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Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Make peace not love Um defesa racional da paz para o conflito entre Israel e Palestina, partindo do pensamento e discurso de Amos Oz Diego Medrado de Souza - nº 46312 Mestrado em Cultura e Comunicação Docente: Teresa Cadete 1

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Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Make peace not loveUm defesa racional da paz para o conflito entre Israel e Palestina, partindo do pensamento e discurso de Amos Oz

Diego Medrado de Souza - n 46312Mestrado em Cultura e ComunicaoDocente: Teresa Cadete

Lisboa, 13 de janeiro de 2015

ndice Introduo------------------------------------------------------------------------------------ 3Contextualizao Histrica---------------------------------------------------------------- 3Background de Amos Oz----------------------------------------------------------------- 10Pensamento de Amos Oz----------------------------------------------------------------- 11Concluso---------------------------------------------------------------------------------- 14Bibliografia--------------------------------------------------------------------------------- 16Anexos-------------------------------------------------------------------------------------- 18

Palavras-chave: Conflito, Paz, Israel, Palestina, Amos Oz.

Introduo

Este trabalho pretende ser uma defesa racional da paz para o conflito entre Israel e Palestina, partindo do pensamento e discurso de Amos Oz. Para tal, apresentar-se- o background de Amos Oz e um conjunto de fragmentos dos seus discursos, especialmente em seu livro How to Cure a Fanatic, e tambm uma contextualizao histrica do conflito.

Contextualizao Histrica[footnoteRef:2] [2: - European Union. The Role of the EU in the Israel/Palestine Conflict in Context. QCEA, July 2011. - Palestina: Histria De Uma Terra. YouTube. FRANCE 3, 25 Oct. 2011. - Riversong, Robert. "An Illustrated History of Palestine." Turning the Tide, 05 Aug. 2014. - Naar, Ismaeel. "Interactive: #GazaUnderAttack." Al Jazeera. n.d.]

A Palestina pode ser, geograficamente, definida como uma regio do Mdio Oriente, entre o Mar Mediterrneo e o Rio Jordo, tendo fronteiras com o Sinai do Egito, a Jordnia, a Sria, o Lbano e a Arbia Saudita. Foi um dos primeiros lugares do mundo a ter comunidades agrcolas e civilizao, foi o bero das religies abramicas e tem uma histria longa e tumultuada, tendo sido dominada por diferentes povos como os antigos egpcios, os cananeus, os filisteus, os Tjekker, os antigos israelitas, os assrios, os babilnios, os persas, os gregos, os romanos, os bizantinos, os primeiros muulmanos (Umayads, abssidas, Seljuqs, Fatimids), os cruzados, os muulmanos posteriores (Ayyubids, Mameluks, otomanos), os britnicos, o Reino Hachemita da Jordnia (na Cisjordnia) e Egito (em Gaza), e os israelitas e os palestinos. Importante realar que do ponto de vista do controlo e domnio desta regio, quer os judeus quer os muulmanos, ambos representam apenas uma frao de tempo (por um lado, o domnio judeu, durante os Reinos de Saul, David, Salomo, dos Macabeus e do atual Estado de Israel e, por outro lado, o domnio muulmano, a partir do sculo VII com o califado de Umar, sucessor de Abu Bakr, sucessor de Maom). Alm disso, importante ressaltar que o povo judeu experimentou mais liberdade religiosa sob o domnio muulmano do que sob a maioria dos outros domnios, incluindo os assrios, os babilnios, os gregos, os romanos, os cruzados e os britnicos. A Prsia de Ciro tambm foi tolerante para com os judeus e a moderna Prsia (Iro) abriga a maior populao de judeus fora de Israel no Mdio Oriente, onde existe uma presena judaica h mais de 2700 anos e na altura da criao do Estado de Israel, em 1948, havia cerca de 140 mil judeus no Iro.Como foi mencionado, o Estado de Israel foi criado em 1948. Aps a Segunda Guerra Mundial, o mandato britnico na Palestina aproximava-se do fim. A soluo britnica de partilha do pas em dois estados independentes - um judeu e outro rabe, com um Regime Internacional Especial para a cidade de Jerusalm - foi aprovada pela Assembleia Geral das Naes Unidas em novembro de 1947, o que despoletou conflitos entre as comunidades judaica e rabe. A luta continua at hoje. No dia em que a Gr-Bretanha declarou que o seu mandato terminaria (14 de Maio 1948), o Yishuv[footnoteRef:3], liderado por David Ben-Gurion, publicou uma Declarao de Independncia, anunciando a criao do Estado de Israel. No dia seguinte, as tropas britnicas se retiraram e exrcitos rabes deslocaram-se para a Palestina a partir da Transjordnia, do Egito, do Lbano e da Sria, marcando o incio da guerra rabe-israelita de 1948-1949. [3: Yishuv uma palavra hebraica que significa literalmente assentamento". um termo que se refere aos assentamentos judeus existentes na Terra Santa antes da criao do Estado de Israel e que tambm usado para caracterizar, coletivamente, os seus residentes.]

Uma Comisso de Conciliao das Naes Unidas para a Palestina foi criada em 11 de dezembro de 1948 e em seu primeiro relatrio estimou que cerca de 711 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas durante a guerra. Em 7 de janeiro de 1949, um armistcio foi assinado entre Israel e Egito; Lbano, Jordnia e Sria nos meses seguintes. Com o armistcio, o controlo israelita do territrio passou a abranger trs quartos do Mandato da Palestina. O resto do territrio ficou sob o domnio da Jordnia (Cisjordnia) e Egito (Gaza).A Crise do Suez de 1956-7 foi o confronto que se seguiu entre os beligerantes da guerra de 1948. Em 26 de julho de 1956, o presidente egpcio, Nasser, nacionalizou o Canal do Suez. Israel invadiu o Sinai em outubro, mas um cessar-fogo foi declarado pelo primeiro-ministro britnico, em 6 de novembro, com o apoio da ONU. Assim, Israel retirou-se do Sinai em maro de 1957.Em 1967, Israel lanou trs ataques preventivos consecutivos sobre os exrcitos do Egito, da Jordnia e da Sria no que ficou conhecido como a Guerra dos Seis Dias, de 5 a 10 de junho. Israel ocupou a Cisjordnia, a Faixa de Gaza, as Colinas de Golan e Pennsula do Sinai (ver anexo 1). Em 11 de junho, um cessar-fogo foi assinado. As vtimas rabes superaram os 20 mil, enquanto menos de mil israelitas foram mortos. O territrio sob controlo israelita triplicou, mais de 300 mil palestinos fugiram da Cisjordnia, cerca de 100 mil srios deixaram Golan e, em contra partida, no mundo rabe, muitos judeus foram expulsos.Em 22 de novembro de 1967, o Conselho de Segurana das Naes Unidas aprovou a Resoluo 242 que procurou estabelecer as bases para uma soluo pacfica, obrigando a retirada de Israel dos territrios ocupados e o reconhecimento da soberania de cada Estado na regio. Como afirmou o Secretrio de Estado dos EUA William P. Rogers, em 9 de dezembro de 1969: We do not support expansionism. We believe troops must be withdrawn as the Resolution provides. We support Israel's security and the security of the Arab States as well. We are for a lasting peace that requires security for both. Israel rejeitou a resoluo, afirmando que no havia um verdadeiro acordo para a segurana e paz entre as fronteiras, nenhuma soluo para o problema dos refugiados, nem qualquer obrigao imposta aos Estados rabes que impedisse as suas hostilidades.Confrontados com a rendio incondicional ou a guerra, o Egito e a Sria comearam os preparativos, no vero 1972, para um ataque com o intuito de recuperar os territrios ocupados por Israel. A guerra de 1973, ou Yom Kippur War ou Ramadan War [footnoteRef:4] foi travada entre 6 e 25 de outubro. A guerra teve grandes implicaes. O mundo rabe, que havia sido humilhado na Guerra dos Seis Dias, se sentiu psicologicamente vingado pelos primeiros sucessos deste conflito. Israel, apesar de impressionantes realizaes operacionais no campo de batalha, comeou a perceber que no seria sempre capaz de dominar militarmente os estados rabes. [4: A guerra iniciou-se em Yom Kippur, o Dia da Expiao no judasmo e tambm durante o ms sagrado muulmano do Ramado.]

Essas mudanas levaram aos Acordos de Camp David, em 1978, a partir do qual Israel fez a paz com o Egito. Entretanto, s finalizou a sua retirada do Sinai em 1982 e manteve os outros territrios e a sua poltica de criao de assentamentos/colnias[footnoteRef:5], tornando-se uma eterna causa de conflito entre Israel e os palestinos. Por seu lado, desde os Acordos, o Egito saiu da esfera de influncia sovitica e "virou-se" para os EUA. [5: Alm disso, Israel anexou de facto a parte oriental de Jerusalm, inscrevendo, em 30 de julho de 1980, na sua Lei, "Jerusalm - Capital de Israel".]

A Primeira Intifada foi uma revolta palestina contra a ocupao israelita, que decorreu de 1987 at a Conferncia de Madrid, em 1991. A revolta explodiu quando um camio da IDF (Foras de Defesa de Israel - Tzahal) atingiu um carro civil, matando quatro palestinos. Em resposta houve greves gerais, boicotes, barricadas, ataques com pedras e coquetis molotov, desobedincia civil, recusa de trabalhar em assentamentos israelitas e de pagar impostos e de dirigir carros com licenas israelitas.O segundo dos Acordos de Camp David lidou com a questo da criao de um regime de autonomia na Cisjordnia e na Faixa de Gaza. Isto levou aos acordos de Oslo entre 1993 e 1995, e o Tratado de Paz Israel-Jordnia, de 1994. No entanto, Israel nunca deixou de expandir a sua presena na Cisjordnia e em Gaza com a criao de assentamentos (ver anexo 2 e 3), apesar das vrias resolues do Conselho de Segurana da ONU que condenavam a postura de Israel[footnoteRef:6]. [6: A Resoluo 446 da ONU afirma que the Geneva Convention relative to the Protection of Civilian Persons in Time of War of 12 August 1949, is applicable to the Arab territories occupied by Israel since 1967, including Jerusalem and () determines that the policy and practices of Israel in establishing settlements in the Palestinian and other Arab territories occupied since 1967 have no legal validity and constitute a serious obstruction to achieving a comprehensive, just and lasting peace in the Middle East.]

Depois de alguns anos de on-and-off negociaes, os palestinos comearam uma revolta contra Israel. Esta ficou conhecida como a Segunda Intifada, Al-Aqsa Intifada. Comeou em setembro de 2000, quando Ariel Sharon fez uma visita ao Monte do Templo, tendo sido interpretado pelos palestinos como um ato de provocao. Ambas as partes tiveram muitas vtimas, cerca de trs mil palestinos e mil israelitas, bem como 64 estrangeiros. Considera-se a cimeira Sharm el-Sheikh em 8 de fevereiro de 2005, o fim da Segunda Intifada, quando o presidente Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro Ariel Sharon concordaram em parar os atos de violncia e reafirmar o compromisso com o Roteiro Para a Paz. Os eventos foram destaque na mdia mundial devido aos atentados suicidas palestinos em Israel, que mataram muitos civis, e devido s invases de reas civis levadas a cabo pelas foras de segurana israelitas[footnoteRef:7]. [7: Em 2002, Israel comeou a construir uma barreira de segurana para impedir ataques a partir da Cisjordnia. Em 9 de julho de 2004, o Tribunal Internacional de Justia emitiu um parecer consultivo intitulado "Consequncias Legais da Construo de um Muro no Territrio Palestino". O Tribunal decidiu, por catorze votos a favor e um contra, que a construo do muro e o seu regime associado so contrrios ao direito internacional.]

Aps a ecloso da Segunda Intifada, um "Quarteto" foi criado em 2002. Consiste em quatro grandes atores internacionais que devem ter um papel relevante para a soluo do conflito: os Estados Unidos, a Unio Europeia, as Naes Unidas e a Rssia. O Quarteto produziu um "Roteiro" no incio de 2003, com o objetivo de ser um guia para uma soluo permanente, de dois Estados, negociando o fim da ocupao que comeara em 1967. Em agosto de 2005, Israel evacuou e destruiu os seus assentamentos em Gaza, e quatro assentamentos no norte da Cisjordnia, como parte da Lei de Implementao do Plano de Retirada, de Ariel Sharon.No incio, a retirada foi vista como uma vitria da resistncia palestina, mas pode ser interpretada como uma estratgia que visava manter o controlo, evitando que ataques areos israelitas (como a Operation Cast Lead) atingissem judeus. Alm disso, Israel continua a ver a questo dos refugiados como um problema a ser resolvido fora das suas fronteiras e que no est relacionado com os assentamentos[footnoteRef:8]. [8: Em julho de 2012, cerca de 350 mil colonos judeus viviam nos 121 assentamentos reconhecidos oficialmente na Cisjordnia; 300 mil israelitas viviam em assentamentos em Jerusalm Oriental e mais de 20 mil nas Colinas de Golan. ]

Em 25 de janeiro de 2006, realizaram-se eleies para o Conselho Legislativo da Palestina, na qual o Hamas reivindicou uma vitria decisiva. Houve uma tentativa de criao de um governo de unidade entre o Hamas e o Fatah, entretanto, Abbas, do Fatah, no deixou o poder na Cisjordnia - o que levou ao posterior conflito entre Hamas e Fatah. Este resultado levou Israel, os Estados Unidos e o Quarteto, a exigirem que o Hamas reconhecesse a soberania de Israel. O Hamas recusou, e houve mais um corte s ajudas humanitrias destinadas Autoridade Palestina. Depois de um prolongado conflito entre Hamas e Fatah, em junho de 2007 o presidente Abbas[footnoteRef:9] demitiu oficialmente o debilitante governo de unidade e o Hamas assumiu o controlo da Faixa de Gaza, enquanto Abbas permaneceu na Cisjordnia. Aps esta deciso, o Governo de Israel imps um bloqueio por terra, ar e mar em Gaza, apoiado pelas autoridades egpcias do lado Rafah. Como resultado, as operaes normais da Misso de Assistncia Fronteiria da UE foram fechadas. Durante o perodo subsequente, houve uma troca de ataques de foguetes do Hamas e ataques areos da IDF. [9: O mandato de Abbas (do partido Fatah) como presidente expirou em 15 janeiro de 2009, desde ento Duwaik (do partido Hamas) foi reconhecido como presidente pelo governo Haniyeh da Faixa de Gaza, enquanto Abbas reconhecido como presidente pelo governo Fayyad, na Cisjordnia.]

Em 27 de dezembro de 2008, as foras israelitas lanaram uma campanha de bombardeio sobre Gaza, intitulada Cast Lead. Esta campanha deixou 1400 palestinos mortos e grandes reas de Gaza destruda. Em maio de 2010, uma frota de barcos que transportava ajuda humanitria e materiais de construo tentou navegar para Gaza para romper o bloqueio. O encontro foi organizado pelo movimento "Free Gaza" e a ONG turca IHH (Fundao para os Direitos Humanos e Liberdades e Ajuda Humanitria). Em 31 de maio, a marinha israelita realizou um ataque esta frota, levando morte de nove participantes e o ferimento de dezenas de outros, incluindo sete comandos israelitas. Um clamor internacional generalizado levou o governo israelita a anunciar uma flexibilizao limitada do bloqueio.Na Assembleia-Geral das Naes Unidas, uma resoluo intitulada "resoluo pacfica da questo da Palestina" foi aprovada todos os anos desde 1993. Esta resoluo exige a retirada israelita dos territrios ocupados em 1967. O padro de votao sobre esta resoluo mudou pouco ao longo do tempo. Em 2010, o resultado foi de 165 votos a favor e 7 contra (EUA, Israel, Ilhas Marshall, Micronsia, Palau, Nauru e Austrlia), com 4 abstenes (Camares, Canad, Costa do Marfim e Tonga). Em 2012, 163 a favor e 6 contra (EUA, Israel, Ilhas Marshall, Micronsia, Palau e Canada), com 5 abstenes (Austrlia, Camares, Honduras, Papua Nova Guin e Tonga).Em 29 de novembro de 2012, com 138 votos a favor e 9 contra (41 abstenes), a resoluo 67/19 da Assembleia Geral da ONU foi aprovada, atualizando o status da Palestina para "Estado observador no-membro"[footnoteRef:10] (o mesmo status da Santa S). A partir de fevereiro de 2013, 131 dos 193 Estados membros reconheceram o Estado da Palestina (incluindo Portugal). [10: O status de Estado observador na ONU possibilita a participao em organizaes internacionais, como a Organizao Internacional da Aviao Civil e o Tribunal Penal Internacional. Permite ainda a reivindicao de direitos legais sobre guas territoriais e espao areo e o direito de levar ao Tribunal Internacional de Justia processos contra atos de invaso territorial.]

Um acordo de reconciliao foi assinado no Cairo, em 2011, e foi ratificado pelo Hamas e pelo Fatah em Doha, em 2012. Entretanto a implementao foi adiada devido a novas tenses entre os dois partidos, alm dos efeitos da Primavera rabe e da crise na Sria. Aps o colapso das negociaes de paz israelo-palestinianas em 2014, Mahmoud Abbas decidiu forjar um novo acordo com o Hamas. O Hamas concordou em reconciliar-se com o Fatah, pois estava numa situao crtica: enfraquecimento da sua aliana com a Sria e com o Iro; perda de poder da Irmandade Muulmana no Egito, depois do coup d'tat; bem como o impacto econmico do encerramento de seus tneis de Rafah, por Abdel Fattah el-Sisi, em 23 de abril de 2014. Sendo assim, esse governo de unidade palestino foi empossado em 2 de junho de 2014.Entretanto, Israel culpou o Hamas pelo sequestro, em 12 de junho, de trs israelitas na Cisjordnia. Por isso, em 8 de julho, Israel lanou a operao militar Protective Edge, em Gaza. Sete semanas de bombardeios israelitas e contra-ataques de foguetes palestinos mataram cerca de 2 mil pessoas. O objectivo da operao israelita era parar o lanamento de foguetes do Hamas. Em 26 de agosto, um cessar-fogo foi anunciado. A guerra resultou na morte de dois civis israelitas, um trabalhador tailands e 64 soldados da IDF. Em Gaza, houve cerca de 10 mil feridos e 1900 mortos, incluindo mais de 1600 civis (cerca de 400 crianas). O bombardeio da IDF tambm danificou ou destruiu mais de 14 mil casas palestinas, 141 escolas, 26 centros mdicos e sete abrigos da ONU, assim como grande parte da infra-estrutura de esgotos, de eletricidade e de gua.Desde ento, a situao em Gaza e na Cisjordnia insuportvel. Segundo Avi Issacharoff[footnoteRef:11], neste ms de janeiro de 2015, dozens of houses throughout the Gaza Strip were flooded by rainwater. Three babies froze to death. The humanitarian conditions continue to be bad, perhaps the worst in the past two decades, due to the withholding of the salaries of PA and Hamas employees. And yet, amid all the tumult, Hamas (the same organization that condemned the Charlie Hebdo attack in Paris) found the time to clash with the Palestinian Authority and Fatah. [11: Avi Issacharoff o especialista em assuntos do Mdio Oriente do The Times of Israel. At 2012, foi reprter e comentarista de assuntos rabes para o jornal Haaretz. Tambm ensina histria moderna da palestina na Universidade de Tel Aviv. Nasceu em Jerusalm, fluente em rabe, formou-se em estudos do Mdio Oriente e foi o correspondente da rdio pblica israelita na cobertura do conflito israelo-palestiniano, entre 2003-2006.]

Alm disso, a deciso de Israel de congelar a transferncia de recursos tributrios para a Autoridade Palestina (em resposta ao movimento de Abbas para aderir ao Tribunal Penal Internacional) est a impedir o pagamento de salrios aos seus trabalhadores na Cisjordnia e em Gaza. Entre o pblico palestino, a animosidade contra Israel est aumentando e a motivao de Abbas em cooperar com as foras de segurana de Israel est enfraquecendo. Portanto, se as condies de vida deplorveis dos palestinianos persistirem; se o constante atrito entre Hamas e Fatah continuar[footnoteRef:12]; se o Hamas deixar de ter capacidade de financiamento; e se a comunidade internacional ficar de braos cruzados; ento, teremos perante nossos olhos a terceira intifada. [12: Como afirma Hazem Balousha, do Al Monitor, Lost in the midst of the continued political bickering between Hamas and Fatah, which seem to prioritize party interests, are the Palestinian people, and more specifically, the Gazans who cry in vain for assistance from a political elite that is deaf to their pleas.]

Background de Amos Oz

Amos Oz nasceu em Jerusalm, em 1939. um dos mais importantes escritores israelitas da atualidade[footnoteRef:13] e tambm romancista, jornalista e intelectual. Leciona literatura na Universidade Ben-Gurion em Beersheba e foi o co-fundador do movimento pacifista Shalom Achshav (Paz Agora). [13: Oz j escreveu 38 livros (13 romances, quatro colees de contos e novelas, nove livros de artigos e ensaios, e livros infantis) e ainda cerca de 450 artigos e ensaios.]

Os seus pais[footnoteRef:14] chegaram na Palestina em 1933, vindos de Vilnius, depois de terem vivido em Odessa. Apesar de muitos dos membros de sua famlia serem da direita revisionista e sionista, os seus pais no eram religiosos. Mesmo assim, Oz frequentou a escola religiosa Tchachmoni. [14: Os pais de Oz eram multilngues (seu pai lia em 16 idiomas, enquanto sua me em 7), mas nenhum falava bem o hebraico. Entre eles falavam em polons e em russo, embora o hebraico foi a lngua que Oz teve que aprender. Seu pai estudou histria e literatura na Polnia, mas trabalhou a maior parte de sua vida na Biblioteca Nacional e Universitria Judaica. Sua me estudou histria e filosofia na Universidade Charles, em Praga e por sofrer de depresso, cometeu suicdio quando Oz tinha apenas 12 de idade. Oz viria a explorar as repercusses deste evento em seu livro de memrias A Tale of Love and Darkness.]

A partir de 1960, durante o seu estudo de Literatura e Filosofia na Universidade Hebraica de Jerusalm, os seus primeiros contos foram publicados. Formou-se em 1963 e comeou a trabalhar como professor de literatura e filosofia. Ainda participou na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom-Kippur (1973).Desde 1967, tem sido um proeminente defensor de uma soluo de dois Estados para o conflito entre Israel e Palestina e, por esta razo, na dcada de 1970, foi um dos fundadores do movimento pacifista Shalom Achshav [footnoteRef:15]. [15: Segundo o prprio site da organizao, os seus principais objetivos so: to promote peace and democracy through education of the Israeli public and concerned citizens worldwide [and] to inspire the public to take part in developing initiatives that will both support long-term peace promotion and remove existing obstacles to a politically negotiated two-state solution.]

Em 1991, foi eleito membro da Academia de Letras Hebraicas. Tambm recebeu muitas outras distines: em 1992, recebeu o Prmio de Frankfurt pela Paz e ganhou o Prmio Israel, o mais prestigioso do pas; em 1998, recebeu o Prmio Femina em Frana; em 2002, foi indicado para o Prmio Nobel de Literatura; em 2004, recebeu o Prmio Internacional Catalunya, ao lado do pacifista palestino Sari Nusseibeh; em 2005, recebeu o prmio Goethe; e em 2007, recebeu o Prmio Prncipe das Astrias de letras.

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Pensamento de Amos Oz

Em seu ensaio, How to Cure a Fanatic, Oz argumenta que o conflito israelo-palestiniano no uma guerra de religio ou de culturas, mas sim uma disputa territorial que ser resolvida no pela compreenso e amor entre as partes, mas por um profundo e doloroso compromisso de paz. Comea por dizer o seguinte:

The Israeli-Palestinian conflict is not a Wild West movie. It is not a struggle between good and evil, rather it is a tragedy in the ancient and most precise sense of the word: a clash between right and right () The Palestinians are in Palestine because Palestine is the homeland, and the only homeland, of the Palestinian people. () The Israeli Jews are in Israel because there is no other country in the world that the Jews, as a people, as a nation, could ever call home.

Alm disso, tal como os judeus, os palestinos no foram aceites em outras terras:

The Palestinians have tried, unwillingly, to live in other Arab countries. They were rejected, sometimes even humiliated and persecuted by the so-called Arab family. They were made aware in the most painful way of their Palestinianness; () The Jews were kicked out of Europe. Just like the Palestinians were first kicked out of Palestine and then out of the Arab countries, or almost.

Devido sua profundidade e ao seu enraizamento, no podemos comparar este conflito com qualquer outro, nem procurar solues com uma viso eurocntrica:

This is based on the widespread sentimental European idea that every conflict is essentially no more than a misunderstanding. A little group therapy, a touch of family counseling, and everyone will live happily ever after. Well, first, I have bad news for you: Some conflicts are very real; they are much worse than a mere misunderstanding. And then I have some sensational news for you: There is no essential misunderstanding between Palestinian Arab and Israeli Jew. The Palestinians want the land they call Palestine. They have very strong reasons to want it. The Israeli Jews want exactly the same land for exactly the same reasons, which provides for a perfect understanding between the parties, and for a terrible tragedy.

Por fim, ainda em relao a este livro, podemos verificar a beleza, o humor e a subtileza da linguagem de Oz ao longo de todo o texto. Cito o seguinte: () Im all for it, especially if it is Arabic coffee, which is infinitely better than Israeli coffee. But drinking coffee cannot do away with the trouble. No mesmo sentido, encontramos no seguinte excerto uma observao comum nos discursos de Oz sobre a maneira de ser dos israelitas:

"Israel isnt a monolithic state. We have eight million people, which means eight million prime ministers and eight million saviors and Messiah. Its almost impossible to find two Israelis who agree on what needs to be done. Thats no surprise since its even hard to find an Israeli who even agrees with himself. Were very pluralistic. We count pacifists and fanatics, extremists and moderates.[footnoteRef:16] [16: Oz, Amos. "Make Peace Not Love." Interview by Constanze Reuscher. Eastonline, Nov. 2012.]

Oz visto como um porta-voz eloquente da esquerda sionista[footnoteRef:17], opondo-se veemente aos assentamentos israelitas, apoiando as negociaes com a Organizao para a Libertao da Palestina e defendendo uma soluo de dois Estados, como verificamos na seguinte frase: My suggestion is a two-state solution and coexistence between Israel and the West Bank: two capitals in Jerusalem, a mutually agreed territorial modification, removal of most of the Jewish settlements from the West Bank.[footnoteRef:18] [17: O que distingue o sionismo trabalhista de esquerda dos outros no a poltica econmica, ou a viso sobre o capitalismo ou a perspectiva socialista do mundo, mas, duma forma geral, a sua atitude em relao ao processo de paz no conflito israelo-palestiniano.] [18: Gourevitch, Philip. "An Honest Voice in Israel." The New Yorker. 2 Aug. 2014.]

Segundo Oz, Israel e a comunidade internacional devem ter uma posio firme contra o programa nuclear iraniano, mas ope-se a qualquer ataque:

Iran is run by a fanatical regime that openly seeks to destroy Israels statehood, to literally eliminate it. ()I personally oppose a preemptive strike because I dont see it practicable. The Iranians have the know-how to build nuclear weapons, and you cant bomb away knowhow. So this is a problem for the entire international community, and not just Israel.15

Ao contrrio da atitude cautelosa em relao ao Iro, Oz sempre defendeu que a comunidade internacional deveria ter uma posio mais efetiva em relao Sria: () should it just sit around as the regime of al-Assad spills the blood of citizens each and every day? When a system starts killing hundreds of people, its time for the rest of the world to take action.[footnoteRef:19] [19: Oz, Amos. "Make Peace Not Love." Interview by Constanze Reuscher. Eastonline, Nov. 2012.]

Ele no contra a contnua construo da barreira israelita na Cisjordnia, mas considera que deveria ser ao longo da Linha Verde, a fronteira pr-1967. Alm disso, defende que Jerusalm deveria ser dividida em numerosas zonas e no apenas em uma zona judia e outra palestina, mas sim, uma para a ortodoxia oriental, outra para os hassdicos, uma zona internacional, etc. No foi contra a Segunda Guerra do Lbano em 2006, porque para ele no havia reivindicaes territoriais de ambos os lados e porque era uma tentativa israelita de auto-defesa contra o Hezbollah e no contra os civis libaneses.[footnoteRef:20] [20: Inicialmente, Oz expressou o seu apoio inequvoco a um ato militar de auto-defesa, mas depois mudou a sua posio em face da deciso do governo em avanar com novas operaes militares no Lbano. O mesmo aconteceu no incio do conflito entre Israel e Hamas, em Gaza, entre 2008 e 2009.]

Entretanto, sempre preconiza o uso da no-violncia para resoluo dos problemas, como podemos verificar neste trecho:

For 2000 years, the Jews knew the force of force only in the form of lashes to our own backs. For several decades now, we have been able to wield force ourselves and this power has, again and again, intoxicated us. ()But ever since the Six-Day War in 1967, Israel has been fixated on military force. To a man with a big hammer, says the proverb, every problem looks like a nail.() Every attempt to use force not as a preventive measure, not in self-defense, but instead as a means of smashing problems and squashing ideas, will lead to more disasters[footnoteRef:21] [21: Oz, Amos. "Israeli Force, Adrift on the Sea." The New York Times, 01 June 2010.]

E acredita que para existir paz no Mdio Oriente preciso que o primeiro ministro de Israel, Netanyahu, procure aliados regionais: Theres Arab proverb: Never applaud with one hand. 18

Por fim, cito este sublime gesto de Oz que, em maro de 2011, enviou uma cpia de seu livro, A Tale of Love and Darkness, traduzido em rabe, para o preso Marwan Barghouti, ex-lder do Tanzim (um ramo armado do Fatah). No livro estava a seguinte dedicatria em hebraico:

This story is our story, I hope you read it and understand us as we understand you, hoping to see you outside and in peace, yours, Amos Oz[footnoteRef:22] [22: "Amos Oz Calls for Barghouti's Release in Book Dedication." The Jerusalem Post, 15 Mar. 2011.]

Concluso

A beleza da argumentao de Oz est no facto de ele procurar uma soluo para o presente, caminhando com os ps bem firmes na terra, mas sem perder de vista o sonho da paz. Pelo contrrio, os seus adversrios tendem a fixar-se no passado, apontando o dedo sem desenvolver solues aplicveis, sem uma viso para frente e para as prximas geraes. Como foi dito, o Fatah e o Hamas so dois protagonistas essenciais nesta histria. Infelizmente, esto constantemente em discusses secundrias e no tm um projeto para a posteridade. Como vimos, o Hamas venceu a eleio de 2006, mas Abbas impediu o Hamas de exercer o seu poder. Ento o Hamas expulsou Abu Mazen de Gaza. Entretanto, Abbas manteve a Cisjordnia. Sabemos que o mandato de Mahmoud Abbas e o mandato do Hamas expiraram h quatro anos. Ainda no houve eleies, pois Abu Mazen sabe que o Hamas ir ganhar novamente e, assim, o seu partido Fatah deixar de ter poder efetivo, perdendo parte significativa do seu financiamento. No mesmo sentido, o Hamas no vai abrir mo do controlo das fronteiras de Gaza, porque perderia a fonte do seu financiamento e se porventura houvesse paz, o Hamas perderia o poder e a sua prpria existncia seria posta em causa. No h, portanto, governo de unidade na Palestina e no h um esforo conjunto para encontrar uma soluo pacfica para os problemas. Neste contexto, Israel lava as suas mos sujas de sangue, enquanto recebe o dinheiro e o suporte americano. Para corroborar esta ideia, apresento a seguinte frase de Oz:

() Hamas is not just a terrorist organization. Hamas is an idea, a desperate and fanatical idea that grew out of the desolation and frustration of many Palestinians. No idea has ever been defeated by force - not by siege, not by bombardment, not by being flattened with tank treads and not by marine commandos. To defeat an idea, you have to offer a better idea, a more attractive and acceptable one.[footnoteRef:23] [23: Oz, Amos. "Israeli Force, Adrift on the Sea." The New York Times, 01 June 2010.]

Por fim, podemos concluir que os israelitas e os palestinianos tm razo para se auto governarem, mas no h nenhuma razo para a guerra. O sculo XXI deve ser lembrado como a poca da construo de pontes e no de muros. Chegou a altura de defendermos verdadeiramente a paz, seguindo o exemplo de Amos Oz, porque na guerra no h vencedores nem vencidos; a guerra uma derrota da inteligncia humana.

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Anexo 118

Anexo 2Anexo 3