o limiar da experiência estética: contribuições para ...· resumo: este trabalho ... arte...

Download O limiar da experiência estética: contribuições para ...· Resumo: Este trabalho ... arte circundava

Post on 08-Feb-2019

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

183

Pro-Posies, Campinas, v. 23, n. 1 (67), p. 183-195, jan./abr. 2012

O limiar da experincia esttica: contribuies para pensar um percurso de subjetivao1

Marcos Villela Pereira*

Resumo: Este trabalho coloca em anlise algumas concepes sobre arte, obra de arte, atitude esttica e experincia esttica com o intuito de propor o exerccio da racionalidade esttica como uma ampliao da capacidade dos sujeitos para orientar sua percepo e compreenso ante as infinitas possibilidades da existncia. A razo esttica habilita o sujeito para que se concebam mundos no apenas a partir de e/ou sobre esquemas referenciais, mas a partir de e sobre a experincia da presentificao do que existe, do ser-a, da histria efeitual e da desrealizao dos limites estabelecidos pelas formas tradicionais de racionalidade. Postulo a ideia da experincia esttica como uma oportunidade de ampliao, de desvelamento e de expanso da subjetividade na medida em que representa uma abertura para a coleo de exemplos que so a arte e a vida. A atitude esttica uma atitude desinteressada, uma abertura, uma disponibilidade no tanto para a coisa ou o acontecimento em si, naquilo que ele tem de consistncia, mas para os efeitos que ele pode produzir.

Palavras-chave: esttica; experincia; experincia esttica; arte; subjetivao.

The threshold of aesthetic experience: contributions to think about a subjectivation journey

Abstract: This article puts in question some views on art, artwork, aesthetic attitude and aesthetic experience in order to propose the exercise of aesthetic rationality extending subjective capacity to guide the perception and understanding regarding the infinite possibilities of existence. The aesthetic rationality empowers subjects to conceive not only worlds reduced at referencial schemes, but from and about experience of presentification of what exists, of being, of effectual history and of derealization of established limits on traditional rationality forms. I postulate the idea of aesthetic experience as an opportunity for expansion and disclosure of subjectivity in that it represents an opening to the col-lection of examples that consist in art and life. The aesthetic attitude is a selfless attitude, an openness, a willingness not so much for the thing or event in itself , in what it has consistency, but the effects it can produce.

Key words: aesthetics; experience; aesthetic experience; art; subjectivation.

* Professor Titular do Programa de Ps-Graduao em Educao da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Brasil. Bolsista de Produtividade do CNPq, membro do Comit Cientfico da ANPEd pelo GT-24, Educao e Arte. marcos.villela@pucrs.br

1. Este estudo deriva de pesquisa financiada pelo CNPq com Bolsa de Produtividade.

v23n1a12.indd 183 03/14/2012 2:01:09 PM

184

Pro-Posies, Campinas, v. 23, n. 1 (67), p. 183-195, jan./abr. 2012

Pretendo apresentar algumas ideias e reflexes que, mais do que apontar cami-nhos, permitam ampliar a discusso acerca do significado e do sentido do trabalho com as artes nas fronteiras do campo da educao. Mais especificamente, minha ideia contribuir com alguns temas bastante caros formao de professores de arte. Mais especificamente, pretendo ensaiar um confronto do tema do rigor na experincia esttica, colocando em anlise algumas concepes sobre arte, obra de arte, atitude esttica e experincia esttica.

Tomo como ponto de partida uma ideia bastante comum: a impossibilidade de definio unvoca da arte. Ao longo da histria da humanidade, temos pre-senciado calorosos debates sobre esse tema, sem nunca termos alcanado um conceito universal que silenciasse essa pergunta. Na Antiguidade, o campo da arte circundava as noes de imitao e beleza, passando pela sua utilizao como elemento decorativo. No auge da modernidade clssica, a arte aproximou-se da sublimao, do sublime. Na contemporaneidade, aderida antes ao conceito do que ao seu contedo expressivo estrito, a ideia de arte ampliou-se e ultrapassou os limites da inteligibilidade. Alcanou-se o patamar em que tratamos de diferentes formas de racionalidade em situao de simultaneidade e contingncia e, portanto, caem por terra as iniciativas de circunscrever a arte s formas mais tradicionais ou universais de racionalizao.

Vale dizer que j no se trata de perseguirmos alguma ideia de beleza como parmetro. Tambm o belo, ao longo da histria do pensamento, foi deslocado dos cnones que, pretensiosos e reducionistas, buscaram fixar seu significado. No comeo, belo era o que imitava a realidade visvel, era o que correspondia repetio do paradigma naturalista e realista de representao. Depois, ele passou a ser tomado como sublimao, como efeito tangvel do sentimento oriundo da relao que nossa razo pura estabelecia com o mundo. Mais tarde, passou a ser um valor subjetivo, um sentimento singular proveniente de uma experincia nica e individual que o sujeito tinha do mundo. Ou seja, assim como se passa com a arte, o belo foi deslocado do campo de possveis estabelecido pelas formas tradicionais ou universais de racionalidade.

Por fim, podemos tentar perguntar pela utilidade da arte. Da mesma forma, veremos uma srie de deslocamentos ao longo da histria. No comeo, a arte tinha por objetivo aproximar o homem do universo transcendente das divindades, dos deuses, do sobrenatural. Tambm podemos identificar, em algumas civilizaes, a arte com fins decorativos. Sob outro enfoque, podemos ver a arte assumir fins expressivos, comunicativos e representativos: a obra de arte pode expressar algo quando ela a materializao ou a vivificao de uma ideia ou sentimento que apela ao seu criador para alcanar a existncia; a arte pode comunicar algo quando sua materialidade portadora de um contedo, quando ela veicula uma ideia, uma inteno, uma mensagem moral ou poltica; a arte pode representar algo quando,

v23n1a12.indd 184 03/14/2012 2:01:09 PM

185

Pro-Posies, Campinas, v. 23, n. 1 (67), p. 183-195, jan./abr. 2012

articulando sua potencialidade expressiva e comunicativa, significa algo, quando sua existncia remete a algo que no est ali. Enfim, em termos de atribuio de utilidade, chegamos ao que nos disse Oscar Wilde, em 1891, no Prefcio ao seu Retrato de Dorian Gray (Wilde, 2000, p. 17): toda arte perfeitamente intil. Ou seja, alcanamos a ideia de que a arte no serve para nada. Alis, para explorar um pouco mais essa concepo, detenho-me no que diz esse autor. Segundo ele, revelar a arte e ocultar o artista a finalidade da arte (idem, p. 17). Com essa ideia, ele inaugura a viso contempornea da dimenso conceitual da arte e proporciona a compreenso da experincia com a obra de arte como uma experincia singular e subjetiva que pode bem ser individual ou coletiva, mas que definitivamente vai na direo da singularidade. E a singularidade, nesse caso, tanto pode ser a do artista quanto a do crtico ou, ainda, a do espectador. arte o que eu digo que arte. arte o que eu fao ser arte. arte o que eu torno arte. E, em ltima anlise, ela serve para produzir efeitos de sentido no criador, no crtico e no pblico. Ou seja, a arte existe para produzir diferena no artista, no crtico e no pblico no vindo ao caso, nesta circunstncia, o juzo de valor sobre se essa uma diferena para o bem ou para o mal, j que falamos aqui de singularidades.

Enfim, para esse autor

toda arte , ao mesmo tempo, superfcie e smbolo. Os que buscam sob a superfcie fazem-no por seu prprio risco. Os que procuram decifrar o smbolo correm tambm seu prprio risco. Na realidade, a arte reflete o espectador e no a vida. (idem, p. 17)

Ou seja, no se trata de buscarmos decifrar a obra de arte como se houvesse nela um contedo essencial ou fundamental que devesse ser descoberto e revelado. O esforo pelo entendimento do que seja uma obra de arte como essncia universal tambm cai por terra, sucumbindo impossibilidade de circunscrio estanque em uma ou outra forma de racionalidade. O que nos resta, assim, pautarmos nossa discusso pelas formas de operao, uso, experincia e entendimento da obra de arte, procurando desviar a resposta da captura reducionista da definio, da classificao ou do julgamento. Ao contrrio de perguntar o que arte ou se isso uma obra de arte, vale tomar em questo a experincia de algum objeto, situao, acontecimento ou processo naquilo que ele tem em termos de potencial artstico, ou seja, naquilo que o configura como um acontecimento esttico.

O risco de adentrarmos demasiadamente nessa regio especulativa sermos a capturados pelo vazio inconsistente da ideia de que, se nada arte, ento tudo arte. O risco vacilarmos na seduo que essa relativizao provoca e fazermos desse relativo um absoluto. Por isso, importa-me adentrar um pouco mais em algumas ponderaes.

v23n1a12.indd 185 03/14/2012 2:01:09 PM

186

Pro-Posies, Campinas, v. 23, n. 1 (67), p. 183-195, jan./abr. 2012

Comeo, aqui, pelo estabelecimento de uma condio de possibilidade para a experincia esttica: a atitude esttica. Para que se possa viver uma experincia esttica, antes de tudo, preciso assumir uma atitude esttica, ou seja, assumir uma posio, uma postura que constitua e configure a nossa percepo. No como uma intencionalidade, uma premeditao, uma antecipao racional do que est por vir, mas como uma disposio contingente, uma abertura circunstancial ao mundo. A premeditao da ordem da atitude prtica, utilitria, funcional, quando nos dirigimos para o mundo com vistas a determinados fins, considerando as coisas e os acontecimentos como meios teis para atingir esses fins.

A atitude esttica uma atitude desinteressada, uma abertura, uma disponibi-lidade no tanto para a coisa ou o acontecimento em si, naquilo que ele tem de consistncia, mas para os efeitos que ele produz em mim, na minha percepo, no meu sentimento. Tomo, aqui, o que postula Kant acer