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O O A A l l e e p p h h JORGE LUIS BORGES http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

Author: dinhxuyen

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  • OO AAlleepphh JORGE LUIS BORGES

    http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

  • Este livro: O Aleph , parte integrante da coleo:

    JJOORRGGEE LLUUIISS BBOORRGGEESS OOBBRRAASS CCOOMMPPLLEETTAASS

    VOLUME 1

    1923-1949 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges Obras Completas

    98-3272 Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1998 das tradues by Editora Globo S.A.

    1 Reimpresso-9/98 2 Reimpresso-1/99 3 Reimpresso 12/99

    Edio baseada em Jorge Luis Borges Obras Completas,

    publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona Espanha.

    Coordenao editorial: Carlos V. Fras

    Capa: Joseph Llbach / Emec Editores

    Ilustrao: Alberto Ciupiak

    Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S

    Assessoria editorial: Jorge Schwartz

    Preparao de textos: Maria Carolina de Arajo

    Reviso de textos: Flvio Martins, Levon Yacubian,

    Luciana Vieira Alves e Mrcia Menin

    Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda.

    Fotolitos: GraphBox

    Agradecimentos a Antonio Fernndez Ferrer, Maite Celada, Ana Cecilia Olmos,

    Blas Matamoro, Fernando Paixo, Daniel Samoilovich e Michel Sleiman

    Agradecimentos especiais a lida Lois

    Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos

    EDITORA GLOBO S.A.

    Avenida Jaguar, 1485

  • CEP O5346-9O2 Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP

    E-mail: [email protected]

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou

    forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora.

    Impresso e acabamento:

    Grfica Crculo

    CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SP

    Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges_ volume 1 / Jorge Luis Borges. So Paulo : Globo, 1999.

    Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges.

    Vrios tradutores. V. 1. 1923-1949 / v. 2. 1952-1972 / v. 3. 1975-1985 / v. 4. 1975-1988 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) / ISBN 85-25O-

    2878-9 (v. 2) ISBN 85-25O-2879-7 (v. 3) / ISBN 85-25O-288O-O (v. 4.)

    1. Fico argentina 1. Ttulo.

    ndices para catlogo sistemtico

    1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4

    2. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4 CDD-ar863.4

    O ALEPH 1949 El Aleph

    Traduo de Flvio Jos Cardozo Reviso de traduo: Maria Carolina de Arajo

    A Leonor Acevedo de Borges

  • NDICE O imortal O morto Os telogos Histria do guerreiro e da cativa Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829 1874) Emma Zunz A casa de Astrion A outra morte Deutsches Requiem A procura de Averris O Zahir A escritura do Deus Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto Os dois reis e os dois labirintos A espera O homem no umbral O Aleph Eplogo

  • OO IIMMOORRTTAALL __________________________________________

    Solomon saith: "There is no new thing upon the earth". So that as Plato had an imagination,

    "that all knowledge was but remembrance"; so Solomon giveth his sentence, "that all novelty is

    but oblivion".

    FRANCIS BACON: Essays LVIII.

    Em Londres, em princpios do ms de junho de 1929, o antiqurio Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu princesa de Lucinge os seis volumes em quarto-menor (1715-172O) da Ilada de Pope. A princesa adquiriu-os; ao receb-los, trocou algumas palavras com ele. Era; diz-nos, um homem muito magro e terroso, de olhos apagados e barba cinzenta, de traos singularmente vagos. Empregava com fluidez e ignorncia as diversas lnguas; em poucos minutos, passou do francs ao ingls e do ingls a uma conjuno enigmtica de espanhol de Salonica e de portugus de Macau. Em outubro, a princesa ouviu de um passageiro do Zeus que Cartaphilus havia morrido no mar, ao regressar a Esmirna, e que o haviam enterrado na ilha de Ios. No ltimo tomo da Ilada encontrou este manuscrito.

    O original est escrito em ingls e abundante em latinismos. A verso que oferecemos literal.

    I

    Que eu me lembre, meus trabalhos comearam em um jardim de Tebas Hekatmpylos, quando Diocleciano era imperador. Militei (sem glria) nas recentes guerras egpcias, sendo tribuno de uma legio que esteve aquartelada em Berenice, diante do mar Vermelho: a febre e a magia consumiram muitos homens que cobiavam com magnanimidade o ao. Os mauritanos foram vencidos; a terra, antes ocupada pelas cidades rebeldes, foi dedicada eternamente aos deuses plutnicos; Alexandria, debelada, implorou em vo a misericrdia de Csar; antes de um ano, as legies alcanaram o triunfo, mas eu mal consegui divisar a face de Marte. Essa privao me doeu e foi talvez a causa de eu ter me lanado, por temerosos e extensos desertos, a descobrir a secreta Cidade dos Imortais.

    Meus trabalhos, como disse, comearam em um jardim de Tebas. Toda essa noite

    no dormi, pois algo estava combatendo em meu corao. Levantei-me pouco antes do amanhecer; meus escravos dormiam, a lua tinha a mesma cor da infinita areia. Um cavaleiro vencido e ensangentado vinha do oriente. A uns passos de mim, caiu do cavalo. Com tnue voz insacivel, perguntou-me em latim o nome do rio que banhava os muros da

  • cidade. Respondi-lhe que era o Egito, que as chuvas alimentam. "Outro o rio que persigo", replicou com tristeza, "o rio secreto que purifica da morte os homens". Escuro sangue brotava de seu peito. Disse-me que sua ptria era uma montanha que est do outro lado do Ganges e que nessa montanha se falava que, se algum caminhasse at o ocidente, onde o mundo se acaba, chegaria ao rio cujas guas do a imortalidade. Acrescentou que na margem ulterior se ergue a Cidade dos Imortais, rica em baluartes e anfiteatros e templos. Antes do amanhecer, morreu, mas determinei descobrir a cidade e seu rio. Interrogados pelo verdugo, alguns prisioneiros mauritanos confirmaram a informao do viajante; algum lembrou a plancie elsia, no fim da terra, onde a vida dos homens perdurvel; outro, os cumes onde nasce o Pactolo, cujos moradores vivem um sculo. Em Roma, conversei com filsofos que sentiram que prolongar a vida do homem era prolongar sua agonia e multiplicar o nmero de suas mortes. Ignoro se acreditei alguma vez na Cidade dos Imortais: penso que ento me bastou o trabalho de procur-la. Flvio, procnsul de Getlia, entregou-me duzentos soldados para a tarefa. Tambm recrutei mercenrios, que se disseram conhecedores dos caminhos e foram os primeiros a desertar.

    Os fatos posteriores deformaram at o inextricvel a lembrana de nossas primeiras jornadas. Partimos de Arsinoe e entramos no abrasado deserto. Atravessamos o pas dos trogloditas, que devoram serpentes e carecem do comrcio da palavra; o dos garamantes da Lbia, que tm as mulheres em comum e se nutrem de lees; o da tribo dos augilas, que s veneram o Trtaro. Fatigamos outros desertos, onde negra a areia, onde o viajante deve roubar as horas da noite, pois o fervor do dia intolervel. De longe divisei a montanha que deu nome ao Oceano: em suas ladeiras cresce o eufrbio, que anula os venenos; no cume, vivem os stiros, nao de homens cruis e rsticos, inclinados luxria. Que essas regies brbaras, onde a terra me de monstros, pudessem abrigar em seu seio uma cidade famosa, a todos nos pareceu inconcebvel. Prosseguimos na marcha, pois teria sido uma desonra retroceder. Alguns temerrios dormiram com o rosto exposto lua; a febre os queimou; na gua corrompida das cisternas outros beberam a loucura e a morte. Ento, comearam as deseres; muito pouco depois, os motins. Para reprimi-los, no vacilei no exerccio da severidade. Procedi corretamente, mas um centurio me advertiu que os sediciosos (vidos por vingar a crucificao de um deles) tramavam minha morte. Fugi do acampamento, com os poucos soldados que me eram fiis. No deserto, perdi-os entre os redemoinhos de areia e a vasta noite. Uma flecha cretense me lacerou. Por vrios dias, errei sem encontrar gua, ou por um s enorme dia multiplicado pelo sol, pela sede e pelo temor da sede. Deixei o caminho ao arbtrio de meu cavalo. Na aurora, a distncia encrespou-se de pirmides e de torres. Insuportavelmente, sonhei com um exguo e ntido labirinto: no centro havia um cntaro; minhas mos quase o tocavam, meus olhos o viam, mas to intrincadas e confusas eram as curvas que eu sabia que ia morrer antes de alcan-lo.

    II

  • Ao desenredar-me por fim desse pesadelo, vi-me atirado e manietado a um oblongo nicho de pedra, no maior que uma sepultura comum, superficialmente escavado no spero declive de uma montanha. Os lados eram midos, antes polidos pelo tempo que por labor. Senti no peito um doloroso latejo, senti que a sede me abrasava. Ergui-me e gritei debilmente. Ao p da montanha, estendia-se sem rumor um arroio impuro, entorpecido por escombros e areia; na oposta margem, resplandecia (sob o ltimo sol ou sob o primeiro) a evidente Cidade dos Imortais. Vi muros, arcos, frontispcios e foros: o alicerce era uma meseta de pedra. Uma centena de nichos irregulares, anlogos ao meu, sulcavam a montanha e o vale. Na areia havia poos de pouca profundidade; desses mesquinhos buracos (e dos nichos) emergiam homens de pele cinzenta, de barba desleixada, nus. Pensei reconhec-los: pertenciam estirpe bestial dos trogloditas, que infestam as margens do golfo Arbico e as grutas etopes; no me surpreendi que no falassem e que devorassem serpentes.

    A urgncia da sede me fez temerrio. Considerei que estava a uns trinta ps da areia: de olhos fechados, com as mos atadas s costas, atirei-me montanha abaixo. Afundei o rosto ensangentado na gua escura. Bebi como abeberam os animais. Antes de perder-me outra vez no sonho e nos delrios, inexplicavelmente repeti algumas palavras gregas: "Os ricos teucros de Zelia que bebem a gua negra do Esepo..."

    No sei quantos dias e noites rodopiaram sobre mim. Dolorido, incapaz de recuperar o abrigo das cavernas, despido na ignorada areia, deixei que a lua e o sol brincassem com meu aziago destino. Os trogloditas, infantis na barbrie, no me ajudaram a sobreviver ou a morrer. Em vo, roguei-lhes que me dessem a morte. Um dia, com o fio de um pedernal, parti minhas ligaduras. Em outro, levantei-me e pude mendigar ou roubar eu, Marco Flamnio Rufo, tribuno militar de uma das legies de Roma minha primeira detestada rao de carne de serpente.

    A nsia de ver os Imortais, de tocar a sobre-humana Cidade, quase me impedia de dormir. Como se penetrassem em meu propsito, no dormiam tambm os trogloditas: a princpio, inferi que me vigiavam; depois, que se haviam contagiado por minha inquietude, como poderiam contagiar-se os ces. Para afastar-me da brbara aldeia, escolhi a mais pblica das horas, o cair da tarde, quando todos os homens emergem das gretas e dos poos e olham o poente, sem v-lo. Orei em voz alta, menos para suplicar o favor divino que para intimidar a tribo com palavras articuladas. Atravessei o arroio que os bancos de areia entorpecem e dirigi-me Cidade. Confusamente, seguiram-me dois ou trs homens. Eram (como os demais dessa linhagem) de minguada estatura; no inspiravam temor, mas repulsa. Tive de contornar algumas ribanceiras irregulares que me pareceram pedreiras; ofuscado pela pedreiras; ofuscado pela grandeza da Cidade, eu a supusera prxima. Por volta da meia-noite, pisei, eriada de formas idoltricas na areia amarela, a negra sombra de seus muros. Deteve-me uma espcie de horror sagrado. To abominados pelo homem so a novidade e o deserto que me alegrei que um dos trogloditas me tivesse acompanhado at o fim. Fechei os olhos e aguardei (sem dormir) que rebrilhasse o dia.

  • Disse que a Cidade estava construda sobre uma meseta de pedra. Essa meseta, comparvel a um alcantilado, no era menos rdua que os muros. Em vo esgotei meus passos; o negro embasamento no registrava a menor irregularidade, os muros invariveis no pareciam consentir uma nica porta. A fora do dia fez com que me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poo, no poo uma escada que se abismava at a treva inferior. Desci; por um caos de srdidas galerias cheguei a uma vasta cmara circular, a muito custo visvel. Havia nove portas naquele poro; oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma cmara; a nona (atravs de outro labirinto) dava para uma segunda cmara circular, igual primeira. Ignoro o nmero total de cmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silncio era hostil e quase perfeito; outro rumor no havia nessas profundas redes de pedra alm de um vento subterrneo, cuja causa no descobri; sem rudo, perdiam-se entre as gretas fios de gua enferrujada. Habituei-me com horror a esse duvidoso mundo; considerei inacreditvel que pudesse existir outra coisa alm de pores providos de nove portas e alm de longos pores que se bifurcavam. Ignoro o tempo que tive de caminhar sob a terra; sei que certa vez confundi, na mesma nostalgia, a atroz aldeia dos brbaros e minha cidade natal, entre as videiras.

    No fundo de um corredor, um no previsto muro me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre mim. Ergui os ofuscados olhos: no vertiginoso, no mais alto, vi um crculo de cu to azul que chegou a parecer-me de prpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansao me relaxava, mas subi, s me detendo s vezes para pesadamente soluar de felicidade. Fui divisando capitis e astrgalos, frontes triangulares e abbadas, confusas pompas do granito e do mrmore. Foi-me assim concedido ascender da cega regio de negros labirintos entretecidos resplandecente Cidade.

    Emergi numa espcie de pequena praa, ou melhor, de ptio. Circundava-o um s edifcio de forma irregular e altura varivel; a esse edifcio heterogneo pertenciam as diversas cpulas e colunas. Mais que qualquer outro trao desse monumento inacreditvel, causou-me admirao o antiqussimo de sua construo. Senti que era anterior aos homens, anterior terra. Essa evidente antigidade (embora, de algum modo, terrvel para os olhos) pareceu-me adequada ao trabalho de operrios imortais. Cautelosamente a princpio, com indiferena depois, com desespero por fim, errei por escadas e pavimentos do inextricvel palcio. (Depois averigei que eram inconstantes a extenso e a altura dos degraus, fato que me fez compreender a singular fadiga que me infundiram.) "Este palcio obra dos deuses", pensei primeiramente. Explorei os inabitados recintos e corrigi: "Os deuses que o edificaram morreram". Notei suas peculiaridades e disse: "Os deuses que o edificaram estavam loucos". Disse isso, bem sei, com incompreensvel reprovao que era quase remorso, com mais horror intelectual que medo sensvel. A impresso de enorme antigidade juntaram-se outras: a do interminvel, a do atroz, a do complexamente insensato. Eu havia cruzado um labirinto, mas a ntida Cidade dos Imortais me atemorizou e repugnou. Um labirinto uma casa edificada para confundir os homens; sua arquitetura, prdiga em simetrias, est subordinada a esse fim. No palcio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem sada, a alta janela inalcanvel, a aparatosa porta que dava para uma cela ou para um poo, as inacreditveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo. Outras, aderidas aereamente ao costado de um muro monumental, morriam sem chegar a nenhuma parte, no fim de dois ou trs giros, na treva superior das cpulas. Ignoro se todos os exemplos que enumerei so

  • literais; sei que durante muitos anos infestaram meus pesadelos; j no posso saber se esse ou aquele trao transcrio da realidade ou das formas que desatinaram minhas noites. "Esta Cidade", pensei, " to horrvel que sua mera existncia e perdurao, embora no centro de um deserto secreto, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ningum no mundo poder ser valoroso ou feliz". No quero descrev-la; um caos de palavras heterogneas, um corpo de tigre ou de touro, em que pululassem monstruosamente, conjugados e odiando-se, dentes, rgos e cabeas, podem (talvez) ser imagens aproximadas.

    No recordo as etapas de meu regresso, entre os poeirentos e midos hipogeus. Sei apenas que no me abandonava o temor de que, ao sair do ltimo labirinto, me rodeasse outra vez a nefanda Cidade dos Imortais. Nada mais posso lembrar. Esse esquecimento, agora insupervel, foi talvez voluntrio; talvez as circunstncias de minha evaso tenham sido to ingratas que, em algum dia no menos esquecido tambm, jurei esquec-las.

    III

    Os que tiverem lido com ateno o relato de meus trabalhos lembraro que um homem da tribo me seguiu, como um co poderia seguir-me, at a sombra irregular dos muros. Quando sa do ltimo poro, encontrei-o na boca da caverna. Estava atirado na areia, onde desenhava grosseiramente e apagava uma fileira de sinais que eram como as letras dos sonhos, que se est a ponto de entender e logo se juntam. A princpio, pensei que se tratava de alguma escrita brbara; depois vi que absurdo imaginar que homens que no chegaram palavra cheguem escrita. Alm disso, nenhuma das formas era igual a outra, o que exclua ou afastava a possibilidade de serem simblicas. O homem as traava, olhava para elas e as corrigia. Subitamente, como se esse jogo o enfastiasse, apagou-as com a palma e o antebrao. Olhou-me, no pareceu reconhecer-me. Entretanto, to grande era o alvio que me inundava (ou to grande e medrosa minha solido) que me pus a pensar que esse rudimentar troglodita, que me olhava do cho da caverna, estivera me esperando. O sol escaldava a plancie; quando empreendemos o regresso aldeia, sob as primeiras estrelas, a areia era ardente sob os ps. O troglodita me precedeu; essa noite concebi o propsito de ensin-lo a reconhecer, e talvez a repetir, algumas palavras. O cachorro e o cavalo (refleti) so capazes do primeiro; muitas aves, como o rouxinol dos Csares, do ltimo. Por muito grosseiro que fosse o entendimento de um homem, sempre seria superior ao de irracionais.

    A humildade e a misria do troglodita trouxeram-me memria a imagem de Argos, o velho co moribundo da Odissia, e assim lhe pus o nome de Argos e tentei ensin-lo. Fracassei e tornei a fracassar. Os arbtrios, o rigor e a obstinao foram de todo inteis. Imvel, com os olhos inertes, no parecia perceber os sons que eu procurava inculcar-lhe.

  • A alguns passos de mim, era como se estivesse muito longe. Deitado na areia, como uma pequena e arruinada esfinge de lava, deixava que sobre si girassem os cus, desde o crepsculo do dia at o da noite. Julguei impossvel que no se apercebesse de meu propsito. Lembrei-me de que se diz entre os etopes que os macacos deliberadamente no falam para que no os obriguem a trabalhar e atribu a suspiccia ou a temor o silncio de Argos. Dessa fantasia passei a outras ainda mais extravagantes. Pensei que Argos e eu participvamos de universos diferentes; pensei que nossas percepes eram iguais, mas que Argos as combinava de outra maneira e construa com elas outros objetos; pensei que talvez no houvesse objetos para ele, mas um vertiginoso e contnuo jogo de impresses brevssimas. Pensei em um mundo sem memria, sem tempo; considerei a possibilidade de uma linguagem que ignorasse os substantivos, uma linguagem de verbos impessoais ou de indeclinveis eptetos. Assim foram morrendo os dias e com os dias os anos, mas algo parecido com a felicidade ocorreu uma manh. Choveu, com lentido poderosa.

    As noites do deserto podem ser frias, mas aquela tinha sido um fogo. Sonhei que um rio da Tesslia (a cujas guas eu restitura um peixe de ouro) vinha resgatar-me; sobre a vermelha areia e a negra pedra eu o ouvia aproximar-se; o frescor do ar e o rumor atarefado da chuva me despertaram. Corri para receb-la, despido. Declinava a noite; sob as nuvens amarelas, a tribo, no menos feliz que eu, oferecia-se aos vvidos aguaceiros numa espcie de xtase. Pareciam coribantes possudos pela divindade. Argos, olhos postos na abbada celeste, gemia; torrentes rolavam-lhe pelo rosto, no s de gua, mas (soube-o depois) de lgrimas. Argos, gritei, Argos.

    Ento, com mansa admirao, como se descobrisse uma coisa perdida e esquecida h muito tempo, Argos balbuciou estas palavras: "Argos, co de Ulisses". E depois, tambm sem olhar-me: "Este co atirado no esterco".

    Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada real. Perguntei-lhe o que sabia da Odissia. A prtica do grego lhe era penosa; tive de repetir a pergunta.

    "Muito pouco", disse. "Menos que o rapsodo mais pobre. J tero passado mil e cem anos desde que a inventei."

    IV

    Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de guas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto cidade cujo renome se havia espalhado at o Ganges, nove sculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relquias de sua runa ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espcie de pardia ou reverso e tambm templo dos deuses irracionais que manejam o

  • mundo e dos quais nada sabemos, salvo que no se parecem com o homem. Aquela fundao foi o ltimo smbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando v qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulao. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas. Absortos, quase no percebiam o mundo fsico.

    Homero narrou essas coisas como quem fala com uma criana. Tambm me falou de sua velhice e da derradeira viagem que empreendeu, movido, como Ulisses, pelo propsito de chegar aos homens que no conhecem o mar, nem comem carne temperada com sal, nem suspeitam o que seja um remo. Viveu um sculo na Cidade dos Imortais. Quando a derrubaram, aconselhou a fundao da outra. Isto no nos deve surpreender; diz-se que, depois de cantar a guerra de lion, cantou a guerra das rs e dos ratos. Foi como um deus que criara o cosmos e em seguida o caos.

    Ser imortal insignificante; com exceo do homem, todas as criaturas o so, pois ignoram a morte; o divino, o terrvel, o incompreensvel saber-se imortal. Tenho notado que, apesar das religies, essa convico rarssima. Israelitas, cristos e muulmanos professam a imortalidade, mas a venerao que tributam ao primeiro sculo prova que s crem nele, j que destinam todos os demais, em nmero infinito, a premi-lo ou a castig-lo. Mais razovel me parece a roda de certas religies do Industo; nessa roda, que no tem princpio nem fim, cada vida efeito da anterior e gera a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada num exerccio de sculos, a repblica de homens imortais atingira a perfeio da tolerncia e quase do desdm. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem credor de toda bondade, mas tambm de toda traio, por suas infmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar, os nmeros pares e os nmeros mpares tendem ao equilbrio, assim tambm se anulam e se corrigem o talento e a estupidez, e talvez o rstico poema de Cid seja o contrapeso exigido por um nico epteto das clogas ou por uma sentena de Herclito. O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisvel e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta. Sei dos que praticavam o mal para que nos sculos futuros resultasse o bem, ou tivesse resultado nos j pretritos... Encarados assim, todos os nossos atos so justos, mas tambm so indiferentes. No h mritos morais ou intelectuais. Homero comps a Odissia; postulado um prazo infinito, com infinitas circunstncias e mudanas, o impossvel seria no compor, sequer uma vez, a Odissia. Ningum algum, um s homem imortal todos os homens. Como Cornlio Agripa, sou deus, sou heri, sou filsofo, sou demnio e sou mundo, o que uma fatigante maneira de dizer que no sou.

    O conceito do mundo como sistema de precisas compensaes influiu enormemente nos Imortais. Em primeiro lugar, tornou-os invulnerveis piedade. Mencionei as antigas pedreiras que sulcavam os campos da outra margem; um homem despenhou-se na mais funda; no podia lastimar-se nem morrer, mas a sede o abrasava; antes que lhe atirassem uma corda, passaram setenta anos. Tampouco interessava o prprio destino. O corpo era um submisso animal domstico e bastava-lhe, cada ms, a esmola de umas horas de sono, de um pouco de gua e de restos de carne. Que ningum nos queira rebaixar a ascetas. No h prazer mais complexo que o pensamento e a ele nos entregvamos. s vezes, um estmulo extraordinrio nos restitua ao mundo fsico. Por exemplo, naquela manh, o

  • velho prazer elementar da chuva. Esses lapsos eram rarssimos; todos os Imortais eram capazes de perfeita quietude; lembro-me de um que jamais vi de p: um pssaro se aninhava em seu peito.

    Entre os corolrios da doutrina de que no existe coisa que no esteja compensada por outra, h um de muito pouca importncia terica, mas que nos induziu, em fins ou em princpios do sculo X, a dispersar-nos pela face da terra. Cabe nestas palavras: "Existe um rio cujas guas do a imortalidade; em alguma regio haver outro rio cujas guas a apaguem". O nmero de rios no infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabar, algum dia, tendo bebido de todos. Propusemo-nos descobrir esse rio.

    A morte (ou sua aluso) torna preciosos e patticos os homens. Estes comovem por sua condio de fantasmas; cada ato que executam pode ser o ltimo; no h rosto que no esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecupervel e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrrio, cada ato (e cada pensamento) o eco de outros que no passado o antecederam, sem princpio visvel, ou o fiel pressgio de outros que no futuro o repetiro at a vertigem. No h coisa que no esteja como que perdida entre infatigveis espelhos. Nada pode ocorrer uma s vez, nada preciosamente precrio. O elegaco, o grave, o cerimonioso no vigoram para os Imortais. Homero e eu nos separamos nas portas de Tnger; creio que no nos dissemos adeus.

    V

    Percorri novos reinos, novos imprios. No outono de 1O66, militei na ponte de

    Stamford, j no lembro se nas fileiras de Harold, que no tardou em encontrar seu destino, ou se nas daquele infausto Harald Hardrada, que conquistou seis ps de terra inglesa, ou um pouco mais. No stimo sculo da Hgira, no arrabalde de Bulaq, transcrevi com pausada caligrafia, em um idioma que esqueci, em um alfabeto que ignoro, as sete viagens de Simbad e a histria da Cidade de Bronze. Num ptio do crcere de Samarcanda joguei muitssimo o xadrez. Em Bikanir, professei a astrologia, e tambm na Bomia. Em 1638, estive em Kolozsvar e depois em Leipzig. Em Aberdeen, em 1714, assinei os seis volumes da Ilada de Pope; sei que os freqentei com deleite. Por volta de 1729, discuti a origem desse poema com um professor de retrica, chamado, creio, Giambattista; suas razes me pareceram irrefutveis. No dia 4 de outubro de 1921, o Patna, que me conduzia a Bombaim, teve que fundear em um porto da costa eritria.1 Desci; lembrei-me de outras manhs muito antigas, tambm diante do mar Vermelho, quando era tribuno de Roma e a febre e a magia e a inao consumiam os soldados. Nos arredores, vi um caudal de gua clara; provei-a, levado pelo costume. Ao subir margem, uma rvore espinhosa me lacerou o dorso da mo. A inusitada dor me pareceu muito viva. Incrdulo, silencioso e feliz, contemplei a preciosa formao de uma lenta gota de sangue. De novo sou mortal,

  • repeti a mim mesmo, de novo me pareo com todos os homens. Nessa noite, dormi at o amanhecer.

    ...Revisei estas pginas, passado um ano. Parece-me que elas se ajustam verdade, mas nos primeiros captulos, e ainda em certos pargrafos dos outros, creio perceber algo falso. Isso efeito, talvez, do abuso de traos circunstanciais, procedimento que aprendi com os poetas e que tudo contamina de falsidade, j que esses traos podem ser freqentes nos fatos, mas no na memria deles... Creio, contudo, ter descoberto uma razo mais ntima. Vou escrev-la; no importa que me julguem fantstico.

    A histria que narrei parece irreal porque nela se mesclam os sucessos de dois homens diferentes. No primeiro captulo, o cavaleiro quer saber o nome do rio que banha as muralhas de Tebas; Flamnio Rufo, que antes dera cidade o epteto de Hekatmpylos, diz que o rio o Egito; nenhuma dessas locues adequada a ele, mas a Homero, que faz meno expressa, na Ilada, a Tebas Hekatmpylos, e na Odissia, pela boca de Proteu e de Ulisses, diz invariavelmente Egito por Nilo. No captulo segundo, o romano, ao beber a gua imortal, pronuncia algumas palavras em grego; essas palavras so homricas e podem ser encontradas no fim do famoso catlogo das naves. Depois, no vertiginoso palcio, fala de "reprovao que era quase remorso"; essas palavras correspondem a Homero, que havia projetado esse horror. Tais anomalias me inquietaram; outras, de ordem esttica, permitiram-me descobrir a verdade. O ltimo captulo as inclui; a est escrito que militei na ponte de Stamford, que transcrevi, em Bulaq, as viagens de Simbad, o Marinheiro, e que assinei, em Aberdeen, a Ilada inglesa de Pope. L-se, inter alia: "Em Bikanir, professei a astrologia, e tambm na Bomia". Nenhum desses testemunhos falso; significativo o fato de hav-los destacado. O primeiro de todos parece convir a um homem de guerra, mas logo se percebe que o narrador no repara no blico e sim no destino dos homens. Os que seguem so mais curiosos. Uma obscura razo elementar me obrigou a registr-los; fiz isso porque sabia que eram patticos. No o so, ditos pelo romano Flamnio Rufo. So, ditos por Homero; estranho que este copie, no sculo XIII, as aventuras de Simbad, de outro Ulisses, e descubra, muitos sculos depois, em um reino boreal e em um idioma brbaro, as formas de sua Ilada. Quanto frase que rene o nome de Bikanir, v-se que foi construda por um homem de letras, desejoso (como o autor do catlogo das naves) de mostrar vocbulos esplndidos.2

    Quando se aproxima o fim, j no restam imagens da lembrana; s restam palavras. No estranho que o tempo tenha confundido as que alguma vez me representaram com as que foram smbolos do destino de quem me acompanhou, por tantos sculos. Eu fui Homero; em breve, serei Ningum, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto.

    Ps-escrito de 195O. Entre os comentrios que a publicao anterior despertou, o mais curioso, j que no o mais urbano, biblicamente se intitula A Coat of Many Colours (Manchester,1948) e obra da pena tenacssima do doutor Nahum Cordovero. Compreende umas cem pginas. Fala dos centes gregos, dos centes da baixa latinidade, de Ben Jonson, que definiu seus contemporneos com trechos de Sneca, do Virgilius Evangelizans de Alexander Ross, dos artifcios de George Moore e de Eliot e, finalmente,

  • da "narrao atribuda ao antiqurio Joseph Cartaphilus". Denuncia, no primeiro captulo, breves interpolaes de Plnio (Historia Naturalis, V, 8); no segundo, de Thomas de Quincey (Writings,111, 439); no terceiro, de uma epstola de Descartes ao embaixador Pierre Chanut; no quarto, de Bernard Shaw (Back to Methuselah, V). Infere dessas intruses, ou furtos, que todo o documento apcrifo.

    No meu entender, a concluso inadmissvel. "Quando se aproxima o fim",

    escreveu Cartaphilus, "j no restam imagens da lembrana; s restam palavras". Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os sculos.

    Para Ceclia Ingenieros. ________________________________________ Notas: 1 H uma rasura no manuscrito; talvez o nome do porto tenha sido apagado. 2 Ernesto Sbato sugere que o "Giambattista" que discutiu a formao da Ilada com o antiqurio Cartaphilus seja Giambattista Vico; esse italiano sustentava que Homero um personagem simblico, maneira de Pluto ou de Aquiles.

  • O MORTO __________________________________________

    Que um homem do subrbio de Buenos Aires, que um triste compadrito sem mais virtude que a enfatuao da coragem, se interne nos desertos eqestres da fronteira com o Brasil e chegue a capito de contrabandistas, parece de antemo impossvel. Aos que assim o entendem, quero contar o destino de Benjamn Otlora, de quem talvez no reste nenhuma lembrana no bairro de Balvanera e que morreu, a seu modo, de um balao, nos confins do Rio Grande do Sul. Ignoro pormenores de sua aventura; quando me forem revelados, hei de retificar e ampliar estas pginas. Por ora este resumo pode ser til.

    Benjamn Otlora conta, por volta de 1891, dezenove anos. um rapago de fronte pequena, de sinceros olhos claros, com o vigor dos bascos; uma punhalada feliz revelou-lhe que homem valente; no o inquieta a morte do adversrio, tampouco a imediata necessidade de fugir da Repblica. O caudilho da parquia d-lhe uma carta para um tal Azevedo Bandeira, do Uruguai. Otlora embarca, a travessia tormentosa e rangente; no outro dia, vagueia pelas ruas de Montevidu, com inconfessada e talvez ignorada tristeza. No encontra Azevedo Bandeira; pela meia-noite, num armazm do Paso del Molino, assiste a uma discusso entre alguns tropeiros. Um punhal rebrilha; Otlora no sabe de que lado est a razo, mas o atrai o puro sabor do perigo, como a outros o baralho ou a msica. Segura, no entrevem, uma punhalada baixa que um peo desfere contra um homem de chapu escuro e de poncho. Este, depois, resulta ser Azevedo Bandeira. (Otlora, ao sab-lo, rasga a carta, porque prefere dever tudo a si mesmo.) Azevedo Bandeira, embora robusto, d a injustificvel impresso de aleijado; em seu rosto, sempre demasiado prximo, esto o judeu, o negro e o ndio; em sua afetao, o macaco e o tigre; a cicatriz que lhe atravessa a face mais um adorno, bem como o negro bigode cerdoso.

    Projeo ou erro do lcool, a disputa cessa com a mesma rapidez com que se produziu. Otlora bebe com os tropeiros e depois os acompanha a uma farra e depois a um casaro na Cidade Velha, j com o sol bem alto. No ltimo ptio, que de terra, os homens estendem os arreios para dormir. Obscuramente, Otlora compara essa noite com a anterior; agora j pisa terra firme, entre amigos. Inquieta-o algum remorso, isso sim, de no sentir saudades de Buenos Aires. Dorme at as seis, quando o desperta o paisano que, bbado, agrediu Bandeira. (Otlora se lembra de que esse homem participou com os outros da noite de tumulto e de alegria e que Bandeira o sentou sua direita e o obrigou a continuar bebendo.) O homem lhe diz que o patro o manda buscar. Numa espcie de gabinete que d para o vestbulo (Otlora nunca viu um vestbulo com portas laterais), Azevedo Bandeira o est esperando, com uma clara e desdenhosa mulher de cabelo ruivo. Bandeira examina-o, oferece-lhe um copo de aguardente, repete que ele parece um homem corajoso, prope-lhe ir ao Norte com os demais para trazerem uma tropa. Otlora aceita; de madrugada, esto a caminho, rumo a Tacuaremb.

  • Comea ento para Otlora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que tm o cheiro do cavalo. Essa vida nova para ele, e s vezes atroz, mas j est em seu sangue, pois, assim como os homens de outras naes veneram e pressentem o mar, assim ns (tambm o homem que entretece estes smbolos) ansiamos pela plancie interminvel que ressoa sob os cascos. Otlora criou-se nos bairros de carreteiros e quarteadores; em menos de um ano se torna gacho. Aprende a montar, a entropilhar o gado, a carnear, a manejar o lao que subjuga e as boleadeiras que derrubam, a resistir ao sono, s tormentas, s geadas e ao sol, a tanger com o assobio e o grito. S uma vez, durante esse tempo de aprendizado, v Azevedo Bandeira, mas o tem muito presente, porque ser homem de Bandeira ser considerado e temido, e porque, diante de qualquer gesto valente, os gachos dizem que Bandeira o faz melhor. Algum opina que Bandeira nasceu do outro lado do Quara, no Rio Grande do Sul; isso, que deveria rebaix-lo, obscuramente o enriquece de selvas populosas, de lamaais, de inextricveis e quase infinitas distncias. Aos poucos, Otlora entende que os negcios de Bandeira so mltiplos e que o principal o contrabando. Ser tropeiro ser um criado; Otlora prope-se ascender a contrabandista. Dois dos companheiros, numa noite, cruzaro a fronteira para voltar com algumas partidas de aguardente; Otlora provoca um deles, fere-o e toma seu lugar. Move-o a ambio e tambm uma obscura fidelidade. "Que o homem", pensa, "acabe por entender que tenho mais valor que todos os seus orientais juntos".

    Outro ano passa antes que Otlora regresse a Montevidu. Percorrem os arredores, a cidade (que a Otlora parece muito grande); chegam casa do patro; os homens estendem os arreios no ltimo ptio. Passam os dias e Otlora no v Bandeira. Dizem, com temor, que ele est enfermo; um homem moreno costuma subir a seu dormitrio com a chaleira e o mate. Uma tarde, encarregam Otlora dessa tarefa. Ele sente-se vagamente humilhado, mas tambm satisfeito.

    O dormitrio desmantelado e escuro. H uma sacada para o poente, h uma longa mesa com uma resplandecente desordem de chicotes, de relhos, de cintos, de armas de fogo e de armas brancas, h um remoto espelho de cristal embaado. Bandeira est de boca para cima; sonha e se lamenta; uma veemncia de sol ltimo o define. O enorme leito branco parece diminu-lo e obscurec-lo; Otlora observa os cabelos brancos, a fadiga, a debilidade, as rugas dos anos. Revolta-o que esse velho os esteja mandando. Pensa que um golpe bastaria para dar conta dele. Nisso, v no espelho que algum entrou. a mulher de cabelo ruivo; est meio vestida e descala, e o observa com fria curiosidade. Bandeira recompe-se; enquanto fala de coisas da campanha e bebe um mate atrs do outro, seus dedos brincam com as tranas da mulher. Por fim, d licena a Otlora para ir embora.

    Dias depois, chega-lhes a ordem de irem para o Norte. Param em uma estncia perdida, situada em qualquer lugar da interminvel plancie. Nem rvores nem um arroio a alegram, o primeiro sol e o ltimo a golpeiam. H currais de pedra para o gado, que tem grandes chifres e est necessitado. EI Suspiro o nome desse pobre estabelecimento.

    Otlora ouve na roda de pees que Bandeira no tardar a chegar de Montevidu. Pergunta por qu; algum esclarece que h um forasteiro agauchado que est querendo mandar demais. Otlora compreende que um gracejo, mas lhe agrada que esse gracejo j

  • seja possvel. Verifica, depois, que Bandeira se inimizou com um dos chefes polticos e que este lhe retirou seu apoio. Ele gosta dessa notcia.

    Chegam caixes de armas longas; chegam uma jarra e uma bacia de prata para o aposento da mulher; chegam cortinas de intrincado damasco; chega das coxilhas, numa manh, um cavaleiro sombrio, de barba cerrada e de poncho. Chama-se Ulpiano Surez e o capanga ou guarda-costas de Azevedo Bandeira. Fala muito pouco e de maneira abrasileirada. Otlora no sabe se atribui sua reserva a hostilidade, a desdm ou a mera barbrie. Sabe, isso sim, que para o plano que est maquinando tem de ganhar a amizade dele.

    Entra depois no destino de Benjamn Otlora um alazo de extremidades negras, que Azevedo Bandeira traz do sul e que ostenta arreios chapeados e carona com bordas de pele de tigre. Esse cavalo liberal smbolo da autoridade do patro e por isso o cobia o rapaz, que chega tambm a desejar, com desejo rancoroso, a mulher de cabelos resplandecentes. A mulher, os arreios e o alazo so atributos ou adjetivos de um homem que ele aspira a destruir.

    Aqui a histria se complica e se afunda. Azevedo Bandeira hbil na arte da intimidao progressiva, na satnica manobra de humilhar gradativamente o interlocutor, combinando seriedade e brincadeira; Otlora resolve aplicar esse mtodo ambguo dura tarefa que se prope. Resolve suplantar, lentamente, Azevedo Bandeira. Consegue, em jornadas de perigo comum, a amizade de Surez. Confia-lhe seu plano; Surez lhe promete sua ajuda. Muitas coisas vo acontecendo depois, das quais sei algumas poucas. Otlora no obedece a Bandeira; d para esquecer, corrigir, inverter suas ordens. O universo parece conspirar com ele e apressa os fatos. Num meio-dia, ocorre em campos de Tacuaremb um tiroteio com gente rio-grandense; Otlora usurpa o lugar de Bandeira e comanda os orientais. Uma bala atravessa-lhe o ombro, mas nessa tarde regressa a EI Suspiro no alazo do chefe e nessa tarde umas gotas de seu sangue mancham a pele de tigre e nessa noite dorme com a mulher de cabelos reluzentes. Outras verses mudam a ordem desses fatos e negam que eles tenham acontecido em um nico dia.

    Bandeira, entretanto, continua sendo nominalmente o chefe. D ordens que no se executam; Benjamn Otlora no toca nele, por um misto de rotina e de pena.

    A ltima cena da histria corresponde agitao da ltima noite de 1894. Nessa noite, os homens de EI Suspiro comem cordeiro recm-carneado e bebem um lcool pendenciador. Algum infinitamente zangarreia uma trabalhosa milonga. Na cabeceira da mesa, Otlora, bbado, ergue brinde atrs de brinde, em jbilo crescente; essa torre de vertigem smbolo de seu irresistvel destino. Bandeira, taciturno entre os que gritam, deixa que flua clamorosa a noite. Quando soam as doze badaladas, levanta-se como quem se lembra de uma obrigao. Levanta-se e bate com suavidade porta da mulher. Ela abre em seguida, como se esperasse o chamado. Sai meio vestida e descala. Com uma voz que se afemina e se arrasta, o chefe lhe ordena:

    J que tu e o portenho se querem tanto, agora mesmo vais dar um beijo nele, vista de todos.

  • Acresce uma circunstncia brutal. A mulher quer resistir, mas dois homens a tomam

    pelo brao e a lanam sobre Otlora. Arrasada em lgrimas, beija-o no rosto e no peito. Ulpiano Surez empunha o revlver. Otlora compreende, na iminncia da morte, que o traram desde o princpio, que foi condenado morte, que lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo porque j o davam por morto, porque para Bandeira ele j estava morto.

    Surez, quase com desdm, abre fogo.

  • OS TELOGOS __________________________________________

    Arrasado o jardim, profanados os clices e os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monstica e rasgaram os livros incompreensveis e os injuriaram e queimaram, talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e cdices, mas no corao da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intato o livro duodcimo da Civitas Dei, que narra que Plato ensinou em Atenas e, no fim dos sculos, todas as coisas recuperaro seu estado anterior, e que ele, em Atenas, diante do mesmo auditrio, de novo ensinar essa doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de venerao especial e os que o leram e releram nessa remota provncia esqueceram que o autor s declarou tal doutrina para poder melhor refut-la. Um sculo depois, Aureliano, coadjutor de Aquilia, soube que s margens do Danbio a novssima seita dos montonos (chamados tambm anulares) professava que a histria um crculo e que nada que no tenha sido e que no ser. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que Joo de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o stimo atributo de Deus, ia impugnar to abominvel heresia.

    Aureliano deplorou essas notcias, sobretudo a ltima. Sabia que em matria teolgica no h novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissmil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer so as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a interveno a intruso de Joo de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temveis que a Serpente, os anulares... Nessa noite, Aureliano folheou o antigo dilogo de Plutarco sobre a cessao dos orculos; no pargrafo vinte e nove, leu uma burla contra os esticos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognstico favorvel; resolveu adiantar-se a Joo de Panonia e refutar os herticos da Roda.

    H quem procure o amor de uma mulher para esquecer-se dela, para no pensar mais nela; Aureliano, da mesma forma, queria superar Joo de Panonia para curar-se do rancor que ele lhe infundia, no para fazer-lhe mal. Temperado pelo mero trabalho, pela construo de silogismos e pela inveno de injrias, pelos nego e os autem e os nequaquam, pde esquecer esse rancor. Erigiu vastos e quase inextricveis perodos, entrecortados por incisos, em que a negligncia e o solecismo pareciam formas de desdm. Da cacofonia fez um instrumento. Previu que Joo ia fulminar os anulares com gravidade proftica; para no coincidir com ele, optou pelo escrnio. Agostinho tinha escrito que Jesus a via reta que nos salva do labirinto circular em que andam os mpios; Aureliano,

  • laboriosamente trivial, comparou-os a Ixion, ao fgado de Prometeu, a Ssifo, quele rei de Tebas que viu dois sis, gaguice, a louros, a espelhos, a ecos, a mulas de carga e a silogismos bicornutos. (As fbulas gentlicas perduravam, rebaixadas a adornos.) Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de no conhec-la at o fim; essa controvrsia permitiu-lhe chegar a um acordo com muitos livros que pareciam censurar sua incria. Assim pde engastar uma passagem da obra De Principiis de Orgenes, na qual se nega que Judas Iscariotes voltar a vender o Senhor, e Paulo, a presenciar o martrio de Estvo em Jerusalm, e outra dos Academica Priora de Ccero, em que este zomba dos que sonham que, enquanto ele conversa com Lculo, outros Lculos e outros Cceros, em nmero infinito, dizem exatamente o mesmo, em infinitos mundos iguais. Alm disso, esgrimiu contra os montonos o texto de Plutarco e denunciou o escndalo de que a um idlatra valesse mais o lumen naturae que a eles a palavra de Deus. Nove dias lhe tomou esse trabalho; no dcimo, foi-lhe enviada uma cpia da refutao de Joo de Panonia.

    Era quase irrisoriamente breve. Aureliano olhou-a com desdm e depois com temor. A primeira parte glosava os versculos finais do nono captulo da Epstola aos Hebreus, na qual se diz que Jesus no foi sacrificado muitas vezes desde o incio do mundo, seno agora uma vez na consumao dos sculos. A segunda alegava o preceito bblico sobre as vs repeties dos gentios (Mateus 6, 7) e aquela passagem do stimo livro de Plnio, que pondera no haver no vasto universo duas faces iguais. Joo de Panonia declarava que tampouco h duas almas e que o pecador mais vil precioso como o sangue que por ele verteu Jesus Cristo. O ato de um nico homem (afirmou) pesa mais que os nove cus concntricos, e imaginar que possa perder-se e voltar uma aparatosa frivolidade. O tempo no refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glria e tambm para o fogo. O tratado era lmpido, universal; no parecia redigido por uma pessoa especfica, mas por qualquer homem ou, talvez, por todos os homens.

    Aureliano sentiu uma humilhao quase fsica. Pensou em destruir ou reformar seu prprio trabalho; em seguida, com rancorosa probidade, mandou-o para Roma sem modificar uma letra. Meses depois, quando se reuniu o Conclio de Prgamo, o telogo encarregado de impugnar os erros dos montonos foi (previsivelmente) Joo de Panonia; sua douta e comedida refutao bastou para que Euforbo, heresiarca, fosse condenado fogueira. "Isto ocorreu e voltar a ocorrer", disse Euforbo. "No acendeis uma pira, acendeis um labirinto de fogo. Se aqui se unissem todas as fogueiras que eu tenho sido, no caberiam na terra e os anjos ficariam cegos. Isto eu falei muitas vezes." Depois gritou, porque as chamas o atingiram.

    Caiu a Roda diante da Cruz,1 mas Aureliano e Joo prosseguiram sua batalha secreta. Militavam os dois no mesmo exrcito, ansiavam pelo mesmo galardo, guerreavam contra o mesmo Inimigo, mas Aureliano no escreveu uma palavra que inconfessavelmente no pretendesse superar Joo. Seu duelo foi invisvel; se os numerosos ndices no me enganam, no figura uma nica vez o nome do outro nos muitos volumes de Aureliano que a Patrologia de Migne entesoura. (Das obras de Joo, s permaneceram vinte palavras.) Os dois desaprovaram os antemas do segundo Conclio de Constantinopla; os dois perseguiram os arianos, que negavam a gerao eterna do Filho; os

  • dois testemunharam a ortodoxia da Topographia Christiana de Cosmas, que ensina ser a terra quadrangular, como o tabernculo hebreu. Desgraadamente, pelos quatro ngulos da terra difundiu-se outra tempestuosa heresia. Oriunda do Egito ou da sia (porque os testemunhos diferem e Bousset no quer admitir as razes de Harnack), infestou as provncias orientais e erigiu santurios na Macednia, em Cartago e em Trveris. Parecia estar em todas as partes; foi dito que nas dioceses da Bretanha tinham sido invertidos os crucifixos e que a imagem do Senhor, em Cesaria, viu-se suplantada por um espelho. O espelho e o bolo eram emblemas dos novos cismticos.

    A histria os conhece por muitos nomes (especulares, abismais, cainitas), mas de todos o mais aceito histries, dado por Aureliano e que eles com atrevimento adotaram. Na Frigia foram chamados de simulacros, e tambm na Dardnia. Joo Damasceno chamou-os de formas; justo advertir que a passagem tem sido repelida por Erfjord. No h heresilogo que, com espanto, no aluda a seus desmedidos costumes. Muitos histries professaram o ascetismo; um que outro se mutilou, como Orgenes; outros moraram debaixo da terra, nas cloacas; outros arrancaram os olhos; outros (os nabucodonosores de Nitria) "pastavam como os bois e seu cabelo crescia como as penas da guia". Da mortificao e do rigor passavam, muitas vezes, ao crime; certas comunidades toleravam o roubo; outras, o homicdio; outras, a sodomia, o incesto e a bestialidade. Todas eram blasfemas; no s maldiziam o Deus cristo como as arcanas divindades de seu prprio panteo. Maquinaram livros sagrados, cujo desaparecimento os doutos deploram. Sir Thomas Browne, por volta de 1658, escreveu: "O tempo aniquilou os ambiciosos Evangelhos Histrinicos, no as Injrias com que se fustigou sua Impiedade"; Erfjord sugeriu que essas "injrias" (que um cdice grego preserva) so os evangelhos perdidos. Isso incompreensvel, se ignoramos a cosmologia dos histries.

    Nos livros hermticos est escrito que o que existe embaixo igual ao que existe em cima, e o que existe em cima, igual ao que existe embaixo; no Zohar, que o mundo inferior reflexo do superior. Os histries fundaram sua doutrina sobre uma perverso dessa idia. Invocaram Mateus 6, 12 ("perdoa nossas dvidas, como ns perdoamos a nossos devedores") e 11, 12 ("o reino dos cus adquire-se fora") para demonstrar que a terra influi no cu, e I Corntios 13,12 ("vemos agora como que por um espelho, em enigma") para demonstrar que tudo o que vemos falso. Talvez contaminados pelos montonos, imaginaram que todo homem dois homens e que o verdadeiro o outro, o que est no cu. Tambm imaginaram que nossos atos projetam um reflexo invertido, de maneira que, se velamos, o outro dorme, se fornicamos, o outro casto, se roubamos, o outro generoso. Mortos, nos uniremos a ele e seremos ele. (Algum eco dessas doutrinas perdurou em Bloy.) Outros histries discorreram que o mundo acabaria quando se esgotasse o nmero de suas possibilidades; j que no pode haver repeties, o justo deve eliminar (cometer) os atos mais infames, para que estes no manchem o futuro e para acelerar a vinda do reino de Jesus. Esse artigo foi negado por outras seitas, que defenderam que a histria do mundo deve cumprir-se em cada homem. Os demais, como Pitgoras, devero transmigrar por muitos corpos antes de conseguir sua liberao; alguns, os proticos, "no termo de uma s vida so lees, so drages, so javalis, so gua e so uma rvore". Demstenes cita a purificao pela lama a que eram submetidos os iniciados nos mistrios rficos; os proticos, analogicamente, procuraram a purificao pelo mal. Entenderam, como Carpcrates, que ningum sair da priso at pagar o ltimo bolo

  • (Lucas 12, 59), e costumavam ludibriar os penitentes com este outro versculo: "Eu vim para que os homens tenham vida e para que a tenham em abundncia" (Joo 10,10). Tambm diziam que no ser malvado soberba satnica... Muitas e divergentes mitologias urdiram os histries; uns pregaram o ascetismo, outros a licenciosidade, todos a confuso. Teopompo, histrio de Berenice, negou todas as fbulas; disse que cada homem um rgo que projeta a divindade para sentir o mundo.

    Os hereges da diocese de Aureliano eram dos que afirmavam que o tempo no tolera repeties, no dos que afincoavam que todo ato se reflete no cu. Essa circunstncia era estranha; em um relatrio s autoridades romanas, Aureliano mencionou-a. O prelado que receberia o relatrio era confessor da imperatriz; ningum ignorava que esse ministrio exigente lhe vedava as ntimas delcias da teologia especulativa. Seu secretrio antigo colaborador de Joo de Panonia, agora inimizado com ele gozava do renome de pontualssimo inquisidor de heterodoxias; Aureliano acrescentou uma exposio da heresia histrinica, tal como esta se dava nos conventculos de Gnova e de Aquilia. Redigiu alguns pargrafos; quando quis escrever a tese horrvel de que no existem dois instantes iguais, sua pena se deteve. No encontrou a frmula necessria; as admoestaes da nova doutrina ("Queres ver o que no viram os olhos humanos? Olha a lua. Queres ouvir o que os ouvidos no ouviram? Ouve o grito do pssaro. Queres tocar o que no tocaram as mos? Toca a terra. Digo, verdadeiramente, que Deus est por criar o mundo") eram bastante afetadas e metafricas para a transcrio. De repente, uma orao de vinte palavras apresentou-se a seu esprito. Escreveu-a, jubiloso; logo depois, inquietou-o a suspeita de que ela fosse de outro. No dia seguinte, lembrou-se de que a lera havia muitos anos no Adversus Annulares composto por Joo de Panonia. Verificou a citao; ali estava. A incerteza o atormentou. Alterar ou suprimir essas palavras era debilitar a expresso; deix-las era plagiar um homem que ele abominava; indicar a fonte era denunci-lo. Implorou o socorro divino. No princpio do segundo crepsculo, seu anjo da guarda ditou-lhe uma soluo intermdia. Aureliano conservou as palavras, mas lhes anteps este aviso: "O que ladram agora os heresiarcas para confuso da f, disse-o neste sculo um varo doutssimo, com mais irreflexo que culpa". Depois, aconteceu o temido, o esperado, o inevitvel. Aureliano teve de declarar quem era esse varo; Joo de Panonia foi acusado de professar opinies herticas.

    Quatro meses depois, um ferreiro de Aventino, alucinado pelos enganos dos histries, ps sobre os ombros de seu filhinho uma grande bola de ferro, a fim de que seu outro voasse. O menino morreu; o horror produzido por esse crime imps uma irrepreensvel severidade aos juzes de Joo. Este no quis retratar-se; repetiu que negar sua proposio era incorrer na pestilencial heresia dos montonos. No entendeu (no quis entender) que falar dos montonos era falar do que j estava esquecido. Com insistncia um tanto senil, desperdiou os perodos mais brilhantes de suas velhas polmicas; os juzes nem sequer ouviam aquilo que outrora os arrebatara. Em lugar de tratar de purificar-se da mais leve mcula de histrionismo, esforou-se em demonstrar que a proposio de que o acusavam era rigorosamente ortodoxa. Discutiu com os homens de cuja sentena dependia sua sorte e cometeu a mxima grosseria de faz-lo com talento e com ironia. No dia 26 de outubro, depois de uma discusso que durou trs dias e trs noites, sentenciaram-no a morrer na fogueira.

  • Aureliano presenciou a execuo, porque no o fazer seria confessar-se culpado. O lugar do suplcio era uma colina, em cujo verde pico havia uma estaca, fincada profundamente no solo, e em torno dela muitas achas de lenha. Um ministro leu a sentena do tribunal. Sob o sol das doze, Joo de Panonia jazia com o rosto no p, lanando uivos bestiais. Arranhava a terra, mas os verdugos o ergueram, o despiram e por fim o amarraram ao pelourinho. Puseram-lhe cabea uma coroa de palha untada de enxofre; ao lado, um exemplar do pestilento Adversus Annulares. Chovera na noite anterior e a lenha ardia mal. Joo de Panonia rezou em grego e depois em um idioma desconhecido. A fogueira ia lev-lo quando Aureliano se atreveu a erguer os olhos. As chamas ardentes se detiveram; Aureliano, pela primeira e ltima vez, viu o rosto do odiado. Lembrou-lhe o de algum, mas no pde precisar de quem. Depois, as chamas o perderam; depois, gritou e foi como se um incndio gritasse.

    Plutarco conta que Jlio Csar chorou a morte de Pompeu; Aureliano no chorou a de Joo, mas sentiu aquilo que sentiria um homem curado de uma enfermidade incurvel que j fosse parte de sua vida. Em Aquilia, em feso, na Macednia, deixou que sobre si passassem os anos. Procurou os difceis limites do Imprio, os rudes lamaais e os contemplativos desertos, para que a solido o ajudasse a entender seu destino. Numa cela mauritana, na noite carregada de lees, repensou a complexa acusao contra Joo de Panonia e justificou, pela ensima vez, o veredicto. Custou-lhe mais justificar sua tortuosa denncia. Em Rusaddir pregou o anacrnico sermo Luz das Luzes Acesa na Carne de Um Rprobo. Em Hibrnia, em uma das cabanas de um monastrio cercado pela selva, surpreendeu-o, numa noite at a alvorada, o rumor da chuva. Lembrou-se de uma noite romana em que fora surpreendido, tambm, por esse minucioso rumor. Um raio, ao meio-dia, incendiou as rvores e Aureliano pde morrer como morrera Joo.

    O final da histria s pode ser narrado com metforas, j que se passa no reino dos cus, onde no h tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa to pouco por diferenas religiosas que o tomou por Joo de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confuso da mente divina. Mais correto dizer que no paraso Aureliano soube que, para a insondvel divindade, ele e Joo de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vtima) formavam uma nica pessoa. _______________________________________ Notas: 1 Nas cruzes rnicas os dois emblemas inimigos convivem entrelaados.

  • HISTRIA DO GUERREIRO E DA CATIVA __________________________________________

    Na pgina 278 do livro La Poesia (Bari, 1942), Croce, resumindo um texto latino do historiador Paulo, o Dicono, narra o destino e cita o epitfio de Droctulft; estes me comoveram singularmente, depois compreendi por qu. Droctulft foi um guerreiro lombardo que, no assdio de Ravena, abandonou os seus e morreu defendendo a cidade que antes havia atacado. Os ravenenses sepultaram-no num templo e compuseram um epitfio em que manifestavam sua gratido ("contempsit caros, dum nos amat ille, parentes") e o peculiar contraste observado entre a aparncia cruel daquele brbaro e sua simplicidade e bondade:

    Terribilis visu facies, sed mente benignus, Longaque robusto pectore barba fuit!1

    Tal a histria do destino de Droctulft, brbaro que morreu defendendo Roma, ou

    tal o fragmento de sua histria que Paulo, o Dicono, pde resgatar. Nem sequer sei em que tempo ocorreu: se em meados do sculo VI, quando os longobardos desolaram as plancies da Itlia; se no VIII, antes da rendio de Ravena. Imaginemos (este no um trabalho histrico) o primeiro.

    Imaginemos Droctulft, sub specie aeternitatis, no como o indivduo Droctulft, que sem dvida foi nico e insondvel (todos os indivduos o so), mas como tipo genrico que dele e de muitos outros como ele tem feito a tradio, que obra do esquecimento e da memria. Atravs de uma obscura geografia de selvas e lodaais, as guerras o trouxeram Itlia, desde as margens do Danbio e do Elba, e talvez no soubesse que ia para o Sul e talvez no soubesse que guerreava contra o nome romano. possvel que professasse o arianismo, que sustenta ser a glria do Filho reflexo da glria do Pai, porm mais congruente imagin-lo devoto da terra, de Hertha, cujo dolo coberto ia de cabana em cabana num carro puxado por vacas, ou dos deuses da guerra e do trovo, que eram toscas figuras de madeira, envoltas em roupa tecida e recobertas de moedas e argolas. Vinha das selvas inextricveis do javali e do auroque; era branco, corajoso, inocente, cruel, leal a seu capito e a sua tribo, no ao universo. As guerras o trazem a Ravena e a v algo que jamais viu, ou que no viu com plenitude. V o dia e os ciprestes e o mrmore. V um conjunto que mltiplo sem desordem; v uma cidade, um organismo feito de esttuas, de templos, de jardins, de habitaes, de grades, de jarres, de capitis, de espaos regulares e abertos. Nenhuma dessas obras (eu sei) o impressiona por ser bela; tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo fim ignorssemos mas em cujo desenho fosse adivinhada uma inteligncia imortal. Talvez lhe baste ver um nico arco, com uma incompreensvel inscrio em eternas letras romanas. Bruscamente, cega-o e renova-o essa revelao a Cidade. Sabe que nela ser um co, ou uma criana, e que no comear sequer a entend-la, mas sabe tambm que ela vale mais que seus deuses e que a f jurada

  • e que todos os lodaais da Alemanha. Droctulft abandona os seus e peleja por Ravena. Morre, e, na sepultura, gravam palavras que ele no teria entendido:

    Contempsit caros, dum nos amat ille, parentes, Hanc patriam reputans esse, Ravenna, suam.2

    No foi um traidor (os traidores no costumam inspirar epitfios piedosos); foi um

    iluminado, um convertido. No fim de umas quantas geraes, os longobardos que culparam o trnsfuga procederam como ele; fizeram-se italianos, lombardos e talvez algum de seu sangue Aldiger pde gerar aqueles que geraram Alighieri... Muitas conjeturas podem ser aplicadas ao ato de Droctulft; a minha a mais econmica; se no verdadeira como fato, ser como smbolo.

    Quando li no livro de Croce a histria do guerreiro, ela me comoveu de maneira inslita e tive a impresso de recuperar, sob forma diversa, algo que havia sido meu. Fugazmente pensei nos cavaleiros mongis que queriam fazer da China um infinito campo de pastoreio e depois envelheceram nas cidades que tinham desejado destruir; no era essa a lembrana que eu buscava. Encontrei-a, por fim; era um relato que ouvi uma vez de minha av inglesa, j morta.

    Em 1872, meu av Borges era chefe das fronteiras Norte e Oeste de Buenos Aires e Sul de Santa F. O comando estava em Junn; mais alm, a quatro ou cinco lguas um do outro, a cadeia dos fortins; mais alm, o que ento se denominava La Pampa e tambm Tierra Adentro. Uma vez, entre maravilhada e brincalhona, minha av comentou seu destino de inglesa desterrada nesse fim de mundo; disseram-lhe que no era a nica e lhe mostraram, meses depois, uma rapariga ndia que atravessava lentamente a praa. Vestia duas mantas vermelhas e ia descala; suas tranas eram loiras. Um soldado disse-lhe que outra inglesa queria falar com ela. A mulher assentiu; entrou no comando sem temor, mas no sem receio. Na face acobreada, borrada de cores ferozes, os olhos eram desse azul entediado que os ingleses chamam cinzento. O corpo era ligeiro, como de cora; as mos, fortes e ossudas. Vinha do deserto, de Tierra Adentro, e tudo parecia ficar-lhe pequeno: as portas, as paredes, os mveis.

    Talvez as duas mulheres, por um instante, se sentissem irms; estavam longe de sua ilha querida e num inacreditvel pas. Minha av enunciou qualquer pergunta; a outra respondeu com dificuldade, procurando as palavras e repetindo-as, como que assombrada por algum antigo sabor. Faria quinze anos que no falava o idioma natal e no era fcil recuper-lo. Disse que era de Yorkshire, que seus pais emigraram para Buenos Aires, que os perdera num ataque, que os ndios a levaram e que agora era mulher de um capitozinho a quem j tinha dado dois filhos e que era muito valente. Foi dizendo isso num ingls rstico, intercalado de araucano ou pampa, e por trs do relato se vislumbrava uma vida cruel: os toldos de couro de cavalo, as fogueiras de esterco, os festins de carne chamuscada ou de vsceras cruas, as sigilosas marchas ao amanhecer; o assalto aos currais, o alarido e o saque, a guerra, a caudalosa boiada tangida por cavaleiros desnudos, a poligamia, a hediondez e a magia. A tal barbrie se rebaixara uma inglesa. Movida pela lstima e pelo escndalo, minha av exortou-a a no voltar. Jurou ampar-la, jurou

  • resgatar seus filhos. A outra lhe respondeu que era feliz e voltou, nessa noite, para o deserto. Francisco Borges morreria pouco depois, na revoluo de 74; minha av, ento, pde talvez perceber na outra mulher, tambm arrebatada e transformada por este continente implacvel, um espelho monstruoso de seu destino...

    Todos os anos, a ndia loira costumava chegar s tabernas de Junn, ou do Forte Lavalle, procura de miudezas e vidos; no apareceu desde a conversa com minha av. Entretanto, viram-se outra vez. Minha av tinha sado para caar; num rancho, perto dos banhados, um homem degolava uma ovelha. Como num sonho, a ndia passou a cavalo. Atirou-se ao solo e bebeu o sangue quente. No sei se o fez porque j no podia agir de outro modo ou como um desafio e um sinal.

    Mil e trezentos anos e o mar punham-se entre o destino da cativa e o destino de Droctulft. Os dois, agora, so igualmente irrecuperveis. A figura do brbaro que abraa a causa de Ravena, a figura da mulher europia que opta pelo deserto podem parecer antagnicas. No entanto, um mpeto secreto arrebatou os dois, um mpeto mais fundo que a razo, e os dois acataram esse mpeto que no souberam justificar. Talvez as histrias que contei sejam uma nica histria. Para Deus, o anverso e o reverso desta moeda so iguais.

    Para Ulrike von Khlmann. ______________________________________ Notas: 1 Tambm Gibbon (Decline and Fall, XLV) transcreve estes versos. [Ele tinha um rosto cuja viso provocava o terror, mas tinha um esprito benigno; uma longa barba cobria seu peito robusto. (N. da T)] 2 Ele desdenhava seus queridos pais, enquanto nos amava, considerando que Ravena era sua ptria. (N. da T.)

  • BIOGRAFIA DE TADEO ISIDORO CRUZ (1829-1874)

    __________________________________________

    Im looking for the face I had Before the world was made.

    YEATS: The Winding Stair.

    No dia 6 de fevereiro de 1829, os guerrilheiros que, fustigados por Lavalle, marchavam do Sul para incorporar-se s divises de Lpez, pararam em uma estncia cujo nome ignoravam, a trs ou quatro lguas do Pergamino; ao amanhecer, um dos homens teve um pesadelo tenaz: na penumbra do galpo, o confuso grito despertou a mulher que com ele dormia. Ningum sabe o que sonhou, pois no outro dia, s quatro, os guerrilheiros foram desbaratados pela cavalaria de Surez e a perseguio durou nove lguas, at os palhegais j sombrios, e o homem pereceu numa vala, partido o crnio por um sabre das guerras do Peru e do Brasil. A mulher chamava-se Isidora Cruz; o filho que teve recebeu o nome de Tadeo Isidoro.

    Meu propsito no repetir sua histria. Dos dias e noites que a compem, s me interessa uma noite; do resto no contarei seno o indispensvel para que essa noite seja entendida. A aventura consta de um livro insigne; quer dizer, de um livro cuja matria pode ser tudo para todos (I Corntios 9, 22), pois capaz de quase inesgotveis repeties, verses, perverses. Os que tm comentado, e so muitos, a histria de Tadeo Isidoro destacam a influncia da plancie em sua formao, mas gachos idnticos a ele nasceram e morreram nas selvticas margens do Paran e nas coxilhas orientais. Viveu, isso sim, num mundo de barbrie montona. Quando, em 1874, morreu de uma varola negra, no tinha visto nunca uma montanha nem um bico de gs nem um moinho. Tampouco uma cidade. Em 1849, foi a Buenos Aires com uma tropa do estabelecimento de Francisco Xavier Acevedo; os tropeiros entraram na cidade para esvaziar o cinto; Cruz, receoso, no saiu de uma hospedaria na vizinhana dos currais. Passou a muitos dias, taciturno, dormindo na terra, mateando, levantando-se ao alvorecer e recolhendo-se hora da prece. Compreendeu (alm das palavras e at do entendimento) que a cidade nada tinha a ver com ele. Um dos pees, bbado, zombou dele. Cruz no lhe respondeu, mas nas noites do regresso, junto fogueira, o outro amiudava as zombarias, e ento Cruz (que antes no demonstrara rancor, nem sequer desgosto) o estendeu com uma punhalada. Fugitivo, teve de refugiar-se num faxinai; noites depois, o grito de uma chaj advertiu-o que a polcia o havia cercado. Experimentou a faca num arbusto; para que no lhe estorvassem a caminhada, tirou as esporas. Preferiu lutar a entregar-se. Foi ferido no antebrao, no ombro, na mo esquerda; feriu gravemente os mais bravos da partida; quando o sangue lhe correu entre os dedos, lutou com mais coragem que nunca; ao amanhecer, tonto pela perda de sangue, desarmaram-no. O exrcito desempenhava, ento, uma funo penal; Cruz foi mandado para um fortim da fronteira Norte. Como soldado raso, participou das guerras

  • civis; s vezes combateu por sua provncia natal, s vezes contra. Em 23 de janeiro de 1856, nas Lagunas de Cardoso, foi um dos trinta cristos que, a mando do sargento-mor Eusbio Laprida, lutaram contra duzentos ndios. Nessa ao, recebeu um ferimento de lana.

    Em sua obscura e valorosa histria so muitos os hiatos. Por volta de 1868, sabemos que estava de novo no Pergamino: casado ou amasiado, pai de um filho, dono de um pedao de campo. Em 1869, foi nomeado sargento da polcia rural. Corrigira o passado; naquele tempo, deve ter-se considerado feliz, embora no fundo no o fosse. (Esperava-o, secreta no futuro, uma lcida noite fundamental: a noite em que por fim viu sua prpria face, a noite em que por fim escutou seu nome. Bem entendida, essa noite esgota sua histria; ou melhor, um instante dessa noite, um ato dessa noite, porque os atos so nosso smbolo.) Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta da realidade de um nico momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem . Conta-se que Alexandre da Macednia viu refletido seu futuro de ferro na fabulosa histria de Aquiles; Carlos XII da Sucia, na de Alexandre. Tadeo Isidoro Cruz, que no sabia ler, esse conhecimento no lhe foi revelado por um livro; viu-se a si mesmo em um entrevero e num homem. Os fatos aconteceram assim:

    Nos ltimos dias do ms de junho de 187O, recebeu ordem de prender um malfeitor que devia duas mortes Justia. Era um desertor das foras que o coronel Benito Machado comandava na fronteira Sul; numa bebedeira, assassinara um homem mulato num bordel; noutra, um vizinho do partido de Rojas; o relatrio acrescentava que procedia de Laguna Colorada. Nesse lugar, fazia quarenta anos, haviam-se reunido os guerrilheiros para a desventura que entregou suas carnes aos pssaros e aos ces; da saiu Manuel Mesa, que foi executado na praa da Victoria, enquanto os tambores soavam para que no se ouvisse sua ira; da, o desconhecido que gerou Cruz e que pereceu numa vala, partido o crnio por um sabre das batalhas do Peru e do Brasil. Cruz esquecera o nome do lugar; com leve mas inexplicvel inquietude, reconheceu-o... O criminoso, acossado pelos soldados, armou a cavalo um extenso labirinto de idas e vindas; estes, entretanto, o encurralaram na noite de 12 de julho. Refugiara-se num palhegal. A treva era quase indecifrvel; Cruz e os seus, cautelosos e a p, avanaram em direo das matas em cuja fundura trmula espreitava ou dormia o homem secreto. Gritou uma chaj; Tadeo Isidoro Cruz teve a impresso de j ter vivido esse momento. O criminoso saiu do abrigo para combat-los. Cruz o entreviu, terrvel; a crescida cabeleira e a barba cinzenta pareciam comer-lhe a face. Um motivo evidente me impede de narrar a luta. Basta-me recordar que o desertor feriu gravemente ou matou vrios dos homens de Cruz. Este, enquanto combatia na escurido (enquanto seu corpo combatia na escurido), comeou a compreender. Compreendeu que um destino no melhor que outro, mas que todo homem deve acatar aquele que traz consigo. Compreendeu que as divisas e o uniforme j o estorvavam. Compreendeu seu ntimo destino de lobo, no de cachorro gregrio; compreendeu que o outro era ele. Amanhecia na imensa plancie. Cruz atirou por terra o quede, gritou que no ia consentir no delito de que se matasse um valente e ps-se a lutar contra os soldados, junto com o desertor Martn Fierro.

  • EMMA ZUNZ __________________________________________

    No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fbrica de tecidos Tarbuch e Loewenthal, encontrou no fundo do vestbulo uma carta, datada do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido. Enganaram-na, primeira vista, o selo e o envelope; depois, inquietou-a a letra desconhecida. Nove ou dez linhas mal traadas quase enchiam a folha; Emma leu que o senhor Maier tinha ingerido por engano uma forte dose de veronal e tinha falecido a 3 do corrente no hospital de Bag. Um companheiro de penso de seu pai assinava a notcia, um tal Fein ou Fain, de Rio Grande, que no podia saber que se dirigia filha do morto.

    Emma deixou cair o papel. A primeira sensao foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; depois, de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; depois, quis j estar no dia seguinte. Imediatamente, compreendeu que essa vontade era intil, porque a morte de seu pai era a nica coisa que tinha sucedido no mundo e que continuaria sucedendo para sempre. Pegou o papel e foi para o quarto. Furtivamente, guardou-o na gaveta, como se, de alguma forma, j conhecesse os fatos ulteriores. Talvez j comeasse a vislumbr-los; j era a que seria.

    Na crescente escurido, Emma chorou at o fim daquele dia o suicdio de Manuel Maier, que nos velhos dias felizes fora Emanuel Zunz. Recordou veraneios numa chcara, perto de Gualeguay, recordou (procurou recordar) sua me, recordou a casinha de Lans que lhes arremataram, recordou os amarelos losangos de uma janela, recordou o auto de priso, o oprbrio, recordou as cartas annimas com o comentrio sobre "o desfalque do caixa", recordou (mas isso ela nunca esquecia) que seu pai, na ltima noite, jurara que o ladro era Loewenthal. Loewenthal, Aaron Loewenthal, antes gerente da fbrica e agora um dos donos. Emma, desde 1916, guardava o segredo. A ningum o revelara, nem sequer a sua melhor amiga, Elsa Urstein. Talvez evitasse a profana incredulidade; talvez acreditasse que o segredo fosse um vnculo entre ela e o ausente. Loewenthal no sabia que ela sabia; Emma Zunz tirava desse fato nfimo um sentimento de poder.

    No dormiu quela noite, e, quando a primeira luz definiu o retngulo da janela, j estava perfeito seu plano. Procurou fazer com que esse dia, que lhe pareceu interminvel, fosse como os outros. Havia na fbrica rumores de greve; Emma, como sempre, declarou-se contra qualquer violncia. As seis, concludo o trabalho, foi com Elsa a um clube para mulheres, com ginsio e piscina. Inscreveram-se; teve que repetir e soletrar seu nome e sobrenome, teve que achar graa das brincadeiras vulgares com que comentado o exame mdico. Com Elsa e com a mais moa das Kronfuss discutiu a que cinema iriam no domingo tarde. Depois, falou-se de namorados e ningum esperou que Emma falasse. Completaria dezenove anos em abril, mas os homens lhe inspiravam ainda um temor quase

  • patolgico... Na volta, preparou uma sopa de tapioca e uns legumes, comeu cedo, deitou-se e obrigou-se a dormir. Assim, laboriosa e trivial, passou a sexta-feira, dia 15, a vspera.

    No sbado, a impacincia despertou-a. A impacincia, no a inquietude, e o singular alvio de estar finalmente naquele dia. J no tinha que tramar e imaginar; dentro de algumas horas, atingiria a simplicidade dos fatos. Leu em La Prensa que o Nordstjrnan, de Malm, zarparia nessa noite do cais 3; telefonou para Loewenthal, insinuou que desejava comunicar, sem que as outras soubessem, algo sobre a greve e prometeu passar pelo escritrio, ao anoitecer. Tremia-lhe a voz; o tremor convinha a uma delatora. Nenhum outro fato memorvel ocorreu nessa manh. Emma trabalhou at as doze e marcou com Elsa e com Perla Kronfuss os pormenores do passeio de domingo. Deitou-se depois de almoar e recapitulou, de olhos fechados, o plano que tramara. Pensou que a etapa final seria menos horrvel que a primeira e que lhe proporcionaria, sem dvida, o sabor da vitria e da justia. De repente, alarmada, levantou-se e correu gaveta da cmoda. Abriu-a; debaixo do retrato de Milton Sills, onde a deixara na noite anterior, estava a carta de Fain. Ningum podia t-la visto; comeou a ler e rasgou-a.

    Narrar com alguma realidade os fatos dessa tarde seria difcil e talvez improcedente.

    Um atributo do infernal a irrealidade, um atributo que parece diminuir seus terrores e que talvez os agrave. Como tornar verossmil uma ao na qual quase no acreditou quem a executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memria de Emma repudia e confunde? Emma vivia em Almagro, na rua Liniers; consta-nos que nessa tarde foi ao porto. Talvez no infame Paseo de Julio se tenha visto multiplicada em espelhos, anunciada por luzes e despida pelos olhos famintos, porm mais razovel conjeturar que a princpio errou, inadvertida, pela indiferente galeria... Entrou em dois ou trs bares, viu a rotina ou os modos de outras mulheres. Por fim, deu com homens do Nordstjrnan. Temeu que um deles, muito jovem, lhe inspirasse alguma ternura e optou por outro, talvez mais baixo que ela e grosseiro, a fim de que a pureza do horror no fosse diminuda. O homem conduziu-a a uma porta e depois a um turvo saguo e depois a uma escada tortuosa e depois a um vestbulo (em que havia uma vidraa com losangos idnticos aos da casa em Lans) e depois a um corredor e depois a uma porta que se fechou. Os fatos graves esto fora do tempo, seja porque neles o passado imediato fica como que separado do futuro, seja porque no parecem consecutivas as partes que os formam.

    Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem catica de sensaes inconexas e

    atrozes, Emma Zunz pensou uma nica vez no morto que motivava o sacrifcio? Tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento correu perigo seu desesperado propsito. Pensou (no pde deixar de pensar) que seu pai tinha feito a sua me a coisa horrvel que lhe faziam agora. Pensou com dbil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlands, no falava espanhol; foi um instrumento para Emma como esta o foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justia.

    Quando ficou sozinha, Emma no abriu em seguida os olhos. Na mesa-de-cabeceira estava o dinheiro deixado pelo homem. Emma sentou-se e o rasgou como antes rasgara a carta. Rasgar dinheiro uma impiedade, como jogar fora o po; Emma arrependeu-se, to logo o fez. Um ato de soberba, e naquele dia... O medo perdeu-se na tristeza de seu corpo, no asco. O asco e a tristeza prendiam-na, mas Emma lentamente se levantou e comeou a

  • vestir-se. No quarto no restavam cores vivas; o ltimo crepsculo se adensava. Ela pde sair sem que a percebessem; na esquina, pegou um Lacroze que ia para o oeste. Escolheu, conforme seu plano, o banco mais da frente para que no lhe vissem o rosto. Talvez a tenha consolado verificar, no inspido movimento das ruas, que o acontecido no contaminara as coisas. Passou por bairros decrescentes e opacos, vendo-os e esquecendo-os no ato, e desceu numa das esquinas de Warnes. Paradoxalmente, seu cansao vinha a ser uma fora, pois a obrigava a concentrar-se nos pormenores da aventura e lhe ocultava o fundo e o fim.

    Aaron Loewenthal era, para todos, um homem srio; para seus poucos ntimos, um avarento. Vivia nos altos da fbrica, sozinho. Estabelecido no desmantelado arrabalde, temia os ladres; no ptio da fbrica havia um grande cachorro e na gaveta do escritrio, ningum o ignorava, um revlver. Chorara com decoro, no ano anterior, a inesperada morte da mulher uma Gauss, que lhe trouxe um bom dote! , mas o dinheiro era sua verdadeira paixo. Com ntima vergonha, sabia ser menos apto para ganh-lo que para conserv-lo. Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto, que o eximia de agir bem a troco de oraes e devoes. Calvo, corpulento, enlutado, de culos escuros e barba ruiva, esperava de p, junto janela, a informao confidencial da operria Zunz.

    Viu-a empurrar a grade (que ele deixara entreaberta, de propsito) e cruzar o ptio sombrio. Viu-a dar uma pequena volta quando o cachorro amarrado latiu. Os lbios de Emma se atarefavam como os de quem reza em voz baixa; cansados, repetiam a sentena que o senhor Loewenthal ouviria antes de morrer.

    As coisas no ocorreram como previra Emma Zunz. Desde a madrugada anterior, sonhara, muitas vezes, apontando o firme revlver, forando o miservel a confessar a miservel culpa e expondo o corajoso estratagema que permitiria justia de Deus triunfar sobre a justia humana. (No por medo, mas por ser um instrumento da Justia, ela no queria ser castigada.) Depois, um s balao no meio do peito rubricaria a sorte de Loewenthal. Mas as coisas no ocorreram assim.

    Diante de Aaron Loewenthal, mais que a urgncia de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje sofrido por isso. No podia deixar de mat-lo, depois dessa minuciosa desonra. Tampouco tinha tempo a perder com teatralidades. Sentada, tmida, pediu desculpas a Loewenthal, invocou ( maneira de delatora) as obrigaes da lealdade, pronunciou alguns nomes, deu a entender outros e calou-se como se o medo a vencesse. Conseguiu que Loewenthal sasse para buscar um copo dgua. Quando ele, incrdulo de tal agitao, mas indulgente, voltou da sala de jantar, Emma j tinha tirado da gaveta o pesado revlver. Apertou o gatilho duas vezes. O considervel corpo caiu como se os estampidos e a fumaa o tivessem rompido, o copo se partiu, o rosto olhou-a com assombro e clera, a boca injuriou-a em espanhol e em idiche. Os palavres no cessavam; Emma teve de fazer fogo outra vez. No ptio, o cachorro acorrentado ps-se a ladrar, e uma efuso de sangue repentino brotou dos lbios obscenos e manchou a barba e a roupa. Emma iniciou a acusao que tinha preparada ("Vinguei meu pai e no me podero castigar..."), mas no a concluiu, porque o senhor Loewenthal j estava morto. No soube nunca se ele chegou a compreender.

  • Os tensos latidos lembraram que ela no podia, ainda, descansar. Desordenou o

    div, desabotoou o palet do cadver, tirou-lhe os culos salpicados e deixou-os sobre o fichrio. Em seguida, pegou o telefone e repetiu o que tantas vezes repetiria, com essas e com outras palavras: "Aconteceu uma coisa inacreditvel... O senhor Loewenthal me fez vir com o pretexto da greve... Abusou de mim, eu o matei..."

    A histria era inacreditvel, de fato, mas se imps a todos, pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o dio. Verdadeiro tambm era o ultraje que padecera; s eram falsas as circunstncias, a hora e um ou dois nomes prprios.

  • A CASA DE ASTRION __________________________________________

    E a rainha deu luz um filho que se chamou Astrion.

    APOLODORO: Biblioteca, III, I.

    Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, talvez de loucura. Tais acusaes (que castigarei no devido tempo) so irrisrias. verdade que no saio de minha casa, mas tambm verdade que suas portas (cujo nmero infinito)1 esto abertas dia e noite aos homens e tambm aos animais. Que entre quem quiser. No encontrar aqui pompas femininas, nem o bizarro aparato dos palcios, mas sim a quietude e a solido. Por isso mesmo, encontrar uma casa como no h outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) At meus detratores admitem que no h um s mvel na casa. Outra afirmao ridcula que eu, Astrion, sou um prisioneiro. Repetirei que no h uma porta fechada, acrescentarei que no existe uma , fechadura? Mesmo porque, num entardecer, pisei a rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mo aberta. J se tinha posto o sol, mas o desvalido pranto de um menino e as rudes preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, se prosternava; alguns se encarapitavam no estilbato do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se no mar. No em vo que foi uma rainha minha me; no posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modstia o queira.

    O fato que sou nico. No me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filsofo, penso que nada comunicvel pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais mincias no encontram espao em meu esprito, que est capacitado para o grande; jamais guardei a diferena entre uma letra e outra. Certa impacincia generosa no consentiu que eu aprendesse a ler. s vezes o deploro, porque as noites e os dias so longos.

    Claro que no me faltam distraes. Como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra at cair no cho, atordoado. Oculto-me sombra de uma cisterna ou volta de um corredor e divirto-me com que me procurem. H terraos de onde me deixo cair, at me ensangentar. A qualquer hora posso brincar que estou dormindo, com os olhos fechados e a respirao forte. (s vezes durmo realmente, s vezes j outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de tantas brincadeiras, a que prefiro a de outro Astrion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes reverncias, digo-lhe: "Agora voltamos encruzilhada anterior" ou "Agora desembocamos em outro ptio" ou "Bem dizia eu que te agradaria o pequeno canal" ou "Agora vers uma cisterna que se encheu de areia" ou " l vers como o poro se bifurca". As vezes me engano e os dois nos rimos, amavelmente.

  • No s criei esses jogos; tambm meditei sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar outro lugar. No h uma cisterna, um ptio, um bebedouro, um pesebre; so catorze [so infinitos] os pesebres, bebedouros, ptios, cisternas. A casa do tamanho do mundo; ou melhor, o mundo. Todavia, fora de andar por ptios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo dos Machados e o mar. No entendi isso at que uma viso da noite me revelou que tambm so catorze [so infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas duas coisas h no mundo que parecem existir uma nica vez: em cima, o intrincado sol; embaixo, Astrion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas j no me lembro.

    Cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouo seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para procur-los. A cerimnia dura poucos minutos. Um aps o outro, caem, sem que eu ensangente as mos. Onde caram, ficam, e os cadveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles profetizou, na hora da morte, que um dia chegaria meu redentor. Desde esse momento a solido no me magoa, porque sei que vive meu redentor e que por fim se levantar do p. Se meu ouvido alcanassem todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. oxal me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como ser meu redentor? me pergunto. Ser um touro ou um homem? Ser talvez um touro com cara de homem? Ou ser como eu?

    O sol da manh reverberou na espada de bronze. J no restava qualquer vestgio de sangue.

    Acreditars, Ariadne? disse Teseu. O minotauro mal se defendeu.

    A Marte Mosquera Eastman.

    __________________________________ Notas: 1 O original diz catorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Astrion, adjetivo numeral vale por infinitos.

  • A OUTRA MORTE __________________________________________

    H uns dois anos (perdi a carta), Gannon me escreveu de Gualeguaych, anunciando o envio de uma verso, talvez a primeira espanhola, do poema The Past de Ralph Waldo Emerson e acrescentando num ps-escrito que Dom Pedro Damin, de quem eu guardaria alguma lembrana, tinha morrido, noites atrs, de uma congesto pulmonar. O homem, arrasado pela febre, revivera em seu delrio a sangrenta jornada de Masoller; a notcia pareceu-me previsvel e at convencional, porque Dom Pedro, aos dezenove ou vinte anos, seguira as bandeiras de Aparicio Saravia. A revoluo de 19O4 encontrou-o em uma estncia de Ro Negro ou de Paysand, onde trabalhava como peo; Pedro Damin era entrerriano, de Gualeguay, mas foi para onde foram os amigos, to corajoso e to ignorante como eles. Combateu em algum entrevem e na batalha final; repatriado em 19O5, retomou com humilde tenacidade as tarefas do campo. Que eu saiba, no tornou a deixar sua provncia. Os ltimos trinta anos passou-os em um posto muito isolado, a uma ou duas lguas do ancay; naquele abandono, conversei com ele uma tarde (procurei conversar com ele uma tarde), por volta de 1942. Era homem taciturno, de poucas luzes. O som e a fria de Masoller esgotavam sua histria; no me surpreendeu que os revivesse, na hora da morte... Soube que no veria mais Damin e quis record-lo; to pobre minha memria visual que s recordei uma fotografia que Gannon lhe tirou. O fato nada tem de singular, se considerarmos que vi o homem em princpios de 1942, uma vez, e o retrato, muitssimas. Gannon mandou-me essa fotografia;