meu coração e outros buracos negros

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  • TERA-FEIRA, 12 DE MARO

    Faltam vinte e seis dias

    A msica, especialmente a clssica, especialmente o Rquiem em R Menor de Mozart, tem energia cintica. Se ouvir com muita ateno, vai escutar o arco do violino tremendo sobre as cordas, pronto para acen-der as notas. Bot-las em movimento. E, quando as no-tas esto no ar, colidem umas com as outras. Fascam. Explodem.

    Passo muito tempo imaginando como seria morrer. Que barulho faz morrer. Se vou explodir como aquelas notas, soltar meus ltimos gritos de dor e ento ficar em si lncio para sempre. Ou talvez vou me transformar em

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    uma esttica sombria quase imperceptvel, que s se ouve com muita ateno.

    E, como se eu j no estivesse fantasiando sobre mor-rer, trabalhar no telemarketing da Tuckers Marketing Concept definitivamente me faria querer estar morta. Por sorte, eles no precisam se responsabilizar por danos sa-de, pois tenho doena preexistente.

    A Tuckers Marketing Concept se localiza no poro de uma galeria escura, e sou a nica funcionria que no ti-nha nascido ainda para testemunhar a queda de Roma. H vrias mesas de plstico cinza, provavelmente compradas por atacado na Costco, enfileiradas, e todo mundo tem um telefone e um computador. O lugar inteiro cheira a uma mistura de mofo com caf queimado.

    Neste momento, estamos realizando uma pesquisa pa-ra a Paradise Vacations. Querem saber o que as pessoas mais valorizam em viagens de frias qualidade da comi-da e bebida ou qualidade das acomodaes. Disco o pr-ximo nmero da lista: sra. Elena George, que mora na rua Mulberry.

    Al? diz uma voz rouca ao telefone. Al, sra. George. Meu nome Aysel e estou ligan-

    do da Tuckers Marketing Concept em nome da Paradise Vacations. Teria um momento para responder a algumas perguntas?

    Na minha voz falta o cantarolar que ouo na maioria dos meus colegas. No sou exatamente o que se pode cha-mar de funcionria modelo da TMC.

    J disse para vocs pararem de ligar para este nme-ro diz a sra. George, e desliga na minha cara.

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    Pode correr, mas no pode se esconder, sra. George. Fiz uma anotao no registro de ligaes. Parece que ela no estava interessada em uma viagem de duas semanas para o Hava com chance de participar de um programa de frias parti-lhadas. Sinto muito, Paradise Vacations.

    Fazer mais de uma ligao sem intervalo demais para mim, ento me viro para encarar o computador. A nica vantagem do trabalho o acesso livre e irrestrito inter-net. Dou um clique duplo no navegador e entro de novo no Passagens Tranquilas, meu site favorito do momento.

    Aysel ralha o sr. Palmer, meu supervisor, pronuncian-do meu nome errado, como sempre. -zl, no i-zl, mas ele nem liga. Quantas vezes preciso dizer para voc parar de ficar brincando no computador? Ele apontou para meu registro de ligaes. Voc ainda tem um monte de ligaes para fazer.

    O sr. Palmer o tipo de pessoa cuja vida poderia sofrer uma reviravolta se fosse uma nica vez a um barbeiro diferen-te. Seu corte de cabelo parece ter sido moldado numa tigela, um corte muito popular entre garotos magrelos do sexto ano do ensino fundamental. Eu diria que um corte escovinha po-deria realar de verdade a linha de seu maxilar, mas acho que ele est feliz com a sra. Palmer, ento nem pensa em se rein-ventar. No, nada de crise de meia-idade para o sr. Palmer.

    Odeio admitir, mas sinto um pouco de inveja do sr. Pal-mer. Ao menos ele tem conserto, se quiser. Uma tesourada aqui, outra ali, e ele ficaria novo em folha. No h nada que possa me consertar.

    O qu? pergunta o sr. Palmer quando me flagra olhando fixo para ele.

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    O senhor tem um cabelo bonito.Giro a cadeira. Acho que falei bobagem. Na verdade,

    meu trabalho tem duas vantagens: acesso livre internet e a cadeira giratria.

    Hein? grunhiu ele. O senhor tem um cabelo bonito repito. J pensou

    em usar um corte diferente? Sabe, eu assumi um risco ao contratar voc. Ele sa-

    cudiu o dedo enrugado perto do meu rosto. Todo mundo nesta cidade me disse que voc era problemtica. Por cau-sa do seu Ele hesitou e virou o rosto.

    Por causa do meu pai, completei a frase na cabea. Minha boca se encheu de um gosto cido, metlico, que acabei reconhecendo como o da humilhao. Minha vida pode ser dividida em duas partes: antes de meu pai aparecer no noticirio noturno e depois. Por um momento, me permiti imaginar como seria aquela conversa se meu pai no fosse meu pai. provvel que o sr. Palmer no falasse comigo daquele jeito, como se eu fosse um co vira-lata atacando uma lata de lixo. Eu gostaria de pensar que ele poderia ter mais tato, mas ningum se d o trabalho de ter tato comi-go. Por outro lado, o pensamento que tento arrancar da mente me atinge. Voc no se sentiria nem um pouco diferente por dentro.

    Enterro o queixo no peito em uma tentativa de me li-vrar do pensamento.

    Desculpe, sr. Palmer. Deixa comigo.O sr. Palmer no diz nada; simplesmente olha para os

    trs banners gigantes brilhantes que foram pendurados pouco antes na parede ao fundo do escritrio. Em todos

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    eles, Brian Jackson est fazendo algum tipo de pose bra-os cruzados, braos erguidos em posio de vitria, braos ao lado do corpo em posio de corrida. Ele foi photoshop-pado para ficar com a pele perfeita, mas no precisaram mexer nos cabelos loiro-acinzentados ou nos olhos azuis brilhantes. Como o vejo nos corredores da escola, sei que os msculos da panturrilha so daquele tamanho. Na parte de baixo dos banners, as palavras NASCIDO EM LANGSTON, KENTUCKY, RUMO S OLIMPADAS estavam impressas em texto blocado vermelho.

    O banner no diz nada sobre o primeiro garoto de Langston que quase se qualificou para as Olimpadas. Mas nem precisa. Enquanto observo sr. Palmer analisando o banner, sei que est pensando naquele garoto o primeiro garoto. Todo mundo que v a sobrancelha suada e as pan-turrilhas musculosas de Brian Jackson pensa em Timothy Jackson, o irmo mais velho de Brian. E todo mundo que v o banner e em seguida me v sem dvida pensa em Timothy Jackson.

    Por fim, o sr. Palmer desprega os olhos do pster e se vira para mim. Mas no consegue me olhar nos olhos. Ele foca no alto da minha cabea enquanto pigarreia.

    Olha s, Aysel. Talvez fosse melhor se voc no viesse amanh. Por que no tira o dia de folga?

    Enterro os cotovelos na mesa, querendo derreter e me misturar ao plstico cinza, em uma insensvel mescla sinttica de polmeros. Sinto a pele comear a doer sob o peso do corpo e, em silncio, murmuro a Tocata e Fuga em R Menor, de Bach. Minha mente se enche de notas sombrias e pesadas de rgo, e imagino as teclas do ins-

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    trumento tomando a forma de uma escada que leva a um lugar vazio e tranquilo. Um lugar longe da TMC, longe do sr. Palmer, longe de tudo e de todos.

    O sr. Palmer parece achar que meu silncio indica con-fuso, e no a mais completa e extrema humilhao, mas est errado. Ele estende as mos diante do corpo, retorcen-do-as como se tivesse acabado de lav-las. Inspiro essa sen-sao na maioria das pessoas o desejo de lavar as mos.

    Como talvez j saiba, amanh vamos fazer ligaes em nome da cidade de Langston para que as pessoas compare-am ao evento de recepo de Brian Jackson no sbado.

    A voz do sr. Palmer falha um pouco, e ele olha de esgue-lha para o banner, como se a fisionomia atltica e concen-trada de Brian Jackson pudesse ajud-lo a reunir coragem para continuar.

    A magia de Brian deve ter invadido o sr. Palmer, pois ele retoma.

    Brian vir para casa do acampamento de treinamen-to no fim de semana, e a cidade quer que todo mundo lhe d uma recepo calorosa. E, por mais que eu saiba que voc gostaria de ajudar, tenho receio de que alguns de nos-sos clientes se sintam desconfortveis com voc convidan-do-os para o evento, porque, bem, por causa do seu pai e

    Sua voz diminui, e ele continua a falar, mas se atrapa-lha com as palavras, e no consigo entender o que diz. uma mistura de desculpa, explicao e acusao.

    Tento no rir. Em vez de me concentrar em como absurdo eu ser to desagradvel, ao que parece, a ponto de no poder nem ser operadora de telemarketing, esco-lho me ater escolha da palavra cliente pelo sr. Palmer.

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    No acho que as pessoas que importunamos dia a dia se considerem clientes, antes vtimas. E, graas ao meu pai, sou muito boa em fazer todos se sentirem vtimas em po-tencial.

    Enrubescido e agitado, o sr. Palmer se afasta da minha mesa e comea a caminhar pelas outras fileiras. Pede para Maria no mascar chiclete e implora para Tony no espa-lhar gordura de hambrguer pelo teclado.

    Assim que o sr. Palmer toma uma distncia segura da minha mesa, reabro o Passagens Tranquilas. Simplificando muito, o Passagens Tranquilas um site para pessoas que querem morrer. H uma poro desses sites. Alguns so mais enfeitados que outros, alguns so mais voltados a pes-soas que preferem um mtodo especfico, digamos, como sufocamento, ou so para determinado tipo de pessoa, como atletas lesionados em depresso ou outras merdas assim. Ainda no encontrei um dedicado a filhas indeseja-das de criminosos psicticos, ento, por ora, o Passagens Tranquilas meu lugar.

    O site simples, sem um trabalho de HTML espalha-fatoso ou cafona. preto e branco. Elegante. Como se um site dedicado a suicdio pudesse ser elegante. H um mu-ral para mensagens e fruns, que por onde mais navego. Recentemente, fiquei bastante interessada em uma seo chamada Parceiros de Suicdio.

    O problema do suicdio, que a maioria das pessoas no percebe, ser algo realmente difcil de concretizar. Eu sei, eu sei. As pessoas sempre ficam de mimimi dizendo que o suicdio uma sada covarde. E acho que mesmo quer dizer, estou desistindo, me rendendo. Fugindo do buraco

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    negro que meu futuro, me impedindo de crescer e virar a pessoa que tenho pavor de me tornar. Mas o fato de ser uma sada covarde no garante que v ser fcil.

    A verdade que me preocupo com a possibilidade de meu instinto de autopreservao ser alto demais. como se minha mente depressiva e meu corpo vivinho da silva estivessem sempre em confronto. Minha preocupao que o corpo vena no ltimo minuto com algum impulso estpido e eu acabe fazendo as coisas pela metade.

    Nada me apavora mais do que uma tentativa fracassa-da. A ltima coisa que quero terminar numa cadeira de rodas, me alimentando de papinha e sendo vigiada vinte e quatro horas por dia por alguma enfermeira petulante que tenha uma obsesso descarada por reality shows bregas.

    E por isso que, nos ltimos tempos, tenho ficado de olho na seo de Parceiros de Suicdio. Acho que ela serve para encontrar outra pessoa que tambm est no fundo do poo e mora nas redondezas e com quem voc possa fazer seus planos finais. como um suicdio com a ajuda de um par e, pelo que pude entender, eficaz pra caramba. Eu me inscrevi.

    Passo o olho por algumas das postagens. Nenhuma de-las muito boa para mim. Ou esto muito longe (por que tantas pessoas na Califrnia querem estourar os miolos? Viver perto do mar no deveria deixar a pessoa feliz?) ou so apenas do grupo demogrfico errado (no quero me misturar com um adulto que tenha problemas conjugais mes dondocas beira do colapso no so para mim).

    Penso em fazer uma postagem prpria, mas no sei muito bem o que dizer. E nada parece mais triste do que

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    estender a mo, tentar encontrar um parceiro e ser rejei-tada. Olho para trs e vejo que o sr. Palmer est a poucas fileiras de distncia. Massageando os ombros de Tina Bart. Ele est sempre massageando os ombros de Tina Bart. Tal-vez no esteja to feliz com a sra. Palmer quanto pensei.

    O sr. Palmer me flagra encarando e balana a cabea. Lano a ele minha careta mais doce, pego o telefone e disco o prximo nmero no caderno: Samuel Porter, que mora na alameda Galveston.

    Enquanto escuto o toque familiar do telefone, ouo o computador apitar. Saco. Sempre me esqueo de tirar o volume.

    Laura, a senhora de meia-idade que trabalha ao meu lado e usa um batom brilhante demais para seu semblante plido, ergue a sobrancelha para mim.

    Dou de ombros. Acho que o software est atualizando fao com a

    boca, sem emitir som, para ela.Ela revira os olhos para mim. Ao que parece, Laura

    um detector de mentiras humano.O sr. Samuel Porter no atende ao telefone. Acho que

    no est louco para tomar pia colada. Desligo o telefone e clico de volta no Passagens Tranquilas. Apitou porque algum postou uma mensagem nova no frum Parceiros de Suicdio. O ttulo Sete de abril. Eu abro:

    Admito que pensava que isso era uma estupidez.

    Quero me matar s para fi car sozinho para sempre,

    ento nunca entendi por que algum faria isso com

    outra pessoa. Mas mudei de ideia. Estou com medo de

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    amarelar no ltimo minuto ou coisa assim. Tem outras

    coisas tambm, mas prefi ro no entrar em detalhes

    aqui.

    Tenho poucas exigncias. Uma, no quero fazer

    isso com algum que tenha fi lhos. pesado demais

    para mim. Dois, voc no pode morar a mais de uma

    hora de distncia de mim. Sei que talvez seja difcil,

    pois moro no meio do nada, mas por ora vou me ater

    a essa exigncia. E, trs, precisamos fazer isso no dia

    sete de abril. A data inegocivel. Mande mensagem

    para mais informaes.

    RobCongelado

    Verifico as informaes de RobCongelado e tento no julgar o nome de usurio. Mas, srio, RobCongelado? Entendo que todo mundo aqui fica um pouco est bem, muito emotivo, mas mesmo assim. Cad a dignidade?

    Ao que parece, RobCongelado homem. Tem dezes-sete anos, um ano a mais que eu. timo. Ah, e de Willis, Kentucky, a tipo quinze minutos daqui.

    Uma onda de agitao sacode meus ossos e reconhe-o vagamente a sensao de entusiasmo. RobCongelado tem o timing perfeito. Talvez, pela primeira vez na vida, eu esteja com sorte. Deve ser um sinal do universo. Se a nica vez que voc tem sorte quando est planejando suicdio, certamente hora de ir embora.

    Releio a mensagem. Sete de abril bom para mim. Hoje doze de maro. Acho que posso aguentar pouco menos de um ms, embora nos ltimos tempos cada dia parea uma eternidade.

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    Aysel diz novamente o sr. Palmer. Oi? respondo, mal prestando ateno nele.Ele se aproxima para ficar atrs de mim e espiar a tela

    do computador. Tento minimizar a janela do navegador. Olha s, no me importo com o que voc faz em seu

    tempo livre, mas no traga para o trabalho. Entendeu? diz com a voz murcha como uma velha almofada de sof.

    Eu me sentiria mal pelo sr. Palmer se me sobrasse pena para sentir por qualquer outra pessoa alm de mim.

    Arrisco dizer que o sr. Palmer no est familiarizado com o Passagens Tranquilas. Deve achar que estou procu-rando algum site de fs de heavy metal ou algo assim. Mal sabe o sr. Palmer que eu gosto de msica suave e instrumen-tal. Os pais dele n o o ensinaram a no se render a este-retipos? S porque sou uma garota de dezesseis anos com cabelos despenteados que usa camisetas escuras e listradas todos os dias no significa que no posso apreciar um belo solo de violino ou um tranquilo concerto de piano.

    Assim que o sr. Palmer se afasta, ouo Laura bufar. Que foi? pergunto. No tem internet em casa? pergunta Laura, franzin-

    do a testa.Ela est bebericando o caf disponibilizado pela em-

    presa, e a beirada da caneca de plstico est manchada de batom cor-de-rosa horrendo e escandaloso.

    No tem cafeteira em casa?Ela d de ombros e diz, bem quando eu acho que a

    conversa terminou: Trabalho no lugar para ficar arranjando encon-

    tros. Faa isso no seu tempo livre. Vai meter todo mundo aqui em confuso.

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    Tudo bem.Olho para o teclado. No h motivo para explicar para

    Laura que no estou buscando um encontro, ao menos no esse tipo de encontro.

    Encaro os pedaos de biscoito de queijo enfiados nos espaos entre as teclas F e G, e quando decido: vou res-ponder mensagem de RobCongelado.

    Ele e eu temos um encontro no dia sete de abril.

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  • QUARTA-FEIRA, 13 DE MARO

    Faltam vinte e cinco dias

    A nica aula de que eu gosto fsica. No sou um g-nio em cincias, mas acho que a nica matria que talvez d algumas respostas s minhas perguntas. Desde pequena, sempre fui fascinada por saber como as coisas funcionam. Costumava desmontar meus brinquedos e examinar como todas aquelas pecinhas se encaixavam. Olhava as peas independentes, pegava um brao de bo-neca (minha meia-irm, Georgia, nunca me perdoou pela autpsia que fiz na Barbie Baile de Formatura dela) ou as rodas de um carrinho. Uma vez, desmantelei o desperta-dor do meu pai. Ele chegou em casa e me encontrou sen-

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    tada no carpete bege desbotado, as pilhas rolando perto dos tnis.

    O que est fazendo? perguntou ele. Quebrando para aprender a consertar.Ele ps a mo no meu ombro me lembro das mos

    dele, grandes, com dedos longos e grossos, o tipo de mo que faz voc sentir medo e segurana ao mesmo tempo e disse:

    Sabe, Zellie, j existem coisas quebradas demais no mundo. Voc no deveria sair por a quebrando tudo s por diverso.

    O despertador ficou desmantelado por anos, at eu por fim jog-lo fora.

    De qualquer forma, a fsica ao menos me parece til. No como a aula de ingls, na qual lemos poemas de poe-tas depressivos. No ajuda. Minha professora, a sra. Marks, faz parecer complicada a tentativa de decodificar o que os poetas disseram. Da minha perspectiva, muito claro: es-tou deprimido e quero morrer. doloroso assistir a todos os meus colegas de classe esmiuarem cada linha, procu-rando os significados. No tem significado. Qualquer um que j esteve triste de verdade pode dizer que no h nada de bonito, literrio ou misterioso na depresso.

    Depresso como um peso de que no se pode escapar. Ele esmaga voc, faz at as menores coisas, tipo amarrar os tnis ou mastigar uma torrada, parecerem uma corrida de trinta quilmetros montanha acima. A depresso faz parte de voc; est nos ossos e no sangue. Se sei alguma coisa sobre isso, o seguinte: impossvel escapar.

    E tenho absoluta certeza de que sei muito mais sobre isso do que qualquer um dos meus colegas. Ouvi-los falar

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    sobre depresso me d coceira. Ento, para mim, a aula de ingls como observar um grupo de esquilos cegos tentan-do achar nozes. A sra. Marks diz: Vamos dar uma olhada neste verso. Aqui, o poeta John Berryman diz, A vida, ami-gos, tediosa. O que acham que ele quis dizer com isso? Meus colegas de classe todos gritam coisas ridculas como: No tinha ningum para sair com ele no sbado noite. Ou: A temporada de futebol terminou, no tem nada que preste para ver na TV.

    Preciso de todo o controle do mundo para no me le-vantar e gritar: Porra, ele estava triste. isso. Essa a questo. Ele sabe que a vida nunca vai mudar para ele. No h salvao. Sempre vai ser uma porcaria montona e de-pressiva. Entediado, triste, entediado, triste. Ele s quer que isso acabe. Mas isso exigiria que eu falasse durante a aula, o que violaria uma das minhas regras. Eu no partici-po. Por qu? Porque sou triste pra cacete. A sra. Marks s vezes me lana aquele olhar, como se soubesse que eu sei o que John Berryman queria dizer, mas nunca me chama.

    Ao menos em fsica os colegas no ficam tentando desesperadamente complicar uma parada descomplicada. No, em fsica, ns todos estamos tentando descomplicar as coisas complicadas.

    O sr. Scott escreve uma equao no quadro. Estamos aprendendo movimento de projteis, estudando as pro-priedades de um objeto em movimento que sofre apenas influncia da gravidade. H todas aquelas variveis, como o ngulo do qual o objeto lanado e a velocidade inicial.

    Meus olhos embaam. Tantos nmeros. Comeo a di-vagar sobre a gravidade. s vezes, eu me pergunto se a

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    gravidade o problema. Ela nos mantm presos ao cho, nos d a falsa sensao de estabilidade, quando na verdade no passamos de corpos em movimento. A gravidade no deixa que a gente flutue no espao, impede que involun-tariamente nos choquemos uns contra os outros. Poupa a raa humana de ser um desastre completo.

    Queria que a gravidade desaparecesse e nos deixasse ser um desastre completo.

    Infelizmente, essa no a resposta pergunta que o sr. Scott est fazendo.

    Aysel, pode me dizer qual o ponto mais alto que a bola de futebol alcana?

    Eu nem sabia que o objeto no problema era uma bola de futebol. Lano a ele um olhar vazio.

    Aysel insiste o sr. Scott.Ele pronuncia meu nome com um sotaque que deve

    ter inventado um bilho de anos atrs, quando teve aula de espanhol no ensino mdio. O problema que meu nome no hispnico. turco. Nessa altura do campeonato, achei que o sr. Scott j tinha ligado os pontos.

    Hum murmuro. Hum? Srta. Seran, hum no uma resposta num-

    rica. O sr. Scott recosta-se no quadro branco.A frase faz a sala rir. O sr. Scott pigarreia, mas no

    adianta. J perdeu o controle. Ouo os insultos sussurra-dos, mas tudo se resume a uma confuso chiada para mim. E no importa o que estejam dizendo, no pode ser pior do que eu imagino noite, quando me deito na cama, pen-sando se fisicamente possvel arrancar a prpria gentica unha.

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    O sinal toca. O sr. Scott se atrapalha ao passar a lio de casa. A maioria dos alunos sai antes de anotar o dever. Fico sentada e anoto com cuidado no caderno. O sr. Scott me lana um sorriso triste, e me pergunto se ele vai sentir minha falta quando eu partir.

    Quando a sala est vazia, me levanto e saio. Atravesso o corredor, os olhos grudados no cho sujo de ladrilhos. Eu me esforo para aumentar a velocidade. A nica coisa pior do que ir para a educao fsica chegar atrasada no estou nem um pouco a fim de correr voltas a mais. A treinadora Summers sempre fala que correr fortalece o corao para vivermos mais. Sem voltas a mais para mim, por favor.

    Essa a parte de que menos gosto no dia. E no por-que antecipo os horrores dos agachamentos e dos jogos. No, odeio essa parte do dia porque tenho que passar pelo memorial o testamento monoltico do crime do meu pai.

    Sempre tento no olhar, dizer a mim mesma para man-ter a cabea baixa e virar no corredor. Mas no consigo evi-tar. Ergo os olhos e o vejo. Sinto o flego preso na garganta. L est, a placa prateada reluzente, dedicada memria de Timothy Jackson, ex-campeo estadual nos quatrocentos metros rasos. A placa do tamanho de uma bandeja gran-de e est pendurada na parede do lado de fora do ginsio para lembrar todo mundo de que Timothy Jackson seria a primeira pessoa de Langston a chegar s Olimpadas, mas morreu tragicamente aos dezoito anos.

    O que a placa no diz, mas poderia dizer, que meu pai a causa da morte de Timothy Jackson. , meu pai o in-divduo estelar que estraalhou o sonho olmpico da cidade

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    inteira. Todos os anos, no aniversrio de Timothy, passa uma reportagem especial no jornal apenas para garantir que ningum se esquea dele. Faz trs anos que Timothy morreu e, acredite, ningum est nem perto de esquecer esse fato. Especialmente agora que Brian Jackson est pres-tes a se qualificar para os quatrocentos metros rasos. , a mesma modalidade. Brian est tentando realizar o sonho de que o irmo mais velho nunca foi capaz. A imprensa local no se cansa da histria, os corredores da escola no se cansam da histria.

    Foro os ps a passar pela placa e entro no ginsio, fe-chando e abrindo as mos ao lado do corpo. Quando o sol cintila na quadra de madeira polida, me pergunto o que meus colegas de classe vo fazer com todo o dio, a raiva e o medo quando ficarem livres de mim.

    Mal posso esperar at ficarem livres de mim.

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  • Ttulo originalMY HEART AND OTHER BLACK HOLES

    Copyright 2015 by Jasmine Warga

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obrapode ser reproduzida, ou transmitida por qualquer forma ou

    meio eletrnico ou mecnico, inclusive fotocpia, gravao ou sistemade armazenagem e recuperao de informao, sem a permisso escrita do editor.

    Direitos para a lngua portuguesa reservadoscom exclusividade para o Brasil

    EDITORA ROCCO LTDA.Av. Presidente Wilson, 231 8 andar

    20030-021 Centro Rio de Janeiro RJTel.: (21) 3525-2000 Fax: (21) [email protected] | www.rocco.com.br

    Printed in Brazil/Impresso no Brasil

    preparao de originaisMARIANA MOURA

    O texto deste livro obedece s normas doAcordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.

    CIP-BRASIL. CATALOGAO NA PUBLICAOSINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

    W274Warga, Jasmine

    Meu corao e outros buracos negros / Jasmine Warga; traduo Pet Rissatti. Primeira edio. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2016.

    Traduo de: My heart and other black holesISBN 978-85-7980-268-3

    1. Fico americana. I. Rissatti, Pet. II. Ttulo.

    15-28631 CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

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