Mário Dionísio e a Educação - ?rio Dionísio e a... · Aquilo que mais profundamente caracteriza…

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    Mrio Dionsio e a Educao Criar e Viver

    Rui Canrio

    No creias seno em ti e naquilo que te cerca () Tu ests em toda a parte e tudo est em ti

    Mrio Dionsio

    Introduo

    Nesta palestra1, ao contrrio do que pareceria bvio vou falar relativamente pouco de

    escolas e de ensino. No meu trabalho de preparao a primeira fonte que consultei foi o

    Dicionrio dos educadores portugueses2 onde se consagra uma entrada a Mrio Dionsio.

    Nela se escreve que a par da actividade docente ele se distingue sobretudo como

    escritor e ensasta, explicando-se, logo de seguida, que o texto vai atender, ou melhor

    restringir-se, ao seu trabalho pedaggico, ou seja, sua actividade como professor dos

    liceus. Nesta minha exposio sero outros os meus pontos de partida porque outra a

    viso que tenho da vida e da obra de Mrio Dionsio, mas, tambm, porque outra a

    minha concepo de educao, no susceptvel de se sobrepor de forma coincidente com a

    realidade escolar.

    Num primeiro ponto prvio esclareamos, de forma muito breve, quem a pessoa de que

    vamos falar: quem Mrio Dionsio? Nada melhor do que recorrer s palavras do prprio

    que, num auto-retrato3 originalmente publicado no Dirio de Lisboa, em 1990, se auto

    definia nestes termos, com os quais concordo plenamente: um fulano digamos que

    intratvel () por nos deixar sempre hesitantes sobre por onde lhe pegar. Das vrias

    actividades a que sempre se dedicou qual a principal?. Reconhecendo, e valorizando, a

    diversidade e multiplicidade de dimenses da sua obra, parece-me pouco interessante ter

    como ponto de partida uma viso fragmentada, procedendo a uma abordagem analtica de

    1 Palestra realizada em 2 de Outubro de 2009, durante a Semana de Abertura da Casa da Achada Centro

    Mrio Dionsio.

    2 NVOA, Antnio, Dir. (2003). Dicionrio de Educadores Portugueses. Porto: ASA, 496-498

    3 DIONSIO, Mrio (2009). Auto-retrato. In: Entre palavras e cores. Alguns dispersos (1937-1990). Lisboa:

    Cotovia e Casa da Achada, 350-352

  • 2

    dimenses que, coexistindo separadamente, no perdem nunca a sua coerncia de

    conjunto. Bem mais interessante e rico ser a tentativa de construir uma abordagem com

    base num ngulo de anlise susceptvel de nos devolver a unidade dessa multiplicidade,

    tantas vezes lida e interpretada, inclusivamente pelo prprio, como uma disperso. O

    sentido dessa disperso explicitado por Mrio Dionsio no Anti prefcio ao volume

    de Poesia Completa4:

    () toda esta disperso que, apesar de todos os riscos, no enjeito nem lamento, seguiu sempre e

    continua a seguir um mesmo fio, por mais agitado e aparentemente contraditrio, a que s posso

    chamar potico: um modo de ser e de estar presente, mesmo quando ningum me v, uma viso do

    mundo e uma forma de viv-la, que, repetindo, no enjeito nem lamento, seja qual for o seu valor e

    o seu destino

    A minha pretenso a de tornar clara uma conexo entre a vida e a obra de Mrio Dionsio

    e a educao que transversalmente as atravessa. Desta perspectiva, trata-se de utilizar um

    ponto de entrada que nos devolva a unidade e o sentido deste modo de ser e de estar,

    bem como desta viso do mundo e da forma de viv-la.

    Num segundo ponto prvio, cumpre esclarecer que opo por este tipo de abordagem

    est subjacente uma concepo larga e no redutora da educao, a qual no susceptvel

    de ser enquadrada nos limites da forma escolar. Num sentido lato a educao um

    processo que se confunde com o prprio ciclo vital. A educao no uma parte da vida,

    mas sim a prpria vida. Neste processo difuso, a escola e as actividades de ensino

    representam to s a fase visvel de um icebergue educativo em que a parte mais

    importante est imersa, oculta e no imediatamente visvel.

    No caso concreto do tema desta palestra, parti do pressuposto que a forma mais rica e

    interessante de alimentar uma reflexo sobre a relao de Mrio Dionsio com a Educao

    seria a de recusar o caminho, mais bvio, de procurar informaes sobre a sua actividade

    de professor e consultar os seus escritos relacionados com pedagogia. O caminho escolhido

    foi outro, o de procurar esclarecer essa relao a partir de um questionamento sobre a

    totalidade da sua obra e do exemplo da sua vida. esta a razo que explica o facto de as

    principais fontes consultadas serem, por um lado, o seu monumental ensaio sobre a pintura

    moderna (A Paleta e o Mundo5) e, por outro lado os seus escritos de cariz

    autobiogrfico.

    4 DIONSIO, Mrio (1966). Antiprefcio. In: Poesia incompleta. Lisboa: Edies Europa-Amrica, 13-26

    5 DIONSIO, Mrio (1956). A Paleta e o Mundo. Uma introduo pintura de hoje. Lisboa: Europa-Amrica

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    O que a educao?

    Trouxe-vos um objecto muito curioso e pelo qual nutro uma particular estima. Trata-se de

    uma pequena mola, que feita de dois restos de mola, metade da mola de plstico e a

    outra metade de madeira (vide fig.1).

    claro que este objecto no se encontra venda em lado nenhum. Ele foi feito a partir de

    restos de molas diferentes que, em princpio, estariam destinados a ir para o lixo. Ora este

    objecto embora tenha plena utilidade (pode utilizar-se como mola) no foi feito para ser

    vendido a ningum. Ele no tem nenhum valor de troca, embora possua um claro valor de

    uso. Do ponto de vista da ideologia desenvolvimentista, se as pessoas comearem todas a

    produzir objectos como esta mola, que no so objecto de transaco monetria, o Produto

    Interno Bruto (PIB) no aumenta, o que ser mau para o desenvolvimento. Mas o processo

    de fabricao desta mola um bom exemplo de como o trabalho, algo que

    intrinsecamente humano, est ligado a um processo de criatividade em que se tornam

    fluidas as fronteiras entre a arte e a no arte. Se eu fosse um crtico de arte, nada me

    impediria de dizer que este objecto um ready-made, ou seja um objecto cujo carcter

    artstico (como acontece com os clebres objectos de Marcel Duchamp) decorre no do

    objecto em si, mas do ponto de vista que o constri enquanto tal. Nesta perspectiva, se

    eu o colocar num museu, passa a ser uma obra de arte. O modo como foi produzida esta

    mola e a concepo dessa produo faz apelo a uma actividade conjunta das mos e do

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    crebro, questionando a tradicional distino (e hierarquia) entre trabalho manual e

    trabalho intelectual.

    A fabricao deste objecto (a mola) supe uma aprendizagem, supe uma viso do mundo

    e uma maneira de encarar a prpria existncia humana. Nessa viso do mundo existe uma

    coerncia entre viver, aprender e trabalhar que pode definir o horizonte de utopia sem o

    qual, como afirmou um dia Mrio Dionsio, no podemos viver.

    Nesta maneira de viver a questo do tempo central, na medida em que a possibilidade de

    usufruir de tempo de cio cria condies para controlar o processo e a finalidade do

    trabalho, o que significa tempo livre para criar. Este mundo, em que se trabalha para fazer

    objectos com valor de uso dos quais se gosta um mundo em extino ou um mundo

    completamente marginal na nossa vida de todos os dias. Ao lado deste mundo, existe um

    outro que ns conhecemos melhor e que , hoje, mais visvel. um mundo do trabalho

    virado para a produo de mercadorias. A visvel um ciclo em que se produzem

    mercadorias, em que dominante no o seu valor de uso mas sim o seu valor de troca. As

    mercadorias so transformadas em dinheiro e esse dinheiro , por sua vez, transformado

    em novas mercadorias. O prprio dinheiro se torna uma mercadoria, instituindo-se, ao

    mesmo tempo, como a medida de todas as coisas. A transformao do trabalho numa

    mercadoria a marca civilizacional de todas as sociedades da era moderna. Portanto, no

    quadro de uma sociedade em que todo o trabalho tendencialmente virado para a

    produo de mercadorias, e em que o prprio trabalho humano se torna uma mercadoria,

    que ganham pertinncia dois conceitos fundamentais (ncleo central da teoria marxista)

    para produzir inteligibilidade sobre este mundo das mercadorias. O primeiro o conceito

    de explorao que se baseia no reconhecimento de que, no processo produtivo, os

    assalariados produzem uma mais valia. O trabalho humano incorporado na matria-prima

    acrescenta-lhe valor. Esse valor diferencial vai ser apropriado colectivamente pelos patres,

    uma vez que a esmagadora maioria dos trabalhadores so trabalhadores assalariados. O

    segundo conceito, complementar do primeiro, designa o resultado da separao operada

    entre o trabalhador, as suas ferramentas e o produto do seu trabalho. Refiro-me ao

    conceito de alienao que remete para a estranheza do ser humano perante a natureza,

    perante os outros, perante o seu trabalho e perante si prprio. Enquanto que no mundo

    do arteso, de que falei h pouco, h uma unidade entre o viver, o aprender e o trabalhar,

    neste mundo totalmente orientado para a produo de mercadorias aprende-se para trabalhar e

    trabalha-se para sobreviver. A taxa de valor de uso dos objectos tendencialmente decrescente,

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    aproximando-se, em muitos casos de zero (grande parte do que se produz totalmente

    suprfluo). E este mundo de que alguns de ns no gostam.

    Aquilo que mais profundamente caracteriza a vida do ser humano a sua capacidade de

    conhecer o mundo (aprender), combinada com a sua capacidade de nele intervir e o

    modificar, atravs da criao de ferramentas materiais e simblicas (trabalhar). A relao

    entre o aprender e o trabalhar supe uma retroaco circular ente a mo e o crebro

    porque todo o conhecimento coisa mental (como a pintura), mas exige aco.

    Deste ponto de vista a pessoa humana est condenada, simultaneamente a aprender e a

    trabalhar, num processo educativo que se confunde com um percurso biogrfico. A

    educao pode passar ento a ser encarada com um triplo processo de construo: o de se

    tornar um ser humano (processo de hominizao), o de se tornar um ser humano nico

    (processo de singularizao) e o de se tornar parte de um colectivo social (processo de

    socializao)6. A educao, no seu sentido lato e no reduzido ao mundo escolar, passa a

    corresponder a uma autoproduo de si por si, ou seja um processo em que cada um se

    torna pessoa7.

    A Paleta e o mundo

    A obra A Paleta e o Mundo constitui um fabuloso ensaio sobre a histria da pintura

    moderna. Sobre essa questo no resta a mais pequena dvida. Mas, esta obra pode ser lida

    e interpretada num sentido bem mais vasto. A relao entre o artista (neste caso o pintor) e

    o mundo confunde-se com a relao entre o Homem e o mundo. Deste ponto de vista, o

    qual pretendo aqui explicitar, estamos perante um ensaio sobre a condio humana, com

    uma importante dimenso filosfica e, particularmente, epistemolgica. Toda a obra se

    institui como um sistemtico questionamento sobre como o homem produz

    conhecimento sobre o mundo e como que expressa esse conhecimento numa linguagem

    que obedece a uma racionalidade especfica que a racionalidade artstica. A primeira parte

    de A Paleta e o Mundo corresponde a esse questionamento ao qual subjaz uma

    epistemologia. Tentarei caracteriz-la num conjunto de oito tpicos.

    6 Cf: CHARLOT, Bernard (1997). Du rapport au savoir. lments pour une thorie. Paris : Anthropos.

    7 Cf: ROGERS, Carl (2009). Tornar-se pessoa. Lisboa: Padres Culturais Editora.

  • 6

    1 tpico: Olhar e ver

    A distncia que separa o olhar do ver representa a descoincidncia entre o que se v e o que

    poderamos designar por realidade objectiva. A verificao de tal descoincidncia conduz-

    nos a distinguir aquilo que da ordem de um mundo material, objectivo e independente da

    nossa subjectividade, de um mundo que percepcionado pela mediao dos nossos sentidos e

    de um mundo conceptualmente construdo pela nossa mente em condies histricas e

    sociais determinadas. Esta distino, que coloca em evidncia os trs mundos de que nos

    fala Karl Popper8, complementada pela ideia de que no processo de conhecimento a

    teoria que comanda e no os dados recolhidos pela observao. Esta perspectiva

    epistemolgica de raiz bachelardiana9 que permite contrariar um realismo ingnuo

    segundo o qual poderamos, em termos de produo de conhecimento, ter um acesso

    directo ao real. Como escreveu Mrio Dionsio:

    Cada vez se v melhor que a realidade objectiva no o que a vista humana distingue. Que h

    diferenas profundas entre a realidade objectiva e aquilo que normalmente consideramos como tal

    (p. 109)10

    Ora esse acesso sempre mediado por uma percepo sensorial e por uma teoria, na

    medida em que no h olhares inteiramente neutros. essa componente terica (que pode

    ser implcita ou tcita) que nos permite criticar uma viso substancialista da realidade,

    substituindo-lhe uma abordagem relacional em que o real lido, interrogado, interpretado

    e, eventualmente transformado, com base num corpo articulado de teorias e de conceitos,

    ou seja de uma problemtica. A produo de conhecimentos corresponde menos a

    conhecer coisas do que a conhecer estabelecer relaes ente problemas.

    Esta perspectiva que coloca a teoria no posto de comando vlida no s para o

    conhecimento cientfico, mas, tambm para outras formas de conhecimento como o caso

    da arte. esta valorizao do carcter imprescindvel da teoria e da capacidade de atravs

    dela dar um sentido (estabelecendo relaes) informaes oriundas dos nossos rgos

    sensoriais que Mrio Dionsio expressa com total clareza:

    8 Cf. POPPER, Karl (1989). Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos

    9 Cf. BACHELARD, Gaston (1984). Le nouvel esprit scientifique. Paris : PUF

    10 Todas as citaes de Mrio Dionsio em que no h expressa indicao da fonte correspondem a extractos

    de A Paleta e o Mundo

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    () a arte vive em funo dos sentidos do homem, nos quais a prtica social desenvolveu uma

    verdadeira capacidade terica. Ao ver, ao ouvir, nenhum de ns se limita a registar a existncia de

    certas formas e cores, ou a verificar a produo de certos sons ou rudos. () Enquanto vejo,

    enquanto ouo, inevitavelmente estabeleo mltiplas relaes de um tipo especial. Ver e ouvir

    estabelecer essas relaes (). (p. 79/80

    Para melhor esclarecer a interpretao que aqui proponho do texto e, portanto, do

    pensamento de Mrio Dionsio, julgo interessante explorar aqui a analogia que poderemos

    estabelecer entre esse pensamento uma viso proposta para interpretar o processo

    cognitivo, a partir da distino entre informao, conhecimento e saber11.

    Os nossos rgos sensoriais captam em permanncia informaes externas. Sem essas

    informaes no haveria a possibilidade de conhecer. A informao -nos exterior e

    susceptvel ser quantificada e armazenada. A exterioridade da informao no impede a sua

    apropriao por cada sujeito, de forma singular, em funo da sua experincia vivida.

    Dessa apropriao resulta um conhecimento que, na medida em que comporta uma parte do

    vivido no quantificvel nem imediatamente transmissvel (no posso transmitir a

    outrem a intensidade dos meus sentimentos face a uma dada experincia). Esse

    conhecimento pode, contudo, ser transformado num saber quando transformado em

    informao destinada a outras pessoas. Quando se escreve um livro ou se pinta um quadro

    produzem-se objectos que, do ponto de vista do produtor so saberes e que, do ponto de

    vista de eventuais destinatrios, so informaes...