khalil gibran - "o profeta"

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"The Prophet (O Profeta em português) é a obra mais conhecida de Khalil Gibran.[1] O Profeta começa com a chegada do navio que deveria reconduzir Al Mustafá à sua terra natal. Do alto do monte ele o vê por entre as brumas e a sua imensa alegria se mistura à grande tristeza de deixar a cidade de Orphalese. E quando entrou na cidade o povo inteiro o recebeu chamando o seu nome em altas vozes, passando de boca em boca, que vira o seu navio no mar. E os anciãos lhe pediram, não nos deixes ainda... Al Mustafá se dirige à praça do mercado, e todos um a um vão lhe pedindo para ficar. E pediram-lhe para os ensinar ainda e ele começou dizendo: Povo de Orphalese, o que poderia lhes falar senão do que está agora movendo dentro de vossas almas? E assim vai descortinando a beleza das ideias sobre os filhos, a dádiva, a religião, o prazer, o amor, o trabalho e muito mais. Em O Profeta cada ideia se revestindo de uma imagem transforma-se em parábola http://www.clube-positivo.com/livros/livros.htm

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  • Khalil Gibran

  • 1

    A Chegada do Navio

    lmustafa, o escolhido e bem amado, que era aurora do seu prprio dia, esperara doze anos na cidade de Orfals pelo navio que havia de o recolher e levar de volta sua ilha natal.

    E no dcimo segundo ano, no stimo dia de Eilul, o ms das colheitas, subiu

    colina sem muralhas e ps-se a olhar para o mar; e viu o seu navio aparecer com a bruma.

    Ento as portas do seu corao abriram-se e a sua alegria voou longe sobre o

    mar. E ele fechou os olhos e orou no silncio da sua alma. Mas enquanto descia a colina, apoderou-se dele uma grande tristeza e pensou

    com o corao:

    Como poderei partir em paz e sem mgoa? No, no vou sair da cidade com uma ferida no esprito.

    Muitos foram os dias de dor que passei dentro das suas muralhas, e muitas

    foram as noites de solido; e quem pode separar-se da dor e da solido sem mgoa?

    Espalhei demasiados fragmentos do esprito por estas ruas, e muitos so os

    filhos da nostalgia que caminham nus por estas colinas, e no posso afastar-me deles sem peso nem dor.

    No a roupa que hoje dispo, mas uma pele que arranco com as minhas

    prprias mos.

  • 2

    Nem um pensamento que deixo atrs de mim, mas um corao tornado doce pela fome e pela sede.

    No entanto, no posso demorar-me mais. O mar que chama todas as coisas, chama-me tambm e tenho de embarcar. Pois ficar, embora as horas escaldem na noite, gelar e cristalizar e perder-

    me numa forma. De bom grado levaria tudo o que aqui se encontra. Mas como o poderei

    fazer? Uma voz no pode transportar a lngua e os lbios que lhe deram asas. Terei

    de procurar sozinho o etreo. E solitria e sem ninho a guia atravessar o sol. Quando chegou ao fundo da colina, voltou-se para o mar e viu o seu navio

    aproximar-se do porto, e na proa os marinheiros, os homens da sua ptria. E a sua alma gritou-lhes e ele disse: Filhos da minha velha me, vs, cavaleiros das mars, Quantas vezes velejastes nos meus sonhos. Agora apareceis no meu

    despertar, que o meu sonho mais profundo. Pronto estou eu para ir, e a minha nsia pelas velas desfraldadas aguarda o

    vento. S respirarei mais uma vez neste ar imvel, s mais um olhar de amor para

    trs, E ento encontrar-me-ei entre vs, um marinheiro entre marinheiros. E, enquanto caminhava, avistou ao longe homens e mulheres que saam dos

    campos e das vinhas e se apressavam em direco aos portes da cidade.

    E ouviu as suas vozes chamarem-lhe o nome, gritando de campo para campo, anunciando uns aos outros a chegada do navio.

  • 3

    E disse para consigo: Ser o dia da partida o dia da reunio? E poder em verdade ser dito que a minha noite foi a minha aurora? E que darei quele que deixou a charrua a meio de um sulco ou quele que

    fez parar a roda do seu lagar? Tornar-se- o meu corao uma rvore carregada de frutos que eu possa

    reunir para Ihes dar? E conseguiro os meus desejos fluir como uma fonte para que eu possa

    encher-lhes os clices? Sou uma harpa que a mo dos poderosos pode tocar, ou uma flauta cujo

    sopro passa por mim? Sou aquele que procura os silncios, e que tesouros encontrei nos silncios

    que possa dispensar com confiana? Se este o dia da minha colheita, em que campos espalhei a semente, e em

    que esquecidas estaes? Se esta verdadeiramente a hora em que erguerei a minha lanterna, no a

    minha chama que l ir arder. Erguerei a minha lanterna vazia e escura. E o guardio da noite ench-la- de petrleo e alumi-la-. Estas coisas disse ele em palavras. Mas muito no seu corao ficou por dizer.

    Porque ele prprio no podia falar do seu segredo mais profundo. E quando entrou na cidade todos vieram ter com ele, e todos choravam a uma

    s voz. E os ancios da cidade avanaram e disseram: No te apartes ainda de ns. Tu foste o sol do meio dia no nosso crepsculo, e a tua juventude deu-nos

    sonhos para sonhar.

  • 4

    No s nenhum estranho entre ns, nem um hspede, mas nosso filho eleito e adorado.

    Que os nossos olhos no sofram ainda por deixar de te ver. E os sacerdotes e sacerdotisas disseram-lhe: No deixes que as ondas do mar nos separem agora, e que os anos que

    passaste entre ns se transformem numa recordao. Caminhaste entre ns como um esprito, e a tua sombra tem iluminado os

    nossos rostos. Muito te temos amado. Mas o nosso amor era sem palavras, e coberto com

    vus. E agora grita bem alto e desvenda-se perante ti. que o amor s conhece a sua profundidade na hora da separao. E outros chegaram e com ele falaram. Mas ele no lhes respondeu. Limitou-se a curvar a cabea; e aqueles que se

    encontravam perto viram as lgrimas cairem-lhe sobre o peito. E ele e os outros dirigiram-se para a grande praa frente ao templo. E do santurio saiu uma mulher que se chamava Almitra e era vidente. E ele olhou-a com grande ternura, pois fora ela a primeira que acreditara nele

    quando estava na cidade havia s um dia. E ela disse-lhe: Profeta de Deus, na busca do supremo, muito procuraste as distancias do teu

    navio. E agora o teu navio chegou e tu tens de ir. Profunda a nsia pela terra das tuas memrias e pelo paradeiro dos teus

    maiores desejos; e o nosso amor no te vai reter, nem as nossas necessidades te prendero.

  • 5

    E agora que vais partir pedimos-te que fales connosco e nos reveles a tua verdade.

    E ns pass-la-emos aos nossos filhos, e eles aos filhos deles e ela nunca

    morrer. Na tua solido observaste os nossos dias, e no teu despertar ouviste o choro e

    o riso do nosso sono. Agora revela-te a ns, e diz-nos o que te foi mostrado e que existe entre o

    nascimento e a morte. E ele respondeu: Povo de Orfals, de que vos poderei falar, excepto daquilo que agora se est

    a passar na nossas almas?

  • 6

    Sobre o Amor

    nto Almitra disse, fala-nos do Amor. E ele ergueu a cabea e olhou para o povo e caiu uma grande imobilidade

    sobre eles. E em voz poderosa ele disse: Quando o amor vier ter convosco, Seguros embora os seus caminhos sejam rduos e sinuosos. E quando as suas asas vos envolverem, abraai-o, embora a espada oculta sob

    as asas vos possa ferir. E quando ele falar convosco, acreditai, Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte

    devasta o jardim. Pois o amor, coroando-vos, tambm vos sacrificar. Assim como para o

    vosso crescimento tambm para a vossa decadncia. Mesmo que ele suba at vs e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao

    sol, Tambm at s razes ele descer e aban-las- Enquanto elas se agarram terra. Como molhos de trigo ele vos junta a si. Vos amanha para vos pr a nu.

  • 7

    Vos peneira para vos libertar das impurezas. Vos mi at alvura. Vos amassa at vos tomardes moldveis; E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para que vos tomeis po sagrado

    para a sagrada festa de Deus. Toda estas coisas vos far o amor at que conheais os segredos do vosso

    corao, e, com esse conhecimento, vos tomeis um fragmento do corao da Vida.

    Mas se, receosos, procurardes s a paz do amor e o prazer do amor, Ento melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor, Para o mundo sem sentido onde rireis, mas no com todo o vosso riso, e

    chorareis mas no com todas as vossas lgrimas. O amor s se d a si e no tira nada seno de si. O amor no possui nem possudo; Pois o amor basta-se a si prprio. Quando amardes no deveis dizer "Deus est no meu corao", mas antes

    "Eu estou no corao de Deus". E no penseis que podeis alterar o rumo do amor, pois o amor, se vos achar

    dignos, dirigir o seu curso. O amor no tem outro desejo que o de se preencher a si prprio. Mas se amardes e tiverdes desejos, que sejam esses os vossos desejos: Fundir-se e ser como um regato que corre e canta a sua melodia para a noite. Para conhecer a dor de tanta ternura. Ser ferido pela vossa prpria compreenso do amor;

  • 8

    E sangrar com vontade e alegremente. Despertar de madrugada com um corao alado e dar graas por mais um dia

    de amor; Repousar ao fim da tarde e meditar sobre o xtase do amor; Regressar a casa noite com gratido; E depois adormecer com uma prece para os amados do vosso corao e um

    cntico de louvor nos vossos lbios.

  • 9

    Sobre o Casamento

    nto Almitra falou novamente e disse,

    E quanto ao casamento, Mestre? E ele repondeu, dizendo: Nascestes juntos, e juntos ficareis para sempre. Estareis juntos quando as asas brancas da morte acabarem com os vossos

    dias. Ah, estareis juntos mesmo na memria silenciosa de Deus. Mas que haja espaos na vossa unio e que os ventos celestiais possam

    danar entre vs. Amai-vos um ao outro, mas no faais do amor uma priso; Deixai antes que seja um mar ondulante entre as margens das vossas almas. Enchei a taa um do outro mas no bebais de uma s taa. Parti o vosso po ao meio mas no comais do mesmo po. Cantai e danai juntos, mas deixai que cada um de vs fique sozinho. Como as cordas de uma lira esto sozinhas embora vibrem ao som da mesma

    msica.

  • 10

    Entregai os vossos coraes mas no ao cuidado um do outro. Pois s a mo da Vida pode conter os vossos coraes. E ficai juntos mas no demasiado juntos: Pois os pilares do templo esto afastados, e o carvalho e o cipreste no

    crescem sombra um do outro.

  • 11

    Sobre as Crianas

    epois, uma mulher que trazia uma criana ao colo disse, Fala-nos das Crianas.

    E ele respondeu: Os vossos filhos no so vossos filhos. So os filhos e as filhas da Vida que anseia por si mesma. Eles vm atravs de vs mas no de vs. E embora estejam convos