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  • Sentido em deriva Obras da Coleo da Caixa Geral de Depsitos

    CULTURGEST 12 outubro 2013 12 janeiro 2014

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  • Pedro Diniz Reis, AA-ZZ, 2011

    Na capa: Susanne Themlitz, Oh la la oh la balanoire/Microcosmos tentacular, 2004 (pormenor da instalao)

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  • A exposio a organizao da experincia. Na sua dimenso estrutural, a exposio o resultado de um conjunto de decises que confluem no estabelecimento de uma teia de relaes materiais, espaciais e intelectuais que sustentam a experincia do espectador e sobre as quais esta se articula. Nos melhores

    casos, a exposio algo mais do que a soma dos objetos que nela participam um fluxo que otimiza

    a condio polissmica das obras de arte, que as pe

    em dilogo, em tenso ou em confronto, facilitando dinmicas que elevam a experincia a patamares partida insuspeitos. Nos piores casos, ela o lugar da instrumentalizao do trabalho dos artistas a favor de uma noo preconcebida, frequentemente alheia natureza das obras e ancorada em estratgias

    discursivas que se bastam e se esgotam em si mesmas. Neste sentido, a construo de uma exposio assemelha se a um cuidadoso jogo de distncias e

    limites sejam eles fsicos, operativos ou conceptuais

    cujo objetivo passa por defender a singularidade das

    obras, potenciar a sua convivncia num determinado

    espao, e oferecer ao espectador um campo franco para a sua subjetividade.

    Esta exposio sobre a organizao da experincia. esse o seu tema. Mais concretamente, esta exposio um exerccio sobre a possibilidade de

    desvendar na singularidade das obras da Coleo da

    Caixa Geral de Depsitos a rede secreta da sua mais

    frutfera convivncia. Todavia, a concretizao deste

    exerccio aparentemente simples implica, primeiramente, reconhecer o dilema com que se depara a

    maioria das instituies artsticas a operar no espao

    ocidental, e que diz respeito ao modo como elas se posicionam perante o desafio inerente conceo de

    qualquer exposio coletiva e, particularmente, conceo de exposies coletivas que incidem sobre

    as suas respetivas colees. A enunciao do dilema simples, e Nicholas Serota, atual diretor da Tate

    Modern, sintetizou o no ttulo de uma importante

    comunicao datada de 1996: experincia ou interpretao?1 Ainda que o enunciado seja simples, o mesmo

    no se pode dizer da sua resoluo. Porque o que est em causa neste dilema no meramente uma escolha de ordem prtica ou formal; o que est em

    causa todo um programa ideolgico que no apenas

    determina o modo como acedemos aos fenmenos

    culturais e os experienciamos, mas que igualmente prescreve a norma da sua posterior transformao e multiplicao.

    A conscincia pblica acerca do poder que a

    exposio detm na experincia e na atribuio de

    sentido da obra de arte um fenmeno bastante

    recente, fruto no s da ateno que as prticas

    curatoriais tm vindo a captar nas ltimas dcadas quando mais no seja por via dos mltiplos certames

    artsticos que tm estes agentes como porta vozes ,

    mas tambm de uma crescente reflexo crtica em

    torno deste assunto em diferentes meios de comunicao. Por seu lado, a conscincia institucional do referido poder e o seu uso em prol da aplicao de diretivas culturais nem sempre solidrias com os programas artsticos sobre os quais se debruam so

    factos seculares. Um clebre e incontornvel exemplo

    pode ser encontrado logo aquando da fundao dos primeiros museus pblicos e, nomeadamente, no

    quadro das decises tomadas por Dominique Vivant

    Denon no mbito do seu mandato como primeiro

    diretor do Louvre. Instrudo diretamente pelo poder

    poltico no sentido de neutralizar quer o potencial

    efeito contrarrevolucionrio, quer a funo hiertica de

    muitas das obras que compunham o esplio daquele

    museu, Vivant Denon instituiu, porventura inadvertidamente, toda uma tradio expositiva j ancorada na ideia de lart pour lart e orientada essencialmente por critrios de ordem cronolgica e disciplinar. O mtodo por ele aplicado era de natureza quantitativa, e o seu resultado traduzia se frequentemente em salas onde pinturas ocupavam todo o espao de parede disponvel e esculturas se acotovelavam em cima de

    plintos. No reino da acumulao, a hiptese de promover leituras seletivas de grupos de obras era totalmente

    inoperante; ao espectador restava deixar se submergir

    nos inmeros estmulos que lhe eram oferecidos e que,

    no seu conjunto, pareciam querer representar a potncia do universo artstico no seu todo, muito mais

    do que a subtileza das suas vozes singulares.

    Sentido em DerivaObras da Coleo da Caixa Geral de Depsitos

    3 SENTI DO EM DERIVA

    BRUNO MARCHAND

    1 Nicholas Serota, Experience or Interpretation The Dilemma of Museums of Modern Art, Londres; Nova Iorque: Thames and Hudson, 1996.

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  • Armanda Duarte, Action Line, 1999 (vista parcial)

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  • As prticas institudas por Denon e seus correligionrios vigoraram por toda a Europa durante cerca de um sculo. Sem espanto, seria pela mo dos artistas

    que o paradigma comearia a ser abalado. De meados

    do sculo XIX em diante, os circuitos artsticos

    conheceram um conjunto de experincias que

    reivindicavam toda uma nova ordem expositiva concebida para privilegiar uma ateno concentrada

    por parte do espectador. o caso das exposies que Gustave Courbet e douard Manet realizaram

    margem da Exposio Universal de 1867. Dedicadas apresentao de seces generosas dos seus respetivos trabalhos2, as exposies no deixavam, contudo, de recorrer a estratgias de apresentao capazes de individualizar determinadas obras, bem como de

    estabelecer relaes entre perodos e temticas

    distintas dentro dos seus percursos por intermdio de cuidadosas justaposies, organizadas em sequncias lineares. De forma muito evidente, as tticas dos

    artistas eram j vocacionadas para a criao de um espao ntimo e alheado das velocidades quotidianas,

    no qual todos os pormenores convergiam na formao de uma atmosfera de culto, vocacionada para a glorificao da obra de arte e para a celebrao

    litrgica do ato expositivo3. O fator que garantia este tipo de impacto e de

    experincia era o modo como os seus autores insti tuam associaes, rupturas e destaques por via de

    uma escrupulosa manipulao do intervalo entre peas. Subitamente, era por demais percetvel o lugar

    determinante que o intervalo esse espao negativo

    ocupava no agenciamento da experincia.

    Porventura mais do que nas obras em si mesmas, era

    ali, naquele lugar vago, que se urdia a carga discursiva da exposio e que se abria o campo de subjetividade

    do espectador. Numa poca que assistia implementao do historicismo e dos mtodos cientficos como

    veculos paradigmticos para a produo de conhecimento, a noo de exposio como instrumento capaz de reunir, classificar, ordenar e comunicar um conjunto alargado de objetos dspares tinha garantida uma

    ampla disseminao. Com efeito, desde a viragem

    para o sculo XX, e at aos nossos dias, as prticas expositivas prosseguiram recorrendo a sistemas taxinmicos e hermenuticos para estabelecer os

    parmetros sobre os quais se organiza a experincia4.

    Para alm de tenderem a descartar diferenas a favor de semelhanas, esses parmetros so governados por

    noes preestabelecidas sejam elas de ordem

    autoral, grupal, epocal, histrica, disciplinar, temtica, etc. , e o seu funcionamento passa por conjugar e organizar as diferentes partes de modo que estas demonstrem, explorem e, em ltima instncia, validem a pertinncia do todo.

    A perspetiva historicista que dominou grande

    parte das opes institucionais ao longo do ltimo sculo estreitou a ligao entre a sala de exposies e a sala de aula. Apoiada no esprito educativo com

    que o museu moderno fora fundado, esta estratgia implicava a imposio de uma narrativa analtica por

    sobre toda a experincia, e mesmo as inmeras

    reformulaes e ataques ao modelo interpretativo que as dcadas seguintes viram surgir no lograram inscrever alternativas viveis nas prticas museolgicas5. Segundo Nicholas Serota, s em finais da dcada de 1980 viria a despontar um outro paradigma capaz de se afirmar, ainda que timidamente, no tecido

    institucional. Impulsionada pelo crescente cansao relativamente tendncia dos museus para atuarem como vrtices culturais, e reagindo toada enciclopdica de muitas das suas grandes exposies6, esta mudana de paradigma trazia consigo uma nova conveno expositiva que privilegiava grandemente o trabalho individual dos artistas, que favorecia a

    apresentao por contraponto anlise, e que minava a tradicional prioridade concedida ao curador como o agente que chama a si as decises no que respeita

    seleo e exposio de obras no museu7. Um pouco por todo o eixo ocidental8, museus com as mais variadas ambies e programas comearam a contemplar nas suas exposies coletivas fossem elas

    permanentes ou temporrias salas dedicadas obra

    de um nico artista, isolando o seu trabalho, evitando

    contaminaes autorais diretas e aplicando todos os meios sua disposio na criao de uma atmosfera vocacionada para a intensificao da experincia.

    O panorama expositivo que hoje encontramos nas

    nossas instituies , em grande medida, herdeiro

    desta dualidade e do dilema que ela anuncia. Vinte

    5 SENTI DO EM DERIVA

    2 A escala que as prticas expositivas da poca adotavam no deixa de ser surpreendente. Nos pavilhes por eles mandados cons