o conceito de saber escolar" clássico" em dermeval saviani

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  • Boletim de Educao Matemtica

    ISSN: 0103-636X

    bolema@rc.unesp.br

    Universidade Estadual Paulista Jlio de

    Mesquita Filho

    Brasil

    Boettger Giardinetto, Jos Roberto

    O Conceito de Saber Escolar "Clssico" em Dermeval Saviani: implicaes para a Educao

    Matemtica

    Boletim de Educao Matemtica, vol. 23, nm. 36, 2010, pp. 753-773

    Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho

    Rio Claro, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=291221905010

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  • 753Bolema, Rio Claro (SP), v. 23, n 36, p. 753 a 773, agosto 2010

    O Conceito de Saber Escolar Clssico emDermeval Saviani: implicaes para a Educao

    Matemtica

    The concept of the classical school knowledge inDermeval Saviani: consequences for Mathematics

    Education

    Jos Roberto Boettger Giardinetto1

    Resumo

    O objetivo deste trabalho inicialmente tecer algumas consideraes sobre a relaoentre humanizao e alienao no decorrer do desenvolvimento histrico-social do gnerohumano. Tais consideraes so fundamentais para se entender o conceito de clssicoem Dermeval Saviani e as implicaes da decorrentes para a pesquisa sobre odesenvolvimento histrico da Matemtica hoje presente no currculo escolar. Pretende-se com isso, valorizar a apropriao da matemtica escolar como elemento humanizadorque se faz acessvel via atividade de ensino.

    Palavras-chave: Marxismo. Pedagogia Histrico-crtica. Histria da Matemtica.Matemtica Escolar.

    Abstract

    The aim of this paper is initially to consider some issues related to the relationshipbetween humanization and alienation in the process of historical social development ofhuman gender. These considerations are fundamental for understanding the concept of

    Bolema, Rio Claro (SP), v. 23, n 36, p. 753 a 773, agosto 2010

    1 Doutor em Educao (Fundamentos da Educao) pela Universidade Federal de So Carlos/UFSCar,Professor Assistente Doutor da Universidade Estadual Paulista/UNESP, Faculdade de Cincias,Departamento de Educao, Cmpus de Bauru, Estado de So Paulo, Brasil. Endereo paracorrespondncia: UNESP, Faculdade de Cincias, Depto de Educao, Avenida Engenheiro LuizEdmundo C. Coube, n 14, quadra 01, CEP 17015-970, Bauru, SP. E-mail: jrbgiar@fc.unesp.br.

    ISSN 0103-636X

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    classical in Dermeval Saviani and the consequences for research about the historicaldevelopment of Mathematics currently found in school curriculums. The intention is tovalue the appropriation of school mathematics as a humanizing element that becomesaccessible through the activity of teaching.

    Keywords: Marxism. Historical-critical Pedagogy. History of Mathematics. School Math.

    Introduo

    As consideraes aqui abordadas inserem-se no mbito dadenominada Pedagogia Histrico-crtica. Trata-se de uma tendnciapedaggica de fundamentao marxista de estreita unidade com a PsicologiaScio-histrica (tambm conhecida por Psicologia Histrico-cultural),tambm de fundamentao marxista.

    A Pedagogia Histrico-crtica defende a apropriao da educaoescolar segundo uma didtica prpria (SAVIANI, 1985; GASPARIN, 2002)com pesquisas/experincias j desenvolvidas no ensino da Matemtica (porexemplo em MORAES[et al], 2008; SANTOS, 2005; MARIANI, 2004).

    As contribuies da Psicologia Scio-histrica evidenciam aimportncia da apropriao dos contedos escolares na formao das funespsquicas superiores de cada indivduo. As funes psquicas superiores so alinguagem, a escrita, o clculo, o desenho, a ateno voluntria, a memrialgica, a formao de conceitos, funes cujas caractersticas principais so aconscincia refletida e o controle deliberado (MARTINS, 2006;VYGOTSKY2, 1995).

    Os estudos da denominada Escola de Vygotsky (Vygotsky, Luria,Leontiev, Elkonin, Davidov e outros) demonstram que a boa educao escolar aquela que gera desenvolvimento e como tal, se adianta ao desenvolvimentoda criana impulsionando-o e no se colocando como uma educao escolardependente de um determinado desenvolvimento j obtido (DUARTE, 1996).

    Para a Pedagogia Histrico-crtica, o saber escolar uma necessidadede ordem histrico-social em decorrncia da compreenso do desenvolvimentoalcanado pelo gnero humano.

    2 Apesar deste autor apresentar vrias formas de grafia (Vigotski, Vygotsky, Vigostkii etc), utiliza-seneste artigo a mesma grafia da nica obra aqui utilizada como referncia bibliogrfica (Vygotsky).

  • 755Bolema, Rio Claro (SP), v. 23, n 36, p. 753 a 773, agosto 2010

    Aqui o conceito de gnero humano denota a categoria que expressao resultado da histria social humana a histria da atividade objetivadorados seres humanos (DUARTE, 1993, p.15).

    Por conta da diviso social do trabalho e da propriedade privada, ahistria social humana tem se processado atravs de um distanciamento cadavez maior entre as objetivaes genricas acessveis a cada indivduo singulare a somatrias das objetivaes genricas (MELLO, 2000, p.39). Cumpreesclarecer que cada objetivao um produto do processo de transformaoda realidade natural, via trabalho, em realidade humanizada.

    O distanciamento entre aquilo que acessvel ao indivduo singular eaquilo j obtido pelo gnero humano gerado pelo fenmeno da alienao(GIARDINETTO, 1999, p.33; DUARTE, 1993, p.74; MARX, 1985, p.72- 75). Assim:

    A relao dos seres humanos com suas objetivaes , deincio, na histria humana, uma relao alienada porque odesenvolvimento da genericidade humana tem se realizadoatravs da diviso social do trabalho e da propriedadeprivada. Esse foi o caminho possvel atravs do qual ognero humano superou os estgios iniciais do processode humanizao, nos quais a objetivao humana manteve-se num nvel que no ultrapassava a obteno dascondies de sobrevivncia dos indivduos, no se podefalar propriamente em alienao pois todos os indivduosviviam em contato direto com o ser genrico, que nessecaso se identificava com o ser comunitrio. A diviso socialdo trabalho significou a ultrapassagem desse nvel deobjetivao do ser genrico, o que se constituiu numirreversvel desenvolvimento, mas tambm criou a cisoentre o indivduo e as objetivaes genricas. Da em diantea histria humana tem se caracterizado por esses doisprocessos, isto , por um lado o gnero humano se objetivade forma cada vez mais universal e livre e, por outro, isso serealiza s custas da vida dos indivduos, vida esta que nose efetiva necessariamente, ou melhor, que no se efetivana maioria dos casos, de forma to universal e livre quantoo nvel de universalidade e liberdade j alcanado pelo

    gnero humano. (DUARTE, 1993, p.76)

    A dinmica do processo histrico de transformao da realidade

    O Conceito de...

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    natural em realidade humanizada tem apontado a humanizao do gnerohumano se realizando sob relaes sociais alienadas. O avano obtido pelognero humano s pode ser entendido a partir da relao dialtica entrehumanizao e alienao no interior de seu processo histrico-social dedesenvolvimento (MELLO, 2000, p.39).

    Nesse sentido, compete filtrar das objetivaes produzidas no interiordo processo de alienao, as objetivaes que apontam para a humanizaodo gnero humano, descartando, superando, aquelas objetivaes que temcontribudo para a desumanizao dos homens, que tem contribudo parareiterar ainda mais a alienao em processo. Nas palavras de DUARTE(1993,p.60)

    Analisar a objetivao e a apropriao do ser humano nointerior da pr-histria [conceito de Marx que denota associedades, inclusive a capitalista, anteriores ao comunismo nota do autor deste trabalho] significa analisar ahumanizao se realizando atravs das relaes sociaisalienadas. Uma concepo histrico-social da formao doindivduo no pode limitar-se a analisar os processos deobjetivao e apropriao que explicam a formao dedeterminados processos cognitivos e comportamentais, elaprecisa se posicionar sobre o carter humanizador oualienador da formao desses processos. Esseposicionamento, por sua vez, requer a mediao decategorias que sintetizem o que, no atual momento dahistria humana e nas condies sociais concretas em quese realiza a formao dos indivduos, se constitui naspossibilidades mximas da vida humana existentes numasociedade e quais as condies sociais que impedem, ouao menos cerceiam, a realizao dessas possibilidades na

    vida dos indivduos.

    A escola um resultado do desenvolvimento do gnero humano. Acomplexidade atingida pelo gnero humano tal que a formao do homemsingular no mais se restringe ao seu meio de vida mais imediato com osdemais homens nas relaes de trabalho e convivncia social. A realidadetornou-se por demais complexa, sendo a vida cotidiana no mais suficientepara a formao do indivduo (HELLER, 2002). Com a escola, viu-se criar

  • 757Bolema, Rio Claro (SP), v. 23, n 36, p. 753 a 773, agosto 2010

    um espao necessrio e especfico de transmisso e apropriao de um sabermetdico, cientfico, elaborado, sistematizado. No se trata, portanto, dequalquer forma de saber (SAVIANI, 2003, p. 14), isto , do saber espontneo,no-intencional produzido nas outras instncias da vida social.

    A referncia especificidade do saber escolar como saber metdico,cientfico, elaborado, sistematizado, no implica uma negao para co

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