o batismo de crianças e a doutrina bíblica do batismo

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O Batismo de Crianças e a Doutrina Bíblica do Batismo por Oscar Cullmann Clique aqui para baixar a fonte grega usada neste artigo. Em que medida Jesus instituiu o batismo cristão? Não basta para responder a esta pergunta, remeter a Mt. 28.19, pois esta frase do ressuscitado não faz mais que dar a ordem de batizar, sem explicar qual é o vínculo interior entre o batismo, a pessoa e a obra de Cristo. Por outro lado, o judaísmo não ignorava a prática do batismo, já que submetia os prosélitos pagãos a ele. João Batista, pondo os judeus na mesma altura dos prosélitos, chamava-os ao batismo de arrependimento, por causa da vinda iminente do messias. O próprio ato de batizar não foi, pois, instituído por Jesus. Sob este aspecto, o batismo se distingue do outro sacramento cristão, a eucaristia, cuja forma particular se remonta a Cristo. Porém o vínculo entre Cristo e o batismo parece mais tênue, todavia, se se leva em conta que Jesus não batizou, pelo menos durante seu ministério público[1]. A situação é a seguinte: João Batista batizou, relacionando seu batismo com o dos prosélitos; Jesus não batizou, porém depois de sua morte, a Igreja primitiva reconheceu a prática do batismo. Foi simplesmente uma volta ao batismo de João? Ou antes, não se deve distinguir o batismo conferido pelos apóstolos em nome de Jesus, do batismo de João, que, todavia, foi celebrado já com vistas ao perdão dos pecados? Se isto é certo, que há então de novo no batismo da Igreja nascente, e em que medida se remonta este a Jesus, que todavia não o praticou nem o "instituiu" sob sua forma exterior? 1. O fundamento do batismo: a morte e ressurreição de Jesus Cristo. João Batista, em sua pregação, teve o cuidado em definir a diferença entre seu próprio batismo e o de Cristo: "Eu vos batizo com água para a conversão... porém Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt. 3.11; Lc. 3.16). O fogo faz sem dúvida alusão ao juízo final, o batismo que vem com Cristo não é somente um batismo de preparação, provisório, mas antes definitivo, e fará o batizado entrar diretamente no reino de Deus. Porém no intervalo no qual o cristianismo primitivo tem consciência de encontrar-se, entre a ressurreição de Cristo e seu retomo, o que há de essencial no batismo conferido pelo Messias é o dom do Espírito Santo, dádiva escatológica que se realiza a partir de agora (aparcnjjj, arrsabwjn). Isso explica porque Marcos pode limitar-se a mencionar o batismo do Espírito (1.8).Segundo a pregação de João Batista, o dom do Espírito Santo constitui então o elemento novo no batismo cristão; com efeito, nem o batismo judeu dos prosélitos, nem seu próprio batismo conferiam o Espírito. Este dom está ligado à pessoa e a obra de Cristo. Pois bem, como a efusão do Espírito Santo sobre "toda carne" (At. 2.17) pressupõe, no desenrolar da história da salvação, a morte e a ressurreição de Cristo, e como esta efusão teve lugar no pentecostes, o batismo cristão Page 1 of 31 O Batismo de Crianças e a Doutrina Bíblica do Batismo 22/3/2008 http://www.monergismo.com/textos/batismo/batismo_cullmann.htm

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O Batismo de Crianças e a Doutrina Bíblica do Batismo

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  • O Batismo de Crianas e a Doutrina Bblica do Batismo

    por

    Oscar Cullmann

    Clique aqui para baixar a fonte grega usada neste artigo.

    Em que medida Jesus instituiu o batismo cristo? No basta para responder a esta pergunta, remeter a Mt. 28.19, pois esta frase do ressuscitado no faz mais que dar a ordem de batizar, sem explicar qual o vnculo interior entre o batismo, a pessoa e a obra de Cristo. Por outro lado, o judasmo no ignorava a prtica do batismo, j que submetia os proslitos pagos a ele. Joo Batista, pondo os judeus na mesma altura dos proslitos, chamava-os ao batismo de arrependimento, por causa da vinda iminente do messias. O prprio ato de batizar no foi, pois, institudo por Jesus. Sob este aspecto, o batismo se distingue do outro sacramento cristo, a eucaristia, cuja forma particular se remonta a Cristo. Porm o vnculo entre Cristo e o batismo parece mais tnue, todavia, se se leva em conta que Jesus no batizou, pelo menos durante seu ministrio pblico[1]. A situao a seguinte: Joo Batista batizou, relacionando seu batismo com o dos proslitos; Jesus no batizou, porm depois de sua morte, a Igreja primitiva reconheceu a prtica do batismo. Foi simplesmente uma volta ao batismo de Joo? Ou antes, no se deve distinguir o batismo conferido pelos apstolos em nome de Jesus, do batismo de Joo, que, todavia, foi celebrado j com vistas ao perdo dos pecados? Se isto certo, que h ento de novo no batismo da Igreja nascente, e em que medida se remonta este a Jesus, que todavia no o praticou nem o "instituiu" sob sua forma exterior?

    1. O fundamento do batismo: a morte e ressurreio de Jesus Cristo. Joo Batista, em sua pregao, teve o cuidado em definir a diferena entre seu prprio batismo e o de Cristo: "Eu vos batizo com gua para a converso... porm Ele vos batizar com o Esprito Santo e com fogo" (Mt. 3.11; Lc. 3.16). O fogo faz sem dvida aluso ao juzo final, o batismo que vem com Cristo no somente um batismo de preparao, provisrio, mas antes definitivo, e far o batizado entrar diretamente no reino de Deus. Porm no intervalo no qual o cristianismo primitivo tem conscincia de encontrar-se, entre a ressurreio de Cristo e seu retomo, o que h de essencial no batismo conferido pelo Messias o dom do Esprito Santo, ddiva escatolgica que se realiza a partir de agora (aparcnjjj, arrsabwjn). Isso explica porque Marcos pode limitar-se a mencionar o batismo do Esprito (1.8).Segundo a pregao de Joo Batista, o dom do Esprito Santo constitui ento o elemento novo no batismo cristo; com efeito, nem o batismo judeu dos proslitos, nem seu prprio batismo conferiam o Esprito. Este dom est ligado pessoa e a obra de Cristo. Pois bem, como a efuso do Esprito Santo sobre "toda carne" (At. 2.17) pressupe, no desenrolar da histria da salvao, a morte e a ressurreio de Cristo, e como esta efuso teve lugar no pentecostes, o batismo cristo

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  • no possvel seno depois deste acontecimento, que fez da Igreja o lugar do Esprito Santo. Por esta razo o livro de Atos menciona os primeiros batismos cristos somente depois da histria de pentecostes. Igualmente Pedro, depois de ter explicado o milagre da efuso do Esprito, termina seu discurso com esta exortao: "Convertei-vos e cada um de vs seja batizado em nome de Jesus" (2.38). Isto , que, o que foi passado de maneira coletiva no dia de pentecostes, vai repetir-se no que se sucede individualmente no sacramento do dom do Esprito.Porm, por que este dom do Esprito se apresenta ento na Igreja sob a forma de um batismo? Por que fica ligado ao banho de imerso "para o arrependimento", que os judeus praticavam com os proslitos e que Joo Batista havia reconhecido? Que relao h entre o Esprito Santo e a gua, a abluo pela gua ou a imerso na gua? Compreende-se, com efeito, que o batismo dos proslitos ou o de Joo se apresentam como um ato de abluo, posto que o efeito deste sacramento o perdo dos pecados. Como a gua comumente purifica fisicamente o corpo, assim a gua do batismo deve tirar os pecados da alma. Surpreende-nos que a realizao plena do batismo de Joo no batismo do Esprito do Messias, deva, todavia, tomar a forma de um banho por imerso. Seria de esperar antes que o sacramento cristo revestisse uma forma exterior diferente. Porm necessrio perguntar-se se o batismo de Joo, com sua significao precisa (Lc. 3.3: bajptsma metanoiaijav eiv ajfesin ajmartiwn), foi considerado como verdadeiramente prescrito depois da apario do novo sacramento cristo que confere o Esprito Santo. necessrio perguntarmos se o Esprito Santo no teria nada a ver com o perdo dos pecados. Pois bem, no livro de Atos se diz: "Que cada um de vs seja batizado em nome de Jesus, para obter a remisso dos pecados e recebereis o dom do Esprito Santo" (2.38). Os cristos tm todavia necessidade, tambm na Igreja, do perdo dos pecados; no suficiente que o dom do Esprito lhes seja concedido. O batismo para a remisso dos pecados no por tanto abolido. Seria inconcebvel, por demais para os cristos, s o dom do Esprito Santo sem a remisso dos pecados. Por isso o sacramento cristo, preparado e anunciado pelo batismo de Joo, se estabeleceu em um batismo, um banho por imerso, ainda que o dom sacramental do Esprito Santo no tenha, primeira vista, nenhuma relao com a forma deste ato. Todavia, o vnculo que, no batismo cristo une o perdo dos pecados e o dom do Esprito real. No se pode dizer que imerso para o perdo vem ajuntar-se simplesmente um elemento novo: o dom do Esprito. O elemento novo, em relao ao batismo judeu, no diz respeito somente ao dom do Esprito, seno tambm, em relao estreita com este dom, ao perdo dos pecados. Segundo o livro de Atos, a Igreja sentiu, num determinado momento, a necessidade de ajuntar ao ato exterior da imerso, um ato especial correspondente transmisso do Esprito Santo: a imposio das mos. Pois parecia normal que s duas significaes do batismo correspondessem igualmente dois atos exteriores: o banho por imerso para o perdo dos pecados e a imposio das mos paro o dom do Esprito. Sem dvida, isto faria o batismo correr o perigo de perder sua unidade e de cindir-se em dois sacramentos distintos. Se a Igreja pde finalmente evitar esta ciso, porque a ligao entre os efeitos do batismo cristo era fortemente sentida. A narrao que Atos faz de certos batismos prova, no obstante, que tal ciso foi quase estabelecida no uso da Igreja. Releia-se a narrao de Felipe em Samaria! Quando os samaritanos "creram na pregao de Felipe que lhes anunciava o reino de

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  • Deus e o nome de Jesus Cristo, foram batizados homens e mulheres" (8.12). Nos versculos 14 s., se refere que os apstolos de Jerusalm, tendo recebido esta noticia, enviaram a Samaria Pedro e Joo para que orassem, a fim de que os que tivessem sido batizados com gua recebessem tambm o Esprito, "pois este no havia, todavia, descido sobre nenhum deles. Haviam sido batizados somente em nome do Senhor Jesus. Ento Pedro e Joo lhes impuseram as mos e receberam o Esprito Santo". O batismo com gua para a remisso dos pecados e a imposio das mos para a comunicao do Esprito, esto aqui separados no tempo e administrado por pessoas diferentes.Em Atos 10.44, encontra-se um fato anlogo, com a diferena de que a ordem cronolgica inversa. A Cornlio e aos seus, tendo recebido o Esprito Santo (sem imposio das mos), Pedro os batizou com gua. necessrio mencionar finalmente Atos 19.1-7: Paulo pergunta aos discpulos de feso se tinham recebido o Esprito Santo quando creram. "Estes responderam: nem sequer ouvimos que exista o Esprito Santo. Ele perguntou de novo: que batismo tendes recebido? Responderam: o batismo de Joo". So, ento, batizados com gua em nome do Senhor Jesus, e "depois que Paulo lhes imps as mos, o Esprito Santo desceu sobre eles e se puseram a falar em lnguas e a profetizar". Deste modo se acentuava o perigo de ver, na primeira conseqncia do batismo, somente uma sobrevivncia de tempos passados, sem ligao interna com o dom do Esprito prometido por Cristo. pois, muito possvel que quando Joo recorda que no se nasce s pela gua, seno pela gua e pelo Esprito (3.3-5), quis reagir contra esta ciso do batismo cristo em dois atos diferentes[2]. Ademais, os textos judaico-cristos citados nas Pseudo-Clementinas provam que no comeo do sculo II, existia efetivamente uma seita judaica crist para a qual o batismo havia descido ao nvel de um rito judaico.O problema das relaes entre a gua do batismo e o sacramento do Esprito preocupou, durante muito tempo, Igreja antiga[3]. Tertuliano, por exemplo, em seu tratado sobre o batismo[4], trata de resolver o problema estabelecendo uma relao essencial entre o Esprito e a gua. Remete-nos para isto a Gn 1.1 s., onde se diz que no princpio "o Esprito de Deus se movia sobre a face das guas". Estima que desde sempre o Esprito esteve ligado com a gua e, por conseguinte, o prprio batismo do Esprito no pode prescindir da gua.Esta soluo no pde, todavia, sustentar-se para definir adequadamente a relao entre o perdo dos pecados, o dom do Esprito e o batismo pela gua. A explicao deve ser buscada, como veremos mais abaixo, no prprio batismo de Jesus, interpretado teologicamente por Paulo no captulo 6 de sua Epstola aos Romanos. Veremos tambm, que no se pode considerar o batismo cristo, entendido tambm como batismo para a remisso dos pecados, como uma simples repetio de Joo. , pelo contrrio, seu cumprimento, tomado possvel somente pela obra expiatria de Cristo. Por demais, esta obra une estreitamente os efeitos do batismo. Isso o que evidencia este clebre captulo, no qual Paulo mostra que, por nosso batismo participamos na morte e na ressurreio de Cristo[5]. Cada um participa a desse perdo dos pecados, conquistado por Jesus de uma vez por todas morrendo na cruz. O batismo de Joo, portanto, no aceito sem nenhuma ressalva pela Igreja crist, posto que, segundo Rm. 6.5, ns chegamos a ter, pelo ato batismal, "uma mesma semelhana" com Cristo, morrendo e ressuscitando com Ele. O ato externo do batismo pela gua, toma assim seu sentido pelos dois efeitos do batismo cristo. Uma ligao nova estabelecida entre o ato externo do

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  • baptjzein e o perdo dos pecados. Aquele no , j somente o banho, a abluo que limpa, seno a imerso enquanto tal, porque nesse momento, o batizado "sepultado com Cristo" (v. 4). Ressuscita quando sai da gua[6]. Graas somente a este ato, os dois efeitos do batismo se tomam inseparveis, posto que ser sepultado com Cristo significa o perdo dos pecados, enquanto que ressuscitar com Ele quer dizer "viver uma vida nova" (v.4), isto , viver segundo o Esprito (Gl. 5.16). Os dois efeitos do batismo esto assim, ligados to indissoluvelmente como a morte e a ressurreio de Cristo. O recurso da obra expiatria de Cristo, para resolver o problema do batismo cristo, engendra trs conseqncias: a) o perdo dos pecados, anunciado j antes da vinda de Cristo, est agora fundado sobre a morte expiatria, b) o perdo dos pecados e o dom do Esprito se encontram unidos por um estreito lao teolgico, c) as significaes do batismo se encontram ligadas ao nico ato exterior do banho de gua, a imerso e emerso tomam sua plena significao teolgica.A equao "ser batizado = morrer com Cristo" que, como veremos, tem sua origem no prprio batismo de Jesus, se encontra em todo o Novo Testamento e no somente em Rm. 6.1 s. Esta equao se encontra em primeiro plano em outra passagem paulina, em I Co. 1.33, onde o batismo considerado sem equvoco possvel como uma participao na cruz de Cristo: "Foi Paulo quem foi crucificado por vs, ou fostes batizados em nome de Paulo?" As expresses "estais batizados" e "um outro foi crucificado por vs" so aqui utilizadas como sinnimas. Esta curiosa maneira de expressar-se mostra tambm que, segundo o Novo Testamento, Cristo quem atua no batismo, enquanto que o batizado objeto passivo desta ao.Na Epstola aos Hebreus ocorre o mesmo. A impossibilidade de um segundo batismo est motivada, no captulo 6.4 s., pelo fato de que o batismo uma participao na cruz de Cristo: impossvel, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tomaram participantes do Esprito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caram, sim, impossvel reconduzi-los ao arrependimento; pois para si mesmos esto crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitado-O desonra pblica. (Hb. 6.4 s.) Esta passagem mostra tambm quo estreito o vnculo entre o dom do Esprito Santo e a morte expiatria de Cristo. Os escritos joaninos, finalmente, fazem tambm aluso relao entre a gua do batismo e o sangue de Cristo[7].Porm, para compreender todo o alcance do vnculo entre o batismo e a morte de Cristo, e por conseguinte, para compreender o aspecto essencial da doutrina batismal do Novo Testamento, necessrio perguntar qual o sentido do batismo pelo qual o pr6prio Jesus se submeteu no Jordo. Que significa para Jesus seu pr6prio batismo? Essa uma pergunta freqentemente delineada na Igreja primitiva, como testemunha o evangelho ap6crifo dos ebionitas e o dos hebreus. No de se estranhar. Pois, por que Jesus, que estava sem pecado, se batizou no batismo de Joo destinado aos pecadores? Mateus sentiu tambm a dificuldade, pois colocou no comeo do seu relato a pergunta do Batista: "Sou eu quem tem necessidade ser batizado por ti, e tu vens a mim?" (3.14). Ao que Jesus responde: "Deixa por enquanto, porque assim convm cumprir toda a justia". o prprio relato do batismo de Jesus, tal como referido nos trs evangelhos sinpticos, quem d a verdadeira resposta a esta pergunta. Est contida na voz que ressoa no cu: "Este o meu filho amado em quem me comprazo" (Mc. 1.10 s.; Mt. 3.16 s.; Lc. 3.22). Se queremos deduzir a significao que teve para Jesus seu prprio

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  • batismo, como queremos compreender sua "conscincia messinica", de uma importncia capital advertir que esta voz celeste cita Is. 42.1, o comeo dos cantos do servo de Yav. Por estas palavras, com efeito, interpretado no Antigo Testamento o servo de Deus que deve sofrer em lugar de seu povo[8]. Aqui encontramos, em ltima anlise, a resposta questo delineada por Mateus e mais tarde pelos evangelhos apcrifos: Qual a significao para o pr6prio Jesus, do batismo para a remisso dos pecados? Podemos formular a resposta da maneira seguinte: no instante de seu batismo, Jesus foi investido da misso de realizar o papel de servo sofredor, que deve carregar os pecados de seu povo. Os outros judeus vo ao Jordo para serem batizados por Joo por causa de seus prprios pecados. Jesus, no mesmo momento em que todo o povo se fez batizar, ouve uma voz que diz: "Tu no s batizado por teu prprio pecado, seno pelo pecado de todo o povo, pois de ti profetizou Isaas: ser destroado por causa dos pecados do povo". Isto , Jesus batizado visando um sofrimento substitutivo, implicando sua morte, pela qual ser outorgado o perdo dos pecados a todos os homens. Temos aqui porque Jesus deve solidarizar-se no batismo com todo o seu povo, ir ele tambm beira do Jordo, a fim de que "toda justia seja cumprida".Deste modo as palavras de Jesus ao Batista adquirem um sentido muito preciso. Fala-se de cumprir "toda justia" (nllProcrat ncrav txatoo"vllv, Mt. 3.15) porque seu batismo est em relao com a txatoo"vll, no com a sua prpria, seno com a de todo o povo. preciso sublinhar o termoncrav. A resposta de Jesus, que confunde tanto os exegetas, tem deste modo um sentido muito concreto: Jesus provocar um perdo geral. Se Lucas (assim como Mc) no refere esta palavra, no deixa de sublinhar menos o mesmo fato sua maneira no versculo 21: "Como todo o povo (&nav'ta 'tv av) se fez batizar, Jesus se batizou tambm". A voz celeste nos revela a razo pela qual Jesus deve atuar como os outros judeus. Diferente caso de todos aqueles que se fazem batizar por seus prprios pecados, ele posto a parte e chamado a cumprir em favor daqueles o ministrio do servo de Yav[9].O batismo de Jesus j anuncia assim o fim, o ponto culminante de sua vida, a cruz, sobre a qual se cumprir o que o batismo de Joo deveria conferir: o perdo dos pecados para todo o povo. No momento de sua crucificao, Jesus celebrar um batismo geral, conforme a misso que lhe havia sido designada, quando foi batizado no Jordo.A interpretao do batismo de Jesus que propomos, est confirmada pela significao que toma a palavra !3a7t'tetv em sua boca. Temos visto que o pr6prio Jesus no batizou, e compreendemos ago- ra o porque. Para ele, "ser batizado" significa no que sucederia, "sofrer, morrer por seu povo". No se trata so:mente de uma suposio. Com efeito, as duas nicas passagens em que Jesus utiliza o verbo !3a7t'tecr8at, so apresentadas por Mc. 10.38 e Lc. 12.50. Em Mar- cos 10.38 ("podeis ser batizados com o batismo com o qual eu vou ser batizado?"), "ser batizado" significa "morrer". Sucede o mesmo em Lucas 12.50: "Tenho que receber um batismo e como me angus- tio at que seja levado a cabo!" As duas vezes Jesus quem fala. A identificao entre o batismo e a morte concerne pois sua pr6pria morte, e por analogia, esta maneira de falar poder identificar-se tambm ao batismo cristo. Jesus no batizar a particulares, como Joo Batista, seno que realizar um batismo geral, de uma vez por todas, no momento de sua morte expiat6ria. Este batismo geral, realizado por Jesus, tem como essencial o ser totalmente independente da f e da compreenso dos que se beneficiaram dele. A graa batismal que encontra aqui sua origem

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  • , em sentido estrito, uma "graa preveniente".Nos prximos pargrafos, veremos como preciso compreender que os discpulos, depois da morte e ressurreio de Jesus, voltaram a batizar os indivduos com gua. Veremos claramente porque a prtica eclesistica dos batismos individuais no um retorno ao batismo de Joo, seno que se encontra indissoluvelmente ligada morte de Cristo. Compreenderemos tambm porque o batismo uma participao na morte e na ressurreio de Cristo, porque temos ido at s razes da doutrina batismal do Novo Testamento, tal como foi formulada explicitamente em Rm. 6.1s. No evangelho de Joo (1.29-34), encontramos, de alguma maneira, um primeiro comentrio do relato sin6ptico do batismo de Jesus, que confirma o que j temos visto, descobrindo no batismo de Cristo a origem do batismo cristo. O batismo de Jesus aqui referido sob a forma de uma ~ap't\)pa, de um testemunho de Joo Batista em favor de Cristo, depois de seu batismo. O batismo mesmo no narrado, porm sem dvida se pressupe. Este testemunho est resumido no versculo 29 com estas palavras: "Eu sou o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". No versculo 33, Joo Batista recorda que viu descer o Esprito Santo sobre Jesus e repousar nele, conclui com o versculo 34: "Eu o tenho visto e dou testemunho de que este o eleito de Deus". Isso uma aluso clara voz celeste que se fez ouvir para designar Jesus, em seu batismo, como o ebed Yahv de Is. 42.11[10].Enquanto que, segundo os sin6pticos, s6 a voz celeste estabelece uma relao entre o batismo de Jesus e os sofrimentos substitutivos do servo de Yav, o evangelho de Joo aqui mais explcito. O Batista tira a concluso da designao da voz celeste, especificando que Jesus " o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". Entende pois, com razo, esta designao como uma chamada dirigida a Jesus de encarregar-se da misso do servo de Yav[11].A narrao que os evangelhos fazem do batismo de Jesus, segundo a interpretao que temos dado, considerando a sua importncia para a histria da salvao, aclara tambm a relao que o Novo Testamento estabelece entre os efeitos do batismo cristo: o perdo dos pecados e ,o dom do Esprito Santo. Os sinpticos mostram, com efeito, to bem como o evangelho de Joo, que o batismo cristo tem sua origem no batismo de Jesus na medida em que um batismo do Esprito. Pois tambm Jesus, no momento de seu batismo com gua, recebe o Esprito de maneira plena. Este dom est tambm relacionado com o sofrimento substitutivo do servo de Yav. Com efeito, na segunda metade do versculo de Is. 42.1, citado pela voz celeste, se diz: "Pus o meu Esprito sobre ele (o servo), ele far reinar a justia no meio das naes". Assim comprovamos que a possesso do Esprito prometida no mesmo versculo do ebed Yahv. pois, em virtude deste Esprito que Cristo poder realizar seus milagres, 'seus dinameiv, e Mt. 8.14 e 12.17-22, tm razo em relacion-los com Is. 42.1-4; 53.4.O batismo de Jesus na gua do Jordo anuncia assim o coroa- mento de sua obra: sua morte e sua ressurreio. E se compreende agora porque o batismo cristo est ligado temporalmente com a mor- te e ressurreio de Cristo: isto no possvel mais que uma vez quando a obra de salvao esteja cumprida. preciso recordar aqui os textos de Jo. 7.39, onde se diz que "o Esprito no tinha sido dado todavia porque Jesus no tinha sido glorificado" e de Jo. 16.7, onde Jesus disse a seus discpulos: "Se eu no for, o consolador no vir a vs". Para que fosse possvel o batismo cristo, a participao na morte e na ressurreio de Cristo, era necessrio que Jesus realizasse em primeiro lugar sobre a cruz, este batismo geral, com vistas ao qual ele mesmo havia sido batizado

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  • no Jordo. Temos manifestado, com efeito, que somente a partir de pentecostes iniciou-se o acolhimento dos cristos na Igreja por meio do batismo. O fato de que a prtica do batismo eclesistico tenha comeado somente a partir de pentecostes, depende do desenvolvimento da histria da salvao. Assim, a morte expiatria e a ressurreio de Cristo, ponto central da histria que concerne ao xcr~o de maneira completa, se encontra tambm no centro da histria do batismo. Com efeito, a partir do momento em que, em pentecostes, a Igreja passa a ser o lugar onde atua o Esprito Santo, o corpo do crucificado e ressuscitado, o batismo nico, realizado na cruz, vai estender seus efeitos sobre os batismos que a Igreja celebrar. Pentecostes portanto, no que concerne histria do batismo, a dobradia que encadeia a realizao da salvao sobre a cruz com o desdobramento ulterior dessa salvao. necessrio que vejamos agora em que relao se encontram o batismo nico de Cristo e o dos membros de seu corpo.

    2. O batismo, agregao ao corpo de Cristo Nos pargrafos anteriores, vimos que, segundo o Novo Testamento, todos os homens receberam fundamentalmente o batismo desde h muito tempo: no Glgota, no dia da sexta feira santa e da pscoa. Deste modo o verdadeiro ato batismal j foi realizado, sem nossa colaborao, como tambm sem nossa f. O mundo inteiro j foi batizado em virtude do ato absolutamente soberano de Deus, que em Cristo "nos amou primeiro" (1 Jo. 4.19), antes que ns O amssemos, antes que ns crssemos. Ento, por que a Igreja batiza? O batismo no se converteu em algo suprfluo, posto que Cristo j morreu e ressuscitou por cada homem, naquela data nica da histria que, para o crente, d sentido e transcendncia ao desenvolvimento do tempo?A maior parte dos telogos contemporneos coincidem em dizer que o ato batismal da Igreja primitiva se caracteriza pela relao que estabelece entre a cruz e a ressurreio por um lado, e um indivduo por outro, que no momento deste ato, morre e ressuscita com Cristo (Rm. 6.3 S.)[12]. Suas interpretaes divergem quando se trata de precisar o sentido desta relao, isto , de estabelecer como se realiza, para o batizado, sua participao na morte e na ressurreio de Cristo. Segundo Karl Barth[13], que recorre aqui a uma expresso de Calvino, o batismo neo-testamentrio confere somente um cognitio da salvao, de sorte que ele excluiria perfeitamente atribuir-lhe uma virtude realmente causativa: no mais que um "participar" na salvao, dada quele que batizado[14]. Vendo no acontecimento batismal somente um cognitio, a questo o batismo de crianas se encontra delineada e resolvida de antemo negativamente, porque seria absurdo querer "fazer participar" um recm-nascido da morte e ressurreio com Cristo. Por outro lado a f, isto , a nica possibilidade que teria de aceitar esse "participar" e de responder a ele, estaria neste caso excluda. Por isso tem razo Barth, se parte da cognitio, em por em dvida o carter bblico do batismo de crianas. Quem aprova a noo barthiana da graa batismal ter grande dificuldade em defender o batismo de crianas[15]. Todavia esta reduo da virtude do batismo cognitio salutis no nos parece estar conforme a concepo neo-testamentria. Os textos da Escritura, como vamos ver, nos convidam a dar uma definio diferente do acontecimento batismal. Advertimos em primeiro lugar que preciso estudar o batismo de crianas, sempre como o fez Barth, a partir de uma definio teolgica do batismo do Novo Testamento. Considerando as fontes de que dispomos, intil,

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  • definitivamente, perguntar se a Igreja nascente j batizava aos recm- nascidos. Os escritos do Novo Testamento no nos permitem dar resposta alguma, negativa ou positiva, a esta pergunta, e seria de desejar que todos se persuadissem disto. Os textos que falam do batismo de "toda uma casa" nos deixam na incerteza, pois no sabemos se nessas "casas" havia crianas pequenas. Estas passagens no podem ser levadas em conta mais que para definir a doutrina do batismo, porm no para atestar a prtica do batismo de crianas na idade apostlica. Seria desejvel que os defensores do carter bblico do batismo de crianas no tentassem facilitar a tarefa aduzindo estes textos, como se fossem uma prova peremptria da prtica do batismo de crianas desde as origens. Porm, os que crem poder negar a prtica do batismo de crianas na Igreja nascente deveriam, por sua vez, absterem-se de aduzir o argumento da ausncia, no Novo Testamento, de uma meno precisa desta prtica. Pois evidente que em uma Igreja missionria, como era a do tempo apostlico, em uma Igreja que estava se constituindo, a ocasio desta prtica -ainda se est em perfeito acordo com sua doutrina -era mais rara que em uma Igreja constituda. No se apresentava mais que: 1. Quando uma casa inteira, na qual havia crianas pequenas, passava a fazer parte da Igreja; 2. Quando as crianas nasciam depois da converso e batismo de seus pais (eventualmente s do pai ou s da me, se somente um dos cnjuges estava convertido). Este segundo caso, se no era freqente no prprio comeo da vida da Igreja, se produziu certa mente antes de que fosse redigido o ltimo livro do Novo Testamento. Quase todos os que no crem que a Igreja nascente batizasse s crianas, caem no erro de no distinguir estes dois casos to diferentes. Todavia, esta considerao deveria ser levada em conta muito atentamente, por conta do fato de que o judasmo contemporneo a fazia para os batismos dos proslitos. A obra de Joachim Jeremias[16], que de capital importncia para a discusso desta questo, recorda com efeito que no judasmo se batizava no somente os pagos adultos, como tambm s suas crianas, enquanto que as crianas que nasciam depois da converso dos pais j no eram batizadas, sendo consideradas como santas por causa de seus pais. Esta comprovao importante tambm por sua analogia com o que Paulo escreve em I Co.7.14[17]. O estudo muito esmerado de J. Jeremias nos parece provar que , pelo menos possvel, sustentar que os textos bblicos atestam, de maneira indireta, a prtica do batismo de crianas no perodo apostlico. Cremos tambm que se pode invocar a este respeito a maneira como os sinpticos (Mc. 10.13 s.; Mt. 19.13 s. e Lc. 18.15 s.) referem a beno das crianas por Jesus[18]. No queremos dizer mais no momento. Porm se intencionalmente nos mantemos to prudentes a respeito da questo histrica da constatao pedobatista do Novo Testamento, queremos antes de tudo, e sem dvida alguma, recordar com insistncia que o Novo Testamento no contm nenhum vestgio da prtica de um batismo de adultos cujos pais foram cristos que educadaram estes adultos. Este fato pode ter se produzido a partir do ano 50 ou at antes, portanto antes da redao da maior parte dos livros do Novo Testamento. A nica coisa que sabemos a respeito das crianas filhas de pais cristos, o que Paulo disse em I Co. 7.14 e que corresponde prtica do batismo dos proslitos, o qual no era administrado mais que s crianas nascidas antes da converso de seus pais. Esta passagem paulina exclui igualmente a idia de um batismo desses filhos de cristos uma vez tornados maiores.Os impugnadores do carter bblico do batismo de crianas deveriam portanto

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  • render-se diante da evidncia. O que estes preconizam, a saber, o batismo na idade adulta das crianas nascidas de pais cristos e educadas por estes, est todavia pior atestada no Novo Testamento que o batismo de crianas (em favor do qual se pode pelo menos descobrir certos vestgios), e at mais, seu ponto de vista no est atestado de maneira absoluta.Porm no do ngulo testemunhal da Escritura de onde se deve delinear a questo do batismo de crianas. Se levarmos em conta nossas fontes nesta matria, no podemos encontrar mais que uma resposta a partir da doutrina geral do Novo Testamento. O problema o seguinte: o batismo de crianas compatvel com a concepo neo-testamentria do batismo? O valor inquestionvel do prospecto de Karl Barth o de ter levado a discusso a este terreno. Porm ainda que descubra aspectos capitais e amide desconhecidos dI;) batismo, a interpretao do nosso colega no pode, a nosso ver, ser seguida em suas principais concluses, segundo o Novo Testamento. No tem menos mrito em haver convidado a igreja a refletir de novo sobre a significao bblica do batismo.O problema do batismo de crianas deve antes de tudo ser considerado no terreno da exegese e da teologia neo-testamentrias. No seria til, por conseguinte, estud-Io de um s golpe em outras perspectivas, por exemplo, sob o ngulo "Igreja da multido -Igreja confessante". Por isso, K. Barth, com seu hinc, hinc, illae lacrima[19], acusa os defensores do batismo de crianas de se deixarem guiar, de maneira definitiva, pela preocupao de salvar a "multido". Esse pode ser o caso de numerosos pedo-batistas. Porm da leitura do opsculo barthiano no se pod,e impedir a pergunta se seu hinc, hinc, illae lacrimae no poderia ser-lhe devolvido e aplicado ao vivo interesse, certamente legtimo, que K. Barth pe na constituio de uma Igreja confessante. Sua negao do carter bblico do batismo de crianas que ele chega at a chamar de "uma ferida no corpo da Igreja"[20], no est posta servio desta causa?Portanto, se se faz intervir a questo "Igreja da multido - Igreja confessante" no debate, a propsito do sentido do batismo, se d de antemo a todo o problema, uma perspectiva que no a do Novo Testamento. Isto no quer dizer, por demais, que o estudo da essncia e da significao do batismo no permita tirar concluses eclesiol6gicas precisas, porm estas no sero mais que a consequncia lgica da doutrina estabelecida previamente. Pedimos, pois, que para buscar o que constitui o fundamento do ato batismal, no se estudem os textos da Escritura a partir de um a priori quase sempre no conforme o Novo Testamento. A Igreja, na qual o batizado acolhido, certamente, segundo o Novo Testamento, uma Igreja "confessante". exato igualmente que os batismos de adultos, vindos do judasmo ou do paganismo, isto , os nicos que nos so explicitamente referidos pelos textos, permitem regularmente comprovar a f dos batizados. Porm, errneo tirar de um s golpe as duas concluses seguintes: em primeiro lugar, o carter "confessional" da Igreja primitiva estaria ligado ao batismo; em segundo lugar, a f e sua confisso seriam a condio de um batismo regular. Isto : se verdade que o batismo -o batismo de adultos -foi no cristianismo primitivo uma ocasio importante para o crente de confessar sua f, no era a nica. Com efeito, impossvel pretender que s o batismo garantia Igreja seu carter de comunidade de confessantes. Porque a f era ademais confessada em cda culto, nos exorcismos, no ensino da Igreja[21] e pode ser que tambm quando um ministrio era conferido. Era-o igualmente quando os cristos, diante dos tribunais, deviam "dar conta da esperana que havia neles" (IPe. 3.15). E quanto ao

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  • segundo ponto, que concerne ao lao inegvel e indissolvel que une o batismo e a f, ser necessrio mostrar com detalhes como deve ser definido de uma maneira mais precisa. Faremo- 10 no prximo captulo. No momento, basta notarmos que no podemos nos apoiar no fato de que a f geralmente est presente no momento do batismo de um adulto, para ento afirmar que est simultaneidade constitui o primeiro elemento das relaes entre batismo e f.Finalmente, voltamos a advertir que necessrio separar o problema do batismo das crianas desse outro da "Igreja da multido -Igreja cofessante", pois muito tempo antes do triunfo do imperador Constantino e suas conseqncias eclesiolgicas, Irineu j aprovava o batismo de crianas[22]. Ningum negar, todavia, que Irineu era membro de uma "Igreja confessante".Em seu estudo sobre a origem e significao do batismo, F. J. Leenhrdt[23] pretende defender que o batismo de crianas seria, no fundo, um sacramento distinto daquele dos adultos. Recorda a este respeito que, para fundamentar biblicamente o batismo de crianas, se tem o costume de basear-se em textos neo-testamentrios que no dizem uma palavra sobre o batismo, quando no podem ser invocados os verdadeiros textos batismais em favor do batismo de crianas. Esta opinio, de nosso colega de Genebra, se explica por sua interpretao da doutrina do batismo, que. est aparentada com a de K. Barth e que no nos parece corresponder plenamente com a concepo bblica. N6s comprovaremos, pelo contrrio, que esta pode muito bem aplicar- se ao batismo de crianas, tenha sido este praticado ou no. Em troca, os outros textos neo-testamentrios invocados geralmente para justificar o batismo de crianas, podem ser legitimamente aplicados tambm ao batismo de adultos[24]. Por isso importa agora compreender bem o que significa teologicamente morrer e ressuscitar individualmente com Cristo pelo ato batismal, depois que o batismo coletivo decisivo j tenha sido realizado por todos os homens no Calvrio.Para esclarecer este ponto necessrio partir do que distingue o batismo da santa ceia. Em um livro anterior[25], mostramos que a Igreja primitiva no conheci provavelmente mais que duas classes de assemblias cultuais: a do alimento compartilhado da eucaristia (compreendendo certamente a pregao do evangelho) e o batismo. Pois bem, no momento da ceia, a assemblia participa tambm da morte e ressurreio de Cristo. Qual , pois, a diferena entre os dois sacramentos?Advertimos em primeiro lugar que essencial para a ceia o ser repetida[26], em troca o batismo deve ser um ato realizado para cada indivduo, uma s e nica vez. Na ceia, a comunidade constituda enquanto tal quem participa na morte e na ressurreio de Cristo, enquanto que pelo batismo esta relao se aplica, no seio da Igreja, a um indivduo. Assim se encontra refutada a objeo de Karl Barth, segundo a qual se se batiza aos recm-nascidos seria igualmente necessrio admiti-los na ceia[27]. Com efeito, a participao reiterada da comunidade na morte e ressurreio de Jesus Cristo, no momento da eucaristia, encontra precisamente seu sentido no fato de que so aqueles que j crem os que asseguram de novo sua salvao, com a excluso dos incrdulos e daqueles que no so todavia capazes de crer. No batismo, ao contrrio, o indivduo quem, pela primeira e nica vez situado na Igreja, isto , ali onde, segundo a vontade de Deus, o perdo dos pecados e o dom do Esprito Santo atuam em seu favor no tempo que separa a ascenso da parousia. O que distingue, pois, o batismo da ceia seu carter nico, enquanto que o que lhes comum a relao com a morte e a ressurreio do Senhor.Em Rm. 6.3 s., Paulo descreve o que se

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  • passa no batismo: o batizado se toma uma "mesma planta" com o crucificado e ressuscitado. Em I Co. 12.13, define claramente como essa participao na morte e ressurreio de Cristo se efetua precisamente no batismo: por um s esprito, todos ns fomos batizados para sermos introduzidos em (Ei) um mesmo corpo. O versculo precedente mostra que se trata do corpo de Cristo, isto , da Igreja, como indica todo o contex- to. Para definir a essncia da significao do batismo, nos parece, pois, importante recorrer por sua vez, a Rm. 6.3 s. e a I Co. 12.13.Este ltimo texto responde sem equvoco pergunta que delineamos no comeo deste captulo, concernente diferena entre o ato batismal da Igreja primitiva e aquele batismo geral j realizado no Calvrio.A justa posio dos textos citados, Rm. 6.3 s. e I Co. 1213, no arbitrria. Com efeito, esto intimamente ligados, posto que o corpo de Cristo no qual somos batizados, por sua vez o corpo crucificado (11 Co. 1.5; Cl. 1.24; 1Pe. 4.13) e o corpo ressuscitado (I Co. 15.20-22) de Cristo. E Paulo, unindo de maneira anloga a morte e a ressurreio com Cristo por um lado e a incorporao nica Igreja de Cristo por outro, escreve aos Glatas esta outra passagem capital: "Todos v6s que haveis sido batizados em Cristo (Ei XptO"t6v), vos haveis revestido de Cristo..., pois v6s sois todos um em Jesus Cristo" (3.27) s.).Entre os textos neo-testamentrios que falam do batismo, vistos pelo ngulo doutrinal, no se encontra nenhum pelo qual o acontecimento essencial do ato batismal seria a comunicao cognoscitiva da obra salvadora de Cristo, a cognitio, como quer K. Barth e como pensa tambm, no fundo, F.-J. Leenhard[28]. No encontramos uma s passagem que diga ou d a entender que essa cognitio, esse "participar", justifique, ao lado do batismo geral realizado no C6lgota, a celebrao do ato batismal na vida da Igreja e que defina sua essncia. verdade que a maior parte das vezes, o Novo Testamento refere que o batizado -adulto -chegou f antes de seu batismo e que ele confessava sem dvida no momento de ser batizado[29]. Porm esta cognitio no jamais o elemento essencial. Em troca, os textos decisivos de I Co. 12.13 e Gl. 3.27-28, que acabamos de recordar, determinam claramente que o acontecimento essencial do ato batismal a agregao ao corpo de Cristo. Deus incorpora, no d apenas um informe sobre esta incorporao. No instante do acontecimento, o batizado se limita a ser objeto passivo deste ato de Deus, ele incorporado por Deus. " agregado", como diz Atos com um estilo eminentemente passivo (2.41)[30]. Todos os outros elementos que entram todavia em considerao devem ser subordinados a essa definio e explicados a partir dela. Certamente tambm Karl Barth fala da edificao da Igreja por meio do batismo, porm, e isto o essencial, no reconhece a este ato de Deus, enquanto tal, uma fora causativa para aquele que se beneficia dele. Considera a graa batismal como uma declarao divina que se dirige f.A ceia igualmente um acontecimento que conceme ao corpo de Cristo, distinguindo-se do batismo, como temos notado. Na mesma carta aos corntios (I Co. 10.16 s.), se diz que a comunho no partir do po uma comunho no corpo de Cristo e que os que tomam parte do mesmo po formam um s corpo, ainda que sendo muitos. Pois na ceia, o corpo de Cristo no aumentado com novos membros que lhe seriam agregados, mas que a comunidade existente cada vez mais fortalecida tanto quanto o corpo de Cristo, na acepo mais alta deste termo. O ato batismal, pelo contrrio, concerne ao corpo de Cristo de uma maneira diferente. "Pela associao" (7tpoae'tt'e"aav, Atos 2.41) ao corpo de Cristo (eic; EV aro~a) daqueles que so batizados, este

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  • corpo aumenta quantitativamente. Este aumento para ele um ato sumamente real. O batismo, por conseguinte, no afeta s ao batizado, como se diz habitualmente, mas antes Igreja em sua totalidade. Cada batismo significa assim uma vitria sobre a potncia do maligno, posto que coloca o batizado num lugar onde pode escapar desta potncia[31].Como no Calvrio, tambm no batismo Deus quem atua em Cristo. Esta "associao" um ato soberanamente livre de Deus, que no depende nem do nosso comportamento humano nem to pouco de nossa f. O batismo eclesistico teria, com efeito, um carter fundamentalmente diferente do batismo geral realizado por Cristo na cruz, se a obra de Deus estivesse aqui ligada ao ato de f e a confisso do homem. Pois precisamente o sentido mais profundo desta obra expiatria consiste no fato de que foi realizada sem o concurso e ainda contra a vontade, o conhecimento e a f daqueles que deviam beneficiar-se dela[32]. Pois se no batismo da Igreja, a f no , antes de tudo, uma resposta que segue ao ato de Deus, seno uma condio deste ato, ento o Cal vrio e o batismo no se situam no mesmo plano. No pargrafo seguinte vamos definir o papel da f no aconteci- mento do batismo e explicar porque o Novo Testamento menciona to freqentemente a f do batizado adulto, seja antes, seja no mo- mento de seu batismo. Porm, aqui se trata de mostrar que o batismo do Calvrio e o batismo na Igreja esto ntima e essencIalmente liga- dos, pois so um e outro uma obra divina totalmente independente do concurso humano. Do fato, da soberania deste ato de Deus, a f enquanto resposta humana, no pode seno seguir-se. Deve acompanhar o batismo eclesistico ainda quando a f, no batismo geral do Calvrio, preceda o sacramento, quero dizer, nos casos que o Novo Testamento menciona correntemente. O batismo na gua dado pela Igreja requer, neste caso tambm, uma f que no pode vir seno depois do ato batismal, f no acontecimento particular que acontece na presena da Igreja: associao de um novo membro ao corpo crucificado e ressuscitado de Cristo. Se esta f no segue o batismo, o dom divino menosprezado, blasfemado, e os frutos que deveria produzir so aniquilados. Porm, o dom em si mesmo conserva toda sua realidade, pois no depende do fato de que um homem tenha confessado a Cristo por sua f, mas antes Cristo quem, agregando- o a seu corpo, o tem confessado e por conseguinte o fez participar em sua morte e em sua ressurreio.Tudo o que o Novo Testamento ensina implicitamente da graa preveniente (Rm. 5.8-10; Jo. 15.16; I Jo. '4.10 e 19) vale com maior razo para o batismo enquanto incorporao ao corpo de Cristo. A graa batismal no somente a "imagem" daquela graa preveniente pela qual Deus no Calvrio veio ao nosso encontro. ademais -em dependncia absoluta do acontecimento do Glgota -uma manifestao nova e especial dessa mesma graa preveniente, que a obra divina da salvao perpetuando-se no tempo da Igreja.Na sexta-feira santa, a graa preveniente de Deus foi dada em Cristo a todos os homens e o acesso a seu reino aberto a cada um. Pelo batismo, se pode entrar no que em outro lugar chamamos "o centro"[33] desse reino, isto , o corpo terrestre de Cristo, a Igreja[34]. A cruz do Calvrio se refere, pois, ao batismo como o evento no qual o reino de Cristo, em toda sua extenso, conceme Igreja. Neste sentido, a graa batismal no mais que uma manifestao particular da graa preveniente do Glgota. A existncia desta manifestao particular depende do fato de que o Novo Testamento conhece por um lado uma humanidade salva por Cristo e por outro uma Igreja: um regnum Christi e um corpus Christi.Os telogos protestantes

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  • tm amide um temor verdadeiramente exagerado em fazer a pergunta da qual ns temos partido desde o comeo deste captulo: Cristo, no momento de cada batismo individual celebrado na Igreja no curso da histria, realiza uma obra nova, distinta do simples anncio de sua nica obra expiatria? Certamente, Jesus Cristo no morre de novo em cada batismo, e sua obra nica do cal vrio no se repete. Porm, aquele que agora est assentado direita de Deus, autoriza o batizado a participar, em sua Igreja, do que foi realizado E
  • cruz e na ressurreio de Cristo, quer dizer no responder a ela pela f. Com efeito, incorporao na Igreja que se produz no batismo, deve corresponder obrigatoriamente a f do novo membro. nesta perspectiva que necessrio compreender os textos neo-testamentrios que falam de um pecado que no ser perdoado, para o qual o arrependimento est excludo. Diga-se o mesmo dos textos concernentes a uma excluso definitiva da comunidade crist. Porm no menos verdade que quem perde a graa batismal porque no tem f, permanece, apesar de tudo, sob o sinal do batismo. O prprio Karl Barth sublinha, e no se pode faz-Io com mais fora, seu carter indelvel[40]. "Toda humanidade ocidental, indiscutivelmente m, se encontra sob este sinal[41]. Portanto se a incredulidade no pode destruir mais que o efeito que segue o batismo e no o acontecimento sacramental propriamente dito, preciso admitir que o Novo Testamento no requer a f no momento do batismo seno depois.Os adversrios do batismo de crianas intentam amide apresentar o problema como se toda noo que no faa da f uma condio sine qua non do batismo, pressupnha j inevitavelmente uma concepo mgica, simblica, como se o batismo de adultos fosse a nica possibilidade de escapar a esta alternativa. Somente ento, pensam estes, o batismo pode ser um acontecimento real, que no est nem liqefeito pelo simbolismo nem paganizado pela magia[42]. Se ns definimos aqui a graa batismal como a incorporao do batizado Igreja e se supormos que esta graa no depende do homem, no permitimos portanto, uma interpretao mgica desta afirmao, posto que somente em virtude de sua resposta que o homem poder permanecer nessa graa, como veremos no pargrafo seguinte. Veremos tambm que a participao ativa da comunidade no momento do ato do batismo exclui o opus operatum[43]. Porm, o que queremos mostrar no momento que no prprio ato do batismo no se est tratando de um acontecimento simblico, seno de um fato muito real, ainda que seus efeitos ulteriores estejam intimamente ligados f subsequente do batizado e que at dependam profundamente dela. necessrio distinguir aqui cuidadosamente entre a incorporao Igreja, que se produz no momento do ato batismal e representa uma graa real independente da acolhida que o batizado lhe faa, e as conseqncias de dita incorporao que so uma graa real, ainda que dependente da constncia da f.Para ilustrar a primeira das duas realidades, a graa da recepo na Igreja, no vemos analogia mais feliz do que a que Karl Barth[44] prope: o ato de nacionalizao concedido pelo governo de um estado.Este exemplo nos parece, por outro lado, amenizar a maneira como K. Barth interpreta o acontecimento do batismo. Com efeito, o essencial para uma nacionalizao no na realidade o fato de que o nacionalizado tenha conhecimento do alcance do ato, seno at do pr6prio ato, para sua admisso entre os cidados do estado em questo. O ato tem, pois, em si mesmo uma virtude "causativa". No se trata unicamente de um "participar" da nacionalizao, seno tambm de um acontecimento real e novo. Todas as vantagens que o estado em questo pode oferecer em virtude de sua histria e de suas tradies no so somente prometidas ao recm-chegado para quando ele soubesse se mostrar digno delas. So-lhe perfeitamente outorgadas no momento de sua nacionalizao, independentemente de que as use ou as entenda. Para a vida do novo cidado este ato uma mudana decisiva, algo real, no dependente nem de seu comportamento no futuro nem to pouco de sua inteno de fazer honra sua nova ptria. Se pr-requisito que o candidato testemunhe

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  • previamente seus desejos de ser nacionalizado, este testemunho no constitutivo do prprio ato de nacionalizao, que depende do governo do pas. Se o que foi nacionalizado tem filhos menores de idade, estes podem, sem que o queiram, ser nacionalizados ao mesmo tempo que o pai, o qual vai determinar de maneira muito real toda sua vida civil, posto que vo ser submetidos, ao longo do tempo, ao mesmo regime que seu pai. Isso o que K. Barth esquece.Pode-se recordar tambm que, depois de uma guerra, os estados vitoriosos chegam a decretar a nacionalizao coletiva dos habitantes de toda uma regio sem que estes testemunhem previamente sua aceitao e sua vontade de respeitar no futuro esta mudana de nacionalidade.Este ato tem um efeito absolutamente idntico ao de uma nacionalizao privada conferi da por petio de um candidato. um acontecimento eminentemente real que, no dia de sua entrada em vigor, confere queles a quem concernem, os direitos e os deveres dos outros cidados da nao vitoriosa[45]. No discutimos aqui a questo de, se este ato legtimo ou no; se trata unicamente de pr em evidncia seu poder causativo. Este exemplo nos parece particularmente feliz pela seguinte razo: nos permite compreender que no mesmo instante em que promulgado o ato de nacionalizao, o governo em questo o nico que atua concedendo ao novo cidado o privilgio de sua nova nacionalidade. O recm-chegado permanece passivo. O fato de que tanto crianas quanto adultos, tenham pedido ou no, poderem ser beneficiados por este ato, cujos efeitos so semelhantes para as duas categorias, demonstra que no se poderia fazer do comportamento prvio do beneficirio e de sua aquiescncia ao ato uma condio para o prprio ato. Para o estado, cdmo por outro lado para o novo cidado, seu comportamento ulterior evidentemente da maior importncia. Porm, at se no permanece digno de sua nacionalizao, esta no perde todo seu valor de acontecimento real e no simblico. Se mais tarde, o que foi nacionalizado -como menor, portanto sem seu consentimento, ou como adulto -renegue, por sua conduta a nacionalidade que realmente lhe foi conferida (e no somente comunicada por meio de um papel oficial que o certificado de nacionalizao ),acabar por no desfrutar mais dos privilgios de sua nova nacionalidade. Ao tomar-se um traidor, ser julgado e condenado priso perptua ou pena de morte. Assim, perder as vantagens conseguidas por sua nova nacionalidade. O fato de que possa tomar-se um traidor, prova ento a posteriori que o ato de nacionalizao, a partir de sua promulgao, lhe permitia efetivamente desfrutar de tudo, ao longo do tempo, que perde por sua traio. Poderia desfrut-lo inclusive quando se opunha talvez a este ato, ou quando todavia no o compreendia. Sem dvida a comparao no totalmente adequada, porm apresenta bem o batismo como um ato divino que confere ao batizado, independentemente de seu comportamento, a graa de "revestir-se de Cristo" (GI. 3.27; Rm. 6.3 s.), de chegar a ser membro de seu corpo. Com efeito, neste corpo atua o poder de ressurreio do Esprito Santo. Este poder fonna esse corpo. O batismo significa, pois, que se admitido no nico corpo onde depois de pentecostes se irrompeu este poder[46]. Temos visto, com efeito, que o essencialmente novo no batismo cristo que Cristo, em virtude de sua obra expiatria, "batiza no Esprito Santo". A este respeito, tambm necessrio distinguir entre o que se passa no momento do ato batismal e os efeitos ulteriores deste. Para o cristianismo primitivo, o nvo batizado pertencer para sempre ao reino do Esprito na condio de que pennanea na f. No seio das assemblias da comunidade, ser sobretudo

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  • preservado das tentaes, prprias dos "ltimos dias" em que vive (Hb. 10.25; cf. Did 16.2). O culto eucarstico da Igreja lhe permitir realizar de novo a experincia da presena de Cristo. Porm se as conseqncias do batismo modificam at tal ponto a existncia do batizado, preciso que este ato solene, pelo qual Deus coloca de uma vez por todas o homem diante de tantas graas, possua tambm uma virtude prpria. Esta consiste no dom batismal que a incorporao do batizado igreja pelo Esprito Santo. Este dom, cuja apropriao subseqente em sua vida depender de sua f, lhe gratuitamente concedida por Deus no ato de seu batismo, sem sua interveno. Quando Paulo disse que por um s Esprito fomos batizados em um s corpo, no quer com isto dizer que o dom do Esprito Santo seja a condio da admisso na Igreja, mas antes que o Esprito atua no prprio ato da incorporao. Em virtude de sua prpria essncia, o Esprito no pode ser transmitido como uma coisa esttica, seno somente in actu, e esta ao do Esprito, nesse instante, consiste precisamente no fato de que "agrega" o batizado Igreja. Dito de outra maneira: no que concerne ao ato batismal no h incorporao Igreja sem ao do Esprito, e no h ao do Esprito sem incorporao igreja.Poderia se objetar que um ser humano que no pode nem compreender nem crer, no capaz de receber, ainda que passiva- mente, este dom do batismo, no pode portanto, ser objeto de uma tal ao do Esprito. O problema, por conseguinte, no est em saber se um recm-nascido tem necessidade de beneficiar-se da morte e ressurreio de Jesus Cristo[47], seno se lhe possvel receber o Esprito Santo, ainda que passivamente. Poderamos responder com a pergunta seguinte: como o acontecimento do Calvrio pode exercer seus efeitos em favor de todos os homens antes de crerem e a despeito de sua incredulidade manifesta e de sua postura negativa em deixarem-se redimir desta maneira? Todavia, tratando-se aqui do Esprito Santo, surge uma dificuldade que preciso no fazer desaparecer: pode o Esprito Santo atuar em um recm-nascido apesar da sua incapacidade de crer? Esta pergunta deve ser delineada deste modo por- que o batismo cristo inconcebvel fora da ao simultnea do Esprito Santo. No h batismo cristo sem dom do Esprito Santo[48]. necessrio tomar a srio o que aqui temos dito[49], a saber que tudo o que se disser sobre o batismo deve poder aplicar-se tambm ao batismo de crianas.No trairemos nosso objetivo se mencionarmos aqui o gesto da beno que Cristo fez sobre as crianas que lhe eram apresentadas (Mt. 19.13 s., juntamente). E isto no somente porque a maneira como os evangelistas nos referem o fato[50], deixa supor que queriam dar com isto diretivas a respeito do batismo de crianas, sendo este, talvez j, objeto de discusso eclesistica[51], seno sobretudo porque a imposio das mos era precisamente o gesto que acompanha a doao do Esprito. A mo que Jesus coloca sobre as crianas em sinal de beno o instrumento do Esprito assim como a que impe sobre os enfermos. As crianas (~p
  • milagre com o ato exterior est prximo da magia. Por isto indispensvel falar aqui da f da comunidade, reunida durante o batismo, f que tomou possvel a obra do Esprito. Com efeito, no Novo Testamento s excepcionalmente - caso do batismo do eunuco (At. 8.26 s.) -a comunidade, ainda reduzida a "dois ou trs", est ausente na celebrao do sacramento[54]. A f da comunidade no uma f substitutiva, como dizem os Reformadores[55]. Com efeito, o batizado desprovido de f no se beneficia da f da comunidade reunida ao redor dele. Erroneamente se invoca esta concepo nas apologias clssicas do batismo de crianas. No se trata disso. A comunidade cr que se realiza diante de seus olhos um acontecimento decisivo que conceme ao batizado, e que este acontecimento real, seja criana ou adulto, tenha conscincia ou no. Se a comunidade reunida para o batismo no cresse nisto, no seria Igreja e o Esprito Santo estaria ausente. Porm ali onde h uma comunidade crente, o Esprito Santo que atua soberana- mente nela, tem o poder de comunicar-se a um recm-nascido da mesma fonna que a todos aqueles que, segundo Paulo, "por um s Esprito so batizados em (eiv) um s corpo". necessrio, a este propsito, falar do matrimnio, que existe tambm em funo da vida da comunidade. Est enobrecido, segundo Ef. 5.22 s.[56], porque um reflexo das relaes que unem Cristo sua Igreja[57]. Por isso uma criana nascida de um matrimnio de pais batizados participa por seu mesmo nascimento do corpo qe Cristo (I Co. 7.14)[58]. Este texto paulino no atesta nem o batismo de crianas nem o de adultos. Pois um e outro so suprfluos para as crianas nascidas de pais cristos; a nosso entender Paulo pensa aqui que a santidade conferida pelo nascimento em si, basta neste caso para que se seja membro da Igreja[59]. Porm esta passagem como as que se referem ao batismo de toda uma casa, no permite tirar concluses precisas concernentes prtica batismal nem num sentido nem noutro. necessrio, pois, invoc-lo em relao com a doutrina geral do batismo. Pois bem, se nos situarmos sobre esse terreno, necessrio reconhecermos que atesta de todos os modos uma noo coletiva de santidade. A admisso no corpo de Cristo no depende, pois, de uma deciso pessoal, seno do fato de que se nasceu de pais cristos, portanto, batizados. Isto quer dizer, que esta admisso consiste em um ato da graa de Deus, independentemente do homem. Que Paulo julgue o batismo de tais crianas ou no, uma coisa certa: a noo de santidade implicada pelo que foi dito, conduz diretamente prtica do batismo de crianas. Ope-se idia de que os filhos de cristos no poderiam receber o batismo seno depois de decidirem por si mesmos. E a hiptese de J. Jeremias[60], a saber que j nos tempos do Novo Testamento se praticava o batismo das crianas, adquire assim a partir dessa observao, um alto grau de probabilidade. No caso que se refere I Co. 7.14 no se trata de uma evoluo que vai do batismo de adultos ao de crianas, seno que a primitiva comunidade crist, como a comunidade Israelita, renunciava o batismo dos filhos nascidos de pais cristos, porm, depois passou ao batismo das crianas, sempre segundo a mesma noo coletiva de santidade[61]. preciso, com efeito, observar que em I Co. 7.14, Paulo fala exclusivamente de crianas de pais j membros da Igreja. No se pode, pois, aduzir esta passagem para legitimar o batismo dos filhos de pagos ou de judeus que se convertiam f crist. Para aqueles preciso recorrer aos textos que referem o batismo de casas inteiras. Vimos que baseando-se somente nestes, no se pode afirmar com certeza que tais batismos de filhos de pagos foram celebrados ao mesmo tempo que os de seus pais,

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  • ainda que a prtica judaica do batismo dos proslitos faa com que seja uma hiptese provvel. Porm no que concerne doutrina do batismo, essas passagens permitem concluir que nesse caso tambm a solidariedade batismal da familia[62] devia superar a deciso individual de cada membro. Uma graa batismal que beneficia a toda uma comunidade, a saber o povo de Israel no momento da passagem pelo mar Vermelho, se supe tambm em I Co. 10.1 s., texto que seria necessrio sublinhar nas discusses sobre o batismo de crianas. Mostra, com efeito, claramente que o ato da graa, considerado como tipo de batismo, concerne aliana que Deus concluiu com todo o povo.A este aspecto, preciso mencionar a continuidade da linha que vai desde a aliana pactuada por Deus com Abrao em favor de sua posteridade, com a da Igreja. Esta, da mesma forma que corpo de Cristo, nica posteridade verdadeira de Abrao (Gl. 3.16), cumpre e realiza a primeira aliana. Em Rm. 4.11 seu sinal, a circunciso, designado como uma sfpagijv, um selo: da justia que Abrao havia obtido pela f, a fim de ser pai de todos os crentes (v. 11b e 12). Pois bem, esse termo sfpagijv designa no Novo Testamento o batismo, pois a este sacramento faz aluso sfpagizeqai, de II Co. 1.22; Ef. 1.13 e 4.30. Como a circunciso, a sfpagijv do batismo mais que uma "imagem" ou um "smbolo". o selo pelo qual Deus sela a aliana que conclui com a comunidade livremente eleita.Ser necessrio voltar sobre esta questo no pargrafo consagrado s relaes entre a circunciso e o batismo. At agora nos suficiente comprovar que sobre este ponto tambm se encontra confirmada nossa tese, segundo a qual o fim essencial do ato batismal integrar um novo membro no corpo de Cristo, em virtude da aliana que Deus selou com a Igreja, realizao da de Abrao.

    3. O batismo e a f Vimos que necessrio distinguir no sacramento do batismo dois elementos sucessivos, a saber o ato soberano de Deus, que incorpora um indivduo Igreja, corpo de Cristo, e as conseqncias deste ato para a vida inteira do indivduo. Faremos uma distino entre o papel da f antes e durante o ato do batismo e o que desempenha depois.Permitem os textos do Novo Testamento fazer esta distino? J o texto citado mais atrs, I Co. 10.1 s., no autoriza a responder afirmativamente. Com efeito, Paulo distingue escrupulosamente o que sucedeu quando a libertao do povo eleito no momento da passagem pelo mar Vermelho, tipo de batismo, do acontecimento subseqente: a maneira negativa como a maior parte do povo reage diante deste batismo e suas conseqncias funestas. A mesma distino se encontra tambm nas outras passagens neo-testamentrias que falam de uma perda da graa batismal (Hb. 6.6 e 10.26). Pois se se pode per- der esta graa, isso significa que a vida ulterior do batizado decide tambm sobre o acontecimento sacramental. Porm, apesar disso, no se pode pr em dvida a realidade do que se passou no prprio momento do batismo[63]. No momento, trata-se somente de demonstrar o quo bem fundada est esta distino. Para isto teremos que recorrer a Rm. 6, passagem capital que justamente, nos recentes debates sobre o batismo, se destacou sem cessar. Nela tambm se faz esta distino, posto que o indicativo do batismo (estamos mortos) est ligado de maneira to caracterstica ao imperativo (que o pecado no reine mais). Para todo batizado, o batismo est na origem de outros aconteci- mentos. verdade que somos eleitos em Cristo desde antes de nosso nascimento. Porm, no curso da vida terrestre de um batizado, o batismo um ponto de partida. Da mesma

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  • maneira que a histria da salvao se desdobra no tempo, assim independentemente de seu nascimento natural, h na vida de um indivduo um primeiro ato redentor, um novo nascimento, seguido de um desdobramento no tempo. Essa a razo pela qual o Novo Testamento chama o batismo: de um "novo nascimento" (Tt. 5.5; Jo. 3.3 s.). Tal o batismo; um comeo muito real em si mesmo, porm que leva consigo uma continuao, assim como o nascimento natural um comeo ao que no se saberia negar sua realidade. Pois bem, apesar disto, privado de uma continuao, isto , se a morte sobrevm em seguida, perderia todo o efeito.A distino que o Novo Testamento nos convida a fazer , pois, de grande importncia para a questo do batismo de crianas. Com efeito, os adversrios do batismo de crianas crem que devem negar seu carter bblico precisamente porque falta-lhes a f no instante do ato batismal. Por outro lado, qui, K. Barth no tenha intentado fazer esta distino temporal, propsito das relaes entre o batismo e a f, pelo fato de no ter uma concepo linear do tempo[64]. Ser necessrio que f coincida com o ato batismal? legitimo que nos faamos esta pergunta, pois o batismo chamado um "novo nascimento". Este fato nos permite sem dvida alguma responder negativamente. Advertimos que este segundo nascimento perde seu efeito se for seguido da morte, isto , no caso de ausncia da f. Mas por isso no perde sua realidade. No momento em que ocorreu, era perfeitamente uma participao na morte de Cristo. Segue-se portanto que este ato batismal nico, este "nascimento", no est ligado f prvia e no depende dela. O qual distinto da vida que se seguir. verdadeiramente necessrio levar a srio o fato de que o batismo um voltar a um comeo radical: as coisas antigas j no contam mais, nem sequer a f que existia, talvez, antes deste nascimento. Para o homem que o recebe o batismo um sepultamento total. Toda a doutrina de Rm. 6.1 s., se dirige a homens que j esto batizados, a quem o batismo selou sua salvao. No , pois, um catecismo preparatrio, seno que explica a posteriori queles que j so membros do corpo de Cristo o que ento havia se passado: "Considerai-vos, pois, como mortos para o pecado e como vivos para Deus em Jesus Cristo" (Rm. 6.11). Segundo esta passagem, ainda se trata de pessoas batizadas na idade adulta, o "participar" da salvao, a compreenso e a f que isto supe no so constitutivos do primeiro ato do acontecimento batismal, seno do segundo. D- se um duplo ensinamento aos batizados: primeiramente que foram objeto de um ato redentor e em segundo lugar, agora que o sabem, devem permanecer dignos, isto , segundo Paulo, crer na realidade deste ato. E ainda se o apstolo no faz aqui mais que recordar a seus leitores o que j lhes havia sido talvez comunicao antes de seu batismo, no menos certo que se dirija a cristos batizados e que lhes fale do batismo como de um ato passado do qual foram objetos passivos.Por outro lado, Paulo no menciona esta prefigurao do batismo que a passagem do mar Vermelho (I Co. 10.1 s.) seno para mostrar que no primeiro ato s Deus quem atua, o homem no responde seno no momento do segundo ato. A seqncia: ao de Deus-resposta do homem determinante a este respeito. O que aconteceu a todos os membros do povo (7tV'tE, cinco vezes nos quatro primeiros versculos), este milagre de Deus oposto iniquidade e ao castigo de alguns ('ttVE, v. 7) que no puderam ser salvos pois no puderam responder pela f. Est, pois, claro que o batismo aponta para o futuro e espera no futuro uma resposta daqueles que se beneficiam dele, o qual um elemento essencial para um sacramento de

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  • admisso. Isto vlido para todo membro da comunidade, batizado quando criana ou adulto, havendo ou no tido a f antes de ser incorporado Igreja. Porm se essencial para o acontecimento batismal que o batizado, em todos os casos, creia depois da celebrao do sacramento, por que o Novo Testamento refere tantos casos nos quais a f precede e parece autorizar o batismo? Porque os nicos relatos precisos que temos apresentam pagos e judeus convertidos em idade adulta. Para estes de rigor que no sejam admitidos na Igreja de Cristo seno pela condio de afirmarem, sobre a base da f, sua inteno sincera de responder no futuro graa do batismo por uma f e uma vida dignas dela. A f do candidato neste caso uma condio humana que tomar possvel a obra divina. No to pouco uma garantia da perseverana futura do batizado. Constitui um sinal, um critrio que permite, Igreja, fazer uma eleio entre os homens que vai agregar pelo batismo. Assim para um pago ou um judeu convertidos quando adultos, como no nasceram em uma famlia crist, sua f pessoal que mostra Igreja que Deus quer aumentar o corpo de seu Filho acrescentando-lhe um novo membro. Por isso se requer af de um adulto no momento de seu batismo. Seria, com efeito, contrrio vontade de Deus, no que diz respeito ao batismo, que a Igreja batizasse indistintamente a todo o mundo, isto , sem haver um sinal divino que lhe faa esperar que o batizado viver fielmente em seu seio. O batismo de um adulto sem esse sinal da f seria to inaceitvel como o de uma criana moribunda. Com efeito, preciso admitir neste caso, porm por outras razes, que a criana no participar do corpo terrestre de Cristo, posto que o segundo ato necessrio para o acontecimento batismal no se produzir. Pode-se objetar aqui que do mesmo modo que se batiza a um recm-nascido do qual se ignora a reao futura, os adultos indiferentes ou hostis poderiam ser batizados, pois adiante lhes seria oferecida a possibilidade de chegar um dia f. Seria ento possvel nos batismos de adultos, prescindir dessa pergunta sobre a f do candidato de que fala o Novo Testamento, se esta no tem mais significao que a que ns lhe atribumos. Para responder a esta objeo necessrio dizer que o batismo de um recm-nascido, tal como se apresenta sobre a base dos textos estudados no pargrafo precedente era bastante diferente do batismo de um adulto incrdulo. O pertencer do recm- nascido, por seu nascimento natural, uma famlia crist ou ao menos a um pai ou uma me cristos, constitui um sinal para a Igreja, em virtude da solidariedade batismal e da santidade notada previamente. Este sinal indica que o acontecimento batismal divino da incorporao Igreja deve produzir-se. A f do adulto que sai do judasmo ou do paganismo e que por este fato no nasceu em uma famlia crist, deve desempenhar o papel deste nascimento e constituir um sinal vlido para a Igreja e por conseguinte indispensvel. Mostra que Deus quer atuar e somar pela gua e pelo Esprito um novo membro sua Igreja. Esta tem necessidade de tal sinal para no cair na arbitrariedade quanto eleio dos que se batizam. Deste modo o sinal ser em um caso o nascimento da criana em uma famlia crist e noutro a f do adulto. O testemunho da f antes do batismo para os adultos um elemento que forma parte das "ordenanas batismais". A f que seguir ao batismo d sentido a esta f prvia. O pertencer de uma criana a uma famlia crist no uma garantia de f subsequente, seno uma indicao divina de sua probabilidade. Ocorre o mesmo com a f de um adulto pago ou judeu testemunhada no momento de seu batismo. Esta no mais que uma indicao divina assinalando

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  • como provvel a f subsequente, nica, decisiva. A f que precede o batismo no ento um elemento constitutivo do prprio acontecimento batismal, da incorporao de um ser humano Igreja de Cristo. somente necessria no caso - mais freqentemente nos primeiros tempos da Igreja - em que o candidato ao batismo um adulto procedente do judasmo ou do paganismo. Se a f que segue ao batismo requerida a todos os batizados, a f que o precede no condio para o batismo, seno no caso dos adultos que no tm laos naturais com a Igreja crist. A situao particular da Igreja nascente, que batizava sobretudo adultos, explica o porque a mais antiga liturgia batismal conhecida[65] contenha uma declarao da f do candidato. Porm no teremos direito em tirar disto concluses para a significao do batismo. Por outro lado, J. Jeremias recordou com razo que as declaraes litrgicas ou teolgicas que acompanham o batismo de proslitos judeus no menciona mais que a adultos. Por- tanto est provado que as crianas dos proslitos eram batizadas ao mesmo tempo que seus pais[66]. Pode-se dizer ento que o batismo dos adultos no se distingue do batismo das crianas, mas que na medida em que se trata de nefitos que vm do judasmo ou paganismo. A confisso de sua f de praxe antes do batismo. Porm, nos dois casos a doutrina do batismo a mesma, sendo o elemento decisivo para a confisso da f crist os atos e os os gestos do batizado depois do batismo. A f est essencialmente ligada ao segundo ato do acontecimento batismal e n~ ao primeiro. Isto est confirmado pelo fato de que encontramos no Novo Testamento batismos de adultos ou de crianas que no pressupem a f antes ou durante a administrao do sacramento. certo que a seqncia "pregao-f-batismo" se encontra na maior parte dos casos referidos pelo Novo Testamento e se explica pela situao concreta da Igreja naquele momento; porm esta seqncia no to regular como pretendem os adversrios do batismo de crianas[67].Em todos os casos em que o Novo Testamento se embasa na solidariedade batismal da famlia com o corpo de Cristo, no pode ser questo de um ensino precedente ao batismo e de uma f confessada no momento do sacramento. Isto patente e totalmente independente da questo insolvel de saber se as "casas" compreendiam ou no tambm crianas pequenas[68]. O relato da converso do carcereiro de Filipos instrutivo a este respeito. O convite f (Atos 16.31) no dirigido seno a ele somente, enquanto que a salvao prometida a ele e sua casa: "Cr no Senhor Jesus Cristo e sers salvo tu e tua casa". Pelo qual naquela hora noturna, 7tapaxpii~a, batizado com todos os seus, e "se alegrou com toda sua famlia por ele haver crido em Deus" (v. 34). Em I Co. 7.14, como vimos, Pa,ulo ensina que por causa dos laos que unem o matrimnio com o corpo de Cristo, a famlia implicadasolidariamente santidade[69]. pois, lcito e ainda necessrio invocar aqui essa passagem. Mostra que a santidade, isto , o pertencer aos "santos"[70] e por tanto, segundo a terminologia neo- testamentria, o pertencer Igreja no est ligado a uma f quefoi confessada previamente. preciso que recordemos todavia, aqui a prefigurao do batismo de I Co. 10.1 s. Para este texto no j questo de vnculo entre a famlia e o corpo de Cristo, seno da aliana divina concluda com um povo de maneira completa. Pois bem, o apstolo no pensava certamente ao escrever isto que o povo inteiro, salvo atravs do mar Vermelho e "batizado em Moiss", que os 7tV'tE, mencionados com tal insistncia tenham tido todos a f. Resulta de todas estas consideraes que, segundo o Novo Testamento, no se pode dizer, sem

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  • mais, que somente a f conduz ao batismo. Esta afirmao certamente verdadeira, posto que o Novo Testamento a refere sobre todos os relatos de batismos de judeus ou de pagos adultos. Porm, no a nica verdadeira, pois para os outros batismos igualmente mencionados, a seqncia "confisso de f - batismo" no observada. Ao contrrio, est invertida: o batismo que conduz f. Assim a frmula "batismo-f" concerne a todos os casos de batismos, posto que este deve ser o ponto de partida da f. esta frmula ento a que normativa. Para a categoria de batismos de adultos pagos ou judeus, encontramos o esquema seguinte: o homem conduzido ao batismo pela f, agregado Igreja de Cristo pelo sacramento, depois levado f[71]. A Igreja qual incorpora o ato batismal, no somente o lugar onde o Esprito Santo opera seus milagres, seno tambm aquele onde se suscita a f. Esta observao nos leva a ltima comprovao.No pargrafo precedente vimos que a f da comunidade, que melhor no chamar substitutiva, forma parte j no momento do prprio ato batismal, do prprio ato do batismo. preciso recordar aqui que a comunidade ora pelo batizado (At. 8.15). Pede a Deus que introduza o candidato, adulto ou recm-nascido, no milagre do batismo. Esta f, que tem por objeto aquele que vai morrer e ressuscitar com Cristo, efetivamente um elemento indispensvel do prprio ato do batismo. Encontra-se a afirmao deste fato vendo o papel desempenhado pela f, nos milagres realizados por Jesus. No sem razo, falamos de milagres em um estudo sobre o batismo. Pois para o quarto evangelho particularmente, os sacramentos da Igreja crist tm a mesma significao que os milagres realizados por Jesus durante o seu ministrio terrestre[72]. O para1e1ismo milagre-sacramento est tambm na base de I Co. 10.1 s. portanto, legtimo aduzir, no como uma prova, mas como confirmao de nossa interpretao, que na poca dos milagres de Jesus -efetuados em favor de adultos e de crianas -no era sempre a f dos beneficiados o que era decisivo. Amide, a f daqueles que levam o enfermo ou falam do morto que tida em conta: "Jesus vendo a f daqueles homens, disse ao paraltico: filho, teus pecados te so perdoados" (Mc. 2.5). Em numerosos relatos evanglicos de milagres, se v como a f daqueles que imploram a Jesus em favor de um membro de sua famlia precede o milagre. "Em nenhum homem de Israel encontrei tanta f" (Mt. 8.10) disse Jesus do centurio de Cafarnaum antes de curar seu criado.Os evangelistas narraram a cura do menino luntico (Mc. 9.14 s.) para mostrar que Cristo pode curar ali onde encontra f. Nesta passagem o pai do menino quem cr: "Tudo possvel ao que cr, disse Jesus. Em seguida o pai do menino exclamou: Creio" (Mc. 9.23 s.). Precisamente porque faltava f aos discpulos, estes no puderam curar este menino: "Ento os discpulos se aproximam de Jesus e tomando-o parte perguntam: Por que no pudemos expulsar este demnio? Ele lhes respondeu: porque vos falta f; pois vos tenho dito, em verdade, que se tiverdes f do tamanho de um gro de mostarda..." (Mt. 17.19 S.)[73]. Nesta mesma ordem de idias, a f da comunidade reunida decisiva no momento do ato batismal.As concluses deste pargrafo sobre as relaes entre a f e o batismo so, pois, as seguintes: 1. Depois do batismo, a f requerida a todos os batizados. 2. Antes do batismo, a confisso de f exigida dos adultos que vm individualmente do judasmo ou do paganismo. um sinal da vontade divina e indica Igreja que pode proceder o batismo.3. Durante o batismo, a f requerida assemblia em orao. 4. O batismo e a circunciso Intencionalmente e por razes de

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  • mtodo, temos descrito no que precedeu, a doutrina neo-testamentria do batismo prescindindo provisoriamente dos textos bblicos que falam da circunciso. No se pense, todavia, que estes textos sejam de uma importncia secundria. Vamos ver que todo o problema do batismo, suas conseqncias litrgicas e prticas, pressupem a doutrina e a prtica da circunciso, como tambm o batismo dos proslitos. Estes atos sacramentais judeus so aplicados tanto aos adultos como s crianas. H uma circunciso de adultos e uma circunciso de crianas, um batismo de proslitos adultos e um batismo para seus filhos. importante advertir que ao judasmo esta prtica no se tomou um problema. Porm se fez uma distino entre as crianas nascidas de pais judeus e as dos proslitos admitidos na comunidade ao mesmo tempo que seus pais, o que mutatis mutandis pode exercer seu papel na maneira como se aplicar a doutrina neo-testamentria do batismo s crianas. preciso comear por sublinhar bem que a noo de um batismo cristo, considerado como o cumprimento e por conseguinte a abolio da circunciso judaica, no uma inveno teol6gica tardia devida ao apologista Justino. No foi pr-fabricada a posteriori para justificar o batismo das crianas crists. Esta interpretao est explicitamente contida em C12.11.[1] Isto prova a existncia de um parentesco essencial e fundamental entre circunciso e batismo cristo. A maneira como K. Barth trata esta questo sem dvida o ponto mais fraco de sua doutrina do batismo. Pois se preciso reconhecer que os argumentos dos Reformadores em favor do batismo das crianas no so incontrovertveis, foi necessrio pelo menos levar mais a srio o paralelismo que estabelecem entre a circunciso e o batismo. Sobretudo porque nosso conhecimento do judasmo contemporneo poca do Novo Testamento nos obriga a esclarecer o batismo cristo em sua forma e fundo com o que n6s sabemos da circunciso e do batismo dos proslitos. No podemos compreender bem como K. Barth pode admitir que o batismo o cumprimento da circunciso, negando, no m!llento decisivo, seu vnculo interno e afirmando que a circunciso seria em sua essncia totalmente diferente do batismo. De sorte que, segundo ele, no seria possvel deduzir da circunciso das crianas a legitimidade do batismo das crianas. N6s, todavia encontramos uma correspondncia entre o ato de admisso na antiga aliana e o ato de admisso na nova, que no pode explicar- se seno por sua unidade essencial. Razes terminol6gicas j nos fizeram compreender, pois o Novo Testamento faz aluso ao batismo pelo verbo cr
  • Testamento mostra por outro lado que na antiga aliana o sinal da vontade salvadora de Deus era a solidariedade familiar, enquanto que na nova este sinal estaria representado pela f e o compromisso pessoais. Porm esta interpretao da circunciso judaica no sustentvel, pois no corresponde em absoluto maneira segundo a qual Paulo compreendia este sacramento da antiga aliana. Com efeito, segundo Rm. 4.11, "o sinal da circunciso" dado a Abrao "como o selo da justia que ele havia obtido pela fe"'. Esta f de Abrao que Deus sela para ele e seus descendentes com o sinal da circunciso, precisamente a f na promessa que foi feita a Abrao, promessa de chegar a ser o pai de muitos povos (xO'IY. e8vll, Rm. 4.17 e 18). No se trata somente de geraes do povo judeu. Na Epstola aos Glatas (4.21 s.) o apstolo se esfora por demonstrar que o princpio carnal da sucesso natural das geraes no decisivo para Isaque e seus sucessores. Ao contrrio, o filho da serva, Ismael, quem deve seu nascimento a este princpio xa'tIY. O'pxa, enquanto que o filho da livre, Isaque, o deve milagrosamente promessa divina. Paulo pode assim designar os cristos como sendo os seus descendentes xa"tIY. 'IO'aIY.x xay-yEa (GI. 4.28). Se o Novo Testamento faz da circunciso o selo desta f de Abrao, isto , se a circunciso tem de antemo por fim incorpora- o dos pagos aliana divina, incompatvel com o ensino neo- testamentrio, no ver nesse selo mais que uma admisso sucesso natural das geraes. Na realidade, a circunciso a incorporao aliana realizada por Deus sobre a base da promessa feita a Abrao e a seus descendentes, compreendidos os pagos, tal como o batismo os toma membros do corpo de Cristo. Bem compreendida, a circunciso, que no somente exterior e feita pelas mos dos homens (Ef. 2.11; CI. 2.11), seno "uma circunciso do corao" (Rm. 2.29), se prolonga diretamente at o batismo cristo, a circunciso de Cristo" (CI. 2.11). Tal o sentido da argumentao apostlica em Rm. 4.1 s. e GI. 3.6 s. Com efeito, nesta ltima passagem fala-se tambm da descendncia que a promessa feita a Abrao tinha em vista, e Paulo disse explicitamente que todos aqueles que so "batizados em Cristo" participam dela. Abrao tambm o pai dos membros da Igreja de Cristo, no em virtude da Qescendncia carnal, seno em virtude da histria divina da salvao. Pois bem, o que vlido para Abrao o tambm para a circunciso que selou a justia que ele havia obtido por sua f na promessa precisamente desta descendnia. Na histria da salvao, a circunciso encontra significao referindo-se no somente descendncia natural, como tambm e por sua vez ao mundo das naes. Por causa da eleio divina a aliana da graa se aplica em primeiro lugar a Israel xa"tcY. crpxa, porm no este o elemento mais importante para compreender a significao neo-testamentria da circunciso. No consiste to pouco na constatao, perfeitamente exata em si, de que "a sucesso das geraes chegou ao seu fim no momento do nascimento do messias"[4]. O elemento primordial da circunciso desde sua instituio, o ser selo de uma aliana aberta a todos os povos. Se mais tarde, esse selo no foi o sinal distintivo dos membros reais da aliana abramica, se por outro lado a linha de demarcao entre os descendentes de Abrao e os que no so desapareceu, no foi porque esse selo estivesse destinado somente descendncia natural do patriarca, seno antes por causa da infidelidade de Israel. Esta infidelidade no se consistiu, em princpio, no no reconhecimento da amplitude universal da promessa afirmada na circunciso. Com efeito, segundo o Antigo: Testamento, a aliana da graa

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  • esteve fechada aos gentios, entretanto a genealogia santa dos descendentes de Abrao no chegou a seu fim, quero dizer que, entretanto, o messias no havia nascido. Se a "entrada" das naes no se produziu sob a antiga aliana porque os fariseus - para recorrermos s palavras bem conhecidas de Jesus - fizeram dos pagos convertidos que eles circuncidavam "filhos do inferno duas vezes piores do que eles mesmos" (Mt. 23.15). Por isto no tem nada que ver com a essncia da circunciso. Temos aqui porque a maneira como K. Barth considera as relaes circunciso-batismo no correta. O que caracteriza a doutrina neo-testamentria da circunciso, o que para ela o fator capital, no a eleio de Israel xa.'t. crpxa., mas antes uma interpretao universalista da circunciso, correspondente concepo do judasmo do tempo de Jesus, apesar de toda a infidelidade deste judasmo. Pois na prtica, a circunciso no estava ligada ao princpio carnal, pois antes do nascimento do messias, os pagos j estavam convidados a participarem da aliana da pro- messa. "Nem a doutrina nem a prtica judaica do tempo do Novo Testamento permitem afirmar que a circunciso concerne ao nascimento natural"[5]. Que sentido ento teria em ver nela um "novo nascimento"?[6] A misso no meio dos pagos era uma das expresses mais importantes da vida do judasmo sob o imprio romano. Se no temos textos judaicos e profanos para afirm-Io, o prprio evangelho nos ensina que os fariseus "percorriam mar e terra para fazer um s proslito" (Mt. 23.15). Pois bem, nem estes proslitos nem seus filhos estavam ligados por nascimento a uma sucesso de geraes israelitas. Em regra geral estes proslitos eram adultos, e por conse- guinte no eram circuncidados como as crianas. K. Barth no fala nunca dos proslitos. Todavia, os textos neo-testamentrios que men- cionam a circunciso concemem to freqentemente circunciso de pagos adultos como a que era praticada nos filhos dos israelitas. A polmica de Paulo se dirige sem dvida, em grande parte, contra a pretenso de circuncidar os pagos adultos que se tomavam cristos (Atos 16.3). Isto prova igualmente que a circunciso judai- ca no estava essencialmente ligada ao nascimento natural, seno que seu significado era a admisso na aliana de Deus aberta a todos. A situao , portanto, mutatis mutandis anloga a do batismo. Eram admitidos circunciso e por conseguinte introduzidos na aliana: os que vinham de fora (7tpocr1.'U'tOt) e as crianas judias que, pelo fato de seu nascimento, estavam destinadas a fazer parte da comuni- dade, porm, deviam receber todavia o selo efetivo. A circunciso tem nos dois casos um sentido absolutamente idntico. Se h uma diferena no que conceme s crianas, consiste no fato de que so eleitos por Deus e destinados circunciso, no sobre a base de uma catequese e de uma deciso pessoal, mas antes em virtude de seu nascimento. exatamente a mesma diferena que ns chegamos a reconhecer para o batismo cristo nos pargrafos precedentes. Todavia, na comunidade judaica, constituda desde h vrios sculos, a necessidade de circuncidar s crianas se apresentava com mais freqncia, que a de batiz-Ias na comunidade crist que acabava de tomar corpo. No obstante, em seguida se delineia, como o demonstra a passagem de I Co. 7.14, a questo da "santidade" das crianas na Igreja. Como j vimos, .Paulo afirma que os filhos dos cri.stos so "santos" por seu nascimento. Isto significa provavelmente que seu batismo no era necessrio[7], porm tambm que seu batismo na idade adulta estava excludo, posto que por seu nascimento j entrou na aliana dos santos. A circunciso na idade adulta dos filhos nascidos de pais

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  • cincuncisos tinha sido igualmente excluda no judasmo, o qual conhecia todavia a circunciso dos adultos. A analogia no est debilitada pelo fato de que a santidade j conferida sem batismo aos filhos cristos de I Co. 7.14, enquanto que a lei estipula que s a circunciso tomou a santidade das crianas judias efetiva. O elemento, tanto no caso de I Co. 7.14, como no que conceme circunciso de crianas judaicas, o nascimento natural, que oferece a "santidade" e a incorporao aliana divina. O papel desempenhado pelo nascimento natural semelhante na Igreja crist e na comunidade judaica, qualquer que seja a interpretao que se d a ICo.7.14. Para as crianas cujos os pais estavam j admitidos na aliana, o nascimento natural tem a mesma funo que a deciso de f pessoal para um adulto que vem de fora. um sinal que mostra que Deus quer realizar o milagre da incorporao. A analogia se toma mais patente todavia se recordannos que nos tempos neo-testamentrios, a circunciso dos proslitos. era seguida de um banho de purificao, o batismo dos proslitos. Podemos considerar como certo que Joo Batista se sujeita a esta prtica. Introduz, no obstante, a novidade revolucionria e escandalosa para os judeus de exigir este batismo, no somente dos pagos, como tambm dos circuncisos, antes de admiti-los na comunidade messinica. Esta a primeira parte da transio da circunciso ao batismo. Para Joo, todos aqueles que querem ser introduzidos nesta comunidade se encontram, sem exceo, na situao de proslitos e devem ser batizados. A circunciso era, at aqui, o nico ato de admisso para os filhos de circuncisos. Por outro lado, os proslitos -crianas ou adultos -deviam passar pelo batismo de purificao depois de terem sido circuncidados. Somente neste sentido que h uma diferena entre a admisso pessoal. Dependia das leis rituais judaicas de purificao. J advertimos que os filhos