mintz, sidney. encontrando taso 1984

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Texto sobre a importncia da qualificao das relaes sociais na pesquisa em Antropologia Social

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    dados - Revista de Ciencas Sociais (ISSN 0011-5258) uma publicaoquadrmestra! do Instituto Universitrio de Pesquisas do Rio de Janeiro,rgo de estudos e pesquisas em Cincias Sociais da Sociedade Brasileira deInstruo, fundada em 1902, mantenedora, tambm, da Escola Tcnica deComrcio Cndido Mendes, da Faculdade de Cincia, Poltticas e Econmi-cas do Rio de Janeiro e da Faculdade de Direito Cndido Mendes.

    DiretorCndido Mendes

    BditoIUAmaury de SouzaCharles Pessanha,

    Editores AssociadosAlexandre de S. C, BarrosCesar GuimaresElisa Pereira Reis

    SecretriaMaria Alice Smva Ramos

    (.

    Conselho EditorialAlexandre de ~ ,. n_~.". '.!:'~~r..,.de Souza. Cndido Mendes, Carlos A_Hasenbalg, Cesar Guimares, Charles Pessanha, Edmundo Campos Coelho;BIi Dinil, Elisa Pereira Reis, GuilJermo O'Donnell, Jos Murilo de Carva-lho, Licia VaUadares, luiz Antonio Machado da SUva,luiz Wemeck Vianna,Maria Regina Soares de Lima, Mario Brockmann Machado, Neuma Aguiar,OIavo Brasil de Lima Junior, Renato Boschi, Srgio Abranches, SimonSchwartzman e Wanderley Guilherme dos Santos,

    Conselho Consulti.-oAntonio Octvio antra, Aspsia A1cntara de Camargo, Bolvar Lamounler,Carlos Estevam Martins, Celso LaCer, Eduardo Diatay B, de Menezes, FbioWanded~y Reis, Fernando Henrique 'Cardoso, Francisco Weffort, HlgioTrindade, Luiz Gonzaga de Souza Lima, Maria do Cumo Campello de Souza,Otvio'Guilhenme Velho, Roberto Da Malta, Roque de Barros Laraa, RuthCorrea Leite Cardoso, Si! via Marcelo Maranlli!o e Wmar Faria,

    Os conceitos emitidos em artigos assinados so de absoluta e exclusiva res-ponsabilidade de seus autores.

    .' Redaodados - Revista de Cincias SociaisIuperjRua da Matriz, 8222260 BotaCogoRio de Janeiro. Bra

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    rativa - e algumas vezes, at, parecia afir-mar selem tais sociedades, a seu ver, moral-mente superiores.)

    Finalmente, Boas estava interessadoem desenvolver descries da cultura estu-dada em termos representativos ou norma-tvos, Ao dizer isso, no atribuo a ele qual-quer desejo de homogenezar ou fundir evi-dncias de diferenas entre membros deuma nica sociedade. Sem dvida, ele sabiaque' a gama de variaes de todos os tiposnuma mesma sociedade - filo importaquo "simples" fosse - poderia ser' bemampla. Mas seria justo dizer que, da posoprivilegiada da Antropologia que estavacriando, ele no estava interessado em indi-vduos. Ocasionalmente ele nos d mostrasde seu desnteresses- e mesmo de sua des-crena - em informaes empregadas paraclarlficar a posio cultui:al de um ldiv-duo ao inVs de clarificar a cultura em simesma, Um bom exemplo dessa perspec-tiva, e particularmente relevante a esse res-peito, vem de sua crtica aos desenvolvmen-tos na Antropologa, publicada aps a suamorte. Embora aponte para a utilidade dashistrias de vida ao indicarem como com-portamentos ncomuns ou desviantes numacultura acarretaram mudanas polticas, re-ligiosas ou econmicas, sua viso geral so-bre tais estudos crtica. Ele fala das "pe-as que' 'memria nos prega" e asseveraque os riscos so "muito importantes paraque possamos aceitar autobiografias comodados factuais convets":'

    "Autobiografias, em vista das restriesque acabemos de mencionar e da dificul-

    dade de reunir uma suficiente variedade deregistros mdlvduas, so de limitado valorpara o propsito particular para o qual es-tiro sendo coletadas, Elas so mais valiosasenquanto material para um estudo da per-verso da verdade produzida pelo jogo damemria com o passado. O resto 'no mais do que um relato de costumes coleta-do da maneira usual.',l

    Embora no seja meu interesse esten-der a importncia desta citao com espe-culaes adicionais, parece evidente queBoas demonstrava constrangimento - se-no clara h.ostilidade - diante de generali-dades baseadas em declaraes de infor-mantes nicos, e que achava totalmentequestionvel a recuperao de "trajetriasde vida" atravs de investigao intensiva,

    Diante do que foi dito, no teria sen-tido examinar as relaes pessoais de Boascom alguns de seus melhores informantes;pode-se mesmo supor que ele ficaria abor-recido com os relatos reunidos num livrocomo ln lhe Company of Mon, 3 por exem-plo, onde alguns de seus "descendentes"fazem um culto tanto aos seus informantesfavoritos quanto s relaes que esses in-formantes mantinham com eles. Talvez se-ja suficiente dizer que este aspecto da An-tropologia de Boas permanece, de algumaforma, obscuro.

    Apesar da resistncia de Boas hist-ria de vida, alguns de seus mais eminentesseguidores defenderam o mtodo, notada-mente Ruth Benedict." Em sua fala presi-dencial na American Anthropological As-sociation, Benedict dizia:

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    "Por mais de uma dcada os antroplogostm concordado com o valor da histria devida. Alguns disseram ser da um nstrurncn-to essencial para o estudo de uma cultura.Muitas histrias de vida foram coletadas -muitas mais foram publicadas, Muito pou-CO, contudo, tem sido feito, mesmo comaquelas que esto publcadas,e o. pesqui-sadores de campo que as coletaram, emsuas monografias tpicas, utilizaram ape-nas fragmentos sobre casamento, cerim-'alas ou modo de vida, obtidos em histriasde vida. A natureza desse material de hist-ria de vida fez com que isso fosse pratica-mente inevtvel uma vez que - penso eu.e qualquer um que tenha lido virias dessasautobiografias, publicadas ou no, concor-dar comigo - oitenta a noventa e cincopor cento da maioria delas so puros rela-tos etnogrcos da cultura. Trata-se de ummeio lento e repetitivo de se obter pura et-nogratia e, se for apenas nisso que elas po-dem' ser empregadas, qualquer pesquisadorde campo sabe como obter tais dados deforma mais econmica. O valor singularda. histrias de vida est naquelas fraesdo material que mostram as repercussesque as e.xperiDCias de vida de um homem- compartilhadas ou idosincrticas - tmsobre ele, enquanto ser humano moldadonaquele ambiente. Tal informao pode, testar uma cultura ao mostrar sua interfe-rncia na vida de seus portadores; pode-mos ver num caso individual, nas palavrasde Bradley, 'o que , vendo que assimaconteceu e deve ter aconrccidn'."

    Benedict nunca escreveu uma histriade vida, embora seu mtodo de pesquisafosse baseado em contatos com pequenonmero de informantes. Sua pesquisa li-dou, na maior parte, Com problemas cultu-rais para os quais uma detalhada ctnografialocal era irrelevanle, em cont raste comBoas. Sua argumentao em favor d a hist-ria de vida ligava-se firme crena de que aAntropologia no se poderia desvinculardas Cincias Humanas, e que seria mesmoatravs destas que a Antropologia aprende-ria a aproveitar ao mximo o mtodo dehistria de vida.

    Mas mesmo um fervoroso "boasiano "como Alexander Lesser, 'embora nunca uti-lizasse o mtodo de histria de vida, aca-bou insistindo nos atributos individuais decertos informantes em suas reconstrueshsircas." A gerao seguin te - os aiunosdos alunos de Boas - avanou a tcnica emalguns aspectos. H, por exemplo, as vinhe-tas sensveis de Conldin e Sturtevant am-bos alunos de Kroeber; 7 as narrativas deguerra de ndios americanos publicadas porKroeber;" e, lgico, a primeira das hist-rias de vida antropolgicas, escrita por PaulRadin, discpulo do prprio Boas.? Mesmosendo de algum interesse, no nos podere-mos deter naquele que poderia ser chama-

    6

    Ruth Benedict, "Anthropology and lhe Hurnauties",Amer;can Ant"ropologirr, n, 50, 1948,p.592,

    Alexanner Lesser, "Cultural Significance of lhe Ghost Dance", American A nthropologist, n. J),1933, pp. 108-115.

    Harold C. Conklin, "MaIing. a Hanunoo Girl frorn lhe Philippnes ", n Joseph B. Casagrande , {nlhe Company of Man, op. ctt., pp. 1011\8. WiIliam C. Sturtevam, UA Seminole Medicinc Ma,ker",in Joseph B. Casagrande,ln lhe Compony of Ma, op, cit., pp. 505.532.

    Alfred L. Kroeber, "Ethnology of the Grcs Ventre", American Museum of NaturalHistory,An.thropological Papen 1,1908, pp. 196221.

    Paul Radn, "Personal Remnscences of a Winnebago Indian", 100"",1 of Am

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    do o "mtodo boasiano de histria de vida".Seria mais produtivo se nos voltsse-

    mos para a prpria etnografia e para a no-o de uma categoria de povos - no-oci-dentais, primitivos, pr-Ietrados, ou o queseja - como sendo o domnio da Antropo-logia. As razes para uma tal limitao daAntropologia so vlidas e bem conhecidas:nenhuma outra cincia estudou tais povose, assim sendo, seus modos de vida so pra-ticamente desconhecidos; eles estavam sobterrveis presses das SOciedades mais pode- ,rosas, sendo que muitos deles estavam sen-do exterminados, mudando rapidamenteou arnbas as coisas. Logo, o estudo meticu-loso desses povos poderia representar umaimensa contribuo ao conhecimento dadiversidade social e cultural humana, deuma forma que nenhum outro estudo po-deria fazer, ao mesmo 'tempo que expandi-ria e enriqueceria nossas concepes acer-ca de nossa humanidade comum.

    Mas uma tal viso. embora inteira-mente justificada quando Boas a anunciouh mais de meio sculo, tem certas deficin-cias que foram apontadas tanto por seusalunos quanto por alunos de seus alunos.Ao expressar sua impacincia na crena dodado pelo dado e na flrme limitao da An-tropologia s assim chamadas sociedades"primitivas", Alexander Lesser, quase meiosculo atrs, advertiu seus colegas de que aAntropologia deveria orientar-se para pro-blemas, assim como tofitar-se mais abran-gente se quisesse sobreviver. Sobre a dispo-sio para estudar o que quer que fosse di-visado, ao invs de selecionar e atacar algunsproblemas mais importantes, Lesser escre-veu profeticamente:

    listas sociais a