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O NOVO EXODO NO DEUTERO-ISAÍAS - PARADIGMA E ANAMNÉSIS DE SALVAÇÃO DANIEL MARTINS SOTELO 1

Author: dmsot3045

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O NOVO EXODO NO DEUTERO-ISAAS - PARADIGMA E ANAMNSIS DE SALVAO

DANIEL MARTINS SOTELO

SO PAULO 1996

RESUMO

O Dutero-Isaas continua a seduzir os leitores e pesquisadores da cincia vetero-testamentria. Aps as descobertas do sculo passado e deste sculo, a obra isaiana fascina seus leitores em muitos sentidos. O debate sobre a formao e composio do Dutero-Isaas mostrou avanos. Mas, a discusso ainda continua, passando, principalmente: pela redao final, pelas inseres posteriores, pela formao do miolo e pela moldura dutero-isaiana. As sees mais discutidas so: os textos sobre Ciro, o persa, e os textos sobre o Servo Sofredor. Na formao literria, a mixao, de poesia e da prosa, constante. A construo teolgica mais forte que a histrica. O motivo do xodo, ao qual est dedicada esta dissertao, um tema muito importante em Dutero-Isaas, profeta na Babilnia de 550 a 539/8 a. C. Este novo xodo situa-se na perspectiva da promessa, da salvao. Os profetas antes do exlio anunciavam o castigo e s depois a salvao. O Dutero-Isaas comea pela promessa. O novo xodo um paradigma e anmnesis, promessa e salvao. A recordao do antigo xodo no Dutero-Isaas tem a funo de mostrar que este novo xodo ser muito maior, fenomenal, fantstico. a transformao e a superao do antigo xodo. o que se v em: Isaas 41,1-11; 42,16-21; 49,7-12; 51,9-14; 52,7-12; 55,12-13. Na exegese destes textos fica evidenciado que o novo xodo no Dutero-Isaas anuncia a promessa e a salvao. Esta promessa vem pela libertao da opresso da Babilnia, atravs da sada, da caminhada pelo deserto transformado e da chegada a Sio com o anncio de que todas as naes presenciariam este acontecimento.

Dedico este trabalho para o Dr Milton Schwantes diretor e mentor da monografia defendida na Faculdade Nossa Senhora da Assuno no ano de 1996.O agradecimento tambm vai para este MESTRE dos mestres.Aos membros da Banca, ao Dr Beni dos Santos que agora bispo na grande So Paulo e ao meu amigo ex-dominicano Domingos Zamagna por sua perspiccia e coleguismo.

Dedico aos meus pais em ZAKHORIYM: Ramon Sotelo Guerra Abba e Maria Encarnacion Rodrigues Martinez que tiverem seus nomes mudados porque no sabiam direito o idioma portugus, s falavam o espanhol, e que seus nomes foram transformados por um funcionrio sem escrpulos ou por ignorncia num cartrio do interior paulista, Aos meus irmos que de doze restam apenas cinco mulheres e trs homens,Aos meus netos, neta e filhos, s mulheres que passaram em minha vida amorosa.

SUMRIO

INTRODUO

CAPTULO 1 O CONTEXTO SCIO-HISTRICO DE 550 A 539/8 a. C.1.1 O ANTIGO ORIENTE E JUD1.2 A QUEDA DA ASSRIA EM 722 a. C.1.3 A BATALHA DE MEGIDO1.4 O DOMNIO EGPCIO NA REA DE MEGIDO E CARQUEMIS1.5 A PRIMEIRA DEPORTAO DOS JUDATAS PARA A BABILNIA1.6 A SEGUNDA DEPORTAO DOS JUDATAS PARA A BABILNIA1.7 AS CONSEQUENCIAS DA QUEDA DE JERUSALEM

CAPTULO 2 AMBIENTE SCIO-HISTRICO DO DEUTERO-ISAAS2.1 OS ANTECEDENTES HISTRICOS2.2. OS ANTECEDENTES DO DEUTERO-ISAAS2.2.1 A histria do tempo do Deutro-Isaas2.2.2 A mensagem do Deutro-Isaas2.3 A SITUAO DOS EXILADOS NA BABILNIA2.4 A VIDA NO EXLIO2.4.1 O trabalhador Judaita e o trabalho compulsrio2.5 O DEUTERO-ISAAS NO CONTEXTO BABILNICO2.5.1 o Isaas da Babilnia2.6 A QUEDA DA BABILNIA E O FIM DO IMPRIO NEOBABILNICO

CAPTULO 3 ESTRUTURA DO LIVRO DO DEUTERO-ISAAS3.1 A FORMAO DO DEUTERO-ISAAS3.1.1 A histria da pesquisa do Deutro-Isaas3.1.1.1 O Deutro-Isaas conforme Bernhard Duhm3.1.1.2 O Deutro-Isaas conforme Brevard S. Childs3.1.1.3 O Deutro-Isaas conforme Claus Westermann3.1.1.4 O Deutro-Isaas conforme Roy F. Melugin3.1.1.5 As tradies histricas no Deutero-Isaas3.1.1.6 Comparaes entre Brevard S. Childs, Claus Westermann e Roy F. Melugin

CAPTULO 4 O MOTIVO DO EXODO NO DEUTERO-ISAAS4.1 OS ANTECEDENTES DO MOTIVO DO EXODO NO DEUTERO-ISAAS4.2 O NOVO EXODO COMO PARADIGMA E ANAMNESIS EM DEUTERO-ISAAS4.3 O NOVO EXODO COMO SALVAO EM DEUTERO-ISAAS4.4 O EXODO NO DEUTERO-ISAAS COMO NOVO EXODO

CAPTULO 5 O MOTIVO DO EXODO NOS TEXTOS DO DEUTERO-ISAAS5.1. ISAAS 40,1-115.1.1 O texto em Hebraico5.1.1.1 Traduo5.1.1.2 Questes exegticas5.1.1.3 O motivo do xodo5.2. ISAAS 43,16-215.2.1 O texto em Hebraico5.2.1.1 Traduo5.2.1.2 Questes exegticas5.2.1.3 O motivo do xodo5.3. ISAAS 49,7-125.3.1 O texto em Hebraico5.3.1.1 Traduo5.3.1.2 Questes exegticas5.3.1.3 O motivo do xodo5.4 ISAAS 51,9-145.4.1 O texto em Hebraico5.4.1.1 Traduo5.4.1.2 Questes exegticas5.4.1.3 O motivo do xodo5.5 ISAAS 52,7-125.5.1 O texto em Hebraico5.5.1.1 Traduo5.5.1.2 Questes exegticas5.5.1.3 O motivo do xodo5.6 ISAAS 55,12-135.6.1 Texto em Hebraico5.6.1.1 Traduo5.6.1.2 Questes exegticas5.6.1.3 Motivo do xodo

CONCLUSO

REFERNCIAS

INTRODUO

O motivo do xodo tem-se desenvolvido a contento na Amrica Latina, principalmente na Teologia da Libertao. Gustavo Gutirrez[footnoteRef:1] emprega o tema para demonstrar a hermenutica da libertao. No somente usa o xodo como tambm o segundo xodo da Babilnia em sua teologia. Rubem Alves, em sua obra, trata estes xodos como paradigma da libertao[footnoteRef:2]. Contudo, quem mais trabalhou exegeticamente os temas do xodo e do Servo Sofredor, dando uma abordagem quanto forma, ao contedo e composio do Deutro-Isaas, foi Carlos Mesters[footnoteRef:3]. [1: GUTIERREZ, Gustavo. Teologia da libertao. Editora Vozes, Petrpolis, Rio de Janeiro, 1985, 5a. edio, p.130-176.] [2: ALVES, Rubem. Cristianismo, opio o liberacin. Ediciones Sgueme, Salamanca, 1973, p.54-159,180-240.] [3: MESTERS, Carlos. A misso do povo que sofre - Os cnticos do Servo de Deus no livro do profeta Isaas. Editora Vozes/CEBI, Petrpolis, 1981, p.194.]

O motivo do xodo um tema fascinante dentre muitos temas discutidos na obra isaiana.

O motivo do xodo na teologia bblica e na exegese est longe de estar esgotado nas pesquisas do Primeiro Testamento. Faz parte de uma ampla discusso e que muitas vezes permeia todos os nveis das teorias e das hipteses[footnoteRef:4] e das prticas. [4: VIRGULIN, Stefanus. O Dutero-Isaas. in: FABRIS, Rinaldo. Problemas e perspectivas das cincias bblicas. Edies Loyola, So Paulo, 1993, p.178-194. Ver tambm a obra de SARNA, Naum. Exploring Exodus, the Heritage of Biblical Israel. Schocken Books, New York, 1987, p.277.]

A discusso continua e por certo continuar por duradouros perodos. Sabemos, porm, de antemo, que esta idia do xodo ocorre tanto no Antigo Testamento como, tambm, no Novo Testamento[footnoteRef:5]. Num estudo pormenorizado podemos detectar que o tema percorre toda literatura intertestamentria; encontrando-se inserido em toda a literatura apcrifa, pseudoepgrafe como na patrstica. [5: CROATTO, Jos Severino. xodo: uma hermenutica da liberdade. Edies Paulinas, So Paulo, 1981, p.35-73.]

O retorno dos cativos, aps 538 a.C., no foi em massa, mas devagar e aos poucos. Muitos nem retornaram. Os Judatas comearam a fazer a viagem de regresso, peregrinando em direo terra prometida. O segundo xodo, mencionado pelo Deutro-Isaas, fala de uma nova passagem pelo deserto, uma nova travessia e enfim a chegada a Jerusalm. Esta idia de xodo est, pois, presente, efetivamente na mensagem em vrios relatos do nosso profeta.[footnoteRef:6] [6: Na discusso do perodo histrico baseio-me em algumas obras de Histria de Israel, como por exemplo: SOGGIN, Jos Alberto. Storia dIsrael. Paideia Editrice, Brescia, 1984, p.375-389; JAGERSMA, Hans. A History of Israel in the Old Testament Period. SCM Press, London, 1988, v.2, p.74-191; DONNER, Herbert. Geschichte des Volkes Israel und seiner Nachbarn. Vandenhoeck und Ruprecht, Gttingen, 1984, v.2, p.381-390 (traduo bem posterior em portugus por Editora Sinodal); FOHRER, Georg. Histria da Religio de Israel, Paulinas, So Paulo, 1984.]

Existe substancial bibliografia sobre o Deutro-Isaas, desde autoria, formao, composio, anlise literria, temtica, tradies desenvolvidas ao longo da obra, e teologia do autor no exlio[footnoteRef:7]. [7: WIENER, Claude. xodo de Moiss - caminho para hoje. Edies Loyola, So Paulo, 1974, p.87-122. ]

A discusso em torno da obra isaiana comeou no sculo XII d.C. com um telogo e filsofo judeu medieval chamado Ibn Ezra, quem colocou pela primeira vez em dvida a unicidade do livro de Isaas e consequentemente afirmou a existncia de vrios escritores. Quatro sculos depois, em 1789, Johann Christian Doederlin, seguindo a sugesto feita em 1873 por seu patrcio Johann Gottfried Eichhorn, inicia a teoria da separao do livro de Isaas. Passou-se a enfatizar que o Deutro-Isaas deveria ser separado das outras partes dos outros Isaas. Bernhard Duhm afirmou a tese da existncia das vrias partes de Isaas, como: o Isaas Segundo e o Trito-Isaas. Postulou tambm, que os outros textos do livro de Isaas foram elaborados e reescritos por um grupo dos discpulos de Isaas, que passou a ser denominado de: crculo de discpulos de Isaas[footnoteRef:8]. [8: MUILENBURG, James. The book of Isaiah 40-66. in: Interpreters Bible, v.5, Abingdon Press, Nashville, 1957, p.381-422.]

A tese sobre a separao do livro de Isaas foi amplamente aceita em toda a pesquisa: Isaas 1-39 foi denominado de Isaas de Jerusalm, ou tambm de Primeiro Isaas; Isaas 40-55 (objeto de nossa pesquisa) foi denominado de Deutro-Isaas ou Isaas Jnior (Carlos Mesters)[footnoteRef:9] ou ainda o Isaas da Babilnia; e por fim, Isaas 56-66 de Trito-Isaas. [9: MESTERS, Carlos. A misso do povo que sofre - Os cnticos do Servo de Deus no livro do profeta Isaas. Editora Vozes/CEBI, Petrpolis, 1981, p.194. Os calvinistas de origem holandesa radicados nos Estados Unidos da Amrica editaram pela Bernhard Williams Eerdmanns de Michigan compem a faco fundamentalista e editaram vrios livros sobre o profeta Isaias, como exemplo cito: YOUNG, Eduard J. Isaiah, a commentary. Eerdmanns Publishing Company, 1965, 3vol; YOUNG, Eduard J. Studies in Isaiah. London, Tyndale, 1954; WALLIS, Oswald T. The Unity of Isaiah. Philadelphia, The Presbiterian and Reformed Publishing Company, 1950, p.170.]

Ainda hoje as descobertas de Bernhard Duhm continuam em evidncia e vigor, contudo conservadores e fundamentalistas insistem ainda na unicidade do livro do profeta Isaas e que o profeta o autor-escritor de toda obra. Isto ocorre, seguidamente. Ns assumimos as posies da crtica literria, da redao, da forma e da histria, que determinou a diviso do livro do profeta Isaas[footnoteRef:10]. [10: MELUGIN, Roy. The formation of Isaiah 40-55. Beiheft zur Zeitschrift fr die alttestetamentliche Wissenschaft. v.141, Walter De Gruyter, Berlin/New York, 1976, p.77-174.]

Vimos que a bibliografia sobre o Deutro-Isaas grande. Porm, as obras especficas sobre a temtica do xodo e o novo xodo no so frequentes. Numa reviso bibliogrfica, possvel avaliar uma ou duas dezenas de artigos sobre o assunto que analisam o xodo e o novo xodo como tipologia, simbologia e analogia desta idia[footnoteRef:11]. [11: Os artigos citados na bibliografia final referem-se ao xodo como os de: ANDERSON, Bernhard W. Exodus tipology in second Isaiah. in: Bernhard W. Anderson e Walter Harrelson. Israels Prophetic Heritage. Harper and Brothers, New York 1962, p.177-195; BEADUET, Roland. La Typologie de lExode dans le Second Isaie, Estudes Theologiques. Press de lUniversite de Laval, Quebec, 1963, p.11-21; BLEKINSOPPP, Joseph. Alcance e profundidade da tradio do xodo no Dutero-ISaas Is.40-55. in: Concilium, dezembro 1966 (nr.10), Livraria R.Morais, Lisboa/Recife, 1966, p.37-46.; WIENER, Claude. O Dutero-Isaas. in: O profeta do novo xodo. Cadernos Bblicos, v.7, Edies Paulinas, So Paulo, 1984, 2a. edio, p.84. WIENER, Claude. xodo de Moiss. So Paulo, Loyola, 1974, p.148; ZIMMERLI, Walter. Il nouvo Esodo. in: Rivelazione di Dio. Editrice Jaca Book, Milano, 1975, p.175-185.]

Entende-se o novo xodo ou segundo xodo como uma rememorao dos acontecimentos ocorridos no xodo do Egito. Pensa-se que a meno do xodo traz a recordao dos fatos anteriores, porque tem um determinado objetivo teolgico. O Deutro-Isaas leva o povo a recordar os acontecimentos anteriores, trazendo memria do povo o processo salvfico de Jav. A bibliografia disponvel induz a concluir que em determinados textos na obra do Deutro-Isaas se processa a recordao do Egito. Jav retirar o povo da Babilnia. Porm, no primeiro xodo, o lder era Moiss, aqui neste xodo da Babilnia o auxlio vem de um estrangeiro ungido por Jav, para retirar o seu povo da escravido. Logo, o novo xodo no ter um s guia semelhante a Moiss[footnoteRef:12]. [12: WIENER, Claude. xodo de Moiss. So Paulo, Loyola, 1974, p.87-122.]

O xodo ser, conforme as narrativas dutero-isainicas, maravilhoso, espetacular e milagroso. Os prodgios sero maiores que os milagres e as pragas no Egito. O povo no vai receber os mandamentos e sim uma nova profisso de f no retorno. O cntico de Miriam ser substitudo pelo cntico de vitria. A salvao iminente e mais rpida. Jav no o guerreiro do xodo do Egito. No Dutero-Isaas, Deus o Criador e o transformador de tudo e de todas as coisas. Na obra isaiana est inserida uma teologia da criao e da histria, para mostrar que a salvao ir acontecer para criar novas todas as coisas. O juzo de Deus suscitar o persa Ciro, para destruir as naes escravizadoras de Jud. O Deutro-Isaas desdobra-se em duas partes para demonstrar as etapas de salvao:

a) Jav o Todo-Poderoso para conceder a seu povo regresso sua terra - Is 40-48.b) A nova fase ser a de reconstruo da terra - Is 49-55.

A salvao de Jud no significa apenas o fim da escravido, mas tambm o perdo da culpa. A bondade de Jav a manuteno da aliana e da promessa do povo de Deus (Is, 40,1, 48,8; 43,1).

O presente trabalho foi conduzido visando, atravs de uma anlise dos textos, reler e reinterpretar o motivo do xodo em Deutro-Isaas. Este motivo insere-se num contexto maior da teologia do Deutro-Isaas: o xodo como motivo da teologia da salvao. O alvo do trabalho o tema do xodo, mas pretendemos tambm demonstrar que o novo xodo uma teologia da salvao.

CAPTULO 1 O CONTEXTO SCIO-HISTRICO DE 550 a.C. a 539/8 a. C.

A situao deste perodo mostra que, por onde o dominador Nabucodonosor passou, houve destruio de Jerusalm, houve desolao no templo. O povo que ainda acreditava e tinha alguma esperana na no conquista por parte dos invasores desesperou. Infelizmente existem poucos documentos que comprovam certos pormenores. Mas, para o perodo que prenuncia a invaso e a destruio por parte da Babilnia, em Jerusalm h registros de tais acontecimentos.

Os anos difceis de 609, 597 e 587/6 a.C. so descritos de formas diferentes tanto no Antigo Testamento em 2 Reis 24 e 25 como em Jeremias e Lamentaes; nas crnicas babilnicas e em alguns stracas - material epigrfico em hebraico - e em alguns selos[footnoteRef:13]. Os conflitos na poltica e em vrios setores da vida pblica e religiosa afloraram em Jerusalm. A luta pelo poder foi imensa. Assim, alguns grupos tentaram a resistncia contra a Babilnia e at organizaram a insurreio. Enquanto que, outro grupo aceitava a dominao estrangeira, gerando a partir da uma luta entre os prprios Judatas. O profeta Jeremias iniciou a luta com o anncio da pregao em 627 a.C.. Falava dos pressgios de catstrofe que o povo no conseguia enxergar. Este discurso rendeu-lhe a denominao de: Jeremias, o profeta do desastre (Jr 7,15). [13: TADMOR, Haim. poca del Primer Templo, el cautiverio babilnico y la restauracin. in: Haim H. Ben Sasson. Histria del pueblo judo. V.1, Alianza Editorial Madrid, 1988, p.186-200.]

O rei Joaquim iniciou seu reinado em 609 a 598 a.C., vivenciando a ebulio e mudanas no seu reinado, provocadas pela dominao egpcia e a ameaa babilnica. Em 605 a.C., o rei se livra da ameaa e da guerra egpcio-babilnica em Carquemis e no Eufrates. Nabucodonosor foi herdeiro natural de Nabopolassar quem derrotou o egpcio Neco. Estes fatos retratam o contexto da poca e encontram-se registrados em Jr 46,2 e nas crnicas dos reis babilnicos durante os reinados de Nabopolassar e Nabucodonosor[footnoteRef:14]. [14: PRITCHARD, James. La sabidura del Antiguo Oriente. Ediciones Garriga, Barcelona, 1966, p.239-243.]

1.1 O ANTIGO ORIENTE E JUD

O Antigo Oriente prximo sofre profundas transformaes ao passar de uma conjuntura poltica implantada pelo Imprio Assrio ao domnio do Imprio Babilnico, refletindo-se na economia e arrecadao de impostos e tributos que eram feitos pelos assrios pessoalmente. Os babilnios colocam seus governadores e pessoal especializado para fazer a arrecadao. Na implantao da dominao dos povos, os assrios faziam a transmutao de populares de um local para o outro para dificultar as fugas e as reorganizaes. Os babilnios localizavam as populaes de diferentes nacionalidades num mesmo local e separavam os especialistas para realizarem seus trabalhos nas cidades e suas construes, nas irrigaes, nas plantaes, ruas e estradas. No caso dos judatas, eles foram levados as pessoas pertencentes elite de Jerusalm.

Neste ambiente histrico da poca, Jud est reduzida e dominada. O reino do norte, Israel, havia sido dominado e destrudo pelas vrias incurses assrias. O reino do sul, Jud, vivia em clima de tenso e de apreenso em funo da situao da ameaa da poltica reinante em seus domnios e ao seu redor. Sabia-se que a qualquer momento Jud podia ser invadida e conquistada. Nabucodonosor II estava rondando os domnios na vizinhana, e j havia dominado locais estratgicos prximos. Inclusive havia afugentado o Egito e lutado na batalha de Carquemis. A Assria estava sob o domnio babilnico desde 605-56l a.C. Joaquim e posteriormente Zedequias procurou apoio no Egito com desaprovao dos profetas que viram a eminente invaso e dominao. Os reis que se apoiaram em aliados contra a Babilnia viram Jerusalm ser sitiada em 597 a.C. e ser conquistada em 587/6 a.C. Para melhor compreenso deste perodo, necessrio conhecer um pouco da vizinhana de Jud.

1.2 A QUEDA DA ASSRIA EM 722 a.C.

O Imprio Assrio comea a desmoronar e sucumbe perante a sua prpria grandeza. Na Babilnia, as revoltas e lutas pelo poder favorecem a ascenso de Nabucodonosor II ao trono. Na mesma situao o maior inimigo da Babilnia, o Egito, surge em plena recuperao, e tambm como inimigo da Assria. A XX Dinastia assume o poder no Egito no perodo de 660 a.C., sob a influncia de psamticos.

Apesar desta efervescncia poltica no Antigo Oriente Prximo, com a mudana de poder no Egito e na Assria, a mudana de vassalos s ocorre em 650 a.C.. As tropas assrias deixam o Egito sossegado, e este invade o antigo territrio da Filistia. Isto parece coincidir exatamente com uma invaso dos assrios na Sria e Sidnia.

No perodo de 626 a.C., a revolta na Babilnia contra a Assria surte algum efeito positivo. O caldeu Nabopolassar assume o poder e faz uma aliana importante com os medos, contudo ainda no ocorre o final do poder da Assria. O sumo sacerdote de Haran, Assur-Ubalit II, proclamado rei da Assria e se mantm a duras penas, por pouco tempo, como governador de Nnive em 610-609 a.C.

O Egito, por sua vez, permanece aliado da Assria at o fim das intempries. Assur-Ubalit II, depois da queda de Haran em 610 a.C., recebe apoio do Fara Neco, com armas, com a brigada egpcia e um exrcito formado por mercenrios estrangeiros. O resto da tropa de Assur-Ubalit II tenta resistir e reconquistar Haran, mas cai fulminado diante do poderio das tropas babilnicas. Em 608 a.C., o fara Neco faz uma campanha na Palestina e o rei Josias de Jud morre neste confronto em oposio feita na batalha de Megido.

Desta forma o imprio assrio chega ao fim. O fara Neco est enfraquecido devido s batalhas anteriores e aos auxlios prestados aos seus aliados. Jud comea a pagar tributos em forma de impostos aos egpcios, cobrados pelas alianas efetuadas com seus vizinhos em troca da proteo recebida.

1.3 A BATALHA DE MEGIDO

Megido um ponto de ligao de dois caminhos: o primeiro vai de Siqum a Hazor e o outro de Acco, Hazor a Damasco. A cidade um interposto na rota comercial. Este caminho depois dos importantes que comeam no Golfo de caba, dirige-se a Damasco, passando pelas serras da Transjordnia. Megido uma cidade que faz encruzilhada destes caminhos e destas rotas comerciais e ponto estratgico.

Na batalha de Megido o rei Josias se defronta com o rei fara Neco. Esta batalha teve conseqncias importantes para a vida posterior em Jud. Aps a queda de Haran, o fara Neco se lana ao ataque na Palestina e no Eufrates. Ele se utiliza da via das caravanas comerciais da Cisjordnia. Esta rota comercial a antiga estrada para se chegar aos locais de comrcio da poca. No meio desta rota ficava a principal cidade-estado das caravanas que era Megido. Neste local, o rei Josias de Jud foi se defrontar com o fara Neco na batalha que resultou em sua derrota e morte e no pagamento de tributos aos egpcios (confira 2 Reis 23,29). Megido tornou-se a base militar avanada e de apoio para o Egito. De l os egpcios controlavam a situao poltica e a arrecadao de impostos[footnoteRef:15]. [15: SCHWANTES, Milton. Histria de Israel local e origens. Polgrafo, v.7, fasc.1, Comisso de Publicaes da Faculdade de Teologia da IECLB, So Leopoldo, 1984, p.25-28. Ver tambm TADMOR, Haim. The period of the first Temple, the Babylonian Exile and the Restoration. in: H. H. Sasson. A History of the Jewish People. Weidenfeld and Nicholson / Dvir Publishing House, London/Tel Aviv, 1969/1976, p.91-182.]

Embora os relatos da batalha de Megido permitam visualizar a amplitude do conflito, ficam questes como: por que Josias entra em conflito com fara Neco? Por que o Antigo Testamento se refere pouco a este fato? Seria a influncia proftica pr-babilnica? Ou seria influncia do rei Josias na redao dos livros do Antigo Testamento? As questes no so devidamente comentadas no Antigo Testamento.

Josias via no confronto entre os Egpcios e os Babilnicos a superioridade do poder babilnico. Acreditava que no seria incomodado pelos egpcios. Pensava que os babilnios, vencendo os egpcios, ficariam livres do incmodo do pagamento dos impostos aos egpcios. Desta forma livre e independente, Jud estaria com a paz garantida, como o profeta Jeremias predissera (Jr 24). O rei Josias no atendeu o profeta Jeremias e seu anncio do perigo de retaliaes. Apesar de o profeta mostrar esta situao, ele, contudo, no atentou para a ameaa egpcia. No atendeu a seu apelo e a sua repreenso. Josias foi defront-lo em Megido. Nesta batalha o rei de Jud morre (2 Rs 23,29).

Neco parte depois para Carquemis e novas conquistas. Carquemis era um grande centro econmico neste perodo, localizado ao norte da Assria. Comea, ento, o avano da Babilnia e suas conquistas na Palestina em confronto com o Egito.

1.4 O DOMNIO EGPCIO NA REA DE MEGIDO E DE CARQUEMIS

O Egito tinha certo controle scio-econmico nesta regio, em funo de suas bases militares e de arrecadao de tributos nas cidades de Megido e de Carquemis. Neco parte para o leste em direo ao crescente frtil. Encontra e se confronta com os babilnios que vem para a Palestina. Nesta luta e na demonstrao de poder por parte dos dois imprios nenhum dos dois sai vencedor, nesta ocasio. Neco no consegue conquistar Haran dos assrios. Esta cidade mais tarde entrar em colapso e ser dominada pelos babilnios. [footnoteRef:16] [16: TADMOR, Haim. poca del templo, el cautivero babilnico y la restauracin. In: SASSON, H.H.Ben. Historia del pueblo judo. v.1, Alianza Editorial, Madrid, 1988, p.186-200.]

O fara Neco firmou seus ps sobre a Sria e tambm na regio de Cana. Existem inscries a este respeito em textos egpcios[footnoteRef:17]. O Egito chegou a governar a Fencia e Jud por breve tempo[footnoteRef:18]. [17: WILSON, John A. Textos histricos egpcios. In; PRITCHARD, James (editor). La sabidura del Antiguo Oriente. Ediciones Garriga, Barcelona, 1968, p.239-243.] [18: PRITCHARD, James. Op. cit., p. 239-243.]

Aps a morte de Josias, Jeoacaz assume o poder em Jud e se torna rei (2 Rs 23,30). Jeoacaz no o filho mais velho do rei Josias para assumir o trono de Jud. Jeoacaz permanece no poder apenas por trs meses (609/8) e o fara Neco em sua campanha na Palestina submete-o em Ribla e o deporta para o Egito. Jr 22,10-22 fala destas injustias e da reao dos judatas a essa vassalagem e que o rei Salum (Jeoacaz) no retornaria a Jud. O fara entroniza outro e muda seu nome para Jeoaquim (2 Rs 23,31-34). Neste tempo, o fara Neco submete todas as cidades-estado, prximas de seus vassalos, Amarna e algumas cidades de Jud.

1.5 A PRIMEIRA DEPORTAO DOS JUDATAS PARA A BABILNIA

A primeira deportao ocorreu em 597 a.C., quando Nabucodonosor estava diante das portas de Jerusalm. Joaquim havia resistido e vai para o cativeiro com a primeira leva de judatas para a Babilnia. Ele foi rei de Jud por trs meses apenas em 587 a.C. Nabucodonosor nomeia em seu lugar o tio Matanias, que governa em Jud por onze anos: 598/7-587/6 a.C.[footnoteRef:19] [19: PRITCHARD, James. La sabidura del Antiguo Oriente. Ediciones Garriga, Barcelona/Madrid, 1966, p.239-243.]

Os anais babilnicos[footnoteRef:20] mostram que Nabucodonosor, alm de colocar outro rei em Jud, levou prisioneiros judatas para a Babilnia. Os prisioneiros faziam parte da casa real e da elite jerusalimitana. Joaquim permanece prisioneiro na Babilnia. Em 2 Rs 25,27-30 e Jr 52,31-34 se v que o rei permaneceu prisioneiro por trinta e sete anos. Foi perdoado por Evil-Merodac, o sucessor de Nabucodonosor em 561-560 a.C.. [20: JAGERSMA, Hans. Op. cit., p.203-221.]

Nabucodonosor, alm de levar os cativos da casa real, transportou vrios especialistas como: funcionrios do estado e do templo, artesos, ourives e milcia. Ele tambm levou todos os tesouros do templo e do palcio real para esta terra distante (2 Rs 24,13). Nesta leva inclui-se o sacerdote Ezequiel (Ez 1,1-3) que se torna profeta em terra estranha. Jr 52,28 se refere a trs mil e vinte e trs cativos, enquanto que 2 Rs 24,16 fala de dez mil prisioneiros. Mesmo no sendo possvel especificar com exatido os dados disponveis, o nmero de prisioneiros deve ter sido elevado.

Os desacordos sobre os nmeros de deportados so enormes. Tambm no h unanimidade sobre as datas em que Jerusalm caiu nas mos dos babilnios, podendo ter ocorrido no vero de 587 a.C. ou ainda no vero de 586 a.C.. Como o sistema cronolgico babilnico difere da forma cronolgica judata, as tentativas de precisar datas absolutas tornam-se questionveis. Jeremias e Ezequiel datam alguns eventos em conexo com o cativeiro de Jeoaquim (Ez 33,21) ou com relao aos reinados dos reis babilnicos (2 Rs 25,8; Jr 52,12). Assim se d a queda final de Jerusalm e o incio do cativeiro na Babilnia.

1.6 A SEGUNDA DEPORTAO DOS JUDATAS PARA A BABILNIA[footnoteRef:21] [21: JAGERSMA, Hans. Op. cit., p.203-221.]

O cativeiro na Babilnia a partir de 586 a.C. passa a ser uma realidade dura na vida dos exilados. Esta realidade reflete-se em vrios nveis na vida dos judatas. Este cativeiro vai se prolongar por quase meio sculo. A adaptao no exlio vai ser difcil, o trabalho duro, o servio a Jav e o culto so, em grande parte, abandonados. Vo ocorrer mudana e evoluo da lngua. A conservao da lngua por escrito vai determinar os aspectos da vida do exilado.

Neste perodo de exlio a remodelao da vida e a criao de novas formas religiosas sofrem a influncia e o sincretismo dos babilnios. Sero preponderantes tanto na criao literria dos judatas como na forma religiosa. Surge a preocupao pela histria da vida do povo, a criao de uma teologia, a recopilao da histria do prprio povo. Em certo sentido, o exlio auxiliou na criao literria, na preservao dos ritos e dos cultos.

Existem registros destas preocupaes no Antigo Testamento como em 2 Rs 25. A obra literria comeava por enfocar os prprios acontecimentos do povo. Assim, a criao da obra historiogrfica deuteronmica um sinal desta preocupao. Sabemos tambm muita coisa do exlio pela obra dos profetas como o caso do profeta Jeremias e do escrito de Lamentaes e de Salmos. As narrativas profticas que mais tratam destes acontecimentos so do profeta Ezequiel que atuou na prpria Babilnia.

Tanto Ezequiel como o Dutero-Isaas so os profetas no exlio. Contudo, os textos mais explcitos sobre o exlio se encontram na obra do profeta em questo: o Dutero-Isaas (Is 40-55) que atua especificamente no perodo de 550-529 a.C.

1.7 AS CONSEQNCIAS DA QUEDA DE JERUSALM

Fica difcil demonstrar e estimar as conseqncias da queda de Jerusalm e o fim do Estado judata. O fim da dinastia davdica tem conseqncias trgicas, pois a falta de sua ideologia muito bem organizada cria problemas para a reorganizao da vida jerusalimitana. A dinastia se tinha enraizado, a figura de Davi permanecia indelvel presente na esperana de reorganizao da vida em Jud. A esperana da vinda do tempo de salvao estava inculcada no pensamento e na ideologia davdica.

A perda de identidade e de independncia trouxe marcas insuperveis para a vida do povo que permaneceu em Jud. Os babilnicos, ao contrrio dos assrios, tinham outro mtodo e prtica de deportao dos conquistados. As transposies de grupos tnicos feitos pelos assrios so abandonadas pelos babilnicos. Na Babilnia os grupos permanecem juntos e em coeso trabalham e mantm a identidade. Na Assria, se misturava os grupos para dificultar a reorganizao da vida pessoal e tnica.

Os exilados na Babilnia refazem a sua vida. Eles se reorganizam e inclusive reescrevem a histria do povo. Existe um florescimento literrio, ritual e cultual. Observa-se o surgimento de blocos literrios do Antigo Testamento e das releituras de vrios textos do Antigo Testamento neste perodo. A mudana do pensamento proftico organizada neste perodo. A mudana do pensamento proftico tambm ocorre na Babilnia com o Dutero-Isaas.

Nos profetas anteriores como Isaas, Ams e Miquias, a mensagem ainda de condenao pelo pecado cometido e o exlio o pagamento deste pecado. Enquanto isso Ezequiel e o Dutero-Isaas j falam de salvao e no de condenao de Jav. Os perodos que vo da deportao at a poca do livramento com o persa Ciro so de suma importncia para a vida dos exilados em Jud. Como eles sobreviveram catstrofe, houve o tempo necessrio para a reorganizao da vida coletiva em Jud. Ocorre a organizao at a fraca independncia poltica e a preservao da identidade do povo. Os dois profetas, Ezequiel e o Dutero-Isaas, mostram a evoluo teolgica e literria, o retorno histria e religio do exilado em Jud.

CAPTULO 2 O AMBIENTE SCIO-HISTRICO DO DUTERO - ISAAS

Este captulo discorre sobre o perodo de 550 a.C., fazendo uma aproximao ao ambiente scio-histrico de Dutero-Isaas. Para uma perfeita e necessria compreenso necessria se torna a esboar a situao decorrente deste perodo de 550 a.C., em relao ao perodo das deportaes dos exilados para a Babilnia, essencialmente as deportaes de 597 e de 587/6. Queremos determinar os judatas que foram deportados nestes perodos. Para onde foram os deportados, como viviam, como trabalhavam e como era o Imprio babilnico neste perodo? Como ocorreu o declnio deste Imprio e como deu incio ao novo imprio persa e sua ascenso?[footnoteRef:22] [22: Esta situao pouco desenvolvida em algumas obras da Histria de Israel, como: BRIGHT, John. Histria de Israel. Edies Paulinas, So Paulo, 1981, 2a. edio, p.436-505; AHLSTROM, Gsta. The History of Ancient Palestine. Fortress Press, Minneapolis, 1993, p.741-812; HAYES, John H. e HOOKER, Paul K. A new chronology for the kings of Israel and Judah. John Knox Press, Atlanta, 1988, p.85-98.]

2.1 OS ANTECEDENTES HISTRICOS

Passaram-se vrios perodos de altos e baixos desde a ascenso e sucesso ao trono de Salomo e seu modo de expandir o seu territrio. Os problemas causados por sua poltica expansionista provocaram um clima de revanche por parte de seus vizinhos. A poltica continuada de seus sucessores de taxao e de tributarismo e bitributarismo levaram a um enfraquecimento da populao em suas reservas e na produo de bens. No comrcio e no campo houve um empobrecimento que foi culminar na dominao dos citadinos sobre os campesinos.

Os sucessores de Salomo provocaram a diviso do reino do Norte com a capital em Samaria e o Reino do Sul com o governo de Jerusalm. Mesmo com as ideologias de reforma, ocorridas no perodo de Ezequias e Josias, a situao de dominao scio-poltica continuou. Mesmo no perodo de opresso assria e suas formas de imperialismo, no se suscitou mudana nos governos do Norte e do Sul. Aps a destruio do Norte e com a invaso dos Assrios, o Sul continuou com sua poltica tributria enfraquecendo o povo.[footnoteRef:23] [23: BRIGHT, John. Histria de Israel. Edies Paulinas, So Paulo, 1981, p.436-440.]

2.2 OS ANTECEDENTES DO DUTERO-ISAAS

James Muilenburg[footnoteRef:24] desenvolve a situao histrica deste perodo como sendo importante para entender o pensamento e a atividade do Dutero-Isaas. Conforme este autor, por trs do pensamento do profeta est implcita a histria da aliana e da promessa davdica, a tradio de Sio e outras tradies como a prpria histria do Antigo Oriente Prximo. Isto fica evidente quando o profeta menciona e reelaboram as leituras das tradies do Antigo Israel, como a tradio de Abrao e a queda das naes (Assria, do Egito, de Jerusalm e da Babilnia). Contudo o profeta destaca o surgimento de um novo imprio que traria benefcios para o povo escolhido. [24: MUILENBURG, James. The Book of Isaiah 40-66. In: Interpreters Bible, v.5. Abingdon Press, Nashville, 1957, p.381-422; MILLER, John Maxwell e HAYES, John H. A history of Ancient Israel and Judah. SCM Press, London, 1986, p.416-437; NORTH, Martin. Historia de Israel. Ediciones Garriga, Barcelona, 1966, p.237-273; FOHRER, Georg. Storia dIsraele. Paideia Editrice, Brescia, 1980, p.201-231.]

Os acontecimentos histricos deste perodo podem ser esboados da seguinte maneira: a morte do ltimo rei da Assria em 613 a.C. e a invaso e destruio de Jerusalm por Nabucodonosor II, o maior rei da Babilnia em 587/6 a.C.. Na seqncia reina Nabonides at a queda da Babilnia em 538 a.C., quando surge o novo imprio persa com o rei Ciro.

2.2.1 A HISTRIA DO TEMPO DO DUTERO-ISAAS

Claus Westermann inicia seu Isaas 40-66 a commentary[footnoteRef:25], narrando a situao histrica deste perodo. O tempo da atividade do Dutero-Isaas situa-se entre a queda e a destruio de Jerusalm em 587/6 a.C., at a queda da Babilnia e seu imprio em 539 a.C. As partes mais evidentes de sua mensagem coincidem com o fim deste perodo, provavelmente em torno de 550 a.C., ano em que comeam as campanhas vitoriosas de Ciro, o persa. Outro autor como Joaquim Begrich, mostra que o Deutro-Isaas pode ser fixado nestas datas, por diferentes estgios de sua mensagem, contudo, para Claus Westermann, isto pode ser duvidoso. Pois para Claus Westermann, o contedo dos captulos 40-55 mostra que a atividade deste se estende por longo tempo, talvez por vrias dcadas. Os esboos destes eventos polticos neste perodo so bem conhecidos, diferentes dos resultados apresentados por Brevard S. Childs. [25: WESTERMANN, Claus. Isaiah 40-66 a commentary. Westminster Press, Philadelphia, 1969, p.16-17.]

Para este perodo histrico, Claus Westermann mostra que o imprio babilnico somente permaneceu forte enquanto Nabucodonosor II esteve no poder de 604 a 562 a.C. Depois da destruio de Jerusalm em 587/6 a.C. e da destruio de Tiro em 585 a.C., o imprio enfraqueceu e s aps treze anos de investimento na regio, consegue alguns bons resultados. O profeta Jeremias 52,30 mostra que a Babilnia fez campanhas posteriores contra Jud, fazendo deportaes, fato este registrado no Antigo Testamento. Em 586 a.C., marcha contra o Egito. A Babilnia enfraquece com a morte de Nabucodonosor II e com a ascenso de Nabonides, o ltimo rei da Babilnia em 556-539 a.C. As mudanas no trono da Babilnia pioram a situao. Nabonides era descendente de sacerdote devoto da deusa Lua SIN. Restaura o templo em Haran, luta contra o poderoso sacerdote de Marduk na Babilnia. Todos estes procedimentos corroboram para que a Babilnia caia cada vez mais. Nabonides fez de Tema, no deserto rabe, a sua capital e permanece no trono por oito anos, nos quais seu filho Sheshbazzar assume o poder na verdade.

No reino da Mdia, um reino rival da Babilnia, Afaxares tem o poder e faz de Ecbatana sua capital. Seu reino se estende de Halys at a fronteira com a Ldia. Seu filho, o sacerdote Astyages, em 585-550 a.C., se torna vassalo de Ciro, o rei persa, em Ashan. Em 550 a.C., Ciro conquista Ecbatana, e se torna rei de toda esta regio. Em 546 a.C., Ciro conquista Sardis e Ldia e o Deutro-Isaas parece aludir a tais fatos em Isaas 41,2-3 e em 45,1-3. Algum tempo depois a Babilnia faz um pacto com a Ldia e com o Egito. No cilindro de Ciro h indcios que tanto o sacerdote de Marduk como alguns textos babilnicos aludem invaso de Ciro como sendo uma ao libertadora[footnoteRef:26]. [26: PRITCHARD, James. La sabidura del Antiguo Oriente. Ediciones Garriga, Barcelona, 1969, p.243-246.]

Porm em 539 a.C., as tropas de Ciro aportam nas entradas da cidade da Babilnia e o imprio babilnico todo-poderoso cai por terra (Is 47 e Jr 50-51). O Imprio Persa assume o poder, e se torna senhor de todo o Antigo Oriente Prximo. Assim demarca a ascenso do imprio babilnico e atuao de um profeta: o Deutro-Isaas.

Jud durante o exlio mostrado no Deutro-Isaas atravs dos eventos mundiais, os quais so atestados por seus textos e muitos outros textos de profetas como Ezequiel e Jeremias. Durante o exlio, o profeta Jeremias (52,28-30) refere-se ao nmero de exilados como sendo quatro mil e seiscentos prisioneiros, no includas mulheres e crianas. Outros nmeros so citados em outros textos com doze mil ou ainda quinze mil, que podem constituir um nmero simblico.

Entretanto o exlio a tradio oral vai dar lugar para a tradio escrita, a lngua passa por mudana e evolues, o servio na sinagoga tem o seu espao vital.

Considerando as poucas referncias especficas sobre o profeta Deutro-Isaas, quanto sua pessoa, seu nome, Claus Westermann, com seus estudos, contribuiu muito para um maior conhecimento do profeta Isaas. No prlogo do livro, em 40,6-7, h uma revelao sobre o chamado, o tempo de durao e atuao do profeta, mostrando, ainda, que ele constitui parte da descendncia proftica pr-exlica.

O Dutero-Isaas se identifica como profeta do povo, chamado para pregar atravs de seu prprio lamento. A queda de uma nao tem como resultado o pecado do povo e a salvao dos exilados como promessa divina. Os que vo ao exlio pertencem aos sobreviventes que conhecero a justia divina. A insistncia do Dutero-Isaas na solidariedade com seu povo muito importante para compreender o prprio Dutero-Isaas.

Em sua mensagem, em sua pregao mostra que foi colocada a palavra de Jav em sua boca. Deixa claro que o prprio Jav que est falando no lugar dele, isto no ocorre nos profetas anteriores.

O clamor do Dutero-Isaas tambm tem suas repercusses no cnon do Antigo Testamento. O Salmo 90 tem como base Is 40,7. A linguagem caracterstica do Dutero-Isaas a ligao da sua profecia com as afinidades do livro. A familiaridade do profeta com os Salmos muito grande. O servio de adorao dos exilados pode ser visto neste caso. A semelhana dele com o profeta Ezequiel, que usou o sacerdcio em sua proclamao, so muito grandes. O Dutero-Isaas est, tambm, conectado com os cantores do templo, com o meio cultual, com o povo em sua vida e com os Salmos.

2.2.2 A MENSAGEM DO DUTERO-ISAAS

A mensagem do Dutero-Isaas representa a profecia vivida durante o exlio na Babilnia. O principal objetivo da profecia do Dutero-Isaas a salvao. A queda de Jerusalm fruto do juzo de Jav. A caracterstica marcante do Dutero-Isaas consiste no anncio da salvao. O profeta foi comissionado para falar a palavra de Deus aps o julgamento numa situao particular, na qual esta a palavra de Deus.

O centro da mensagem do Dutero-Isaas , pois, o orculo de salvao ou a promessa desta. O grito de lamento: No tenhais medo tem como base a promessa divina da graa dada em resposta ao lamento individual. A proclamao de salvao vem complementar o lamento. Algumas vezes isto se encontra associado promessa da salvao. Outras vezes o Dutero-Isaas fala da mensagem de salvao na linguagem do Salmo de Louvor. O orculo concernente a Ciro (Is 45,1-8; 45,13). Que o suporte de todo o livro est totalmente relacionado com a mensagem de salvao. Jav mostrada como o nico Deus apesar do desastre do povo escolhido de 586 a.C. No orculo contra a Babilnia em 46,1; 47 so evidenciadas a queda dos deuses da Babilnia. Existe um hino de louvor, o que significa o cumprimento da proclamao de salvao (Is 7).

Portanto, a forma das palavras de salvao do Dutero-Isaas constitui a promessa ou o orculo de salvao. A palavra de salvao recebe sua forma peculiar na sua origem no culto. Conforme colocado por Joachim Begrich[footnoteRef:27], o orculo de salvao no Dutero-Isaas um orculo sacerdotal de salvao. A resposta comunicada pelo sacerdote no lamento individual tambm a promessa de salvao. O sacerdote garante que Deus ouviu as splicas do povo ou do indivduo. A proclamao do Dutero-Isaas muda do juzo para a salvao que vai ser cumprida de fato. O Dutero-Isaas , portanto um evangelho a alegria manifestada. Os exilados retornaro. Isso ocorrer numa exultao e num regozijo para os indivduos, as naes, os desertos e todos os habitantes. Haver alegria para os que esto nos lugares ermos e desabitados, nas montanhas e para as rvores. Todos se alegraro. A proclamao de salvao no endereada a um indivduo somente. Notamos, ento, que a salvao para o exilado. [27: BEGRICH, Joachim. Studien zu Deuterojesaja. Christian Kaiser Verlag, Mnchen, Theolhische Bcherei, v.20, 1963, p.153-160.]

2.3 A SITUAO DOS EXILADOS NA BABILNIA

A situao dos exilados no muito conhecida. Os judatas permanecem assentados na Babilnia em locais e bases de trabalho. Na realidade no so prisioneiros, mas esto livres a servio do governo babilnico nestas localidades. Alguns textos do Antigo Testamento nos do a idia sobre a vida destes exilados, como os locais onde eles permanecem e vivem. O rio Quebar e Tel Abib mencionado em Ez 1,3; 3,15. Outros locais referidos so: Tel-Melah, Tel-Harsa, Querbu, Adan e Immer mencionados em Esd 2,59; Ne 7,16. Algumas informaes so dadas pelos prprios babilnicos[footnoteRef:28]. Nomes judaicos e javistas mostram que a presena judata era uma realidade na Babilnia. Ez 40-48 mostra que a viso do novo templo juntamente com o Sl 137,5 designa o retorno e a presena destes exilados nestes locais. [28: PRITCHARD, James. La sabidura del Antiguo Oriente. Ediciones Garriga, Barcelona, 1969, p.221-222.]

Muitos judatas que prosperaram nem retornariam ptria, adotando o exlio como novo local de vida. Fontes babilnicas confirmam que os judatas obtiveram boa posio no comrcio e no trabalho. Arquivos de Nippur mostram nomes judatas que vieram a fazer grandes e importantes negcios na Babilnia[footnoteRef:29]. Muitos exilados permaneceriam nestes locais. [29: idem, p. 221-222.]

Outros fatores marcaram a vida do exilado: a criao da instituio do sbado, a recordao das antigas tradies e das leis de Lv 19,3, que tratam dos ancios, tambm desta poca. A vida religiosa no est muito clara. A prtica religiosa deve ter sofrido uma influncia sincretista. Criam-se as sinagogas e outras formas de adorao.

2.4 A VIDA NO EXLIO DA BABILNIA

A vida no exlio foi intensa. Os exilados numa nova situao vivencial passam por srios problemas de adaptao em terra estranha. A saudade e a rememorao dos fatos ocorridos em Jerusalm e no desterro transformam os exilados em nostlgicos por excelncia. O Sl 137 demonstra isto: a frustrao e a esperana na salvao futura.

Evidentemente, a cultura, a religio, as idias se mesclam e so influenciadas pelos babilnicos. Na esfera cultural isso se nota na literatura e na historiografia. Exemplos ns temos nas histrias do dilvio e da criao de pessoa e do mundo que influenciaram na construo das imagens no Antigo Testamento. Gn 1,1-2,4a que trata da criao um relato influenciado por narrativas babilnicas.

Nas atividades literrias as influncias mais marcantes esto na obra literria do escrito sacerdotal. Tambm o cdigo de santidade em Lv 17-26 e as suas afinidades com o profeta Ezequiel pode ser observado. A formulao de um novo ritual, de formas sacrificiais, da adorao, e as leis sacrificais de Lv 1-7 denotam tal influxo no profeta do exlio.

Quanto vida e ao trabalho veremos a seguir.

2.4.1 O TRABALHADOR JUDATA E O TRABALHO COMPULSRIO

As crnicas babilnicas noticiam que neste perodo deportados eram usados como trabalhadores[footnoteRef:30]. Existia uma diferena entre o trabalhador escravo e o compulsrio. O trabalho era diferente no caso do trabalho forado do compulsrio. Este ltimo era praticado por cidados e por cativos. Eles eram convocados em certas ocasies anualmente para trabalharem a servio da casa real como: nas construes de palcios e do templo, nos servios militares, na guerra, nas colheitas do rei, e em outros afazeres na nao. [30: D. J. WISEMAN. Nebuchadrezzar and Babylon. Oxford University Press, Oxford, 1991, 4a, edio, p.43-78.]

Nas construes de Nabucodonosor os trabalhos especficos consistiam em construes de canais e de irrigao no perodo da seca e na proteo nas enchentes. A construo de palcios para as festas e para o descanso de vero e inverno. A residncia do rei, como a residncia do deus Marduk e do templo precisavam ser mantidas. Notcias encontradas mencionam que os jardins do palcio, as muralhas das cidades, para a proteo durante uma invaso, foram construdos. Os babilnios se especializaram nas construes e utilizaram o betume para as infiltraes e as casas se tornaram mais resistentes e eficazes[footnoteRef:31]. [31: JAGERSMA, Hans. Op. cit., p.180-191.]

2.5 O DUTERO-ISAAS NO CONTEXTO BABILNICO

O Dutero-Isaas atuou durante o exlio, mais especificamente durante o governo de Nabonides em 550-539 a.C.[footnoteRef:32] A sua obra est conectada com os acontecimentos finais do imprio neobabilnico e a tomada da cidade da Babilnia por Ciro. O grande problema descrever a pessoa deste profeta annimo e totalmente desconhecido. Dependendo da interpretao, talvez Is 40,1-11 ou o cntico do Servo Sofredor possam fornecer subsdios quanto pessoa, vida e obra do profeta. Contudo ainda no se chegou a uma unanimidade sobre a interpretao dos Cnticos de Jav, se deve ser interpretada coletivamente ou individual. [32: NEWSONE JR, James D. By the waters of Babylon. T&T Clark, Edinburgh, p.69-123.]

Sabemos que as profecias deste profeta e a escatologia so dirigidas aos exilados da Babilnia. Os acontecimentos sociais e polticos demonstram que suas palavras de consolo e de salvao so dirigidas a esse perodo. Os referidos acontecimentos tambm influenciaram a sua mensagem, pregao e teologia. Is 45,1 chama o rei Ciro de escolhido. O tema essencial desta profecia o anncio de que o sofrimento do povo chegar a um fim e bom termo. O poder de Deus acabar com o cativeiro como no primeiro xodo e guiar o povo de retorno a Sio.

Os anncios da salvao e do novo xodo constituem a evidente ao criadora de Jav. Ele anuncia a libertao e o retorno do povo da Babilnia para Jerusalm atravs de atos maravilhosos, e de atitudes espetaculares: a transformao do deserto para a passagem do povo.

2.5.1 O ISAAS DA BABILNIA [footnoteRef:33] [33: MESTERS, Carlos. A misso do povo que sofre - Os cnticos do Servo de Deus no livro do profeta Isaas. Editora Vozes, Petrpolis, 1981, p.11-22.]

O Isaas da Babilnia tambm denominado de Segundo Isaas ou como Carlos Mesters prefere de Isaas Jnior[footnoteRef:34]. Ele assim chamado para diferenciar do Primeiro-Isaas ou do Isaas de Jerusalm e do Terceiro ou Trito-Isaas. A discusso sobre a figura e a personagem comeou na Idade Mdia e teve um grande incentivo a partir dos estudos de Johan G.Eichhorn em 1783. Esta discusso no terminou[footnoteRef:35]. [34: PRITCHARD, James. Op. cit., p.243.] [35: JAGERSMA, Hans. Op. cit., p.191-192.]

Este Isaas est relacionado frustrao dos judatas, esperana no retorno da comunidade e mensagem de conforto. Um escolhido de Jav libertar o povo do exlio. Na nova administrao do governo de Nabonides, os judatas que trabalham na Babilnia e que serviam seus dominadores viram na escalada militar persa uma estranha forma de esperana. No s os judatas, como os prprios babilnicos sacerdotes de Marduk acreditaram que Ciro traria boas novas. Os sacerdotes, cujo culto a Marduk fora negligenciado, e os comandantes militares e os chefes burocrticos viram nestas deslocaes da milcia persa um fim iminente do imprio neobabilnico. A esperana foi reacendida em lados opostos: nos judatas e nos sacerdotes de Marduk, que no mais suportavam o governo e o culto estrangeiro da deusa lua Sin. Os sacerdotes de Marduk glorificam a entrada e possesso da cidade pelo governante persa. [footnoteRef:36] [36: DUHM, Bernhard. Das Buch Jesaja em, Goettinger Handkommentar zum Alten Testament. Goettingen, Vandenhoeck und Ruprecht, 1982, 2a. edio, p.20-28.]

O Isaas da Babilnia traz uma mensagem de consolo. Is 40,21-26 tratam da mensagem do Santo de Israel em luta e contraposio com os outros deuses. Is 41,2-4 mostram o poder de Ciro, o persa. Todos os reis e prncipes se prostrariam diante dele. Assim, este profeta annimo anuncia a libertao do cativeiro babilnico, e o retorno a Sio atravs do deserto transformado.

2.6 A QUEDA DA BABILNIA E O FIM DO IMPRIO NEOBABILNICO[footnoteRef:37] [37: Idem, p.20-28.]

O Imprio Babilnico em pouco tempo se tornara um grande imprio. Comeou a se desmoronar com a morte e luta pelo poder deixado por Nabucodonosor II. A dinastia no se prolongou por muito tempo. O seu filho Awil Marduk (no Antigo Testamento chamado de Evil Merodac) sucede-o. Este chega a governar durante um perodo breve de 561-560 a.C. O genro de Nabucodonosor II chamado Neriglissar assume o poder tirando a vida e conseqentemente o governo de Evil-Merodac. Neriglissar se autonomeou rei da Babilnia. Jr 39,3-13 menciona-o como um dos generais de Nabucodonosor II na destruio de Jerusalm em 587/6 a.C. No perodo de seu governo, exatamente em 557 a.C., teve algum sucesso militar, porm logo sucedido por seu filho Labash Marduk. Este permanece no poder apenas trs meses. Uma revoluo interna coloca fim a esta tentativa de instaurar uma nova dinastia.

Surge ento no cenrio Nabonides, assumindo o poder e se tornando rei. Ele governou por um razovel perodo, 555-539/8 a.C., quando se encerra o perodo do imprio neobabilnico. A me de Nabonides possivelmente foi sacerdotisa da deusa da lua Sin no templo de Haran, o que lhe facilitou em muito na ascenso ao trono. Ele mesmo encorajou ao culto a esta deusa em todo o imprio durante seu governo. Isto criou certas rivalidades do governante com os sacerdotes do deus Marduk. Foi que levou a que estes agradecessem ao seu deus pela chegada do novo imprio e de um novo governante, dominando o mundo de ento: Ciro, o persa. Is 44,28 e 45,1 denotam que tanto os babilnios como os judatas esto agradecidos pela vinda de um novo imperador. O final do imprio babilnico ocorreu em 539/8 a.C., quando a armada persa adentra as portas da Babilnia. No houve resistncia, inclusive Ciro foi auxiliado por judatas e sacerdotes de Marduk para tomar o poder. Ciro visto como o libertador: Is 45,1-3 denominam Ciro de escolhido de Jav, que libertaria o povo judata do cativeiro.

CAPTULO 3 ESTRUTURA DO LIVRO DO DEUTERO-ISAAS

Na estrutura do livro do Dutero-Isaas ns dedicaremos histria da pesquisa do livro. Como que surgiu a discusso em torno dos descobrimentos e da separao deste livro? Como que alguns autores especficos vem a situao atual desta obra, o perodo histrico, social e poltico da poca? Analisaremos a literatura em torno da obra e como se deu sua formao, diviso e a atual composio que est no cnon bblico.

3.1 A FORMAO DO DUTERO-ISAAS

3.1.1 A HISTRIA DA PESQUISA SOBRE O DUTERO-ISAAS

A histria da pesquisa mostra que os grandes descobrimentos nas cincias bblicas comeam no sculo XIX, todas envoltas pela gide do racionalismo, com o auxlio do mtodo histrico-crtico que trouxe uma contribuio excepcional interpretao bblica. Isto auxiliou e tornou a cincia bblica mais eficaz. O livro do Dutero-Isaas passou a ser o mais pesquisado. Vejamos como se deu esta pesquisa em torno desta obra.

3.1.1.1 BERNHARD DUHM[footnoteRef:38] [38: BUDDE, Karl. Das Buch Jesaja Kap 40-66. Tbingen, J.C.Mohr, 1909, 3a. edio, Handkomentar zum Alten Testament, p.609-71, op. cit., in: James Muilenburg, op. cit., p.399.]

Na pesquisa sobre o profeta Isaas, o grande mrito cabe ao lanamento do Comentrio de Isaas de Bernhard Duhm[footnoteRef:39], em 1892. Este comentrio deu origem s descobertas sobre a composio da obra do livro de Isaas. Bernhard Duhm foi o primeiro a separar o livro do profeta Isaas em: Isaas de Jerusalm, que tambm foi denominado de Isaas histrico ou primeiro Isaas; o Segundo Isaas, denominado de Dutero-Isaas e o Terceiro ou Trito-Isaas. No Dutero-Isaas ele descobriu como unidades especiais, os Cnticos do Servo Sofredor de Jav. Trabalhou acentuadamente na crtica literria e histrica do Dutero-Isaas, como nos outros Isaas, mostrando a importncia desta obra. Seus estudos ainda esto em evidncia sem modificaes depois de um sculo de pesquisa. [39: BEGRICH, Joachim. Studien zu Deuterojesaja. Christian Kaiser Verlag, Mnchen, Theologische Bcher, v.20, 1963, p.68-80.]

Outro grande pesquisador ao lado de B. Duhm, o qual trouxe notveis contribuies pesquisa do Dutero-Isaas, foi Karl Budde[footnoteRef:40]. Aps estas pesquisas, as grandes descobertas sobre o Dutero-Isaas ficaram restringidas a um pequeno crculo de estudiosos como: Joachim Begrich[footnoteRef:41] e Karl Elliger[footnoteRef:42], que mostraram a independncia do Primeiro Isaas, e a dependncia do Dutero-Isaas em relao ao Trito-Isaas. Depois destes pesquisadores, surgem Eberhard von Waldow[footnoteRef:43], Claus Westermann[footnoteRef:44], Roy Melugin[footnoteRef:45], Klaus Kiesow[footnoteRef:46] e outros[footnoteRef:47]. [40: ELLIGER, Karl. Deutero-Jesaja. In: Seine Verhltnisse zu Tritojesaja. Em Bertrge zur Wissenschaft Alten und Neuen Testament, v.11, 1933, p.109-213.] [41: WALDOW, Eberhard von. The message of Deutero-Isaias. In: Interpretation, 221 (1968), p.259-87.] [42: WESTERMANN, Claus. Isaiah 40-48 a Commentary. In: Old Testament Library, Westminster Press, Philadelphia, 1969, p.3-30.] [43: MELUGIN, Roy F. The formation of Isaiah 40-55. Walter der Gruyter, Berlin/New York, em Beiheft zur Zeitshrift fr die Altestamentliche Wissenschaft, 1976, p.141.] [44: KIESOW, Klaus. Exodutexte in Jesajabuch. Literankritische und motivgeschichtlische Analysen. Orbis Biblicas et Orientalis, v.24, Universittsverlag Freiburg / Vandenhoeck und Ruprecht, Freiburg/Goettingen, 1979, p.13-175.] [45: Para a histria da pesquisa da cincia bblica pesquisei a obra de: KRAUS, Hans Joachim. Geschichte der historich kritischen erfoschung des Alten Testament. Neukirchen Vluyn, Neukirchen, 1969, p.193-327.] [46: Para a outra parte sobre o Dutero-Isaas consultei a obra de CHILDS, Brevard S. Introduction to the Old Testament as Scriptures. Fortress Press, Philadelphia, 1989, 6a. edio, p.311-333 e sua mais recente obra: CHILDS, Brevard. Biblical theology of the Old and the New Testament. Fortress Press, Philadelphia, 1992, p.162-167.] [47: CHILDS, Brevard S. op. cit., p.325-330.]

3.1.1.2 O DUTERO-ISAAS CONFORME BREVARD S. CHILDS[footnoteRef:48] [48: CHILDS, Brevard S. op. cit., p.325.]

Para este autor o Dutero-Isaas faz parte de um todo. Apesar de a crtica haver separado o livro de Isaas em trs, este e outros autores continuam considerando-o como uma unidade e um bloco de um s autor[footnoteRef:49]. [49: CHILDS, Brevard S. op. cit., p.321-22.]

Brevard S. Childs analisando outros autores, tanto catlicos como protestantes conservadores ou no, mostrou a reao dos mesmos quanto diviso da obra isaiana. Os autores conservadores se apegam em determinados fundamentos para mostrar a indivisibilidade da obra de Isaas:

a - O contexto literrio do atual livro de Isaas atribui a totalidade do livro ao prprio profeta Isaas. A tradio apia e atribui a autoria ao profeta. Esta nfase est relacionada afirmao de autoridades rabnicas, do Novo Testamento e do perodo patrstico.

b - Estes autores afirmam a similaridade da linguagem e do estilo, e insistem em que vrios conceitos sustentam a autoria e a unidade da obra literria. As diferenas existentes, eles explicam pela inteno do autor em alterar a descrio e a narrao dos fatos. Isto fundamentado no dogma da inerncia e da inspirao bblica.

c - A atividade sobrenatural divina e da prpria profecia fez com que o autor previsse os acontecimentos do sculo V a.C., em pleno sculo VIII a.C.

Brevard S. Childs traz em sua anlise inicial uma viso panormica das opinies diversas de especialistas sobre o Dutero-Isaas, mas a sua opinio no foge regra dos prprios autores citados. Aps as anlises destes autores, ele inicia um novo bloco de anlise de outros pesquisadores, vistos em nosso trabalho, tais como: Claus Westermann e Roy F. Melugin. A sua anlise destes autores mostra que os mesmos fizeram descobertas extremadas que os anteriores no haviam visto em suas obras.

Outra questo muito discutida so os Cnticos do Servo Sofredor. Recebem consideraes do autor. Para o prprio Brevard S. Childs o mais importante em todo o debate a unidade literria e a composio conjunta do Segundo e do Trito-Isaas. Ele entende que a obra s de um autor:

3.1.1.3 O DUTERO-ISAAS DE CLAUS WESTERMANN [footnoteRef:50] [50: WESTERMANN, Claus. Isaiah 40-66 a commentary. Old Testament Library, Westminster Press, Philadelphia, 1969, p.3-30.]

Conforme Claus Westermann, a proclamao pode ser combinada com a disputa proftica. Em Is 49,14-26, o lamento contra Sio anuncia a reconstruo da cidade (Is 19,16s), o retorno dos exilados (Is 49,18-21s), extenso do seu territrio (Is 49,19) e a ruptura do poder que escraviza Israel. A proclamao combinada com: o lamento comunitrio, a proclamao e a poca da salvao. O livro termina com a proclamao da sada da Babilnia e a jornada de retorno para a terra atravs do deserto (Is 55,22).

A pregao do Dutero-Isaas traz uma linguagem usada no louvor a Deus. No salmo de louvor ou hino de louvor, a divina majestade o tema das trs primeiras seces de Is 40,12. 17-18. 24-25. H o contraste da glria de Deus com a pobreza da f de Israel. Na quarta seco (Is 40,27-31) transmite-se a mensagem de conforto nao. A forma de louvor a Deus tambm inclui ttulos usados para o prprio Deus. Este louvor uma maneira de descrever a si prprio. Isto encontrado nos anncios dos discursos de juzo e nos orculos de Ciro (Is 41,4; 43,10-13; 43,15; 44,24-28; 45,3b; 45.12,18-21; 46.4,9; 48.12-15). Estes textos tambm contm o louvor ao criador e ao Senhor da histria na forma de auto-anncio. O Dutero-Isaas expressa ainda a aflio de seu povo, a viso de Deus como uma nova grandeza e majestade. Fala do Deus nico, verdadeiro e poderoso e de uma nova libertao miraculosa.

No orculo de Ciro em 44,24-28 nos deparamos com as seguintes sries de oposies: O nosso Redentor no v.24a, a verdade das profecias antigas em v.26a e a reconstruo das runas da cidade de Jerusalm em v.26b. O louvor a Deus se funde com a proclamao de salvao, constituindo outra caracterstica fundamental da teologia do Dutero-Isaas.

Outra forma muito importante do Dutero-Isaas a pregao atravs da polmica. O ataque se dirige s naes e aos deuses estrangeiros e vai contra os outros profetas. O Deus de Israel luta com os outros deuses para mostrar qual o verdadeiro Deus: o Deus de Israel. Existem precursores teolgicos nas afirmaes do Dutero-Isaas em sua pregao proftica sobre Ciro. Como no Primeiro Isaas ele fala do rei da Assria, enquanto que Jeremias fala do rei da Babilnia. E o Dutero-Isaas se refere a Ciro, o persa. Porm, aqui algo novo acontece. Enquanto que nos outros profetas assegurado o juzo de Deus, no Dutero-Isaas assegurado a salvao que vem por um estrangeiro.

A polmica do Dutero-Isaas contra as naes nos discursos de juzo evidente no confronto de Jav com Israel seu povo (43,22-28; 50,1; 42,18-25). Estes textos falam realmente da disputa. Os discursos de juzo contra Israel sobre os pecados presentes e os pecados passados foram perdoados. Nestes casos, o Dutero-Isaas difere dos profetas tradicionais pr-exlicos. Os outros profetas no anunciaram o perdo, o Dutero-Isaas fala deste perdo dos pecados (40,1; 43,25). A salvao dada e acompanhada do perdo.

Os cnticos de louvor ou de clamor de exultao em 42,10-13; 44,23; 48,8-20; 49,13; 51,3(?); 52,9 e 54,1 testificam desta salvao.

A mensagem do Dutero-Isaas, mesmo sendo semelhante a dos demais profetas pr-exlicos no que se refere chamada para a deciso, se destaca por sua mensagem de salvao. Ele conclama ao louvor e exultao a Jav nos cnticos de louvor. Este jbilo indica a resposta da f. Estes cnticos de louvor que esto inseridos no Dutero-Isaas mostram que no Antigo Testamento o louvor pode tomar o lugar que no Novo Testamento se chama de f.

Os cnticos do Servo de Jav so considerados como cnticos genunos. Eles so encontrados em 42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12. Estes cnticos usam outros termos j aplicados no Antigo Testamento ao rei, ao profeta ou ao homem justo individual. O servo o mediador, semelhana de Moiss, que tambm foi designado por Deus como servo de Deus. Em toda a profecia, o termo servo pode ser encontrado, principalmente em profecias que precedem o Dutero-Isaas, inclusive em Jeremias, profeta antes do Dutero-Isaas e do exlio. O sentido do Servo Sofredor Vicrio tem por ofcio mediar e se expande para o conceito posteriormente, dando aos gentios a salvao vinda dele.

3.1.1.4 O DUTERO-ISAAS CONFORME ROY F. MELUGIN [footnoteRef:51] [51: MELUGIN, Roy F. The formation of Isaiah 40-55. Walter der Gruyter, Berlin/New York, Beiheft zur Zeitschrift fr die Altestestamentliche Wissenschaft, v.141, 1976, p.1-7.]

O autor inicia o seu trabalho com a formulao do problema e do mtodo que vai utilizar em sua pesquisa. Na primeira parte ele analisa atravs do criticismo da forma e da histria da forma o que os diversos autores fizeram em suas anlises do Dutero-Isaas. Estes autores foram os primeiros a aplicarem os mtodos supracitados na pesquisa do Dutero-Isaas. Depois Roy Melugin passa a discutir autor por autor, as suas hipteses de trabalho para depois apresentar a sua prpria hiptese: Os desacordos talvez no podem afetar o assunto se eles diferem meramente em detalhes. Mas suas diferenas so fundamentais. Eles discordam sobre a natureza real do processo da composio. O profeta no fala em pequenas declaraes que revelam as estruturas da tradio oral do discurso? Ou como o artista criou suas prprias formas? Estamos diante de um colecionador? Ou temos um longo poema? Que mtodo de anlise pode ser usado? o criticismo da forma apropriado? Ou podemos como James Muilenburg ver uma estrutura de estrofes? Pesquisadores recentes nos legaram estas questes, sendo que todas podem ser reduzidas a uma s: qual a natureza da poesia e o arranjamento do corpus do Dutero-Isaas? A questo o assunto deste livro [footnoteRef:52]. [52: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.7.]

Na parte seguinte ele discute ento a questo do mtodo. A questo acerca da natureza da poesia e do arranjamento do Dutero-Isaas a primeira questo do problema do mtodo. Nosso ensaio tem produzido dois mtodos opostos de aproximao empregados por James Muilenburg. O mtodo de Claus Westermann pode ser visto em parte como uma sntese entre os dois mtodos, assim merece um lugar como alternativa [footnoteRef:53]. [53: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.7.]

Roy F. Melugin passa a analisar os mtodos aplicados por James Muilenburg e Claus Westermann e fazer a sua aproximao entre a crtica da forma e o criticismo da forma. A concluso que ele chega a partir desta discusso : Esta crtica tem por propsito no demolir a posio de James Muilenburg. A sua contribuio muito grande para ser facilmente destruda. Portanto, a anlise acima indica que se tem passado sobre o criticismo de maneira precipitada. Talvez possamos concordar ultimamente com Claus Westermann de que a criatividade do profeta dominante na anlise da crtica da forma constituindo um valor marginal... Comeamos ento com a tarefa da anlise da forma... Inquirimos sobre o arranjamento do corpus do Dutero-Isaas como um todo. Ser que o presente arranjamento do texto significante querigmaticamente ou artisticamente? Ou temos um arranjo que s mecnico? O plano do livro reflete tanto a questo da forma como do arranjamento [footnoteRef:54]. [54: MELUGIN, Roy F. op.cit., p.10.]

As partes principais da obra de Roy F. Melugin comeam daqui por diante. Na primeira parte ele investiga a anlise dos gneros literrios em Dutero-Isaas comeando com os discursos de salvao. Ele parte da pesquisa dos discursos pelo orculo sacerdotal de salvao [footnoteRef:55]. [55: MELUGIN, Roy F. op.cit., p.12-22.]

Em sua concluso sobre os discursos de salvao, o autor escreve:

Se os orculos do Dutero-Isaas sobre a certeza de salvao so imitaes admitido no como certo, mas est claro que eles exibem um gnero que pode ser isolado do seu contexto pela forma. Agora tornando ao restante do discurso de salvao do Dutero-Isaas, eles manifestam um gnero? Ou temos vrios gneros? So todas unidades? Ou so, como Claus Westermann sugere, partes de uma longa composio potica? [footnoteRef:56] [56: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.22.]

No final deste captulo Roy F. Melugin analisa as outras formas de discurso de salvao como: No tenha medo, a Heilsankndigung (orculos de certeza de salvao) e, por fim, os anncios de salvao como o anncio do futuro. Depois disto vem a pesquisa dos textos do Dutero-Isaas para a comprovao daquilo que foi feito: 41,17-20 e 42,14-17; 46,1-4; 51,17-23; 55,1-7 para fundamentar a sua anlise da metodologia proposta no incio[footnoteRef:57]. [57: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.22-27.]

Na seqncia, Roy F. Melugin discute os discursos de disputa. Ele mostra que o fundamental problema em nosso estudo do Dutero-Isaas se a crtica da forma ilumina a estrutura do texto... Temos examinado os discursos de salvao [footnoteRef:58]. O autor passa a analisar o problema dos discursos numa perspectiva histrica e a aplicar a anlise da crtica da forma. Assim ele escolhe alguns textos do livro do Dutero-Isaas para fundamentar o seu trabalho: 40,12-17; 40,18-24.25-26; 46,5-11; 40,27-31; 45,9-13; 44,24-28; 48,1-11; 42,18-25. Conclui dizendo que este captulo mostrou os resultados de que a estrutura dos discursos de disputa do Dutero-Isaas de sua prpria criao [footnoteRef:59]. [58: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.28.] [59: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.44. Para uma melhor compreenso ver a sua anlise completa nas p.28-44.]

A discusso posterior passa pela anlise do discurso de juzo onde este autor v os processos entre Jav e Israel. O autor parte da via histrica e faz uma exegese de determinados textos como: 43,22-28; 50,1-3. Depois ele analisa os processos entre Jav e as outras naes na perspectiva histrica e na anlise da crtica da forma[footnoteRef:60]. Deste modo a sua concluso que a tentativa de mostrar os discursos de juzos do Dutero-Isaas - o processo entre Jav e Israel e o processo entre Jav e as naes - so em longa medida formados pelas prprias mos do profeta. Ao certo, em alguns destes discursos podemos ver a clara imitao de formas particulares usadas pelo profeta de forma absoluta (44,6-8; 43,22-28)... Portanto, o Dutero-Isaas sempre usa o discurso de juzo para o propsito de disputa [footnoteRef:61]. [60: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.45-63.] [61: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.63.]

O prximo desenvolvimento do autor consiste do estudo dos Cnticos do Servo de Jav. Por fim, ele apresenta a parte essencial de sua obra, que so os arranjamentos das unidades do gnero literrio do Dutero-Isaas. Estes so determinantes na sua maneira para entender a composio da obra dutero-isaiana. Para este autor o Dutero-Isaas foi composto da seguinte maneira:

a - 40,12-44,23 (esta seco ele subdivide em 40,12-31; 41,1-42,13; 42, 4-44,23)b - 44,24-49,13 (o autor subdivide em 44,24-48,21 e 49,1-6.7.8-12.13)c - 49,14-55,13 (subdividida em 49,14-52,12 e 52,12-55,13).

Roy F. Melugin analisa seco por seco e conclui da seguinte forma: Em nossa pesquisa da formao de Is 40-55 foi colocado o debate entre estes autores que analisaram os captulos do Dutero-Isaas como uma coleo de frmulas originalmente separadas. A concluso que a obra de um s autor... O resultado final de nossa anlise indicou, ento, que iniciamos com os gneros como uma unidade bsica... Tenho tentado demonstrar as dificuldades com a criticada forma e que Is 40-55 foi composto de poemas longos, construdos a partir de um complexo entretecido de elementos de vrios gneros... Is 40-55, ento uma coleo de unidades independentes originalmente, mas o arranjo querigmtico [footnoteRef:62]. [62: MELUGIN, Roy F. op. cit., p.175.]

3.1.1.5 AS TRADIES HISTRICAS NO DUTERO-ISAAS

a) A tradio do xodo. Esta a mais importante de todas as tradies. Para o Dutero-Isaas, esta tradio at a mais importante na histria de Israel. No Dutero-Isaas, por sua vez, o xodo o corao de sua mensagem aos exilados na Babilnia. As passagens que mostram estes fatores essenciais so: 43,16-21 e a proclamao de salvao em 51,9-52,3. Esta reminiscncia do xodo aplicada partida da Babilnia em 52,11, na qual o profeta anuncia o retorno pelo deserto, miraculosamente transformado. O profeta se refere s antigas peregrinaes no deserto em 43,19; 55,12; 41,11; 49,9 sob a liderana de Jav. O lugar que o Dutero-Isaas d ao xodo notvel.

b) A tradio proftica. Dutero-Isaas, o profeta da salvao, tem afinidades com os profetas pr-exlicos da runa, mas com uma diferena fundamental, anuncia a salvao e o perdo. Os outros anunciavam a runa.

c) A tradio dos salmistas. O Dutero-Isaas revela tambm afinidades com o saltrio. O orculo de salvao constitui uma resposta ao lamento. O salmo de louvor tem caractersticas semelhantes aos orculos de louvor no Dutero-Isaas. Como por exemplo, em Is 40,12-31 e nos Sl 39; 49; 90.

3.1.1.6 COMPARAES ENTRE BREVARD S. CHILDS, CLAUS WESTERMANN E ROY F. MELUGIN[footnoteRef:63] [63: MELUGIN, Roy F. The formation of Isaiah 40-55. Walter der Gruyter, Berlin/New York, Beiheft zur Zeitschrift fr dir Altestamentlische Wissenschaft, v.141, 1976, p.10-175; WESTERMANN, Claus, op. cit., p.3-30; CHILDS, Brevard S. op. cit., p.320-322.]

Os autores acima citados elaboram um trabalho de flego sobre o Dutero-Isaas. Talvez sejam os trabalhos atuais mais completos sobre a obra dutero-isaniana. Fazem um retrospecto analtico de toda a situao desde o sculo passado at o momento da pesquisa elaborada. Inicia como anlise das obras desde Bernhard Duhm at os mais recentes trabalhos. Concentramo-nos nas obras de Claus Westermann, passando por Hugo Gressmann, Karl Elliger, Sidney Smith, Ludwig Khler, Joachim Begrich, James Muilenburg e por fim Hans Eberhard von Waldow.

A obra de Roy F. Melugin est dividida em duas grandes partes: a primeira analisa os gneros literrios e a segunda analisa a disposio dos textos atravs da obra. A primeira trata dos discursos de salvao, dos discursos de disputa e dos discursos de juzo ou de julgamento. Na segunda se elabora as seces do Dutero-Isaas.

O primeiro captulo desta obra retrata a questo da crtica da forma na pesquisa de toda a literatura proftica, com nfase na obra isaiana. Tem como base as obras de autores importantes como: Hermann Gunkel, Sigmund Mowinckel, Hans Walter Wolff, Walther Zimmerli e Claus Westermann. Estes foram os pioneiros a separarem e isolarem os discursos profticos. A Formgeschichte/histria da forma e a Gattung/gnero determinaram as pesquisas sobre os discursos profticos. As vrias tentativas de se estabelecerem os gneros literrios dos profetas pr-exlicos determinaram a pesquisa do Dutero-Isaas, que tinha um corpus de colees de discursos separados e que Claus Westermann os classificou da seguinte forma: promessa (Verheissungen), exortao (Mahnworte) e as formas no profticas de discurso essencialmente hnicos, identificados em 1914 por Hugo Gressmann[footnoteRef:64]. [64: GRESSMANN, Hugo. Die literarische Analyse ind Dutero-Jesaja. In: Zeitschrift fr die Altstestammentliche Wissenschaft, v.34 (1914), citado por Roy F.Melugin, op.cit., p.2. ]

Ludwig Koehler[footnoteRef:65], em 1923, viu no Dutero-Isaas uma coleo de unidade, que na realidade consistem em imitaes das formas orais do discurso proftico. Portanto, os gneros literrios tradicionais foram modificados e serviram como material-base sobre a qual o profeta ou o escritor exerceu seu poder potico. [65: KOEHLER, L. Deutero-Jesaja Stillkritisch Untersucht. Zeitschrift fr die Altstestammentliche Wissenschaft, v.37, 1932, Berlin citado por Roy F.Melugin, op. cit., p.2]

Tanto para Hugo Gressmann quanto para Ludwig Koehler o Dutero-Isaas foi composto originalmente em discursos separados. Eles no se preocuparam depois com a questo do rearranjamento e dos reagrupamentos das colees destes discursos.

Sigmund Mowinckel, em 1931, mostrou que o Dutero-Isaas era formado por uma coleo independente de expresses cultuais. Depois pesquisou o arranjamento destas colees. Segundo ele, os discursos foram arranjados conforme os temas similares e a conexo de frases (estribilhos). Cada discurso foi colocado em seu contexto sobre a forma de associao com o discurso precedente. O significado mecnico desta associao no tem significado para a compreenso total da mensagem proftica. A hiptese de Sigmund Mowinckel foi revivida posteriormente por outro pesquisador da obra de Isaas que foi Karl Elliger.

Karl Elliger, em 1933, reviveu as hipteses de Sigmund Mowinckel concordando que o Dutero-Isaas uma coleo de expresses originalmente separadas. Concordando tambm que essas colees foram reagrupadas e rearranjadas com um significado especialmente teolgico. O discpulo do Dutero-Isaas arranjou estes discursos por assuntos, os quais manifestam estas colees com continuidade de pensamento. Karl Elliger viu neste texto o processo como resultado de agrupamento formando uma unidade da mensagem proftica, mais do que unidade formais.

Assim notamos que houve um trabalho rduo de pesquisa e de utilizao de mtodo histrico-crtico.

Joachim Begrich[footnoteRef:66], em 1934, aplicou seus estudos crticos ao Dutero-Isaas. Examinou o fundamento e a estrutura de cada gnero literrio. Ele no trabalhava com a categoria geral da promessa (Verheissung) como descrio da mensagem de condenao feita pelos profetas anteriores. No Dutero-Isaas, a mensagem escatologizada, a aplicao da promessa de salvao mais interessante. Aps uma anlise detalhadamente elaborada da viso do processo de transmisso no Dutero-Isaas viu que a imitao de uma forma de orculo de salvao foi usada pelo sacerdote em resposta ao Salmo de Lamento. Da mesma forma os orculos ou os discursos de juzo e o discurso de disputa eram gneros nos quais se identificou os discursos comumentes empregados no procedimento legal, ou seja, eram os discursos na porta da cidade. [66: BEGRICH, Joachim. Studien zu Deuterojesaia. Theologische Bcherei, 20, Christian Kaiser Verlag, Mnchen, 1963, p.81-92]

Os autores anteriores, Hugo Gressmann, Ludwig Koehler, Joachim Begrich acreditavam que o discurso do Dutero-Isaas era uma imitao literria dos gneros da tradio oral. Por que nas circunstncias do exlio o discurso do Dutero-Isaas no circulara oralmente? O Dutero-Isaas usou as formas dos discursos costumeiramente empregados nos crculos no profticos da imitao do processo legal de composio.

Toda esta pesquisa, elaborada por Joachim Begrich, criou um novo caminho alternativo para a discusso do Dutero-Isaas, continuada por H. Eberhard von Waldow[footnoteRef:67]. [67: WALDOW, H.E. von. The message of Deutero Isaiah. Interpretation, 22(1968), p.259-287. Do mesmo autor podemos ver: Der Traditionsgeschichtliche Hintergrund der prophetischen Gerichtsreden. Beiheft zur Zeitschrift fr die Alttestamentliche Wissenschaft, n.85, Alfred Toepelmann, Berlin, 1963, p.170.]

Este no concorda com seu antecessor de que os discursos so imitaes literrias de uma forma pr-estabelecida de discurso oral. Em sua opinio o Dutero-Isaas foi um profeta cltico e o orculo de salvao um gnero genuno proftico. O discurso originou-se no culto. Assim eles no so imitaes de formas de discursos que foram utilizados na porta da cidade como forma de juzo legal.

Surgiu, na escola norte-americana, outro especialista sobre o Dutero-Isaas, que contribuiu com aspectos interessantes no estudo em questo, James Muilenburg[footnoteRef:68]. Ele veio trazer novas alternativas especiais dentro da pesquisa dutero-isaniana. O seu trabalho mostrou que o Dutero-Isaas tem um estilo de escrita diferente, que a estrofe sempre comea com uma expresso muito utilizada como: Veja, Eis que. Estas expresses so uma caracterstica da denominada forma do estilo imperativo e pode significar o comeo de uma nova estrofe. A estrofe sempre tem introdues no estilo hebraico de mtrica, tem concluses e repeties de palavras. [68: MUILENBURG, J. Isaiah 40-66. IDB, v.5, New York, Abingdon Press, Nashville, 1956, p.381-422.]

James Muilenburg trabalhou as situaes do anncio do conselho celestial de Jav; a vinda de Jav sobre os inimigos de Israel; o pastor que apascenta e conforta seu povo como um rebanho; Jav o criador de todas as coisas. Israel o povo de Jav como Deus e tambm o seu prprio servo; a promessa de redeno dada aos escolhidos; Ciro o eleito que conquista a Babilnia e liberta o povo de Israel; as naes ouviro que Jav Deus de Israel e por fim a vinda do rei e o clamor que Jav o Rei de Israel colocado na boca de todas as naes.

A pesquisa em torno do Dutero-Isaas tem um ponto marcante com o comentrio de Claus Westermann. Este trabalhou intensivamente as questes do discurso de disputa e o anncio de salvao que foram reagrupados de acordo com a estrutura do salmo de lamento. Roy F. Melugin divide o seu escrito de forma estrutural da seguinte maneira:

Na primeira parte, Roy F. Melugin discute a situao dos discursos de salvao, classificando-os em orculo sacerdotal de salvao e em outras formas. O primeiro introduzido pela frmula clssica: No tenham medo. Esta frase tem um endereo direto, uma expresso da proximidade da ajuda de Jav, sempre utilizada na forma nominal e a expresso de que Jav d ouvido s splicas que so apresentadas. Enfim, existe o anncio do futuro no verbo imperfeito e Jav o sujeito. Porm podem ocorrer outras frmulas conhecidas. Como exemplo no texto de 43,16-21 onde o No tenha medo converte-se na frmula No me lembrarei das coisas velhas e em Is 55,8-13 o discurso de salvao mudado para o discurso de disputa.

H. Eberhard von Waldow trabalhou a estrutura do discurso da seguinte forma:1. Uma introduo2. Uma frmula de mensageiro ou chamado de ateno seguido de No tenham medo.3. Um endereamento direto, onde: a - a declarao da interveno de Jav comea com uma expresso do contedo geral, tendo usualmente Jav como sujeito, seguido pela elaborao da interveno de Jav com a deidade como sujeito gramatical no perfeito ou no imperfeito e a substanciao da interveno freqentemente no presente.b - a declarao das conseqncias da interveno de Jav, uma declarao na qual Jav no mais o sujeito, estando sempre no imperfeito.c - o propsito da interveno de Jav.

Nas outras formas de discursos de salvao, ocorrem os orculos de certeza de salvao, o anncio de salvao. Estas tm como base a criatividade potica:a. Em 41,17-20 e 42,14-17 encontramos:1. A referncia queixa2. O anncio da interveno de Jav expressada no imperfeito e Ele como sujeito3. A elaborao do anncio da interveno de Jav expressada no imperfeito e Ele como sujeito.

b. Em 46,1-4 observa-se a fuso de dois gneros: cntico da vitria e o discurso de salvao.

c. Em 51,17-23 o derivado do discurso usado no conforto do lamento.

d. Em 55,1-5 ocorre o discurso da imitao do gnero sapiencial com a convocao refeio. Este mostra o aspecto da essncia da vida. O comer e o beber tm razes na sabedoria.

I - Os discursos de disputa tm como estrutura: uma estrutura bsica, que tem como ponto de partida o que fala e o seu oponente, a concluso que o resultado lgico do argumento baseado no ponto de comum acordo. Este discurso pouco usado na literatura proftica, pouco comum nos outros profetas, mais utilizado no discurso sapiencial. Como exemplo ns podemos citar:

a. 40,12-17 tem como base uma srie de questes retricas introduzidas por quem?, terminando como Eis que!

b. 40,18-24; 40,5-11 e 46,5-11 possuem uma estrutura estereotipada. A questo: Quem comparvel ao deus como Eu?, tem outra descrio sarcstica dos dolos fabricados. Os profetas vm ou perguntam sobre o culto e s vezes aparecem com questes retricas ou com imperativos ou lembrados de todas as situaes do povo com o estilo participial do hino.

c. 40,27-31 possui um discurso de disputa com o estilo de salmo individual de lamento e esta disputa possui uma estrutura no estilo litrgico com um argumento contra a queixa cltica.

d. Is 45,9-19 o discurso ocorre com formas de questes retricas, refletindo a incredulidade de quem fabrica um objeto de dolo, que pode ser inferior ao prprio objeto fabricado.

e. Em 44,24-28 pode ser um hino ou tambm um discurso de mensageiro que foi incorporado ao estilo de auto-pregao ou ainda uma disputa discursiva. Tem uma introduo ao estilo de auto-pregao ou ainda uma disputa discursiva. Tem uma introduo hnica anterior e uma composio potica, mas possui clusulas participais que so oposies de pregaes. Encontra-se nele um orculo ao rei.

f. Em 48,1-11 possui uma mistura da segunda pessoa do singular e plural. uma disputa, onde ocorre a expresso Coisas novas e coisas velhas. Parece-se com a narrativa etimolgica encontrada no Pentateuco. Tem um estilo narrativo. uma fuso de vrios estilos.

g. Em 41,18-25 um salmo de lamento. Os autores Claus Westermann e Roy F. Melugin falam que aqui ocorre a reflexo criativa do Dutero-Isaas.

II - Os discursos de juzo ou os relatos de julgamento. Eles existem como expresses de julgamento entre Jav e o povo de Israel. O juzo ocorre entre Jav e as outras naes. Estes discursos eram comuns nas situaes dos relatos poticos e so imitaes dos discursos orais feitos no porto da cidade. Os discursos de juzo proftico so imitaes das formas dos discursos legais. Eram comuns nas situaes dos relatos profticos e so imitaes dos discursos de juzo cltico ou do festival da renovao da aliana. A estrutura deste discurso comea com a reprovao, a acusao; depois a declarao da inocncia do acusado; logo em seguida vem a contra-acusao do acusado; e, por fim, a chamada para a deciso ao juzo. Esta frmula a mais comum encontrada no processo entre Jav e o povo de Israel, assim:

a. 43,22-28 reflete o discurso usado no procedimento legal no porto da cidade.b. 50,1-3 um poema que reflete o divrcio de Jav do pas; uma reao contra a f do povo que tem se separado de Jav.

III - O processo entre Jav e as naes. Claus Westermann e Roy F. Melugin mostram que os discursos foram tambm elaborados a partir do discurso de juzo, anunciados no porto da cidade como forma da corte ou da assemblia dos ancios para julgar a culpa ou a inocncia dos povos.

Conforme Claus Westermann, este discurso de juzo encontrado no Dutero-Isaas como disputa entre Jav e as naes. Ele uma forma derivada de um gnero que tem seu fundamento na vida de Israel. Este discurso reflete o processo entre Jav e os deuses de todas as naes. Os oponentes de Jav so convocados ao processo. Jav argumenta seu caso num estilo altamente estereotipado. Utiliza-se a expresso quem? e a descrio na primeira pessoa com um estilo de hino de auto-louvor como na questo do estilo de auto-louvor e por fim tem um final com eis que.

A parte mais discutida do Dutero-Isaas nos dias atuais a seco dos Cnticos do Servo Sofredor de Jav. No necessrio entrar em maiores detalhes. Esta seco foi muito pesquisada e talvez a mais debatida[footnoteRef:69]. Existe uma vasta pesquisa sobre o assunto. [69: GORGULHO, M. L. O Servo de Yahweh nos escritos do Dutero-Isaas. Tese de doutorado, PUC/RJ, 2v, 1989, p.618.]

1. 42,1-4 constitui o primeiro hino. um discurso de Jav sobre o servo. Comea a frase com eis que e indica a eleio do servo de Jav. 2. 42,5-9 o segundo hino, fala do compromisso do servo.3. 49,1-6 constitui o terceiro hino, este um salmo de agradecimento individual que inclui o comissionamento de um rei e do profeta. 4. 50,4-11 representa o quarto hino e o lamento de dor que contrasta a misso do servo e sua experincia. Tem uma linguagem jurdica e um salmo de lamento.5. Finalmente, temos Is 52,13-53,12 o quinto hino. Este um salmo de agradecimento integrado com um salmo de lamento e a exaltao do servo.

Roy F. Melugin, no final de sua obra, se dedica composio das unidades dos gneros literrios do Dutero-Isaas. Este trabalho representa a sua tese e sua concluso sobre a estrutura literria do Dutero-Isaas. Ele segue Claus Westermann em vrios momentos: a associao verbal, a associao temtica e a associao do ambiente do Dutero-Isaas.

A estrutura bsica do Dutero-Isaas pode ser resumida da seguinte forma. Is 40-55 composta de vrias etapas: 40,1-11 a estrutura do corpo inteiro como se fosse uma miniatura do resto do livro. um tipo de esboo ou resumo da obra. Este esboo foi empregado intencionalmente como prlogo da coleo. Este texto permanece como uma unidade e como a vocao do profeta. Foi elaborado depois um eplogo com ligao ao prlogo.

Ficou evidente neste captulo que a composio do Dutero-Isaas em sua fase final teve uma elaborao de um redator que juntou a primeira parte terceira, ficando no meio o Isaas da Babilnia. Assim a estrutura do Dutero-Isaas ou Isaas 40-55 tem uma estrutura bsica composta pelo prlogo e o eplogo, tendo um miolo que um entretecido de uma obra potica incomparvel.

Este prlogo 40.1-11 reflete a estrutura de um corpo inteiro que foi retratado em uma miniatura e que foi empregado intencionalmente como prlogo de uma vasta coleo. Esta a opinio de Claus Westermann. Os versos de 40 como prlogo tm um complexo de um chamado potico e se insere no contexto de vrios outros chamados, de outros profetas como Is 6. Este relato um relato unificado, uma reflexo e guarda uma unidade literria. Is 40,1-11 tem em si outras unidades literrias que foram juntadas formando um todo (J Begrich: v.1-2; 3-5; 6-8; 9-11).

O eplogo de Is 55,6-13 corresponde ao comeo do corpo do livro do Dutero-Isaas (Is 40,1) que muito semelhante ao prlogo principalmente a 55,6-13. Como no prlogo pode-se separar em vrias unidades e composies o eplogo tambm tem esta forma de se apresentar. Is 55,6-13 pode ser separado em v.6-7 correspondente a uma pequena tora sacerdotal, que a maneira de uma chamada proftica sacerdotal semelhante a Is 6;1 Rs19 e o prprio texto citado de Is 40,1-11.

Conforme Roy F. Melugin houve uma justaposio de unidades de gneros individuais. O arranjamento deste fundamento parece estar bem claro. Houve um modelo satisfatrio de uma progresso mecnica deste arranjamento. Porm, achar este fundamento e designar estas evidncias e como se procedeu este fundamento do arranjamento das unidades muito difcil. Reconstruir a histria da formao desta coleo e reconstruir estgio aps estgio como foi produzido Is 40-55 quase impossvel. As hipteses surgem como: a construo artstica, o uso da linguagem dentro das unidades dos gneros, o caminho nas quais estas unidades formam um contexto relacionado com a histria. A forma do pensamento e a relao com a poesia. O significado que demonstrado pelas imagens e os jogos de palavras, as repeties de sons, a forma do poema em geral, ajuda a explicar como foi formado este complexo de Is 40-55.

A progresso da formao do texto contribui para a explicao do significado e da formao. Os captulos tiveram uma construo retrica e que ajudou na composio final deste Dutero-Isaas. Por isso tanto a prlogo como os eplogos demonstram como surgiu e como se formou esta composio e este arranjamento na obra final. Se o prlogo e o eplogo foram rearranjados, juntados em unidades posteriores, o corpo deutero-isaianiano foi obra de vrias etapas. Como exemplo, tomamos o texto de Is 41,1-7 como ilustrao disto que est sendo feito sobre a unidade de gnero. A forma de discurso convence imediatamente a uma compreenso parcial do significado da unidade. O escritor poeta d uma figura de um resumo de um julgamento: Ouam-me... vamos enfrentarmos em juzo(41,1). Este tom resume o julgamento ou processo final desenvolvendo o processo de Jav contra as naes e de Jav contra Israel. Em 46,1-4 repete-se as palavras e as imagens para significar que o poema est em progresso, estas, repeties refletem o contraste entre os deuses que sero destrudos e Jav que destruiu tambm liberta o povo. A figura dos deuses impotentes que podero ser destrudos o povo e libertados conforme a vontade de Jav.

A reconstruo hipottica da histria da redao ou da forma demonstra que o rearranjador imitou estes escritos. Esta descoberta atual no texto evidncia que a construo foi arranjada por um eminente poeta que usou uma linguagem especial da poesia e trabalhou artisticamente este material.

A reconstruo do texto deutero-isaiano oferece uma amostragem importante para o nosso estudo. Desde o prlogo ou o eplogo e mesmo os textos selecionados na exegese favorecem e auxiliam a anlise do exlio e a pregao d