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  • JOO ALDEIA

    MAX WEBER: HOMEM DO SEU TEMPO OU HOMEM FRENTE DO SEU TEMPO?

    Novembro de 2009 Oficina n 332

  • Joo Aldeia

    Max Weber: Homem do seu tempo ou homem frente do seu tempo?

    Oficina do CES n. 332 Novembro de 2009

  • OFICINA DO CES Publicao seriada do

    Centro de Estudos Sociais Praa D. Dinis

    Colgio de S. Jernimo, Coimbra

    Correspondncia: Apartado 3087

    3001-401 COIMBRA, Portugal

  • Joo Aldeia

    Max Weber: Homem do seu tempo ou homem frente do seu tempo?1

    Algumas questes lanadas sobre a teoria weberiana clssica

    Resumo: O objectivo do presente artigo localizar algumas propostas da teoria weberiana clssica dentro dos pressupostos mais gerais da teoria social do sculo XIX. Para isso, procura-se, num primeiro momento, caracterizar esta ltima e enunciar alguns dos problemas que ela pode actualmente suscitar, nomeadamente os que decorrem do seu carcter eurocntrico. luz dessas questes, discute-se a postura metodolgica e epistemolgica de Max Weber, e a sua anlise da modernidade, destacando a abordagem dos fenmenos da racionalidade, do progresso, da legitimidade, da tecnocracia e do papel do Estado.

    Introduo

    ... qualquer empresa sofre de defeitos,

    tal como o fogo no se livra de ter fumo.

    Bhagavad-guit, dcima oitava lio, 48

    Independentemente de Max Weber ter sido central para a teoria social desde a poca em

    que escreveu ou, como defende Wallerstein (1999: 223 e ss.), o trio cannico da sociologia

    Weber, Marx e Durkheim ter sido construdo somente aps 1945, no podemos negar a

    sua importncia. Ela advm no s do facto de o autor ter elaborado vrios conceitos ainda

    hoje cruciais para a cincia social, mas tambm grandemente do seu posicionamento

    terico-epistemolgico substancialmente afastado do positivismo clssico.

    1 Este ensaio foi galardoado com o Prmio Sociologia FEUC (edio de 2009), destinado a valorizar estudos sobre temas-chave da sociologia, realizados por estudantes da Licenciatura em Sociologia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Coordenado e avaliado pelo Ncleo de Sociologia da FEUC e pelo Ncleo de Estudantes da Licenciatura em Sociologia, este prmio patrocinado pela Caixa Geral de Depsitos.

  • Max Weber: Homem do seu tempo ou homem frente do seu tempo?

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    Num primeiro momento, farei um enquadramento da teoria social clssica e de

    algumas questes que ela pode actualmente suscitar, enunciando os problemas que

    considero de mais premente discusso, aceitando que as cincias sociais se erigiram em

    torno de trs antinomias basilares: passado vs. presente; saberes ideogrficos vs.

    nomotticos; e civilizao vs. barbrie (Comisso Gulbenkian, 2002).

    Analisarei depois o lugar concreto da teoria weberiana clssica nas interrogaes

    levantadas, apontando o que julgo serem algumas das principais dificuldades e limitaes

    para o seu uso num contexto onde o multiculturalismo e a pluralidade de referncias so

    inegveis, mas que, no obstante, continua a ser dominado por um universalismo paroquial

    que teve a sua gnese no Ocidente Norte.

    Algumas caractersticas e consequncias da Teoria Social do sculo XIX

    O argumento de que a teoria social desenvolvida na Europa durante o sculo XIX crucial

    para podermos compreender o mundo actual surge-me como sendo inatacvel. No

    obstante, nem todo o seu legado positivo. Independentemente da centralidade das

    correntes e pensamentos desenvolvidos nesse espao-tempo, h que ter em mente que as

    cincias sociais, quando da sua estabilizao no sculo XIX, visavam responder a um

    conjunto especfico de problemas que diziam respeito aos Estados do Ocidente Norte, s

    suas populaes e instituies. O papel central assumido pela Europa dentro do sistema

    mundial capitalista surgido com a colonizao fez com que as cincias sociais a

    desenvolvidas e radicadas fossem profundamente eurocntricas, o que se torna bem visvel

    ao olharmos para as teorias, conceitos e preocupaes da poca, claramente centradas na

    realidade dos Estados colonizadores, mas que conseguiram em grande medida, graas s

    relaes de dominao existentes neste sistema-mundo tornar-se hegemnicas, i.e., foram

    capazes de se constituir como o referencial terico pelo qual todo o mundo procurava

    analisar os seus prprios problemas (no europeus). Ao ocorrer este processo de

    hegemonizao, ignoraram-se vrias especificidades europeias que tornavam a teoria social

    deste perodo inaplicvel a outros contextos. Dentro delas, realcemos a existncia de uma

    Revoluo Industrial, a sua particular Diviso Social do Trabalho (assalariamento tpica-

    idealmente livre), a secularizao, a racionalidade instrumental, a separao entre Estado

    (ou esfera poltica) e sociedade civil, a autonomizao do campo econmico, etc. Devemos

  • Max Weber: Homem do seu tempo ou homem frente do seu tempo?

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    igualmente ter em mente que os pensadores europeus clssicos ps-iluministas tinham clara

    conscincia de que a Europa tinha idiossincrasias, mas que a forma como eles as

    procuravam compreender era assente em deturpaes da realidade histrica, obscurecendo-

    se (intencionalmente ou no) todas as heranas extra-europeias da cultura ocidental e as

    relaes coloniais e recorrendo a um universalismo paroquial na medida em que este

    pressupunha a existncia de diversos estdios desenvolvimentistas pelos quais todas as

    sociedades passariam, iniciando-se o percurso num qualquer estado da natureza e

    avanando at ao mximo do desenvolvimento ento conhecido, i.e., at s sociedades

    industrializadas do Ocidente Norte. Isto denota, obviamente, uma herana positivista

    fortssima, sendo bem expresso pela ideia comtiana de que todas as entidades passariam por

    trs estdios sucessivos (onde o posterior era efectivamente superior ao anterior): teolgico,

    metafsico e positivo, que seria o estado ltimo do desenvolvimento da entidade, onde se

    renunciaria s componentes e explicaes mstico-mgicas dos fenmenos e se procuraria

    correlaes, causalidades, enfim, leis sociais gerais que poderiam ser aplicadas sem ater ao

    espao-tempo concreto. Aqui se constitui a legitimao da Cincia enquanto forma

    predominante de legendar o mundo, subvalorizando todas as outras. (No estaremos hoje

    muito longe disto. O primeiro passo em busca do reconhecimento que qualquer rea

    disciplinar toma a alterao da sua designao de modo a que se torne cincia disto ou

    daquilo.) neste contexto que se insere a diviso das duas culturas cincias naturais e

    humanidades s quais se acrescentam as cincias sociais que, at ao final da primeira

    metade do sculo XX, andaram num constante esforo de aproximao quer a uma quer a

    outra das anteriores. Mas o que central a vitria da cincia sobre a no-cincia que se

    d nesta altura.

    A cincia foi proclamada [no sculo XIX] como sendo a descoberta da realidade objectiva atravs do recurso a um mtodo que nos permitia sair para fora da mente, ao passo que aos filsofos se no reconhecia mais que a faculdade de cogitar e de escrever sobre as suas cogitaes. (Comisso Calouste Gulbenkian, 2002: 27)

    Neste processo de diviso dos saberes criou-se tambm uma distino interna entre as

    vrias cincias sociais, distinguindo-se entre as que se dedicavam ao estudo do passado

    histria e do presente e, dentro destas, entre as que tinham por objecto as sociedades

  • Max Weber: Homem do seu tempo ou homem frente do seu tempo?

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    industriais ocidentais sociologia, economia e cincia poltica e todos os outros povos

    a antropologia. As quatro primeiras eram claramente cincias do Ocidente Norte

    preocupadas com os problemas a existentes.

    certo que (...) existiram alguns cientistas sociais interessados em comparar as civilizaes do Oriente com as do Ocidente (como foi o caso de Weber, Toynbee e embora de forma menos sistemtica Marx). Mas estes comparativistas (...) no se mostravam interessados nas civilizaes orientais em si mesmas. Ao invs, a sua principal preocupao foi sempre explicar a razo por que foi o mundo ocidental, e no estas civilizaes, quem caminhou no sentido da modernidade (ou do capitalismo). (Comisso Calouste Gulbenkian, 2002: 44) Dentro da lgica das teorias dos estdios do desenvolvimento, as sociedades extra-

    europeias eram consideradas como estando num estado anterior (e inferior) em relao s

    do Ocidente Norte, e logo, primitivas, ou vistas como fenmenos temporalmente

    paralisados, que tinham visto um progresso considervel anteriormente, mas que, por algum

    motivo, tinham estancado no tempo. Curiosamente, esta noo de que estas ltimas

    teriam sido sociedades avanadas era tambm ela feita com base em critrios e indicadores

    eurocntricos: tinham tido organizaes burocrticas e sistemas religiosos que cobririam

    vastas reas geogrficas durante algum tempo e, quando das tentativas europeias de as

    conquistar, at ao sculo XVIII, elas tinham igualmente um poderio militar suficiente para

    resistir. Este fenmeno de resistncia inverte-se, no sculo XIX, quando o desenvolvimento

    tcnico europeu lhe permitiu ultrapassar belicamente o resto do mundo. E, deste ponto em

    diante, bastou encontrar nas teorias do desenvolvimento (e noutras formas de darwinismo

    social) a justificao da superioridade e interveno europeia. Uma vez que As metforas

    da evoluo ou do desenvolvimento no eram apenas tentativas de descrever; eram tambm

    incentivos para prescrever (Wallerstein, 1999: 176;