jair marinho de oliveira (depoimento,...

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FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL (CPDOC) Proibida a publicação no todo ou em parte; permitida a citação. A citação deve ser textual, com indicação de fonte conforme abaixo. DE OLIVEIRA, Jair Marinho. Jair Marinho de Oliveira (depoimento, 2012). Rio de Janeiro - RJ - Brasil. 2013. 34 pg. JAIR MARINHO DE OLIVEIRA (depoimento, 2012) Rio de Janeiro 2013

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  • FUNDAO GETULIO VARGAS CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAO DE

    HISTRIA CONTEMPORNEA DO BRASIL (CPDOC)

    Proibida a publicao no todo ou em parte; permitida a citao. A citao deve ser textual, com indicao de fonte conforme abaixo.

    DE OLIVEIRA, Jair Marinho. Jair Marinho de Oliveira (depoimento, 2012). Rio de Janeiro - RJ - Brasil. 2013. 34 pg.

    JAIR MARINHO DE OLIVEIRA (depoimento, 2012)

    Rio de Janeiro 2013

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    Nome do Entrevistado: Jair Marinho de Oliveira (J.O).

    Local da entrevista: So Paulo SP.

    Data da entrevista: 20 de agosto de 2012.

    Nome do projeto: Futebol, Memria e Patrimnio: Projeto de constituio de um

    acervo de entrevistas em Histria Oral.

    Entrevistadores: Bernardo Buarque de Hollanda (B.H); Felipe dos Santos Souza (F.S).

    Cmera: CPDOC So Paulo

    Transcrio: Juliana Paula Lima de Mattos.

    Data da transcrio: 30 de outubro de 2012

    Conferncia da Transcrio: Thomas Dreux

    Data da Conferncia: 23 de novembro de 2012 ** O texto abaixo reproduz na ntegra a entrevista concedida por Jair Marinho de Oliveira em 20/08/2012. As partes destacadas em vermelho correspondem aos trechos excludos da edio

    disponibilizada no portal CPDOC. A consulta gravao integral da entrevista pode ser feita na sala de

    consulta do CPDOC.

    B.H Boa tarde. So Paulo, vinte de agosto de 2012. Depoimento de Jair Marinho

    de Oliveira para o projeto do Futebol, Memria e Patrimnio. Uma parceria entre a

    Fundao Getulio Vargas e o Museu do Futebol. Participam desse depoimento Bernardo

    Buarque e Felipe dos Santos. Jair Marinho, Boa Tarde.

    J.O Boa tarde, Bernardo. Boa tarde, Felipe. um prazer estar aqui. bem

    verdade que hoje o Jair Marinho mais do que dar depoimento, quem foi Jair Marinho, o

    que eu fiz pelo futebol e para esses grandes clubes em que eu joguei. Boa tarde.

    B.H Jair, voc nasceu em dezessete de julho de 1936, em Santo Antnio de

    Pdua, Rio de Janeiro. Pode nos contar um pouquinho da sua infncia?

    J.O Na verdade, a minha infncia foi uma infncia muito boa porque eu,

    menino, praticava o meu futebol de pelada como todo mundo praticava, mas eu tinha

    uma meta a fazer com o futebol. Porque desde menino que eu tinha tendncia para jogar

    futebol. E na minha cidade, nasceu o Pndaro1 que jogou no Fluminense, como lateral

    1 Pndaro Possidente Marconi, o Pndaro, ex-zagueiro e lateral direito do Fluminense nos anos 1940 e 1950.

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    direito. Ariosto2, que jogou no Botafogo, no meia. E mais Z Paulo, outros jogadores

    que saram de l. Isso teve uma influncia grande no Jair Marinho. Com dez anos eu

    vim para Niteri, minha cidade, onde eu moro desde os dez anos e l encontrei o

    Zizinho3, que jogou no So Paulo, foi o precursor dos jogadores mais jovens. Veio o

    Altair4 e tal e ns conseguimos fazer, de Niteri, para todos os meninos jogarem

    futebol. Hoje, j no tem, nem em So Paulo, nem no Rio, Niteri no tem mais. Mas na

    verdade, a meta que eu tracei era ser jogador de futebol. Eu queria ser jogador de

    futebol e eu consegui a minha meta de chegar seleo brasileira.

    B.H Os seus pais, a sua famlia, como viam o futebol?

    J.O Minha me no entendia muito de futebol, meu pai entendia. Meu pai era

    msico e dizia para todo mundo que o meu filho vai ser jogador de futebol, com dez

    anos, isso mgico! Mas ele estava certo quando dizia que eu ia ser jogador de futebol.

    Minha me, quando me via jogar futebol... At tem uma graa que ela fazia: Meu filho,

    fala com o homem tampar o buraco l seno voc vai quebrar perna, vai meter no

    buraco. Mame, aqui um espao que dois jogadores deixam na defesa, ali existe

    buraco, quando o jogador.... Ah, porque esto falando que tem buraco l e no .

    Minha me no entendia nada de futebol. Meu pai j entendia um pouco. Mas eu tive

    uns irmos que me levavam para jogar futebol, os pais de amigos. Porque hoje, se voc

    no tiver uma escola de ex-jogador ou pais que gostem e j tenham uma tendncia, o

    jogador, hoje, voc no faz. Eu duvido quem prova que fez um jogador. Ele vem nato. E

    voc d uma lapidada nele. Voc o arruma. Eu tive muita experincia com grande

    jogador. Fiz vrios jogadores profissionais e grandes jogadores que esto na Europa. O

    Hlton, est no Porto, foi o meu aluno l, goleirao. Fui l buscar ele na vrzea. Peguei

    ele, dei uma tratada nele. O Leonardo5, que hoje diretor do Milan, jogou no Milan e

    tal. Esses jogadores so fantsticos. Marco jogou em Portugal e no Fluminense. Eu fiz

    perto de dezoito jogadores sem ganhar nada. Porque eu acho que o profissional no tem

    nada contra quem, se ele quiser, faz. Cobrar aula para jogador de futebol?! Sabe por

    2 Antnio Ariosto de Barros Perlingeiro, o Ariosto, ex- atacante do Botafogo na dcada de 1950. Foi artilheiro do clube nos Campeonatos Cariocas de 1950 e 1951, com 12 e 7 gols respectivamente. 3 Thomas Soares da Silva, o Zizinho, ex-meia do Flamengo e do So Paulo, nos anos 1940 e 1950. 4 Altair Gomes de Figueiredo, ex-zagueiro e lateral direito do Fluminense, foi campeo do mundo em 1962 com a Seleo brasileira. 5 Ex-lateral esquerdo do So Paulo, Milan (ITA) e Seleo brasileira. Atualmente trabalha na direo do Paris Saint-Germain (FRA).

  • Transcrio

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    qu? Porque eu quero ser profissional. Se voc no conseguiu me fazer profissional, eu

    vou reclamar. Estou pagando! Eu sou contra. Ento, com muito custo, arrumava um

    apoio do governo que me dava este estdio para fazer esse tipo de trabalho.

    B.H Desde garoto voc torcia pelo Fluminense?

    J.O Eu sempre torci pelo Fluminense. Eu sou Fluminense. Niteri, Estado do

    Rio Fluminense. E uma camisa bonita que a do Fluminense, no , rapaz? Uma

    camisa daquela... muito bacana jogar com ela. E eu passei a ser Fluminense porque

    todos sabem que quem nasce em Niteri, Estado do Rio, papa goiaba. E papa goiaba

    Fluminense.

    B.H E desde garoto voc queria jogar no Fluminense, queria ser jogador de

    futebol, desde garoto?

    J.O , na verdade, eu tinha influncia grande... Eu tinha uma meta: Ser jogador

    de futebol. As consequncias eu no queria medir, porque eu acho que o momento.

    Depois de as coisas acontecerem, vai acontecendo aos poucos, voc comea a avaliar o

    que vai acontecer. Eu fui muito moo quando eu fui jogador de futebol profissional. Eu

    no era jogador profissional! Eu era jogador de clube. Eu joguei no Fluminense dez

    anos, nenhum jogador desses faz dez anos, duvido que faa. Depois do Fluminense,

    venderam-me para a Portuguesa de Desportos, eu fiz um ano magnfico aqui. Perdi o

    ttulo para o Santos l na Vila, 3 a 2, meu time era muito bom. Depois o Corinthians me

    conquistou, trazendo-me ao Corinthians, dando o Amaro6, ele que veio da Itlia e o

    Lidu7, que era o lateral direito. A eu fiquei uma temporada tambm no Corinthians,

    mas o Corinthians eu vou contar mais tarde porque eu tenho muito a agradecer o que ele

    fez por mim.

    B.H E a sua posio? Quando voc definiu a sua posio? Como foi esse incio

    no Fluminense?

    J.O Eu acho que eu fui um jogador moderno, na poca, h cinquenta anos,

    porque eu era meio de campo e o Altair fazia o quarto zagueiro, no Juvenil. E quando

    precisaram de dois laterais, eu fui um dos abrigos para as laterais. Fui fazer o mesmo

    papel de apoiador do meio de campo. Hoje, os laterais modernssimos, como apoiador

    overlap, no jogou como jogou h cinquenta anos. E todos os laterais fazem esse tipo

    6 Amaro Viana Barbosa, ex-volante do Amrica-RJ, Corinthians e Portuguesa. 7 Ludgero Pereira da Silva, lateral-direito do Corinthians nofinal dos anos 1960.

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    de jogada que ns fazemos h cinquenta anos. Eu era um jogador moderno e por isso

    que eu tive sucesso como jogador, porque eu fazia o que os outros jogadores no

    faziam. O Djalma Santos8 foi um espelho para mim. De Sordi9 que jogou a Copa de

    1958 e a de 1962. Mas ele no jogava como o Jair Marinho jogava. Eu era diferenciado.

    Eu e o Altair fazamos diferentes de todos os laterais que apareceram a. At o prprio

    Nilton Santos10 j fazia o overlap tambm. Na copa de 1958, ele fez o gol, saiu na

    frente e fez o gol. Ele um grande jogador moderno. Djalma no fazia, excelente

    jogador. O De Sordi no fazia, outro magnfico lateral direito. Ento, eu acho que eu fui

    um jogador modernssimo naquela poca.

    B.H Os tcnicos entendiam esse seu trao moderno, esse seu estilo de avanar

    na lateral?

    J.O . Na verdade, foi surpresa, no ? Porque o meu treinador Zez Moreira11

    foi um pai para mim, eu era um peladeiro. Sabe o que peladeiro? Quem pega a bola e

    quer enfiar a bola embaixo da camisa, leva para casa, no quer deixar ningum jogar. Eu

    assumia a bola e no queria deixar ningum jogar. Seu Zez disse: Isso a no assim,

    voc tem o Tel - Tel era um docinho de coco do Fluminense Voc tem a vrios

    jogadores de nome, renome e voc est bagunando tudo. Ah, mas eu quero jogar

    bola, poxa. Uma vez tem uma passagem engraada, que eu nunca me esqueo: Fiz uma

    tabelinha com o Tel, fui ultrapassar, ele olhou para trs, quando ele viu, eu j estava

    passando. Ah, no vou tocar bola nenhuma, estava enchendo o saco. Zez chegou no

    meu ouvido e disse: Rapazinho? Ih, rapaz... Rapazinho, no, eu tenho nome Tem

    nome, mas no parece. Quem fez isso foi o Tel, respeite o Tel! A, ele deu uma

    derrubada, ele disse: Sai!. Sa do treino. E chegou no vestirio, ele falou: Jair, vem

    c, o Tel, poxa, no pode fazer isso. Voc garoto, est comeando... Est brigando

    com o Tel! E eu fui aprender que realmente voc precisa respeitar. Na Copa de 1962,

    eu era absoluto titular da Copa de 1962, mas eu preferi que o Djalma Santos jogasse

    pelo status do Djalma Santos. Eu achava que o Djalma... Neguinho forte, hein rapaz?

    8 Dejalma dos Santos, ex-lateral direito da Portuguesa, Palmeiras e Seleo brasileira. Campeo do Mundo em 1958 e 1962. 9 Nilton De Sordi, ex-lateral direito do So Paulo e Seleo brasileira, jogou a Copa de 1958. No jogando apenas a final daquela competio. 10 Nlton Reis dos Santos, ex-lateral esquerdo do Botafogo e da Seleo brasileira, disputou as Copas do Mundo de 1950,1954,1958,1962. 11 Refere-se ao treinador de futebol brasileiro Alfredo Moreira Jnior.

  • Transcrio

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    Que ele jogava s de 1962. A de 1966, eu jogaria. Ele voltou em 1966 tambm. Quer

    dizer, ns, jogadores de seleo da minha poca, a gente respeitava o parceiro. Voc vai

    jogar e vai jogar por mim. Eu no queria jogar no lugar dele porque eu acho que uma

    coisinha ou outra ele ia ter uma grande influncia como o Djalma Santos na Copa de

    Mundo em 1962 e 1958. Hoje diferente, as coisas mudaram. Eu quero jogar, porque

    eu sou fulano de tal. E por isso ns estamos nessa decadncia e formando seleo nova.

    E a seleo de 2014, ns tambm no vamos ter seleo para isso. Mas, na verdade,

    havia unio de todos, o que voc fizer, faz para o meu bem.

    F.S - E voc chegou ao Fluminense, como voc disse, ter contato com essas

    figuras como o Zez Moreira, que foi um pai pra voc, ensinou voc a ser menos

    peladeiro, voc chegou ali pelos times de Niteri mesmo Niteroiense, que o Altair

    citou Como que voc jogava nesses times?

    J.O . Na verdade, eu conheci o Altair depois no juvenil do Fluminense, jogava

    no time de Niteri tambm. Niteroiense e tal, Manufatura e tal, aquele negcio de

    agrado, o pai levava e tal. Mas o Marinho d sorte, eu dei mais sorte que o Altair porque

    eu fui para uma seleo com quinze anos. A seleo Brasileira, que foi fazer na

    Venezuela um torneio. Eles me convidaram, eu fui jogar. Quando eu voltei da seleo

    brasileira, a seleo foi vice-campe l, o Fluminense foi me buscar em casa. Eu tomei

    um susto! Jogar no Fluminense, meu time? Que isso, est doido? Vai, sim. Ento,

    essa vantagem que eu tive, que outros jogadores no vo ter: Em uma seleo com

    quatorze, quinze anos e depois ingressar no time como o Fluminense! uma coisa

    extremamente difcil.

    B.H Quatorze anos, 1950, tivemos Copa do Mundo realizado no Brasil. Voc

    tem alguma lembrana?

    J.O Eu tenho, claro. Eu tenho lembranas de todas as Copas. Porque triste do

    jogador que no recordam dos caras que vieram de l. Barbosa12, golerao. Nilton

    Santos, Zizinho, Ademir, Friaa13, Chico, esses caras me deixavam emocionado pelo o

    que eles faziam com nome do Brasil. Porque o Brasil at um pouco antes da Copa de

    1950, todo o mundo falava que a capital do Brasil era a Argentina! Eu fui aos Estados

    12 Moacir Barbosa Nascimento, ex-goleiro do Vasco e da Seleo Brasileira. 13 Albino Friaa Cardoso, o Friaa. Ex-ponta do Vasco, So Paulo e Ponte Preta. Autor do nico gol da Seleo brasileira na Copa do Mundo de 1950.

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    Unidos e olhando a televiso l, apareceu na imagem l a Amaznia com macaco e tal,

    um ndio. O cara falou: O Brasil. Eu falei: Pera, o Brasil no isso no. O Brasil

    tem o Rio de Janeiro, tem So Paulo, Porto Alegre... So cidades maravilhosas e esto

    mostrando coisa errada. Depois do futebol que foram descobrir onde estava o Brasil e

    que o Brasil fabricava essa enormidade de jogadores profissionais que surgiam naquela

    poca ali.

    B.H E na Copa de 1950, voc lembra jogo final, voc acompanhou os jogos pelo

    rdio? Voc chegou a ir ao Maracan? Como que era a sua relao, naquela poca, que

    voc morava em Niteri, como torcedor, como algum que acompanhava futebol?

    J.O A Copa de 1950 foi feita com grandes jogadores que ns tivemos aqui. O

    Zizinho de Niteri. O quarto zagueiro tambm de Niteri, jogava na Copa de 1950

    tambm. Mas o que eu me recordo mais foi o gol que o Barbosa tomou, que o Ghiggia14

    fez. Eu estive com ele agora, na Copa de 2006 na Alemanha, eu estive com ele l, ele

    contou a historinha dele l e tal e o Brasil no teve sorte. Porque o futebol em frao de

    segundo, voc perde uma partida, voc perde o jogo. Se voc no tiver uma

    tranquilidade, um equilbrio, voc acaba voc mesmo se prejudicando. E essa Copa de

    1950, deu fora para que fizssemos uma Copa de 1954 melhor. Tanto que ns

    jogamos contra os Suecos, jogamos contra a Hungria e que perdemos. Mas em 1958 j

    tnhamos um time formado, com a base de 1950 e 1954, que foi a de 1958. A de 1958

    foi maravilhosa. E a gente no esperava que aquilo fosse acontecer com o Brasil, porque

    o Brasil vinha de duas derrotas fantsticas esperava que essa terceira poderia acontecer.

    Posso at lembrar a voc, talvez voc no se lembre, o ponta direita o Joel do

    Flamengo. Quem era o reserva dele? Garrincha. Poxa, o treinador est maluco! Como

    ele deixa o Garrincha como reserva do Joel?. O Moacir15, que era do Flamengo, que

    est na Colmbia, o meia-direita, o Didi16 era o reserva dele. A voc fala: Bom, a

    coisa est feia aqui. H proteo. O Pel era reserva do Dida17. E o Vav18 era reserva

    do Mazzola19. O segundo jogo dele em 1958, foi mudado porque o Garrincha veio para

    o lugar dele, o Didi veio para o lugar dele, o Pel veio para o lugar dele e mais o 14 Refere-se ao ex-futebolista Uruguaio Alcides Edgardo Ghiggia. 15 Moacir Claudino Pinto, ex-meia do Flamengo, River Plate e Seleo brasileira. 16 Waldir Pereira, o Didi Folha Seca. Ex-meia do Botafogo, Fluminense e Seleo brasileira. 17 Edvaldo Alves de Santa Rosa, o Dida. Ex-atacante do Flamengo, Portuguesa e Seleo brasileira. 18 Edvaldo Izdio Neto, o Vav. Ex-atacante do Vasco, Palmeiras e Seleo brasileira. 19 Jos Joo Altafini, o Mazzola. Ex-atacante do Palmeiras e do Milan (ITA).

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    Zagallo. A se formou uma base da seleo, ento da ns comeamos mostra ao mundo

    como se joga futebol.

    F.S E essa sua chegada ao juvenil do Fluminense, em 1954, e depois voc vai

    para essa Seleo Brasileira em que voc participa de um torneio na Venezuela, ela

    parece ter sido muito importante. Fala um pouco mais sobre a sua poca no juvenil no

    Fluminense, antes ainda de voc subir no profissional.

    J.O Acho que ali um sonho de todo jogador, todos os garotos querem jogar

    futebol quando eles conhecem o futebol. Voc no pode ser curioso de futebol, que no

    basta se dar bem. Voc precisa conhecer o futebol e como pratica o futebol. Eu tinha

    tudo isso a j guardado de como eu faria, se fosse jogador de futebol. Quando eu fui

    convocado para a seleo j era quase um jogador meio profissional porque eu fazia as

    coisas direito. Trabalhava em cima do mais importante que o controle de bola. Como

    fazia o Zizinho, como fazia o Ademir, como fazia o Pojucam20, como fazia o Friaa,

    esses jogadores me mostravam muito como se jogava futebol. Eu fui aprender na

    metade porque eu era um cara muito observador. Se eu via voc batendo bola, eu falei:

    Poxa, aquele cara bate bola assim, eu vou tentar. Eu tentava at fazer. No fazia

    voc... Voc o dono do que voc fazia bem, mas eu imitava voc. O Didi. O Didi o

    Folha Seca, ele me contou que tomou uma sola e quebrou o peito do p. Para ele no

    sair do jogo, mandou enfaixar e s batia com os trs dedos de fora. Tanto que ele

    metia uma bola de curva, Vav ia por aqui, metia por aqui, o beque21 por aqui, a bola

    corria e pegava o Vav na frente. Eu falei: Como que voc faz isso?. No, porque

    eu quebrei o p e no queria sair do jogo, s podia botar a bola de lado. Eu tentei fazer

    tambm. Eu no fui, assim, um jogador estrelado no, mas fui um jogador... Eu era

    chato para caramba. Fazia comigo, eu fazia tambm. Eu peguei o Canhoteiro22 aqui do

    So Paulo... Nossa Senhora! Ele, depois, perguntou: Quem esse cara que me

    marcou?. A quando eu cheguei aqui em So Paulo, eles disseram: Olha aqui, cuidado

    com o Canhoteiro, hein? D trs dele no canto da bandeirinha de cone, voc no v nem

    a bola. Deixa comigo. O Canhoteiro no viu a bola aquele dia. Eu estava em um dia

    inspirado e j informaram como ele jogava. E observo muito os caras jogando futebol.

    20 Mais prximo do que foi possvel ouvir e grafar. 21 Mais prximo do que foi possvel ouvir e grafar. 22 Jos Ribamar de Oliveira, o Canhoteiro. Ex-ponta esquerda do So Paulo e da Seleo brasileira, considerado um dos melhores ponta-esquerda da histria do futebol brasileiro.

  • Transcrio

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    Bater bola calculista, essa que o Ronaldinho faz, eu fazia isso com as duas pernas.

    Voc, quando se machuca, foi em 1964, depois que eu vim para So Paulo, eu tinha

    fratura na perna direita, comecei a usar a esquerda. A direita era boa, a esquerda ficou

    boa... Ficou melhor ainda. Eu podia fazer com as duas. Ento, eu melhorei muito o meu

    futebol. Eu dou graas a deus por ter vindo ao So Paulo e para o Portuguesa dos

    Desportos, onde a Portuguesa fez a metade do time carioca e a metade paulista. Ivair23,

    esse monstro sagrado a... [Nilmar]... Eu falei: Voc viu o Ivair jogar?. Ah, no viu...

    Que pena! O cara fantstico! O Pel tinha um medo danado... Era o Pel e o Ivair.

    Jogou na Portuguesa comigo. Ns tinha um formato de uma base boa, para ganhar a

    Portuguesa, tinha que ser igual l na Vila Belmiro, o Santos: 3 a 2, em um choveiro

    danado, o Pepe acerta um daqueles chutes malucos e perdemos o campeonato . Em 1964

    aqui, em So Paulo. Mas, na verdade, os jogadores daquela poca, eram muitos os

    jogadores bons: Maurinho... Quem no lembra do Maurinho? Canhoteiro. Quem no

    lembra do canhoteiro? Zizinho veio do Rio para c para jogar no So Paulo e foi

    campeo. Era fantstico jogar! Era bom ver o jogadores jogar: Pouco erro, acertaram

    mais do que erravam. Hoje [Riso] a coisa ficou difcil para dizer: Erra mais do que

    acerta... Mas tudo bem... Cada um com a sua...

    B.H Em 1957, ento, voc se torna profissional do Fluminense. Em 1958, o

    Brasil, finalmente, ganha um ttulo mundial. Voc tem recordao da Copa de 1958?

    Como voc assistiu? Se voc j desejava e imaginava que estaria na edio seguinte?

    J.O Na verdade, voc tem toda razo. Eu, como jogador de juvenis, j pensava

    em ser jogador de seleo. Porque a minha meta era jogar na seleo porque eu fiz tudo

    para ser jogador de futebol. Eu procurava fazer o mximo para ser jogador de futebol.

    Eu entrava fortinho, mas era um forte veloz. Eu tinha velocidade, impunha uma

    responsabilidade. Jogador, comigo, no tinha esse negcio de entrar driblando. Ele sabia

    que no podia fazer isso comigo porque ele levava o troco. Pergunta a ao Pepe24, meu

    Pepe [inaudvel], diretor, Quem foi Jair Marinho? Pelo amor de deus, no fala em

    Jair Marinho, no. Eu falava: Pepe, s voc jogar direitinho que no tem problema.

    Se voc comear a fazer lambana, a voc vai tomar mesmo. Ento, eu era um jogador

    que eu impunha respeito. Jogador que no impe, hoje, respeito, voc no funciona.

    23 Ivair Ferreira, o "Prncipe", ex-ponta-de-lana da Portuguesa, Corinthians e Fluminense. 24 Jos Macia, o Pepe. Ex-ponta esquerda do Santos.

  • Transcrio

    10

    Hoje, ficou mais difcil jogar nas laterais direitas porque voc tem que fazer as duas:

    Defender e apoiar. E, hoje, os jogadores... Esse preparo fsico que esto dando a eu

    no tenho nada contra ningum, fazem o que quiser, o problema deles, no meu os

    jogadores nossos no vai aguentar: Tendes, ligamentos, vai tudo para o espao. Porque

    quando voc puxar na mquina, qual peso voc tem que fazer? Dez flexes de peso de

    trinta, quarenta quilos. isso o que voc tem que fazer? Ou tem eu ser menos ou tem

    que ser mais? Qual o preparador que diz que eu posso levantar cem kg? Se eu quero

    ficar em forma, eu fao. De repente, os meus tendes e ligamentos vo para o espao.

    Quantos jogadores esto a no estaleiro? O Fluminense tem um monte, tem um time l

    no estaleiro. Voc vai dizer que foi a bola? A bola no machuca ningum. Machuca o

    estado fsico do cara. O que no bom. No se prepara um jogador de futebol, o que

    ns praticamos hoje, eu fui contra e falo toda hora: No quero trabalhar com futebol

    porque eles no me atendem, eu tambm no quero ouvir bobagem. Quando mudou em

    1974, futebol fsico: Botar corpo, perna no jogador. Eu falei: , acabou. Nunca mais

    ganhamos nada! E no vamos ganhar no. Porque o europeu faz muito isso a. H

    quantos anos esses caras vem aqui: Barcelona, Real Madrid, convidar o Fluminense

    para ir at l, para ver a maneira de a gente jogar para eles assimilarem um pouquinho,

    eles fazem isso mesmo, so robs. Os nicos que jogam direitinho o Messi25 e o

    Ronaldo de Portugal26. O Messi tem um probleminha, no sei se voc sabe, meio

    atrapalhadinho. Por isso que ele faz aquilo tudo. Ele no normal. Foi comprovado que

    ele teve problema na infncia e levaram l para Barcelona para arrumar ele. E arrumou

    o cara. Quer dizer que ele joga diferente de todo mundo? Esse um Pel moreninho que

    apareceu l. , na verdade, . Ento, eu acho que o futebol nosso tem que voltar... Eu

    me lembro de que a gente dava dez toques na bola e o inimigo no pegava na bola. Faz

    uma rodinha a, d dez toques... O cara no pegava na bola. Por que no voltamos ao

    nosso futebol? Chutava no gol, ameaava, entrava no lado, tocava quando no tocava na

    bola. Quantas vezes aconteceram isso? Ou ento tem que dar um chuto? Sabe como ?

    Vai at o meio de rea. Tem l um preparador de chuto, tem um zagueiro deste

    tamanho e um centro avante de trs metros. Essa bola [salvou], rapaz, com cabeada,

    rapaz. Vai ganhar de quem? Os europeus tem trs metros! Fsico para subir e ganhar de

    25 Lionel Messi, atacante do Barcelona e da Seleo Argentina. 26 Cristiano Ronaldo, atacante do Real Madri e da Seleo Portuguesa.

  • Transcrio

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    qualquer um. No tem jeito. Ou muda rpido, mas tambm tem pouco tempo para

    mudar at 2014. Mas tudo bem. Eu acho que se no mudar, a gente no tem chance

    nenhuma de ser campeo.

    F.S Na poca de juvenil e da sua chegada profissional no Fluminense, os treinos

    eram s com a bola?

    J.O Eu fazia uma hora e meia e o Altair fazia uma hora e meia de bola, treino

    coletivo fazendo aquilo que a gente ia fazer no jogo. Ia no fundo, passava em

    velocidade, marcava a passada do Valdo, trs metros na frente, eu metia a bola e

    enxergava dois passos e tal. Cabeada: ele alava o salto e eu metia a bola, ele

    alcanava a bola. O Trabalho era esse. Depois disso a, eu ficava na lateral do campo

    com o Altair metendo a bola de primeira porque voc no pode dominar a bola. De

    repente voc tem que fazer um bate bola e no pode, dentro da rea, brincar com a bola.

    E domnio de bola. Esse domnio de bola era uma hora constante. Eu gostava de jogar

    futebol. Eu no era profissional de futebol, eu gostava de jogar futebol. Eu ia campo

    para fazer aquilo que eu gostava mais. Hoje, muitos jogadores so profissionais e no

    gostam de bola.

    B.H Fala-se que o Fluminense um clube que teve as suas origens na zona sul

    do Rio de Janeiro, um clube aristocrtico. Como era o ambiente dentro do Fluminense?

    Voc sentia um bom ambiente para receber os jogadores?

    J.O Olha, na verdade, o Fluminense tem negcio de talco, p de arroz, essas

    coisas toda, mas no era nada disso no. Tem muito mais escurinho l do que outra

    coisa: Tinha eu, tinha o Didi, Jair Santana27, Jair Francisco28, Bigode29, uma poro de

    jogador l de cor, no tinha nada disso! A gente entrava pela frente e tal. S alguns

    jogadores que eram mais reservados. s vezes, eles no queriam aparecer na frente do

    clube para o torcedor, porque tem torcedor que carinhoso, mas tem outros no. A

    gente evitava esse contato com o torcedor. Acabava de treinar, tomava o nosso banho,

    pegava o nosso carro, porto lateral ali, dali a gente ia embora. O torcedor s via no dia

    no campo. Na rua, muito difcil. Hoje, no. Hoje est diferente. Vale tudo, tudo bem.

    27 Jair Santana. Ex-volante do Fluminense nos anos 1950. 28 Jair Francisco. Ex-meia atacante do Fluminense e do Juventus-SP. 29 Joo Ferreira, o Bigode. Ex-lateral esquerdo do Atltico-MG, Fluminense e Seleo brasileira.

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    Nada disso que falavam para mim, que era p de arroz essa coisa toda, que no gostava

    de crioulo e tal, isso uma conversa fiada.

    B.H E quando voc foi contratado pelo Fluminense, voc continua morando em

    Niteri ou voc foi morar na zona sul?

    J.O Eu acho que eu tive opinio prpria. Eu poderia ter morado na Barra, eu

    poderia ter morado em So Paulo, mas eu tenho um lugar que a minha raiz, onde eu

    aprendi a conviver, onde eu posso andar descalo, onde eu posso sentar na calada. Um,

    dois l, Jair Marinho e tal. No tenho medo de ningum. Tambm ningum me

    prejudica. Agora, se eu fosse morar na Barra, voc no conhece a Barra no, no ?

    Ento, eu vou contar para voc: Voc tem que mudar um tnis todo dia, para ficar

    bonitinho e cheirosinho. Ah! Aonde eu vou aguentar essa farra? No d! Festa? Jogando

    bola, festa todo dia? Voc no aguenta. Ento, eu preferi ficar em Niteri,

    acomodadinho l, ter a minha casinha l, meus amigos, Altair, parentesco todo junto,

    uma maravilha. Eu moro em beira de praia, em cinco minutos eu estou na praia ali e tal.

    Estou numa boa.

    B.H Voc pegava a barca e ia treinar...?

    J.O Ia treinar no Fluminense e voltava do Fluminense at a Praa Quinze,

    pegava a barca e ia para Niteri.

    F.S Voc fala que no Fluminense voc fez os seus grandes amigos na sua vida.

    Tem o Altair que o conterrneo seu, desde os tempos de Juvenil at agora e daqui para

    frente tambm. Teve algum momento em que voc viu alguma coisa que o Altair fez

    por voc e voc falou: Esse da um sujeito do qual eu posso confiar sempre, por toda

    a vida?

    J.O Olha rapaz, eu acho o Altair o meu irmo gmeo. Sabe o por qu? Quando

    eu cheguei, em 1954, no Fluminense, ele chegou em 1955. Comeamos no juvenil.

    Juniores. Profissionais. E fomos ganhando o ttulo no juvenil, aspirante, profissional,

    Rio - So Paulo, invicto, essas coisas todas. Jogamos na seleo juntos, em 1961, eu fui

    titular porque o Djalma estava machucado esse a eu tiro o chapu para ele, o resto

    no. Carlos Alberto foi o meu reserva no Fluminense. Carlos Alberto Torres, foi

    campeo em 1970. Eu tinha uma sombra boa l, s que eu no dava folga para ele. Esse

    Tal de Altair, ele encaixou tanto com Jair Marinho, porque ns no bebemos... Isso

    uma vantagem, no ? No bebemos, no fazemos farra, nem ficamos noitadas...

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    Tambm no gostamos de noitadas no. Eu tinha responsabilidade, amanh de manh,

    eu tinha que fazer um bom treino. Eu tinha que jogar bem no domingo. Eu tinha que me

    cuidar. Ento, e essa amizade com o Altair, acabava o treino, ns nos arrumvamos,

    amos embora para casa. Ele ia para a casa dele, eu ia para a minha. De manh, ns

    estvamos juntos, no retorno ao Fluminense.

    B.H Ento em 1959 voc campeo pelo Fluminense, vocs se

    profissionalizaram em 1957. Como era isso: Jogar no Maracan com as multides, voc

    se emocionar? Como era o hbito de jogar em um estdio do porte do Maracan?

    J.O Eu era um jogador muito frio. Sabe como ? Porque voc enfrenta contra o

    Bonsucesso, no campo dele, a torcida fica na sua cabea o tempo todo. Voc joga na

    lateral, a arquibancada fica em cima de voc, enchendo voc o tempo todo. Aquelas

    palavras gostosinhas, no ? E voc tem que ter um controle absoluto sobre o que voc

    est fazendo. E, no maracan, lembro-me em 1963, botei 230 mil pagantes no

    Maracan. O Maracan ficava to cheio que tinha gente que ficava l em cima, vendo o

    jogo de l. S que o Maracan tem uma deficincia: Voc no ouve o torcedor. Aqueles

    zumbidos, aquela gritaria, voc no ouve l em baixo, porque um funil ali. Mas

    quando voc v o estdio do Maracan, aquela situao, eu joguei vrios jogos ali,

    quando a seleo do Pas de Gales jogou l, tinha gente para caramba, a gente fica

    emocionado. Mas, em compensao, quem gosta de estdio cheio, tambm no gosta de

    jogar em estdio vazio tambm no. Eu falei: O que est havendo, meu deus do cu.

    Vou jogar para quem ver?. Ento, essas coisas aconteceram comigo. E o futebol... Eu

    tenho que agradecer ao futebol. Eu tinha uma meta de ser jogador de futebol, o resto no

    estou nem a.

    B.H Em 1959, quando tem um estadual pelo Fluminense. 1960 foi campeo do

    torneio entre Rio e So Paulo. Como era a rivalidade entre cariocas e paulistas naquela

    poca?

    J.O Olha, havia no futebol. Porque com os jogadores, no. Quando eu vinha

    para So Paulo, aqui, abraaram-me aqui... Depois Corinthians o Corinthians ganhou

    uma grana nas minhas costas me comprou por 700mil reais. O Pel valia esse

    dinheiro. Deu Amaro, o meio de campo e Lidu, que era o lateral direito. Depois a

    Portuguesa dos Desportos me convidou para participar do campeonato deles l, em

    1965 e 1966. Mas o Corinthians foi uma surpresa no ? E quando eles gostam de voc,

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    eles trazem voc no brao. E quando no gostam de voc, pode abandonar, pode sair

    porque no vai se dar bem. Eu ca nos braos do pessoal da torcida do Corinthians. Eles

    me tratavam com carinho porque eu gostava de jogar futebol. Eu no era um

    profissional de futebol, eu gostava de jogar futebol. Entrava com a camisa do

    Corinthians at o apito final eu estava atrs. Eu queria ganhar, dou um jeito. Tinha

    influncia do jogador, Dino Sani30 era meu compadre, padrinho do meu filho, Dino Sani

    foi campeo do mundo em 1958. Dino Sani leva mal no, mas corre atrs porque eu

    estou correndo. O Rivelino comeou comigo. O Rivelino choro, eu falo com ele que

    ele choro. Ele chorava por que... Eu falei assim: Que isso, quem ensinou o

    elstico para voc foi eu, cara, qual o problema?. Mas, na verdade, em So Paulo, se

    voc um bom profissional, voc vai se dar bem. Se um mal profissional, vai se dar

    mal. No Rio, esses maus profissionais ainda continuam. L em So Paulo, no tem jeito.

    B.H Em 1961, a convocao para a Taa Oswaldo Cruz, e Taa Bernardo

    O'Higgins. Como foi essa experincia inicial na seleo Brasileira?

    J.O rapaz, ser convocado... Ali tem o Djalma Santos, Pel, Garrincha, no

    fcil no. Eu olhava para os caras e pensava: Hum, que barra, hein? Mas aquele

    negcio, quando tem que acontecer, acontece. O De Sordi teve um probleminha, fomos

    jogar contra os Paraguaios l, tomamos 3 a 0 no primeiro tempo. A estou no campo,

    batendo bola ali, defesa toda deu um ch, a o treinador... O treinador est te

    chamando. Eu falei: Treinador chamando, poxa. O time est perdendo de 3 a 0. Vou

    faze o que l?. Ele disse: Vai l porque o negcio srio. O De Sordi havia se

    machucado. No havia caneleira naquele tempo, voc tinha que botar um jornal.

    Enrolava um jornalzinho, metia na canela, punha a meia e a aliviava a pancada. E quem

    era o ponta-esquerda dele? Silvio Parodi. Ele era o maior ponta-esquerda do Paraguai

    que tinha. Um cara forte, grando... Era igual ao Julinho, que passava em cima do De

    Sordi toda hora. A eu falei: O treinador, o que h? Vamos treinar. Bota mais um

    centro avante, bota mais um jogador. No, porque o De Sordi no vai poder jogar. E

    a primeira coisa que eu fiz, entrei em campo e falei: Vem c... Seu Parodi, vem c? Se

    abusar, vai tomar. Quem voc?. Eu falei: No interessa. Defensores Del Chaco31

    com o metro do alambrado ao lado a grade. Ah... Aquele moleco grande vem,

    30 Ex-volante do So Paulo, Corinthians e Seleo brasileira. 31 Estdio localizado em Assuno (PAR).

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    encontrei com ele, tomou-lhe uma pregada, ele foi no alambrado, eu fui junto com ele e

    o torcedor me parou e falou: Voc usa uma pulseirinha, no ? Que eu gosto de usar

    uma pulseira de ouro E roubou a minha pulseira de ouro! Eu falei: Eu vou te

    encontrar l fora. Vou nada, foi embora. Tomou-lhe uma pregada, eu disse: Se voltar,

    vai tomar duas, trs, at voc aprender. A minha sorte voc tem que ter sorte no

    nessa tambm de dar pregada em ningum no, ele tomou um susto comigo, e jogaram

    ele na lateral esquerdo. Eu falei: Bom, agora pode ficar tranquilo. Pelo menos, a

    Seleo brasileira ganhou de 4 a 3. Ento, para mim foi timo quando o Chile que a

    segunda parte no Chile que a Taa Oswaldo Cruz e O'Higgins, tem que jogar um e

    um L eu fui titular da seleo. A me garantiu a ida a Copa de 1962 com Djalma

    Santos, porque o De Sordi realmente perdeu a posio daquela rea ali quando jogou

    contra o Paraguai.

    F.S E voc acabou de falar que chegar a Seleo, naquela poca, era uma coisa

    muito difcil.

    J.O Muito difcil.

    F.S Por causa da disputa de posies dos grandes jogadores que existiam.

    J.O Que existiam, .

    F.S Fala um pouco mais sobre isso.

    J.O Ah, deixa eu voltar ao passado... 1958. O De Sordi foi um jogador

    espetacular, mas o Djalma Santos, ele tinha uma coisa que chama ateno: Habilidade

    com a bola. E sorte. Que eu me lembro em 1958, quando ele deu um chuto, o goleiro

    foi pegar, escapuliu, o Vav fez o terceiro gol. Era um cara de sorte. E todo jogo que ele

    jogava, ele dava a sorte e no perdia. Ento, eu tinha um Djalma Santos, um Bellini32,

    eu tinha o Jurandir33 que jogou no So Paulo, eu tinha o Zzimo34, que jogou em 1962.

    Esses grandes jogadores, Nilton Santos e o Altair do outro lado. Zito e Zequinha.

    Mingau e Didi. Jair da Costa e Garrincha. Moacir, Didi, Vav, Mazzola, Pepe e Zagallo.

    Fabuloso. Qualquer daqueles homens, podia comear jogando ali. Mas ns queramos

    que o melhor entrasse em campo. Quem tinha maior tranquilidade para jogar. E

    apoiavam. Talvez voc no se lembre, s podamos entrar os onze porque se machucar

    32 Hideraldo Luis Bellini, ex-zagueiro do So Paulo, Vasco e Atltico-PR, primeiro capito campeo do mundo, em 1958. 33 Jurandir de Freitas, o Jurandir. Ex-zagueiro do So Paulo. 34 Zzimo Alves Calazans, o Zzimo. Ex-zagueiro do Bangu e Flamengo.

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    jogvamos com dez. E ns, amos para l, de roupa... Agasalho, no podia nem trocar

    de roupa. Em 1970, parece eu mudou: podia trocar jogador. Ento, a gente torcia para o

    cara no se machucar. No podia trocar, como que faz? Eu, nesse grupo todo de

    maravilhosos jogadores, admirador desse jogador, fabulosos jogadores, eu aprendi

    muito com eles.

    B.H O fato da base da seleo Brasileira ser composta por jogadores que

    atuavam no torneio Rio - So Paulo, nos clubes do Rio de Janeiro e So Paulo, isso

    facilitava o entrosamento? Isso no facilitava a preparao que antecedeu a Copa do

    Mundo de 1962?

    J.O Eu acho que no so os jogadores no, so os clubes. E tem clube que tem

    uma influncia da Federao Paulista e tem outros com influncia na Federao

    Carioca. Por exemplo: o Botafogo mandava na Federao Carioca. Lembro-me que eu e

    o Altair estvamos treinando. O Joel Martins era o meu reserva... Meu reserva no, ele

    estava disputando vaga. E Rildo estava disputando vaga com o Altair do outro lado. E

    chegou uma notcia desagradvel: Que os dois iam para a Copa do Mundo Eu falei:

    Pera, assim no possvel. Eu chamei o Altair e falei: Acorda, porque o Garrincha

    com voc joga e com os outros, ele treina? diferente. E o Altair: O que eu vou

    fazer?. Faz o que voc quiser, voc no poder deixar de ir por causa do Garrincha.

    Chama o Garrincha para um papo e v o que ele vai fazer. E o outro l, que era o Pepe

    e o Zagallo. O Zagallo, quando jogava comigo, corria para caramba. O Outro ia marcar

    no meio de campo. Falei com o Altair: Agora a briga rendeu. A botaram um jogo

    Pas de Gales e Brasil no Maracan. Eu no estava nem esperando. Djalma Santos ia

    jogar l e eu ia jogar em So Paulo. No podia botar o Djalma em So Paulo porque a

    torcida do Palmeiras ia torcer pelo Djalma. E se me botasse l no Rio, a torcida do

    Fluminense ia ter influncia. Ento, trocou de posicionamento aqui em So Paulo. S eu

    o Djalma... Viemos l de Friburgo, chegou na hora de trocar de roupa, o Djalma falou:

    Estou passando mal. Epa! Passando mal? Mas voc veio brincando. Ah, estou

    passando mal. Eu fui descobrir que esse ponta-esquerda mais rpido da Europa: o tal

    de [inaudvel], guardei na memria at agora... [Inaudvel]. O cara velocista. O

    escurinho que jogou comigo no Fluminense, a minha sorte que eu joguei com o cara

    mais veloz da ponta-esquerda do Brasil foi o Escurinho do Fluminense. Hoje ele tem

    oitenta anos, est inteirinho. E eu treinava com ele. Eu no treinava para marcar ele,

  • Transcrio

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    no. Eu treinava velocidade com ele. Quando eu comecei a treinar com ele, ele me batia

    em cinquenta metros, eu ficava vinte e cinco metros. Poxa, eu no chego nunca no

    cara. A eu fui aprendendo como que se marca a ponta. Porque esses laterais no

    marcam nada. O cara partir daqui, em vez de voc correr em linha, voc no pega o

    velocista, corta por dentro. Ele vai ter que cruzar l no fundo na bandeira, enquanto

    voc chega. Ele toma duas, no vai l mais. Duvido que ele v. Pode ser at o Pel, no

    vai tambm. Ento, eu fui aprender a marcar o cara. Quando eu descobri esse ponta-

    esquerda, que o Djalma saiu, para no cortar o Djalma na Copa do Mundo, o cara um

    fenmeno, esse Djalma Santos o mximo. Queria ser cortado naquele dia porque ele

    no ia acompanhar o cara. Ele era muito habilidoso com a bola, mas velocidade o

    Djalma no tinha. E eu tinha velocidade porque eu treinava com o Escurinho. Ento,

    quando eu descobri que cara era aquele, que coincidncia, eu passei no meu turno, eu ia

    l na direita e os caras: , nem p na bola chega a encostar porque esses caras esto...

    Eu falei: Poxa, o cara.. Djalma saiu por causa desse cara. No adianta, ele j est

    cortado mesmo, ento vou fazer uma lambanazinha. Ele pedia a bola: D para c!D

    pra c!. Matava no peito, virava, dava o tapa e passava. Quando cruzou a bola, ele

    chegou, eu cheguei junto. Ele [inaudvel] a pergunta. Eu peguei ele dentro do campo,

    ns fomos parar na boca do tnel. E eu fui agarrado com ele dentro da boca do tnel.

    Camos dentro da boca do tnel. A no tinha nada a fazer, dei uns cascudos nele. Vou

    fazer o qu? Eu pensei: J estou cortado mesmo, j estou liquidado mesmo.Quando eu

    sa do tnel, a torcida batendo palma. Eu falei: Opa! Eu acho que eu estou agradando.

    E a foi confirmada a minha ida para Copa porque eu seria cortado naquele dia. E o

    Djalma sabia, eu falei com ele. Voc sabia?. Isso a. E o Altair, l em So Jos dos

    Campos, o campo fica no alto, com as valas do lado e tal e falaram: Olha aqui, esto

    preparando para o Rildo ir no seu lugar. Eu falei: uma pena, mas vai ter que se

    virar. Vou dar mais duas nele s. E ele pegou pesado, o Garrincha vazou por cima do

    alambrado, caiu l no buraco. Falei: Ih, caramba, poxa, logo o Garrincha? A veio a

    Direo em cima do Altair. E o Altair: Eu no fiz nada. Ele bateu em mim e caiu.

    Como bateu em mim, ele voou por cima do alambrado?. Ele caiu l. Maneco, o

    que houve a? Viu o que o magrinho fez comigo? Viu o que ele quer fazer com o

    cara? Com o Nilton Santos voc no joga. Com o Rildo voc no joga. Voc s quer

    jogar com o outro cara? E a, demos sorte, foi eu e ele para a Copa do Mundo. Nenhum

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    dos dois danou. (Risos). Tem negcio de sorte tambm. Voc precisa observar, precisa

    ver quem joga, quem no joga, qual o lado bom, se o time bom, como ele ataca: se vai

    no fundo, se vai de frente... Eu estou vendo esses times jogarem a... Nossa senhora...

    Est feia a coisa! Mas, ns, trabalhvamos muito em cima desse lance para ver o eu

    poderia tirar como proveito disso a. Mas eu fui muito feliz jogando futebol.

    B.H O fato de a seleo ter sido campe em 1958, influenciou na autoconfiana

    que o grupo tinha na conquista do bicampeonato? Como foi o ambiente para os

    preparativos para a ida ao Chile?

    J.O Havia um respeito, no ? Tinha o Djalma Santos, tinha o Bellini, tinha o

    Mauro, tinha o Castilho, tinha o Gilmar, Zzimo mais novo, a gente tinha o Mauro, a

    gente tinha o Nilton Santos, o Altair mais novo, tinha o Zequinha mais novo. Mas o Zito

    era mais velho. O Didi tarimbado, o Jair da Costa mais novo, mas o Garrincha mais

    velho, o ponta de lana, que era o Pel, Coutinho, Pel, esses caras todos eram

    conhecidos. Ento, eu acho que a preparao desse grupo, de 1958 para 1962, foi fazer

    uma base para jogar em 1966 porque eles no cumpriram tambm com essa base, que

    era em 1962 para o bicampeonato em 1966 na Inglaterra. Ele desmanchou o time todo,

    levou o Djalma Santos, depois levou o Carlos Alberto no meu lugar e tal. E o time no

    foi bem. Altair que estava jogando como lateral esquerdo, no foi. Botou o Altair de

    quarto zagueiro. Jogou dois jogos, foi eliminado e acabou por a. Mas em 1962,

    ningum prova que foi para ganhar e ganhou. A nica seleo que foi a Copa do Mundo

    sabendo que ia trazer o caneco foi a de 1962. Ns tnhamos confiana em ns mesmos.

    Porque ramos unidos, nos respeitvamos e fazamos a patrulha: , joga, porque eu

    quero jogar. Se voc no tiver bem, deixa que eu entro. E havia uma unio total no

    grupo. E por isso ns ganhamos o bicampeonato com aquela facilidade toda.

    B.H Voc tinha a expectativa e esperana de que poderia entrar em alguma

    partida ou voc considerava que a vaga do Djalma era...?

    J.O No. Eu confiava que o Djalma Santos ia jogar o campeonato todo porque

    ns conversvamos muito. Eu gosto muito do Djalma Santos, voc precisa ver ele

    comigo: Ah... Deita e rola. E eu: Vai jogar porque eu estou esperando a minha

    vaga. E ele sabia, quando eu entrei em 1966, que eu fiz um bom campeonato, que eu

    joguei na Taa Oswaldo Cruz e fui um dos caras em que eles dizem que eu ganhei da

    seleo paraguaia porque bati em todo mundo. At Mingau ficou com medo, foi l e fez

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    o gol, 4 a 3. Eu tinha uma potncia boa, ento, eu sabia que, se me dessem a vaga, eu

    pegava. Eu queria que o Djalma jogasse porque eu achava ele era um dos grandes

    trunfos da lateral direita.

    B.H Voc se lembra dos jogos da primeira fase, em 1962? Ou seja, a atuao do

    time 2 a 0 contra o Mxico, 0 a 0 com a Tchecoslovquia e o que considerado um dos

    jogos mais difceis: O 2 a 1 contra a Espanha. Voc tem lembrana dessas partidas?

    J.O Tenho. A estreia sempre ruim para as grandes selees, para o time que se

    candidata ao ttulo como a seleo Brasileira. Na verdade, ns no jogamos bem as duas

    partidas. Ns jogamos bem contra a Espanha porque eles fizeram o primeiro gol, ns

    tomamos 1 a 0 ento, so aquelas coisas todas. Depois de o Pel ter se machucado, que

    o Amarildo veio no lugar dele, o time subiu de produo. Porque voc comea em

    ritmo. Treino treino, jogo jogo. Quando o time do Brasil pegou o ritmo, depois da

    Espanha, a ns estvamos embalados, nada podia superar. S o futebol inesperado,

    acontece coisas impossveis. A gente estvamos preparados para o resultado negativo

    porque no fomos buscar o positivo.

    B.H Bom, essa considerada a Copa do Garrincha, mas o Amarildo tambm

    teve um papel importante, nessa virada contra a Espanha...

    J.O Detalhezinho que talvez ela no tenha muita importncia, mas para mim, ela

    tem uma importncia tremenda porque eu marco, como voc sabe, o ponta-esquerda. E

    o Altair marca o ponta-direita. Foi invertido o lado porque eu podia machucar o Zagallo

    ou o Pepe e o Altair podia machucar o Garrincha. Ento fomos trocar de lado. O

    Garrincha fazia aquele trabalho de aproximao de centro, velocidade e eu nunca tinha

    visto o Garrincha jogar tanto. Ele estava fora dele mesmo. Ento, eu comecei a

    acompanhar o Garrincha. Para mim, foi bom. Eu queria aprender, como que marca

    esse cara? A, eu comecei a aprender. Eu j estava acompanhando o Garrincha at o

    fundo, porque ele partia por aqui, eu j fazia por dentro. Quando eu ia cruzar, eu

    encostava-nele l e ele no estava gostando. A ele j comeou a cortar para dentro. A

    j ficou complicado porque ele fazia no fundo, por dentro ele no fazia. Para voc ter

    uma ideia, ele fez gol cabeceando ele tinha um medo danado de cabecear danado ele

    pequenino, no ? Cabeudinho. Fez gol de falta. Pega o vdeo que voc vai ver.

    Rolando a bola, ele entrou e fez o gol. Fez gol de tudo quanto jeito. O Garrincha, para

    mim, deu-me aquela Copa de 1962. O trabalho que ns tnhamos, foi trabalho para ele

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    fazer? No. Foi um trabalho para forar o Garrincha a fazer coisas diferentes. E eu

    aprendi com ele a marcar um cara em grande velocidade. E o cara dribla dor. Ento,

    eu aprendi isso tudo. Quando eu cheguei, jogava contra o So Paulo aqui e o meu

    habilidoso ponta-esquerda, ns nos demos bem por causa disso. Eu aprendi muito. E o

    Garrincha deu sorte porque ele, praticamente, ganhou a Copa de 1962 para ns.

    B.H As quartas de final, o Brasil joga contra a Inglaterra, ganhou de 3 a 1. E as

    semifinais, vai jogar contra o pas sede: Contra a seleo Chilena. Houve algum receio

    pelo fato do Chile ser a equipe nacional, que estava sediando o torneio? A influncia da

    torcida... Como foi o jogo contra o Chile?

    J.O Naquele momento, eu acho que o Brasil no tinha medo de ningum. Estava

    absoluto, consciente do que poderiam fazer. O time estava bem montado, tnhamos

    reservas altura, voc tem medo de um machucar. Tanto que quando o Pel se

    machucou, o Amarildo foi para l e resolveu o problema da seleo brasileira. Se o

    Garrincha tambm se machucasse, o Jair da Costa podia ir l e resolver o problema.

    Ento, ns tnhamos vinte e dois jogadores confiveis. E quando, depois da Espanha, a

    gente tomou 1 a 0. A gente jogou uma barbaridade, e chegamos a um resultado bom, o

    Brasil dali j era 80% para ganhar a Copa de 1962. Eu acho que foi a nica seleo que

    foi para ganhar a Copa do Mundo e ganhou.

    B.H Passado o Chile, a final contra a Tchecoslovquia e a comemorao do

    bicampeonato. O que voc se lembra dessa poca?

    J.O Eu tenho uma lembrana boa porque ns fizemos amizade com eles. O

    futebol era muito amigo. No tinha negcio de pegada, indisciplina, nada no. Ns

    ganhamos dele, ns nos tornamos amigos deles. Eles sabiam que o Brasil era muito

    melhor do que o time deles. Que h dois, trs meses, nos fizemos em So Paulo, aqui,

    trouxemos todos aqueles jogadores, a vice-campe Tchecoslovquia aqui no Brasil e

    como lembrana a camisa com o nome do pessoal e tal. E passamos uma tarde toda aqui

    em So Paulo.

    B.H Em comemorao dos cinqenta anos do bi.

    J.O Cinquenta anos da Copa! Cinquenta anos agora. Eles vieram todos eles,

    vice-campees, a gente guarda com grande amizade. Claro, eles fizeram um

    campeonato belssimo. Eles respeitavam o Brasil. Tanto que se quisessem ganhar o

    Brasil nas eliminatrias, eles podiam ganhar. O time deles estava melhor do que o

  • Transcrio

    21

    nosso. A urgncia do Pel, aquilo teve um impacto tal, balanamos, mas ele achou que

    podia chegar a final sem ganhar do Brasil. S que as coisas mudaram e eles foram

    encarar o Brasil na final... A eles se deram mal.

    B.H E a comemorao na volta ao Brasil? Voc tem alguma lembrana? Como

    foi a recepo popular naquela poca? Vocs foram recebidos pelo presidente Joo

    Goulart, o que te passa [dessa viagem]?

    J.O Olha aqui, eu acho que para um garotinho que saiu do Estado do Rio, jogava

    em um grande time como o Fluminense, Portuguesa dos Desportos, Corinthians, Vasco

    da Gama e tal e um ttulo mundial, no para qualquer um no. Esse o mximo que

    um jogador de futebol pode conquistar. E essa conquista ela veio pelo trabalho que eu

    fiz. Pelo trabalho que eu fiz com os meus colegas de campo. Ns trabalhvamos muito

    por isso. Se o Djalma Santos no se cuida, eu jogo no lugar dele, mas ele se cuidou.

    aquele negcio: Eu tenho uma sombra, eu no posso abrir. Eu vou forar ele ao

    mximo, para ele chegar ao mximo. E foi o que aconteceu. O Nilton Santos tinha um

    lateral fantstico que era o Altair. Se deixar o Altair jogar, ele no sai mais do time.

    Ento, ns tnhamos vinte e dois jogadores prontinhos para jogar. E quando chegou ao

    Brasil, sei l, uma coisa de louco, sei l. O que passa na sua cabea sendo campeo do

    Mundo? Quando o jogador no campeo do mundo, ele no jogou nada. Eu tenho

    vrios ttulos de clubes a, mas passou o ano as pessoas esquecem-se, no d a mnima.

    Mas um ttulo mundial, de quatro em quatro anos, eles se lembram da gente. Queira ou

    no queira, eles botam a gente em pauta. Quer dizer, ns vamos viver essa glria at

    2014. Se ganhar, a gente vai dobrar isso a, se no ganhar, ns vamos dar um retrocesso

    e voltar tudo de novo. Hoje, no Brasil, se voc no tem um ttulo mundial, jogador de

    futebol est p. Na Espanha, no precisa jogar na seleo no, o que Seleo? Jogar

    em clube? Amanh voc parou de jogar, voc tem o seu salrio tranquilo para voc

    viver. S tem uma coisa, voc tem que ir a todos os jogos. Hoje, aqui voc chega no

    Pacaembu, quem voc?, Jair Marinho, Ah, no conheo voc no. A voc tem

    que dar uma carteirada nele... Eu tenho a carteira da FIFA35, sou campeo do mundo.

    Que vexame, no ? Campeo do mundo! Vou chamar o chefe. Ah! Vai chamar o

    35 Refere-se a Fdration Internationale de Football Association FIFA.

  • Transcrio

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    chefe, caramba. O Chefe vem, quem ? Jair Marinho. No aqui da SUDERJ36.

    Aqui da Federao Paulista. Hum, aqui da CBF37. Nunca te facilita a coisa,

    rapaz! O que um campeo do mundo tinha que ter aqui? Um lugar para ficar, para ver

    um jogo, aqui no Pacaembu, no So Paulo, em qualquer lugar do pas. Campeo do

    Mundo deveria ter um lugar. Eu sou campeo do mundo. Os grandes jogadores do pas.

    Mas no. Voc chega l e a coisa fica feia. Quando faz comigo, eu dou uma peitada

    mesmo. Mas, poxa, eu sou campeo do mundo! Joguei em So Paulo, joguei no Rio de

    Janeiro, joguei no Corinthians. Aqui o Corinthians. Quem manda aqui o Corinthians,

    quem manda no Rio o Fluminense. A d uma refrescada. Mas do contrrio, voc

    sofre para caramba.

    B.H Jair, voc ficou sete anos no Fluminense. Depois da Copa de 1962, voc

    volta a jogar no Fluminense, onde voc fica at 1964. Como foi a sua sada do

    Fluminense e a opo pelo Corinthians?

    J.O Na verdade, eu fiz um bom trabalho no Fluminense. E, na poca, Carlos

    Alberto Torres vinha surgindo como uma promessa... E no era como lateral-direito

    no. Era como central, jogava central Mas como eu no tinha reserva, em qualquer

    emergncia, ele entraria ali. Com a minha contuso, eu tive uma contuso na perna,

    fiquei uns cinco, seis meses parado. Na poca, o Carlos Alberto comeou a jogar no

    meu lugar. Quando eu voltei a treinar, voltei a jogar futebol, o treinador, irmo do Zez

    Moreira, Aymor Moreira, tinha formado um time aqui na Portuguesa base do futebol

    carioca. Foi citado o seu nome. [Inaudvel], um era do Madureira e do Botafogo.

    Almir, ponta-direita do Fluminense. O Dida e o Ivair, que jogavam aqui, no time

    paulista. A tinham dois paulistas no time. Esse a me deu trabalho, nego. Isso foi muito

    bom. E logo a seguir, eu fiz um bom trabalho com a Portuguesa, o Corinthians queria

    um lateral l. Eu tambm estava gostando de So Paulo, no ? A passei uma

    temporada l. Agora eu quero agradecer ao Corinthians porque eu sou muito consciente

    disso a. Quando eu senti que eu no tinha condies de jogar pelo Corinthians, eu no

    podia defender as cores do Corinthians, chamei o dirigente e falei: Olha aqui, eu no

    quero jogar mais futebol. Mas voc tem dois anos de contrato com o Corinthians.

    Est bem, cancela o contrato, no quero mais, eu no tenho condies de ajudar o

    36 Refere-se a Superintendncia de Desportos do Estado do Rio de Janeiro SUDERJ. 37 Refere-se a Confederao Brasileira de Futebol CBF.

  • Transcrio

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    Corinthians. Est me prejudicando. Eu estou perdendo peso e ganhando peso para jogar.

    Eu estou prejudicando a minha sade. E eu no vim ao mundo para jogar futebol e

    ganhar dinheiro. Eu vim ao mundo para jogar futebol porque eu gosto. Agora, eu no

    vou prejudicar o Corinthians. Obrigado. Mas Jair... Obrigado. Ento, vamos fazer

    o seguinte. A eu agradeo. Mandou todo o meu salrio para Niteri que eu tinha com

    o Corinthians ainda. A eu agradeo a direo do Corinthians. Reconheceu. o nico

    clube que reconhece os jogadores que passaram l. Os outros, se entrar na porta, o

    dirigente sai pelos fundos. brincadeira.

    F.S E como foi voc chegar no Corinthians, um time de que voc falou, a

    presso para voc ser campeo muito grande ainda mais em um time em que j no

    ganhava ttulos paulistas j havia onze anos. Como foi chegar aqui e ter que suportar

    essa presso?

    J.O No Corinthians, eu sempre fui Lder. Foi lder o Pel e tal, O Pel uma

    coisa. O Garrincha outra. Mas eu fui um lder de forar o jogador a dar o mximo

    dentro de campo. Eu, quando entrava para jogar no Corinthians, eu dava o mximo. No

    tinha refresco comigo no. E os torcedores do Corinthians, tem muitos l, que eles me

    respeitam at hoje porque eu dava o mximo pelo Corinthians. E todos tinham que me

    acompanhar. O Rivelino. O Dino Sani, campeo de 1958. Rivelino comeando e tal.

    Flvio Minuano, Tales, aqueles garotos que esto ali. O Clovis, o Maciel, esses

    jogadores todos ali e eu era o capito do time. No tinha necessidade de eu ser o

    capito. Tinha o Dino... A Nata do Corinthians, e eu era o capito. E eu pedi aos caras:

    Vamos representar o Corinthians direito. Quando eu senti que eu no estava

    representando o time direito, eu fui embora. Sou muito contente. Ganhou dinheiro?

    Ganhei dinheiro nada. Ganhei dinheiro com o futebol, no. Ganhei, sim,

    reconhecimento, porque eu fui jogador de clube, um campeo do mundo. Tem um

    status, que isso muito bom para mim, porque, no Brasil, se voc no tem um ttulo

    mundial, voc no nada. Amanh voc est esquecido. Ento, eu estou tranquilo at

    hoje.

    B.H Antes do Corinthians, teve a passagem pela Portuguesa, aqui em So Paulo.

    Como que foi jogar na Portuguesa?

    J.O Olha rapaz, foi uma surpresa porque voc falava em Portuguesa, Portuguesa

    o quinto time de So Paulo. Palmeiras, Corinthians, So Paulo, Santos e tal e

  • Transcrio

    24

    Portuguesa era l embaixo. A Portuguesa com esses nove jogadores conseguiu decidir o

    ttulo l na Vila Belmiro, com o Santos. E Palmeiras, So Paulo, tomaram de 4, 3 da

    Portuguesa. Tinha o Dida, que nos bons tempos, era reserva dele. O Ivair, depois do

    Pel, era o melhor jogador nessa posio de Ponta de lana. Tinha o Henrique e o

    Flvio, que eram centro avante de goleador. Voc v que tinha um timao. No meio de

    campo, tinha o Nair e o [inaudvel], jogava na Copa de So Paulo. E tinha o Vilela, que

    era o quarto zagueiro. Edilson, que era o lateral esquerdo. Dito. E tinha o Felix,

    jogando no gol e Jair Marinho. Era um time bem formadinho. O time dava uma canseira

    em qualquer um.

    [Picote: Interrupo da gravao]

    J.O - Era o capito do time, eu falava: Vai jogar na Vila l, contra o Santos. Por

    que no trs...

    [Picote: Interrupo da gravao]

    J.O Pensou em dinheiro, no ? E l tomando de 3 a 2, em um chuveiro danado.

    Pepe bate na bola. Bateu a bola, desviou no p do zagueiro, entrou l. Com o chuveiro

    daquele no tinha condies de jogar mais. J no campo sequinho, eles tomavam. Eu

    tambm no queria sair da Portuguesa no. que o Corinthians fez uma oferta boa, no

    ? E eu vim para o Corinthians e gostei tambm do Corinthians. Um time de massa, um

    time... Quem joga no Corinthians sabe que um risco jogar l, se no for bem, toma

    pescoo na rua a. Eu sei disso. Ento, eu fazia por onde para agradar os corintianos e

    eu fui feliz. bem verdade que eu no ganhei o ttulo. Perdi o ttulo quando o Pel, aos

    quarenta e cinco, pulou na rea l e nego pediu o pnalti, e eu perdi o ttulo. Mas, na

    verdade, eu fiz um bom trabalho aqui em So Paulo. Fiz amigos, rapaziada toda que

    jogou na minha poca e quem no jogou, so todos os meus amigos.

    F.S E a Portuguesa, tanto tinha um bom time que alguns companheiros seus de

    Portuguesa vieram para o Corinthians tambm: Dito, Ivair...

    J.O Mas o trabalho do Jair Marinho38. O que eu indiquei o Dito, zagueiro

    central, porque tinha o Clvis e o Galhardo. Depois o Galhardo foi para o Fluminense,

    foi o Rivelino e foi o Flavio Minuano, que foram para o Fluminense. Ento, eu indiquei

    Direo que tinha um jogador fabuloso como o Dito, foi o maior zagueiro que eu vi

    jogar. Barbaridade. Ele saa de trs da rea jogando. E tinha o Edson, Edson Cegonha. E 38 Mais prximo do que foi possvel ouvir e grafar.

  • Transcrio

    25

    tinha uma defesa muito boa, muito segura. Ns tnhamos o Dino Sani e o Rivelino e o

    Luizinho fazia o terceiro homem no meio de campo. Eu tinha o Tales com uma

    velocidade fantstica. Tinha o Flvio e tinha o Gilson Porto, que era o ponta-esquerda:

    Batia na boa, como ningum. Quer dizer, o Corinthians estava com o time formado e

    quem no quer ganhar do Corinthians? Corinthians um time, como o Flamengo no

    Rio, que todo mundo quer tirar uma casquinha. Voc pode perder para todo mundo, s

    no pode perder para o Corinthians, caramba. E o Corinthians corre o risco de todo time

    que enfrentar o Corinthians, ele tem que jogar para ganhar porque se bobear, ele acaba

    se complicando. Todo mundo quer tirar uma casquinha do Corinthians. o time da

    moda, cara. Quem joga no Corinthians, no pode perder o campeonato. Ganhou do

    Corinthians, [inaudvel]. E a ns sabamos disso, ns nos impusemos em campo e

    fizemos um bom campeonato pelo Corinthians tambm.

    B.H Jair, vamos trocar a fita.

    [INTERRUPO DA GRAVAO]

    B.H Jair, continuando, nessa poca, os clubes costumavam fazer excurses pela

    Europa, circulava um grupo na Amrica Latina. Voc tem recordao disso, quer seja

    no Fluminense, na Portuguesa ou no Corinthians?

    J.O Eu fui do Norte ao Nordeste. Porque o futebol chegava at o Cear, dali

    para l, na tinha mais nada. O Fluminense foi o precursor por andar em todo o Brasil

    fazendo futebol. A um coronel convidou o time do Fluminense para jogar l. Tinha que

    atravessar uma pinguela. Pinguela uma tbua sobre um riacho. No tinha cerca, no

    tinha nada. E o time completo do Fluminense, eu, o Castilho, aquela turma toda. E o

    time da roa dele l. A solta a bola: p, p, p. A a gente com peninha dos caras e tal...

    Daqui a pouco uma correria. Sabe o que o cara fez? Pegou uma jiboia daquelas e jogou

    nas costas do Castilho. Aquele troo grande, rapaz! [Risos] E o bicho no meio do

    campo, enorme. Eu falei: Ah! No d!. [Riso]. Saiu todo o mundo correndo para um

    lado... Poxa, jogou uma cobra, rapaz? Como que pode? Essa a lembrana que eu

    tenho [Risos] do Norte, Nordeste. Agora eu vou... Filme de faroeste: Mxico, Estados

    Unidos... Ah! legal, no no? Eu ia para o cinema e ficava l, entreva s seis e saa

    meia noite, at acabar! Eu cochilava l dentro para ver o filme. E aquele filme de

  • Transcrio

    26

    faroeste me empolgava. Os cavalheiros do tiro em velocidade. Eu falei: Eu tenho que

    conhecer os Estados Unidos. E pintou. Eu fui ao Central Park, que fica no centro de

    Nova York. A estou olhando, o ndio morava aqui, estou ouvindo... Vamos almoar.

    Os caras saem daqui e no sabem o eu esta acontecendo l. Nos Estados Unidos, eles

    servem um bife com mel e acebolado. Ah, com fome, ns entramos naquilo! [Risos]. A

    [inaudvel] noite, clica em todo mundo! [Risos]. Ai, est doendo. Mas voc no

    sabia que no podia comer esse troo, rapaz? Ah, mas no tem outra comida, no tem

    nada. A tomamos um pau do time l... Jogamos no Beisebol e l tinha um morrinho

    para dar aquela tacada, no ? O cara trepava naquele morro ali para jogar bola. [Risos]

    Eu falei: Ah, pera! Os caras esto de brincadeira. Os caras corriam em volta. Eu falei:

    Pera, isso no futebol, no. A fui para o Mxico. Ah...Mxico...Adoro mexicano,

    aquele chapelo, no ? O Mariachi e tal... Fui l. O estdio no Mxico fica a uma altura

    de dois mil, trs mil metros. Quando voc respira, voc bota sangue pelo nariz. Comea

    a vazar a sangue... Que ar esse, rapaz? Sangue! Tinha que trazer uma bombinha.

    Tinha que ter uma bombinha ao lado para voc injetar para voc pegar um ar. Falei:

    Mxico. Gostei tanto aquele negcio de mexicano e tal. Os Estados Unidos aquela

    porcaria l. E eu fui ao Egito , no ? Ah... aquele malandro ali? Eu falo um pouco

    ingls, no ? How much dlar? O cara: Cinco dlares. Para andar no camelo dele

    l. Deixa-me montar nessa porcaria a. [Risos]. O Camelo tem uma corcova s. Olha s!

    Quando tem duas, voc engancha aqui, se agarra aqui e fica pendurado. Uma corcova

    s! A, eu entrei, fui. O cara puxa aqui e tal. Entrei l. Eu dei mais cinco dlares: Me

    d o turbante a, essa porcaria a? A eu botei aqui e tal. [Risos]. A fomos visitar a

    tumba l do homem l do Fara l. A eu passei por aqui: Passa, passa. Passou...

    Quando passou em frente ao time do Fluminense, eu no sou bobo: Al. O time falou:

    Al. Eu pensei: Estou agradando. [Risos]. D mais uma volta a. Eu dei mais

    cinco dlares a ele. Ele rodou. Quando eu passo perto daquele ali39, rapaz, ele tem um

    faro danado. Ele olhou para mim, eu no aguentei. O turbante caiu. o Jair Marinho!

    Derrubaram o Camelo e me derrubaram! O cara queria briga. Eu falei: No, no tem

    culpa no. Aquele malandro, falou que o Jair Marinho. A me derrubaram... Delegao

    do Fluminense. Palhaada, falando Al. Ah, eu estava brincando. Ca do camelo.

    [Riso] Todo machucado para o hotel. No ando mais de camelo. No quero mais saber. 39 Refere-se a Altair Gomes, tambm ex-jogador do Fluminense, que estava assistindo entrevista.

  • Transcrio

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    Tambm o Egito, eu no vou mais! Ah, Porcaria...S tenho lembrana ruim, rapaz! Os

    trs pases que eu queria conhecer: Egito, Estados Unidos e o Mxico. Mas eu andei

    muito: Tchecoslovquia, Sua, Sucia. Jogamos na Inglaterra, jogamos em pases que

    no podamos nem entrar... No avio s tinha banco lateral com umas balinhas em

    cima... Oh! Sofria para caramba! Jogamos na Europa toda. O Fluminense foi um dos

    times que fez a Europa, jogou muito l. A gente ganhava um dinheirinho na Europa.

    B.H Depois do Corinthians, voc atua em que equipe?

    J.O Depois do Corinthians, eu pedi ao Corinthians que me liberasse para eu

    jogar uma temporada no Vasco da Gama. O Corinthians mesmo pagando o meu salrio,

    me liberou para eu jogar no Vasco. Eu joguei uma temporada l. A minha defesa era

    maluca: Jair Marinha, Brito, Fontana e Aldair. Aldair era um garoto clssico, lateral

    esquerdo, muito habilidoso. Fontana e o Brito, vocs j conhecem, no ?

    F.S [Inaudvel].

    J.O Nossa senhora, ele disse: Me deixa dar uma cabeada a. Faz isso no,

    rapaz. Deixa-me dar uma cabeada nele que eu derrubo ele. No assim, no,

    rapaz. [Risos]. Os dois eram danados. Ns no podemos jogar nada, ns fazemos

    muito pnalti, cara. Voc no quer respeitar o cara.. Deixa-me dar uma cabeada

    nele. Eu falei: Para com isso. Eu joguei uma temporada l. O senhor Gentil40 era o

    meu treinador. O cara jogou na seleo, ele falava: Seu cobrenta41, est na hora de

    levantar. O Senhor Gentil, no est cedo demais. Ele dizia: Levanta! Est na hora

    do caf. A tinha um planto de dia no Vasco: Um livro grande, voc tinha que

    chegar... Jair Marinho, oito horas. Fulano de tal, dezessete horas. Eu esqueci, eu fui

    dormir. De manh, ele Seu Cobrinha42. Oi, seu Gentil, o que houve? Ele: Levanta,

    tem alguma coisa errada. Que errado! Eu dormi cedo. Ele: isso mesmo. Cad o

    livro de ponto? Eu: Ih... No sei onde est, no, seu Gentil. Est l na mesa l.

    Vamos l. Levantei, fui l. O livro no tinha... Ningum assinou nada! Ele falou: Vai

    l, no quadro, e escreve l: O Diabo est solto em forma de gente. Ah! Eu vou fazer

    um troo desses seu Gentil?! Vai l porque voc errou. O meu treinador era assim.

    [Risos]. O diabo est solto em forma de gente... Convivi com esses caras todos! mole?

    40 Refere-se ao ex-treinador de futebol Gentil Alves Cardoso. 41 Mais prximo do que foi possvel ouvir e grafar. 42 Mais prximo do que foi possvel ouvir e grafar.

  • Transcrio

    28

    B.H Gentil...Gentil Cardoso?

    J.O Gentil Cardoso. Ele era fantstico. O cara jogou na seleo, era um carinho

    danado. Seu Cobrinha levanta na hora. Olha o futebol!. Est bom, seu gentil. Mas

    foi muito bom.

    B.H E em seguida ao Vasco, voc vai para onde?

    J.O O Vasco eu fiz um ano muito bem l e eu queria parar tambm. Eu tinha

    uma tendncia para engordar, era fantstico. Eu jogava com setenta e trs quilos, no

    domingo. Quinta-feira, eu estava com setenta e oito! Que raio! Tambm, eu comia um

    boi, no ? Eu comia o que aparecesse, fome danada... Porque eu fazia filezinho de

    frango na chapa com caldinho de feijo, um caldinho de laranja e tal, que era aquela

    dieta para voc no engordar. A quando eu comecei... Foi no Fluminense que eu

    comecei a engordar desse jeito, a eu comecei a fazer um regime no Vasco. A, eu falei:

    Eu no quero jogar mais no. A o Campo Grande reuniu todos os ex-jogadores e

    botou no Campo Grande: Vem para c ajudar, cara. Eu no recebi nada, joguei uma

    temporada l. Mas, praticamente, eu encerrei mesmo com o Corinthians. Meus

    documentos esto todos no Corinthians. Ningum levou, porque no me vendeu nem

    nada e pagou caro por mim.

    B.H Ento voc encerra a careira pelo Campo Grande, em 1970?

    J.O Isso.

    B.H E depois, quando voc pendura as chuteiras, o que fazer? Como voc se

    colocou nessa questo de encerrar no futebol e pensar a vida profissional adiante?

    [Interrupo da entrevista: Conversa informal travada com uma pessoa presente

    na sala de entrevista]43.

    B.H Ento conta um pouquinho sobre essa deciso de terminar e o que voc

    vislumbrou a partir desse momento, em 1970?

    J.O Eu tive sorte como jogador de futebol e tive sorte como treinador. S que eu

    no era treinador de futebol profissional. Nunca fiz contrato com ningum por que eu

    acho que o homem no tem que ser mandado. Quando o dirigente de clube comea a

    mandar, porque tem um monte a... Esse do So Paulo tirou um cara da concentrao

    onde ele estava concentrado eu acho ridculo fazer isso! Eu comecei a trabalhar com

    43 Nesse momento Altair Gomes, ex-jogador do Fluminense, hoje com Mal de Alzheimer que estava presente na entrevista, interrompe para falar com o entrevistado.

  • Transcrio

    29

    jogador mirim e pr-mirim, aonde sai o bom jogador, onde voc descobre o bom

    jogador. Eu tive sorte porque fiz dezoito jogadores profissionais. Voc vai levar um

    dinheiro com ele? Nenhum tosto! Eu fiz porque eu achei que fizeram por mim quando

    eu era moleque. Me ajudaram a ser jogador de futebol, ganhei ttulos mundiais, ttulos

    de clubes e viajei o mundo inteiro, conheo o meu pas para caramba. Ento, eu sou

    muito grato a isso. Fui trabalhar como treinador. S tem uma coisa: O menino que joga

    futebol e o menino em si, voc no pode dar um perodo a ele porque ele vai

    bagunarcara. Eu pegava o menino, dava um lanche de manh. Ele acabava de treinar

    duas horas comigo, uma atividade fsica e um bate-bola e tal, onze e meia, meio-dia, eu

    dava o lanche para ele comer e imediatamente ele ia ao colgio. Porque no tem folga

    para passar a noite na rua ou ficar na rua fazendo bobagem. A foi um sucesso danado.

    Eu fiz jogadores, j citei aqui, Marco, jogou em Portugal. O Hlton, que est no Porto,

    est jogando at hoje. O Ratinho44, que est na Frana l, esse jogador foi feito por

    mim, sem interesse nenhum, s por qualidade. Jogador de Futebol, voc v o cara

    andando, voc Esse vai ser. Se o menino botar a planta do p no cho, eu corto esse,

    no vai jogar. O que velocidade do meio do p para frente, no chapeado. Voc v

    um jogador igual um pato, vai perder tempo com ele. At pode ser um zagueiro

    botinudo a, mas um cara clssico, um cara habilidoso, um cara de futebol, muito difcil.

    Hoje, se eu fosse os clubes, eu acho que quem faz isso s o Santos ou ento est

    enganado, est cometendo erro. Pegava todos esses jogadores, que foram jogadores

    habilidosos e colocava em um centro esportivo para esses caras trabalharem. S assim

    d resultado. Agora, voc tem que ir no Norte buscar o menino? Voc tem que ir no Sul

    buscar o menino? Porque no faz em casa? muito mais barato? Voc no faz. Hoje,

    ns temos um centro esportivo l, seu Altair Gomes de Figueiredo, trabalhou l cinco,

    seis, sete anos. Ele trabalhou no time principal do Fluminense. Eu fui vrias vezes,

    ajudar ele l, oitenta caras para jogar! Mandados por diretores e amigos. Geralmente,

    quando esses meninos chegam para treinar l, no tem condies nenhuma. Em Xerm

    Sabe onde Xerm? voc perde at o rumo. Voc no tem condies de levar o

    menino para l para treinar oito horas da manh, voc tem que sair cinco horas da

    44 Refere-se a Eduardo Correa Piller Filho, Eduardo Ratinho. Lateral-direito, surgiu para o futebol no Corinthians e teve passagens por CSKA Moscou (RUS), Toulouse (FRA), Sport-RE, Santo Andr, Botafogo-SP. Atualmente jogador do Audax-SP.

  • Transcrio

    30

    manh de casa para oito horas estar l. Eu fui ajud-lo vrias vezes l. difcil para

    caramba. Qual a me que vai levantar quatro horas da manh para dar caf ao menino

    para ir jogar bola? Hoje, o futebol uma profisso. Antigamente, no era. As mes no

    deixavam no porque voc no tinha... voc ia jogar futebol. Quem promete quem diz

    que voc vai ser jogador de futebol? Ningum. Aponta um: Voc vai ser jogador de

    futebol. Pronto, aponta um que fala isso? Nem o Pel. Nem o Pel pode afirmar que

    esse menino que est na mo dele, vai jogar futebol. Ele vai ver o tipo de cara, a

    velocidade que ele impe, o domnio de bola, o raciocnio e a cabea boa. A pode fazer

    uma avaliao. Mas de estalo, duvido! Eu sou a favor que os grandes clubes que esto

    a, botam um centro esportivo, pegam todos esses jogadores que passaram l, que

    deixou o nome dele gravado l, que faa escola de futebol do prprio clube. Como esto

    gastando milhes com jogador a, cara?! Voc pega nessa base de jogador dois, de time

    de cima a, voc arranja uma grana! Hoje fica difcil voc fazer jogador, porque o clube

    no se interessa, acha melhor fazer transa, troca ali, troca aqui, pega um ali... E no fica.

    Tem jogador hoje, no no passado no, que os jogadores hoje so profissionais: Se

    voc paga, eu jogo. Se no me pagar, eu no jogo. Estou dodi. Qual mdico que diz

    que eu estou com dor na perna? Doutor, meu joelho no est bom, no. O mdico:

    Bota gelo a. O que voc tem? Estou com joelho machucado, no estou

    aguentando. O mdico vai falar que o seu joelho est machucado? Ningum fala!

    Como voc vai provar que eu estou com o joelho doendo no hospital? E acontece com

    muitos profissionais a.

    B.H [Simulao]

    J.O Muitos profissionais esto tirando esse partido da. Ele no quer viajar trs,

    quatro horas para jogar. Quer ficar em So Paulo, no quer viajar, um jogo difcil. Quer

    ficar aqui no Rio. E assim est acontecendo. No meu tempo, eu tive uma contuso no

    tornozelo, mandei enfaixar. Bota a faixa aqui, bota na chuteira. Botei na chuteira ele

    acomodou e fui para o jogo. Hoje, se voc tiver um arranhozinho voc no entra no

    jogo mais. Ento acabou o profissional. Acabou o jogador de futebol, hoje os caras so

    profissionais. Eu estou favor porque quando fez de jogadores do Fluminense que

    jogaram na seleo, hoje voc no faz dois jogadores no clube. Eu joguei com as bases

    do Fluminense que saram das categorias de base. Hoje voc no consegue isso mais.

  • Transcrio

    31

    Ento eu sou a favor que os grandes clubes, que tem situao boa, tem um CT45 bom,

    pega esses ex-jogadores, no pegar um jogador que no tenha pacincia com menino,

    voc tem que observar se o menino tem um dom para jogar futebol. Voc a, todo

    mundo jogando a. A voc pode ter um resultado. Do contrrio... E eu fiz isso. Sem

    condies nenhuma. Eu e os meninos. Mas eu trabalhava em cima. At meninos com

    problemas fsicos, problemas mentais, eu trabalhava neles para se enturmarem com

    outras pessoas porque eu fazia um trabalho comunitrio. Esse menino que tem

    problema, ele vai se adaptando com outro, faz um trabalho ali... Daqui a pouco, ele est

    igual aos outros, fazendo l. Hoje voc no consegue. Me aponta ai, qualquer clube que

    tenha um CT que v buscar esses jogadores faa esses jogadores. Duvido! J trs

    prontinho do Norte l, do Sul, tem uma habilidadezinha e tal, arruma aqui e tal. Nem

    condicionamento voc arranja para o garoto porque voc tem que conhecer de futebol.

    Aquele ratinho, o Leonardo, chegou l na minha mo de ponta-esquerda. Falei: Escuta,

    voc joga de qu? Ponta-esquerda. Joga de ponta-esquerda? Quem te falou? Ah,

    foi o meu treinador. Vem na lateral que eu quero dar uma olhadinha. Em uma

    semana estava jogando no Flamengo. Aquele cara que eu tive a oportunidade de

    encontrar com ele. Voc at falar com ele que eu estive falando com voc a

    oportunidade dele aconteceu comigo e aconteceu com ele: O Adalberto foi jogar no

    Flamengo, teve fratura na perna, ele subiu direto [inaudvel]. E jogou bem no So

    Paulo, hein? Ento, aquele negcio de sorte. Ponta-esquerda?! Ele estaria jogando em

    Niteri at hoje, nas varza l. Lateral-esquerdo foi o melhor jogador que eu vi jogar a.

    Jogou na seleo na Copa dos Estados Unidos e tudo. Ento, aquilo que voc tem que

    observar. O cara tem que saber alguma coisa. Esse a sabe muito. Olha a ingratido: Seu

    Altair Gomes de Figueireido jogou comigo dez anos no Fluminense. Dez, todo dia no

    campo, todo mundo treinando. Quando eu sa do Fluminense porque eu vim aqui para

    So Paulo, ele ficou l. Depois de dez anos, arranjaram para ele ser treinador do time

    principal. Mas como treinador est bom, se no quiser, no vai. Tem que ter voz de

    comando. Se voc no tiver voz de comando, tem treinador a que fala filhinho para

    caramba, vai se armar em quem? Tem uma hora que voc tem eu dar um grito. Eu gosto

    do Felipo46, mas o Felipo toca o time dele todo esquisito tambm. Eu gosto do

    45 Refere-se a um Centro de treinamento. 46 Refere-se Luiz Felipe Scolari. Ento treinador do Palmeiras.

  • Transcrio

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    Felipo: O modo dele trabalhar. Ento o jogador de futebol, hoje, se voc no der um

    grito com ele, se no fazer respeitar, ele te derruba, fala: Oh, cheguei atrasado no treino

    e no quero jogar mais no. O cara vale milhes, o treinador no vale nada. U!

    Quantos treinadores tem cado a por causa disso? E eu penso o seguinte: Todos os

    dirigentes de clube precisam conhecer alguma coisa de futebol, caramba! Por que um

    jogador no pode assumir a direo do So Paulo? Por que no? Tem vrios

    companheiros meus a que sabem tudo de futebol, mas tambm no quer. No quer se

    preocupar, no quer ter trabalho. A vida dele est organizada, eu vou me meter em

    futebol? Vou me perturbar com os amigos, com os colegas? No, deveria fazer... Ns

    somos o pas do futebol! Agora, no somos mais. Ns estamos no dcimo quinto lugar

    no ranking47. Ns estamos com o Mxico na frente! Ah, d um tempo! O que houve

    com o nosso futebol? Eu fui contra o seu Zagallo, meu amigo, foi em campeo em 1962

    comigo, quando ele mudou a maneira do Brasil jogar. Ele achou que o Brasil tinha que

    ter mais preparao fsica, mais velocidade. Quando encaixou, no Brasil, que o jogador

    tem que ser forte e raudo, ns estouramos todos. A habilidade acabou. O cara est com

    o peito... Todo mundo... Voc viu, no ? O cara tira a camisa, o peito do cara deste

    tamanho, o ombro do cara deste tamanho... O cara parece um rob. Ele corre em linha.

    Quando faz uma curva, ele ainda vai para o cho. Olha a nego dando com a cara no

    cho toda hora, rapaz. Mas verdade. O que eu faria com esses jogadores? Eu, se eu

    fosse presidente, - eu no quero esse troo, est na hora de eu parar -, se eu fosse um

    desses dirigentes esses caras da CBF, esses troos a, se eu pudesse falar com eles, eu

    falava, traz o Kak, traz o Robinho, traz o Maicon, traz o Daniel... Botam esses onze

    caras aqui. Eu vou convocar onze garotos para trabalharem com esses caras:

    Assimilarem o que esses caras fazem. Duvido que no d resultado. Agora, se eu pegar

    os vinte e dois meninos, fizer a mesma coisa, vai ter resultado como? Como os jogaram

    nos jogos olmpicos ali: Botou dois meninos no meio de campo, quando se assustaram

    ao tomar aquele gol que ningum toma, S no Brasil que acontece isso se apavorou,

    no jogou mais. Agora, se fossem dois caras tarimbados, vamos segurar isso a, vamos

    ver o defeito nosso a. Aquele centro avante que fez dois gols, aquele menino podia

    jogar mais. o nico que tinha chance de fazer gol no Brasil e fez. Cad o marcador do

    47 Refere-se ao ranking de selees da FIFA.

  • Transcrio

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    cara? Cad o cara para no deixar jogar? Faltou48. o treinador? No sei. No conheo

    o treinador. Mas o que acontece que ns estamos trabalhando mal, porque a Copa das

    Confedereaes no ano que vem. E em 2014 a Copa do mundo. Ns no temos nem

    a base ainda.

    F.S No, eu acho que s isso mesmo. Por hoje j...

    J.O Fala mal do seu Corinthians?

    F.S No, no.

    J.O E a, parceiro?

    F.S Est timo j.

    B.H Estamos chegando ao final desse depoimento que vai ficar depositado no

    acervo do museu do futebol para que os frequentadores desse museu possam conhecer

    um pouco da sua histria aqui contada com as suas prprias palavras. Ns gostaramos

    de agradecer imensamente pela sua participao nessa tarde de hoje. Muito Obrigado.

    J.O Eu acho que voc tem eu fazer mais um pouquinho porque tem muitos

    jogadores para contar a histria deles. O que aconteceu com ele, o que aconteceu dentro

    do futebol, vai ser til para todo o mundo. Porque, normalmente, o jogador profissional

    ele no conta a histria dele, ele fica naquela reserva e tal. E quem ainda est no clube,

    a nem fala. Est recebendo por l, vai falar do clube dele? No vai falar, claro. Mas eu

    acho que voc fez um grande trabalho, espero que d resultado e que algum possa

    ouvir o depoimento e se quiser seguir para que possamos nos tornar campees do

    mundo mais uma vez, que siga o exemplo. Eu, se eu sou o treinador que eu no quero,

    pelo amor de deus, no quero no, um desgaste fsico tremendo, todo mundo me

    olhando e eu com medo de todo mundo. isso a, atrs da seleo, ! mas eu teria

    conscincia de pegar Kak, Maicon, Daniel, Robinho, essa cambada toda... Ns estamos

    com trinta e dois jogadores na Europa, rapaz! Se pegar esses trinta e dois: Vem c,

    encaixota esses caras, traz tudo. [Risos]. ! Vamos ver a, entra no campo, Serve,

    voc no serve, serve, serve. Esse modelo, esse no . Mas ns no fazemos isso.

    Ns temos preferncia por jogar uma bolinha de dois toques, trs toques... Cad o

    velocista? Cad o habilidoso? Cad o cara macho? A responsabilidade, olha aqui:

    Tenho que parar aquele cara. Eu vou l resolver o problema, como eu fazia sempre.

    Eu era o cara que resolvia o problema que estavam arrebentando o meu time. Ento, por 48 Refere-se final dos jogos olmpicos de Londres 2012, disputada contra a seleo do Mxico.

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    que no tem um cara habilidoso na hora de falar? Agora essa fala fina! Vai l, menino,

    vai l, entra l. No cruza assim, no, cruza mais... O cara no quer nem ouvir o

    cara. Voz de comando : Como que ? Vai fazer ou no vai? Ele vai falar: Eu no

    sei, eu no posso, eu no devo. Ento voc dana! E, hoje, ns temos muitos

    treinadores que falam macio, educadinho... Esse educadinho derruba, no , rapaz? Eu

    tenho medo desses treinadores educadinhos. Esses educadinhos esto derrubando o

    futebol brasileiro. Eu quero agradecer a voc a oportunidade de ter vindo a So Pa