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Informao, Conhecimentoe Ao tica

Maria EunicE Quilici GonzalEzMariana claudia BroEnscllia aparEcida Martins

(orG.)

Informao, Conhecimentoe Ao tica

Marlia2012

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTAFACULDADE DE FILOSOFIA E CINCIASCopyright 2012 Conselho Editorial

Diretor: Dr..Jos.Carlos.MiguelVice-Diretor:.Dr..Marcelo.Tavella.Navega

Conselho EditorialMaringela.Spotti.Lopes.Fujita.(Presidente)Adrin.Oscar.Dongo.MontoyaAna.Maria.PortichAntonio.Mendes.da.Costa.BragaClia.Maria.GiachetiCludia.Regina.Mosca.GirotoMarcelo.Fernandes.de.OliveiraMaria.Rosngela.de.OliveiraMaringela.Braga.NorteNeusa.Maria.Dal.RiRosane.Michelli.de.Castro

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Ficha catalogrfi ca

Servio de Biblioteca e Documentao Unesp - campus de Marlia

Editora afi liada:

Cultura Acadmica selo editorial da Editora Unesp

I43 Informao, conhecimento e ao tica / Maria Eunice Quilici Gonzalez, Mariana Claudia Broens, Cllia Ap. Martins (org.). Marlia : Ofi cina Universitria ; So Paulo: Cultura Acadmica, 2012.

222p. Inclui bibliografi aISBN: 978-85-7983-344-1

1. tica. 2. Teoria da informao. 3. Teoria do conhecimento. 4. Filosofi a. I. Gonzalez, Maria Eunice Quilici. II. Broens, Mariana Claudia. III. Martins, Cllia Aparecida.

CDD 170

Dedicamos este livro ao Professor Antonio Trajanopela sua generosidade e coragem intelectual.

Obrigado, Trajano, por abrir caminhos para a reflexo temtica na Filosofia!

suMrio

Prefcio.................................................................................................... 9

Introduo............................................................................................... 13

Parte I - Informao, auto-organIzao e ao tIcaDeterminismo,.Responsabilidade.e.Sentimentos.MoraisAntonio Trajano Menezes Arruda............................................................... 21

Informao.e.Ao.Moral.no.Contexto.das.Tecnologias.de.ComunicaoRafael Capurro.......................................................................................... 37

Como.Ficcionalizar.a.Moral:um.RoteiroWilson Mendona; Idia Laura Ferreira....................................................... 55

tica.e.Esttica:.por.um.Ideal.Esttico.de.uma.Vida.ticaMaria Clara Dias...................................................................................... 81

Informao.e.Ao:.Notas.Sobre.a.Experincia.Interdisciplinar.na.FilosofiaMariana Claudia Broens; Maria Eunice Quilici Gonzales; Willem F. G. Haselager.............................................................................. 91

Tecnologia,.Prxis.e.Auto-Organizao:.uma.Discusso.em.AndamentoAlfredo Pereira Junior................................................................................ 109

Informao.e.Contedo.Informacional:.Notas.Para.um.Estudo.da.AoMarcos Antonio Alves................................................................................. 121

Parte II -temas da HIstrIa da fIlosofIaPara se Pensar a ao tIcaNotas.Sobre.a.Filosofia.da.Linguagem.de.Stuart.MillLcio Loureno Prado................................................................................ 137

A.Lgica.e.as.Lgicas:.Sobre.a.Noo.de.Sistema.Formal.e.o.Princpio.da.Liberdade.LgicaRicardo Pereira Tassinari; Itala M. Loffredo DOttaviano............................. 153

Uma.Caracterizao.dos.Hbitos..Luz.do.Conceito.de.SistemaRamon S. Capelle de Andrade; Itala M. Loffredo DOttaviano..................... 169

Matria.e.Forma.Como.Causas.Explicativas.dos.Eventos.noMundo,.em.AristtelesReinaldo Sampaio Pereira.......................................................................... 181

A.Moderna.Potica.da.TragdiaAna Portich............................................................................................... 195

Duas.Acepes.Distintas.de.IdentidadeCllia Aparecida Martins........................................................................... 201

Sobre.os.autores........................................................................................ 215

9

prEfcio

Esta. no. . uma. obra. biogrfica,. tampouco. uma. obra.tecnicamente.engenhosa. sobre.as. ideias.de.um.filsofo.analtico..Sequer.tambm..um.repositrio.de.informaes.ou.guia.do.complexo.das.ideais.de.uma.filosofia.que.emerge.da.interdisciplinaridade.

A.caracterstica.bsica.desta.obra.brota.de.cada.captulo.compondo.um.quadro.de.ideias.gerais.sobre.conhecimento,.informao.e.ao.tica,.as.quais,.a.despeito.de.no.serem.do.pensador.ao.qual.este.livro..dedicado,.tornaram-se.seu.patrimnio.comum,.seiva.de.seu.cotidiano.e.graas.a.ele.ganharam.relevo,.mesmo.quando.objeto.de.suas.crticas.

Os. dotes. do. homem. homenageado. por. este. livro. podem. ser.admirados. ou. criticados,. mas. so. intransferveis,. como. tudo. o. que. .subjetivamente. individual,.mormente.quando.exprimem,.como.no.caso.do.professor.Antonio.Trajano,.o.raro.privilgio.de.captarem.muitas.formas.de.pensamento.e.de.sensibilidade.com.imediata.clareza..E.isso.porque.a.Antonio.Trajano,.um.professor.de.vasta.viso.da.psique,.trata-a.com.a.maturidade.daquele.que.a.pensa.no.pela.abstrao.pura,.mas.mediante.categorias. que. permitem. consider-la. como. fenmeno. psicossocial..Justifica-se:. ele. a. sonda.desde. o.mundo. cultural,. nas. razes. ontolgicas,.epistemolgicas. e. psicolgicas.. Este. . um. dos. principais. mritos. do.homenageado.por.este.livro,.e.sua.perenidade.est.nas.concepes.que.ora.por.ele.so.incorporadas,.ora.por.ele.so.escritas/registradas..E.a.quem..dada.a.oportunidade.de.observ-lo.com.elas,.pode.refutar.(a.ambos,.a.ele.como.pensador.dessas.categorias.e.a.elas.prprias),.pode.igualmente.querer.modificar.ou.superar,.mas.no.pode.ignor-las.se.o.que.busca.diz.respeito.ao.ser.pensante.que.somos,.do.que.ele..exemplo.

Gonzalez,.M..E..q.;.Broens,.M..C.;.Martins,.C..Ap.(Org.)

10

Em. comum,. os. autores. dos. captulos. que. constituem. esta.coletnea.no.crem.que.Antonio.Trajano.esteja.no.final.de.sua.caminhada.profissional,.por.isso.no.se.pode.afirmar.que.deixou.ou.deixar.saudades..Ele.continua,.apenas.agora.como.um.novo.tipo.funcional.na.instituio..H,.porm,.que.se.fazer.uma.retrospectiva.de.seu.caminho,.e..possvel.perceber.que,.em.vez.da.dedicao.a.um.ou.outro.sistema.filosfico,.o.seu.trao..uma.filosofia.de.inquirio,.que.deslinda.a.partir.de.problemas.que.irrompem.da.facticidade..Esse..o.seu.fundo.de.incessante.problematizao.e.de.insatisfeita.investigao..da.que.o.que.ele.nos.lega.no.so.obras.acabadas,.mas.artigos.inconclusos.e.fragmentrios..Modestamente.so.textos.dignos.do.escrpulo.exigente.de.quem.sente.a.exiguidade.da.vida.que.vive.para.aprender.e.cingir.a.morfologia.complexa.do.comportamento.humano.

Antonio.Trajano,.acadmico.dedicado,.ex-universitrio.uspiano,.mestre.pela.USP.e.doutor.pela.Universidade.de.Oxford,.sempre.se.dedicou.ao.estudo.e.ao.ensino.na.UNESP,.vestiu.a.camisa.como.ele.mesmo.diz.e.exige.de.seus.pares..Nesse.itinerrio,.repartiu.a.incansvel.atividade.filosfica.pela. psicologia. e. pela. teoria. do. conhecimento. . mais. precisamente. sua.reflexo.de.filsofo.obedeceu.ao.objetivo.de.esclarecer,.por.vias.diversas,.um.mesmo.problema:.a.compreenso.do.mundo.humano.e.o.modo.como.o.mundo.da.cultura.interage.com.esse.universo.psquico,.sempre.obediente.ao.sentido.de.empiria.que..o.signo.de.seu.posicionamento.filosfico.e.em.cuja.mente.pulsam.as.experincias.da.vida.humana.na.diversidade.de.suas.formas.de.expresso.

O. ponto. de. partida. e. objeto. constante. da. sua. meditao. . a.considerao.conceitual.desde.a.realidade.concreta..Como..pura.abstrao.no..concedido.tanto.crdito,.a.fundamentao.da.sua.reflexo.no.pode.deixar.de.estar.assentada.em.conceitos.da.filosofia.analtica,.psicossociologia.e.da.tica.

.da.ideia.de.ser.homem,.mundivivncia,.cujas.razes.arrancam.diretamente.da.prpria.vida,.que.lhe.cumpre.partir.como.suporte.e.alento.da.atividade.intelectual...ela.que,.para.ele,.impregna.a.filosofia,.a.cincia.e.as.cosmovises.de.qualquer.ndole,.e.porque.se.apresenta.mltipla.e.diversa.no.decurso.do.tempo,.essa.vida.humana.deve.ser.explicada.por.mtodos.e.categorias.da.tica.e.das.cincias.psicossociais.

11

Informao,.conhecimento.e.ao.tica

Para.rasgar.o.horizonte.da.mesmice,.da.tacanhez.ou.do.ceticismo,.seu.testemunho.como.pessoa.mesmo..suficiente:.olhar.Trajano,.ouvir.sua.fala.vagarosa,.perceber.a.ternura.de.seu.olhar,.e.mesmo.por.vezes.na.ira.que.transparece.(um.ira.to.intensa.que.mesmo.aqueles.no.admitidos.por.ele,.fazem-lhe.homenagem),.expressam.a.filosofia.como.tentativa.que.parte.de.dados.particulares,.vividos,.para.conceber.o.mais.geral,.o.universal,.ou.ento.o.que..latente.em.cada.elemento.das.ideias.ou.da.realidade..Esse.respeito.ao.particular,.ao.singular,.como.no.menores.ou.desvinculados.do.todo,.no.permite.negarmos.que.a.pessoa.de.Antonio.Trajano..intensa..no.propriamente.na.produo. acadmica.quantitativa,.mas. em. termos.qualitativos,. de. convivncia. profissional:. no. modo. como. nos. desperta.e. incita. a. nos. adaptarmos. ao. ritmo. dos. ares. da. filosofia,. um. modo,.alis,. guiado. pelo. alento. que. d. significao. s. concepes. e. reivindica.responsabilidade..reflexo.desse.fazer.cotidiano.

Enfim,. estamos. diante. de. um. ritmo. mental,. um. estilo. de.conceber.o.mundo.que.certamente,.como.qualquer.teoria.filosfica,.tem.sua. coerncia. lgica,. mas. certamente. tambm. suas. inconsistncias. ou.dvidas. e. inquietudes. imanentes.. Assim. como. no. h. uma. s. filosofia.verdadeira,.absoluta,.no.h.um.s.tipo.de.filsofo.que.esgote.em.si.mesmo.a.veracidade.e.significao.do.refletir.filosfico,.do.no.alhear-se.da.razo.que.nos.defronta.constantemente.com.o.antagnico,.o.acontecido.como.no.ganho,.como.desvitalizao.do.que.poderia.ser.mais.essencial.em.termos.de.vida...esse.seu.testemunho.de.um.ser.que.no.se.separa.do.pensamento.que..seu.objeto,.e.que,.no.obstante.a.aparente.feio.frgil.de.existncia.pessoal,.denota.um.cumpridor.exmio.da.possibilidade.de.sentir.e.de.pensar.que.escolheu.assumir/encarnar..Sua.fragilidade..sua.fora.que.se.antepe.ao.barbarismo.que.por.vezes.pode.surgir.do.cotidiano.de.trabalho.como.um.doce.sorriso.que.nos.diz:.no.vale.a.penas.no.conceder.significao,.seria.isso.um.no.pensar.astuto.cujo.investimento.no.ultrapassaria.o.que.por.vezes.lamentavelmente.ocorre,.a.saber,.a.superficialidade.do.saber.e.da.convivncia.com.a.filosofia..De.todos.ns,.obrigado.Trajano!.

Cllia.Ap..MartinsMaria.Eunice.quilici.Gonzalez.

Mariana.Claudia.Broens

12

13

introduo

A.presente.coletnea.tem.como.eixo.central.uma.reflexo.sobre.temas.e.problemas.concernentes..relao.entre.informao,.conhecimento.e. ao. tica,. reflexo. essa. realizada. principalmente. em. uma. perspectiva.filosfica. interdisciplinar. que. envolve. a. Filosofia,. a. Arte,. a. Cincia. da.Informao,. a. Neurocincia,. a. Biologia. e. a. Psicologia.. Destacam-se. os.temas.da.relao.entre.liberdade,.determinismo.e.responsabilidade.moral;.do. ficcionalismo. moral;. da. relao. entre. imaginao. e. responsabilidade.moral;.do.papel.das.novas.tecnologias.informacionais.na.constituio.de.uma.tica.intercultural.e.reflexes.sobre.a.identidade.pessoal..No.que.se.refere. aos. problemas. investigados,. so. levantados. questionamentos. tais.como:. qual. . a. relao. entre. informao. e. ao?. . possvel. uma. tica.intercultural.fundada.nos.processos.de.auto-organizao.dos.meios.digitais?.Podem. a. Filosofia. e. a. Arte. nos. auxiliar. no. estabelecimento. de. novas.diretrizes. para. a. tica. na. contemporaneidade?. A. abordagem. filosfico-interdisciplinar. contribui. para. a. compreenso. da. ao. tica?. Longe. de.responder. tais. interrogaes,. a. presente. coletnea. prope. uma. reflexo.coletiva.sobre.instigantes.problemas.da.contemporaneidade..Os.textos.que.a.constituem.esto.divididos.em.duas.sees.

A. primeira. parte,. denominada Informao, Auto-organizao e Ao tica.compreende.os.trabalhos.de.Antonio.Trajano.Menezes.Arruda;.Rafael. Capurro;. Wilson. Mendona. e. Idia. Laura. Ferreira;. Maria. Clara.Dias;.Maria.Eunice.q..Gonzalez,.Mariana.C..Broens.&.Willem.Haselager;.

Gonzalez,.M..E..q.;.Broens,.M..C.;.Martins,.C..Ap.(Org.)

14

Alfredo. Pereira. Junior. e. Marcos. Antonio. Alves,. os. quais. compem,.respectivamente,.os.artigos.1,.2,.3,.4,.5,.6.e.7.

O. primeiro. captulo,. de. autoria. de. Antonio. Trajano. Menezes.Arruda,. intitulado. Determinismo, Responsabilidade e Sentimentos Morais, discute.um.dos.problemas.clssicos.da.Filosofia,. a. saber,. a. relao.entre.liberdade,. determinismo. e. responsabilidade. moral.. A. questo. central.que. direciona. a. instigante. reflexo. de.Trajano. :. . como. conciliar. duas.exigncias.aparentemente.contraditrias:.o.princpio.de.que.todo.evento..causalmente.determinado.e.a.ideia.de.que.a.responsabilidade.moral.requer.uma.liberdade.que.se.choca.com.o.determinismo.

No.captulo.2,.Informao e Ao moral no contexto das tecnologias da comunicao,.Rafael.Capurro.argumenta.a. favor.da.urgncia.de.uma.investigao. filosfica. rigorosa. de. aspectos. ticos. relacionados. s. novas.tecnologias.informacionais..Em.especial,.ressalta.o.autor.a.diferena.entre.os.fenmenos.informacionais.referentes.s.mdias.da.primeira.metade.do.sculo. XX. e. aqueles. que. envolvem. a. realidade. virtual,. a. multiplicao.acelerada. de. fontes. de. informao. e. as. relaes. intersubjetivas. possveis.graas.s.novas.tecnologias.como.a.internet..

No. captulo. 3,. Como ficcionalizar a Moral: um roteiro, Wilson.Mendona.e.Idia.Laura.Ferreira.analisam.criticamente.tentativas.recentes.de.tratar.o.objeto.da.moralidade.como.uma.fico..Em.especial,.o.trabalho.mostra.um.deficit.estrutural.no.argumento da intransigncia.proposto.por.Kalderon.a. favor.do.ficcionalismo.moral.hermenutico..Reconstruindo.os. passos. que. levam. do. cognitivismo. irrealista. ao. ficcionalismo. moral.revolucionrio,.os.autores.argumentam.que.no..claro.como.uma.moral.fictcia.concebida.por.Joyce.poderia.ainda.ter.uma.influncia.adequada.na.conduta.cooperativa.e.na.resoluo.de.conflitos.de.interesses..

No.captulo.4,.tica e Esttica: por um ideal esttico de uma vida tica,.Maria Clara Dias discute.a.possibilidade.de.um.ideal.de.vida.esttico.que.contemple.nossa.demanda.atual.pela.satisfao.de.princpios.morais..Duas.propostas.centrais.direcionam.a.reflexo.inspiradora.de.Maria.Clara:.num.primeiro.momento,.ela.resgata.uma.concepo.de.tica.caracterizada.como. uma. disciplina. voltada. para. prescries. capazes. de. conduzir.a. realizao. de. uma. vida. plena.. Num. segundo. momento,. a. autora.

15

Informao,.conhecimento.e.ao.tica

investiga. a. capacidade.de.nos. compreendermos. enquanto.participantes.da.comunidade.moral.como.um.possvel. integrante.da.nossa.concepo.do.que.possa.ser.uma.vida.lograda.ou.feliz..A.defesa.do.emprego.de.nossa. capacidade. imaginativa. como. o. procedimento. mais. adequado. a.implementao. do. princpio. moral. do. respeito. universal. constitui. um.ponto.marcante.do.trabalho.de.Maria.Clara.

No. captulo. 5,. Informao e ao: notas sobre a experincia interdisciplinar na Filosofia, Maria. Eunice. quilici. Gonzalez,. Mariana.Claudia.Broens. e.Willem.Haselager. analisam.o.conceito.de. informao,.a. partir. de. uma. perspectiva. filosfica. interdisciplinar. ,. no. contexto. da.ao.situada.e.incorporada..As.principais.questes.que.norteiam.a.reflexo.dos. autores. so:. O. que. . isso. que. chamamos. informao?. qual. . a.sua.natureza.ontolgica.e.epistemolgica?.De.que.maneira.a.informao.afeta. nossa. ao. e. a. dos. outros. seres. que. nos. cercam?.Temos. controle.sobre.os.processos.informacionais.que.afetam.nossas.decises?.Os.autores.argumentam.que,.embora.a.reflexo.filosfica.seja.de.extrema.importncia.para.a.busca.de.respostas.as.questes.vitais.que.se.colocam.sobre.a.relao.entre.informao,.conhecimento.e.ao,.a.Filosofia.isoladamente.no.tem.condies.de.realizar.essa.tarefa.que.se.complexifica.a.cada.passo.da.evoluo.tecnolgica.e.cientifica..Nesse.sentido,.os.autores.defendem.a.hiptese.de.que.a.pesquisa.filosfico-interdisciplinar.se.faz,.no.apenas.necessria,.mas.imprescindvel.no.estudo.de.questes.sobre.a.natureza.da.informao.e.sua.influncia.na.ao.e.nos.processos.de.aquisio.do.conhecimento..

O. captulo. 6,. de. autoria. de. Alfredo. Pereira. Junior: Tecnologia, Prxis e Auto-Organizao: uma discusso em andamento faz.um.balano.de.trabalhos.sobre.informao,.tecnologia.e.auto-organizao.no.domnio.da.ao.humana..Ele.argumenta.que.o.papel.da.tecnologia.na.ao.depende.das.condies.em.que.ela..gerada.e.utilizada..Nas.palavras.do.autor:.Identifico.uma.inteligncia.maquiavlica.das.elites.no.trato.com.a.tecnologia,.mas.tambm.uma.inteligncia.construtiva.dos.agentes.de.transformao,.os.quais.utilizam.verses. alternativas.da. tecnologia. existentes. em.processos.auto-organizativos.. O. autor. interpreta. a. intensificao. do. ritmo. de.inovao. tecnolgica. como. estratgia. da. inteligncia. maquiavlica,.sugerindo. que. os. processos. auto-organizativos. populares. requerem. um.

Gonzalez,.M..E..q.;.Broens,.M..C.;.Martins,.C..Ap.(Org.)

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ritmo.desacelerado.de.inovao.adequado..aprendizagem.dos.processos.e..criatividade.da.parte.dos.agentes..

No.captulo.7, Aspectos da teoria da informao, Marcos.Antonio.Alves.analisa,.de.maneira.bastante.detalhada,.o.conceito.de. informao,.nas. perspectivas. de. Shannon. e.Weaver,. Dretske. e. Devlin.. Ele. ressalta. a.contribuio.de.Dretske.que,. tendo.como.ponto.de.partida.as. ideias.de.Shannon. sobre. informao,. desenvolve. uma. concepo. semntica. de.informao,. fundante. de. uma. inovadora. teoria. do. conhecimento. e. da.ao..Divergncias.e.pontos.em.comum.entre.esses.autores.so.discutidos,.apresentando.uma. valiosa. contribuio.para. o. entendimento.da. relao.entre.informao.e.conhecimento.

A.segunda.parte.desta.coletnea,. intitulada.Temas da Histria da Filosofia para se pensar a ao tica,.rene.os.captulos.8,.9,.10,.11,.12.e.13.de.autoria.de.Lucio.Loureno.Prado,.Ricardo.Pereira.Tassinari.e.tala.Loffredo.DOttaviano;. Ramon. Capelle. de. Andrade. e. tala. Loffredo. DOttaviano;.Reinaldo.Sampaio.Pereira,.Ana.Portich.e.Clelia.Ap..Martins,.respectivamente..Nesta. seo,. so. analisados. e. discutidos. temas,. a. partir. das. perspectivas.lgica.e.histrico-filosfica,.como.os.da.relao.entre.conhecimento.e.ao;.a. autodeterminao. lgica. do. pensamento;. as. implicaes. da. interao.matria/forma;.as.caractersticas.especficas.da.moderna.potica.da.tragdia.e.as.noes.transcendental.e.psicossocial.de.identidade.

No.captulo.8,.Notas sobre a filosofia da linguagem de.Stuart.Mill,.Lcio.Loureno.Prado.discute.a.relao.entre.a.perspectiva.empirista.de.Mill. e. suas.concepes. sobre.Lgica.e.Filosofia.da.Linguagem..O.autor.ressalta,. com. detalhamento. conceitual. e. contextualizao. histrico-filosfica,.a.relevncia.das.crticas.de.Mill.ao.nominalismo.psicologizante.do.empirismo.clssico.e.as.contribuies.de.suas.teses.para.a.clebre.virada.lingustica.da.filosofia.contempornea.

Em.seguida,.no.captulo.9,.A Lgica e as Lgicas: sobre a noo de sistema formal e o princpio da liberdade lgica,.Ricardo.Pereira.Tassinari.e.tala.Loffredo.DOttaviano.apresentam.e.analisam,.de.maneira.detalhada,.o.conceito.de.liberdade.lgica. Neste.texto,.os.autores.defendem.a.hiptese.segundo.a.qual.o.pensamento.se.autodetermina.logicamente,.podendo.ser.considerado.livre.nesse.sentido.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

O.captulo.10,.intitulado.Uma caracterizao dos hbitos luz do conceito de sistema, de.autoria.de.Ramon.Capelle.de.Andrade.e.tala.Loffredo.DOttaviano,.introduz.o.conceito.de.hbito.no.contexto.da.Filosofia.da.Mente.e.da.Cincia.Cognitiva..O.objetivo.central.dos.autores..defender.a.hiptese.segundo.a.qual.parte.da.organizao.do. sistema.psicocomportamental.de.um.agente..derivada.de.um.conjunto.de.hbitos,.cuja.forma.lgica.pode.ser.expressa.atravs.de.um.condicional:.se a circunstncia A acontece, ento o curso comportamental B tende a ser adotado pelo agente.

No. captulo. 11,. Matria e forma como causas explicativas dos eventos no mundo em Aristteles,.Reinaldo.Sampaio.Pereira.busca.elucidar,.com.alto.rigor.conceitual,.de.que.modo.as.noes.aristotlicas.de.matria.e.forma.auxiliam.a.compreender.e.explicar.eventos.no.mundo,.na.medida.em.que.permitem.apreender.potencialidades.dos.entes..Ainda.que.o.autor.no.trate.diretamente.da.relao.entre.forma.e.matria.na.contemporaneidade,.entendemos.que.sua.analise.contribui,.de.maneira.impar,.para.ulteriores.desenvolvimentos. do. conceito. de. forma. e. sua. relao. com. os. eventos.informacionais.

No. captulo. 12. intitulado. A moderna potica da tragdia, Ana.Portich.busca.clarificar,.com.preciso.conceitual.e.histrica,.as.diferenas.entre.as.noes.clssica.e.moderna.de.tragdia,.ressaltando.as.concepes.filosficas. s. quais. esto. vinculadas. a. potica. trgica. grega. clssica. e. a.moderna. potica. europeia. do. trgico,. profundamente. influenciada. pela.filosofia.cartesiana..

Por. fim,. no. captulo. 13,. Duas acepes distintas de identidade, Cllia. Aparecida. Martins. discute,. com. rigor. e. erudio,. o. conceito. de.identidade.a.partir.de.duas.perspectivas.tericas.que.tratam.do.conceito.de.identidade.do.sujeito:.a.transcendental,.postulada.por.Emanuel.Kant,.e.a.psicossocial,.defendida.por.Antonio.Trajano.Menezes.Arruda..Em.especial,.a.autora.ressalta.os.diferentes.contextos.tericos.em.que.ambas.perspectivas.so.postuladas.e.suas.implicaes.para.a.compreenso.da.moralidade.

Como.ficar.claro.para.o.leitor.atento,.a.presente.obra.expressa.um. esforo. de. valorizao. de. diversos. modos. de. expresso. do. trabalho.filosfico..Mais.do.que.uma.coletnea.convencional,.ela. rene.captulos.inspirados.na.rica.atividade.filosfica.exemplarmente.vivida.por.Antonio.

Gonzalez,.M..E..q.;.Broens,.M..C.;.Martins,.C..Ap.(Org.)

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Trajano.Menezes.Arruda..A.ele.dedicamos.este.livro,.e.tambm.o.evento.no. qual. vrios. dos. captulos. foram. apresentados,. como. uma. expresso.de.apreo.e.de.gratido.pelos.mais.de. trinta.anos.de. trabalho.criativo.e.dedicado.ao.ensino.e..pesquisa.da.Filosofia.no.Departamento.de.Filosofia.da. UNESP. campus. de. Marlia.. Esperamos. que. o. leitor. enriquea. a. sua.reflexo.com.esta.obra,.que.ressalta,.de.diferentes.modos,.a.relevncia.da.atividade.filosfica.para.a.compreenso.de.problemas.to.contemporneos.quanto,.ao.que.nos.parece,.perenes.

Maria.Eunice.quilici.GonzalezMariana.Claudia.Broens

Cllia.Ap..Martins

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partE iinforMao, auto-orGanizao

E ao tica

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dEtErMinisMo, rEsponsaBilidadE E sEntiMEntos Morais

Antonio Trajano Menezes Arruda

.

1 a Pergunta e as resPostas

Embora. a. ideia. de. determinismo,. especialmente. quando.pensada.em.relao.com.o.comportamento.humano,.no.tenha.sido.at.hoje.claramente.elucidada,.ns.precisamos.partir.de.algum.entendimento.dela.para.podermos.colocar.esse.que..um.dos.problemas.clssicos.mais.recorrentes. da. Filosofia,. o. da. relao. entre. liberdade,. determinismo. e.responsabilidade.moral.

O. princpio. do. determinismo. universal. ser. aqui. entendido,.como..usual.na.literatura,.como.a.proposio.segundo.a.qual.todo.evento,.e. em. particular. toda. ao. humana,. . causado. . causa. sendo. entendida.como.um.evento.cuja.ocorrncia..suficiente.para.a.ocorrncia.do.efeito..por.certos.fatores.antecedentes,.que.por.sua.vez.so.tambm.causados.por.outras.condies,.as.quais.esto.igualmente.sujeitas..determinao.causal,.e.assim.por.diante.

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O.problema.da.liberdade,.da.responsabilidade.e.do.determinismo..o.problema.de.como.conciliar.duas.exigncias.pelo.menos.aparentemente.contraditrias:.o.princpio.de.que.todo.evento..causalmente.determinado.e.a.ideia.de.que.a.responsabilidade.moral.requer.uma.liberdade.que.se.choca.com.o.determinismo..Esse.problema.parece.surgir.da.conjuno.de.dois.elementos,.a.saber:.a.plausibilidade.prima facie do.princpio.da.causalidade.e. o. compromisso,. real. ou. no,. que. nossas. concepes. de. liberdade. e.moralidade.tm.com.a.crena.num.estado.de.coisas.contra-causal.que.caracterizaria. o. comportamento. humano.. Aquela. plausibilidade. da. tese.do. determinismo. pode. ser. percebida. atravs. da. implausibilidade. inicial.de.sua.negao:.as.aes,.morais.e.no-morais,.so.eventos.individuais.que.ocorrem.no.espao.e.no.tempo.e.so.suscetveis,.at.certo.ponto,.de.uma.descrio.fsica;.nessa.medida.elas.estariam.sujeitas..mesma.causao.que.comandaria.o.curso.dos.eventos.naturais..Alm.disso,.o.agente.humano.. tido. como.moralmente. responsvel.na.medida. em.que. suas. aes. so.de.algum.modo.determinadas,.e.talvez.causalmente,.pelas.suas.intenes,.crenas,. carter. etc.. Assim. sendo,. . problemtico. supor-se. que. as. aes.humanas. so.em.ltima.anlise.no-causadas,.ou.causadas.por.algo.que.. ele.prprio.no-causado..Por.outro. lado,. acredita-se.que.o.mrito.e.o.demrito,.em.particular.na.esfera.moral,.colocam.um.problema.especial.a.respeito.da.liberdade:.de.fato,.parece,..primeira.vista,.que.o.discurso.da.condenao.moral. e. das. atribuies. de. responsabilidade.moral. requer. a.espcie.de.liberdade.que..exprimida.em.termos.de.O.agente.poderia.ter.agido.diferentemente,.com.esta.frase.sendo.entendida.no.sentido.forte,.isto.,.num.sentido.contra-causal..Aquilo.que..expresso.nessa.frase.,.de.fato,.parte.de.algumas.de.nossas.prticas.morais.ou,.pelo.menos,.do.modo.como. muitas. pessoas,. filsofos. ou. no,. tm. representado. essas. prticas..Se. ele. . uma. boa. ou. m. parte. de. nossas. noes. morais,. isso. . um.outro.problema;.mas.que.ele.de.fato.ocupa.um.lugar.proeminente.nelas..atestado.pelo.fato.seguinte:.se.alguma.condio.contra-causal.no.estivesse.ao.menos.aparentemente.envolvida.em.certas.noes.morais,.seria.muito.difcil,.ou.at.impossvel,.entender.como.a.controvrsia.do.determinismo.e.da.liberdade.poderia.sequer.ter.emergido..Mas,.igualmente,.a.perplexidade.no.teria.existido.se.a.hiptese.do.determinismo.fosse.uma.ideia.incoerente,.extravagante.ou.claramente.implausvel.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

Se. esta. ,. ainda. que. em. parte,. a. fonte. da. controvrsia. . pelo.menos. em. sua. forma. moderna. e. contempornea,. em. contraste. com.o. anterior. tratamento. medieval. . ento. a. questo. em. debate. pode. ser.apresentada.como.sendo.uma.questo.que.diz.respeito.a.uma.certa.rea.da.moralidade;.especificamente,.aquela.na.qual.se.quer.saber.se.nossas.noes.e.prticas.morais.requerem.ou.no.a.prevalncia.de.um.estado.de.coisas.contra-causal.envolvendo.a.conduta.humana..que.a.controvrsia..sobre.isso,..atestado.pelo.fato.de.que.nenhuma.das.partes.em.disputa.procura.desafiar.diretamente.o.princpio.da.causalidade,.o.qual..entendido.mais.ou.menos.do.mesmo.modo.pelas.diferentes.partes;.a.divergncia.irrompe.com.a.apresentao.de.interpretaes.diferentes.da.moralidade,.e.em.particular.da.responsabilidade.moral..(Talvez.a.histria.dessa.controvrsia.possa.ser.escrita. como. um. captulo. substancial. da. histria. de. nossas. concepes.das.prticas.morais;.e.a.controvrsia.ela.prpria.seria.vista.como.sendo.a.respeito.do.prprio.problema.da.natureza.da.moralidade).

A.condenao.moral.de.uma.ao. implica,. entre.outras. coisas,.que.o.agente.que.a.prtica..responsvel.pela.ocorrncia.da.ao..Por.outro.lado,.aceita-se.que.a.ausncia de coero.(assumindo-se.aqui.algum.sentido.adequado. de. coero). . condio. necessria. para. que. as. atribuies.de. responsabilidade. e. o. discurso. do. louvor. e. da. culpa. tenham. sentido..Ocorre,.ainda,.que.a.distino.entre.causa.coercitiva.e.causa.no-coercitiva.faz. com. que. a. ausncia. de. coero. se. harmonize. sem. dificuldades. com.a. ideia. de.determinismo..E. se. este. ltimo. vige,. ento. se. seguiria. que. o.agente.pode.ser.objeto.de.condenao.moral.por.ter.praticado.uma.ao.que,.num.certo. sentido,.no.poderia. ter. sido.evitada,.nem.por.ele.nem.por. ningum:. estava. escrito,. digamos. assim,. que. ele. praticaria. aquela.ao. naquele. momento.. E. isso,. argumentam. alguns,. seria. uma. grande.injustia:.o.determinismo.vitimaria.o.agente.moral,.isto.,.faria.da.pessoa.uma.vtima.de.punio.imerecida,.injusta..Logo,.dizem.eles,.ausncia.de.coero.no..condio.suficiente.para.justificar.a.condenao.moral.e.a.punio;.portanto,.algo.mais..necessrio.

O.requisito.da. justia.da.punio.. isto.,.a.suposio.de.que.a.punio.s..legtima.se.for.justa...absolutamente.central.(e,.infelizmente,.to.difcil.quanto.central).nas.discusses.sobre.o.nosso.problema..E.convm.reiterar.que.este.ltimo.,.rigorosamente,.impossvel.de.sequer.ser.levantado.

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a.no.ser.que.se.tenha.presente.alguma.ideia.ou.de.determinismo.cientfico.ou.de.fatalismo.ou.de.oniscincia.divina..Na.ausncia.de.pelo.menos.uma.dessas.trs.ideias,.ter-se-ia.apenas.um.outro.problema,.e.bem.menor,.que..o.da.relao.entre.ausncia.da.coero.e.atribuio.de.responsabilidade.moral..

Pode-se.re-enunciar.nosso.problema.nos.seguintes.termos:..ou.no..verdade.que.a.inteligibilidade.e.a.justificao.da.dimenso.do.mrito.e.demrito.morais.requerem.uma.liberdade.negadora.do.determinismo?

Na. verdade,. convm. formular. o. problema. em. termos. mais.completos.e.detalhados,.do.seguinte.modo..Usarei.a.expresso.conduta.moral.(algo.impropriamente,.na.verdade).para.designar.todos.os.aspectos.verbais.e.no-verbais.de.uma.certa.rea.da.moralidade,.a.saber,.aquela.que..definida.pela.conjuno.das.exigncias morais.que.as.pessoas.fazem.umas.s.outras. (por. exemplo,. a. exigncia.de. respeito,.de. considerao,.de. ser.tratado.como.pessoa. e.no.como.objeto. etc),.dos. sentimentos morais (isto.,.sentimentos.de.gratido,.ressentimento,.indignao,.auto-respeito.etc.),. das. reaes/atitudes nas. quais. aqueles. sentimentos. so. exprimidos.(portanto,. todas. as. atitudes.de. culpar. e. de. louvar. e. algumas. reaes. de.agresso),. e. das proposies e conceitos morais. que. estejam. diretamente.associados.com.os.trs.itens.anteriores.(portanto,.juzos.de.atribuies.de.responsabilidade.e.o.prprio.conceito.de.responsabilidade,.entre.outros)..Uma.questo.decisiva.que.se.deve.levantar.a.respeito.da.conduta.moral,.definida. do. modo. acima,. . a. seguinte:. devem. os. quatro. componentes.acima.ser.vistos.como.formando.uma.unidade.inseparvel,.em.particular.quando.se.trata.de.analisar.o.problema.que.nos.ocupa?

. conveniente. tornar. mais. precisa. a. questo. da. relao. entre.determinismo. e. moralidade,. mencionando-se. explicitamente. os. quatro.componentes.da.conduta.moral,. como.segue:. .o. requisito.da.condio.contra-causal. posto. para. o. todo. da. conduta. moral,. ou. apenas. para. um.ou. outro. de. seus. componentes,. ou. para. alguma. combinao. destes?.Em.particular,. o. fazer. exigncias.morais. e. a.disposio.de. experimentar.sentimentos.morais.e.de.manifestar.as.atitudes.correspondentes,.so.eles.em. sua. prpria. existncia. . em. contraste. com. interpretaes. particulares.e.possivelmente.conflitantes.deles..ameaados.pela.verdade.da.hiptese.do. determinismo?. Noutras. palavras,. tende. o. indeterminista. (tambm.chamado. de. libertrio. na. literatura). a. apelar. para. a. liberdade. contra-

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

causal.porque.ele.no.pode.entender.o.conceito de.responsabilidade.a.no.ser.quando.pensado.em.conexo.com.um.estado.de.coisas.contra-causal?.Ou,.antes,.seria.porque.ele.acredita.que.a.crena.nesse.estado.de.coisas..o.nico.modo.de.reter.nossos sentimentos e atitudes morais.na.sua.forma.e.fora.familiares.e.de.torn-los.racionalmente.respeitveis?.Ou.ambas.as.coisas?..de.se.esperar.que.esse.modo.de.colocar.a.questo.possa.contribuir.para.nos. aproximar.do.ncleo.do. assunto..Seja. como. for,. contribua. ele.ou.no,.ele.de. fato.nos.ajuda.a.enxergar.com.clareza.o.que.os.filsofos,.explicita.ou.implicitamente,.tm.tomado.como.sendo.o.ponto.crucial.em.debate..Para.ilustrar.isso,.duas.referncias.. literatura.recente:.A..J..Ayer.(1982),. em. Free-will. and. rationality,. sugere. que. . o todo. da. conduta.moral.que.no.se.harmoniza.com.a.verdade.do.determinismo,.de.modo.que. esta.ltima. levaria. . adoo.do. ceticismo moral,. que. . justamente. a.posio.para.a.qual.esse.filsofo.tendeu..No..incomum,.por.outro.lado,.os. filsofos. argumentarem. como. se. aquilo. que. . incompatvel. com. o.determinismo.fosse.apenas.um.certo.conceito.de.responsabilidade.moral..Assim,.Paul.Edwards,.que,.no.artigo.Hard.and.soft.determinism,.nega.que.o.conceito.moral.de.responsabilidade.tenha.alguma.aplicao,.no.se.sente,.no.entanto,.obrigado.a.endossar.a.tese.de.que.o.conhecimento,.por.parte.do.agente,.da.determinao.causal.de.seu.prprio.comportamento.torn-lo-ia.menos.propenso.a.experimentar.e.manifestar.os.sentimentos,.por.exemplo,.de.vingana,.de.gratido,.etc.(Ver.HOOK,.1958,.p..125)..Mesmo..luz.da.verdade.do.determinismo.hard,.isto.,.da.tese.segundo.a.qual.toda.ao.humana..total.e.completamente.determinada.por.fatores.causais.antecedentes,.no.se.estaria.forado.a.ver.as.reaes.emocionais.de.cunho.moral.como.deslocadas.ou.irracionais.(HOOK,.1958,.p..123).

Como. se. v,. o. motivo. subjacente. . referncia. aos. quatro.componentes. da. conduta. moral. . a. preocupao. de. apresentar. com.fidelidade.e.clareza.o.que.est.exatamente.em.questo.na.disputa,.e.isto..necessrio.para,.entre.outras.coisas,.enunciar.os.critrios..luz.dos.quais.se.h.de.avaliar.o.mrito.de.respostas.rivais..nossa.pergunta.

Vrios.filsofos.sustentaram,.ou.sustentam,.que.a.moralidade.exige.uma.liberdade.conflitante.com.o.determinismo..Eles.formam.o.grupo.dos.incompatibilistas.. Se. o. determinismo. vige,. argumentam. eles,. ento. nossa.liberdade.se.resume.no.oposto.da.coero,.e.este..insuficiente.para.fundar.

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as.distines.morais..A. imensa.maioria.dos. incompatibilistas.acredita.que.a. dimenso. da. moralidade. . inteligvel. e. justificvel;. eles. so,. portanto,.indeterministas.enquanto.filsofos.da.liberdade..William.James.e.J.-P..Sartre,.entre.muitos.outros,.esto.nesse.grupo..A.expresso.liberdade.de.indiferena.e.tambm.livre.arbtrio.foram.h.muito.tempo.cunhadas.para.nomear.a.liberdade.dos.indeterministas,.a.qual.se.ope..outra,.centrada.na.ausncia.de.coero,.que.foi.chamada.de.liberdade.de.espontaneidade.ou.simplesmente.liberdade..Esta.ltima..defendida.pelos.compatibilistas,.os.quais.no.veem.conflito. entre. determinismo. e. liberdade. moral.. Spinoza,. Hume,. G.. E..Moore,.entre.muitos.outros,.esto.neste.segundo.grupo..O.compatibilista.pode,.mas.no.precisa,.ser.determinista:.ele.pode.ser.agnstico.a.respeito.do.problema.do.determinismo.e.insistir.apenas.em.que.a.justificao.da.culpa.e.do.louvor.morais.independe.de.resultados,.sejam.eles.quais.forem,.a.respeito.da.hiptese.do.determinismo.aplicada..ao.humana.

Uma.idia.fundamental.da.filosofia.indeterminista.da.liberdade..a.seguinte:.a.inteligibilidade.do.mrito.e.do.demrito.pressupe.a.posse,.pelo.agente. humano,. de. um. poder. de. agir-diferentemente-do-que-se-age, poder.esse.que.conflita.com.o.determinismo..Ao.que.parece,.o.problema.do.mrito.e.o.da.justia.da.punio.so.a.principal.fonte.que.tem.alimentado.a.doutrina.indeterminista.da.liberdade..E.ainda.que.se.suponham.inaceitveis.anlises.indeterministas. do. conceito. de. liberdade. e. que. se. reconhea. no. terem.elas,.em.geral,.contribudo.muito.para.a.teoria.da.responsabilidade.moral,.o.certo..que.o.firme.e. insistente.questionamento.que.os. indeterministas.tm.feito.da.doutrina.compatibilista.tem.contribudo.para.o.conhecimento.da. responsabilidade.moral. e.para.a.produo.de. reflexes.aprofundadas.e.originais.sobre.a.natureza.do.mrito.e.demrito,.da.aprovao.e.desaprovao,.do.louvor.e.culpa,.da.punio.e.recompensa.

O.entendimento.que.o.senso.comum.tem.das.ideias.de.liberdade.e.de.responsabilidade.moral..o.ponto.de.partida,.necessrio,.para.a.anlise.filosfica.dessas,. como.de.muitas.outras,.noes..No.entanto,.h. razes.para.suspeitar.que,.curiosamente,.enquanto.que.a.noo.comum.de.livre.tende.a.coincidir.com.o.correspondente.conceito.compatibilista,.as.noes.comuns. de. responsabilidade. e. de. maldade. morais. se. aproximam. bem.mais.das.do.indeterminismo..Com.efeito,.tanto.a.idia.indeterminista.de.liberdade.quanto.a.fundamentao.compatibilista.da.acusao.moral.so.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

refinamentos.e.elaborao.em.boa.medida.estranhos.ao.senso.comum..E,.se. assim. ,. tambm. aqui. o. senso. comum. incorre. nesta. falha. que. lhe. .frequentemente.imputada,.a.inconsistncia.lgica.

2 os dIferentes enfoques

O.carter.composto.da.conduta.moral.deu.origem.a.diferentes.enfoques.do.problema.da.liberdade.moral.e.do.determinismo..Um.deles.se.concentra.exclusivamente.na.tentativa.de.tornar.explcitos.o.contedo.dos.conceitos.relevantes.e.o.significado.das.proposies.em.que.eles.aparecem,.sem.que.nenhuma.ateno.seja.dada..psicologia.dos.sentimentos.e.atitudes.morais..Este.enfoque.foi.adotado.por.alguns.filosficos.morais.da.escola.analtica,. e. sua. formulao. pode. ser. encontrada. muito. explicitamente,.por. exemplo,. no. britnico. P.. Nowell-Smith. (1957,. p.. 245):. A. questo.entre.deterministas.e.libertrios..uma.questo.a.respeito.do.modo.como.devem.ser.interpretadas.expresses.como.escolher,.pode.e.possibilidades.alternativas;.e.esta..com.certeza.uma.questo.que.h.de.ser.resolvida.no.por.auto-observao,.mas.por.anlise.lgica.

Um.segundo.tipo.de.enfoque,.diametralmente.oposto.ao.primeiro,.tende.a.focalizar.alguns.fatos.gerais.a.respeito.dos.sentimentos.e.atitudes.morais.e.a.ocupar-se.muito.pouco.com.a.clarificao.de.conceitos.e.juzos..Ele..exemplificado.pelo.tratamento.de.P..F..Strawson.em.Freedom.and.Resentment,.no.qual.as.atitudes.reativas.morais.so.vistas.como.dadas.com.o.fato.da.sociedade.humana.tal.como.a.conhecemos,.nem.requerendo,.nem.permitindo.uma.justificao.racional.geral..(Cf..VAN.STRATEN,.1982,.p..264)..E,.finalmente,.h.um.terceiro.tipo.de.enfoque,.que.combina.traos. dos. dois. primeiros,. e. no. qual. a. investigao. do. problema. do.determinismo.e.da.liberdade..tomado.como.sendo.o.estudo.da.conduta.moral. como.um. todo,. isto. ,. a. investigao. sobre.o.que. est. envolvido.no. complexo. formado. pelas. exigncias,. sentimentos,. atitudes. e. juzos.morais,.e.nas.vrias.formas.de.punio.e.recompensa.que.se.seguem.deles..O.tratamento.de.M..Schlick. (1939),.no.captulo.quando.um.homem..responsvel.de.seu.livro.Problemas da tica,.exemplifica.(embora.num.grau.no.muito.elevado).esse.enfoque.combinado..A.fecundidade.de.cada.um. desses. enfoques. depende,. . claro,. da. resposta. que. se. d. . questo,.

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referida.acima,.da.legitimidade.de.se.separarem.ou.no.os.elementos.que.constituem.a.conduta.moral.

O. presente. trabalho. tem. o. fim. de. exibir. as. eventuais. virtudes.desta. ltima. posio:. ele. quer. investigar. at. onde. podemos. contribuir.para.o.esclarecimento.do.problema.em.pauta. fazendo.uma.reflexo.que.combine.a.preocupao.com.a.anlise.dos.conceitos.e.juzos.morais.com.os.resultados.de.uma.teoria.filopsicolgica.da.conduta.moral.(no.sentido.particular.indicado.acima)..A.ideia.seria.a.de.procurar.examinar.de.perto.a.estrutura.formada.por.expectativas,.exigncias,.sentimentos.e.atitudes.morais,. com. vistas. a. tentar. esclarecer. o. modo. como. a. liberdade. e. a.responsabilidade.se. relacionam.com.ela..A.este. tratamento.do.problema.pode-se.dar.o.nome.de.Enfoque dos Sentimentos Morais.

Este. enfoque. nasce,. em. boa. medida,. da. percepo. de. certas.deficincias.da.tradio.histrica.do.compatibilismo,.o.qual,.registre-se,..a.vertente.com.a.qual.temos.mais.afinidade..A.explicao.da.responsabilidade.moral. fornecida. pelo. compatibilismo. tradicional. est. centrada. na. noo.de.poltica,.no.sentido.de. linha.de.ao,.atitude,.regra..Nossas.prticas.de.louvor.e.condenao.morais.e.de.punio.e.recompensa.seriam.justificadas,.em.ltima.anlise,.pelos.alegados.resultados.socialmente.benficos.advindos.de. sua. aplicao,. e. elas. seriam. vistas. como. expedientes. manipulativos.utilizados.para. atuar. sobre,. alterando.ou.no,. o. comportamento. (futuro).das. pessoas.. A. concepo. moral. da. escola. utilitarista. se. harmoniza. bem.com.o.esprito.do.compatibilismo..E.uma.das.variantes.mais. recentes.do.utilitarismo,. chamada. Utilitarismo-do-Ato,. tem. a. respeito. de. nosso.problema.uma.posio.extrema,.a.qual,.por.isso.mesmo,.convm.mencionar.para.fins.ilustrativos:.louvar.e.culpar,.afirmam.os.advogados.dessa.posio,.no. . imputar. responsabilidades;. ,. antes,. agir. segundo. o. princpio. da.utilidade..Uma.objeo. importante.que. se. faz. a. esse. tipo.de. explicao..a.de.que.ele.no. faz. justia..maior.parte.daquilo.que.est.envolvido.em.nossas.reais.atitudes.de.punio.e.condenao.morais,.e.esta..certamente.uma. objeo. de. peso.. . suficiente. ter. presentes. as. atitudes. de. culpar. e.condenar,.com.toda.a.carga.emocional.que.lhes..essencial,.e.que.no.esto.inteiramente.sob.o.controle.do.agente,.para.ver.que.a.explicao.em.termos.de.poltica.deixa.a.desejar..Com.efeito,.essa.explicao.apresenta.o.ato.de.culpar.como.uma.(fria).deliberao.tomada.com.base.num.fim.pragmtico.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

.e.g.,.reformar.o.faltoso..e.isto..simplesmente.inexato..Ela.no..sequer.uma. explicao.parcialmente. correta. de. vrios. casos. familiares. da. atitude.de.culpar..Alm.disso,.ela.parece.implicar.que,.por.razes.de.racionalidade,.devemos.impedir-nos.de.reagir.de.modos.que.no.se.coadunem.bem.com.a.punio.do.tipo.poltica,.e.nessa.medida.ela.implicaria.uma.proposta.de.reforma.de.nossa.conduta.moral:.atos.de.punio.moral.no.enquadrados.no.tipo.poltica.de.atribuio.de.responsabilidade.seriam.encarados.como.inapropriados.e,.talvez,.irracionais..Portanto,.o.compatibilismo,.quando.ele.segue.esta.particular.linha.utilitarista,.desqualifica.muito.mais.do.que.explica.e.interpreta,.boa.parte.de.nossa.prtica.moral.efetiva..Na.verdade,.e.agindo.segundo.o.princpio.da.caridade.epistemolgica,..melhor.tomar.a.explicao.em.pauta.como.pretendendo.aplicar-se.apenas.a.um.certo.tipo.de.punio,.a.saber,.aquele.prescrito.pela.lei.ou.algum.outro.que.se.assemelhe.a.este.

Ao. que. parece,. o. fracasso. desse. tipo. de. explicao. utilitarista.tem. muito. a. ver. com. sua. restrio. unilateral. dirigida. para. o. conceito de. responsabilidade,. evidentemente. calcado. no. modelo. da. idia. de.responsabilidade. legal.. Portanto,. pode-se. talvez. dizer,. com. sua. falta. de.ateno.para.com.o.lado.mental.da.conduta.moral.

Outra.ilustrao..As.anlises.semnticas.que.alguns.compatibilistas.resolveram. fazer. da. frase. O. agente. poderia. ter. agido. de. outro. modo,.frase.essa.que.no.entender.do.incompatibilista.traria.a.chave.para.clarificar.o. conceito. de. liberdade,. tm. sido. julgadas. insatisfatrias,. e. com. razo..De. fato,. aqueles.filsofos.parafraseiam.do. seguinte.modo.a. frase. acima:.O. agente. teria/poderia. ter. agido. de. outro. modo,. se. ele. quisesse.. O.recurso.a.O.agente.poderia.agir.diferentemente..um.expediente.a.que.o.indeterminista/incompatibilista.recorre.para.tentar.captar.a.intuio.de.uma. condio. contra-causal. que. tem. sido. frequentemente. apresentada,.correta. ou. incorretamente,. como. sendo. requerida.pela.moralidade;. ora,.quando.ela. . re-escrita. .maneira. compatibilista,. ela.perde. sua. razo.de.ser.. Os. compatibilistas. contemporneos. agiriam. mais. avisadamente,. se.esquecessem.esse.O.agente.poderia.... e. tentassem.encontrar.um.outro.modo.de.formular.o.conceito.de.liberdade.que.seja.ao.mesmo.tempo.livre.de. implicaes. contra-causais. e. capaz. de. fornecer. uma. fundamentao.satisfatria.para.a.moralidade.

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E,.novamente,.o.apego.unilateral..anlise.de.Pode,.Poderia.e.afins.talvez.esteja.associado.com.a.negligncia.dos.componentes.psicolgicos.da.conduta.moral.

Estes.comentrios.sumrios.sobre.o.compatibilismo.moderno.e.contemporneo.visam.reiterar.algo.que,.de.um.modo.ou.de.outro,. tem.sido.percebido.e.dito,.a.saber,.que.muito.do.debate.sobre.liberdade.moral.e.determinismo.se.ressente.do.fato.de.ele.no.levar.em.conta.os.fatos.gerais.(sejam.eles.quais.forem,.exatamente),.que.compem.a.trama.das.exigncias,.sentimentos. e. atitudes. morais.. Um. enfoque. que. parece. ser. frutfero. e.promissor,.portanto,.seria.aquele.que.combinasse.o.estudo.semntico.dos.conceitos.e.juzos.morais.com.uma.teoria.psicofilosfica.dos.sentimentos.e.atitudes.morais.

3 o enfoque dos sentImentos moraIs

Nesta. seo..apresentada.uma.caracterizao.geral.do.enfoque.em.pauta,.e.o.objetivo.aqui.,.alm.de.exibir.pormenorizadamente.alguns.aspectos. centrais. desse. tipo. de. tratamento,. realar. os. problemas. que. se.colocam.para.um.estudioso.que.pretenda.fazer.avanar.a.investigao.do.problema.que.nos.ocupa.segundo.as.linhas.desse.tipo.de.enfoque.

O.adepto.do.Enfoque.dos.Sentimentos.Morais.quer.trazer.para.o.primeiro.plano.uma.certa.dualidade,. a. saber,. a.do. sentimento.moral. e.do.conceito.moral;.mais.precisamente:.a.dualidade.da.rede.de.expectativa/exigncia/sentimento/atitude.moral..por.exemplo,.a.exigncia.de.respeito,.o. sentimento. de. indignao,. a. atitude. de. condenao. . e. do. conceito.moral..por.exemplo,.o.de.dever,.de.liberdade,.de.justia,.de.merecimento,.de.punio..Uma.vantagem.que.pode.advir.desse.Enfoque..que.ele.abre.a.possibilidade.de.se.estudar.em.profundidade.e.com.cuidado.a.relao.entre.esses.dois.plos.e.de.se.iluminar.a.extenso.em.que.o.fundamento.das.crenas.e.da.vida.morais..ameaado,.se..que.ele.o.,.pela.hiptese.do.determinismo..Em.particular,. se. se.pudesse. estabelecer.que.os. sentimentos.morais,. tais.como. os. conhecemos,. independem. de. qualquer. crena. (cognitiva). na.vigncia.de.estados.de.coisas.contra-causais,.ento,.obviamente,.a.rejeio.desta.crena,.e.portanto.a.afirmao.do.determinismo,.no.conduziro..dissoluo.ou.ao.abandono.daqueles.sentimentos.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

Na. realidade,. algo. mais. forte. pode. ser. alegado. em. favor. desse.Enfoque.. quando. se. inicia. a. investigao. do. problema. da. liberdade,.responsabilidade.e.determinismo,.no.se.justifica.tomar-se.como.assente.que.se.pode.tratar.esse.problema.em.relao.a.um,.ou.alguns,.dos.componentes.da.conduta.moral..no. sentido.em.que.esta. expresso.est. sendo.usada.e. que. foi. explicado. na. seo. 2. . com. a. excluso. dos. demais.. Podemos.mais.tarde,..claro,.vir.a.descobrir.que.tal.tratamento.separado.pode.ser.feito.sem.distorcer.a.realidade.que.estamos.estudando..Mas.no.se.justifica.que.comecemos,.imprudente.e.acriticamente,.com.esta.assuno,.e.isso..feito.frequentemente.em.discusses.que.se.restringem.unilateralmente.ao.estudo.do.discurso moral..

O. discurso. moral. . com. asseres. tais. como. As. pessoas. so.responsveis.pelo.bem.e.pelo.mal.que.fazem,.Elas.so.dotadas.de.livre-arbtrio,...justo.puni-las.ou.recompens-las,.Elas.merecem.uma.coisa.ou.outra,.e.assim.por.diante..parece.bastante. ligado..experincia.dos.sentimentos.morais.e..expresso.deles..O.entendimento.de.que.algum.. moralmente. responsvel. por. isso. ou. aquilo. normalmente. ocorre. em.associao.com.atitudes.de.condenar.ou.de.aprovar..Desse.modo,.parece.visvel.que.h.algo.de.errado.na. idia.de,.nas.discusses. sobre. liberdade.e. determinismo,. iniciar. unilateralmente. com. o. estudo. do. conceito. de.responsabilidade..De.fato,.pode.ser.que,.ao.se.destacar.o.componente.da.responsabilidade. da. configurao. de. elementos. e. traos. mais. complexa.na.qual. aquele. componente.normalmente. aparece,. a. saber,. da. teia. toda.de. sentimentos. e. atitudes. morais,. acabe-se. por. desfigurar. a. ideia. de.responsabilidade..A.ideia.de.ser-responsvel-por-algo.est.muito.presente.em.atos.de.exprimir.sentimentos.morais,.e,.na.tentativa.de.compreender.aquela.ideia,.no..de.bom.alvitre.abstra-la.da.realidade.mais.complexa.da.qual.ela.faz.parte..De.fato,.pode.muito.bem.ser.que.essa.ideia.s.seja.compreensvel.dentro.dessa.realidade.mais.complexa.

Outra.considerao..A.manifestao.de.sentimentos,.por.exemplo,.de.ressentimento.ou.de.indignao.,.ela.prpria,.uma.parte.essencial.do.ato.de.comunicar.com.sucesso.para.o.ofensor.a.realidade.ou.gravidade.da.ofensa.que.ele.cometeu..E,.se.isso..verdade,.ento.segue-se.que.mesmo.a. compreenso. poltica. da. punio,. na. medida. em. que. ela. pretende.abranger.mais.do.que.meros.casos.de.punio.estritamente.legal,.no.pode.

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dispensar.o.recurso.a.sentimentos,.j.que.sua.eficcia.dependeria.do.fato.de.ela.ser,.numa.certa.medida,.uma.reao.(genuinamente).emocional..A.emoo..parte.da.realidade.do.culpar,.e.desse.modo.ela..parte,.digamos.assim,.do.significado.de.culpar..Em.particular,.a.rea.da.educao.moral.das. crianas,. por. outro. lado,. . um. outro. terreno. onde,. claramente,. a.manifestao.e.a.interao.dos.sentimentos.morais..muito.necessria;.com.efeito,.no.parece.possvel,.em.particular,.ensinar.as.crianas.o.significado.das.palavras.morais,.tais.como.ns.entendemos,.na.ausncia.de.sentimentos.e.reaes.apropriados,.j.que.estes.ltimos.entram.na.prpria.compreenso.do.significado.delas.

Uma.terceira.considerao..quase.ningum,.ou.ningum.mesmo,.estaria. preparado. para. negar. o. carter. apropriado. dos. sentimentos. e.reaes.morais.enquanto.tais;.mesmo.deterministas.professos.no.parecem.estar.inclinados.a.fazer.isso,.e,.na.verdade,.mesmo.os.cticos.morais,.do.tipo.de.A..J..Ayer.(1982).em.Free-Will.and.rationality,.quando.nutrem.reservas. a. respeito. da. racionalidade. dos. sentimentos. morais,. o. fazem.relutantemente..Assim,.h.a.respeito.dessa.rea.uma.concordncia.muito.mais. ampla. (ainda.que,. em.certa.medida,. implcita).do.que. aquela.que.eventualmente.possa.existir.a.respeito.do.conceito.de. liberdade.moral.ou.de.responsabilidade..Alm.do.mais,.h.que.se.considerar.a.universalidade.dos.sentimentos.e.reaes.morais,.a.qual.contrasta.com.a.particularidade.de.diferentes.interpretaes.conflitantes.deles.e.da.responsabilidade.moral..Portanto,.o.status.dos.sentimentos.e.atitudes.morais.enquanto.tais..menos.problemtico.do.que.o.dos.diferentes. conceitos. rivais.de. liberdade. e.de.responsabilidade.morais,.e.esta..mais.uma.razo.para.se.recorrer.a.eles.no.estudo.de.nosso.problema.e,.mais.do.que.isso,.para.se.reservar.a.eles.um.lugar.de.destaque.nesse.estudo..Pelo.fato.de.estarem.menos.atingidos.por.incertezas.e.dvidas.do.que.os.conceitos.particulares.de.liberdade.moral,.eles. constituem. um. terreno. mais. seguro. no. qual. se. apoiar. para. tentar.discernir.aquilo.que.est.envolvido.nessa.subrea.da.moralidade.que.tem.a.ver.diretamente.com.nosso.problema...luz.do.que.foi.dito.neste.e.nos.dois.pargrafos.precedentes,.conclui-se.que,.se.existe.alguma.plausibilidade.prima facie favorecendo.um.dos.enfoques..isto.,.o.puramente.analtico.e.aquele.que.combina.a.anlise.conceitual.com.o.estudo.da.estrutura.mental/

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

comportamental.de.exigncia/expectativa/sentimento/atitude.moral..ela.est.certamente.do.lado.deste.ltimo.

Uma.ideia.central.do.presente.tratamento..a.de.que.a.estrutura.em.questo..a.realidade.bsica.que.devemos.primeiro.estudar..Dentro.da.rea. extralegal. da. aprovao. e. desaprovao. morais,. a. anlise. filosfico-conceitual.do.discurso.moral.viria.em.segundo.lugar;.as.atitudes,.verbais.e.no-verbais,.so.aquilo.que.importa.inicialmente..Os.atos.individuais.e.particulares.de.culpar,.de.condenar,.de.exprimir.raiva,.gratido,.aprovao,.etc.. so. a. realidade.primeira. com.a.qual. comear..De. fato,. eles. so.um.objeto. mais. seguro. para. o. incio. da. investigao,. porque. eles. ocorrem.diante.de.nossos.olhos,.nas.relaes.sociais.ou.interpessoais.do.cotidiano... de. se. supor. que. os. problemas. a. serem. levantados. na. controvrsia. do.determinismo. e. do. livre-arbtrio. sero. levantados. simplesmente. pela.existncia.desses.atos.individuais.de.condenar,.de.punir,.de.louvar..O.que.temos.que.fazer..considerar.esses.atos.e.nos.perguntar,.ao.final,.que.espcie.de.liberdade.ou.de.responsabilidade.eles.requerem.

Noutras.palavras,.o.que.temos.que.fazer..refletir.sobre.o.lugar.dos.conceitos.de.liberdade.e.de.responsabilidade.na.teia.dos.sentimentos.e.atitudes..Isso.inclui,.entre.outras.coisas,.tentar.relacionar.a.liberdade.como.o.oposto.da.coero..a.qual..vista.por.todos.como.uma.condio.necessria.da.responsabilidade..com.a.rede.dos.sentimentos.morais..Se.certas.noes.de. liberdade. e. de. responsabilidade. esto. essencialmente. envolvidas. em.atitudes.de.exprimir.sentimentos.morais,.ento..certo.que.uma.explicao.destas.ltimas.dever.ser.capaz.de.ajudar.a.clarificar.a.natureza.e.o.lugar.das.primeiras..A.ideia,.portanto,..a.de.refletir.sobre.a.semntica.do.discurso.da.culpa,.da.punio,.da.liberdade,..que.so.o.objeto.da.filosofia.da.liberdade.e.do.determinismo..com.a.ajuda.de.uma.teoria,.em.boa.parte.psicolgica,.dos.sentimentos.e.atitudes.morais.

Este.estudo.dos.sentimentos.e.atitudes.morais.se.divide.em.duas.grandes.partes..Uma.delas. se. situa.nas.reas.da.Filosofia.da.Mente.e.da.Ao,.e.da.Psicologia;.e.a.outra.faz.parte.da.tica..Na.primeira.trata-se.de.investigar,.entre.outras.coisas,.os.porqus.fatuais.dos.sentimentos.e.reaes;.perguntar-nos-emos,.por.exemplo,. se.as.ocorrncias.efetivas.de.exprimir.e. de. experimentar. esses. sentimentos. esto. correlacionadas. com. crenas.conflitantes.com.o.princpio.da.causalidade..O.contedo.normativo.dessas.

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atitudes..isto.,.o.fato.de.eles.estarem.comprometidas.com.a.aceitao.e.vigncia.de.normas.(morais)...ele.prprio.parte.do.objeto.dessa.filosofia.e.psicologia..Por.outro.lado,.o.estudo..tambm.de.natureza.tica,.porque.se.est.interessado.em.buscar.uma.justificao.prtica.das.atitudes.morais.e,. tambm,.como.j. indicado,.uma. justificao.mais.estritamente.moral.em.termos.da.justia do.ato.culpar,.de.condenar,.de.punir..Visto.do.ngulo.o.mais.amplo.possvel,.o.empreendimento.pode.ser.descrito.do.seguinte.modo:. tentar. verificar. em. que. medida. podemos. . se. . que. podemos. .produzir. um. entendimento. e. uma. justificao. das. atitudes. morais,. e.portanto. das. prticas. punitivas. associadas. com. elas,. sem. apelar. para. a.negao.da.causalidade.universal.

Com. relao. . rea. dos. problemas. fatuais. referida. acima,. a.questo.central.mais.geral.,..claro:.quais.so.as.crenas.factuais.que.esto.relevantemente.associadas.com.a.teia.de.exigncias,.sentimentos.e.reaes.morais?.A.resposta.que,.se.correta,.mostraria.que.o.incompatibilista.est.com.a.razo,.,.obviamente:.essas.exigncias.e.a.propenso.humana.para.as.atitudes.esto.atadas..crena.de.que.ao.do.agente..uma.instncia.de.ao.livre.contra-causal..J.a.soluo.compatibilista.tenderia.a.mostrar.que.as.razes.explicativas.e.justificativas.das.exigncias.e.das.atitudes.so.tais.que.nelas.no.est.pressuposta.a.prevalncia.de.um.estado.de.coisas.contra-causal;.ou,.o.que..a.mesma.coisa,.que.a.estrutura.em.questo.no.est.sujeita.a.ser.invalidada.pela.verdade.da.hiptese.do.determinismo.

H. dois. grupos. de. questes. fatuais. que. podem. ser. colocadas.a. respeito. das. atitudes. de. exprimir. gratido,. ressentimento. e. emoes.correlatas..Considerem-se.as.seguintes.questes:.por.que.as.pessoas.esto.de.fato.to.sujeitas.a.sentir.essas.emoes,.e.to.inclinadas.a.exprimi-las.nas.atitudes.correspondentes?.Por.que.estas.ltimas.tm.as.consequncias.teis.que.frequentemente.elas.tm?.Onde..que.reside.a.eficcia.delas?.Por.que.a.capacidade.delas.de.produzir.consequncias.teis.depende.de.fatos.que.envolvem.coero.e.no-coero?.Estas.questes.formam.um.primeiro.grupo,.o.qual.pode.ser.estudado.sem.referncia.ao.problema.do.livre-arbtrio..O.outro.grupo.inclui.as.questes.que.dizem.respeito..relao.fatual.entre.as.atitudes.e.a.hiptese.da.verdade.do.determinismo;.este.grupo.se.desdobra.em.dois.sub-grupos:.o.dos.porqus.de.ns.manifestarmos.as.atitudes.nos.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

muitos.casos.em.que.o.fazemos,.e.o.dos.porqus.de.suspendermos.essas.atitudes.em.outros.casos.

As.pessoas.reagem.de.modos.diferentes.a.situaes.semelhantes:.algumas,. num. extremo,. so. muito. rigorosas. em. suas. atitudes. de. culpar.e. condenar,. enquanto. que. outras,. no. extremo. oposto,. tendem. mais. ou.menos. sistematicamente. a.desculpar. as.pessoas.pelo.mal. feito..De.onde.vm.essas.diferenas. e,. em.particular,.quais. so.as. condies.ou.crenas.com.as.quais.elas.esto.significativamente.vinculadas?.O.fato.de.as.pessoas.reagirem.diferentemente.,.por.si.s,.ao.que.parece,.relevante.para.o.estudo.dos.porqus.fatuais.

Com.relao.. rea.dos.problemas. ticos,. a.questo.mais.geral.pode.ser.enunciada.nos.seguintes.termos:.dado.que.ns.experimentamos,.ou. temos. a. disposio. para. experimentar,. os. sentimentos. morais,.por. que. deveramos. continuar. a. acolh-los. e. a. manifestar. as. atitudes.correspondentes,.as.quais.frequentemente.infligem.sofrimento.s.pessoas,.em.vez.de.fazer.algo.para.deixar.de.t-las?

Concluindo,.o.problema.todo.da.Teoria.(filosfico-psicolgica).das.Atitudes.Morais.pode,.para.os.fins.que.nos.interessam,.ser.resumido.nas. perguntas:. o. que,. em. ltima. anlise,. gera. essas. atitudes?. E. o. que.. gerado. por. elas?. Por. sua. vez,. o. problema. todo. da. tica. das. Atitudes.Morais. :. onde. reside. a. justia. de. aplicarem. as. pessoas. umas. s. outras.as.atitudes.de.punio.e.as.de. louvor?.As. respostas.a.essas.perguntas,. se.elaboradas.e.desenvolvidas.em.detalhe,.devem.dar. lugar.a.uma.doutrina.bastante.abrangente.das.atitudes.morais,.e.ela.ser.construda.com.o.fim.de.se.investigar.a.relao.entre.a.estrutura.dessas.atitudes.e.a.hiptese.do.determinismo..A.maioria.das.questes.a.serem.levantadas.para.a.construo.daquela.teoria.dever.ser.orientada.por.aquele.fim.

referncIasAYER,. Alfred. J.. Free. will. and. rationality.. In:. VAN. STRATEN,. Zak.. Philosophical Arguments: essays presented to Peter Frederick Strawson. Oxford: Oxford.University.Press,.1982.EDWARDS,.Paul..Hard.and.soft.determinism..In:.HOOK,.Sydney..Determinism and freedom in the age of modern science. Londres:.Collier-Mac.Millan,.1958.

Gonzalez,.M..E..q.;.Broens,.M..C.;.Martins,.C..Ap.(Org.)

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HOOK,.Sydney.(Org.)..Determinism and freedom in the age of modern science..Londres:.Collier-Mac.Millan,.1958..NOWELL-SMITH,.P..H..Ethics..Oxford:.Basil.Blackwell,.1957..SCHLICK,. Moritz.. Problems of ethics.. Traduo. D.. Rymin.. Nova. York:. Dover.Publications..1939.STRAWSON,. Peter. Frederick.. Freedom and Resentment and other Essays.. Londres:.Methuen..1970.VAN. STRATEN,. Zak.. Philosophical Arguments:. essays. presented. to. Peter. Frederick.Strawson..Oxford:.Oxford.University.Press..1982.

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inforMao E ao Moral no contExto das tEcnoloGias dE coMunicao1

Rafael Capurro

Introduo

O.ttulo.deste.trabalho.se.refere.a.uma.relao.aparentemente.evidente.entre.informao.e.ao.moral,.entendendo-se.por.esta.ltima.uma.ao.fundamentada.e,.por.isso,.responsvel..Uma.ao.no.fundamentada,.isto. ,. no. informada. ou. mal. informada,. . uma. ao. irresponsvel. e,.portanto,. imoral.. Isso. significa,. ento,. que. em. um. mundo. no. qual. a.informao..extremamente.copiosa.graas.s.tecnologias.da.comunicao.no. pode. haver,. em. princpio,. uma. ao. irresponsvel. a. no. ser. que. o.agente.intencionalmente.se.recuse.a.ser.informado?.Todo.agente.capaz.de.refletir. sobre. as. consequncias. de. seus. atos,. como. . o. caso. dos. agentes.humanos,.tem.a.responsabilidade.moral.de.estar.bem.informado.

1.Traduo.de.Mariana.Claudia.Broens

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As.tecnologias.da.comunicao.so.o.auge.do.sonho.do.iluminismo.que. concebia. a. ao. moral. fundamentada. na. autonomia. informada. do.sujeito,. da. sua. luta. contra. a. censura,. tanto. poltica. quanto. religiosa,. e.sua. ambio. de. espalhar. a. memria. do. saber. humano. depositada. em.bibliotecas.e.enciclopdias.a.todos.os.cidados,.para.alm.das.diferenas.econmicas.ou.sociais.

A.rede.digital.que.denominamos.Internet.torna.possvel.hoje.o.acesso. universal. ao. saber,. superando,. alm. disso,. os. condicionamentos.espao-temporais. do. livro. e. as. instituies. nele. baseadas.. Mais. ainda,. a.rede. digital. permite. no. apenas. o. acesso. ao. saber. exteriorizado,. mas. .tambm.uma.rede.de.comunicao.interativa.com.valor.agregado.ao.mero.processo.informativo.

A. ao. moralmente. responsvel. pode. basear-se,. ento,. no.apenas. na. informao. de. um. sujeito. autnomo,. mas. tambm. na.possibilidade. de. comunicar-se. com. outros. agentes.. Entre. eles. esto.includos. frequentemente. os. produtores. daquela. informao. que. o.agente.toma.como.fundamento.de.sua.ao.a.fim.de.comprovar.se.o(s).outro(s).tambm.compartilha(m).sua.interpretao.da.informao.e.de.sua.relevncia.e.aplicao.ao.caso.em.questo.

As.tecnologias.da.comunicao.possibilitam.um.dilogo.crtico.que.permite.ao.sujeito.moral.no.apenas.informar-se,.mas.tambm.refletir.com.outros.sujeitos..Isto.se.o.referido.agente,.individual.ou.coletivo,.estiver.aberto. . crtica. e. disposto. a. modificar. sua. opinio. caso. os. argumentos.alheios.lhe.paream.mais.convincentes.do.que.os.prprios.

Este.dilogo.pode.tanto.referir-se..prpria. informao.quanto.aos. preconceitos. do. agente. que. frequentemente. podem. ser. percebidos.como.tais.a.partir.de.uma.perspectiva.externa..Se.este.raciocnio..correto,.podemos.acreditar.que.vivemos.ou,.melhor.dizendo,.que.deveramos.viver.em.um.mundo.no.qual.a.ao.moralmente.responsvel. tem.atualmente.timas.condies.de.se.concretizar.

No.entanto,.esta.viso.esquemtica.da.relao.entre.informao,.ao.moral.e. tecnologias.da.comunicao.se.confronta.com.um.mundo.complexo. em. relao. s. prprias. tecnologias. da. comunicao,. sua.distribuio.e.acesso.desiguais,.que.pode.ser.designada.brecha.digital,.e.em.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

relao.ao.problema.da.seleo.da.informao.mediatizada.por.ferramentas.de.busca.e..infinidade.de.fontes.acessveis.na.rede.digital.com.diferentes.graus.de.credibilidade.e.seriedade..Mas.o.problema..de.fundo..

As.tecnologias.da.comunicao,.como.a.tecnologia.em.geral,.no.so. neutras,. isto. ,. no. so. um. mero. instrumento. de. que. se. serve. um.sujeito,.individual.ou.coletivo,.para.agir.no.mundo,.mas.elas.transformam.a.natureza.mesma.da.relao.entre.o.sujeito.e.o.mundo.e,.por.conseguinte,.a.prpria.auto-compreenso.do.agente.moral.humano..Assim,.as.perguntas.que. se. colocam. so:. em. que. consiste. a. referida. transformao. no. caso.das. tecnologias. da. comunicao?. que. consequncias. traz. a. referida.transformao.para.o.agir.moral.humano?

Na.primeira.parte.deste.ensaio.quero.mostrar,.a.ttulo.de.exemplo,.como. e. com. quais. implicaes. uma. anlise. atual. da. filosofia. poltica. e.social.(como..o.caso.da.recente.publicao.O direito da liberdade.de.Axel.Honneth.(2011),.discpulo.de.Jrgen.Habermas,.acredita.poder.abrir.mo.quase.completamente.das.novas.tecnologias.da.comunicao,.perdendo.de.vista.a. transformao.da.autocompreenso.humana,.em.geral,.e.da.ao.moral,.em.especial,.que.ditas.tecnologias.provocam.

Na. segunda. parte,. mostrarei. brevemente. em. que. consiste,. em.minha. opinio,. a. dita. transformao. do. agir. humano. e. qual. . a. tarefa.de.uma.reflexo.tica.da.informao.quando.pensamos.hoje.sobre.o.agir.humano.no.horizonte.da.comunicao.digital.

o dIreIto lIberdade segundo axel HonnetH

A.antropologia.filosfica.busca.uma.resposta..pergunta.o.que..o.ser.humano?,.na.qual.se.resumem,.segundo.Kant,.as.perguntas.O.que.posso.conhecer?,.O.que.devo.fazer?.e.O.que.posso.esperar?..A.tais.perguntas.oferecem.respostas,.respectivamente,.a.metafsica,.a.moral.e.a. religio.(KANT,.1975,.A.25,.p..448)..A.filosofia.kantiana.distingue.claramente. entre. o. ser. humano. pensado. como. pessoa. com. autonomia.moral.e. todos.os.demais.entes.mundanos..A.pergunta.O.que..um.ser.humano?.refere-se,.embora.implicitamente,.no.a.um.que,.mas.a.um.quem..Chamo.a.diferena.entre.que.e.quem.uma.diferena.moral..A.ao.moral..aquela.que.se.estabelece.com.base.num.mtuo.reconhecimento.

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entre.pessoas.que.compartilham.um.mundo.comum..Kant.distingue.entre.o.ser.humano.como.ser.natural.(homo phaenomenon).e.o.ser.moral.(homo noumenon), o.qual..membro.do.reino.dos.fins (Reich.der.Zwecke).ao.qual.pertencem.outros.entes.noumenais.(KANT.1977,.A.65,.p..550).

Para.Kant,.o.conceito.de.sujeito.como.eu.tem,.portanto,.um.duplo.significado:.de.um.lado,.o.eu.faz.parte.do.mundo.emprico.e,.de.outro,. . membro. do. mundo. noumenal,. sem. que. este. ltimo,. o. sujeito.moral. propriamente.dito,. possa. ser. conhecido.objetivamente.pela. razo.terica.

O.dualismo.kantiano.foi.questionado.pelo.idealismo.alemo.e,.em.particular,.por.Hegel,.quem.descreve.em.a.Fenomenologia do esprito,.a.dialtica.entre.identidade.e.diferena.no.processo.de.gerao.do.mundo.social.moral.ou.da.eticidade.(Sittlichkeit).com.suas.instituies.(famlia,.sociedade. civil,. Estado). que. se. forma. na. luta. (Kampf). pelo. mtuo.reconhecimento. das. autoconscincias. do. amo. e. do. escravo. (HEGEL,.1975)..Esta.tradio,.transformada.por.Karl.Marx,..retomada.na.teoria.crtica. da. Escola. de. Frankfurt. por. pensadores. como. Max. Horkheimer,.Theodor. W.. Adorno. e. Jrgen. Habermas. assim. como. por. seu. aluno. e.sucessor,.Axel.Honneth.

Este. ltimo. apresenta. em. sua. obra. Luta pelo reconhecimento. o.nascimento.e.fundamento.do.estado.de.direito.como.um.processo.no.qual.os.sujeitos.autnomos.se.reconhecem.mutuamente.como.livres.e.capazes.de. atribuir-se. leis. universais. ou. universalizveis. s. quais. se. submetem.livremente,. sem.que. isso. elimine. o.problema.das. diferentes. identidades.que.do.lugar..referida.luta.(HONNETH,.1994).

Em. obra. recentemente. lanada. que. tem. por. ttulo. O direito da liberdade.. Compendio de uma eticidade democrtica,. Honneth. indica.que. a. eticidade. (Sittlichkeit). est. alicerada. em. valores. fundamentais.entre.os.quais.a.liberdade.no.sentido.da.autonomia.individual..o.mais.importante.na.sociedade.moderna.(HONNETH,.2011,.p..35,.traduo.nossa)..A.ideia.de.autonomia.ou.autodeterminao..o.ncleo.articulador.da.relao.entre.a.justia.social.e.os.interesses.individuais:.no.h.justia.social.se.no.h.respeito.universal..autonomia.do.sujeito,.a.qual,.podemos.concluir,..o.cerne.de.sua.identidade.pessoal.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

Honneth.retoma.o.conceito.kantiano.de.autonomia.situando-o.no.marco.da.intersubjetividade.como.o.fizeram.antes.dele.Karl-Otto.Apel.e.Jrgen.Habermas.com.os.conceitos.de.comunidade.de.comunicao.e. ao. comunicativa.. Para. Honneth,. tanto. o. eu. quanto. o. ns.fundamentam. sua. autodeterminao. na. realidade. social. das. relaes.institucionais.(HONNETH,.2011,.p..70,.traduo.nossa).

Em. outras. palavras,. a. identidade. do. sujeito. no. . algo. dado,.mas. um. produto. de. processos. sociais. informacionais. em. que. se. insere.o. que. Honneth. chama. liberdade. social. (soziale. Freiheit).. Segundo.Honneth,.esta.liberdade.social.vai.alm.das.ideias.liberais.e.individualistas.de. autorrealizao. subjetiva. que. se. expressam. na. liberdade. reflexiva..Esta.ltima.pensa.a.autonomia.sem.nenhum.tipo.de.dependncia.frente..realidade.social.que.a.possibilita,.enquanto.que,.para.Honneth,.na.esteira.de.Hegel,.a.autonomia.do.sujeito.no..pensvel.sem.uma.relao.aberta.a.uma.pluralidade.de.sujeitos.

A.linguagem.,.tanto.para.Hegel.quanto.para.Honneth,.o.meio.que.permite.aos.indivduos.expressar-se.buscando.um.mtuo.reconhecimento..Apenas.agentes.capazes.de.expressar.e.respeitar.mutuamente.seus.desejos,.necessidades.e.objetivos.podem.se.associar.livremente.em.instituies.com.regras. comuns.de. comportamento. (normierter.Verhaltenspraktiken),.criando.assim.uma.eticidade.(HONNETH,.2011,.p..86,.traduo.nossa)..

A. ao. moral. assim. entendida. est. essencialmente. relacionada.com. um. processo. informacional. de. compreenso. e. regulao. livre. e.mtua..Com.esta. tese,.Honneth,. seguindo.Hegel. e.Marx,.defende.uma.verso.forte.da.essncia.da.liberdade,.segundo.a.qual.no.basta.afirmar.que.a.liberdade.tem.um.fundamento.social,.como.prope.a.verso.fraca,.mas.que.o.requisito.ontolgico.forte.implica.o.confronto.de.um.sujeito.autnomo.com.a.realidade.objetiva.de.uma.pluralidade.de.co-sujeitos,.tambm.autnomos,.com.seus.desejos.e.interesses.prprios.(HONNETH,.2011,.p..91,.traduo.nossa).

As. normas. e. instituies. sociais. esto,. portanto,. precedidas. por.relaes. de. autorreconhecimento. mtuo.. O. resultado. no. . um. sistema.social.absoluto.e.definitivo,.mas.um.sistema.baseado.em.prticas.e.hbitos.ou. costumes. relativamente. estveis. (HONNETH,.2011,. p.. 92,. traduo.

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nossa)..Honneth.coloca,.assim,.a.base.do.que.eu.denomino.tica.intercultural.da. informao,. isto. ,. um. dilogo. intercultural. sobre. normas,. valores. e.costumes.que.possam.reger.de. forma.mais.ou.menos.estvel.os.processos.comunicacionais.de.uma.sociedade,.assim.como.as.relaes.entre.indivduos,.sociedades,. estados. e. culturas. na. rede. digital. global. (CAPURRO,. 2008)..No. . por. acaso. que,. no. momento. em. que. surge. uma. nova. tecnologia.comunicacional,.os.valores.e.costumes.locais.vigentes.entram.em.crise.cedo.ou.tarde,.dando.lugar.ao.referido.discurso.tico.global..Honneth.descreve.as.formas.de.liberdade.social,.a.saber,.o.ns.das.relaes.pessoais.(amizade,.relaes.ntimas,.famlias),.o.ns.da.atividade.econmica.(mercado,.esfera.de.consumo,.mercado.de.trabalho).e.o.ns.do.processo.democrtico.da.formao.de.uma.vontade.comum.(a.esfera.pblica.democrtica,.o.estado.de.direito.democrtico,.a.cultura.poltica).

Embora.Honneth.seja.consciente.da.importncia.da.tecnologia.dos.meios.e.de.espaos.de.comunicao.poltica.para.o.desenvolvimento.da. publicidade. poltica. (politischen. Kommunikationsrume),. sendo.este.um.processo.que.se.desencadeia.especialmente.a.partir.da.Revoluo.Francesa. (HONNETH,. 2011,. p.. 487,. traduo. nossa),. . preciso.notar. que,. durante. sua. minuciosa. anlise. da. realidade. social. e. de. seus.condicionamentos. institucionais. e. normativos,. Honneth. no. faz. quase.nenhuma.referncia.s.mudanas.produzidas.pelas.tecnologias.digitais.de.comunicao..Em.outras.palavras,.para.Honneth.as.referidas.tecnologias.no. realizam. uma. mudana. fundamental. na. autocompreenso. humana.e.na.ao.moral,.em.especial.no.que.diz.respeito..liberdade.social.e..publicidade.democrtica,.pelo.menos.no.na.medida.em.que.o.fizeram.a.imprensa.e.os.meios.de.comunicao.de.massa.do.sculo.XX,.especialmente.o. rdio. e. a. televiso.. Isto.fica. claro.no. apenas.nas.poucas.pginas. que.Honneth.dedica..Internet.no.fim.de.sua.obra,.mas.tambm.na.quase.total.ausncia. de. problematizao. do. papel. da. Internet. nas. relaes. pessoais.(amizade,.relaes. ntimas,. famlias),.no.ns.da.atividade.econmica.e.at.certo.ponto.no.ns.do.processo.democrtico.

Apenas.no.final.do.livro.Honneth.se.refere..Internet.como.um.instrumento.para.a.construo.de.grupos.de.comunicao.transnacionais.(transnationale.Kommunikationsgemeinschaften).(HONNETH,.2011,.p..565,.traduo.nossa),.longe,.portanto,.de.conceb-la.como.o.meio.onde.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

a.liberdade.social.se.expressa.de.forma.nova.em.todas.as.suas.dimenses.e.com.todas.as.ambiguidades.prprias.do.agir.comunicacional.humano..Honneth.(2011,.p..560-561,.traduo.nossa).escreve.que.a.internet:

[].permite.a.cada.indivduo,.em.sua.existncia.fsica.isolada.frente.ao. computador,. comunicar-se. instantaneamente. com. um. grupo. de.pessoas.em.todo.o.mundo,.cujo.nmero.est.limitado.apenas.por.sua.capacidade.de.elaborao.e.o.espao.de.sua.ateno.

Entendo. que. esta. . uma. viso. muito. parcial. da. comunicao.digital. como. . vivenciada. atualmente. pela. maior. parte. das. sociedades.contemporneas.. Justamente. o. que. no. ocorre. em. primeiro. lugar. so.indivduos.isolados.diante.de.um.computador.comunicando-se.com.um.grande.grupo.de.pessoas..Honneth.pensa.aqui.em.categorias.dos.meios.de.comunicao.de.massa.em.que.um.emissor.se.conecta.com.um.grande.grupo.de.pessoas..Curiosamente,. indica.o.autor.que.tanto.em.Hannah.Arendt.quanto.em.Jrgen.Habermas.se.pode.constatar.uma.quase.total.ausncia.dos.meios.de.comunicao.e.que,.quando.se.referem.a.eles,.trata-se.geralmente.de.uma.valorao.negativa.(HONNETH,.2011,.p..523,.traduo.nossa)..Para. ambos,. a. mudana. estrutural. da. publicidade. (Strukturwandel der ffentlichkeit. J..Habermas).que.os.meios.de. comunicao.de.massa.trazem.consigo.significa.um.processo.de.reprivatizao.do.espao.pblico.(Reprivatisierung. der. politischen. ffentlichkeit,. HONNETH,. 2011,.p.. 523,. traduo. nossa).. Se. Arendt. e. Habermas. so. filhos. do. livro,. a.socializao.de.Honneth.est.baseada.nos.meios.de.comunicao.de.massa,.indicando,.como.j.fazia.Habermas,.tendncias.que.tambm.ele.considera.como.negativas,.a. saber,.a.privatizao.da.produo.comunicacional.e.a.indstria. publicitria.. Paradoxalmente,. no. momento. em. que. Honneth.afirma.que.a.recepo.da.informao.atravs.dos.meios.de.comunicao.de.massa.no..suficiente.se.no.for.complementada.com.uma.participao.ativa. dos. cidados. no. processo. comunicacional. poltico,. ele. apresenta.uma. viso. parcial. e. negativa. da. internet. como. instrumento. poltico. no.qual,.afirma.Honneth,.existe.uma.quantidade.imensa.de.espaos.pblicos.digitais.de.muito.diversos.tipo.e.durabilidade,.com.limites.de.adeso.no.claramente.definidos,.em.sua.maioria.em.ingls,.sem.funes.de.controle,.com.membros.annimos..Em.suma,.a. Internet.oferece.um.mbito.para.

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opinies. individuais. apcrifas. e. antidemocrticas. e. para. movimentos.grupais.(fr.allerlei.apokryphe.und.antidemokratische.Einzelmeinungen.und.Sammelbewegungen).(HONNETH,.2011,.p..562,.traduo.nossa)..O. absentesmo. e. o. ceticismo. mediticos. que. Honneth. recrimina. em.Arendt.e.Habermas.reaparece,.assim,.em.seu.prprio.pensamento.frente.s.tecnologias.da.comunicao.digital..

.muito.difcil.acreditar.que.para.Honneth.a.internet.possa.ser.concebida.como.originando.uma.nova.mudana.estrutural.da.publicidade.democrtica.que.conduza.a.uma.nova.autocompreenso.da.ao.moral.dos.indivduos.e.de.suas. instituies..A.Internet.est.antes.relacionada,.para.Honneth,.com.processos.polticos.transnacionais.e.com.a.possibilidade.de.criar. espaos. pblicos. crticos. (Gegenffentlichkeit). frente. a. governos.no.democrticos.(HONNETH,.2011,.p..564,.traduo.nossa)..

No. caso. de. regimes. democrticos,. ele. acredita. que. as. tenses.centrfugas. deste. meio. provocam. um. deslocamento. do. intercmbio.democrtico.para. alm.dos. limites. do. estado.nacional. em. foros. e. redes.interativas.que.no.esto.limitadas.temporal.e.espacialmente,.tendo.como.resultado.um.desmembramento.da.esfera.pblica.e.das.energias.solidrias.necessrias.para.a.formao.de.uma.vontade.comum..Em.outras.palavras,.a.expanso.ilimitada.da.internet.teria.um.efeito.paradoxal.que.seria.o.de.destruir,. ou. pelo. menos. enfraquecer,. a. cultura. poltica. nas. democracias.maduras.[...].(HONNETH,.2011,.p..565,.traduo.nossa)..Mais.ainda,.a.rede.digital.poderia.provocar.um.enfrentamento.entre.um.espao.pblico.transnacional.e.os.processos.de.formao.de.objetivos.comuns.no.mbito.nacional.. Honneth. acredita. que. as. comunidades. de. elites. cosmopolitas.enfraqueceriam.ainda.mais.os.grupos.nacionais.marginalizados,.pois.essas.comunidades.teriam.mais.liberdade.social,.mas.tais.grupos.teriam.menos.acesso.a.informaes.e.temas.relevantes..

Esta.oposio,.assim.concebida.por.Honneth,.no..convincente..No.apenas.porque.a.internet.permite.que.os.grupos.marginalizados.tenham.acesso. a. informaes,.mas. tambm.porque. a. rede. lhes.permite. criar. suas.prprias. redes. de. interesses.. A. dimenso. da. comunicao. transnacional.de. modo. algum. implica. necessariamente. que. as. discusses. democrticas.nacionais. se. enfraqueam,. ao. contrrio,. como. mostram,. por. exemplo,. as.sinergias.dos.movimentos.polticos.recentes.no.mundo.rabe,.algo.que.o.autor.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

tambm.reconhece..Honneth.pensa.em.categorias.dos.meios.de.comunicao.de.massa. capazes.de. criar.uma.opinio.pblica.homognea. e. controlada,.baseada.nos.canais.pblicos.de. rdio.e. televiso,..qual.corresponde.uma.ao.democrtica. concebida.como.um.processo. limitado.e. controlado.de.formao.e.informao.da.opinio.pblica...difcil.compactuar.com.esta.viso. parcial. e. negativa. da. internet. se. se. pensa. nos. debates. em. torno. ao.tema.da.democracia.digital.ou..importncia.da.rede.digital,.por.exemplo,.no.campo.da.administrao.pblica.e.de.sua.relevncia.na.discusso.e.ao.pblica.nos.mbitos.local.e.nacional..Basta.pensar.no.acesso.mvel..rede.baseado. na. transformao. do. telefone. clssico. em. complexos. aparelhos.digitais.com.todo.tipo.de.aplicativos.sociais,.algo.que.contradiz.a.percepo.de.Honneth.de.indivduos.fisicamente.isolados.frente.ao.computador.

Os. debates. nacionais. tampouco. podem. ser. separados. dos.transnacionais.e.os.grupos.que.se.constituem,.por.exemplo,.no.Facebook.sob.a.rubrica.amizade,.tm.uma.inesperada.influncia.poltica.no.menor.que. a. dos. blogs.. Honneth. acredita,. assim. como. Habermas,. em. uma.comunidade.poltica.ideal.de.seres.racionais.que.discutem.argumentos.sem.presses.do.poder.e,.na.medida.do.possvel,.sem.intermediao.miditica.com.a.finalidade.de.alcanar.um.consenso.sobre.objetivos.e.valores.para.uma.ao.comum.no.marco.do.estado-nao.

Informao e ao moral na era dIgItal

Esta. viso.da. relao. entre. liberdade. e. sociedade. sofre. de.uma.percepo. limitada. da. realidade. e. possibilidades. que. a. Internet. oferece.atualmente.e.no.futuro.para.os.processos.polticos.e.a.vida.social.em.geral,.tanto.no.plano.nacional.quanto.no.internacional..Honneth.v.o.aspecto.comunicacional.como.um.fenmeno.essencialmente.unitrio.e.unificador.e.no.como.articulao.de.diversos.tipos.de.comunidades.e.comunicaes.mediatizadas.por.tecnologias.de.comunicao.digitais.interativas.com.foras.centrfugas.e.centrpetas..Honneth.se.interroga.sobre.o.direito..liberdade,.sendo.tambm.consciente.que.dito.direito..algo.relativamente.estvel.e.est.baseado.em.um.sistema.de.intenes.habituais.(HONNETH,.2011,.p..92,.traduo.nossa),.isto.,.em.uma.moral.ou.ethos da.qual.surgem.as.instituies.e.regras.que.criam.o.estado.de.direito.

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Mas.o.que.Honneth. aparentemente.no.percebe. . que. a. ideia.da.eticidade.democrtica,.e.com.ela.a.realidade.da.liberdade,.se.realiza.atualmente.no.horizonte.da.digitabilidade,.tanto.nos.casos.dos.processos.estritamente.polticos,.quanto.no.caso.de.outras.formas.de.vida.social,.como.as.relaes.pessoais.(amizade,.intimidade,.famlia).e.econmicas.(mercado,.consumo,.trabalho)..Se.o.espao.comunicacional..o.ncleo.da.democracia,.est.claro.que,.quando.ocorre.uma.transformao.comunicacional.como.a.que.vivemos.atualmente.com.os.meios.digitais.interativos,.estes.levam.a.uma.transformao.das.relaes.sociais.e.da.relao.entre.o.ser.humano.e.o.mundo,.isto.,.a.uma.nova.forma.de.ser-no-mundo.e,.em.particular,.de.ao.moral.no.sentido.da.responsabilidade.social,.que..o.fundamento.das.instituies.que.sustentam.a.vida.social.

O. paradigma. dos. meios. de. comunicao. de. massa. como.fundamento.da.vida.social.no.apenas.se.enfraqueceu.desde.a.implantao.da. Internet,. mas. tambm. foi. questionado. e,. embora. no. substitudo,.perdeu. o. lugar. que. ocupava. anteriormente. por. no. ser. interativo.. Os.esforos. dessas. mdias. para. se. mostrarem. interativas. so. uma. prova. das.transformaes.comunicacionais.que.vivemos.atualmente.

. paradoxal. que. um. paradigma. como. o. dos. meios. de.comunicao.de.massa.tenha.sido.pensado.como.algo.fundamental.para.o. processo. democrtico,. enquanto. que. a. rede. digital. interativa. traria.efeitos. antidemocrticos.. Com. certa. ironia,. poderamos. dizer. que. os.meios.de.comunicao.de.massa.so.catlicos,.enquanto.a.Internet.opera.uma. reforma. luterana. meditica. que. permite. aos. agentes,. individuais.ou. sociais,. interpretarem.por. si.mesmos.o.mundo.em.que.vivem.e.no.apenas.distriburem,.mas.tambm.partilharem.as.referidas.interpretaes.sem.passarem.por.um.processo.de.aprovao.centralizada.baseado.no.nihil obstat,.imprimi potest.e.imprimatur2.

A.partir.de.uma.viso.retrospectiva.da.referida.reforma.miditica.se.pode.constatar.que.em.sociedades.que.passaram.por.sistemas.centralizados.de.distribuio.de.mensagens.cresceu.um.forte.desejo.social.de.libertar-se.do.referido.paternalismo.informacional.e.comunicacional..No.ensaio.Misso

2.Literalmente:.nada.impede,.pode.ser.impresso.e.deixem-no.ser.impresso..Trata-se.de.expresses.latinas.utilizadas.pela.Igreja.Catlica.para.autorizar.a. impresso.de.obras.cujo.contedo.estivesse.em.conformidade.com.a.doutrina.catlica..Esta.prtica.pode.ser.considerada.uma.espcie.de.censura.prvia..(Nota.da.tradutora).

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

do Bibliotecrio,.Ortega.y.Gasset.indica.que.as.profisses.surgem.com.base.nas.necessidades.sociais,.as.quais.so.de.carter.histrico..O.Renascimento..a.poca.em.que,.segundo.Ortega.y.Gasset,.surge.uma.grande.necessidade.social.do.livro,.culminando.com.a.Revoluo.Francesa..Escreve.Ortega.y.Gasset.A.sociedade.democrtica..filha.do.livro,..o.triunfo.do.livro.escrito.pelo.homem.escritor.sobre.o.livro.revelado.por.Deus.e.sobre.o.livro.das.leis.ditadas.pela.autocracia..(Ortega.y.Gasset,.1976,.p..33;.Capurro.2000)..

Mutatis mutandis podemos.dizer.que.a.democracia.digital..filha.da.internet..Esta.ltima..o.triunfo.da.comunicao.digital.pelo.homem.comunicacional.sobre.as.mensagens.distribudas.hierarquicamente.de.uns.para.muitos.pelos.meios.de.comunicao.de.massa.

Lembremos.que.para.Kant.a.autonomia.do.sujeito.como.fonte.crtica. do. saber. est. baseada,. por. um. lado,. na. possibilidade. de. pensar.e. expressar-se. para. alm. dos. limites. impostos. por. um. cargo. oficial. ou.pblico..Isto..denominado.por.Kant,.na.obra.Resposta pergunta o que a Ilustrao?,.o.uso.privado.da.razo.em.oposio.ao.uso.pblico,.isto.,.o.uso.da.razo.alm.dos.limites.impostos.por.um.cargo.oficial.quando.pensamos.por.conta.prpria.(KANT,.1975a,.A.488,.p..57)..Assim,.o.uso.pblico. da. razo. . aquele. que. efetuamos. quando. agimos. como. agentes.autnomos. que. se. abrem. ao. universo. de. possveis. leitores. e. crticos. de.nosso.saber..O.sujeito.autnomo..para.Kant.um.sujeito.que.passa.suas.ideias.para.os.outros.sujeitos.e.o.faz.ao.mesmo.tempo.em.que..capaz.de.receber. as. ideias. dos. outros. sem. os. limites. impostos. por. um. cargo. que.privatizem.a.liberdade..Sua.autonomia..indissocivel.desta.heteronomia.ou.interdependncia.social.universal..Mas.para.que.este.livre.pensar.possa.ocorrer.no.basta.dizer.que.as.ideias.so.livres.e.que.cada.um.pode.pensar.o.que.quer..Este.idealismo.no.percebe.a.relao.entre.pensamento.e.meios.de. comunicao,. como.diz.Kant.muito.claramente,.no.opsculo.O que significa orientar-se no pensamento?,.quando.escreve:

Frequentemente. se. diz. que. o. poder. superior. nos. pode. privar. da.liberdade.de.falar.ou.de.escrever,.mas.no.da.liberdade.de.pensar..Mas.quanto. e. com. quanta. exatido. pensaramos. se. no. o. fizssemos. em.companhia. de. outros. a. quem. pudssemos. comunicar-lhes. nossos.pensamentos.e.eles.os.seus!.(KANT,.1975b,.A.325,.p..280).

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Por.isso.acrescenta.Kant.(ibidem,.traduo.nossa..Ver.Capurro,.2000a).que:

[...].quem.nos.priva.da. liberdade.de.comunicar.publicamente.nossos.pensamentos. aos. outros. nos. priva. tambm. da. liberdade. de. pensar,.sendo.esta.o.nico.tesouro.que.resta.em.meio.aos.cargos.pblicos.e.a.nica.que.pode.nos.proporcionar.um.conselho.frente.a.todos.os.males.dessa.situao..

Adaptando.esta.colocao.a.nossa.situao.atual,.significa.que.um.governo.ou.um.poder.pblico.que.impea.o.acesso.e.uso.livre.da.Internet..um.governo.ou.poder.que.nos.priva.da.liberdade.de.pensar.informando-nos.mutuamente.e,.portanto,.de.agir.moralmente.

A. ao. moral. . aquela. que. no. se. deixa. coagir. pelos. limites.impostos.por.cargos.pblicos,.mas.que.se.abre.desde.seu.foro.ntimo,.ou.privado,.a.um.dilogo.pblico.entre.os.seres. livres.que.se.sabem.falveis.enquanto. condicionados. basicamente. pelos. limites. da. razo. humana. e.no.por.censuras.que.os. impeam.de.assumir.a. responsabilidade.de. ser,.pensar.e.agir.com.responsabilidade.prpria..Este.ser.livre.a.que.me.referia.inicialmente. . visto. hoje. implicado. no. horizonte. da. digitabilidade. em.todos.os.nveis.da.vida.social.

A. interao. entre. sujeitos. autnomos. . o. ponto. central. da.luta. pelo. reconhecimento. descrita. por. Hegel. e. retomada. por. Honneth..Est.luta..de.vida.ou.morte.(Kampf.auf.Leben.und.Tod).porque.as.autoconscincias.aspiram.a.um.mtuo.reconhecimento.enquanto.tais,.isto.,.para.alm.de.todo.o.condicionamento.vital.concreto.(HEGEL,.1975,.p..149)..Aqui.se.manifesta.o.idealismo.hegeliano.que.imagina.autoconscincias.afastadas.do.mundo.fazendo.deste.um.mero.cenrio.da.passagem.e.retorno.a. si. mesmo. do. esprito. absoluto.. A. autoconscincia. assim. entendida. ,.em. termos. heideggerianos,. o. sentido. do. ser. para. Hegel.. Por. isso. . que.a. relao. entre. as. autoconscincias. . concebida. como. luta. (Kampf).para. alm. da. vida. biolgica. e. do. prprio. mundo..Tal. luta. . concebida.por.Hegel.como.uma.experincia.no.apenas.com.outra.autoconscincia,.mas.tambm.com.o.medo.da.morte,.senhora.absoluta.(die.Furcht.des.Todes,.des.absoluten.Herren).(HEGEL.1975,.p..153)..Sem.poder.iniciar.agora.uma.crtica.da.ontologia.hegeliana,.quero.indicar.que.a.concepo.

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Informao,.conhecimento.e.ao.tica

da.relao.entre.autoconscincias.como.uma.luta.de.vida.ou.morte. tem.um.sentido.forte.apenas.no.interior.da.referida.ontologia,.na.verdade.uma.meta-fsica.porque.pressupe.e.indica.no.esprito.absoluto.uma.dimenso.para.alm.da.morte..quando.Honneth.parte.da.autonomia.e.da.luta.pelo.reconhecimento,. ele.herda. tal.metafsica. sem.question-la..Alm.de.um.esquecimento. quase. total. da. tecnologia. da. comunicao. digital. em. sua.anlise. da. realidade. social,. Honneth. esquece. a. pergunta. sobre. o. ser. no.sentido.heideggeriano..As.autoconscincias.no.existem.fora.de.um.mundo.originariamente.compartilhado..A.autoconscincia.que.se.pensa.autnoma.sustentada.implicitamente.pelo.esprito.absoluto.o.faz.sempre.desde.uma.heteronomia.ontolgica.na.qual.desempenha.primariamente.seu.ser.prprio.como.algum.que.existe-no-mundo..O.mtuo.reconhecimento.deste.ser..um.jogo.de.liberdades.finitas.e,.portanto,.heternomas,.que.dizem.respeito.no.a.um.esprito.absoluto,.mas.a.seu.ser-no-mundo.compartilhado.em.um.processo.de.possibilidades.de. ser..Por. isso..que.o. sentido.do. ser. e,.em.particular,.de.ser.algum.no.mundo,.no..fixo,.mas.histrico,.uma.vez. que. no. depende. de. sujeitos. plenamente. autnomos.. Denomino.angeltica.a.concepo.fenomenolgica.de.ser.humano.como.mensageiro.ou,.retomando.o.termo.passagem,.como.passageiro.da.mensagem.de.um.mundo. compartilhado. (CAPURRO;. HOLGATE,. 2011).. O. ser. no. ,.ento,. o. ser. da. metafsica,. uma. espcie. de. substituto. neutro. de. Deus,.mas.o.horizonte.de.possibilidade.de.agir.a.que.esto.expostos.aqueles.que.compartilham.o.mundo.com.outros..Nosso.ser-no-mundo..um.estar-no-mundo3,.isto.,.um.ser.provisrio.em.um.jogo.de.mtuo.reconhecimento.sem.fundamento.que.experimentamos.como.jogo.quando.nos.arriscamos.no..luta,.mas.ao.salto.(Satz)4.que.abre.nossas.identidades..diferena.que.marca.nosso.estar.e.nos.rene.em.torno.a.normas.e.valores.aceitos.e.compartilhados..A.compreenso.do.ser.que.nos.chama.a.pensar,.retomando.o.ttulo.das.aulas.de.Heidegger.(1971),.na.poca.atual,..a.digitabilidade5..Compreendemos.hoje.o.ser.dos.entes,.incluindo.nosso.prprio.ser,.quando.o.interpretamos.no.horizonte.da.digitabilidade.

3.Sobre.a.traduo.de.Sein.(ser).como.estar,.ver.meu.ensaio.(CAPURRO,.2011).4.Refiro-me.aqui.ao.duplo.sentido.da.palavra.Satz,.como.proposio.ou.princpio.e.como.salto,.com.o.qual.brinca.Heidegger.(1976).5.Ver.meus.textos.e.tradues.En.torno.a.Heidegger.(CAPURRO,.2011).

Gonzalez,.M..E..q.;.Broens,.M..C.;.Martins,.C..Ap.(Org.)

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Denomino.ontologia digital.a.referida.compreenso.do.ser,.o.que.no.significa.nem.que.os.entes.sejam.digitais,.isto.,.que.os.tomos.sejam.bits,.nem.que.o.horizonte.da.digitabilidade.seja.o.nico.verdadeiro.e.definitivo.e,.ainda.menos,.que.nosso.ser.algum.se.esgote.em.suas.expresses.digitais..O.primeiro.caso.se.trata.de.uma.metafsica.ou.de.um.pitagorismo.digital,.no.segundo.e.no.terceiro.casos,.trata-se.de.uma.ideologia.muito.difundida.atualmente.(CAPURRO,.2011a)..O.salto.desde.a.metafsica.ou.a.ideologia..ontologia..um.salto.tico..A.pergunta.quem.somos?.nos.marca.como.passageiros.ou.mensageiros.para.quem.o.chamado.ontolgico..originalmente.um.chamado.tico.(CAPURRO;.HOLGATE,.2011)..Nele.esto.em.jogo.as.possibilidades.de.vida.com.os.outros.em.um.mundo.compartilhado.no.horizonte.das.tecnologias.digitais.de.comunicao.

quem.somos.ns?.Esta.pergunta. faz.parte.de.um.sem.nmero.de.aes.e.opes.que.marcam.a.vida. individual.e. social.assim.como.as.instituies,.leis.e.formas.de.interao.com.elas.e.a.partir.delas...isto.que.permite.que.sejamos.simultaneamente,.tanto.individual.como.socialmente,.e.globalmente.cada.vez.mais,.um.quem.nico.e.especfico,.mas.de.modo.algum.fixo.ou.absoluto.

Tampouco.a.liberdade.individual..algo.dissociado.da.liberdade.social,.mas.a.liberdade.individual,.como.conjunto.de.opes,.sempre.se.d. em. relao. a. outros. seres. em. um. mundo. comum.. Somente. assim. .possvel. conceber. leis,. normas. e. valores. comuns,. afirmando. ao. mesmo.tempo.opes.singulares.em.situaes.histricas.determinadas.que.marcam.nossas.identidades.e.enriquecem.a.variedade.humana.

A. formao. de. ide