JAZ | João Loureiro

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  • JAZ | Joo Loureiro

  • JAZ uma instalao permanente localizada em So Miguel das Misses que estabelece uma relao entre arte e patrimnio histrico, propondo interrogar, de maneira crtica, os modos como so construdos e veiculados os discursos sobre a histria.

    O Edital Arte e Patrimnio foi lanado

    em 2007 com o objetivo de criar uma

    linha de financiamento para projetos que

    estabeleam dilogos entre as artes visuais

    contemporneas e o patrimnio artstico e

    histrico nacional. Por um lado, trabalhos

    artsticos e processos estticos atuais e, por

    outro, os acervos, as tradies, as culturas

    e os stios que estabelecem a memria do

    Pas. Essa sugesto de interaes mltiplas

    um modo de celebrar os 70 anos do

    Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico

    Nacional Iphan.

    Formada por Afonso Luz, Carlos Zilio,

    Cristiana Tejo, Fernanda Barbar, Lauro

    Cavalcanti, Lorenzo Mammi, Marisa

    Morkarzel, a comisso julgadora se reuniu em

    outubro de 2007 para selecionar, entre os

    138 projetos recebidos de todo o Brasil,

    12 propostas que priorizassem a inter-relao

    entre as artes visuais contemporneas e os

    patrimnios brasileiros escolhidos.

    Foram selecionados dois projetos que

    propem uma leitura histrica das artes

    visuais e dez projetos que difundem a

    temtica da interao entre as artes visuais

    e o patrimnio cultural brasileiro.

    Nesta primeira edio do Edital foram

    escolhidos projetos que fazem interaes

    entre So Paulo, Rio de Janeiro, Bahia,

    Maranho, Paran e Rio Grande do Sul e

    entre as regies Sul e Nordeste. A relao

    de todos os projetos selecionados est

    disponvel no site www.artepatrimoniorg.br.

    O Edital Arte e Patrimnio uma iniciativa

    do Ministrio da Cultura e do Instituto do

    Patrimnio Histrico e Artstico Nacional

    Iphan, por meio do Pao Imperial, com

    patrocnio da Petrobras.

  • Em meio a antigos pampas atualmente tomados pelo cultivo da soja, contra uma paisagem que afasta ainda mais o horizonte, ergue-se um discreto gradil branco demarcando um espao retangular no descampado, uma escavao funda. Junto entrada, sugerida pela descontinuidade desse parapeito, v-se parcialmente, abaixo da superfcie, um ambiente totalizando 3,16 x 3,90 x 12,40 metros. Do patamar superior, avistam-se trs volumes, rejuntados no cho de concreto, revestidos de modo idntico, em contraste com paredes brancas de um cmodo construdo. Descendo os poucos degraus da escada de alvenaria aparente, defronta-se com a sala subterrnea, de acesso vedado por vidros. esquerda, ao p da vidraa e fora de seus limites, um dos volumes. Dentro, outro maior e centralizado e, por trs dele, um terceiro, menor e parecido com o que est junto escadaria. Reconhecem-se trs figuras como que irrompidas do cho cimentado: as duas menores assemelhadas a pedras ou a representaes simplificadas de fragmentos de rochas e a maior sugerindo uma frao de esttua ou, mais exatamente, um busto formado por cabea e ombros, em dimenses agigantadas para a escala humana (2,20 x 2,60 x 2,40 metros). s superfcies dessas formas, homogeneamente recobertas por um tom cinza mdio, sobrepem-se traados ordenados, formando uma trama de linhas horizontais e verticais dispostas ortogonalmente.

    Se as pedras aderem paralelamente ao cho, a figura ao centro, seccionada por um plano transversal, surge arqueada para um dos lados, apoiada de vis no solo. Cortado desse modo, abaixo do que convencionalmente se faz nos bustos, o volume parece a meio caminho entre uma projeo literal e uma continuidade imaginada, como se fosse parte de um todo mais complexo, talvez ausente, talvez retido embaixo da estrutura visvel. Um busto, em todo caso, concentra seu poder evocatrio na eloqncia da fisionomia representada por traos distintivos, afastando-se o quanto possvel de solues visuais genricas. Nessa figura, os contornos, francamente esquemticos, desenham uma cabea agigantada, com testa ligeiramente saliente, sobre a qual repousa um chapu de abas largas. Barba e bigode cerrados, aparados rente ao

    Jaz em S o Miguel das Misses

  • contorno do rosto, sobrancelhas espessas delineando olhos sem pupilas, nariz e lbios comuns no feitio, pescoo curto apoiado em ombros amplos, recobertos por camisa e colete e transpassados por uma ala afivelada. Sem vestgios expressivos, a feio rgida chega a ser brutal de to sinttica - exceo do cenho franzido, acentuado de quando em quando pela luminosidade exterior.Trata-se da representao no de uma figura humana qualquer, mas de um personagem histrico do sculo XVII, um bandeirante em rsticas vestes sertanistas. De imediato, vem lembrana certo monumento paulista, muito controverso, tambm desmesurado, tambm um bandeirante de trajar simples, revestido por ladrilhos coloridos arranjados em mosaico. O tom de exagero , alis, nota recorrente na iconografia das bandeiras, sobretudo naquela sua vertente alinhada com o repertrio de idias forjado pela historiografia paulista nas primeiras dcadas do sculo XX, muito ocupada em articular um eixo de interpretao da histria do Brasil que passasse decisivamente pela histria de So Paulo. Esse pensamento esforou-se por conferir dignidade herica aos feitos dos habitantes da empobrecida regio, isolada geograficamente do litoral, condio que ajudou a explicar a premncia de uma alardeada vocao desbravadora que, s expensas de atividades as mais terrveis, contribuiu para a consolidao das fronteiras do pas. No toa se encontram, nos acervos dos museus, bandeirantes retratados conforme as preceptivas da pintura histrica, em poses e trajes altivos, uma solenidade de todo cara elite de cafeicultores, vida por sinais de legitimao e que se valeu, diante da escassez de fontes documentais e visuais, de boa dose de fico para suavizar as marcas de sua bastardia.

    Para a histria de So Miguel das Misses, no entanto, os bandeirantes so personagens secundrios, quase proscritos. No h indcios de que tenham passado pela regio, mas se sabe que as redues jesuticas ali se fixaram em conseqncia do extermnio de aldeamentos por bandeiras de preao. Nessas terras, escolher representar um bandeirante supor a negatividade de qualquer identificao simblica. No edificar um monumento, ao menos no em seu sentido tradicional. Monumentos invocam e atuam sobre a memria em uma chave afetiva, selecionam e acentuam aspectos precisos do passado na tentativa de conserv-los presentes na conscincia de um grupo e de suas futuras geraes. So no mais das vezes laudatrios e comemorativos. Entretanto, o que est encerrado pela vidraa uma figura embotada, cindida e refreada pela arquitetura, em nada semelhante a um homenageado. Em sucessivas denegaes, reiteradas por escolhas formais rigorosas e de modo algum ingnuas, Jaz lana dvidas sobre essa noo de monumento e sobre o quanto resta da idia de monumental na arte, sobretudo quando confrontada com a dimenso pblica do espao da cidade.

  • Como a estrutura e o nome insinuam, a construo assemelha-se a um jazigo, imerso no silncio de um entorno rarefeito, mais ainda a um mausolu, em seu afastamento e em sua frontalidade. Sugere ainda uma escavao arqueolgica em processo, talvez no estgio em que os vestgios so esquadrinhados, impresso esta pouco verossmil, ainda que o solo contguo abrigue um stio arqueolgico que, dizem as lendas, guardou em seus subterrneos tesouros dos povos missioneiros. Pois bem, ao evitar a adio de um acontecimento impositivo paisagem, enterrou-se, de certa maneira, uma situao escultrica complexa para ser divisada desde uma perspectiva fixa, como uma imagem chapada, privilegiando-se a superfcie em detrimento da profundidade, quase de todo interditada. Achatar a espessura do volume imenso e aplainar o espao por um efeito de composio comum aos relevos, tensionando incessantemente os limites entre o bidimensional e o tridimensional, de fato um dos partidos tomados por Jaz. Se no, o que dizer das quadrculas? No h como no as associar a procedimentos que, no desenho, possibilitam meticulosas transposies de escalas, garantindo coeso aos resultados. E a essa condio fortemente planejada, antes revestimento que estrutura, somam-se as caractersticas grficas das trs peas, que se parecem muito com desenhos tridimensionais codificados, reduzidos a traos essenciais. Devolve-se, assim, uma dimenso projetiva ao volume colossal.

    Ao dispensar o mesmo tratamento s superfcies, afasta-se uma suposio de hierarquia entre as figuras e igualam-se os temas: bandeirante e pedras compartilham, nesse caso, de um mesmo estatuto. Todos feitos de maneira idntica, a partir do desbaste minucioso de macios de isopor, recobertos por camadas de concreto e demos de tinta acinzentada, a insinuar afinidades com o cho de cimento. Conferiu-se peso leveza do material e confirmou-se o revestimento por sua prpria cor. Uma superposio de artifcios, uma clara inautenticidade, que, tornada to manifesta, deixa de enganar, como se ali a falsidade fosse a parte verdadeira. Essa a operao formal mais marcante, a que incide diretamente nos mecanismos da representao, evidenciando-os menos pelo desvelamento e mais pela reincidncia. Representar uma representao que j foi representada: quanto mais as converses se sucedem mais sobras so deixadas e, com elas, mais opacidade.

    Subindo os degraus da escada para sair de Jaz, compreende-se sua relao com ao menos duas escalas: uma do corpo humano, diante da qual as figuras so gigantescas, e outra em que a sala toda se ajusta com adequao, a das distncias da cidade, que abarca mais do que somente a preciso da escala geogrfica, envolvendo espaos de horizonte vazio, interrompidos vez por outra por construes invariavelmente trreas. O baixo adensamento urbano, organizado ao longo de uma rua principal e de suas adjacncias, repe a disperso da paisagem. Tendo

  • isso em conta, escolheu-se para Jaz uma rea afastada, vizinha ao cemitrio do municpio, reservada para abrigar um complexo industrial que nunca se efetivou. De sua tnue elevao avistam-se os fundos da catedral da reduo de So Miguel Arcanjo, marco de um padro muito presente, o das vastas propores do Stio Arqueolgico, dimensionado a partir da antiga praa quadrangular frente da igreja, em torno da qual ruas que se interceptam em ngulo reto revelam a conformidade de uma ordenao espacial geometricamente precisa, tpica dos povoados planejados pelos jesutas espanhis. tambm a essa cidade idealizada, preservada em suas runas e que ainda impe sua escala natureza, que Jaz faz aluso. Runas que so, a serem percorridas a p, demandam que sua integridade seja recomposta pela sugesto dos pedaos faltantes. Com efeito, os fragmentos foram nitidamente rearranjados e distribudos pelo Parque das Misses, como a indicar um traado original, uma representao tridimensional de uma planta baixa. Dentro e fora da cerca que protege o Stio, vem-se pedras de arenito, semelhantes s usadas naquelas edificaes coloniais. Alis, diante dessa indistino a olho nu, no h como o pensamento leigo no questionar os critrios que

  • orientam as aes de conservao do patrimnio histrico.O acanhamento brasileiro ao lidar com a preservao e a anlise crtica de seus legados refora a impresso de que, em So Miguel, no possvel se furtar histria e aos modos como seu sentido se constitui. Eis a sua maior especificidade. No por outra razo, o Museu das Misses, uma referncia para a arquitetura moderna, foi concebido nos termos da formalizao espacial remanescente da poca missioneira, atravs da recuperao de um modelo de casa indgena, do madeiramento ao telhado, passando pelo alpendre contnuo, acrescentando-lhe paredes de vidro que do a ver os arredores, soluo que vai ao encontro do iderio auto-reflexivo da forma moderna. A despeito disso, no se pode dizer que a cidade escape aos clichs dos lugares tursticos, como bem comprova a multiplicao da imagem da fachada da igreja, reproduzida freqentemente de modo bidimensional. Alm do mais, h cerca de trinta anos se exibe toda noite na rea tombada o Espetculo de Som e Luz, uma reconstituio histrica dramatizada das Guerras Guaranticas, alinhada viso nostlgica das runas, como a pontuar de modo bastante extravagante os contrastes entre o presente e a magnificncia do passado. Encenam-se ali passagens de convvio harmonioso entre jesutas e guaranis, nos sculos XVII e XVIII, com o esperado incensamento de suas realizaes artsticas e arquitetnicas. Oblitera-se, todavia, que misses ou redues, organizaes teocrticas do poder poltico e militar ligadas coroa espanhola, tenham tambm servido como instrumentos de concentrao e subordinao dos agrupamentos indgenas. Marcada por reconhecidas conquistas culturais, confrontos violentos e assimilao forada, hostilidade da sociedade colonial e resistncia, a histria do projeto missioneiro jesutico guarani repleta de percalos, destruio e renascimentos, e oportunamente resgatada e reelaborada como um captulo constitutivo da identidade regional. de se esperar que um experimento poltico e cultural desse porte fosse mesmo alvo de inmeras interpretaes, servindo para lastrear evocaes de um modelo histrico a ser reconstrudo, projetando sobre as runas os traos de plataformas polticas modernas, no intuito de realar promessas civilizatrias no cumpridas.

    Pensada como insero permanente em um lugar de construo e contestao da memria, Jaz, uma fico no terreno da veracidade, provoca um espessamento da trama de interaes entre arte e histria, trazendo para o plano da forma as tenses soterradas sob as pedras ou nelas incrustadas que compem a relevncia histrica das runas, sejam elas as pedras que a confirmam de dentro do Stio ou as que a confirmam justamente por estarem do lado de fora, como marcas que delimitam aquilo que ele e aquilo que ele no pode ser. Representaes confrontadas uma a outra, obra e Stio equivalem-se na evidncia de sua presena num espao que constantemente se reconstitui ao

  • lanar suas pretenses na direo de um passado to mtico quanto malevel. Igualam-se na proposio de um teste recproco de validade, da credibilidade tanto da verdade quanto da falsidade que sustentam. Confundindo diferenas to marcadas, comutando-as, o trabalho de Joo Loureiro dilui linhas demarcatrias, compromete a coeso do espao demarcado e, materializando dvidas sobre os prprios discursos que invoca, representa uma dvida materializada diante dos discursos que o circundam. E isso s se d porque Jaz opera a partir de elementos anlogos e equivalentes aos que recusa, comportando-se como parte constituinte tanto do mundo material que procura ilustrar e validar determinados repertrios histricos, quanto de modalidades possveis de sua recusa. Ora, se comumente se aceita que o que se chama de passado compreende o conjunto de todos os fatos ocorridos, registrados

  • ou no, aceita-se que a histria, por sua vez, pressupe a sistematizao ordenada desses fatos, de acordo com critrios suficientemente definidos e consentidos. Somente enquanto narrativa histrica que o passado se faz acessvel, de modo mediato, portanto, indireto. De toda maneira, qualquer que seja sua natureza ou seu contedo, as narrativas submetem-se a um esquematismo e a uma maleabilidade que a vida no aprese...

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