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  • 1

  • Editora filiada Associao Brasileira das Editoras Universitrias (Abeu)Av. Fernando Ferrari 514 Campus de Goiabeiras CEP 29 075 910 Vitria Esprito Santo, BrasilTel.: +55 (27) 4009-7852 E-mail: edufes@ufes.brwww.edufes.ufes.br

    Reitor | Reinaldo CentoducatteVice-Reitora | Ethel Leonor Noia MacielSuperintendente de Cultura e Comunicao | Jos Edgard RebouasSecretrio de Cultura | Rogrio Borges de OliveiraCoordenador da Edufes | Washington Romo dos Santos

    Conselho Editorial | Cleonara Maria Schwartz, Eneida Maria Souza Mendona, Giancarlo Guiz-zardi, Gilvan Ventura da Silva, Giovanni de Oliveira Garcia, Glcia Vieira dos Santos, Jos Armnio Ferreira, Julio Csar Bentivoglio, Luis Fernando Tavares de Menezes, Maria Helena Costa Amorim, Rogrio Borges de Oliveira, Jos Edgard Rebouas, Sandra Soares Della Fonte

    Secretria do Conselho Editorial | Douglas Salomo

    Comit Cientfico de Cincias Humanas | Anna Marina Madureira Barbar Pinheiro, Antonia de Lourdes Colbari, Fbio Vergara Cerqueira, Jos Pedro Luchi, Marcos Antonio Lopes, Maria Manuela dos Reis Martins, Michael Soubbotnik, Renan Frighetto, Surama Conde S Pinto

    Reviso de Texto | Fernanda Scopel FalcoProjeto Grfico, Diagramao | Antnio Victor SimesImagem da Capa | Louis Auguste Moreau (1855-1919) Pedro II e seus ministros visitando enfermos de clera no Rio de Janeiro Acervo iconogrfico da Biblioteca NacionalDireo de Arte | Geyza Dalmsio MunizReviso Final | O autor

    Projeto desenvolvido em parceria com o Laboratrio de Design Instrucional - (LDI) - Secretaria de Ensino a Distncia (SEAD) - UFESCoordenao do LDI | Geyza Dalmsio Muniz, Renata da Silva Machado, Letcia Pedruzzi Fonseca, Priscilla Garone, Ricardo Esteves | Gerncia: Giulliano Kenzo Costa Pereira, Patrcia Campos Lima

    Franco, Sebastio Pimentel, 1957-F825t O terribilssimo mal do Oriente [recurso eletrnico] : o clera

    na provncia do Esprito Santo (1855-1856) / Sebastio Pimentel Franco. - Dados eletrnicos. - Vitria : EDUFES, 2015.

    243 p. : il. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7772-283-9 Tambm publicado em formato impresso. Modo de acesso: 1. Clera - Esprito Santo (Estado) - 1855-1856. 2. Epidemias - Esprito Santo (Estado) - 1855-1856. 3. Sade pblica - Esprito Santo (Estado) - 1855-1856. 4. Esprito Santo (Estado) Histria 1855-1856. I. Ttulo. CDU: 94(815.2)

    Dados Internacionais de Catalogao-na-publicao (CIP)(Biblioteca Central da Universidade Federal do Esprito Santo, ES, Brasil)

  • O CLERA NA PROVNCIA DO ESPRITO SANTO (18551856)

    O TERRIBILSSIMO MAL DO ORIENTE

    Sebastio Pimentel Franco

    Vitria, 2015

  • Aos meus filhos, Luiz Felipe, Joo Vtor e

    Ana Carolina, e minha esposa, Vitria,

    dedico este trabalho.

  • AGRADECIMENTOS

    A realizao de um trabalho acadmico vai alm da vontade do pesquisador.

    Assim, para que esta pesquisa pudesse chegar ao seu final, inmeras foram

    as pessoas que contriburam, e a elas de pronto agradeo penhoradamente.

    professora Maria Teresa Torbio Brittes Lemos, pela superviso, pela

    rdua tarefa de lapidar as ideias e pela conduo desta produo intelectual.

    Aos colegas do Departamento de Histria da Universidade Federal do

    Esprito Santo, por terem generosamente aprovado a minha liberao

    para realizar o ps-doutorado.

    Aos servidores da Biblioteca Pblica Estadual do Esprito Santo, pelo

    inestimvel apoio quando l estive pesquisando.

    Aos servidores do Arquivo Pblico do Esprito Santo, em especial a

    Michel Caldeira, que muito me auxiliou no levantamento das fontes.

  • No tarefa do historiador estabelecer

    verdades e afirmar concluses definitivas;

    a Histria continuadamente repensada,

    reavaliada e reescrita.

    Maria Auxiliadora Guzzo Decca

  • SUMRIO

    A EPIDEMIA DE CLERA E SEU ITINERRIO:

    PNICO E PAVOR

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    53

    A CLERA CHEGA AO ESPRITO SANTO

    AS CONCEPES SOBRE A ORIGEM DA CLERA NO

    BRASIL EM MEADOS DO SCULO XIX

    INTRODUO

    O itinerrio da clera no mundo

    A teoria divina

    Os surtos epidmicos no perodo colonial: breve histrico

    A marcha da clera no Esprito Santo

    A chegada da clera ao Brasil

    Contagionistas e infeccinistas

    O alvorecer do sculo XIX e os surtos epidmicos

    Socorrendo a populao afligida: as aes do governo provincial

    O conhecimento da clera

    A sabotagem como origem da clera

    Radiografando a provncia do Esprito Santo quando da chegada dos grandes surtos epidmicos

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    208

    O COMBATE CLERA

    A PASSAGEM DA CLERA E OS RASTROS DEIXADOS

    CONSIDERAES FINAIS

    REFERNCIAS

    A quarentena

    Os mortos

    A higienizao da cidade

    Transformao da vida cotidiana: os rituais funerrios e os enterros

    A alopatia e a homeopatia

    Insatisfao e reclamaes do povo

    O saber popular e os curandeiros

    Fugas e abandonos, cuidado e solidariedade: as faces de uma realidade

    Os reflexos na economia

  • 9

    INTRODUO

    Com o presente trabalho, investigamos a presena da clera-morbo na

    Provncia do Esprito Santo, no sculo XIX, e os reflexos que essa epide-

    mia produziu localmente.

    Diante do amplo escopo que se abre para compreender a passagem da

    clera pela Provncia do Esprito Santo no momento da ocorrncia da epi-

    demia, optamos por centrar o foco do estudo em determinados aspectos,

    tais como: a gnese da clera e os caminhos percorridos, as representa-

    es, as atitudes e as respostas que a populao local deu molstia, a ao

    do Estado para deter os avanos da doena, os impactos na economia, o

    ndice de mortalidade e os estratos sociais mais atingidos pela doena.

    Assim como ocorre na atualidade, as epidemias sempre assolaram

    a humanidade. A clera, na Provncia do Esprito Santo, no sculo XIX,

    foco do nosso estudo, foi um terrvel flagelo que, temos como pressupos-

    to, provocou a despopulao, interferiu na vida econmica da provncia,

    determinou aes do Estado na rea da sade pblica no intuito de deter

    o avano dessa epidemia.

    Em uma investigao norteada pelos princpios metodolgicos do

    indiciarismo de Carlo Ginzburg (1989) e fundamentado em pistas presen-

    tes nos fragmentos da documentao pesquisada, buscamos compreen-

    der: como foi vivida a passagem da clera; que representao a populao

    fazia dessa molstia; como essa doena era compreendida pela Igreja,

    mdicos, curandeiros e pela populao; qual o impacto social e econ-

    mico vivenciado com essa epidemia; e quais aes foram implementadas

    pelas autoridades governamentais.

    A partir das pistas, buscamos evidenciar desvelamentos das relaes

    sociais, observando o que pensavam e como viviam os diferentes gru-

    pos sociais.

  • 10

    Ao relacionarmos tantas possibilidades, no estamos afirmando que

    desejamos conhecer a vida dos grupos sociais na sua totalidade, antes

    queremos perceber a alteridade do passado, destacando uma das muitas

    possveis interpretaes daquele passado.

    Tal qual a pesquisa de Nikelen Acosta Witter, este estudo se encaixa

    na perspectiva da histria da sade. Entendemos, como essa autora, que

    este um campo que se configura complexo e abrangente, atravs do

    qual a vida social, poltica e cultural dos grupos humanos pode ser perce-

    bida e analisada pelos historiadores a partir da ocorrncia de enfermida-

    des individuais ou coletivas (WITTER, 2007, p. 41).

    Como no somente existia o atendimento pblico aos doentes,

    os chamados socorros pblicos, que eram atos administrativos do

    governo, abordaremos outras formas de socorro sade, quer sejam

    realizadas pelos curadores no oficiais, quer sejam as praticadas por

    solidariedade humana.

    No podemos esquecer que, no sculo XIX, quando os surtos epid-

    micos estavam em pleno desenvolvimento no Brasil, o saber mdico

    oficial e os saberes medicinais populares coexistiam, e muitas vezes um

    se apropriava do conhecimento do outro, embora a chamada medicina

    oficial buscasse sempre dar uma nova roupagem, cientifizando o saber

    popular, para que este fosse legitimado, o que evidencia existir uma cir-

    cularidade de saberes.

    Considerando a recomendao de Dilene Raimundo Nascimento, busca-

    mos analisar as doenas no apenas pelo vis e leitura do saber mdio, mas

    tambm pela lgica dos atingidos por estas (NASCIMENTO, 2005, p. 41).

    Por ser a doena elemento de desorganizao e organizao social

    [] [e] um acontecimento mrbido, possibilita-nos visualizar a imagem

    que a sociedade de determinado local tem de si mesma, assim como a

    significao real de mecanismos administrativos ou de prticas religio-

  • 11

    sas, [ou ainda] as relaes entre poderes (REVEL; PETER, 1995, p. 14). Em

    sntese, podemos dizer que, a partir do acontecimento do surto epidmico

    de clera, buscamos visualizar a dinmica da vida social, poltica e econ-

    mica da Provncia do Esprito Santo, mostrando as tenses, os conflitos e

    os arranjos possveis. Procuramos evidenciar os diferentes significados

    socioculturais, em que as respostas e os impactos gerados por uma epi-

    demia podem assumir formas diversas em diferentes contextos sociais,

    polticos e culturais (NASCIMENTO; SILVEIRA, 2004, p. 27).

    Como referencial terico, apoiamo-nos em Michel