gibran khalil gibran temporais

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  • GIBRAN KHALIL GIBRANGIBRAN KHALIL GIBRANGIBRAN KHALIL GIBRAN

    TEMPORAISTEMPORAISTEMPORAISTraduo e Apresentao de MANSOUR CHALLITA

    Associao Cultural Internacional Gibran

    Apresentao, por Mansour Challita ixSatansO Conhecimento de Si MesmoA EscravidoVeneno no MelOs Dentes Cariados Noite!A Presena InvisvelBulos As-SolbanOs GigantesAs NaesA TempestadeA Fada FeiticeiraEntre a Noite e a Aurora Filhos da Minha MeA Violeta AmbiciosaO Coveiro

  • Meus Parentes MorreramAnestsicos e EscalpelosNs e VsJesus CrucificadoO Poeta de BaalbeckAtrs do VuO PoetaEstrume PrateadoAntes do SuicdioPalavras e PalavreadoresNas Trevas da NoiteFilhos de Deuses e Netos de Macacos Porta do TemploO Rei EncarceradoUma Viso

    APRESENTAOAPRESENTAOAPRESENTAOMANSOUR CHALLITAMANSOUR CHALLITAMANSOUR CHALLITA

    AS TEMPESTADES DE GIBRANAS TEMPESTADES DE GIBRANAS TEMPESTADES DE GIBRAN

    Na dedicatria pela qual oferecia a Mary Haskell seu livroUma Lgrima e Um Sorriso, chamava Gibran aquele livro "oprimeiro sopro da tempestade da minha vida."Era, de fato, o primeiro livro, pela data, de Gibran. Era, aomesmo tempo, o primeiro sopro da tempestade de Gibran,isto , de uma srie de escritos revolucionrios com os quaisGibran esperava destruir tradies e instituies que julgava

  • superadas, derrotar a opresso dos mais fortes, denunciar avilania e a estupidez, desmantelar o trono dos gananciosos,humilhar o clero que prega o que no pratica e, sobretodos esses escombros, edificar uma nova concepo, umnovo estilo de vida.Aps esse primeiro livro, vieram outros (Asas Partidas, AsNinfas do Vale, As Almas Rebeldes), todos inspirados pelamesma ira sagrada.Temporais, que apresentamos hoje ao leitor brasileiro, oltimo sopro dessa tempestade.Aps Temporais, Gibran o revolucionrio transformar-se-em Gibran o filsofo, o sbio, mais preocupado com a almahumana do que com as instituies sociais, convencido de queos piores inimigos do homem esto dentro dele e no foradele, e que a compreenso e a compaixo so melhoresinstrumentos de reforma e de progresso do que a condenaoe a destruio.Viro ento os livros de mais ampla viso e mais profundaternura como O Profeta, Jesus, O Filho do Homem, Areia eEspuma e outros.Uma tempestade perde geralmente do seu mpeto na medidaem que se desenvolve. A tempestade de Gibran no fez senoaumentar em violncia do incio ao fim. Seu ltimo sopro,este livro, o mais violento de todos., tambm, literariamente falando, o mais imponente.Como a maioria dos livros de Gibran, Temporais compostode textos diversos, escritos em diferentes datas e ocasies:prelees, histrias, parbolas, meditaes, que foram,

  • primeiro, publicados em revistas e jornais e, depois, reunidosem volume.Os inimigos que Gibran combate neste livro so os inimigosque combateu em todos os seus livros anteriores.Os amigos que ele defende so os mesmos que antes defendeu.As idias que ele prega ou denuncia so tambm as mesmas.Mas o tom adquiriu um extremismo e uma virulncia queultrapassam tudo o que Gibran havia j expresso. E Gibran osabe e orgulha-se disto: "Sou extremista, diz ele no captuloAnestsicos e Escalpelos, porque quem moderado naproclamao da verdade proclama somente a metade daverdade e deixa a outra metade velada pelo medo do que omundo dir."Quais so os inimigos que Gibran ataca com tamanho vigor?Em primeiro lugar, seus inimigos tradicionais, visveis einvisveis: o casamento, as leis, o clero, os ricos. Em OCoveiro, escreve: "O homem que vive com sua mulher e seusfilhos vive numa negra infelicidade, mas camufia-a compintura branca." Em Satans, procura destruir pelo escrniomais impiedoso a prpria base da vida sacerdotal. Em EstrumePrateado, joga o descrdito sobre os ricos, insinuando quetoda riqueza tem alguma origem vergonhosa.Mas Gibran estendeu mais ainda o crculo de suasimprecaes. Para ele, todos os orientais so perversos: "Quemcritica minhas atitudes, que me indique, entre os orientais,um s juiz justo, um s legislador ntegro, um s chefereligioso fiel aos seus prprios ensinamentos, um s maridoque olha para sua mulher como olha para si mesmo."

  • A clera de Gibran o leva mais longe ainda. Seu menosprezoabrange a Humanidade toda. Em O Coveiro, aconselha aoshomens casarem-se com as filhas das fadas, que no podemser nem vistas nem tocadas, pois assim a Humanidade deixarde reproduzir-se a si mesma e "desaparecero pouco a poucoas criaturinhas que se agitam com a tempestade e no andamcom ela." Para ele, a nica profisso benfica a de coveiro,na medida em que "livra os vivos dos cadveres que seamontoam em volta de suas moradas e tribunais e templos."No captulo Filhos de Deuses e Netos de Macacos, ele e algunsseres indeterminados so os filhos dos deuses, enquanto quetodos os demais so netos de macacos, a quem Gibran sedirige assim: "Andastes um s passo para a frente desde quesastes das fendas da terra?... H 70.000 anos, passei por vs.Estveis agitando-vos como vermes nas fendas das grutas. Eh sete minutos, olhei atravs do vidro da minha janela, e vosvi andando nas ruas sujas, os grilhes da escravido apertandovossos ps, e as asas da morte batendo acima de vossascabeas."No captulo O Rei Encarcerado, faz uma descrio burlescados homens, todos os homens, preferindo-lhes os animais dafloresta: "Olha, rei poderoso, para os que circundam agorateu crcere... Contempla os que se assemelham aos coelhospela sua fragilidade, ou s raposas pela sua duplicidade, ou sserpentes pela sua hipocrisia; mas nenhum deles possui amansido do coelho ou a inteligncia da raposa ou a sabedoriada serpente."Olha: este nojento como o porco, mas sua carne no secome; e aquele spero como o crocodilo, mas de nada serve

  • sua pele; e esse estpido como o burro, mas anda sobre doisps. E aquele outro azarento como o corvo, mas vende seupio nos templos; e aquela vaidosa como o pavo, mas suasplumas so postias."E onde esto os amigos de Gibran? Seu nmero e suaimportncia diminuram muito. Os pobres so menosenaltecidos e menos amados que anteriormente. Pois napobreza, Gibran passa a ver uma manifestao depusilanimidade e de covardia mais do que de desprendimentoe bondade. Ele que escreveu em Marta, de Ben: " melhorser a flor pisada do que o p que pisa a flor" diz agora:"Amava-vos, filhos da minha me. Mas meu amor meprejudicava e no vos beneficiava. Agora, detesto-vos..."Tinha pena de vossa fraqueza, filhos de minha me. Mas apiedade s serve para aumentar o nmero dos fracos e dosindolentes, e no beneficia a vida em nada. Hoje, quando vejovossa fraqueza, minha alma treme de desgosto e se retrai dedesdm."Chorava por vossa humildade e esmagamento, e minhaslgrimas corriam claras como o cristal. Mas no lavaramvossas chagas. Hoje, rio-me de vossas dores."Que aconteceu, que mudou assim a alma de Gibran? Afirmaseu bigrafo Mikhail Naaime que, na poca de Temporais,Gibran acabava de descobrir Nietzsche e seu culto do super-homem, e ficou impressionado e conquistado. E adotou asatitudes de Nietzsche sem perceber que se opunhamfrontalmente sua prpria ndole e s virtudes evanglicastantas vezes pregadas nos seus primeiros livros.

  • Acrescenta Naaime que o manto de Nietzsche se revelouinadequado para Gibran, que no tardou em rejeit-lo. Narealidade, o paroxismo revolucionrio manifesto emTemporais foi seu prprio antdoto e provocou em Gibranuma reao que o transformaria. Aps Temporais, surgir umnovo Gibran, o homem maior que estava nele, revelando suaverdade em O Profeta e em tantos outros livros do maistocante afeto humano.Resta acrescentar que, apesar de seus excessos doutrinrios,Temporais a obra-prima dos livros rabes de Gibran. (Apartir desse livro, Gibran escrever exclusivamente emingls.) O estilo, as imagens, as parbolas ultrapassam s vezesos do prprio Nietzsche. A histria da violeta que queria serrosa, a evocao de Jesus Crucificado numa Sexta-Feira Santa,ou a presena invisvel de Jesus num dia de Pscoa ou apoderosa sombra do Coveiro, ocupam em qualquerimaginao um lugar definitivo.Longe esto os dias do estilo romntico e algo choroso deUma Lgrima e um Sorriso. Aqui, a frase feita de nervos emsculos, embora tenha guardado toda a melodia e toda abeleza escultural caractersticas do estilo oriental.Temporais digno de seu nome. Se derruba por acaso algunsdeuses, derruba tantos falsos dolos, tantas estpidasquimeras, que sua leitura nos estimula e nos engrandece comoum tnico de gigantes.

  • TemporaisTemporaisTemporais

    SATANSSATANSSATANS

    O Padre Simo era conhecedor profundo dos assuntosespirituais e teolgicos, versado nos segredos do pecado veniale mortal e nos mistrios do Inferno, Purgatrio e Paraso.Percorria as aldeias do Lbano do Norte, pregando penitnciaaos fiis, curando suas almas do mal e prevenindo-os contra asarmadilhas do demnio, a quem padre Simo combatia dia enoite sem desanimar e sem descansar.Os camponeses veneravam padre Simo e gostavam decomprar suas prelees e preces com prata e ouro, edisputavam o privilgio de presente-lo com o melhor de suascolheitas.Certa tarde de outono, padre Simo caminhava por um lugarisolado em direo a uma aldeia perdida entre aqueles montese vales, quando ouviu gemidos dolorosos vindos da beira daestrada. Olhou e viu um homem desnudo, estendido sobre opedregulho; o sangue jorrava-lhe de feridas profundas nacabea e no peito, e ele implorava socorro: "Salva-me! Ajuda-me! Tem pena de mim! Estou morrendo."O padre parou, perplexo, considerou o homem e concluiu:"Deve ser algum salteador, que atacou um viajante e foirepelido. Est agonizando. Se expirar em minhas mos,responsabilizar-me-o pela sua morte."

  • E reiniciou sua marcha. Mas o moribundo deteve-o de novo:"No me abandones, no me abandones. Tu me conheces e eute conheo. Vou morrer se no me socorreres."O padre empalideceu, e pensou: "Deve ser um dos loucos quevagueiam por estas campinas. O aspecto dos seus ferimentosme arrepia. Em que posso ajud-lo? O mdico das almas nocura os corpos."E andou mais alguns passos. Mas o ferido lanou um