Iniciativas de Economia Solidária

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Organizaes cooperativistas espalhadas por seis estados brasileiros se unem formando uma cadeia de empreendimentos solidrios para a confeco de roupas com algodo agroecolgico.

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<ul><li> 1. Universidade de So Paulo Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz Departamento de Economia, Administrao e Sociologia. Iniciativas de Economia Solidria: um estudo de caso por uma produo e consumo sustentveis Sharon Tosh Schievano LimaOrientadora: Profa. Dra. Laura Alves MartiraniPiracicaba 2006 </li></ul><p> 2. 2 Sharon Tosh Schievano Lima Iniciativas de Economia Solidria: um estudo de caso por uma produo e consumo sustentveisOrientadora: Profa. Dra. Laura Alves Martirani Monografia apresentada ao Departamento de Economia, Administrao e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz para obteno do ttulo de Bacharel em Cincias Econmicas pela Universidade de So Paulo. Piracicaba2006 3. 3Agradecimentos Agradeo a Deus, a minha famlia, aos amigos de perto e de longe.Estes so a trplice base na qual eu me apio.s amigas e amigos deste tempo maravilhoso de ESALQ que sempre estaro por perto, ainda que em pensamento. Aos companheiros das horas mais alegres e por que no, das horas mais tristes tambm... ...Tanto nas lutas como nas artes. Aprendi muito com todos vocs.Dou graas aos professores da graduao, em especial minha orientadora e amiga.Agradeo por ainda haver pessoas idealistas que no deixam os sonhos esmorecerem perante as dificuldades. Agradeo enfim a todos aqueles que de alguma forma tocaram meus pensamentos e meu corao, e me incentivaram a no desistir de seguir este caminho, caminho de aprendizados, conquistas e alegrias. 4. 4 Iniciativas de Economia Solidria: um estudo de caso por uma produo e consumo sustentveisRESUMO Este trabalho procura estabelecer uma relao entre as iniciativas de economia solidria e as prticas de consumo e produo sustentveis. Ao resgatar historicamente nos movimentos ambientalistas os princpios da sustentabilidade que trazem consigo os conceitos dos novos consumos, a partir dessa contextualizao ambiental e terica, aborda a economia solidria, cujas principais caractersticas so a autogesto, a valorizao do trabalho humano, o respeito natureza, aspecto que garante a sustentabilidade dos empreendimentos, o respeito condio feminina e a incluso de todos os participantes do processo nos benefcios gerados. Ao pontuar estes termos como norteadores de que compreendemos ser o consumo e a produo sustentveis, apresentamos um estudo de caso sobre uma iniciativa de economia solidria em particular: a cadeia de empreendimentos solidrios JUSTA TRAMA. Esta cadeia, organizada desde o plantio do algodo agroecolgico at a comercializao em feiras e eventos solidrios considerada um exemplo de como uma outra economia realmente pode acontecer. A idia central por trs do empreendimento todo que, unidos, os empreendedores tm mais chances de enfrentar as adversidades impostas pelo mercado, expandir suas atividades e gerar renda para inmeras famlias. Trata-se de um ciclo de produo sustentvel que incentiva o consumo tambm sustentvel por parte dos atores tanto no incio como no final da cadeia. Dessa forma, feita a ligao do que consideramos a prtica da economia solidria na teoria no que chamamos de produo e consumo sustentveis. 5. 5 SUMRIO APRESENTAOIntroduo ......................................................................................................... 06Objetivos ........................................................................................................... 08Metodologia ....................................................................................................... 08REVISO BIBLIOGRFICA O contexto ambientalista ................................................................................ 10 Desenvolvimento sustentvel e a sustentabilidade ........................................ 11Os novos consumos ......................................................................................... 13 A economia solidria ....................................................................................... 17O ESTUDO DE CASO A Justa Trama - Histrico .............................................................................. 24Realidades e Desafios ..................................................................................... 29Da matria-prima ao produto final .............................................................. 33CONSIDERAES FINAIS ..................................................................................... 37REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ...................................................................... 40 6. 6APRESENTAOIntroduoAs monoculturas produzem ausncia e as ecologias produzem existncia.Boaventura de Sousa SantosEste trabalho fala de uma economia que vivida cotidianamente pelo povo simples dos bairros, pelos desempregados, trabalhadores informais, biscateiros, camels, pequenos empreendedores e uma multido de brasileiros que hoje ficam margem do mercado formal e so tratados como secundrios e perniciosos. Fala de uma economia que fervilha bem cedinho na bodega da Maria, na quitanda do Pedro, no mercado pblico, na feirinha do bairro, no boteco da esquina, nas praas pblicas e nos becos da cidade.Esta economia solidria uma realidade que faz pulsar a vida de mais de cinqenta por cento dos trabalhadores de nosso pas, garantindo maior circulao de riquezas e justia social. Jandir Pauli (2006, pg. 33) nos remete a um conceito de economia carregado de significado:O modelo de economia proposto no ikos grego carrega um conceito que significa organizao econmica como gesto da casa e da vida dos cidados. Neste caso, a economia sempre um exerccio coletivo voltado promoo das condies de subsistncia e de proviso das condies materiais para o exerccio da cidadania. 7. 7Entende-se que as vrias vertentes discutidas acerca do consumo hoje em dia surjam como uma resposta necessidade de ambientalizao do mesmo, uma forma de se exercer o poder poltico e cidado que est nas mos dos consumidores na sociedade capitalista ocidental. O dito consumidor consciente, ou responsvel, ou sustentvel, tem um papel fundamental nesta questo. Suas escolhas cotidianas podem ajudar a construir uma sociedade mais sustentvel e justa. Neste contexto, o ciclo produo-consumo-produo- consumo implica em pensar a sustentabilidade mais alm, no s na efetividade e qualidade dos servios, mas tambm numa perspectiva social, incluindo a gerao e distribuio de renda. As iniciativas de economia solidria, ao propor uma organizao onde os cidados e cidads se incumbem em criar sua prpria fonte de trabalho visando o acesso a bens e servios de qualidade ao mais baixo custo possvel, numa dinmica de reciprocidade que articula os interesses individuais aos coletivos, se apresentam como alternativas em nosso sistema capitalista, onde a questo do bem-estar das pessoas e do emprego (que foram ficando cada vez mais difceis) so essenciais. Papel tambm de destaque aos parceiros destas iniciativas, tanto no chamado terceiro setor como no governo, que fomentam a cooperao, a ao solidria em reao desigualdade, a uma realidade onde cada vez poucos detm muito e muitos detm pouqussimo, e que so fundamentais para a constituio de uma sociedade mais tica e saudvel. Mergulharemos na realidade de uma cadeia de empreendimentos solidrios na tentativa de entender mais a fundo seus princpios, sua organizao e funcionamento e assim evidenciar a importncia da valorizao do trabalho, da utilizao de insumos menos impactantes ao meio, assim como celebrar a cooperao e as alternativas de autogesto pertinentes economia solidria. Visamos apontar realizaes, obstculos, mas acima de tudo perspectivas de futuro a uma sociedade capitalista que est esgotando seus recursos e exaurindo seus trabalhadores. Objetivos 8. 8 Esta monografia tem como objetivo geral buscar nas experincias de economia solidria exemplos de como a prtica por vezes pode dialogar, responder e apontar alternativas ao que parece por vezes um beco sem sada, quando tratamos de sustentabilidade, gerao de emprego e renda e perspectivas para a atual sociedade de consumo.Sob esta perspectiva, este trabalho desenvolve um estudo de caso sobre uma cadeia de empreendimentos no ramo txtil, cadeia esta solidria e que compreende cooperativas nas regies norte, nordeste, sul e sudeste do Brasil.Especificadamente, vamos discutir os conceitos e as prticas por trs da adoo de novos comportamentos de consumo, alm de inserir a questo da insustentabilidade social nestas discusses, ao relacionar a produo sustentvel prtica do consumo sustentvel. Visamos, por fim, contribuir ao debate, abrindo portas para outras discusses e trabalhos no futuro. Metodologia A metodologia empregada no trabalho foi exploratria, na medida em que se objetivou aprofundar as idias sobre o objeto de estudo utilizando-se de dados secundrios por meio foi bibliogrfico, com base no que j foi publicado sobre o tema, inclusive declaraes e depoimentos, e dados primrios obtidos atravs de entrevista semi- estruturada realizada por telefone, com uma das coordenadoras da cadeia, para detalhamento e esclarecimento de nosso objeto de estudo. O estudo de caso1 desenvolvido sobre a JUSTA TRAMA, uma iniciativa de economia solidria no ramo txtil que comercializa produtos de uma cadeia produtiva de algodo ecolgico foi escolhido por responder a um conjunto de inquietaes e indagaes no mbito das prticas de consumo e produo sustentveis, de modo a atender questes de renda e emprego. O estudo1 O estudo de caso pode ser definido como uma investigao de um fenmeno contemporneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre os fenmenos e o contexto no esto claramente definidos. 9. 9 compreendeu uma anlise desta experincia, incluindo seu histrico, forma de organizao e funcionamento, linhas de produo e limitaes, de modo a explicitar a realidade de experincias afins, devidamente fundamentado nas teorias e conceitos j descritos pela reviso de literatura. 10. 10 REVISO BIBLIOGRFICA O Contexto Ambientalista O movimento ambientalista em seu propsito de defender um futuro para as prximas geraes, produz desde a dcada de 1960 relatrios, documentos e tratados que buscam alertar e denunciar os problemas ambientais no mundo, defender a preservao dos recursos esgotveis e da biodiversidade e principalmente garantir que os indivduos, estados e naes conscientizem-se da importncia de voltarmos ateno para as questes ambientais. O relatrio de 1968 Os limites do desenvolvimento, produzido pelo Clube de Roma, que propunha o crescimento zero, de modo a reduzir a devastao tambm a zero. Em 1972, houve a Declarao de Estocolmo, produzida pela Conferncia das Naes Unidas sobre o Meio Ambiente, que tambm tratava desta mesma temtica. Na mesma dcada, em 1977, em Tblisi, ex-Unio Sovitica, um marco: a Conferncia Intergovernamental de Educao Ambiental, que estabeleceu os princpios norteadores da EA e enfatizou seu carter interdisciplinar, critico, tico e transformador. Assim se seguiram outros: O desenvolvimento sustentvel adota uma perspectiva de longo prazo do processo de desenvolvimento econmico e social que compreende a salvaguarda e o incremento do capital ambiental e social e a reduo da iniqidade. Este conceito ganhou relevncia no Relatrio da Comisso Brundtland de 1987 e consolidou seu lugar como ncora para as polticas durante da dcada de 1980.Na Conferncia sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro em junho de 19922, em seu Frum Internacional de ONGs e Movimentos Sociais, assinado o TRATADO SOBRE CONSUMO E ESTILO DE VIDA. Este tratado2 Representantes de 1300 organizaes no-governamentais de 108 pases, inscritos no Frum Internacional de ONGs e Movimentos Sociais, redigiram 36 planos de ao, aprovados em plenria e denominados tratados, entre os quais o Tratado sobre Consumo e Estilo de Vida. 11. 11 pertinentemente alerta para os srios problemas globais de desenvolvimento e meio ambiente que o mundo enfrenta e defende que os mesmos decorrem de uma ordem econmica mundial caracterizada pela produo e consumo sempre crescentes, o que esgota e contamina nossos recursos naturais, alm de criar e perpetuar desigualdades gritantes entre as naes, bem como dentro delas. Segundo o prembulo do tratado fomos levados alm dos limites da capacidade de sustento da Terra e agora nos cabe buscar o equilbrio, a sustentabilidade ecolgica eqitativa, entre os pases e dentro deles. Ser necessrio desenvolver novos valores culturais e ticos, transformar estruturas econmicas e reorientar nossos estilos de vida (TRATADO SOBRE CONSUMO E ESTILO DE VIDA, 1992). Esta proposta de padres de consumo e produo justos e sustentveis baseia-se em seis princpios bsicos, que se aplicam tanto a produtores quanto a consumidores: revalorizar, reestruturar, redistribuir, reduzir, reutilizar e reciclar. A partir de ento discusses e questionamentos a respeito do papel do consumo na gerao de impactos ambientais se agregam problemtica ambiental como um todo. Estes seis princpios bsicos e seus respectivos planos de ao so fundamentais no norteamento de nossa escolha deste trabalho em particular.Desenvolvimento Sustentvel e a Sustentabilidade O conceito de desenvolvimento sustentvel, embora ainda objeto de alguma controvrsia, procura conciliar a necessidade de desenvolvimento econmico da sociedade com a promoo do desenvolvimento social e com o respeito ao meio-ambiente. Ele traz consigo ideologias e atitudes que exigem essas mudanas nos valores que orientam o comportamento dos agentes econmicos, no s deles, mas tambm mudanas no conjunto da sociedade, exigidas pelos princpios propostos no tratado. Neste contexto, LEFF (2004 pg 62) defende que os conflitos socioambientais emergem de princpios ticos, direitos culturais e lutas pela apropriao da natureza que vo alm da internalizao dos custos ecolgicos para assegurar um crescimento sustentado. Faz-se necessrio ento desenvolver novos valores culturais e ticos, transformar estruturas econmicas e reorientar nossos estilos de vida. A publicao O ESTADO DO MUNDO, da Worldwatch Institute, edio 2004, sob o tema: A sociedade de consumo, pergunta como intensificar a sustentabilidade 12. 12 do desenvolvimento? Um dos resultados da Cpula de Johanesburgo de 2002 foi colocar o desenvolvimentosustentvel comoum objetivo integral entre as Metas de Desenvolvimento do Milnio compartilhadas pela comunidade global. Diz ainda que:... essas metas vo alm da sustentabilidade ambiental e abrangem objetivos como a erradicao da fome e a melhoria da sade, da educao, da eqidade social e da cooperao internacional. (...) reivindicam no somente um melhor desempenho econmico, mas a melhoria da qualidade de vida por meio do desenvolvimento social (O ESTADO DO MUNDO, 2004, pg 08).Em termos conceituais, desenvolvimento sustentvel uma grande idia, mas uma grande idia que emperra numa prtica no resolvida imediatamente. O importante hoje dedicar tempo e energia para promover melhores condies de vida a populaes que vivem em condies desfavorveis, sem repetir o mesmo modelo de crescimento econmico que foi praticado nos pases que atingiram...</p>