristo. Mas para conseguir isso, precisamos de colaboradores fiis, que no coloquem condies e no busquem compensaes e discusses, mas que se interessem pelo esforo e dedicao em nome de Jesus. A essa altura, Telsforo interrompeu a lio e, olhando todos de forma penetrante, acrescentou em voz mais alta: - Quem no quiser ajudar, que procure outros tipos de tarefa. Na Comunicao no podemos perder tempo, nem fazer experimentao doentia sem grandes prejuzos para o trabalhadores descuidados. Em outros Ministrios, a designao de trabalhadores determina, com preciso, aqueles que desejam trabalhar com Jesus. Mas aqui, mais do que trabalhadores, precisamos de servidores cheios de boa vontade. Nesse instante, como houvesse outra pausa longa, notei a forte impresso dos ouvintes que se olhavam com grande espanto.

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    6 ADVERTNCIAS PROFUNDAS

    - Irmos, prosseguiu Telsforo, profundamente inspirado j podemos ouvir os gritos impressionantes dos sofredores. Precisamos de servidores que queiram integrar-se escola evanglica da renncia. - Desde as primeiras atividades espritas, Nosso Lar tem enviado diversas turmas ao trabalho de disseminao de valores educativos. Centenas de companheiros partem daqui anualmente, combinando a necessidade de resgate oportunidade de servio, mas ainda no conseguimos os resultados desejados. Alguns alcanaram resultados parciais nas tarefas a serem desenvolvidas, mas a maioria tem fracassado completamente. Nossos institutos de socorro tentam, sem sucesso, medidas de assistncia. Muito poucos conquistam algum xito nos delicados compromissos da mediunidade e da doutrinao. - Outras colnias de nosso plano tomam providncias similares, mas pouqussimos so os que se lembram da realidade espiritual enquanto esto no plano fsico... A ignorncia domina a maioria dos encarnados e a ignorncia a me das misrias, das franquezas e dos crimes. Grandes instrutores encarnados amendrontam-se diante dos conflitos humanos e recolhem-se s suas prprias concepes. Esquecem-se de que Jesus no esperou que os homens O compreendessem completamente, mas, em vez disso, desceu ao plano fsico para amar, ensinar e servir. No exigiu que as criaturas se tornassem iguais a Ele imediatamente, mas fez-se como eles para ajud-los nas dificuldades da vida. E, depois de rpida pausa, com os olhos muito brilhantes, Telsforo acrescentou: - Se o Mestre Divino adotou esta postura, que dizer de ns mesmos, to falhos e cheios de defeitos? - Deixando de lado as necessidades imensas de outros grupos, concentremo-nos nas falhas que existem nos grupos que nos so afins. - nossa volta, os laos pessoais representam vasto campo de trabalho para o testemunho. - Deixemos de lado a idia de que a Terra um vale de sombras, destinado a desastres lamentveis, e alimentemos a certeza de que o plano fsico uma oficina de trabalho espiritual nica. Preparemo-nos para a cooperao necessria. Esqueamos os erros do passado e lembremo-nos de nossas principais obrigaes. - A causa mais comum dos desastres medinicos a ausncia de noo de responsabilidade e o esquecimento do dever a cumprir. - Quantos de vocs foram patrocinados aqui por bondosos amigos que tentaram ajud-los, impressionados com o seu passado cruel? Quantos de vocs partiram, entusiasmados, fazendo grandes promessas? No entanto, no souberam recapitular apropriadamente para aprender a servir, conforme o que determina o Pai. Quando o Senhor lhes enviava recursos materiais para o necessrio, voltavam ambio sem medida; quando recebiam a misericrdia de mais trabalho, apegavam-se idia de uma existncia cmoda; junto aos entes queridos, preferiram os desvios seguidos, a tirania domstica; e, acima dos interesses da vida eterna, colocaram as sugestes inferiores da preguia e da vaidade. A maioria de vocs se entregou palavra irresponsvel e ao questionamento sem discernimento, amontoando atividades inteis. Como mdiuns, muitos de vocs preferiram a inconscincia de si mesmos. Como doutrinadores, criaram conceitos para exportao, jamais para uso prprio. - A que resultado chegamos? Grandes multides chegam ao Espiritismo com a nica inteno de lhe turvar os conceitos. Assim sendo, no so buscadores do reino de Deus que batem sua porta, mas caadores de interesses pessoais. So os que desejam facilidades, os amigos do menor esforo, os preguiosos e delinquentes de todos os tipos que desejam ouvir os desencarnados, com medo da acusao que a prpria conscincia lhes faz. A dvida se mescla f nos coraes bem intencionados. A sde de proteo exagerada castiga aqueles que tentam ficar ociosos. A ignorncia e a maldade surgem em manifestaes inferiores da magia negra. - E tudo por qu, meus irmos? Porque no temos sido capazes de defender a ddiva sagrada, por termos esquecido, nas atividades materiais, que o Espiritismo revelao divina

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    para a renovao fundamental dos homens. Ainda no contrumos o reino de Deus em ns, como se faz necessrio. - Contudo, no devemos abandonar nossos deveres no meio do caminho. Vamos voltar ao trabalho, retificando nossos erros. O Ministrio da Comunicao vem incentivando esse movimento renovador. Necessitamos de colaboradores de boa vontade, leais ao esprito de f. No sero admitidos os que no quiserem conhecer a alegria oculta do testemunho, nem os que tenham objetivos diferentes. - Estamos todos aqui, companheiros da Comunicao, em dvida com o mundo, mas cheios de esperana de xito em nosso trabalho contnuo. Vamos levantar os olhos. Deus renova todos os dias nossas oportunidades de trabalho, mas, para chegarmos aos resultados necessrios, imprescindvel que renunciemos coisas inferiores. Nenhum de ns aqui presentes est livre do ciclo de reencarnaes na Terra. Desejamos todos a vida eterna. Assim, no esqueamos o sofrimento de Jesus, convictos de que toda sada dos planos inferiores deve ser uma subida para a esfera superior. E que ningum espere subir espiritualmente, sem esforo, suor e lgrimas. Nesse momento, Telsforo terminou sua palestra e abenoou a todos, mostrando um olhar profundamente brilhante e saindo, em seguida, em companhia de Aniceto. Sob profunda impresso, em face das colocaes diretas do instrutor, observei que muitos dos presentes choravam em silncio. Percebendo meu ar de dvida, Vicente explicou: - So servidores fracassados. Duas senhoras, de rosto srio, aproximaram-se e uma delas se dirigiu a Aniceto, dizendo o seguinte: - Gostaramos de uma informao referente prxima oportunidade de servio que ser concedida a Otvio. - O Ministrio dar esclarecimentos respondeu o instrutor atencioso. - No entanto, - continou a senhora me atrevo a insistir. que Marina, grande amiga nossa, casada na Terra h alguns meses, prometeu-me que o ajudaria e eu gostaria muito de coloc-lo agora nos braos de uma nova me. Aniceto fez um gesto de compreenso, sorriu e explicou, sem se alterar: - Convm no fazer planos por enquanto, porque, antes de tudo, precisamos saber como resolver o processo de mdiuns fracassados em que ele est envolvido. S depois disso poderemos falar a respeito, minha irm. Olhei para Vicente, sem esconder minha surpresa, mas, enquanto as senhoras saam conformadas, Aniceto nos dizia: - Tenho servios imediatos, em companhia de Telsforo. Vou deix-los todos em estudos e observaes aqui no Centro de Mensageiros. Aniceto saiu com os outros dirigentes e um companheiro disse com alegria: - Podemos conversar. - Nosso orientador explicou-me Vicente considera como trabalho til toda conversa sadia que nos enriquea os conhecimentos e aptides para o trabalho. Portanto, tambm seremos remunerados por nossas conversas construtivas em cooperao. Curioso e surpreendido, perguntei: - E se eu tentasse falar sobre os assuntos inferiores da Terra, esquecendo a conversa sadia? Vicente sorriu e respondeu: - O prejuzo seria seu, porque a palavra define o esprito e, se voc fugisse s conversas edificantes, nossos orientadores saberiam de sua atitude imediatamente, j que sua presena se tornaria desagradvel e seu rosto se cobriria de imensa sombra.

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    7 A QUEDA DE OTVIO

    A ausncia de Aniceto deu ensejo a conversas interessantes e alguns grupos de amigos se formaram para trocar idias. Impressionado com as senhoras que haviam solicitado ajuda para Otvio, pedi a Vicente que me apresentasse a elas. No era curiosidade indevida o que me movia, mas o desejo sincero de obter novos conhecimentos sobre a tarefa medinica, que a palestra de Telsforo me fizera enxergar de forma diferente. O amigo me atendeu satisfeito. Em algums momentos, no estava apenas com as irms Isaura e Isabel, mas tambm com o prprio Otvio, um plido homem aparentando uns 40 anos. - Tambm sou novato por aqui expliquei Estou na condio de mdico fracassado nos deveres que Deus lhe confiou. Otvio sorriu e respondeu: - Voc, provavelmente, tem a seu favor o fato de no ter conhecido nada das verdades eternas enquanto encarnado. Comigo no acontece o mesmo, infelizmente. No ignorava o roteiro certo que Deus me havia designado para a lutas na Terra. No tinha grandes ttulos oficiais, mas dispunha de considervel cultura evanglica, coisa que, para a vida eterna, mais importante que a cultura intelectual considerada isoladamente. Tive amigos generosos do plano superior, que se faziam visveis a mim, recebi mensagens repletas de amor e sabedoria, mas, assim mesmo, ca por imprudncia e vaidade. As observaes de Otvio me impressionavam muito. Quando encarnado, eu no havia tido contato especial com o meio esprita e agora sentia alguma dificuldade para entender tudo o que ele me dizia. - No tinha idia da extenso das responsablidades medinicas respondi. - As tarefas espirituais continuou ele, um tanto envergonhado concentram-se nos interesses eternos. Por isso minha falta se reveste de tanta importncia. Os administradores de bens da alma tm responsabilidades muito pesadas. Os estudiosos, os crentes, os simpatizantes podem alegar ignorncia e covardia em matira de f. Mas os sacerdotes no tm desculpa. Acontece o mesmo com a tarefa medinica. Os aprendizes ou assistidos, nos centros espritas, podem alegar determinados impedimentos, mas o missionrio obrigado a caminhar com tal patrimnio de certezas, que nada o livra das culpas adquiridas. - Mas, Otvio perguntei muito impressionado o que lhe causou tanto sofrimento moral? Voc me parece to consciente de si mesmo, to bem informado sobre as leis da vida, que me custa acreditar que esteja assim to necessitado de novas experincias desse tipo... As duas senhoras presentes mostraram estranho brilho no olhar, enquanto Otvio respondia: - Vou contar-lhe meu fracasso. Voc ver que oportunidade maravilhosa de elevao eu perdi. E, depois de longa pausa, continuou, muito srio: - Depois de contrair dvidas enormes na Terra em outros tempos, vim parar em Nosso Lar, sendo atendido por irmos dedicados, que se reveleram incansveis comigo. Preparei-me, ento, durante 30 anos seguidos, para voltar ao mundo em tarefa medinica, querendo saldar minhas dvidas e elevar-me um pouco. No me faltaram lies realmente sublimes, nem estmulos sagrados ao meu corao cheio de defeitos. O Ministrio da Comunicao me ajudou com todas as facilidades e seis entidades amigas conseguiram-me os maiores recursos em benefcio do meu xito. Tcnicos do Auxlio me acompanharam at a Terra, s vsperas do meu renascimento, entregando-me um corpo fsico absolutamente sadio. Segundo a bondade dos meus amigos daqui, eu teria acesso a um trabalho de certo destaque no que se refere a ajudar outras pessoas. Ficaria perto de grupos de colaboradores em misso no Brasil, incentivando-os e atendendo a outras pessoas ignorantes, prturbadas ou infelizes. O casamento no faria parte de minha vida. No que a unio conjugal possa atrapalhar o exerccio da mediunidade, mas porque meu caso, em particular, assim exigia. Assim mesmo, solteiro, deveria receber, aos 20

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    anos de idade, seis amigos que muito me ajudaram em Nosso Lar, o quais chegariam minha casa como rfos. Minha dvida para com essas entidades tornou-se muito grande e essa providncia no s me permitiria um resgate agradvel, como tambm me garantiria grande xito pela ajuda dada a elas, o que me protegeria de leviandades e vacilaes, j que o ganha-po me obrigaria a no ceder a sugestes inferiores com relao ao sexo e s ambies exageradas. Ficou acertado tambm que minhas novas atividades comeariam com muito sacrifcio, para que o possvel carinho de outra pessoa no me amolecesse e minha tarefa no ficasse escravizada a caprichos materiais, distantes da vontade de Jesus e, sobretudo, para que fosse mantida a minha individualidade do servio. Mais tarde, ento, com o passar dos anos de trabalho produtivo, me seriam enviados socorros materiais cada vez maiores de Nosso Lar, medida que cumprisse os compromissos de renunciar a mim mesmo, desprendendo-me das posses passageiras, e demonstrasse desinteresse pela mediunidade paga, de maneira a intensificar, aos poucos, o cultivo de amor confiado a mim. Com tudo acertado, voltei ao plano fsico, no s prometendo ser fiel aos meus instrutores, como tambm comprometendo-me com as seis entidades amigas, a quem muito devo at agora. Nesse momento, Otvio fez uma pausa mais longa, suspirou e continuou: - Mas, infeliz que sou, esqueci todos os compromissos! Os benfeitores de Nosso Lar colocaram-me junto a verdadeira servidora de Jesus. Minha me era esprita crist desde moa, apesar das tendncias morais de meu pai, que, apesar dos delizes, era um homem de bem. Aos 13 anos fiquei rfo de me e, aos 15, comearam os primeiros sinais de mediunidade. Nessa mesma poca, meu pai se casou pela segunda vez e, apesar da bondade e dedicao que minha madrasta me dedicava, eu mesmo me colocava num plano de falsa superioridade em relao a ela. Em vo minha me me mandava pedidos do plano espiritual. Eu vivia revoltado, entre queixas e lamentaes sem razo. Meus parentes me levaram a um grupo esprita excelente, onde minhas faculdades poderiam ser colocadas disposio dos necessitados e sofredores. Entretanto, eu no tinha qualidades de trabalhador e companheiro fiel. Minha negao, em matria de confiana nos mentores, e queda forte para a crtica dos atos alheios me foravam a desagradvel estagnao. Os mentores de luz me estimulavam ao servio, mas eu duvidava deles com a minha vaidade doentia. E como os pedidos espirituais continuavam e eu os interpretava como alucinaes, procurei um mdico que me aconselhou a ter relaes sexuais. Eu estava com 19 anos e me entreguei totalmente ao abuso de energias sagradas. Queria conciliar, fora, o prazer desequilibrado e o dever espiritual, fugindo, cada vez mais, das lies evanglicas que os amigos espirituais nos davam. Tinha pouco mais de 20 anos quando meu pai desencarnou. Com o triste acontecimento, seis crianas ficavam abandonadas, j que minha madrasta, ao se casar com meu pai, havia trazido trs filhos pequenos. Em vo ela me pediu ajuda. Nunca me dignei aceitar as responsabilidades que estavam destinadas a mim. Depois de dois anos da segunda viuvez, minha madrasta foi recolhida a um lar para leprosos. Fugi, ento, horrorizado, dos pequenos rfos. Abandonei-os definitivamente, sem pensar que colocava meus credores, de Nosso Lar, em situao incerta. Em seguida, entregando-me completamente ociosidade, cometi uma falta mais grave e fui obrigado a me casar contra a vontade. Mesmo assim, porm, os chamados espirituais continuavam, comprovando o quanto Deus estava sendo paciente comigo. No entanto, medida que esquecia meus deveres, toda tentativa de realizao espiritual me parecia mais difcil. E a tragdia que criei para mim mesmo continuou o meu tormento. A esposa a quem me ligara, apenas em consequncia de atrao fsica, era criatura muito inferior e atraiu uma entidade monstruosa, em ligao com ela, para encarnar como meu filho. Abandonei seis crianas lindas, cuja convivncia me daria equilbrio moral, mas, ao que parece, a esposa e o filho incumbiram-se da vingana. Os dois me atormetaram at o fim da vida, quando voltei para c, mal tendo completado 40 anos, consumido pela sfilis, pelo lcool e pelos desgostos... sem nada ter feito para meu futuro espiritual... sem construir nada no bem... Ele enxugou os olhos e concluiu: - Como v, realizei todos os meus desejos menos nobres, mas no os desejos de Deus. Foi por isso que fali, complicando ainda mais minha situao... Nesse instante, ele se calou, como se alguma coisa invisvel apertasse sua garganta.

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    Abracei-o com simpatia, tentando incentiv-lo, mas D. Isaura aproximou-se mais, fez-lhe um carinho e disse: - No chore, meu filho! Jesus no deixa ningum sem remdio do tempo. Tenha calma e coragem... E, percebendo seu carinho, pensei na bondade de Deus, que faz soar o canto sublime do amor de me, mesmo na vida aps a morte.

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    8 O DESASTRE DE ACELINO

    a falar algo a Otvio novamente, quando algum se aproximou e falou ao ex-mdium, com voz forte: - No chore, meu caro. Voc no est desamparado. Alm disso, pode contar com a dedicao de sua me. Vivo em piores condies, mas ainda tenho esperanas. Sem dvida, estamos em completa misria espiritual. No entanto, justo esperarmos confiantes novas oportunidades divinas. Deus no pobre. Virei surpreso e no reconheci o recm-chegado. D. Isaura teve a gentileza de nos apresentar. Estvamos diante de Acelino, que tem histria parecida. Percebendo sua tristeza, Otvio sorriu e avisou: - No sou criminoso no mundo, mas sou um falido para Deus e para Nosso Lar. - Mas vamos analisar com lgica respondeu Acelino, parecendo mais encorajado voc perdeu a partida por no jogar e eu perdi jogando desastradamente. Tive 11 anos de sofrimento no Umbral. Voc no precisou passar por isso. Mesmo assim, confio em Deus. Nesse momento, Vicente interveio: - Cada um de ns tem a experincia que lhe prpria. Nem todos ganham nas experincias terrenas. E, falando em especial comigo, acrescentou: - Quantos de ns, os mdicos, perdemos lamentavelmente? Depois de concordar, comentando o meu prprio caso, observei: - Mas seria muito interessante conhecer a histria de Acelino. Voc passou pela mesma situao de Otvio? Creio ser muito proveitoso receber estas lies. No mundo, no entendia bem o que eram as tarefas espirituais, mas aqui, a viso se modifica. Temos que pensar em nosso futuro eterno. Acelino sorriu e respondeu: - Minha histria muito diferente. O fracasso que vivi tem caractersticas diferentes e, a meu ver, muito mais graves. E correspondendo expectativa de todos, continuou contando: - Tambm parti de Nosso Lar no sculo passado, depois de receber valiosa bagagem instrutiva dos nossos amigos. Fui enriquecido de bnos. Uma de nossas Ministras da Comunicao, dirigiu, pessoalmente, o processo de minha nova encarnao. No faltaram providncias para que eu tivesse sade fsica e equilbrio mental. Depois de fazer grandes promessas aos nossos amigos maiores, parti para uma das grandes cidades brasileiras, para servio de nossa colnia. O casamento estava em meu roteiro de vida. Ruth, minha dedicada esposa, se imcumbiria de me ajudar para melhor desempenho de minhas tarefas. Cumprida a primeira parte do programa, aos 20 anos de idade fui chamado tarefa medinica, recebendo muita ajuda dos amigos invisveis. Ainda me lembro da sincera satisfao dos companheiros do grupo de doutrinao. A vidncia, a audincia e a psicografia que Deus me dera, por misericrdia, representavam fatores de xito em nossas atividades. Era muito grande a alegria de todos. Entretanto, apesar das lies maravilhosas de amor evanglico, decidi transformar minhas faculdades em fonte de renda material. No me dispus a esperar pelos abundantes recursos que Deus me enviaria mais tarde, aps meus testes no trabalho, e resolvi, eu mesmo, os meus problemas lucrativos. O meu servio no era igual a outros? Os sacerdotes catlicos no recebiam a remunerao pelos trabalhos espirituais e religiosos? Se todos pagamos pelos servios para o corpo, por que fugir de receber pelos servios para a alma? Amigos, inconscientes do carter sagrado da f, aprovavam minhas opinies egostas. Admitamos que, no fundo, o trabalho principal era dos desencarnados, mas tambm havia a minha colaborao pessoal como intermedirio, pelo que devia receber a justa retribuio, Em vo, os amigos espirituais tentaram me indicar o melhor caminho e companheiros encarnados me alertaram e aconselharam. Agarrei-me ao interesse inferior e fixei meu ponto de

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    vista. Viveria definitivamente por conta das pessoas que quisessem consultar-se. Fixei o valor das consultas, com bonificaes especiais para os mais necessitados, e meu consultrio encheu-se de gente. Houve grande interesse dos que queriam melhoras fsicas e soluo para negcios materiais. Grande nmero de famlias ricas me fez seu conselheiro habitual, para todos os problemas da vida. As lies de espiritualidade superior, a confraternizao amiga, o servio de elevao do Evangelho e as palestras dos planos superiores ficaram distncia. No quis mais saber da escola da virtude, do amor fraternal, da edificao superior e, sim, da consulta comercial, das ligaes humanas legais ou criminosas, dos caprichos apaixonados, dos casos de polcia e de todo um conjunto de misrias da humanidade, em suas experincias inferiores. A atmosfera espiritual que me rodeava havia se transformado completamente. Para garantir o ganho sistemtico fora, as baixas correntes mentais do clientes desequilibrados me prenderam em grande sombra psquica. Cheguei ao crime de zombar do Evangelho de Jesus, esquecido de que os negcios escusos dos homens de conscincia viciada tambm contam com entidades perversas, que se interessam por eles nos planos invisveis. E transformei a mediunidade em fonte de palpites materiais e avisos mesquinhos. Nesse momento, os olhos de Acelino ficaram vermelhos de repente, demonstrando profundo terror, como se ele revivesse grandes sofrimentos. - Mas a morte chegou, meus amigos, e tirou-me da iluso continuou, mais srio. Desde o instante do desencarne, os consulentes criminosos que haviam desencarnado antes de mim passaram a me rondar, exigindo palpites e orientaes de cunho inferior. Queriam notcias de cmplices encarnados, de resultados comerciais, de solues referentes a ligaes escusas. Gritei, chorei, implorei, mas estava preso a eles por sinistros elos mentais, em virtude da irresponsabilidade para defender meu prprio patrimnio espiritual. Durante 11 anos seguidos resgatei minha falta entre eles, oscilando entre o remorso e a amargura. Acelino se calou, parecendo mais comovido, tendo em vista o modo como chorava. Profundamente sensibilizado, Vicente observou: - O que isso? No se atormente desse jeito. Voc no matou ningum, nem quis espalhar o mal propositadamente. A meu ver, voc tambm se enganou, como vrios de ns. Acelino, porm, enxugou os olhos e respondeu: - No fui assassino nem ladro vulgar, no tive inteno de ferir ningum, nem desrespeitei o lar dos outros, mas, tendo encarnado para ajudar as pessoas, nossas irms, ajudando-as no crescimento espiritual com Jesus, s criei viciados da crena religiosa, mutilados da f, delinquentes, e aleijados do pensamento. No tenho desculpas, porque estava esclarecido. No tenho perdo, porque no me faltou ajuda divina. E, depois de longa pausa, conclui srio: - Vocs podem imaginar o tamanho da minha culpa?

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    9 OUVINDO IMPRESSES

    Deixando Acelino em conversa particular com Otvio, fui levado por Vicente a outro canto da sala. Muitos grupos mantinham conversas interessantes e educativas e notei que quase todos comentavam os fracassos sofridos na Terra. - Fiz tudo que pude exclamava uma velhinha simptica para duas companheiras que a escutavam atentamente No entanto, os laos de famlia so muito fortes. Eu ouvia sempre alguma coisa, com voz muito alta, em meu esprito, tentando me fazer cumprir minha tarefa. Mas, e o marido?... Nunca aceitou. Se os doentes me procuravam para os remdios comuns, sua perturbao nervosa se agravava. Se os companheiros de doutrina me convidavam para estudos evanglicos, ficava revoltado, ciumento. O que vocs pensam? Chegava a colocar minhas filhas contra mim. Como seria possvel atender tarefa medinica nessas circunstncias? - Sim, mas, - comentou uma das senhoras, que parecia mais segura de si sempre temos recursos e pretextos para furgir s nossas responsabilidades. Vamos encarar as coisas com honestidade. Voc h de convir que, com boa vontade, sempre lhe restariam alguns minutos na semana e algumas pequenas oportunidades para fazer o bem. Talvez voc pudesse conquistar a simpatia do marido e a colaborao carinhosa das filhas, se trabalhasse em silncio, mostrando sincera vontade de trabalhar. Nossos atos, Mariana, so muito mais contagiantes que nossas palavras. - Sim respondeu a velhinha, com voz diferente concordo com voc. Na verdade, nunca fui capaz de suportar a incompreenso da famlia sem reclamar. - Para trabalharmos com eficincia voltou a falar a companheira, sensata preciso saber calar, antes de tudo. Teramos obtido sucesso em nossas tarefas, se tivssemos usado todas as lies de obedincia e otimismo que damos aos outros. Aconselhar sempre til, mas aconselhar demais pode indicar esquecimento de nossas prprias obrigaes. Digo isso porque meu caso muito parecido com o seu. Voltamos ao mundo para construir com Jesus, mas camos na tolice de acreditar que estvamos l para discutir nossos caprichos. No executei minha tarega medinica, em virtude da irritao que me dominou por causa da indiferena dos meus familiares pelos trabalhos espirituais. Aqui, nossos instrutores me recomendaram muito que, para ensinar, necessrio dar o exemplo. Entretanto, para meu azar, esqueci de tudo no trabalho temporrio da Terra. Se meu marido fazia observaes, eu rebatia. Em matria de crena, no suportava qualquer opinio contrria ao meu ponto de vista, sem perceber a vaidade e a tolice dos meus gestos. Por no ser capaz de refletir, perdi minha ltima experincia, agravando muito minha situao. Quase todos os meses, eu e Joaquim discutamos e trocvamos insultos fortes, alm dos fluidos venenosos segregados por nossa mente rebelde e doentia. Entre os conflitos e suas consequncias, passei o tempo sem poder atender qualquer trabalho de elevao espiritual. Nesse instante, Vicente me chamou para apresentar um amigo. Ao nosso lado, outro grupo de senhoras conversava animadamente: - Afinal, Ernestina perguntava a mais jovem delas qual foi a causa do seu desastre? - Apenas o medo, minha amiga, explicou-se a outra tive medo de tudo e de todos. Foi o meu grande mal! - Que coisa! Voc foi muito bem preparada. Lembro-me ainda das nossas lies em conjunto. As instrutoras do Esclarecimento confiavam muito no seu trabalho. Seu aproveitamento era um exemplo para ns. - Sim, minha querida Benita, suas lembranas me fazem ver, mais claramente, o tamanho do meu fracasso. Entretanto, no posso fugir realidade. Fui culpada de tudo. Preparei-me o bastante para resgatar antigas dvidas e fazer novas construes. Contudo, no vigiei como devia. O chamamento ao servio surgiu no momento certo, orientando-me para melhores esclarecimentos. Nossos instrutores me proporcionavam muito incentivo, mas desconfiei dos encarnados, dos desencarnados e at de mim mesma. Nos pesquisadores do plano fsico, via pessoas de m f. Nos amigos espirituais, via apenas zombeteiros fantasiados

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    de orientadores. E, em mim mesma, temia tendncias menos dignas. Muitos amigos me julgavam sria, pelo rigor das minhas exigncias, mas, no fundo, eu no passava de uma doente voluntria, carregada de aflies inteis. - Foi uma grande infantilidade da sua parte argumentou a outra voc se esqueceu de que, no fsico, o maior interesse da alma a realizao de algo til para o bem de todos, com vistas vida eterna. Nesse aspecto, indispensvel contar com o assdio de todos os contras. Ironias da ignorncia, ataques da insensatez e sugestes inferiores de nossa prpria animalidade surgiro, com certeza, no caminho de todo trabalhador fiel. So circunstncias lgicas e certas do servio, porque no vamos ao mundo psquico para descansar sem razo, mas para lutar pela nossa melhoria, mesmo com todos os imprevistos e impedimentos. - Agora entendo disse a outra mas o medo das mistificaes me atrapalhou, minha amiga disse ela tarde para lamentar. Temos tanto medo das mistificaes que acabamos anulando os servios do Cristo. Eu ouvia a conversa com cada vez mais interesse, mas o companheiro me levou adiante para outras apresentaes. Relacionava-me com a sociedade de Nosso Lar, mas no perdia a oportunidade de me instruir, atento s conversas minha volta. Alguns homens conversavam de forma discreta. - Reconheo que fali dizia um deles em tom grave e muito j sofri nas regies inferiores, mas aguardo novas oportunidades. - Mas faltou orientao suficiente a voc para ao caminho? perguntou um companheiro. - Vou explicar esclareceu o primeiro O que faltou foi o apoio da minha esposa. Enquanto a tive comigo, permaneci perfeitamente equilibrado psiquicamente. A companhia dela, no sei por qu, compensava todo o meu gasto de energia medinica. Minha noo de equilbrio estava com minha querida Adlia. Mas eu me esqueci de que o bom trabalhador deve estar preparado para o servio de Deus, em qualquer circunstncia. No aprendi a me conformar e nem aceitei ficar sozinho no mundo. Quando me senti sem a esposa dedicada, desencarnada, tive medo, por sentir-me desequilibrado e, equivocadamente, tentei substitui-la. Muito ligada a entidades perturbadas, minha segunda mulher, com as suas loucuras, levou-me a perverses sexuais de que nunca imaginei que fosse capaz. Voltei, sem perceber, a conviver com criaturas perversas e, apesar de ter comeado bem, acabei mal. Meus desastres foram enormes. Entretanto, embora reconhea minha falha, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser muito difcil sem a esposa amada. A conversa estava muito interessante. Queria continuar ouvindo-a, mas Vicente me chamou a ateno para outro assunto e eu precisava acompanh-lo.

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    10 A EXPERINCIA DE JOEL

    Em outro canto da sala, acompanhei Vicente, que se dirigiu a um velhote simptico. - Ento, meu caro Joel, como vai? perguntou, gentil. O velhinho fez uma expresso triste e respondeu: - Graas a Deus, sinto-me bem melhor. Tenho ido diariamente s aplicaes magnticas nos Gabinetes de Socorro, no Ministrio do Auxlio, e estou mais forte. - No tem mais tonturas? perguntou o companheiro, interessado. - Agora so mais espaadas e, quando surgem, no me deixam to aflito. Nesse instante, Vicente me olhou de forma muito lcida, e disse, sorrindo: - Joel tambm esteve no mundo em tarefa medinica e pode nos contar suas experincia interessantes. O novo amigo, que me parecia um doente em recuperao, tentou dar um sorriso amarelo e disse: - Fiz minha tentativa na Terra, mas fracassei. A luta no era pequena e fui fraco demais. - Mas o que mais me impressionou no caso dele observou Vicente em tom fraterno a doena que o acompanha at aqui e persiste at hoje. Joel passou muito tempo no Umbral, com muitas dificuldades, e voltou ao Ministrio do Auxlio perseguido por alucinaes estranhas, referentes ao passado. - Ao passado? perguntei, surpreso. - Sim explicou minha tarefa medinica exigia sensibilidade mais apurada e, quando me comprometi a realizar o servio, fui ao Ministrio do Esclarecimento, onde me aplicaram um tratamento especial que me aguou as percepes. Precisava de condies sutis para desempenhar meu trabalho. Amigos assistentes fizeram de tudo por mim e eu fui para a Terra com todos os requisitos necessrios ao xito de minhas tarefas. Porm... - Mas por que perdeu as oportunidades? perguntei. S por causa da sensiblidade aumentada? Joel sorriu e respondeu: - No perdi por causa da sensibilidade, mas pelo mau uso dela. - Como ? falei admirado. - Voc vai entender sem dificuldades. Imagine que, com uma bagagem dessas, em vez de ajudar os outros, eu mesmo me perdi. Pelo que entendo agora, Deus nos concede a sensibilidade apurada como uma espcie de super lente, que o proprietrio deve usar para definir roteiros, alertar para os perigos e vantagens do caminho, localizar obstculos comuns, ajudando ao prximo e a si mesmo. Mas eu fiz o contrrio. No usei essa lente maravilhosa de um modo muito correto. Deixei-me empolgar pela curiosidade doentia e a apliquei apenas para aumentar minhas sensaes. No conjunto dos meus trabalhos medinicos, estava a lembrana de experincias anteriores, como ferramenta indispensvel ao servio de esclarecimento coletivo e benefcio aos outros, o qual eu teria a oportunidade de realizar. Mas existe uma cincia da memria que eu no respeitei como deveria. Ele interrompeu a narrativa e meu interesse em conhecer sua histria at o fim s aumentava. Em seguida, ele continuou: - Ao primeiro chamado dos planos superiores, corri apressado. Sentia nitidamente a lembrana clara de minhas promessas em Nosso Lar. Tinha o corao repleto de projetos sagrados. Espalharia muito longe a vibrao das verdades eternas. Contudo, nos primeiros contatos com o servio, a excitao psquica fez com que eu recuperasse viras lembranas adormecidas, como um disco sob a agulha da antiga vitrola, e lembrei toda minha penltima existncia, quando fui padre, com o nome de Monsenhor Alejandre Pizarro, nos ltimos perodos da Inquisio espanhola. Foi a que abusei da lente sagrada de que falei. O prazer das grandes sensaes, que pode ser to prejudicial quanto o lcool que embriaga, me fez esquecer os deveres sagrados. Percebia claridades espirituais elevadas. Desenvolvi a clarividncia, mas s ficava satisfeito quando reconhecia companheiros visveis e invisveis de minha experincia como reliogoso. Obriguei-me a localizar cada um deles no tempo, fazendo questo de recuperar suas memrias, sem cuidar de aproveitar o trabalho construtivo. Minha

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    audio psquica tornou-se muito clara, mas eu no queria ouvir os amigos espirituais falando sobre tarefas proveitosas. Queria apenas question-los, ousadamente, satisfazendo meus caprichos egostas. Envolvido em pesquisas sobre a Espanha de meu tempo, perdi muito tempo fugindo de companheiros que vinham me pedir que trabalhasse pelo bem do prximo. Exigia notcias de bispos, de autoridades polticas da poca, de padres amigos que haviam errado tanto quanto eu mesmo. No faltaram advertncias. Com frequncia, os colegas de nosso grupo esprita me chamavam a ateno para os problemas srios de nossa casa. Eram sofredores que batiam nossa porta, situaes que pediam trabalho cristo. Tnhamos um projeto para um lar para rfos, um ambulatrio que comeava a se concretizar e, acima de tudo, servios semanais de instruo evanglica nas noites de teras e sextas-feiras. Mas, que nada! Eu s queria saber de minhas descobertas pessoais. Esqueci que Deus me permitia aquelas lembranas, no para me satisfazer a vaidade, mas para que entendesse o tamanho da minha dvida com os necessitados deste mundo e me entregasse obra de esclarecimento e conforto aos sofredores. Ao contrrio do que esperavam os amigos espirituais que me ajudaram a conseguir esta oportunidade, no me interessei pela doutrina e no me mexi para ajudar os outros. Na verdade, procurei apenas os que se encontravam ligados a mim, desde o passado. Para isso, descobri personalidades importantes de outros tempos, relacionadas comigo, com provas evidentes de identidade. Reconheci o senhor Higino de Salcedo, grande proprietrio de terras, que me havia protegido perante as autoridades religiosas da Espanha, reencarnado como proletrio inteligente e honesto, em grande experincia de sacrifcio individual. Revi o velho Gaspar de Lorenzo, figura traioeira de inquisidor cruel, que gostava muito de mim, reencarnado como paraltico e cego de nascena. E, desse modo, meu amigo, passei a existncia, de surpresa em surpresa, de sensao em sensao. Eu, que havia reencarnado relembrando para construir algo til, transformei a lembrana em vcio de personalidade. Perdi a oportunidade bendita de rendeno e o pior o estado de alucinao em que vivo. Com o meu erro, minha mente se desequilibrou e as perturbaes psquicas so um grande sofrimento. Estou sendo submetido a tratamento magntico de longa durao. Nesse momento, Joel empalideceu de repente. Os olhos, abertos em demasia, vagavam como se pudessem enxergar cenas impressionantes, muito longe de nosso ambiente. Depois cambaleou, mas Vicente o segurou rapidamente e, passando a mo em sua testa, disse com voz firme: - Joel! Joel! No se entregue s impresses do passado! Volte ao presente!... Profundamente admirado, notei que o doente voltava ao normal, esfregando os olhos.

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    11 BELARMINO, O DOUTRINADOR

    As lies eram muito interessantes. Traziam-me novos conhecimentos e com elas admirava cada vez mais, acima de tudo, a bondade de Deus, que dava a todos ns a oportunidade de restaurarmos o aprendizado para servios futuros. Muitos de ns havamos atravessado zonas inferiores de sombra e sofrimento. Uns mais, outros menos. No entanto, bastou reconhecermos a nossa inferioridade e a nossa imensa dvida para estarmos ali, todos reunidos em Nosso Lar, renovando energias desperdiadas e refazendo programas de trabalho. Em todos os presentes eu via novas esperanas. Ningum se sentia desamparado. Notando que vrios mdiuns continuavam trocando idias interessantes sobre suas experincias, e ouvindo tantas observaes sobre doutrinadores, perguntei a Vicente, discretamente: - No seria possvel conversar com algum doutrinador para enriquecer meus conhecimentos? Obtendo informaes com tantos mdiuns, creio que seria muito interessante no perder esta oportunidade. Vicente pensou um pouco e disse: - Vamos procurar Belarmino. meu amigo h alguns meses. Segui o companheiro, passando por vrios grupos. Belarmino estava num canto conversando com um amigo. De rosto srio, gestos lentos, transmitia grande tristeza no olhar humilde. Vicente apresentou-me com carinho, dando incio a uma interessante conversa. Depois de explicar alguns conceitos, Belarmino falou comovido: - Quer dizer que voc quer conhecer as amarguras de um doutrinador falido? - No bem isso, respondi sorrindo gostaria de conhecer sua experincia, aproveitando sua palavra educativa. - A misso do doutrinador muito sria para qualquer homem. No por acaso que se atribui a Jesus o ttulo de Mestre. S aqui que pude refletir nessa profunda verdade. Pensei muito e conclu que, para chegarmos a uma ressurreio gloriosa, por enquanto, no h outro caminho, a no ser o que fez o Divino Doutrinador. preciso lembrar Sua atitude, abstendo-se de qualquer apego aos bens terrenos. No vemos Jesus fazendo outra coisa no Evangelho, a no ser o bem, ensinando o amor, acendendo a luz, disseminando a verdade. J pensou nisso? Depois de longas reflexes, cheguei concluso de que, na vida humana, junto aos que administram e aos que obedecem, h os que ensinam. Assim, chego a pensar que, na Crosta, h mordomos, cooperadores e servos. Os que ensinam devem ser especialmente servos. Voc me entende? Ah, sim, havia entendido perfeitamente. Os conceitos de Belarmino eram profundos, inquestionveis. Alis, nunca tinha ouvido to belas consideraes a respeito da misso de ensino. Depois de intervalo rpido, continuou ainda srio: - Voc, com certeza, deve estranhar que eu tenha fracassado, sabendo tanto. Mas a minha triste tragdia a de todos os que conhecem o bem, esquecendo-se de pratic-lo. Calou-se novamente, pensou muito e prosseguiu: - Sa de Nosso Lar, h muitos anos, com a tarefa de doutrinao no Espiritismo evanglico. Minhas promessas aqui foram enormes. Minha dedicada Elisa se disps a me acompanhar no trabalho. Seria minha companheira atenciosa, abenoada amiga de sempre. Minha tarefa seria de trabalho assduo no Evangelho de Jesus, de modo a doutrinar, antes de tudo, com o exemplo e, em seguida, com a palavra. Duas colnias vizinhas importantes enviaram muitos colaboradores para a mediunidade e pediram ao nosso Governador que cooperasse enviando missionrios competentes para o ensino e a orientao. Apesar do meu passado cheio de culpa, canditatei-me ao servio com o aval do Ministro Gedeo, que no hesitou em me ajudar. Deveria desempenhar atividades referentes ao meu resgate pessoal e realizar tarefa importante, levando luz a nossos irmos visveis e invisveis. Meu maior encargo era o de amparar os grupos medinicos, estimulando companheiros postos

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    na Terra para divulgar a imortalidade da alma. Entretanto, meu amigo, no consegui escapar das tentaes. Desde criana, meus pais me ajudaram com noes do Espiritismo cristo. Vrias circunstncias, que me pareceram casuais, colocaram-me na presidncia de um grande grupo esprita. Os servios eram promissores, as atividades nobres e construtivas, mas exagerei nas exigncias, levado pelo excesso de apego posio de comando na doutrina. Oito mdiuns, extremamente dedicados ao esforo evanglico, colaboravam comigo ativamente. Contudo, coloquei as provas cientficas irrefutveis acima de tudo. Fechei os olhos lei do merecimento individual, esqueci a necessidade de esforo prprio e, vaidoso com meus conhecimentos do assunto, comecei a convidar amigos de mentalidade inferior para o nosso grupo, apenas por terem grande destaque na cultura filosfica e na pesquisa cientfica. Sem que eu percebesse, brotaram, em minha personalidade, estranhos desejos egostas. Meus novos amigos queriam demonstraes de todo tipo e, ansioso por conseguir a simpatia de autoridades cientficas, exigia dos pobres mdiuns longas e insistentes investigaes nos planos invisveis. Os resultados eram sempre negativos, porque cada homem recebe, hoje e no futuro, de acordo com as prprias obras. Isso me irritava. Aos poucos, comecei a ter dvidas. Perdi a serenidade de sempre. Comecei a ver os mdiuns como companheiros de m vontade e m f, retraindo-se aos meus caprichos. Nossas reunies continuavam, mas, em dvida, passei descrena destruidora. No estvamos num grupo de intercmbio entre o visvel e o invisvel? Os mdiuns no eram simples aparelhos de comunicao dos defuntos? Por que no viriam aqueles que poderiam atender meus interesses materiais imediatos? No seria melhor estabalecer um processo mecnico e rpido para as comunicaes? Por que os espritos se negavam a me ajudar na demonstrao positiva do valor da nova doutrina? Em vo, Elisa me convidava aos estudos evanglicos edificantes. Mas o Evangelho livro divino e no nos mostra seus tesouros de luz enquanto insistimos na cegueira da vaidade e da ignorncia. Por isso mesmo, dizia que era uma velharia. E, de desastre em desastre, antes que me firmasse na tarefa de ensinar, as mentes brilhantes dos meios inferiores da Terra me arrastaram completa negao. Do nosso grupo cristo me transferi, no para a poltica que eleva, mas para a politicalha inferior que impede o progresso comum e estabelece a confuso entre os encarnados. Desse modo, escravizado ao dinheiro que me transformou os sentimentos, perdi muito tempo desviado dos meus objetivos bsicos. Assim fui, at que acabei meus dias com muito dinheiro no mundo, um corpo todo doente, um palcio de pedra e um deserto no corao. A lembrana de minha inferioridade religou-me a companheiros encarnados e desencarnados menos dignos e o resto voc j pode imaginar: sofrimentos, remorsos, resgates.... Concluindo, afirmou: - Mas, como no ser assim? Como aprender sem escola, sem recapitular o bem e corrigir o mal? - Sim, Belarmino, - disse, abranando-o - voc tem razo. Tenho certeza de que no vim s para o Centro de Mensageiros, mas tambm a um lugar de grandes lies.

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    12 A PALAVRA DE MONTEIRO

    Os ensinamentos aqui so variados. Foi Belarmino quem falou, dizendo de forma agradvel: - H trs anos seguidos venho ao Centro de Mensageiros e as lies so sempre novas. Tenho a impresso de que as bnos do Espiritismo chegaram cedo demais para os homens. Se eu tivesse menos confiana em Deus, acreditaria nisso. Belarmino, que prestava muita ateno aos gestos do amigo, explicou: - Monteiro tem grande experincia no assunto. - Sim confirmou ele experincia no me falta. Tambm dei minhas cabeadas na Terra. Como sabem, muito difcil escapar da influncia do ambiente quando estamos encarnados. So tantas as exigncias materiais do mundo externo, que no consegui escapar do desastre doloroso. - Mas, como? perguntei, interessado em obter maiores conhecimentos. - que a variedade de fenmenos e as particularidas medinicas reservam grandes surpresas a qualquer doutrinador que possua mais idias na cabea do que sentimentos no corao. Em todos os tempos, o vcio intelectual pode desviar qualquer trabalhador mais entusiasmado do que sincero. E foi isso o que me aconteceu. Depois de ligeira pausa, continuou: No preciso dizer que tambm parti de Nosso Lar em misso de entendimento espiritual. No a para estimular fenmenos, mas para ajudar na caminhada de companheiros encarnados e desencarnados. O servio era imenso. Nosso amigo Ferreira pode dizer, j que fomos juntos. Recebi toda a ajuda para iniciar minha grande tarefa e senti muita alegria com os primeiros trabalhos. Minha me, que havia se tornado minha mentora, no cabia em si de to contente. Estava muito entusiasmado. Sob meu controle direto, estavam alguns mdiuns de efeitos fsicos, alm de outros de psicografia e psicofonia, e o meu fascnio era tanto com o contato com os desencarnados, que me distra completamente da essncia moral da doutrina. Tnhamos quatro reunies semanais, s quais comparecia sem falta. Confesso que sentia certo prazer na assistncia aos desencarnados desequilibrados. Para eles, tinha sempre longos discursos decorados na ponta da lngua. Aos infelizes, mostrava que sofriam por culpa prpria. Aos mistificadores, recomendava firmemente que abandonassem a mentira criminosa. Os casos de obsesso eram tratados com paixo. Gostava de enfrentar obsessores cruis para reduzi-los a zero com argumentos pesados. Outra caracterstica forte, era o domnio que pretendia exercer sobre alguns sacerdotes catlicos desencarnados, ignorantes das verdades divinas. Chegava ao cmulo de estudar, pacientemente, longos trechos da Bblia, no para pensar a respeito, mas para mastig-los vontade e depois vomit-los aos espritos perturbados, em plena sesso, com a idia criminosa de falsa superioridade espiritual. O apego s manifestaes exteriores me desorientou completamente. Acendia luzes para os outros, mas preferia os caminhos escuros, esquecendo-me de mim mesmo. S quando voltei para c pude perceber a gravidade da minha cegueira. Por vezes, depois de longa doutrinao sobre a pacincia, fazendo pesadas imposies aos desencarnados, abria as janelas da nossa casa para chamar a ateno das crianas que brincavam inocentes na rua. Instigava os espritos perturbados a se manterem serenos para, logo depois, repreender senhoras humildes, presentes reunio, quando no conseguiam evitar que alguma criana doente chorasse. E isso o mnimo, porque, na minha loja, minhas atitudes eram inflexveis. Raro era o ms que no mandava promissrias para protesto. Lembro-me de alguns comerciantes menos felizes que me pediam mais prazo, desculpas e proteo. Mas nada me fazia mudar de idia. Os advogados conheciam minhas ordens. Passava os dias no escritrio estudando a melhor maneira de perseguir os clientes em atraso, com preocupaes e observaes nem sempre muito corretas e, noite, a ensinar o amor aos semelhantes, a pacincia e a doura, exaltando o sofrimento e a luta como estradas de luz para Deus. Andava cego. No conseguia perceber que a encarnao, por si s, uma sesso medinica permanente. Interpretava o Espiritismo a meu modo. Toda a proteo e garantia para

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    mim e valiosos conselhos ao prximo. Alm disso, no conseguia tirar a cabea dos espetculos exteriores. Fora das sesses prticas, minha atividade doutrinria consistia em vastos comentrios dos fenmenos observados, duelos verbais, narraes de acontecimentos diferentes, crticas rigorosas aos mdiuns. Monteiro parou um pouco, sorriu e continuou: - De desvio em descio, o problema cardaco me pegou completamente desprevenido da verdadeira realidade. Passei para c, como louco necessitado de hospcio. Era tarde quando reconheci que tinha abusado do dom da palavra. Como ensinar sem dar o exemplo ou dirigir sem amor? Entidades perigosas e revoltadas me esperavam depois do desencarne. No entanto, sentia comigo algo diferente. Meu raciocnio pedia socorro divino, mas meu sentimento se agarrava a objetivos inferiores. Minha cabea fazia splicas ao cu, mas meu corao se colava Terra. Nesse estado triste, vi-me rodeado de entidades ms que repetiam longas frases de nossas sesses. Com ironia, recomendavam-me serenidade, pacincia e perdo para as faltas alheias. Perguntavam-me tambm porque no me afastava do mundo, se j estava desencarnado. Gritei, roguei, esbravejei, mas tive de suportar o sofrimento por muito tempo. Quando o apego ao mundo material diminuiu, alguns bons amigos me trouxeram para c. E imagine que eu ainda estava revoltado. Sentia-me contrariado. No havia promovido as sesses de intercmbio entre os dois mundos? No havia me dedicado ao esclarecimento dos desencarnados? Percebendo minha irritao ridcula, alguns amigos me submeteram a tratamento. No fiquei satisfeito. Pedi Ministra Veneranda uma audincia, j que ela me havia patrocinado aquela oportunidade. Queria explicaes que pudessem me satisfazer o capricho pessoal. A Ministra est sempre muito ocupada, mas sempre muito atenciosa. No marcou a audincia, j que era um pedido absurdo, mas, por gentileza extrema, f