Max Weber Sell

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<ul><li><p>Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao </p><p>Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades ___________________________________________________________________________ </p><p>HISTRIA OU SOCIOLOGIA? </p><p>A TICA PROTESTANTE E O ESPRITO DO CAPITALISMO EM DEBATE1 </p><p>Carlos Eduardo Sell2 </p><p>RESUMO: O mais conhecido texto de Max Weber A tica protestante e o esprito do capitalismo um livro que, ainda hoje, provoca inmeras controvrsias. De fato, a vinculao estabelecida por Weber entre determinadas formas de conduta religiosa e seus reflexos na esfera </p><p>econmica j engendrava polmicas logo aps a publicao do livro deste pensador. O objetivo </p><p>deste artigo ser retomar estas polmicas, contextualizando o debate. Na primeira parte situam-se as </p><p>obras antecedentes com as quais Weber estava em dilogo e, na parte seguinte, contemplam-se os </p><p>esclarecimentos do autor a seus crticos diretos. Atravs da reviso da histria da obra pretende-se </p><p>contribuir para o esclarecimento da natureza epistemolgica, bem como levantar subsdios para a </p><p>determinao especfica do contedo deste importante escrito weberiano. </p><p> PALAVRAS-CHAVE: Weber, religio, capitalismo, protestantismo, tica Protestante. </p><p>ABSTRACT: The most famous Text from Max Weber - The Protestant Ethic and the 'Spirit' of </p><p>Capitalism - is a book that even today causes many controversies. In fact, the linkage established by </p><p>Weber between certain forms of religious conduct and its consequences in the economic sphere has </p><p>engendered controversy following the publication of this book. This paper will take up these </p><p>controversies, contextualizing the debate. In the first part are situated the antecedents works with </p><p>which Weber was in dialogue and in the next part, it is contemplated the clarification of the author </p><p>to direct his critics. By reviewing the history of the work is intended to contribute to clarifying the </p><p>epistemological as well as raising funds for the specific determination of the content of this </p><p>important Webers book. </p><p> KEYWORDS: Weber, religion, capitalism, Protestantism, Protestant Ethic. </p><p>Na histria das idias sociais, poucas obras ocupam um posto to central quanto o </p><p>clebre escrito weberiano A tica protestante e o esprito do capitalismo (doravante EP). </p><p>A canonizao deste escrito como texto clssico das cincias histrico-sociais alou a sua </p><p>tese central o vnculo entre certas prticas religiosas e a vida econmica moderna a uma </p><p> 1 Uma verso anterior deste texto foi apresentada no III Encontro Nacional do GT de Histria das Religies e </p><p>da Religiosidade, realizado em Florianpolis, entre 20 e 22 de outubro de 2010. 2 Carlos Eduardo Sell Doutor em Sociologia Poltica (UFSC) e Pesquisador do CNPQ (Produtividade em </p><p>Pesquisa). Publicou, pela Editora Vozes, os livros Sociologia Clssica: Marx, Durkheim e Weber (2010) e Introduo Sociologia Poltica: poltica e sociedade na modernidade tardia (2006). Junto com Franz Josef Brseke, tambm autor do livro Mstica e Sociedade (2006), publicado pela Editora Paulus. Seu tema de pesquisa a questo da racionalidade e da racionalizao no pensamento de Max Weber. </p></li><li><p>Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao </p><p>Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades ____________________________________________________________________________ </p><p>174 </p><p>das mais debatidas e polmicas questes da histria social. No Brasil, o texto da tica </p><p>Protestante (cuja primeira traduo foi realizada pela por Maria Szmrecsnyi e Tams </p><p>Szmrecsnyi, em 1967 - a partir da verso em ingls, de Talcott Parsons - e, mais </p><p>recentemente, a partir do original alemo, coordenada por Antnio Flvio Pierucci3) sempre </p><p>exerceu uma influncia decisiva e marcante no desenvolvimento das humanidades e na </p><p>formao dos pesquisadores sociais. Mas, apesar da enorme difuso de seus escritos e da </p><p>reiterada difuso de suas idias, as pesquisas e publicaes sobre este livro tm </p><p>permanecido, em regra, apenas no nvel da descrio ou divulgao. Malgrado o carter </p><p>incipiente do debate, h que se destacar que algumas contribuies recentes (DIEHL, 1996; </p><p>PIERUCCI, 2003; VILLAS-BAS, 2001; TEIXEIRA E FREDERICO, 2010) tm se </p><p>dedicado tanto determinao do estatuto epistemolgico quando temtica substantiva da </p><p>EP, ou seja, questionando tanto seu objeto formal quanto seu objeto material. </p><p>Colocando-se ao lado desta discusso, este trabalho parte da premissa de que a insero do </p><p>escrito weberiano em seu contexto histrico e intelectual condio essencial para seu </p><p>processo de compreenso. Consoante os procedimentos recomendados atualmente pelo </p><p>estudo da chamada histria das idias (JASMIN e FERES JNIOR, 2007), pretende-se </p><p>levantar subsdios que nos permitam identificar qual a originalidade e especificidade da tese </p><p>weberiana. </p><p>Nesta direo, o propsito especfico deste artigo resgatar o processo de gnese da </p><p>primeira verso da EP elaborada por Weber entre 1904/1905, sua posterior evoluo, bem </p><p>como os debates posteriores que ela gerou. Deste esforo resultam importantes elementos </p><p>que nos permitiro elucidar m que contexto disciplinar e, principalmente, qual o alcance do </p><p>contedo da EP. Embora esta investigao no partilhe da crena na possibilidade de </p><p>reconstruir in totum as intenes ltimas de um escrito terico (enredado, como assinala </p><p>Gadamer (1998), em um crculo hermenutico que, ao adensar-se, conforma uma tradio), </p><p>entende-se que a recuperao histrica do contexto intelectual e lingstico constitui um </p><p>caminho privilegiado que, atento aos riscos do anacronismo, nos permite uma maior </p><p> 3 As referncias so as seguintes: WEBER (1967 e 2004) </p></li><li><p>Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao </p><p>Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades ____________________________________________________________________________ </p><p>175 </p><p>aproximao ao sentido de um texto, neste caso, deste escrito fundamental para todas as </p><p>reas das cincias humanas que A tica protestante e o esprito do capitalismo. </p><p>1. A gnese da EP e sua natureza disciplinar </p><p>No h manual de sociologia que no credite a Max Weber o herico ttulo de ser um </p><p>dos pais fundadores desta cincia. No entanto, entre os especialistas, a determinao da </p><p>abordagem cientfico-disciplinar a qual est vinculada a EP est longe de ser consensual. </p><p>Para Mata (2006), por exemplo, a interpretao sociolgica da EP no passa de um mito, </p><p>viso qual se contrapem, dentre outros, os estudos de Teixeira e Frederico (2010), que </p><p>insistem na natureza especificamente sociolgica do escrito. No menos distinta a posio </p><p>de Richard Swedberg (1995), pesquisador internacional que entende ser todo o conjunto do </p><p>pensamento weberiano (a includa a EP) nada mais do que o desenvolvimento de uma </p><p>verso alem de cincia econmica, tal como a entendia a escola histrica de economia, </p><p>corrente de pensamento predominante naquele tempo. Histria, sociologia ou economia? </p><p>Qual , afinal, a perspectiva que orienta o estudo de Weber? Ao nos voltarmos para a </p><p>histria da obra (Werkgeschichte), veremos que o estatuto da obra de Weber comporta </p><p>uma complexidade muito maior do que uma rgida separao entre a dimenso histrica, </p><p>social ou econmica tende a supor. Examinemos, pois, o contexto histrico no qual a obra </p><p>se coloca. </p><p>1.1. Gnese </p><p>Ao comparar a significao dos processos histricos da Alemanha em comparao </p><p>com Inglaterra e Frana, Karl Marx (1991, p.113) ironizou sua ptria natal afirmando que </p><p>os alemes realizaram suas revolues nas nuvens: assim como os povos antigos viveram </p><p>sua pr-histria na imaginao, na mitologia, ns, alemes, vivemos nossa ps histria no </p><p>pensamento. Mais do que constatar que o suposto atraso histrico Alemanha, o pai do </p><p>materialismo histrico sugere que a hegemonia do idealismo hegeliano seria reflexo da </p><p>intensidade dos processos religiosos e espirituais que ocorreram durante a reforma luterana </p><p>do sculo XVI. A singularidade e especificidade dos movimentos religiosos que marcaram </p></li><li><p>Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao </p><p>Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades ____________________________________________________________________________ </p><p>176 </p><p>a histria da Alemanha e, a partir da, toda a configurao social da modernidade, no </p><p>foram percebidas apenas (negativamente) por Karl Marx. Tratava-se de um tema </p><p>recorrente, compartilhado pos diversos pensadores sociais alemes, que no tinham como </p><p>no ser afetados, em suas reflexes, por um evento de tamanha magnitude. A comear pela </p><p>prpria fonte do pensamento de Marx, o filsofo Hegel que, em suas Lies sobre a </p><p>filosofia da histria (HEGEL, 2001), viu na reforma protestante o passo culminante da </p><p>evoluo do Esprito Absoluto - em sua fase religiosa - na histria. Logo, ao debruar-se </p><p>sobre o papel do protestantismo na gnese das formas modernas de vida, Weber no </p><p>chegava a este tema de modo isolado e inusitado, pois compartilhava de uma ambiente </p><p>intelectual no qual o tema da influncia histrico-social do protestantismo, longe de ser </p><p>secundrio, estruturava o debate e condicionava o prprio surgimento dos saberes e </p><p>disciplinas dedicados histria e a vida social4. </p><p>Quanto ao tema do capitalismo, basta-nos recordar que esta era uma questo central </p><p>no debate alemo, pelo menos, desde os trabalhos de Karl Marx (O Capital, 1887) e </p><p>Friedrich Engels, at chegar s teorizaes dos principais tericos marxistas </p><p>contemporneos de Weber: Karl Kautsky e Eduard Bernstein. Na Alemanha, a Escola </p><p>Histrica de Economia tambm visava refletir sobre a modernizao econmica capitalista </p><p>do pas, mas buscava uma alternativa para o evolucionismo marxista, ao mesmo tempo em </p><p>que se distanciava da nascente escola marginalista de pensamento econmico que se </p><p>desenvolvia, com particular fora, na ustria. Max Weber, como largamente conhecido, </p><p>exerceu seu magistrio como professor de Economia Poltica e estava estreitamente </p><p>vinculado com a gerao mais jovem da Escola Histrica Alem de Economia. Diferente de </p><p>seus predecessores, ele defendeu um dilogo produtivo com o marxismo e, em especial, </p><p>participou da acirrada disputa sobre a metodologia mais adequada para os estudos </p><p>econmicos que colocou de diferentes lados escritores como Carl Menger (representante da </p><p>escola austraca) e Gustav Schmeller (representante da escola histrica). Portanto, se </p><p>desejamos entender em que contexto intelectual a obra de Weber est situada, no campo </p><p>da economia que devemos procurar as respostas, pois a partir deste campo que Weber </p><p> 4 Para uma reviso deste contexto intelectual, consulte-se: MARSHALL (1982); GREEN (1959 e 1973); </p><p>LEHMANN e ROTH (1987a); LEHMANN (1987b, p.307-320; 1996 e 2009) e SCHLUCHTER (2009, p.40-</p><p>62). </p></li><li><p>Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao </p><p>Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades ____________________________________________________________________________ </p><p>177 </p><p>dialoga com a produo existente. nesta vertente disciplinar que o tema das origens </p><p>histricas do capitalismo foi se tornando cada vez mais central. </p><p>No que este fosse um tema exclusivo da cincia econmica. Em termos de suas </p><p>razes mais longnquas, o vnculo causal entre protestantismo e vida econmica j pode ser </p><p>localizado no terreno da prpria teologia, com trabalhos advindos desde o sculo XVII5. O </p><p>tema tambm perpassa a cincia da histria, ento em franca consolidao na Alemanha. </p><p>Dentre os estudos que precederam as investigaes de Weber, cabe mencionar o trabalho </p><p>do historiador Eberhard Gothein, cujo livro de 1892 (A histria econmica da Floresta </p><p>Negra), chamou a ateno para o protagonismo econmico dos calvinistas no Sul da </p><p>Alemanha. Outro trabalho histrico que repercutiu diretamente nas pesquisas de Weber foi </p><p>a pesquisa de Georg Jellinek. Em suas primeiras investigaes histrico-jurdicas (A </p><p>declarao dos direitos do homem e do cidado, de 1895), Jellinek deslocou a importncia </p><p>da revoluo francesa na origem dos direitos humanos para suas fontes americanas </p><p>(BREUER, 1999). Comparando os documentos das declaraes das colnias britnicas das </p><p>Amricas com os textos da revoluo francesa, ele defendeu a tese de que os ideais </p><p>revolucionrios tinham sua origem nos Estados Unidos. A reconstruo do autor enfatizava </p><p>especialmente a contribuio das seitas protestantes para a origem da concepo moderna </p><p>dos direitos individuais. </p><p>De tema eminente teolgico ou histrico, a significao econmica do protestantismo </p><p>tambm se tornou um objeto central de outra cincia em gestao na Alemanha: a </p><p>sociologia. Tendo como marco fundador a temtica da transio entre o tradicional e o </p><p>moderno (ou, nos termos de Ferdinand Tnnies, da Gemeinschaft (comunidade) para a </p><p>Gesellschaft (sociedade)), a centralidade da economia na vida social moderna ganhou </p><p>especial amplitude com os estudos de Georg Simmel6. Este particular membro do crculo de </p><p>relaes intelectuais de Weber apresentou uma primeira verso de sua tese j em 1896, em </p><p>artigo intitulado A psicologia do dinheiro. Mas, foi no escrito Filosofia do Dinheiro, que </p><p>veio a lume em 1900, que o argumento de Simmel ganhou sua forma mais acabada e </p><p>definitiva. Esta obra, reconhecida hoje como um dos grandes textos da gerao fundadora </p><p> 5 GRAF (1987, p.27-50) e WARD (1987, p.203-214). </p><p>6 Uma viso global de seu pensamento oferecida por FRISBY (1987, p.422-433). No Brasil, h um </p><p>importante trabalho realizado por WAIZBORT (2000). </p></li><li><p>Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao </p><p>Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades ____________________________________________________________________________ </p><p>178 </p><p>da sociologia alem, desenvolve seu raciocnio em duas longas partes, cuidando a seo </p><p>analtica da questo do valor e a seo sinttica da relao entre dinheiro e liberdade </p><p>individual, os valores pessoais e o estilo de vida. Em termos globais, Simmel interpretou o </p><p>dinheiro como parte de um processo social mais amplo: a tragdia da cultura. Para ele, a </p><p>transformao do dinheiro de meio em fim representa um dos vetores pelos quais a cultura </p><p>moderna se objetiva e se desliga de sua intencionalidade humana (separao do objetivo e </p><p>do subjetivo). Simmel destacou ainda o papel racionalizante do dinheiro que imprime a </p><p>marca da calculabilidade e da objetividade na vida social: sua figura sntese o homem </p><p>blas ou o indivduo cnico, ambos indiferentes aos mltiplos impulsos que lhes advm do </p><p>excesso de experincias da conturbada vida moderna. </p><p>O tema do significado social e...</p></li></ul>