Museums, heritage, and power: reflections on the practices of ...

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  • v. 13, n. 4, p. , out.-dez. 2006 1035

    MUSEUS, PATRIMNIO E PODER

    Museus, patrimnio e poder: reflexes sobreas prticas de memria na modernidade

    Museums, heritage, and power: reflections on thepractices of memory in modernity

    Ktia LernerPesquisadora do Centro de Informao Cientfica e Tecnolgica, (CICT/Fiocruz)

    Doutora em Antropologia Social pelo IFCS/UFRJRua Senador Euzebio 40/404

    22250-080 Rio de Janeiro RJ Brasilklerner@cict.fiocruz.br

    Pinheiro, Marcos Jos.Museu, memria eesquecimento: umprojeto damodernidade.Rio de Janeiro:E-Papers, 2004. 262 p.

    Museu, memria e esquecimento: um projeto da modernidade um livro queprovoca reflexes sobre um tema bastante atual: a forte presen-a das prticas mnemnicas nas modernas sociedades ocidentais. Ori-ginalmente apresentado como uma dissertao de mestrado na reade engenharia de produo na Coppe/UFRJ em 2002, esse trabalho nas-ceu das reflexes de Marcos Jos Pinheiro sobre suas atividades narea de memria e patrimnio. O autor aponta como sua maior moti-vao a insatisfao com o modo como eram tratados os patrimniosculturais, o que, no seu entender, parecia reproduzir as relaes deexcluso, dominao e homogeneizao presentes na sociedade con-tempornea. Isto se traduziria, por exemplo, pelo carter elitista domuseu, que privilegiaria a educao e a difuso de saberes a uma faixaprivilegiada da populao, pela sua distncia em relao aos smbolosculturais e memria social das camadas mais carentes da populao,bem como pela sua imbricao com o atual modelo poltico e econmicomundial do neoliberalismo e da globalizao. Nesse sentido, o autordesde logo manifesta sua escolha por um tipo de preservao que estejaassociado defesa da valorizao da diversidade cultural.

    Para dar conta dessas inquietaes, Pinheiro realiza um longo edenso percurso pelas idias de autores que abordam os temas da me-mria, dos museus e do contexto contemporneo. Seu ponto de partida um comentrio de Andras Huyssen: diferente das sociedades tradi-cionais, a modernidade impensvel sem um projeto museico e, por-tanto, o museu eminentemente um projeto da modernidade. Esta ser umaidia-chave na sua reflexo e nortear a prpria estrutura do texto. Divi-dido em duas grandes partes, a primeira, intitulada Das memrias, suaseleo e institucionalizao, aborda em seu primeiro captulo o temaModernidades e museus. Nele, Pinheiro se lana no esforo de qualifi-car melhor o conceito de modernidade com o qual est trabalhando e,para tal, privilegia dois autores: Henrique de Lima Vaz e Max Weber. DeLima Vaz utiliza o conceito de modernidade ps-crist, o qual expressaum momento na Humanidade em que se processou uma ruptura com oeixo teolgico, resultando na reorganizao do sistema simblico da civi-lizao ocidental. Nessa mesma linha cita Weber e suas reflexes sobre oprocesso de desencantamento do mundo e do predomnio de uma lgicaburocrtica e impessoal, chamando a ateno para seus impactos sobre opoder at ento exercido pelas religies no mundo ocidental, o que pro-

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    moveu a auto-representao do homem enquanto ser de grande forafrente natureza e sociedade. O autor alega que, nesta nova perspecti-va, o homem pode ser definido como um ser capaz de ao; esse ogancho para Pinheiro comear a explicitar as estreitas relaes entre amodernidade e a cultura dos museus, o que se d quando ele diz que talao norteada e estimulada pela imagem, transformando-a (a ao) cadavez mais em especulao, tornando a cultura mais visual e o indivduoum mero espectador.

    Essa correlao ser explorada mais detalhadamente no item se-guinte, no qual o autor acompanha o surgimento do museu moderno,destacando quatro caractersticas que ilustram suas afinidades com amodernidade. A primeira delas era a concretizao pelos museus dealgumas das premissas bsicas estabelecidas pelo Iluminismo, ligadas democratizao do saber e difuso e educao da cultura culta.Essas caractersticas acabariam por desempenhar um papel de ratifi-cao da hegemonia da cultura ocidental, tanto na arte como na cin-cia, sobre o Ocidente e o resto do mundo, omitindo outras formas desaber e esttica diferentes dos padres cartesianos e evolucionistas.

    A segunda grande caracterstica apontada pelo autor retoma a idiado museu enquanto espao de consagrao da cultura visual. Ele dizque esse processo gerou a transformao das massas em pblico, e queo museu teria passado a assumir uma funo mediadora entre dife-rentes instncias, seja entre a cultura e o mercado seja entre as cultu-ras culta, popular e de massa. Mais ainda, sua estratgia de exibiodos objetos dispondo-os de forma isolada de seu contexto histrico,cultural, social e econmico acabava por estetiz-los, contribuindopara sancionar a esttica como esfera de valor e dominao.

    A terceira e a quarta caractersticas so apenas brevemente menciona-das nesse captulo. Trata-se da transformao do museu no grande lu-gar metafrico das representaes da memria, contribuindo para acriao de uma cultura museica. E, por fim, da fora do museu en-quanto lugar de construo do esprito do nacionalismo e da culturanacional em detrimento das culturas populares, o que acabou por torn-lo lugar de gestao das formas de dominao e legitimador de aesimperialistas e dominadoras.

    No segundo captulo, A crise da memria e a musealizao, Pi-nheiro busca refletir sobre os processos de memria e esquecimento,entendidos como duas instncias profundamente interligadas e pen-sando-os historicamente. O autor ressalta que, em contraponto nfaseno futuro, caracterstica do momento inicial da modernidade ps-crist,houve uma mudana de percepo temporal a partir da dcada de 1980,quando o Ocidente passou a atribuir maior valor ao passado, o que seexpressava pelo desejo de recordao total. Entre os motivos que justifi-cam esse processo, o autor sugere cinco possveis respostas. A primeiraseria uma tentativa de recuperar as possibilidades no realizadas comopropiciadoras de um futuro mais atraente; a segunda seria a volta depassados no resolvidos, sem luto, ligados a processos polticos dolo-rosos; a terceira seria uma tentativa de reinterpretar o passado, repre-sentando uma desfigurao da memria; a quarta seria motivada pelaconscientizao do homem de seu atual poder de interferir na mortali-

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    dade da natureza, o que o levaria a uma maior necessidade dearmazenamento da memria como forma de se perpetuar. E, por fim,Pinheiro cita a crise na estrutura das temporalidades, gerada pela ve-locidade cada vez maior das sociedades contemporneas, com a acele-rao das imagens e das informaes da mdia. Isto estaria trazendo opassado para o presente e criando um sentido de simultaneidade tem-poral e espacial, com um permanente sentimento de defasagem e dan-do a sensao de um presente cada vez mais efmero. Da a busca ansi-osa por reter e preservar o passado.

    Qual seria, nesse cenrio, o papel do museu? Surgido como um projetode e para a elite, o museu foi se tornando alvo de intensos ataques, aponto de se prever sua falncia como instituio no incio do sculo XX.Entretanto, esse processo foi revertido a partir da dcada de 1980 quando,ao invs de ser visto como o espao de uma cultura transcendente, encar-nao da civilizao, passou a ser considerado lugar de representaodas diferenas e dos conflitos entre diversas culturas; mudou assim suasformas de representao, ampliou seu pblico e diversificou seus formatos.Junto com isso surgiram novas facetas, como uma dimenso marca-damente espetacular e sua ligao com o comrcio e o entretenimento.

    O terceiro e ltimo captulo chama-se Memria, nacionalismo ecultura e busca desenvolver as relaes antes anunciadas entre essestrs elementos. Pinheiro relembra que o processo de constituio doestado nacional acarretou um alargamento de seu poder sobre os cida-dos, expresso, entre outras coisas, pela educao e comunicao. Istose tornou crucial na homogeneizao da populao, atingindo direta-mente o mbito da cultura e a constituio do nacionalismo. Nestesentido o museu ocupou um lugar de destaque na consolidao daidentidade nacional, como atesta o papel do Louvre e do British Museumem seus pases. Entretanto, mais do que apenas serem fruto deste novomomento, acabaram por ratificar alguns de seus aspectos mais noci-vos, como o colonialismo e o imperialismo. Mesmo internamente omuseu teria ajudado a corroborar uma perspectiva de dominao namedida em que, exaltando os feitos e a glria da nao, estava contri-buindo para o processo de represso das culturas regionais em nomede uma identidade coletiva mais ampla.

    Isto se estenderia a um contexto posterior, o da mundializao dacultura, em que a nao no mais o principal referencial de identidade.Pinheiro argumenta que a memria internacional popular trouxe umesquecimento mais intenso que o da memria local ou nacional, emrazo da quantidade maior de conflitos e da necessidade de consensos.Tais prticas mnemnicas acabaram por reforar determinados aspectosda globalizao, como o acirramento das diferenas scio-econmicas e ahomogeneizao dos hbitos, necessidades e desejos, em um contexto emque, se por um lado a cultura atinge um nmero maior de pessoas, poroutro est menos exposta crtica.

    Na segunda parte do livro, intitulada Os caminhos da musealizao,o autor se aprofunda em alguns debates sobre a cultura da memriana atualidade. No primeiro captulo, Modelos explicativos para a atualcultura dos museus, explora uma sugesto de Andras Huyssen so-bre as idias de filsofos que abordam o tema, trazendo em especial

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    trs vertentes. Comea citando os alemes Hermann Lbbe e OdoMarquard e seu argumento segundo o qual, diante da nova experinciaespao-temporal fomentada pelas novas tecnologias, onde o presenterapidamente se torna obsoleto, o homem estaria cada vez mais se vol-tando para o passado como uma espcie de compensao. Pinheiro dcontinuidade a esse tema citando David Harvey: em sociedades cujomodelo de produo gera uma sensibilidade baseada no descartvel einstantneo, seriam produzidas aes e condutas que visam solidifi-car algum contexto estvel, seja atravs da religio, de lideranas pol-ticas carismticas, instituies representadas pelo ethos familiar e co-munitrio. Pinheiro alerta para os perigos desse tipo de teoria com-pensatria, cujo teor nostlgico pode gerar alienao da realidade ecuja nfase no passado pode ser um canal de expresso para o naciona-lismo extremista.

    A segunda vertente se refere s idias de Jean Baudrillard e Henri PierreJeudi. Estes autores caracterizam o museu como uma mquina de simu-lao que em nada se diferencia de outros meios de divulgao da culturade massa. A despeito dos limites desta avaliao to pessimista, Pi-nheiro busca aproveitar algumas de suas possibilidades reflexivas,utilizando-as como mecanismos de alerta. Citando especialmenteBaudrillard, recupera a idia crtica do museu como uma instituioque preserva a memria reconstituindo um passado que no (mais)existe da a idia de simulao e ao mesmo tempo promove o esque-cimento do presente vivo, do objeto real e espontneo, de seus meca-nismos de controle e dominao. O passado sofreria uma espcie derevisionismo o qual, ao inventariar os atos pretritos, apagaria damemria os conflitos e aspectos negativos e promoveria a possibilidadede refgio em um passado sem mculas.

    Por fim, o autor aborda o terceiro modelo citado por Huyssen, desen-volvido pelo jornal sthestik und Kommunikation, de Berlim. Segundo estavertente, o crescimento dos museus estaria em ligao direta com a expe-rincia miditica contempornea. Em meio a tanta simulao o objetomuseico ofereceria a possibilidade de experincias reais ou de materiali-dade fsica, assim como representaria um espao de autenticidade, umcontraponto experincia televisiva; da se explicar o enorme interessepor parte do pblico. Embora concorde em vrios aspectos com tais idias,Pinheiro alerta para sua dimenso conformista, que acaba por ser acrtica sociedade de consumo e cooptao do museu dentro dessa lgica.

    O autor aborda ainda uma quarta perspectiva, a de Guy Debord,que assinala como marca das sociedades contemporneas a estreitarelao entre tecnologia/meios de comunicao de massa e passivida-de. Pinheiro buscar aplicar esse conjunto de idias na anlise dosmuseus contemporneos e, citando a interatividade dos museus decincias, aponta como isso produz uma iluso de participao que, naprtica, induz ao imobilismo, promovendo a cooptao de mais agre-gados a um sistema capitalista tecnicista cuja liderana tecnolgicaest em jogo. O mesmo pode ser dito quanto s exposies de arte e decentros de cincias ao exporem o que ele designa como objetos sem valorcultural. Isso, segundo Pinheiro, no percebido pelo pblico, que noteria muita capacidade crtica diante dessas classificaes. Todos esses

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    casos seriam exemplos da sociedade espetacular, que promove a mani-pulao da cultura, e das instituies culturais e tcnico-cientficas, asquais mantm e consolidam a ordem dominante.

    No ltimo captulo, Pinheiro traz mais uma vez a crtica s formasde utilizao das conquistas tecnolgicas nas sociedades contempor-neas atravs das idias de I. Illich. Segundo esse autor, as mesmas fer-ramentas que permitiram ao homem contemporneo assumir o con-trole do tempo e do espao teriam acabado por aprision-lo. Prope,ento, a instaurao de um novo modelo de relao com o outro e omeio ambiente, que chama de convivencial, pautado pelo valor tico,de preservao da diversidade de modos e costumes de vida.

    Pinheiro aproveita as palavras de Illich para encerrar o livro e pro-por a intensificao do potencial dos museus enquanto modelos deferramentas convivenciais. Em sua viso, os museus de cincia, ao te-rem como misso a difuso e popularizao da cincia e da tecnologia,realizam a tarefa de tornar tais saberes mais accessveis ao pblico e,conseqentemente, desarticulam o monoplio de saberes e a especiali-zao acelerada. No caso dos museus de arte e cultura, eles permitemauto-reflexo e familiarizao com a alteridade, possibilitando a pre-servao de costumes e saberes tradicionais. Pinheiro acredita que,agindo de forma crtica e dialtica, o museu estar confirmando e recu-perando as bases que constituram a prpria modernidade, ou seja, arazo crtica e a reflexo das contradies, contribuindo para a instaura-o de uma nova modernidade.

    Como se pode ver, o livro de Pinheiro revela-se um cuidadoso e densotrabalho de articulao entre diferentes teorias. Entre seus mritos cabedestacar a desnaturalizao que ele promove sobre o tema da memriae as pistas que oferece ao leitor para compreender a forte presena dasprticas mnemnicas nas sociedades contemporneas. Mais do que umasuposta amnsia anterior, o que estaria em jogo seria uma nova per-cepo da memria, uma nova atribuio social que as sociedades con-temporneas estariam outorgando s atividades mnemotcnicas.

    Um outro dado a ser destacado no livro o tom crtico que o autorimprime ao texto, marcando de forma evidente seu posicionamentonesse campo de atuao. Se tal postura interessante na medida emque interpela o leitor a um posicionamento mais questionador sobre asprticas de preservao histrica e cultural, em alguns momentos suademasiada nfase no museu enquanto ratificao da ordem hegemnicao distancia da anlise das inmeras experincias de desafio a essa mes-ma ordem. Seria interessante explorar suas implicaes e em que me-dida elas tambm dialogam com os pressupostos da modernidade.Isso poderia enriquecer sobremaneira a anlise dos mecanismos decontrole que ele to pertinentemente aponta, revelando que esto emjogo diferentes concepes de poder, de memria e de patrimnio, tantono interior dos grupos dominantes como no dos minoritrios.

    De todo modo, estes comentrios apenas ilustram a riqueza de ques-tes que o texto suscita, representando um instigante convite refle-xo para pesquisadores, profissionais da rea de patrimnio, e paraaqueles simplesmente interessados em melhor compreender as prticas dememria nas sociedades contemporneas.

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