Maldonado Torres

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Artigo de autoria do filsofo e professor Nelson Maldonado Torres

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  • Revista Crtica de Cincias Sociais, 80, Maro 2008: 71-114

    NELSON MALDONADO-TORRES

    A topologia do Ser e a geopoltica do conhecimento.Modernidade, imprio e colonialidade

    O ensaio examina a articulao entre raa e espao na obra de vrios pensadores europeus. Centrando-se no projecto de Martin Heidegger de procurar no Ocidente as razes, denuncia a cumplicidade desse projecto com uma viso cartogrfica impe-rial que cria e separa as cidades dos deuses e as cidades dos danados. O autor identifica concepes anlogas noutros pensadores ocidentais, sobretudo em Levinas, Negri, Zizeck, Habermas e Derrida. Ao projecto da busca das razes, com os seus pressupostos racistas, ele ope uma viso crtica, inspirada em Fanon, que sublinha o carcter constitutivo da colonialidade e da danao para o projecto da modernidade europeia. O autor conclui com um apelo a uma diversalidade radical e uma geopoltica do conhecimento descolonial.

    At hoje, a fundamentao ontolgica tem considerado o Centro como ponto de chegada e de partida. O Ser tem sido, na verdade, o Centro. O Pensa-mento tem sido um Pensamento Central. No Centro se encontraram ambos. Fora do Centro, encontra-se o ente, o contingente e o subdesenvolvido; aquilo que s passou a ser reconhecido atravs do Centro.

    Em 29 de Maro de 2003, apresentei no Encontro Anual da Associao de Estudos Latino- -americanos, no Texas, uma verso anterior deste artigo, com o ttulo Imprio y colonialidad del ser. Gostaria de agradecer aos membros do Grupo de tica Dialgica e Cosmopolitismo Crtico da Universidade de Duke por me terem propiciado um contexto ptimo para testar ideias alternativas do pensamento poltico radical. Tambm quero agradecer a Eduardo Mendieta pelos comentrios que fez segunda verso do artigo e pelas recomendaes fundamentais no sentido de um posterior alargamento. Gostaria de dedicar o artigo ao grupo de jovens filsofos que, h 30 anos, expuseram, de forma explcita, algumas das ideias que aqui aparecem, respeitantes ao lugar do Ser e do conhecimento. Foram eles Osvaldo Ardles, Hugo Assmann, Mario Casalla, Horacio Cerutti, Carlos Cullen, Julio de Zan, Enrique Dussel, Anbal Fornari, Daniel Guillot, Antnio Kinen, Rodolfo Kusch, Diego Pr, Agustn de la Riega, Arturo Roig e Juan Carlos Scannone. Veja-se, a propsito, a colectnea de Ardles et al., 973. Esta obra formula crticas originais e prope alternativas geopoltica racista do conhecimento e topologia do Ser, que sero alvo de uma investigao crtica no decorrer do presente artigo. O facto de a obra destes autores ter permanecido desconhecida durante tanto tempo , de algum modo, a demonstrao cabal de como problemtica a geopoltica.

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    Na sua globalidade, a metafsica imps uma fundamentao filosfica que passa pelo Centro. A teoria do conhecimento, em todas as suas formas, imps e continua a impor um Centro Esclarecido. A tica, por sua vez, impe um Centro atravs do qual os valores se fazem valer. (Agustn T. de la Riega, apud Ardles et al., 973: 26)

    . IntroduoTornou-se uma verdade corriqueira reconhecer que a teoria social sofreu, de um modo genrico, uma viragem espacial comparvel viragem lingus-tica sofrida pela filosofia ocidental. No campo da filosofia tambm esto a emergir, gradualmente, reflexes em torno do o modo como as ideias sobre a espacialidade modelaram o pensamento filosfico. Durante dema-siado tempo, a disciplina da filosofia agiu como se o lugar geopoltico e as ideias referentes ao espao no passassem de caractersticas contingentes do raciocnio filosfico. Evitando, e bem, o reducionismo das determina-es geogrficas, os filsofos tm tido tendncia para considerar o espao como algo demasiado simplista para ser filosoficamente relevante2. De facto, exigem outras razes relevantes para explicar a alergia ao espao enquanto factor filosfico provido de significado. H questes referentes ao espao e s relaes geopolticas que enfraquecem a ideia de um sujeito epistmico neutro, cujas reflexes no so mais do que a resposta aos constrangimentos desse domnio desprovido de espao que o universal. Tais questes tambm pem a descoberto as formas como os filsofos e os professores de filosofia tendem a afirmar as suas razes numa regio espiritual invariavelmente descrita em termos geopolticos: a Europa.3

    2 claro que existem excepes. Talvez a mais bvia delas seja Hegel, que combinou a tempora-lidade e a espacialidade na sua explicao do Esprito. certo que esse Esprito atingiu um clmax na Europa, tendo na Amrica um horizonte futuro (Hegel, 99). Para uma anlise crtica da perspectiva de Hegel acerca da Amrica, ver Casalla, 992. Para uma explicao alternativa da histria mundial oferecida a partir de um ponto de vista americano, ver Dussel, 995.3 Existem outras modalidades desta realidade. Munido de uma aguda percepo do firme vnculo da disciplina da filosofia Europa enquanto lugar epistmico, um grupo de jovens filsofos latino--americanos reuniu-se na Argentina na dcada de 70 do sculo XX, para debater a relevncia do espao na filosofia e a possibilidade de firmar a reflexo filosfica na Amrica Latina, e no na Europa (ver Nota ). Num gesto semelhante, em finais da dcada de 80 alguns filsofos dos Estados Unidos voltaram-se para o pragmatismo como forma de expressar uma filosofia norte-americana. No obstante os dois projectos partilharem com a filosofia europeia uma especial tendncia para buscar razes no destitudas de problemas, o grupo latino-americano tem revelado uma tendncia para ser mais cosmopolita do que o dos Estados Unidos o que se torna especialmente evidente na obra de Enrique Dussel. O grupo latino-americano tambm foi mais crtico em relao ao liberalismo do que o seu equivalente do Norte. Reflecti sobre alguns destes aspectos em Envisioning Postcolonial Philosophies in the Americas: the cases of pragmatism and Latin Amrica liberation

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    A ausncia de reflexes sobre a geopoltica e a espacialidade na produo de conhecimento vai a par com a falta de reflexo crtica quanto ao empe-nhamento da filosofia e dos filsofos ocidentais com a Europa enquanto local epistmico privilegiado.

    Embora a introduo da espacialidade como factor significativo na com-preenso da filosofia seja um importante avano para a disciplina, pode ser um passo limitado se promover a reafirmao de um novo sujeito epis-tmico neutro, capaz, por si s, de cartografar o mundo e estabelecer asso-ciaes entre pensamento e espao. Isto constitui um risco no apenas para a filosofia, mas tambm para a teoria social. A ideia no substituir a suposta neutralidade do filsofo pela imagem igualmente mtica do cart-grafo cientfico neutro. A introduo da espacialidade enquanto factor significativo na compreenso da filosofia e na produo da teoria social pode vir a ser o novo locus da ideia de um observador ou observadora distanciado(a) que s capaz de examinar as intrincadas relaes entre conhecimento e ideias de espao porque, no fundo, se encontra para l dessas relaes. minha convico que este tipo de crena na imparciali-dade tende, em ltima anlise, a reproduzir uma cegueira, no a respeito do espao enquanto tal, mas a respeito dos modos no-europeus de pensar e da produo e reproduo da relao colonial/imperial, ou daquilo a que, na esteira da obra do socilogo peruano Anbal Quijano, gostaria de designar por colonialidade.

    Este artigo concerne ao que denomino por esquecimento da colonialidade por parte tanto da filosofia ocidental como da teoria social contempornea. De facto, neste contexto s posso oferecer breves anlises, desejavelmente suficientes para clarificar quer as minhas crticas relativamente s tendncias modernas e contemporneas da filosofia e da teoria social, quer as minhas sugestes sobre como ultrapassar tais limitaes. Na primeira seco do artigo, procedo a uma anlise crtica de pensadores influentes da aludida viragem lingustica. Centro-me na relao entre a ontologia de Martin Heidegger e a tica metafsica de Emmanuel Lvinas. A minha inteno demonstrar que se, por um lado, a ontologia heideggeriana e a tica de Lvinas deram uma base slida viragem lingustica e forneceram meios engenhosos de ultrapassar os limites da ideia ocidental de Homem, por outro, as suas filosofias permaneceram cmplices de formaes espaciais de cariz imperial. As filosofias de um e outro encontram-se marcadas pelo

    thought (Para uma considerao das filosofias ps-coloniais nas Amricas: os casos do pragma-tismo e do pensamento da libertao latino-americano), apresentado na Sesso Plenria da Sociedade para o Avano da Filosofia Americana, em Denver, Colorado, em 5 de Maro de 2003. Algumas dessas ideias encontram-se em Maldonado-Torres, no prelo.

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    esquecimento da colonialidade. Na segunda seco, apresento um apanhado terico da colonialidade, relacionando-a com o conceito de modernidade. A estabeleo uma distino entre esta perspectiva crtica e as teorias crti-cas que concebem o global como uma rede ps-imperialista de relaes, nomeadamente a obra Imprio de Michael Hardt e Antonio Negri. Na terceira e ltima seces, proponho uma alternativa poltica de identidade ocidental tal como se encontra expressa no projecto da busca de razes no Ocidente. Em vez de legitimar a busca de razes europeias e norte-ameri-canas e a respectiva ligao com um ponto de vista pretensamente universal, irei defender uma noo de diversalidade radical. A diversalidade radical uma crtica das razes que pe a claro no s a colonialidade mas tambm o potencial epistmico das epistemas no-europeus.

    2. Entre Atenas e Jerusalm: Heidegger, Lvinas e a busca de razesA obra de Martin Heidegger ocupa um lugar central na lista de filsofos cujo trabalho influenciou a criao e propagao da perspectiva comum-mente conhecida como viragem lingustica, especialmente nas suas varian-tes hermenutica e desconstrucionista. Heidegger comeou por atingir notoriedade internacional quan